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domingo, 23 de outubro de 2016

VIRADA IDEOLÓGICA ONDE, CARA PÁLIDA?

http://anovademocracia.com.br/170/03.jpg
Alguns analistas de meia tigela, daqueles que só veem as coisas e os acontecimentos pela aparência, chegaram a afirmar que a substituição de Dilma Rousseff por Michel Temer tratava-se de uma grande virada ideológica.
QUE IDEOLOGIA É ESSA?
Afirmação dessa natureza só poderia vir de alguém que esteve ausente do planeta nos últimos 13 anos e meio. Alguém que não viu Luiz Inácio assinar a “carta aos brasileiros”; que não viu o gerenciamento petista dar prosseguimento ao de Cardoso na condução da política de subjugação nacional; que não viu a dívida pública saltar de cerca de 600 bilhões de reais para mais de três trilhões de reais; que não viu a promessa de reforma agrária ser substituída pelos acordos com o agronegócio; que não viu a desindustrialização e a primarização da produção nacional; que não viu a educação superior ser entregue a grupos privados, inclusive, internacionais; que não viu a cooptação das centrais sindicais com sua corporativização para possibilitar a perda de direitos trabalhistas e previdenciários dos trabalhadores; que não viu a armadilha consumista do crédito fácil para favorecer a indústria automobilística e da linha branca, transnacionais, em detrimento das reais necessidades do povo; que não viu as empreiteiras serem favorecidas com megaprojetos de interesse de mineradoras, principalmente, em prejuízo de populações indígenas, camponesas e quilombolas; etc...
O PRISMA DA LUTA DE CLASSES
Desde quando a sociedade dividiu-se em classes antagônicas que o posicionamento ideológico dos indivíduos e dos partidos correspondem aos interesses de um ou de outro lado das classes em luta.
Sendo a característica principal do Estado o uso da força para submeter as classes dominadas, o que dizer do discurso de Dilma inaugurando uma “Unidade de Polícia Pacificadora” (UPP) no Rio de Janeiro, ocasião em que ela disse estar encantada com as UPPs, dizendo que as implantaria em todo o país? E mais, o que dizer do envio da “Força Nacional de Segurança” para reprimir e matar os indígenas em luta e os camponeses, como ocorreu no gerenciamento da petista Ana Júlia Carepa no Pará, entre 2007 e 2011.
O prisma da luta de classes, objetivamente, é o definidor da posição ideológica de indivíduos e partidos. Assim, não precisa ser “cientista político” (talvez melhor não sê-lo) para examinar os procedimentos relacionados acima e concluir que os dois lados dessa pugna jogam água no moinho do latifúndio, da grande burguesia e do imperialismo. Estão, pois, em total consonância com a ideologia burguesa.
Diz o dito popular que ninguém pode servir a dois senhores. Supondo, como querem os analistas de meia pataca, que tenha havido uma virada ideológica: como justificar a presença de Henrique Meirelles, agente do FMI, presente em dois mandatos de Lula e agora estando como “superministro” de Michel Temer?
Em se tratando dos interesses fundamentais do povo e da Nação brasileiros, que diferença pode ser apontada diante da comparação do gerenciamento de turno petista com os demais que o antecederam e, também, deste seu temeroso sucessor? Nenhuma diferença, pois, os fundamentos do apodrecido sistema político brasileiro estão dados pelo seu caráter semifeudal e semicolonial. Condição que o PT e seus congêneres oportunistas eleitoreiros aceitam e reproduzem. Condição que não pode ser quebrada pelo oportunismo, porque para fazê-lo pressupõe uma revolução a qual eles renegam por desfraldarem a bandeira da burguesia, com seus mitos de “democracia como valor universal” e “Estado democrático de direito”.
MATRIZ IDEOLÓGICA
A natureza do Estado de uma sociedade define sua matriz ideológica, pois, estando sob o domínio de determinadas classes, a sua ideologia reflete a ideologia das classes que o dominam. Assim, na medida em que durante os últimos 13 anos e meio o “Partido dos Trabalhadores” prestou inestimáveis serviços ao latifúndio, à grande burguesia e ao imperialismo, como poderia haver uma virada ideológica ou, como sugerem os petistas, um “golpe de Estado” se, sob o gerenciamento de turno de Temer, a natureza do Estado não sofreu e nem sofrerá qualquer mudança, como não sofreu quando Cardoso passou a faixa presidencial a Luiz Inácio?
A IDEOLOGIA BURGUESA DO PT
Sinceramente, fazendo uma análise concreta da situação concreta, como propunha Lenin, responda, caro leitor: tirante algumas propostas aprovadas em congressos “pra inglês ver”, as quais jamais foram postas em prática nos gerenciamentos petistas, o que teve, na prática petista, de ideologia proletária ou popular?
Ao usar e abusar de termos como “republicano”, “democrático e popular” etc., os oportunistas do PT, pecedobê e assemelhados, na verdade, encobrem sua ideologia burguesa com fraseologia oca.
REVOLUÇÃO DEMOCRÁTICA E NOVA DEMOCRACIA
A ideologia proletária, ao contrário da ideologia burguesa com seus mitos, é verdadeira por ser científica, e é científica por ser ancorada no materialismo histórico e dialético. Colocando a prática como critério da verdade, ela aponta para o fato de que só através da Revolução Democrática, Agrária e Anti-imperialista, a Nova Democracia, as nações oprimidas e exploradas pelo imperialismo, como o Brasil, poderão se libertar, completando a própria formação nacional, alcançando a soberania enquanto Nação e a verdadeira democracia. Seu programa propõe revolver os fundamentos da velha sociedade e do apodrecido Estado, liquidando os privilégios seculares das classes dominantes, alocando os recursos provenientes da produção nacional em favor do melhoramento geral e imediato da vida do povo massacrado na velha ordem semicolonial/semifeudal de exploração e opressão.
http://www.jornalorebate.com.br/opiniao/13265-virada-ideologica-onde-cara-palida

