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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O capitalismo de compadrio no Brasil e em outros países


Por André Araújo, via GGN

O CAPITALISMO QUE TEMOS - O prezado comentarista J.C. Pompeu, a propósito de meu post de ontem sobre a Lava Jato travando a economia, disse que eu aqui defendo o "capitalismo arcaico brasileiro". Pode ser, mas é o capitalismo que temos, não há outro na prateleira para por no lugar.
Um dos defeitos profundos do caráter brasileiro é subestimar o País, nossas coisas e nossas realizações. Tudo lá fora é melhor, segundo essa visão tão arraigada entre brasileiros, especialmente de São Paulo.
É um grave erro de avaliação. O "capitalismo de compadrio" de fato existe no Brasil. Mas existe em MUITO MAIOR escala na China, na Índia, em toda a Ásia, na Rússia, no Oriente Médio, no México, em toda a América Latina.
Existe também com outra roupagem nos Estados Unidos. A diferença lá é a clareza, a explicitude das relações entre empresas e governo, nada é escondido, tudo é a luz do dia, mas as relações do Estado com as empresas não diferem muito do que ocorre aqui. As grandes companhias de armamentos tem fantásticos lobbies em Washington para influenciar o Congresso a alocar verbas no orçamento para seus projetos de novas armas, as doações de campanha são de bilhões mas é tudo legal, usam o modelo do Political Action Committees, onde se doa para comitês pró-causas, sem vincular com candidatos, mas esse dinheiro acaba bancando campanhas que beneficiam um determinado candidato que apoia aquela causa, o valor que as empresas podem doar não tem limite.
O capitalismo só funciona em boas relações com o Poder, não há capitalismo neutro e limpinho em nenhum lugar do planeta, nós não somos tão arcaicos, talvez mais provincianos, com roupa caipira, mas os métodos não mudam muito e tem lugares onde as coisas são muito piores, como na China e na Rússia, o poder do Estado e o poder das grandes corporações se confundem, a mesma coisa na Coreia do Sul, no Japão é mais sutil mas os grupos "pesados" Mitsui, Mitsubishi, Fuji, Sumitomo, Toyota, tem relações profundas com o MITI, o Ministério do Comércio Exterior japonês, operam em conjunto.
Na França a promiscuidade entre Estado e capitalismo é total há séculos, a moda é coordenada pelo Comité Colbert, o armamento é coordenado pela DGA do Ministério da Defesa. Na Inglaterra, em um passado não tão longínquo a Royal Navy era cobradora dos bancos ingleses, os navios da esquadra apontavam canhões para resgatar dívidas, como fizeram em Alexandria em 1882 e na Venezuela no começo do Século XX. Não fazem mais isso mas o espírito é esse, o governo ajuda as empresas sempre, porque as empresas são consideradas sócias do Estado e sustentáculo da Nação.
Somos inferiores, sim, em reconhecer o interesse nacional a ponto de queimar numa fogueira da inquisição empresas brasileiras de projeção internacional e agora o maior banco de investimento dos BRICS, o BTG Pactual, que se preparava para resgatar com fundos do banco oficial japonês de fomento o programa de sondas para o pré-sal, o Brasil receberia do Japão mais de US$6 bilhões de dinheiro novo, projeto que levou um ano para preparar, liquidado com a prisão do CEO do banco, sob aplausos da Globo e do Senado brasileiro, suicidas de vocação, esquecendo que quando afunda o navio morrem os marinheiros e também o comandante. Arcaicos são os justiceiros que destroçaram ativos de valor incalculável, o maior dos quais é a imagem do País e de suas empresas no exterior, colocar a sujeira na janela não melhora a reputação da família.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

EUA, China e Rússia: nova Guerra Fria?


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O objetivo deste primeiro de uma série de artigos, é analisar os atuais conflitos na Síria e na Ucrânia, a partir dos posicionamentos de EUA, China e Rússia em relação a eles, tendo como pano de fundo a transição na ordem mundial que está em curso. Tais conflitos somente podem ser compreendidos a partir de uma visão global dos conflitos geopolíticos e econômicos, pois não são fenômenos estritamente nacionais.
No atual sistema de poder internacional, desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos da América (EUA) são a única super-potência mundial. A principal potência imperialista está no vértice do sistema e exerce a sua hegemonia em aliança com as potências europeias (principalmente a Alemanha, mas também o Reino Unido e a França) e o Japão, articuladas no G-7 e na Otan. Para Samuel Pinheiro Guimarães, no “sistema internacional moderno, existe um condomínio de grandes potências, sob a hegemonia imperial americana consagrada no sistema das Nações Unidas”.
Segundo o especialista em Geopolítica Wanderley Messias da Costa, no contexto do capitalismo imperialista, a partir do final do século XIX até hoje, emergiram as potências mundiais e “as estratégias dessas potências tornaram-se antes de tudo globais, isto é‘projetos nacionais’ tenderam a assumir cada vez mais um conteúdo necessariamente internacional.”
Na coalizão liderada pelos EUA, obviamente há contradições, em especial com a Alemanha a França, que lideram a União Europeia, mas a força relativa dos EUA nas áreas econômico-financeira, tecnológica, político-diplomática e sobretudo militar, é tão grande que inibe possíveis dissensões e confrontos entre os membros da coalizão, fruto das contradições inter-imperialistas. As divisões entre as potências imperialistas durante o século XX, evoluindo para graves conflitos de interesse e depois guerras, estiveram na gênese das duas guerras mundiais.
No pós-Guerra Fria, todas as principais potências imperialistas fazem parte da mesma coalizão, amalgamada pela supremacia estadunidense. Talvez essa seja a principal razão, ao lado do “equilíbrio do terror” que a capacidade militar nuclear e de armas de destruição em massa de vários países cria, para não haver hipótese plausível de uma Terceira Guerra Mundial hoje.
Em termos geopolíticos, econômicos e militares, acelera-se a transição em curso nas relações de poder no mundo. Porém, a supremacia dos EUA ainda é muito grande, e a transição atual não está dada, é uma tendência, um movimento entre uma ordem global unipolar e uma possível nova ordem multipolar, que provavelmente terão os EUA e a China como futuras super-potências, e novos pólos como a União Eurasiática e a América do Sul integrada. Todavia, esse trânsito pode ser abortado por esforços de contenção, conflitos e guerras, a fim de se manter o status quo da ordem mundial.
O movimento de transição em direção à multipolaridade, apesar de reversível manu militari, deverá ser complexo e prolongado, contudo é uma tendência com direção, cujo ritmo e intensidade têm se acelerado e se intensificado nos últimos anos. Segundo James N. Rosenau, “uma ordem global nova ou reconstituída pode muito bem levar décadas para amadurecer”.
Em um contexto de crise capitalista internacional, os EUA e a União Europeia ampliam a ofensiva econômica e militar para tentar reverter a tendência ao declínio relativo de sua hegemonia. Assim, objetivamente, adensa-se a disputa entre os EUA e os países líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), por um lado, e a China, a Rússia, os demais BRICS e países em desenvolvimento, inclusive da América Latina, por outro. Essa tendência da atualidade não é inexorável e eterna, como também não o é nenhuma ordem mundial.
O conflito na Síria, seguido pelas disputas político-militares na Ucrânia, marca uma nova etapa, no qual os Estados Unidos, a União Europeia e a Otan podem muito, mas não podem tudo. De 1989, ano da “queda do Muro de Berlim”, a 2012-2015 foram quase 25 anos de supremacia quase completa do chamado Ocidente, principalmente nos temas de segurança internacional. Agora essa situação começa a se alterar.
Os dois vetos seguidos de Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU, em 2012 e 2013, somados ao conflito entre a Rússia e a Georgia, que terminou com uma resposta militar russa e o reconhecimento de Moscou à independência da Abkházia e da Ossétia do Sul, em 2008, podem ser caracterizados como ações políticas de Rússia e China que indicam um possível novo equilíbrio de poder em formação. A paralisação do Conselho de Segurança, em temas tão relevantes para os EUA, o Reino Unido e a França, quanto os conflitos na Síria e na Ucrânia, é algo inédito desde o fim da União Soviética.
Para Celso Lafer e Gelson Fonseca Jr., “as formas globais de equilíbrio de poder, multipolares, bipolares, ou a condição unipolar, afetam diretamente a maneira pela qual os organismos internacionais realizam os princípios e valores que adotam”. Os autores associam “a relação bipolar na Guerra Fria e a paralisação do Conselho de Segurança”, dizendo que uma das principais evidências da nova ordem mundial pós-Guerra Fria é que “estaria superado, aí sim, um defeito do sistema anterior, justamente o bloqueio dos mecanismos multilaterais pelo impasse permanente no Conselho de Segurança” da ONU.
Daí autores como Luiz Alberto Moniz Bandeira fazerem referência a uma “segunda Guerra Fria”. Para Moniz Bandeira – que escreve em seu livro “A Segunda Guerra Fria” antes do agravamento do conflito na Ucrânia –, há uma “nova guerra fria” em curso, e “a Síria converteu-se Major Theater War [maior teatro de guerra] (MTW) da segunda guerra fria, evidenciando mais nitidamente a confrontação de dois blocos, conformados, de um lado, por Estados Unidos, União Europeia, petromonarquias do Golfo Pérsico, Turquia e Israel, e, do outro, por Rússia, China e Irã, não obstante a diversidade e as contradições de interesses”.
Nos próximos artigos discutiremos as relações entre EUA, China e Rússia, e como estas se manifestam nos atuais conflitos envolvendo a Síria e a Ucrânia.

