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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Programa de índio

Não tem "programa de índio" maior do que os programas de homem branco. Quer dizer, tem, sim. Os programas de homem branco da cidade grande.
É urgente desfazer os dois maiores equívocos nacionais. Um deles em relação aos índios e, o outro, aos caipiras. Não, não falo do direito a terras nem demais desastres acontecidos nos últimos tempos. O que estou propondo é uma reforma linguística. Explico: nas férias em Boraceia, praia onde tem uma aldeia indígena, vi curumins se divertindo no mar num dia de sol. No dia seguinte, choveu. Os indiozinhos não apareceram. Mas um monte de gente, incluindo eu, estava lá se escondendo no guarda-sol, depois de passar mais de 5 horas parado na serra em sua única semana de folga do ano. Que programa de índio! Ou não. Os índios, certamente, acharam algo melhor e mais adequado ao clima para fazer na tribo.

Venho por meio desta implorar para corrigirmos a expressão "programa de índio", pelo amor de tupã. É o erro número 1 do Brasil. O equívoco inicial. Graças a ele, ninguém pode ficar de boa. Um dos primeiros diálogos registrados entre um índio e um europeu deixava isso claro, como Darcy Ribeiro costumava contar. "Vocês devem ter muito tecido na terra de vocês para levar todo esse pau brasil para lá", comentou o índio. "Nós não vamos usar o pau brasil, vamos vender para ganhar dinheiro. Para que tanto dinheiro? Ué, o que não usarmos, deixamos para os filhos". E o índio ficou pensando como era retardado esse filho incapaz de conseguir o próprio alimento.

O português, que tinha passado meses num navio sem tomar banho, considerou problemático o índio, que tava lá tranquilo curtindo sua vidinha "com o que a natureza dá". Sobrepôs sua cultura e, em vez de ficar tranquilão na rede depois de realizar as funções possíveis e necessárias para um dia, hoje temos que viajar para praticar nadismo, um tipo de turismo especializado para o hóspede conseguir ficar sem fazer nada (se não viu, clique, por favor).

Não tem "programa de índio" maior do que os programas de homem branco. Quer dizer, tem, sim. Os programas de homem branco da cidade grande: ficar em fila para pagar caro pela comida em lugares sem graça, usar terno para trabalhar no calor e outros do tipo. E não é que são exatamente essas pessoas que chamam de "caipirice" as coisas do interior?

Façamos uma convenção nacional que corrija também este termo, antes que seja tarde. "Caipira" mesmo, no mau sentido, é chamar perua de foodtruck. Sugiro adotarmos esta reforma, passando o termo pejorativo "caipira" a ter seu sentido contrário: quanto maior fica uma cidade, mais "caipira" ela fica, imitando os modismos das maiores capitais, que já imitam os modismos das metrópoles internacionais. Como diria meu pai, que é caipira de verdade: "tudo caipira do asfalto".

Em tempo, para não deixar a expressão "programa de índio" sub-utilizada, proponho que os linguistas a encaixem como sinônimo do "tá ruim aqui" para legendas de vida boa no instagram. Programa de índio é ficar na rede!

(Com colaboração e quase parceria do Rodrigo Terra, primeiro signatário do abaixo assinado pela causa)
no: http://aspasnatiaspas.blogspot.com.br/2016/01/programa-de-indio.html

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Os equívocos da esquerda no campo jurídico


A operação lava-jato é a parte mais visível dos resultados nefastos do avanço das forças conservadoras no campo jurídico brasileiro e de um pensamento ideológico hoje praticamente hegemônico, firmado no punitivismo desmedido e na retirada dos direitos e garantias fundamentais, sob as mais variadas justificativas.

O “combate à corrupção”, “combate ao crime organizado”, “combate à impunidade” são os subterfúgios retóricos de uma ação política de ampliação dos poderes de alguns órgãos como Ministério Público e Polícia Federal. Esse discurso é baseado no maniqueísmo de “ficha limpa” versus “ficha suja”, termos como “homens de bem”, corruptos, traficantes e outros instrumentos discursos que dividem a sociedade entre uns e outros, sendo que “os outros” devem ser extirpados do seio social.

“Morreu um traficante”, “morreu um bandido”, quem se importa em saber seu nome verdadeiro e as causas da morte? Não sem razão, o discurso de certos juízes é de que “devemos passar o Brasil a limpo”. Esse discurso de limpeza é semelhante ao de representantes do jornalismo mundo-cão em programas como Cidade Alerta e coisas do gênero.

Alguns procuradores da república tratam processos judiciais sob o viés da medicina, sendo que o acusado, de sujeito de direitos passa a ser um câncer para as autoridades jurídicas. Não sem razão, o Procurador que chefia a operação lava-jato foi convidado a participar do 31º Congresso Brasileiro de Cirurgia, vestiu um jaleco branco, posou para fotos e foi aplaudido ao buscar na medicina a justificativa para sua atuação institucional.

Esta é uma expressão do positivismo italiano, da época pré-fascista, que dizia que um Estado não poderia prescindir do direito penal porque este constituiria um remédio a manter vivo seu organismo. É a velha invocação do Estado como organismo biológico vivo. Pura estultice autoritária.