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Direita e Esquerda no Brasil Contemporâneo

Esquerda-x-Direita
Escrito por Ivan Fernandes
Diz-se que os partidos políticos brasileiros não têm ideologia, e que os conceitos de esquerda e direita representariam pouco no debate tradicional. Esse é mais um grande equívoco da crônica política atual. Os partidos políticos diferenciam-se em posições à direita ou à esquerda, a depender do eixo temático em questão.
Uma discussão bastante relevante no debate político do Brasil contemporâneo é a da ausência de ideologia entre os partidos políticos brasileiros.  O elemento fundamental desta polêmica centra-se na ideia de que os conceitos de esquerda e direita representariam pouco no debate tradicional.
Esse é mais um grande equívoco da crônica política atual. Este equívoco é em parte resultado do fato que o conceito de direita e esquerda se tornou muito mais complexo na contemporaneidade. Isto porque após o fracasso da alternativa comunista – socialista, representada pela China maoísta e, sobretudo, pela União Soviética, os partidos nas principais democracias contemporâneas passaram a disputar o debate político em outros termos.
Existem outras dimensões mais fundamentais que dividem o eleitorado e mesmo os partidos brasileiros além do debate capitalismo versus socialismo – e que são cruciais para o desenvolvimento político, econômico e social nacional, assim como pautam a articulação dos grupos de situação e oposição aos diferentes governos democráticos.
Foice
Capitalismo versus Socialismo
Ao longo do século XX, a grande divisão entre esquerda e direita referia-se à temática do capitalismo versus socialismo. Os partidos de esquerda seriam aqueles adeptos a reformas que reduzissem o papel da propriedade privada nas economias capitalistas, enquanto os partidos de direita seriam árduos defensores de soluções pró-capitalismo. Com a eclosão da Guerra Fria, a importância deste debate tanto nacional quanto internacionalmente foi fundamental. Inclusive em vários países do mundo aconteceram conflitos entre grupos que defendiam de maneira extrema um destes termos.
Mesmo no Brasil, entre outras coisas, o Golpe Militar de 1964 teve como uma de suas justificativas legitimadora a defesa da sociedade brasileira contra a ameaça comunista (por mais absurdo que seja hoje classificar líderes do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) como Leonel Brizola ou o próprio Jango Goulart como adeptos do comunismo soviético).
goulart
Mas e a direita e esquerda de hoje?
Enfim, e hoje? Quais são as principais dimensões que clivam o debate político no Brasil? Ainda existem partidos que defendem soluções anti-capitalistas? Qual a importância do debate socialismo versus capitalismo na sociedade brasileira?
 Capitalismo versus Socialismo no Brasil Contemporâneo
Hoje podemos dizer com certeza que o debate tradicional capitalismo versus socialismo foi vencido no Brasil pelos adeptos do capitalismo. Todos os grandes partidos brasileiros defendem a criação de políticas públicas dentro da matriz conceitual do capitalismo. Isto não quer dizer que não existam partidos e indivíduos adeptos do socialismo. Eles ainda estão por aí, mas possuem pouca expressividade eleitoral. O PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) é o maior representante deste tipo de Esquerda, enquanto todos os outros partidos relevantes – indo de PT, PSB, PMDB, PSDB até os DEMOCRATAS, são defensores do modelo capitalista e, dentro deste eixo ideológico, deveriam ser qualificados como de Direita.
Conservadorismo versus Progressismo
aborto1Outra clivagem muito mais importante no Brasil contemporâneo é a que divide o eleitorado e os partidos brasileiros entre Conservadores e Progressistas. Este debate é essencialmente sobre a agenda de valores. De um lado, a esquerda seria a defensora da ampliação da liberdade individual em temas caros ao debate público brasileiro – e bastante polêmicos – como a ampliação dos direitos LGBTs, a legalização e regulação do mercado de drogas ilícitas, a legalização do aborto e a defesa da não redução da maioridade penal.
Nesta seara, os conservadores se qualificariam como defensores dos valores tradicionais e da família brasileira, traduzindo essa visão em termos da não ampliação dos direitos LGBTs, da manutenção das proibições ao aborto e às drogas ilícitas e a introdução de uma agenda protetiva dos direitos da manifestação de grupos religiosos politicamente.
Dentro desta pauta conservadora, nos chama atenção a discussão sobre a aprovação do Estatuto da Família como união entre homem e mulher e da proibição da adoção de crianças por casais homoafetivos, a aprovação da “cristofobia” como crime hediondo e a não qualificação da homofobia como crime (uma vez que seria, na visão deste grupo, direito dos sacerdotes religiosos fazer proselitismo contra a homossexualidade) e, por fim, o tema mais caro aos conservadores, a redução da maioridade penal.
Os partidos brasileiros posicionam-se de maneira complexa sobre o tema. Isto porque os dois principais partidos que organizam a competição política no Brasil – PSDB e PT – ainda que não advoguem claramente estes princípios estão em nítido diálogo com os grupos conservadores. Isto fica claro com o não avanço da agenda LGBT nos últimos 12 anos de governo do PT, por mais que muitos apoiadores tenham optado pela legenda devido a esta temática, e a não abertura de discussões sérias sobre o aborto e a legalização das drogas.
aborto nao
 O PSDB, por sua vez, também adota uma postura controversa. De um lado, uma de suas principais lideranças, o ex-presidente FHC, é o único expoente político relevante eleitoralmente que defende abertamente a legalização da maconha, enquanto, por outro lado, o partido adotou em sua agenda política nas eleições de 2014 a pauta da redução da maioridade penal.
Fora os dois principais partidos, mais uma vez podemos classificar o PSOL junto ao PV como os legítimos e mais verdadeiros representantes dos princípios progressistas na democracia brasileira, enquanto partidos como o PP, PSC e PRTB seriam os mais claros defensores de princípios conservadores. Por sua vez, os outros grandes partidos – PMDB, PSB e PDS, mantém uma atitude também dúbia sobre esta temática.