Por Ricardo Alemão Abreu**ECONOMISTA, MEMBRO DO COMITÊ CENTRAL E DA COMISSÃO POLÍTICA DO PCdoB, NA TAREFA DE SECRETÁRIO NACIONAL DE ORGANIZAÇÃO
link: http://renatorabelo.blog.br/2015/11/09/eua-china-e-russia-nova-guerra-fria/

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A ditadura planetária dos Estados Unidos. A situação do mundo e por consequência a do Brasil está complexa e imprevisível.


Por Thomas de Toledo, em seu blog

A crise global do capitalismo vive seu 8º ano, levando países à falência e ao aumento generalizado do desemprego e da pobreza. O conflito na Síria está acirrando-se e seu desfecho (ou não) pode levar o mundo a uma guerra de enormes proporções, capaz de gerar ondas cada vez maiores de refugiados. Os EUA tensionam as Coreias e provocam na Ucrânia, levando instabilidade às proximidades da China e Rússia. Fomentam juntos com aliados (União Europeia, Turquia, Catar, Arábia Saudita e principalmente Israel) grupos terroristas no Oriente Médio e na África, o que justifica cada vez mais gastos militares no orçamento para guerras por petróleo, gás, água e rotas estratégicas. Em termos comerciais, preparam o TTP, TTIP e TISA, tratados de livre comércio que anexarão economias de países inteiros ao espaço econômico dos Estados Unidos, o que seria desastroso aos direitos sociais, às democracias e ao meio-ambiente. Pra completar, procuram desestabilizar as nações latino-americanas, financiando grupos de extrema-direita, fascistas, ultra-liberais e fundamentalistas cristãos a promoverem uma agenda golpista no Brasil, Equador, Venezuela, Argentina e outros países da região. O objetivo é derrubar governos populares para ter retomar uma onda de privatizações visando especialmente as empresas petrolíferas. O Estados Unidos preparam, portanto, um assalto final ao mundo: uma ditadura militar e econômica planetária. O golpe no Brasil faz parte de uma agenda internacional.

O governo Dilma está sob massacre diário dos meios de comunicações, robôs e páginas de redes sociais muito bem pagas para fomentarem uma agenda golpista. A linha sucessória em três níveis é do PMDB (Temer, Cunha e Calheiros), que controla as duas casas e possui uma considerável presença no governo federal, Estados e municípios. A Polícia Federal, Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal trabalham sob os holofotes da mídia hegemônica privada, que define quem é culpado antes do julgamento e escolhe quais pessoas e quais partidos devem ou não ser investigados. Ao ocultar os crimes que envolvem o PSDB, o PMDB e o capital financeiro, a mídia colabora para o proliferamento de uma extrema-direita com discurso de ódio, que pede até a volta da ditadura militar. Contribui também para gerar más expectativas na economia, desestimulando o ambiente nacional para novos investimentos e fragilizando a Petrobrás, exatamente quando o pré-sal bate recordes de produção, num contexto de aumento dos conflitos no Oriente Médio.

Assim, a crise econômica finalmente abateu-se sobre o Brasil, exatamente quando o governo deixou de realizar políticas anticíclicas e adotou uma agenda de austeridade. As classes dominantes, o grande capital e os donos da grana condicionam o apoio à permanência de Dilma no governo, exigindo que os custos do ajuste fiscal recaiam sobre os trabalhadores. Os movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda pedem o contrário, que o governo não mexa nos direitos sociais, trabalhistas, nem sejam feitos cortes em programas de distribuição de renda e pedem que o ajuste fiscal recaia sobre os mais ricos com taxação das grandes fortunas. A luta de classes evidencia-se.

Ou seja, em um clima no qual os Estados Unidos operam um plano de dominação planetária que pode tornar-se uma guerra global, com perigosos acordos comerciais sendo implantados a toque de caixa, uma onda de golpes e falsas revoluções na América Latina, o governo Dilma enfrenta um cenário doméstico sem precedentes. Em uma correlação de forças desfavorável, com um congresso impondo uma agenda retrógrada, as classes dominantes exigindo cortes sociais e os movimentos populares demandando sinais à esquerda, o cenário agudiza-se sob o pano de fundo de uma crise econômica.