A esquerda, salvo raríssimas e imprescindíveis exceções, aceitou o jogo punitivo. PT, PSOL e outros partidos não se deram conta das armadilhas punitivas que pisaram e apostaram no discurso punitivo com a intenção de combater o “crime organizado”, seja lá o que raios isso signifique. O termo “colocar a Rota na rua”, embora claro seus objetivos de extermínio da população pobre e negra que representa foi colocado no discurso de candidatos petistas para tentar agradar parte de um eleitorado que sempre o rejeitou.

O PT, ao assumir a presidência não teve um projeto de poder no sentido de se alterar as instituições, arejá-las aos ventos democráticos, retirar leis penais que sustentaram a ditadura e fazer a disputa política no campo jurídico que deveria ser feita.  Descuidou por desídia ou às vezes até por sintonia ideológica. O erro e a irresponsabilidade política como força hegemônica na esquerda ao relegar transformações no campo jurídico, não aprofundar reformas legais sob o viés da Constituição de 1988 e não indicar juristas comprometidos com uma visão libertária de mundo para cargos importantes do sistema de justiça foi fatal.

A esquerda descuidou do seu papel de formação de uma consciência jurídica crítica e agora assistimos, estarrecidos, ao uso do poder punitivo sem qualquer controle.

Lei dos Crimes Hediondos, nova Lei de Drogas, Lei das Organizações Criminosas, Lei do Terrorismo são alguns dos exemplos que contribuíram para o encarceramento em massa de pobres e para o caos penitenciário brasileiro.  Importante registrar que essas leis foram votadas com o apoio, inclusive, de partidos de esquerda.

Válido, neste ponto, lembrar o discurso do então deputado do PT, Plínio de Arruda Sampaio, quando da votação da Lei dos Crimes Hediondos:

“(…) Por uma questão de consciência, fico um pouco preocupado em dar meu voto a uma legislação que não pude examinar. (…) Tenho todo o interesse em votar a proposição, mas não quero fazê-lo sob a ameaça de, hoje à noite, na TV Globo, ser acusado de estar a favor do sequestro. Isso certamente acontecerá se eu pedir adiamento da votação.” – Deputado Plínio de Arruda Sampaio (PT)”.

É preciso, portanto, além de analisar criticamente as arbitrariedades cometidas na operação lava-jato, compreender as razões que levaram o sistema de justiça penal a tamanho retrocesso e o quanto dele se deu com o apoio ou complacência do próprio campo da esquerda.

Duas ações do Poder Executivo são emblemáticas da persistência nesses equívocos. A negociação no tema da maioridade penal, quando o governo topou aumentar o prazo de internação de crianças e adolescentes no Senado com a justificativa de receber apoio da bancada do PSDB para barrar a votação da PEC da maioridade na Câmara é sintomática.

Ainda que o apoio dos tucanos pudesse ocorrer, o que não se viu na prática, um governo de esquerda jamais poderia aceitar aumento do prazo de internação porque ademais de ineficaz para os fins pretendidos é uma tremenda contradição com uma visão de mundo de um partido ou governo de esquerda. Ao aceitar o jogo punitivo, a ação do governo acabou soprando a favor dos ventos punitivos que vinham da Câmara.

Outro equívoco inexplicável foi o envio da proposta que tipifica o crime de terrorismo. Já bastante esmiuçada as razões da sua desnecessidade por juristas sérios, no entanto, em um contexto de completo avanço das forças punitivas, o envio de projeto que criminaliza de forma aberta condutas só pode ser vista como disparate.

De modo que ao não ter claro um projeto de poder para o sistema de justiça, sequer uma visão unificada quanto as armadilhas que a ampliação do poder punitivo representa para as classes menos favorecidas, o PT perdeu uma histórica oportunidade de reformar as instituições e o aparato legislativo com vistas a compatibilizá-lo com a Constituição da República de 1988 e fundamentalmente com a ideologia de um partido de esquerda.

Fazer uma reflexão sobre a relação entre esquerda e poder punitivo é questão fundamental nos dias de hoje. Embora talvez seja um pouco tarde, refletir pode servir, ao menos, para se evitar a insistência no erro.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

As máquinas de vender intolerância e preconceito

Para compreender onda de fundamentalismo e crimes de ódio, que se espalha por países como EUA e Brasil, é indispensável examinar papel de certos programas de TV