Mais Mercado versus Mais Estado: liberais contra desenvolvimentistas
Uma terceira clivagem com relevância no debate político brasileiro é a discussão sobre o papel do Estado como elemento indutor do crescimento econômico. Embora não exista uma diferenciação completa entre os partidos nessa temática, o PSDB tende a defender uma postura mais liberal na relação Estado e Economia, enquanto o PT é adepto de um maior intervencionismo estatal. Essa divisão não é completa, pois existem quadros dentro do PSDB que comungam com a visão intervencionista. Entre eles, poderíamos levantar os nomes do senador José Serra ou mesmo do ex-ministro Bresser Pereira. E dentro do PT, igualmente, existem (em número menor) quadros com uma visão mais liberal da economia. Dentre eles, a figura de maior destaque é sem dúvida Antônio Palocci.
A visão de esquerda poderia ser classificada como aquela que entende que o livre funcionamento de mercado não permitirá que o Brasil acelere seu percurso rumo ao desenvolvimento. Esse grupo político defende, dentre outras posições, que a indústria brasileira seja protegida das ameaças do mercado internacional enquanto o governo deve ser o principal financiador dos investimentos econômicos, seja em infra-estrutura ou tecnologia. Um papel primordial deve ser desempenhado pelas estatais e pelos grandes bancos nacionais: o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e, sobretudo, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
bndes
Nesta dimensão, a visão de direita, por sua vez, seria pautada por uma redução do tamanho do Estado e um menor intervencionismo na política econômica. Entre outros temas, esse grupo tende a defender com maior ênfase a privatização das grandes empresas estatais, uma redução dos tributos e do gasto do governo, a adoção de políticas industriais horizontais (isto é, benefícios e subsídios que atendam a todos os setores, não elegendo alguns grupos específicos para receber os benefícios econômicos), uma postura fiscal mais contida e, finalmente, a independência do Banco Central.
Nas eleições de 2014, esta foi a dimensão no qual as diferenças entre as candidaturas governista e de oposição (tanto de Aécio Neves quanto de Marina Silva) foram mais evidentes. A discussão sobre o papel do Banco Central, cuja independência foi apoiada por Marina, e do BNDES, cuja relevância foi defendida por Dilma, deixaram claro a importância da temática.
Por outro lado, embora o desenvolvimentismo seja hoje considerado como uma postura de esquerda na gestão da política econômica, esta era a mesma visão sobre o mundo econômico adotada pelo regime militar, sobretudo durante a gestão do General Ernesto Geisel. O plano econômico de Geisel, fortemente intervencionista e denominado como II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento) tem a mesma base filosófica que justifica os Planos de Aceleração do Crescimento (PAC). A saber, o impulso à indústria nacional a partir de um sistema de benefícios e subsídios econômicos setoriais, com aumento da intervenção econômica do estado na economia a partir da atuação dos bancos estatais (principalmente o BNDES) e das principais empresas estatais, o aumento da proteção à indústria doméstica e um aumento nos investimentos em infra-estrutura por parte do governo federal.
 A agenda redistributiva: empregar versus redistribuir
 Finalmente, a quarta e última dimensão do debate político contemporâneo é a respeito da necessidade e justiça na criação de políticas de transferência de renda condicionada, tais como o Programa Bolsa Família (PBF). Dentro desta temática, os defensores dos programas de transferência de renda seriam qualificados como de esquerda e os opositores de direita.
A defesa enfática destes programas e de sua ampliação é feita por boa parte das lideranças políticas brasileiras. Nas últimas eleições, tanto a situação como as forças oposicionistas defenderam a manutenção deste programa social. Desde Marina Silva, passando por Aécio Neves, Eduardo Jorge e Luciana Genro, todos defenderam a necessidade de manutenção deste programa face a enorme desigualdade social e econômica do Brasil.
Especificamente, o único partido que de fato se mostrou contrário à expansão desta política foi os DEMOCRATAS, que, nos primeiros anos do programa, entrou com processos na Justiça contra a manutenção das medidas de transferência de renda. Contudo, após o sucesso eleitoral e social deste programa, poucas lideranças politicamente importantes se atrevem a pautar um debate contrário a esta política social.
Deste modo, classificaríamos o partido dos DEMOCRATAS como de direita e todos os outros partidos que defendem a manutenção deste programa como de esquerda. Uma esquerda redistributiva que abrangeria desde os partidos socialistas como o PSOL a partidos mais liberais como o PSDB e o PSD.
O debate é confuso, mas não caótico
 Finalmente, podemos concluir que os conceitos de DIREITA e ESQUERDA no Brasil não são tão vazios de conteúdo como o imaginado na crônica política. A questão primordial é que a temática é na atualidade muito mais complexa do que a 30 anos atrás. A derrota do projeto soviético correu a importância da temática anti-capitalista no debate político contemporâneo. Por conseguinte, os partidos tendem a se posicionarem em outros debates para organizar a mobilização eleitoral da cidadania.
Na atual conjuntura política brasileira, os principais temas que dividem a opinião pública nacional referem-se a três discussões distintas: à defesa dos valores liberais ou tradicionais, a atuação do Estado como agente indutor ou apenas regulador das atividades econômicas; e, por fim, a importância/justiça das políticas redistributivas.
Fica claro, portanto, que existe uma forte dimensão ideológica organizando os partidos políticos brasileiros, mas esta dimensão é muito mais complexa que uma simples divisão em partidos de Esquerda e Direita.
Talvez seja melhor a adoção de outros constructos para definir o posicionamento partidário: progressistas versus conservadores na agenda de valores; intervencionistas versus liberais na agenda econômica; e redistributivistas versus não redistributivistas na agenda dos programas sociais.
vi no : http://novarepublica.org/2015/08/11/direita-e-esquerda-no-brasil-contemporaneo/