Em meio a esta turbulência está uma pessoa, uma mulher chamada Dilma Vana Rousseff. Para ela, diariamente são enviadas ondas de ódio e sentimentos tóxicos. Não existem governadores, senadores, deputados, prefeitos, vereadores, juízes ou desembargadores. Existe apenas uma pessoa, de um governo, de um partido, que em tese se removida resolveria todos os males do planeta. O demônio, responsável por todos os males, pela crise, corrupção, falta de ônibus e de água, por tudo, ganha nome. Este nome sucessivamente repetido como sendo o único mal do país acaba por dar liberdade para todos os outros males agirem impunemente.

E assim, o Brasil acordaria no dia seguinte: presidente Michel Temer, vice-presidente Eduardo Cunha, presidente do Congresso Renan Calheiros. Lindo! O PSDB, derrotado em 2002, 2006, 2010 e 2014 voltaria ao governo com alguns ministérios. As bancadas BBBB (Balas, Bife, Bíblia e Bancos) indicariam seus nomes aos cargos estratégicos a cada um. A agenda de redução da maioridade penal, perda de direitos democráticos e trabalhistas e retrocessos ambientais seria oficialmente assumida pelo governo. O financiamento empresarial de campanhas consolidaria o poder das grandes empresas sobre os governos e parlamentos. Os custos da crise seria passados em doses muito piores aos trabalhadores e os programas sociais seriam extintos. Por pressão dos Estados Unidos, o Brasil assinaria todos os acordos de livre-comércio, o que seria desastroso às empresas nacionais. Passaria a apoiar as oposições golpistas na América Latina e a afastar-se do BRICS, da África e dos países em desenvolvimento. Provavelmente submeter-se-ia a missões militares internacionais em guerra dos EUA.


Resultado: em 2018, Temer teria muito dinheiro para ser candidato à reeleição e o PMDB iniciaria sua dinastia em uma coalizão de direita pró-imperialista.

Portanto, compreendam: quanto mais Dilma resistir, mais esse projeto é enfraquecido. Dilma, uma mulher que enfrentou as piores torturas na ditadura militar, tem a missão de resistir, resistir, resistir e resistir até o fim. É preciso que ela encontre forças para recompor a base do governo, a credibilidade política e o rumo para o crescimento econômico. Sim, ela precisa dar mais sinais à esquerda e às demandas dos movimentos sociais. Mas também cabe a nós pautar e disputar os rumos do Brasil que queremos.
Por Thomas de Toledo, em seu blog

terça-feira, 19 de maio de 2015

Os motivos da China para investir tanto dinheiro no Brasil



Da bbc:
O primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, e uma missão de empresários de seu país desembarcam nesta segunda-feira em Brasília com a promessa de investir dezenas de bilhões de dólares em diversos setores da economia – de ferrovias a hidrelétricas, passando por autopeças, agronegócios, mineração, siderurgia e TI (tecnologia da informação).
 
O momento é visto como especialmente favorável a esses investimentos.
De um lado, o governo tem sido obrigado a cortar gastos em infraestrutura devido às restrições orçamentárias.
De outro, os setores de construção e óleo e gás passam por um cenário difícil por causa da Operação Lava Jato, que investiga esquemas de corrupção envolvendo Petrobras, grandes obras públicas e empreiteiras nacionais.
O contexto complicado acaba sendo uma oportunidade para o capital chinês, nota Maria Luisa Cravo, gerente Executiva de Investimentos da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).
“Com certeza, cria uma oportunidade. Empresas estrangeiras, quando estão avaliando um país para investir, levam em conta todo tipo de fator. Certamente, empresas de óleo e gás que não estavam atuando no Brasil, não eram fornecedores da Petrobras, têm interesse e sabem que há uma oportunidade (agora)”.
Segundo Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil China (CCIBC), um estaleiro chinês ganhou neste ano parte da concorrência internacional aberta pela Petrobras para construção de módulos de compressão, cujo contrato original de US$ 750 milhões foi cancelado com a brasileira Iesa, após citações na Lava Jato. O grupo Inepar, ao qual pertence a Iesa, está em recuperação judicial.
“Como se sabe, os grandes projetos de infraestrutura e de petróleo e gás sempre foram dominados por grandes empreiteiras brasileiras que ora têm dificuldade de concluir as suas obras. Nossa Câmara têm se esforçado para trazer investimentos de grandes empresas chinesas para ajudar a recuperar a economia do Brasil e manter empregos brasileiros”, afirma.
“O empréstimo de US$ 3,5 bilhões (R$ 10,5 bilhões) feito recentemente à Petrobras demonstra a confiança que a China deposita no Brasil e demonstra a importância que a China dá a essa aliança estratégica e comercial. Um amigo em hora de necessidade é um amigo verdadeiro”, acrescenta Tang.
O financiamento, obtido junto ao Banco de Desenvolvimento Chinês no início de abril, chega em um momento que a Petrobras está com o endividamento elevado e enfrenta dificuldade de obter recursos emitindo títulos e ações.
Li Keqiang reúne-se com a presidente Dilma Rousseff nesta terça-feira de manhã e no dia seguinte cumpre agenda no Rio e Janeiro, antes de seguir viagem para Colômbia, Peru e Chile.
A China vem ampliando sua presença na região e tem laços próximos também com Venezuela e Argentina.
Durante a passagem da comitiva chinesa pelo Brasil serão assinados mais de 30 documentos, entre acordos governamentais, empresariais e outros atos, sinalizando intenções novas de investimentos de US$ 50 bilhões (R$ 150 bilhões), segundo o embaixador José Alfredo Graça Lima, atualmente à frente da Subsecretaria-Geral de Assuntos Políticos 2, área responsável pelas relações políticas e econômicas do Brasil com a Ásia.
(…)
Como maior parceiro comercial do país, a China já tem hoje peso importante na economia brasileira. Para Graça Lima, o crescente interesse chinês em investir aqui traz o relacionamentodos dois países a um novo patamar.
“A visita do primeiro-ministro Li Keqiang segue um histórico de visitas de alto nível que se iniciaram em 2004 e que vêm contribuindo para adensar a relações bilaterias entre Brasil e China. E (essas relações) estão tomando outro vulto, ou subindo de patamar, na forma de uma cooperação mais voltada para investimentos, tanto em infraestrutura, como em capacidade produtiva, que são duas áreas de especial interesse para o Brasil de hoje”, disse Graça Lima, em apresentação a jornalistas na semana passada.
Se tudo que está sendo anunciado vai sair do papel é outra história.
Segundo o embaixador, são projetos que estão em diferentes estágios de negociação e planejamento. Um dos mais importantes para os dois países é a construção de uma ferrovia transoceânica, que cortará Brasil e Peru, facilitando o escoamento de grãos e outros produtos da região Centro-Oeste para o Oceano Pacífico.
Segundo o diretor executivo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Bruno Batista, é justamente essa preocupação com escoamento de produtos brasileiros para a China, “questão de segurança alimentar”, que tem elevado a disposição do país em investir na logística brasileira.
Até hoje, observa Batista, a presença do capital chinês na infraestrutura de transportes do Brasil é pequena, mas a expectativa é que isso mude nos próximos anos.
(…)
Em entrevista à imprensa chinesa na semana passada, Dilma sinalizou que o interesse brasileiro nessa parceria também é grade.
“O Brasil passa por um momento em que todo o conhecimento e a expertise da China na área de investimento em infraestrutura nós podemos aproveitar, tanto na área de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos”, disse ela ao China Business News, ressaltando que a participação chinesa em ferrovias vai ser “essencial” para o Brasil.
Monitoramento da Apex indica que, entre 2004 e 2014, a China investiu US$ 50 bilhões no Brasil. Maria Luisa Cravo explica que antes esses investimentos eram mais concentrados em fábricas e que agora o escopo está se ampliando para obras de infraestrutura, que são mais caras.
(…)
Mas o que estaria por trás do apetite bilionário chinês pelo Brasil?
Certamente, é de interesse do país melhorar a logística das nossas exportação, reduzindo os custos de produtos comprados em grande quantidade pela China, como soja e minério de ferro.
(…)
Questionado sobre se haveria também uma estratégia geopolítica da China no sentido de ampliar sua influência na América do Sul, o embaixador Graça Lima descartou a existência de “uma agenda secreta” e minimizou uma possível perda de protagonismo do Brasil na região.
“Interessa ao Brasil que seus 11 vizinhos progridam, que tenham uma grau de desenvolvimento que sirva para mais estabilidade, mais paz, mais segurança (na região). Nesse ponto, a China é vista como uma parceiro bem vindo”, argumentou.
Para Charles Tang, porém, há sim uma intenção geopolítica, na medida em que a China busca a se contrapor aos Estados Unidos como potência global.
Esse é o entendimento também de Renato Baumann, diretor da área de Relações Econômicas e Políticas Internacionais do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada). “A China quer expandir sua áreas de influência e tornar o yuan uma moeda de referência global”, afirma ele.
(…)
no: http://chebolas.blogspot.com.br/

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Geopolítica do petróleo: 8 razões pelas quais o preço do petróleo está voltando a subir

Via CartaMaior

Apesar da conspiração entre árabes e americanos para baratear o petróleo e pressionar economicamente a Rússia, Irã e Venezuela, os preços voltam a subir.


Nazanín Armanian
Horia Varlan / Flickr

Se ainda alguém não sabe, a Aramco – a empresa de petróleo da Arábia Saudita, e também a maior do mundo –, até bem pouco tempo, em 1977, se chamava Arabian American Oil Co., sendo de propriedade comum entre a família saudita e várias empresas da Califórnia e do Texas. Por isso, não se pode ficar surpreso se a dupla Washington-Riad tiver algo a ver com a queda brusca dos preços de 115 dólares o barril para 45 dólares entre junho e dezembro passados, levando em conta que o mercado de petróleo não é “livre”: ele é controlado por um cartel chamado OPEP e por grandes empresas petrolíferas ocidentais. E mais, o combustível gorduroso e malcheiroso, antes de tudo, é uma arma que nesse caso foi apontada contra a Rússia, o Irã e a Venezuela com a finalidade de conseguir mudanças em suas políticas via afundamento de suas economias, e ainda resgatar um falecido petrodólar – um dos pilares da hegemonia mundial dos EUA.

No entanto, a festa durou pouco e os promotores da “conspiração Aramco” se deram conta de que os prejuízos dessa queda de preços são maiores do que seus benefícios político-econômicos. Por isso, o preço de venda do petróleo para o mês de março teve uma notável melhora nos três mercados de Brent, dos EUA e da OPEN, oscilando por volta de 59 dólares o barril.

Aqui vão alguns motivos:
1. Os membros dos Brics, com exceção da Rússia, foram os principais agraciados pela compra de um petróleo barato.
a) China, o principal rival dos EUA e o segundo consumidor mundial de petróleo, bateu seu recorde de importações de petróleo, apesar de seu crescimento econômico ter sido o mais frouxo desde 1990 (mas registrou, no primeiro trimestre de 2014, um crescimento de 7,2%): começou a comprar 6,2 milhões de barris por dia, e acabou o mês de dezembro com 7,2 milhões de barris por dia, injetando-os em sua Reserva Estratégica de Petróleo (o armazenamento ocorre para afrontar as emergências, como a interrupção do abastecimento). Com isso, a China não só deixou os EUA nervosos, mas contribuiu para empurrar os preços para o alto, por dois outros fatores: tirar boa parte do excedente de petróleo que nadava no mercado e gerar incerteza sobre seu passo seguinte no mercado.
b) Beneficiou o Brasil, a principal potência rival dos EUA na América, e que agora está decidida a recuperar sua influência no seu “quintal”, e a África do Sul, o principal competidor de Washington na África. Os Brics decidiram abandonar o dólar em suas transações e criaram um banco com a finalidade de debilitar as instituições financeiras ocidentais.
2. Não conseguir mudar a postura de Moscou nos casos da Ucrânia, Crimeia e Síria. Pois se os setores belicistas ocidentais desferiram o primeiro ataque à Rússia, provocando um golpe de Estado na Ucrânia, levando à surpresa da integração da Crimeia à Federação Russa, eles pensaram que uma drástica queda nos preços do petróleo – triturando o rublo e a economia russa – fosse provocar a rendição do Kremlin. Estratégia ruim, já que o golpe à economia do país eslavo, assim como a dramática guerra da Ucrânia, deixou cerca de 6 mil mortos e milhões de desabrigados, e teve um efeito negativo sobre os países europeus aliados de Washington, que enfrentam uma ameaça de recessão: estão perdendo o mercado russo e também os investimentos, tanto dos magnatas russos como de seu Estado. Na Espanha, por exemplo, os milionários russos estavam comprando prédios inteiros herdados da era da especulação mobiliária. Além disso, é incompreensível que não previssem uma aproximação Moscou-Pequim (sem precedentes após a morte de Stalin) e Moscou-Teerã: os presidentes Vladimir Putin e Hassan Rouhani, que compartilham o sofrimento pelas sanções impostas pelos EUA e seus sócios, assim como pela “Conspiração Aramco”, tiveram quatro encontros em um ano, algo também sem precedentes na história dos dois vizinhos.
3. Quanto ao Irã, não conseguiram pressioná-lo para conseguir mais vantagem nas negociações nucleares em curso e subtrair suas forças na região porque:
a) Teerã não deixou de apoiar o governo de Bashar al-Assad (a Síria representa a profundidade estratégica do Irã enquanto ele está no poder), e inclusive já fala abertamente dos generais iranianos que trabalham em solo sírio;
b) nem aceitou o fechamento total de seu programa nuclear, e isso apesar de John Kerry ter lançado um ultimato a Teerã para assinar um acordo político global até o final de março – se não, não retomariam as negociações. O certo é que a administração Obama está muito consciente da luta pelo poder no seio da República Islâmica entre os setores militares – contrários a um acordo com os EUA – e o governo do presidente Rouhani, que tenta, por um lado, driblar as sanções que estão afogando a economia iraniana e, por outro, evitar um confronto bélico (tentou baixar a tensão depois que o míssil israelense matou um general iraniano na Síria, no último dia 20 de janeiro). Se Obama pretende impedir um Irã nuclear, um petróleo com preços no chão, aumentará a tensão social em um Irã monoprodutor e fortalecerá a posição dos céticos e dos setores que querem guerra (assim como EUA e Israel). As medidas de Rouhani diante da manobra da Aramco foram incentivar a exportação dos produtos não petrolíferos, investir no turismo, aumentar os impostos, manter os subsídios aos principais produtos de consumo e a ajuda às famílias desfavorecidas, além de uma política externa agressiva na região com um ramo de oliveira nas mãos – que inclui sobretudo os países árabes “inimigos” e membros da OPEP, como Kuwait ou Catar.