quarta-feira, 29 de abril de 2015

E o sistema a todos observa impassível

A ideologia deve servir ao homem ou o homem à ideologia?

Antes de responder não se esqueça que a  árvore apodrece pela raiz.

Entenda  que vivemos sob o tacão do Império terrorista.

Seu poder é absoluto.

Produz Estados sátrapas e conduz a humanidade neste maravilhoso planeta no qual continuamos aprisionados.

Cativo do Sistema, o sátrapa-mor vive sob o signo da brutalidade.

As mentiras, distorções e as hostilidades são a abrangência de sua mediocridade.

Sempre com o apoio da mídia obscurantista que se multiplica como carrapato sobre animal indefeso.

É histórico: todo governo é produto de sua população.

 E o sistema a todos observa impassível. 

do: http://blogdobourdoukan.blogspot.com.br/2015/04/e-o-sistema-todos-observa-impassivel.html

quinta-feira, 31 de julho de 2014

POR QUE SER DE ''ESQUERDA''?

É COMUM OUVIRMOS CRÍTICAS ACERCA DA IDEOLOGIA QUE ESCOLHEMOS, QUANDO NÃO SÃO CRÍTICAS ACOMPANHADAS COM XINGAMENTOS E PRE-CONCEITOS PROPAGADOS PELAS A MÍDIA, PELA DIREITA FASCISTA E ATÉ PESSOAS ALIENADAS, QUE REPETEM AQUILO QUE ESCUTAM E NÃO POSSUEM O MÍNIMO DE SENSO CRÍTICO PARA REFLETIR SOBRE A REALIDADE.



Ser de esquerda é, desde que essa classificação surgiu na Revolução Francesa, optar pelos pobres, indignar-se frente à exclusão social, inconformar-se com toda forma de injustiça ou, como dizia Bobbio, considerar aberração a desigualdade social.
Ser de direita é tolerar injustiças, considerar os imperativos do mercado acima dos direitos humanos, encarar a pobreza como nódoa incurável, julgar que existem pessoas e povos intrinsecamente superiores a outros.
Ser de esquerda, hoje, é defender os direitos dos mais pobres, condenar a prevalência do capital sobre os direitos humanos, advogar uma sociedade onde haja, estruturalmente, partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.
O fato de alguém se dizer marxista não faz dele uma pessoa de esquerda, assim como o fato de ter fé e frequentar a igreja não faz de nenhum fiel um discípulo de Jesus. A teoria se conhece pela práxis, diz o marxismo. A árvore, pelos frutos, diz o Evangelho. 
Se a prática é o critério da verdade, é muito fácil não confundir um militante de esquerda com um oportunista demagogo: basta conferir como se dá a relação dele com os movimentos populares, o apoio ao MST, a solidariedade à Revolução Cubana e à Revolução Bolivariana, a defesa de bandeiras progressistas, como a preservação ambiental, a união civil de homossexuais, o combate ao sionismo e a toda forma de discriminação.




_________
Texto referência: Frei Betto- Site Brasil de Fato.

Sugado do blog: Um que de Marx: 
http://www.umquedemarx.com.br/2014/05/por-que-ser-de-esquerda.html

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O traficante, o populista e o repressor!



O documentário Dançando com o Diabo mostra a complexidade das favelas cariocas na visão de três personagens ligados diretamente ao tráfico de drogas: um pastor, um policial e um traficante.

Produção estrangeira de 2008 acompanha o cotidiano de Aranha - chefe do tráfico da Coréia/RJ, delegado Leonardo Torres - policial marombado da Delegacia de Repressão aos Narcóticos - e Pastor Dione – Assembleia de Deus.

Aqui, nesse texto, não pretendo fazer uma reflexão sobre o documentário em si e muito de menos analisar como a realidade é tratada nesse documento audiovisual, mais sim usar os depoimentos e as histórias do filme para constatar fatos e reforçar alguns argumentos.

Os traficantes de uma forma geral, apesar de praticar atos covardes - e não poderia ser diferente, veja o nível cultural e de conhecimento que eles apresentam em suas falas - e de ter uma consciência de resistência adquirida num meio caótico e selvagem, logo não é o meio e muito de menos a resistência ideal da classe trabalhadora, conseguem ter uma consciência de classe oprimida em processo de resistência ao sistema, embora torta e confusa, muito mais progressista do que os policiais, os ditos trabalhadores oprimidos que estão a serviço da sociedade de bem e que são tratados como heróis pelo senso comum de classe média de nosso país.