4. A perda de centenas de milhões de dólares por parte das grandes empresas petrolíferas ocidentais, como as que operam no Iraque, Líbia, Nigéria, entre outros.
5. O déficit orçamentário gerado pela queda do preço do petróleo criou dificuldades para os xeiques sauditas, em pelo menos estes três cenários:
a) No interior do país: seus orçamentos foram elaborados com base no barril de 72 dólares, e agora se enfrenta um aumento importante dos preços dos produtos básicos. Além disso, previu-se, desde a repressão da primavera de 2011, realizar uma série de projetos que melhorariam a vida dos cidadãos – como a construção de moradias, a criação de postos de trabalho, ou a chegada de água e luz a milhões de pessoas que vivem na pobreza absoluta – e que agora estão paralisados.
b) No Egito: a promessa feita em 2011 aos militares encabeçados pelo general Al-Sisi de receber 160 bilhões de dólares anuais acabam com a Irmandade Muçulmana do presidente Mohammed Mursi, preso após o golpe de Estado. O que acontecerá no Egito, seu grande aliado contra Irã, se não cumprir?

c) No Iraque e na Síria: dificuldade para pagar os honorários de milhares de jihadistas do Estado Islâmicos e grupos parecidos, cuja missão é acabar com os governos de Damasco e de Bagdá, ambos próximos a Teerã, e arrastar o Irã para uma guerra regional sectária. Desde 2011 até hoje, investiu bilhões de dólares nesses terroristas, com um êxito parcial: destruiu o Estado sírio, mas ainda não conseguiu levantar um novo e afim.
6. Nos EUA, dois fatos contribuíram para o aumento dos preços do barril:

a) Os cortes nos investimentos de capital por parte das multinacionais na extração do petróleo de xisto como resposta à queda dos preços. Pois cada barril lhes está custando entre 70 e 80 dólares (diante dos 15-20 dólares no Oriente Médio) e um petróleo por menos desse preço, obviamente, não é rentável. Com isso, nos EUA e no Canadá, cerca de 90 plataformas de exploração fecharam. BP perdeu bilhões de dólares em todo o mundo e planeja reduzir suas atividades de exploração à metade e os investimentos até 20%. A Chevron está em situação parecida.
b) A greve de cerca de 4 mil trabalhadores das empresas Royal Dutch Shell Oil e BP em nove refinarias em Ohio, Califórnia, Kentucky, Texas e Washington, iniciada em 1° de fevereiro. Exigem um convênio coletivo para o setor, a redução do número de trabalhadores não sindicalizados e melhorias nas condições de segurança e saúde, em uma greve que é a primeira dessa envergadura há várias décadas.

7. O aumento da tensão na Líbia e a perda de 800 mil barris em um incêndio.
8. O perigo de instabilidade social em países aliados aos EUA, como Iraque (incluindo seu Curdistão) ou Nigéria, pela queda dos petropreços.
O único e grande triunfo dos EUA e da Arábia Saudita nessa história até o momento foi transformar a OPEP em espectro do que foi entre 1960 e 1990, e não apenas porque sua cota de mercado caiu de 62% para os 30% de hoje, mas porque a Arábia, o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos fizeram uma frente contra pesos pesados da organização, tais como Irã, Iraque, Argélia, Venezuela e Equador.
Os preços do petróleo tocaram fundo. É perfeitamente lógico que o “Naft” (seu nome em persa, e do qual vêm palavras como “naftalina”) não apenas recupere seu preço – que hoje é mais barato do que uma garrafa de bom vinho –, mas também seu valor: é o resultado de milhões de anos do esforço “não renovável” da natureza.
No: http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2015/02/geopolitica-do-petroleo-8-razoes-pelas.html


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

GEOPOLÍTICA DO PETRÓLEO E GÁS NATURAL.







A agressividade militar exibida pelo imperialismo é intrínseca à sua natureza. Mas a sua exacerbação e os focos em que incide denunciam a sua voracidade relativamente a matérias-primas essenciais, desde combustíveis fósseis a alimentos, a metais básicos e especiais, etc., bem como comando do seu comércio, suas rotas e destinos.
A turbulência de situação interna em muitos países e nas relações internacionais tem frequentemente subjacente problemas relativos ao aprovisionamento energético. No centro dessa problemática situam-se os combustíveis fósseis, que ao longo dos passados dez anos asseguraram uma elevada e estacionária fracção — 87% — da energia primária consumida globalmente. A contribuição da energia hidráulica cresceu ligeiramente para 7% e da nuclear decresceu ligeiramente para 4%; as novas renováveis subiram para não mais do que 3%. O peso relativo das fontes primárias não sofreu alteração fundamental nesta década, ao contrário do que os discursos oficiais sugerem, e ainda que a tendência global de crescimento da produção e consumo tenha persistido ao ritmo de 3% ao ano. Crescimento que só foi possível porque a retracção da economia em muitos países da OCDE (o dito «mundo ocidental») foi ultrapassada pelo crescimento das ditas «potências emergentes» e muitos países ditos «em vias de desenvolvimento». É um mundo em profunda mudança.
A energia, colocando severos problemas técnicos quanto ao seu armazenamento em larga escala, carece de vastas infraestruturas de transporte e distribuição permanentes, dispendiosas e vulneráveis. Rotas marítimas e terrestres colocam questões geostratégicas; oleodutos e gasodutos são alvo de disputa. Embargos, militarização e guerras visam assegurar ou negar acesso a recursos e seu escoamento dentro da presente arquitectura imperialista.

I — Produção e investimento

O acesso a fontes de energia e a disponibilidade de equipamentos de extracção, conversão e transporte exigem investimentos muito avultados, cujo montante global a Agência Internacional de Energia — AIE estima em US$ 40 milhões de milhões no período 2014 a 2035, um ritmo de investimento superior ao do passado recente, que foi US$ 1,6 milhões de milhões no ano 2013, que já representara uma duplicação relativamente ao ano 2000. A parte do investimento no aprovisionamento de combustíveis fósseis duplicou de 2000 a 2008, após o que o seu crescimento abrandou, atingindo US$ 970 mil milhões em 2013; deste total, a exploração e produção (E&P) na indústria petrolífera absorveu US$ 700 mil milhões; refinação e transporte (pipelines, petroleiros, metaneiros e terminais associados) US$ 200 mil milhões; carvão US$ 70 mil milhões. Este passado e o cenário da AIE ilustram o esforço crescente que o aprovisionamento de energia vem exigindo para assegurar o funcionamento da economia.
Mais de metade do investimento será requerido para mera reposição da produção de petróleo e gás em campos em declínio e substituição de grandes equipamentos em fim de vida técnica útil. Significativamente, quase dois terços do investimento localizar-se-á em economias emergentes e na Ásia, África e América Latina. O relatório da AIE também assinala a acentuada importância da OPEP e do Médio Oriente no aprovisionamento futuro de petróleo quando, a partir da próxima década, outras regiões produtoras entrarem em declínio de produção. Incluem-se nestas a Rússia e os EUA; o petróleo da Sibéria Ocidental estará a atingir a sua capacidade de extracção máxima, com reflexo no volume disponível para exportação; nos EUA, o actual «boom» de produção não convencional («shale» e «tight») poderá atingir não mais do que 4 Mb/d (milhões de barris por dia) cerca de 2020, longe de poder inverter a tendência de declínio em curso desde há quatro décadas.
O agravamento do esforço a montante — «upstream» ou seja exploração e produção, abreviadamente E&P — da indústria petrolífera em manter e quanto necessário ampliar a produção de petróleo e gás natural, significa agravamento de custos e requer agravamento de preços. Apesar da tendência ascendente dos preços do petróleo e gás, as empresas do sector petrolífero têm registado retornos sobre o capital médio aplicado (ROACE) que são hoje menores, estando os preços de petróleo a flutuar acima de US$ 100/b, do que eram em 2001, quando os preços do petróleo estavam a menos de US$ 30/b Os custos de extracção mais do que quadruplicaram desde 2000 para mais de US$ 21/b; e os custos de exploração (descoberta de recursos adicionais) e de desenvolvimento (de recursos já identificados) têm seguido uma trajectória semelhante, atingindo quase US$ 22/b em 2013. Daqui se infere que a obtenção do barril (ou quantidade de gás equivalente) tende a exceder já US$ 60.
O esforço de investimento acumulado em E&P nos últimos seis anos somou US$ 5,4 milhões de milhões, contudo relativamente pouco resultou dele. Os custos da indústria petrolífera a montante subiram três vezes desde 2000, contudo a produção aumentou meramente 14%. O insucesso só tem sido disfarçado, e por enquanto, na medida em que as grandes petrolíferas ainda continuam a extrair das reservas de baixo custo que herdaram — as jazidas gigantes de petróleo e gás convencional descobertas há mais de quarenta anos. Todavia a produção de campos convencionais atingiu o pico em 2005, e nem um só novo grande projecto foi adicionado à produção a custo inferior a US$ 80/b. em quase três anos.
O «syncrude», extraído das areias betuminosas de Alberta, Canadá, tem custo de produção de pelo menos US$ 80. Quanto ao óleo e gás de shales e outras rochas compactas, cuja extracção nos EUA se acelerou em anos recentes, o custo marginal de produção é superior a US$ 85/b em alguns dos empreendimentos. Mais geralmente, a indústria prevê aplicar US$ 1100 milhão de milhões ao longo da próxima década em projectos que exigirão preços acima de US$ 95/b para serem remunerados. A indústria foi levada a procurar novos recursos em águas profundas ao largo da África, Sul América, Sudeste Asiático e Árctico, onde é muito mais difícil de pesquisar e produzir; alguns dos projectos em águas profundas do Árctico requerem no mínimo US$ 120/b.

II — Comércio internacional e petrodólar

A produção mundial de «todos líquidos» classificados como petróleo atinge 90 Mb/d (1 Mb/d = 1 milhão de barris por dia), dos quais já somente 65 Mb/d é petróleo convencional.
O comércio internacional de petróleo atinge cerca de 40% desse montante — o restante sendo consumo interno dos países exportadores. Os dois maiores exportadores destacados são a Arábia Saudita e a Rússia (8,8 e 7,2 Mb/d em 2012); outros grandes exportadores são os Emiratos Árabes, Kuwait, Iraque, Nigéria, Qatar, Irão, etc. Do lado dos importadores destacam-se os EUA, a China e o Japão (7,4, 5,9 e 4,6 Mb/d em 2012); outros grandes importadores são a Índia, Coreia do Sul e Alemanha, etc.
A produção mundial de gás natural ascende já a 9,3 Gm3/d de «gás seco» (1 Gm3/d = mil milhões de metros cúbicos por dia) — produção equivalente a 61 Mb/d de petróleo. O respectivo comércio internacional atinge 3,0 Gm3/d, ou seja cerca de 30% da produção — em menor proporção que o petróleo; a menor portabilidade do gás explica também a mais acentuada regionalização do seu comércio através de gasodutos; porém o volume transaccionado por via marítima na forma de gás liquefeito (GNL) em metaneiros já abrange cerca de 30% do comércio internacional. Os maiores exportadores são a Rússia e Qatar (0,57 e 0,33 Gm3/d em 2012); outros exportadores de relevo são a Noruega, Canadá, Holanda, Argélia, Turquemenistão, etc. Quanto aos importadores, relevam o Japão e a Alemanha (0,33 e 0,25 Gm3/d em 2012); outros grandes importadores são a Itália, França e China, etc; os EUA registaram saldo importador de 0,12 Gm3/d.
O dólar (US$) é utilizado na cotação do petróleo e do gás natural no comércio internacional. Em 1971, os EUA negociaram com a Arábia Saudita um acordo segundo o qual, em troca de armas e protecção diplomática e militar, este país passaria a realizar todas as transacções de petróleo em US$; de seguida, outros países da OPEP aderiram a acordos semelhantes, consolidando um mercado que se vinha delineando desde o fim da II Guerra Mundial, e que garantiria uma procura global e continuada de dólares norte-americanos. Pela mesma altura, os EUA terminaram definitivamente a convertibilidade do dólar no tradicional padrão-ouro; a partir daí o dólar consolidou a sua posição de privilégio entre as demais divisas. Por esse tempo os EUA eram os maiores produtores, consumidores e importadores de petróleo do mundo, e o ano 1971 assinala também a passagem do máximo absoluto de produção de petróleo nesse país. Os grossos fluxos de dólares com origem no comércio de petróleo passaram a ser designados de petrodólares. Os incrementos de cotação do petróleo em 1973 e 1979 (datas de choques petrolíferos) viriam a avolumar grandemente os fluxos de petrodólares e a sua aplicação pelos principais membros da OPEP em investimentos externos.
O preço do barril de petróleo, depois de exibir saltos substanciais em 1973 e 1979, oscilou na banda US$ 15-40 entre 1983 e 2004, com um pico singular em 1990; desde então exibe tendência ascendente, tendo ultrapassado uma grande oscilação em 2008, e encontrando-se agora a oscilar um pouco acima de US$ 100/b.
Essas variações reflectem tensões entre oferta e procura, inevitáveis dilacções de investimento na exploração e desenvolvimento de recursos e na capacidade de refinação instalada, e bem assim, expansões ou recessões económicas em espaços alargados. E é evidente a sua interdependência com incidentes geopolíticos e episódios económico-financeiros, com destaque para intencionais manipulações, embargos e outras agressões económicas. Na década de 80, a competição por cotas de exportação entre países do Médio Oriente membros da OPEP, gerando o incremento das respectivas exportações invocando incrementos (não comprovados) das respectivas reservas que serviam de base ao cálculo das cotas, manteve o preço do barril artificiosamente baixo e submergiu o mundo em petrodólares. O colapso da URSS ocorreu de par com a respectiva sobreprodução e sequente quebra drástica de produção petrolífera, de quase 50%, de 12 para 7 Mb/d, no período entre 1988 e 1995. Depois, entre 1995 e 2003, o programa «oil for food» imposto pela ONU ao Iraque serviu entre o mais para continuar a manipular a cotação e o comércio internacional do petróleo. Após o que a cotação disparou.