Em nenhuma hora há críticas ou um processo de autocrítica por parte dos policiais em relação à repressão policial nas comunidades e muito de menos em relação ao papel da polícia num sistema de opressão e da luta de classes que temos na atualidade.

No entanto isso aparece quando a voz é dada aos traficantes. Além disso, os traficantes não costumam dividir a sociedade entre “bons” e “ruins”, vê o processo como natural em termos de resistência e opressão.
Se os policiais são oprimidos e vítimas da violência como se dizem por que não tem uma consciência de resistência como tem os traficantes? E se compararmos com os traficantes estes tem meios e instrumentos para conseguir enxergar além da "linha de tiros" (melhores escolas, acesso a lugares e diversas culturas. Enfim tem mais conhecimento de forma geral) que os segundos não têm. O traficante passa a maior parte preso em uma favela, circulando por alguns KM².

As justificativas dos traficantes para estar no crime e praticar atos de resistência são por necessidade, sobrevivência e por vai. Mais repare bem: as necessidades sempre estão relacionadas com a família e com a comunidade. Essas são as mesmas necessidades, ou parecidas, que levaram a classe trabalhadora a derrubar regimes e fazer revoluções. Como exemplo cito a Revolução Francesa e Revolução Russa quanto à temática luta por pão e luta contra a fome.

O pastor, talvez, seja entre os três personagens com segundas intenções. A Igreja faz um trabalho de assistência social sim, mais o objetivo não é humanitário. O economicismo está na consciência de resistência do traficante, não aparece quando personagem é o policial. E, embora camuflado, pode se encontrar muito bem na figura do pastor.

Parece que para o investigador a questão é ideológica, ou seja, uma causa sentimental em favor de uma sociedade pacificada de forma geral. Os depoimentos reforçam falta de conteúdo crítico dos policiais em suas incursões nas favelas. Em outras palavras: reforça elementos presente em movimentos fascistas que a polícia é acusada de ter como princípio. Mais essa ideologia dos “homens da lei”, ou seja: combater o mal em nome do bem é elemento principal para manter o sistema de opressão, repressão e exploração em funcionamento quanto se trata de comunidade sem cidadania, tráfico de drogas e ordem social de uma sociedade de classes.

Mais é no pastor que o objetivo, travestido de causa humanitária, é mais economicista. E o cara que é apresentado como elemento imparcial, mais é na verdade um populista. Um cara que ganha, e muito, com a situação atual. Talvez, mais que o policial de elite, que ao contrário do pastor, não tem laços com comunidade.

Em resumo, o traficante vive, resiste e sobrevive. O policial é um elemento externo, que não tem quase nada a ver com a comunidade afetada, que age sem senso crítico e em nome de uma política sistemática recheada com uma cobertura ideológica das classes dominantes. O Pastor, embora pertencente à comunidade, é o cara que ganha – poder, influência e dinheiro. Não teria sucesso sem a situação caótica que se tem.

Documentário completo:


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Esquerda ou direita: qual o cerne ideológico da classe média?