III — Shale

A extracção de recursos de óleo e gás não convencionais, de acessibilidade difícil, designadamente os contidos em rochas compactas (baixa porosidade e baixa permeabilidade) — «shale oil» e «shale gas» (rochas predominantemente argilosas) e «tight oil» e «tight gas» (rochas carbonatadas e siliciosas) — permitiu o incremento da produção norte-americana verificada em anos recentes. Tal extracção foi viabilizada por tecnologias — perfuração horizontal e fracturação hidráulica em múltiplas etapas — desenvolvidas e aplicadas há décadas na produção «estimulada» de recursos convencionais. A sua extracção coloca exigências e gera impactos muito significativos: a aquisição de direitos e licenciamento sobre áreas muito vastas, elevado número de plataformas de perfuração e a continuada perfuração de novos poços (mesmo que só para manter o nível de produção); exige caudais de água abundantes e a sua deposição; induz sismicidade e fuga de hidrocarbonetos voláteis, etc.; os riscos são diversos e ponderosos.
Os EUA são pioneiros no desenvolvimento destes recursos. Entre 2006 e 2012, a produção de hidrocarbonetos não convencionais nos EUA aumentou: gás treze vezes para 750 Mm3/d (1 Mm3/d = 1 milhão de metros cúbicos por dia), o equivalente a 4,8 Mb/d de petróleo; e petróleo sete vezes para 2 Mb/d. Esta produção adicional viabilizou os EUA assumirem um importante protagonismo na manutenção do nível da produção mundial. Enquanto algumas formações geológicas — Barnett, Haynesville, Marcellus e Fayetteville — foram as principais contribuintes para a expansão do «shale gas», Bakken e Eagle Ford são os principais contribuintes para o «tight oil». A importante bacia Pérmica, em fase atrasada no que toca a recursos não convencionais, está a ser agora desenvolvida; prevê-se uma taxa média de investimento de US$ 30 mil milhões/ano entre 2014 e 2018, e que venha a contar um máximo de 5500 poços em 2017; com produtividade por poço de 200 a 1000 b/dia, admite-se que em 2020 alcance a taxa de 1,8 Mb/d, ultrapassando a produção de «tight oil» de campos congéneres. Em sentido contrário, recursos identificados na formação «Monterey Shale», Califórnia, supostos os mais vastos de shale nos EUA, foram recentemente reavaliados pela Energy Information Agency — EIA, e o volume recuperável reduzido drasticamente, de 13 700 para 600 Mb, o que ilustra a margem de incerteza e risco incorridos na avaliação de recursos não convencionais.
De acordo com a EIA, o considerável potencial de óleo e gás não convencional em rochas compactas deverá habilitar os EUA a aumentar significativamente e manter a sua produção de hidrocarbonetos ao longo dos próximos 15 anos: a produção de gás não convencional poderá chegar a 1,12 Gm3/d (equivalente a 7,3 Mb/d de petróleo) em 2035 (50% da produção total de gás natural nessa data). E a produção de petróleo não convencional poderá crescer de 2,3 Mb/d em 2012 (cerca de 35% do total de ramas) até 4,8 Mb/d em 2021 (cerca de 50% de então) para declinar depois, ao passar ao desenvolvimento de áreas menos produtivas. Ao contrário do que certas entidades querem fazer crer, mesmo que os EUA pudessem efectivamente tornar-se exportadores de gás a partir de 2020, a auto-suficiência em termos de petróleo é uma meta de todo irreal.
Embora a extracção de hidrocarbonetos de rochas compactas tenha aumentado a bom ritmo, os operadores têm incorrido em rápido endividamento, posto que o custo e a continuidade do investimento requerido não é remunerado pela receita gerada. A fracção gasosa extraída tem sido secundarizada porque a respectiva remuneração é menos favorável do que a da fracção líquida; todavia é a mais propagandeada, posto que os EUA são quase auto-suficientes em gás natural, e poderiam teoricamente vir a tornar-se exportadores, se efectivamente dispusessem das infraestruturas de transporte e terminais para procederem à exportação — o que não é o caso nem concretizável senão a médio prazo. A «revolução do shale» terá de confinar-se aos denominados «sweet spots» de mais alta produtividade, a ritmos de extracção comensuráveis com os volumes de recurso acessível e recuperável, e aos tempos de vida técnica e de eventual retorno do capital.
«Quem pode, ou vai querer, financiar a perfuração de milhões de hectares e centenas de milhar de poços em prejuízo permanente?», escreveu Ivan Sandrea, investigador no Oxford Institute for Energy Studies, num relatório no mês passado. «A benevolência dos mercados de capitais dos EUA não pode durar para sempre.» A despesa não pára nunca, disse Virendra Chauhan, analista de petróleo na Energy Aspects. Como o output de poços de shale declina drasticamente logo no primeiro ano, os produtores têm de continuar a perfurar mais e mais poços para manter a produção; o que implica vender activos e angariar mais crédito. «Todo o “boom” em shale é na realidade uma tarefa infindável de dispêndio de capital e de endividamento». O acesso ao mercado de obrigações de alto rendimento tem permitido às empresas de E&P gastar mais dinheiro no shale do que conseguem gerar. Empresas de E&P classificadas de lixo gastaram US$ 2.11 por cada US$ 1 ganho no ano passado, segundo uma análise de 37 empresas feita pelo Barclays (extracto/transcrição da Bloomberg, 30 de Abril 2014).
A competição dos EUA com a Rússia e outros grandes produtores do Médio Oriente para o aprovisionamento do mercado mundial é puramente virtual. Embora os recursos sejam muito amplos, as áreas com teor elevado e produtivas são escassas, e a taxa de recuperação realizável modesta. Outras vastas jazidas de shale existem na Rússia (formação Bazhenov na Sibéria Ocidental), China (bacia Sichuan), Argentina (bacia Neuquen), Colômbia/Venezuela (bacia Maracaíbo), México (bacia Burgos), Líbia (bacia Syrta), etc., sem que contudo tenham sido alvo de desenvolvimento tão significativo. Também na Europa (Polónia, Ucrânia, França, Reino Unido, etc.) estes recursos têm sido promovidos, mais por razões políticas do que viabilidade económica, suscitando viva contestação popular pela sua escala extensiva e pelos impactos ambientais da fracturação hidráulica e da utilização intensiva de água; ainda sem concretização.

IV — URSS, Rússia e BRICS

Os projectos do imperialismo parecem dar uma elevada prioridade ao aniquilamento económico e político da Rússia, a maior potência energética mundial, seguindo uma abordagem paralela ao sucedido com a desintegração da URSS. Então, a administração norte-americana lançou uma ofensiva militarista conhecida por «guerra das estrelas» e uma ofensiva económica visando deprimir o preço do petróleo de que então dependiam as receitas de comércio externo e o orçamento da URSS; o preço, cuja média ficara por US$ 18 entre 1950 e 1972, de 1973 a 1981 ascendeu até US$ 86, suportando o fortalecimento económico da URSS; pelo contrário, decresceu posteriormente, incluindo um queda abrupta em 1986, até ao nível de US$ 28 em 1989. A depreciação foi prosseguida na década de 90, mantendo o sufoco dos países da CIS e obstaculizando o seu desenvolvimento. A economia real e a crise do sistema financeiro parecem ter depois prevalecido sobre os mecanismos de manipulação do dólar e das commodities. De 2000 a 2013 o preço do petróleo triplicou para cerca de US$ 110 (o do ouro sextuplicou para cerca de US$ 1500), acompanhando os custos de investimento e de produção, e a deslocação do crescimento económico para as «economias emergentes», assim conferindo renovado protagonismo aos países exportadores de petróleo (e outras matérias-primas).
A Rússia tem sido o maior exportador mundial de energia, compreendendo petróleo e gás, e bem assim de combustíveis e serviços nucleares, como também de diversas matérias-primas minerais. Em 2013, as exportações de combustíveis fósseis ascenderam a US$ 362 mil milhões e de combustível nuclear a US$ 72 mil milhões (no total quase 18% do PIB).
Algumas fontes indiciam esse projecto imperialista de conduzir a Rússia à falência e ao caos económico e social. Designadamente aForbes desvenda o propósito de «estabilizar» o dólar por forma a trazer o preço do ouro para US$ 550/onça e do petróleo para US$ 40/b; e adiciona que tanto não seria preciso para terminar com o «aventureirismo» russo, US$ 80/b já seria bastante. A tarefa seria cometida à Reserva Federal na forma de «estabilização» do preço do ouro na COMEX (bolsa de commodities) seguindo um script já previsto numa proposta legislativa («monetary reform bill», H. R. 1576) e que merece na Forbes o título «É tempo de levar a Rússia à falência — outra vez» (assinado Louis Woodhill, 3 de Março, 2014).
Para que esta abordagem possa ser sucedida será fundamental que o dólar mantenha o seu papel hegemónico no sistema financeiro mundial, particularmente como divisa de referência no comércio do petróleo e gás — o que é algo que contraria o entendimento e os interesses das economias emergentes e se encontra no centro de disputa.
Outra abordagem convergente seria saturar o mercado com petróleo de outras origens — um cenário publicitado como eminente, tal propaganda de guerra, sob a designação de «revolução do shale» liderada pelos EUA. O que na realidade é impossível num mercado mundial já estrangulado por força das limitações de capacidade de produção por parte dos países exportadores e da desactivação parcial da produção ou do trânsito em países vítimas de «revoluções coloridas», «primaveras Árabes» ou alvo de sanções económicas.
Da Bloomberg: «A ideia antes impensável de exportar grandes quantidades de petróleo e gás natural dos EUA ganhou apoio, na medida em que avanços nas técnicas de perfuração colocaram os EUA em vias de ultrapassar a Arábia Saudita e a Rússia como o maior produtor mundial de petróleo em 2015, de acordo com projecções da Agência Internacional de Energia. Em Novembro (2013), os EUA produziram mais óleo do que importaram, pela primeira vez desde 1995.»
Tal análise está completamente falsificada; actualmente os EUA são importadores líquidos de petróleo e de gás; no médio/longo prazo a exportação de gás poderá acontecer, daqui a uma década, se até lá forem geradas sobreprodução e infraestruturas para a exportação marítima; mas a de petróleo não terá nunca qualquer viabilidade, a menos de um colapso do consumo doméstico nos EUA. No ano 2013, os EUA produziram 0,68 Tm3 de gás natural, mas registaram uma importação líquida de 0,037 m3, comparável à importação registada pela Ucrânia. Entretanto, na Europa (35 países), o consumo de gás natural decresceu 10% de 2008 a 2013, atingindo 0,53 Tm3 no ano passado, bem aquém do consumo registado nos EUA — 0,72 Tm3. Já quanto ao petróleo, no início de 2014 a importação de ramas petrolíferas pelos EUA ascendeu a 7,6 Mb/d e o comércio de refinados teve balanço exportador de 1,9 Mb/d, o que resultou numa importação agregada de 5,7 Mb/d, para satisfazer o consumo total de 18,3 Mb/d; portanto o consumo interno dos EUA depende da importação em cerca de 30%; nem as projecções oficiais da Energy Information Agency — EIA prevêem qualquer balanço exportador no futuro.
A recente sexta cimeira dos BRICS (Fortaleza, Julho de 2014), reafirmou e ampliou o compromisso dos seus cinco membros na prossecução dos objectivos fixados nas precedentes cimeiras, incluindo na vertente financeira a criação do Banco de Desenvolvimento e do Fundo de Emergência. Os líderes da UNASUR e da CELAC foram convidados e a oportunidade propiciou numerosos encontros de alto nível — incluindo várias visitas de estado dos presidentes Xi Jinping e Vladimir Putin, e a Cúpula de Líderes da China e de Países da América Latina e Caribe — e numerosos acordos de cooperação bilaterais e multilaterais foram subscritos. Os BRICS assumiram projectos nos domínios de infraestruturas e da energia no continente; nomeadamente um acordo entre a Rosneft e a Petrobras com vista à exploração de gás natural no Amazonas; um outro entre a Rosatom e Argentina para desenvolvimento da produção nuclear neste país; o Brasil e China subscreveram 60 acordos, entre tratados, memorandos de entendimento e contratos entre empresas; o lançamento do plano de ligação ferroviária transcontinental do Pacífico (Perú) ao Atlântico (Brasil) em parceria com a China.
A correlação de forças continua mudando aceleradamente. O petróleo e o dólar continuam a ser protagonistas, alvos e indicadores, dessa mudança.
Fonte: O Militante, via http://blogdeumsem-mdia.blogspot.com.br/2014/09/geopolitica-do-petroleo-e-gas-natural.html