operacao-militar-e-classe-media-_latuff
“A impaciência revolucionária é um fenômeno eminentemente pequeno burguês”
(frase atribuída a Mao Tsé Tung)
Por Raul Longo(*)
Evidente que a ideologia independe da classe social, mas os comportamentos identificam os de cada classe independentemente da ideologia à que se reivindicam.
Tive isso muito claro numa discussão sobre Luchino Visconti que, oriundo da nobreza, era comunista. Foi por volta do ano 2000 e o acesso à parafernália da informática e novos meios eletrônicos de difusão cultural, hoje entretenimento, ainda era restrito a uma minoria.
Em conversa paralela numa reunião de amigos, não dei atenção ao dono da casa que concentrava a conversa com os demais acusando algo de ser uma merda. Alguém ao lado me cochichou indignação por ele estar ser se referindo a um clássico da cinematografia universal: “Morte em Veneza”.
Indignei-me também e lembrando não gostar da linguagem literária dos filmes de Godard ou Bergman, afirmei que nem assim classificaria de “merda” a obra desses mestres. Expliquei quem foi e qual o significado de Visconti para a 7ª arte. Também contei sobre o escritor Thomas Mann e o cinema expressionista alemão reportado no “Morte em Veneza”.
Foi meu erro. Apesar de identificados como esquerdas e militantes lulistas, tomaram como ofensa o fato de alguém que não tinha sequer um aparelho de TV deter informações que não eles não possuíam. Acusaram-me de prepotente e não quiseram mais saber de amizade.
A informática popularizou-se tanto que certamente já não se sentem mais ameaçados quando alguém expõe alguma informação que desconheçam, pois recentemente encontrei a esposa do casal que me cumprimentou muito reconciliadora. Tudo é bastante compreensível considerando que em centros pequenos raramente se depara com alguém que exceda a um nível médio de informações, como é ocorrência comum nas cidades maiores onde normalmente não se sente obrigação de saber mais do que a maioria.
Talvez ainda por essa falta de circulação de informações, pontos de vista, percepções e opiniões divergentes é que há pouco provoquei outra discussão com amigos comentando as manifestações de junho como resultado da sistemática e permanente campanha da mídia contra o governo. Apesar de candidatos pelo PT, coesa e peremptoriamente esses amigos não admitiram nenhuma possibilidade de interferência midiática, convictos de que as manifestações foram espontâneas e provenientes do que consideram falho no governo.
Tentei argumentar concordando com a falta de reações do governo Dilma em alguns aspectos, mas não haver outra justificativa para uma mobilização que não se verificou nem mesmo em momentos de incomparáveis maiores dificuldades à população. Não aceitaram e garantiram que desde o início a mídia se posicionou contra as manifestações.
Como não deixaram expor o que percebia, desisti de tentar e depois usei o correio da internet para enviar imagens e textos da mídia enaltecendo o movimento, e considerações de observadores nacionais e internacionais com a mesma conclusão comum à grande maioria dos que buscaram analisar os motivos daquelas manifestações. E, claro, ironizei desculpando-me por concordar com aquelas opiniões contrárias às de suas certezas.
Dias depois, tentando retomar a mesma discussão, um deles demonstrou-se ofendido com minhas brincadeiras, mas pedi para não retornarmos a uma conversa inútil se impossível aceitar o que se comprovava pelo material que enviei.
Tentei entender porque tamanha dificuldade em concordar com a percepção de tantos analistas e acabei concluindo que se deva ao fato de aqui – como deve ocorrer em outras partes e com todos os partidos – no diretório do Partido dos Trabalhadores haver muitos envolvidos em projetos pessoais que, por maior esforço ou oportunidade, estreitaram relações com o governo federal. Imaginei provável que os amigos se sintam preteridos, transferindo suas mágoas às lideranças nacionais, inclusive Dilma e Lula a quem, na oportunidade seguinte, um deles conferiu todos os adjetivos empregados pela direita. Só faltou o “apedeuta”, porque de resto entrou até o “mau pai” do Collor de Melo!
Dizer o quê? Nada!… Até porque isso da classe média, de direita ou esquerda, adotar os preconceitos da elite, é típico. Mas cometi a bobagem de tentar alguma ponderação sugerindo sempre haver os que cometem erros e deslizes, numa rápida lembrança ao caso dos “Aloprados”. Imediatamente afirmou que ali é que Lula prejudicou Gushiken.
Espantado, lembrei que Gushiken não teve nada a ver com o caso dos “Aloprados”. Insistiu: “- Claro que sim.” Imaginei ter se confundido e lembrei se tratar do caso em que se envolveu o churrasqueiro, natural daqui de Florianópolis; mas então se uniram e pela experiência anterior senti que tentariam me convencer do que sabia não ser verdade. Também indisposto com o mórbido oportunismo, considerei melhor deixar a conversa. Afinal, como candidatos devem ter lá suas razões, mas não sou filiado a partido algum e embora acostumado às assimilações dos discursos da mídia, ainda me é impossível aceitar métodos de manipulação e falsificação de denúncias sem fundamentos. Mesmo quando empregados por quem se identifique como esquerda.
Aí também não tem nada a ver com classe social ou ideologia. Seja discutindo com rico, pobre ou remediado; comunista ou capitalista, a experiência indica que isso de domínio do fato só no STF e o melhor seria enviar o que encontrasse do histórico do que foi citado.
Insistiram para que ficasse, mas sorri me despedindo e prometendo enviar pela internet o que não me deixariam falar ali. No computador, em casa, foi só consultar por “Escândalo dos Aloprados” e copiar o trecho em que são relacionados os nomes dos envolvidos. Novamente fiz acompanhar os pedidos de desculpas por não haver qualquer indicação sobre Gushiken no verbete do Wikipédia.
Aí um escreveu suas dúvidas sobre minha amizade, já que me recusei a ouvir a relação de companheiros que acredita terem sido abandonados por Lula, inclusive Gushiken a quem a seu ver o ex Presidente teria abandonado. Como entre os citados se incluem alguns de meus correspondentes, respondi oferecendo transmitir-lhes suas impressões para conferir o que pensam e sentem a respeito. E copiei trechos de notícias sobre visitas de Lula à Gushiken no Hospital 9 de Julho e Sírio Libanês, onde faleceu após 12 anos de tratamento de câncer no estômago que provocou seu pedido de exoneração em 2006.
Pensei em explicar que não votei em Dilma ou Lula para serem companheiros de sindicalistas ou coo partidários, mas pelo povo brasileiro. Talvez pudesse também escrever que não votei esperando que em 10 anos mudassem os 500 da história da sociedade brasileira, como Fidel mudou a de Cuba, já que desde Salvador Allende não confio no voto como arma mais adequada para mudanças tão abruptas. Mas adiantaria tentar demonstrar que com o surgimento da máfia russa após o fim da União Soviética e tentando entender os motivos da China reassumir a economia capitalista, concluo as utopias como incompatíveis a imediatismos pretensamente revolucionários?
Dizem que Mao Tse Tung afirmava que a impaciência revolucionária é um fenômeno eminentemente pequeno burguês. Não sei se é verdadeira a autoria, mas a frase me faz mesmo lembrar a proverbial paciência chinesa de tão longa história.
Poderia ter escrito também que jamais votaria em qualquer candidato esperando que fizesse um governo perfeito, pois me parece impossível ou irreal um governo perfeito num sistema imperfeito. Mas será que adiantaria?
Depois encontrei também o outro amigo que igualmente demonstrou não ter mais motivos para continuar sendo meu amigo. É triste, mas o que fazer quando os ideais não correspondem aos fatos?
Como dizia Cazuza, sempre há quem precise de alguma ideologia pra viver.
*Raul Longo é jornalista, escritor e poeta. Mora em Florianópolis e é colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Pouso Longo”.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A ideologia brasileira da mesquinharia




O mesquinho acha-se moderno, pragmático, altivo, crítico, autônomo e visionário. Acredita que toda forma de proteção social, desde que não seja a empresas, é uma forma de populismo, de paternalismo e de assistencialismo.

A ideologia da mesquinharia usa sempre o mesmo argumento falacioso: não se deve dar o peixe, deve-se ensinar a pescar. Não se deve dar bolsa-família, deve-se dar empregos. Justamente os empregos que nunca foram dados pelos partidos que apoiam. E não foram dados por não existirem. E não existiram por incompetência na sua criação, por falta de um modelo adequado ou por impossibilidade conjuntural ou estrutural de serem gerados.

O mesquinho entende que, se os empregos não existem, os necessitados devem ralar-se. Que fiquem passando fome até que seja possível criá-los.

Nessa lógica, o mesquinho promete o futuro, não se lembra do passado e ignora o presente. Explora sofismas, meias verdades e mentiras inteiras como formas de justificar a sua indiferença pelo sofrimento dos outros. Espalha que o assistencialismo gera preguiça. Faz crer que a maioria das pessoas vai preferir viver com R$ 70 sem trabalhar a viver com R$ 700 trabalhando.

Essa é uma das asneiras mais difundidas por espíritos malignos, gente ruim, ideólogos da maldade, mas, principalmente, mentes toscas. Isso até pode acontecer de maneira marginal, mas jamais, estatisticamente falando, como tendência global. Viver bem, com trabalho, continua sendo mais interessante para a maioria do que viver mal sem trabalho. Salvo quando a alma do indivíduo alquebrado já está saturada e ninguém mais pode lhe incutir esperança, o que ocorre quando o sistema atrofia o gosto pela vida.

A ideologia da mesquinharia é dissimulada, ardilosa, cruel. Prefere gastar em repressão a investir em ajuda social. Todo adepto da ideologia da mesquinharia é um radical, um fundamentalista, um xiita, um extremista, um fanático da ordem dos cemitérios, da asfixia social, do parasitismo absoluto.

O mesquinho passa o dia repetindo chavões como se fossem pilares da modernidade. Acredita, como uma anta, que toda crítica aos excessos do capitalismo é uma defesa do comunismo.Vê em toda ressalva do modo de vida americano, marcado pelo consumismo, uma adesão ao estilo de vida cubano.

O mesquinho tem cérebro de ervilha. Mas não consegue enlatá-las para vender. Gasta o seu tempo no ódio aos demais. É pouco rentável.

As asneiras dos mesquinhos incluem: acreditar que Lula, de fato, se tornou milionário, ou bilionário, e que a revista Forbes publicou uma capa com ele como um dos homens mais ricos do mundo; crer que destacar os aspectos positivos das cotas, do bolsa-família, do ProUni e de outras políticas assistenciais dos governos do PT, é ser petista; difundir a ideia de que nunca houve tanta corrupção no Brasil, como se a corrupção atual, enorme e condenável, não fosse a mesma de antes; acreditar que a meritocracia realmente seleciona os melhores num sistema de desigualdade na competição e não que serve de mecanismo de reprodução dessa desigualdade.

Enfim, melhor não ser muito sofisticado na análise para não confundir as mentalidades mesquinhas mais lentas e pesadas.

Usina de ódio, de ressentimento e de rancor, o mesquinho odeia as ruas engarrafadas por causa do acesso dos pobres aos automóveis; odeia os aeroportos cheios por causa das viagens da classe C; odeia as universidades "rebaixadas" pela entrada dos que deveriam fazer cursos técnicos; odeia esses pobres que votam com o estômago; entende que só os ricos podem votar com os bolsos; vê como a modernidade a permanência dos pobres na pobreza, à espera dos empregos do futuro, e uma elite desfrutando da climatização. São os mesmos que se venderam aos Estados Unidos, em 1964, para evitar as reformas de base: reforma da educação, agrária, bancária, tributária, etc.

O Brasil corria um sério risco: poderia ficar melhor para a maioria.

A ideologia da mesquinharia deu o golpe para salvar-nos da melhoria.

Atrasou o país em mais de 20 anos.

Continua a cantar o refrão: o perigo comunista.

São fantasmas de opereta.

O comunismo acabou.

Falta construir um capitalismo muito melhor.

Uma verdadeira social-democracia.

Para isso, será preciso ensinar geografia aos mesquinhos.

Falar-lhe dos países escandinavos, etc.

O mesquinho adora Estado mínimo em economia e Estado máximo em moral. Gostar de meter-se na vida alheia para domesticá-la como seu moralismo.

Todo mesquinho é um moralista de ceroula.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Pensar em esquerda e direita ainda faz sentido?



Há muito vem sendo repetido que não há mais sentido em identificar diferenças substantivas entre a esquerda e a direita, já que as fronteiras entre os seus projetos e compreensão do mundo se diluíram.
Mesmo que as maneiras de verbalizar esse discurso mudem, a sua origem é sempre a mesma: a própria direita, que não cansa de repetir o seu mais tradicional discurso. 

A derrota do ideário neoliberal e a continuada crise nos Estados Unidos e Europa, fez ressurgir com força esse mantra conservador.
O pensamento da direita é necessariamente fragmentado e, portanto, não suporta uma análise mais profunda sobre as razões que impedem que, sob o capitalismo, as sociedades consigam superar as imensas desigualdades sociais e econômicas e mantenham milhões de pessoas na extrema pobreza. Além disso, submete toda a humanidade à incerteza quanto ao futuro, trazida pela crise ambiental, gerada pela rapinagem dos recursos naturais cujo objetivo é atender a ânsia de consumo produzida para sustentar e reproduzir o próprio sistema de mercado.
O objetivo desta construção discursiva, repetida de diversas maneiras, é o de justificar as diferentes formas de dominação que o exercício de poder econômico, político e cultural construíram ao longo de séculos e, assim, tentar evitar que sejam identificadas nas suas políticas a responsabilidade para as chocantes mazelas que são produzidas e reproduzidas em escala cada vez maior.
A mais recente demonstração disto são as respostas apresentadas pelos detentores do poder na Europa, que atacam duramente os direitos e conquistas dos trabalhadores, diminuindo o seu poder de compra e aumentando o desemprego, entre tantos outros castigos dirigidos aos setores mais vulneráveis.
Essa fúria contra os trabalhadores e setores populares, contrasta com os vultuosos recursos (bilhões de dólares) injetados para salvar os banqueiros, grandes industriais e financistas, mantendo seus interesses e fechando os olhos às inúmeras ilicitudes e manipulações de informações produzidas para esconder a real situação das empresas e da economia e, assim, aumentar ainda mais os seus lucros. Isso tudo está, mais uma vez, sendo feito à custa de imensos retrocessos no bem-estar da sociedade.
Mesmo que, em cada época, as formas de dominação ganhem diferentes contornos, significados e graus de legitimação, dado que sempre são condicionadas pela correlação de forças entre as classes, o “núcleo duro” da ideologia conservadora é preservado: justificar a dominação dos mais fortes e mais aptos. No linguajar ultraliberal, os termos “fortes” e “aptos” são usados para encobrir os verdadeiros sujeitos que os seus ideólogos têm em mente: os proprietários e os financistas.
A produção e expansão do domínio britânico, por exemplo, o império no qual “o sol nunca caía”, definiu em grande medida as formas dominantes de compreensão daquilo que era civilizado, correto e justo na sua época. As inúmeras formas de resistência sempre foram sufocadas, se preciso pela mais brutal repressão, até se deparar com a tenaz e persistente luta personificada pela figura de Ghandi. A partir daí, a até então “justa dominação imperial” foi perdendo legitimidade até não mais ter condição de se manter daquela forma, fazendo ruir o colonialismo.
O império americano, por sua vez, prescindiu da dominação territorial direta e exerceu a sua influência de outras formas, predominantemente pela financista, tendo atuado para o esfacelamento do império britânico, como demonstra a aliança entre Rooselvelt e Stálin para a reorganização dos campos de influência do pós-guerra, contra as tentativas de Churchill em manter ao máximo o domínio britânico, tal como persistiu até a II Grande Guerra.
A direita jamais deixou de utilizar todo e qualquer meio para manter a sua dominação, mesmo que para isso tenha que instalar governos totalitários, como foram as inumeráveis e sangrentas ditaduras na América Latina, entre as quais no Brasil, para não falar no nazifascismo na Europa. O que evidencia que o seu compromisso com a democracia é real enquanto os setores sociais populares forem mantidos “no seu lugar”, ou seja, sob seu mando e interesses.
A direita não suporta que os setores populares sejam bem sucedidos na construção de projetos e organizações suficientemente fortes ao ponto de disputarem opinião e arrebatarem a simpatia da maioria da sociedade. Não há outra razão para a incansável luta para desmoralizar tudo o que sai do seu controle. Quando não consegue cooptar os dissidentes, combate-os sem trégua e regras.
Ao contrário do que diz a direita e seus funcionários, a disputa de projetos e rumos é real e pode ser exemplificada nas lutas em curso no Brasil. É só ver quem luta contra as cotas raciais e acusou os seus defensores como estando estimulando o ódio racial; é só ver quem resistiu e procurou impedir as políticas de transferência de renda destinadas a enfrentar a extrema pobreza, acusando os seus defensores de estimularem a malandragem; é só ver quem critica a política de recuperação acelerada do poder de compra do salário mínimo e acusa seus defensores de prejudicarem a competitividade das empresas nacionais; é só ver quem impediu por mais de 10 anos a votação do Projeto de Emenda Constitucional que criminaliza o trabalho escravo e permite a desapropriação das terras para reforma agrária e quem, quando a Emenda finalmente foi à votação, votou contra ela; é só ver quem patrocinou o maior retrocesso na política de proteção ambiental brasileira, propondo e votando uma completa licenciosidade e estímulo à degradação ambiental. A reação contra a instalação da Comissão da Verdade e as opiniões sobre se os que praticaram tortura devem ser julgados, ou não, é outro tema que divide a margem esquerda, da margem da direita.
Ao identificar como os partidos, as organizações sociais, os comentaristas, os representantes setoriais etc, se posicionaram nesses e em tantos outros assuntos que tratam de fazer avançar direitos, obter conquistas e evitar retrocessos, conseguimos perceber claramente como os campos políticos são constituídos no cotidiano das disputas sociais. Essas lutas separam de forma muito bem definida a esquerda da direita. Portanto, quando é afirmado que não há mais sentido identificar distinções entre a esquerda e a direita, ou que programas e ideologias não devem ser considerados nas disputas sociais e eleitorais, estamos novamente ouvindo o mais tradicional discurso da direita, seja quem for que o esteja repetindo. Por Gerson Almeida