O crescimento dos crimes de ódio é um fenômeno global. Sustentada por preconceitos e por valores fundamentalistas, temos observado uma onda de violência desmedida em diversos lugares do planeta, exatamente no momento em que explodem os meios de comunicação, o que, em tese, deveria garantir maior acesso à informação.
ataque a igrejas das comunidades negras nos Estados Unidos, o espancamento de casais homoafetivos nas metrópoles brasileiras ou, simplesmente, de pessoas que se acredita serem homoafetivos (como num caso recente onde pai e filho foram espancados por simples manifestação de carinho), o incêndio criminoso de mesquitas na França, o massacre diário de palestinos pelo governo de Israel, são apenas alguns exemplos de aberrações que vivenciamos todos os dias.
Pior do que isto, o simples ato de ser levantada opinião contrária à dos ofensores ou dos grandes meios de comunicação também acaba resultando em ameaças, perseguições e agressões. A internet, que deveria ser o caminho da disseminação das informações transformadoras, tem sido canal de propaganda da violência moral, da étnica, da sexual e da simbólica.
Se durante o Iluminismo a luta por liberdade de imprensa e de opinião resultou numa conquista sem precedentes para a humanidade, criando os alicerces para a derrubada de impérios absolutistas, no mundo contemporâneo, na maior parte das vezes, os meios de comunicação não oferecem suporte à democratização da sociedade. Infelizmente, não são raros os exemplos nos quais a mídia de massa funciona como elemento de fomento a ódios, preconceitos e violência desmedida, como no caso do nazismo, do fascismo, e da islamofobia instaurada depois de 11 de setembro.
Os meios de comunicação, especialmente os canais de televisão, cumprem um papel decisivo no fomento ao preconceito, especialmente através da construção de arquétipos, de personagens onde o oprimido é sempre objeto de piadas. Portanto, os grandes meios de comunicação, dominados por oligopólios e grupos conservadores, também são o ponto de partida para vários crimes de ódio.
Num evento pré-campanha eleitoral em 2014, a novela Meu Pedacinho de Chão, da Rede Globo de televisão, direcionada a um público infanto-juvenil, com primoroso trabalho estético e com rara qualidade de direção e interpretação, mesmo com sua projeção atemporal, apresentou todos os personagens negros como empregados, criticou o direito de voto dado aos analfabetos, uma conquista democrática de 1988, sem questionar a origem do problema, transformando trabalhadores analfabetos em pessoas desinteressadas na aprendizagem e converteu o Coronel, vilão da história, em herói redimido, num gritante retrocesso em relação ao roteiro da novela original, que foi construída sobre o alicerce da crítica social.
O que era para ser uma obra de arte, nos momentos citados foi palco para a disseminação de preconceitos de forma subliminar, e reforço para a campanha de ódio contra formas de pensar democráticas que é exercitado no dia a dia pelos telejornais da emissora. Por sinal, as novelas da Rede Globo, com raras exceções, sempre foram instrumentos de construção de arquétipos destinados ao controle dos avanços sociais. Vejam o exemplo “do bom e do mau sem-terra” no péssimo roteiro da reprisada novela O Rei do Gado, uma “obra-prima do preconceito”.
E aqui nem falo de uma recente novela das 18 horas (Buggy Uggy) ambientada na década de setenta, que tinha um militar moralista como “pai de família exemplar”, e não fez qualquer referência aos crimes praticados durante a “ditadura verde oliva” exercitados na mesma época. Também nem falo da reiterada imposição da “ditadura da maternidade” pelas novelas como única forma concreta de realização feminina. Normalmente as personagens que não sonham em ser mães são apresentadas como vilãs ou satirizadas, em síntese: mais uma forma de preconceito propagandeado.
Nesses folhetins televisivos vemos a construção de “bons políticos” que pregam discursos de um moralismo lamentável, enquanto passam o tempo todo convivendo de forma pacífica com seus parceiros e “bons correligionários”: latifundiários, grandes empresários, jornalistas com condutas duvidosas e famílias tradicionais. Ou seja, “nas novelas globais, o bom político é sempre aquele que defende o ideário e os interesses da emissora, mesmo que estes estejam em conflitos com o avanço da democracia”.
No ano de 2011, os canais da Discovery divulgaram um interessante documentário sobre o “perfilhamento racial” nos Estados Unidos e a forma como a polícia, mesmo em Illinois, reduto eleitoral de Barack Obama, continua prendendo pessoas de forma indiscriminada e sem justificativa com base em elementos étnicos, muitos dos quais terminam na morte dos acusados, sempre negros, pela ação policial.
Em algumas situações observamos a autovitimização do opressor como instrumento de pregação do preconceito e de perpetuação do poder dominante, como nos discursos inflamados de brancos contra as políticas de cotas e de ação afirmativa, ou a patética conduta de alguns parlamentares e religiosos brasileiros defendendo o “orgulho hétero”, num claro ato de homofobia.
Aliás, enquanto o direito civil caminhou durante milhares de anos, desde a sua matriz romano-germânica, para reconhecer que não existe direito “de família”, mas “de famílias”, em suas diversas formas, observamos a lamentável tentativa de retrocesso, com a tramitação no Congresso Nacional brasileiro, do projeto de lei do Estatuto da Família, mais um arremedo de fundamentalismo, sexismo e homofobia.
O uso de símbolos opressivos ainda é pouco enfrentado na sociedade brasileira, mesmo que a violência simbólica seja criminalizada na “Lei Maria da Penha”. Este tipo de violência ainda é visto por determinados setores da sociedade como não violência, como algo que afeta apenas a subjetividade das vítimas. Assim, a violência simbólica segue servindo como ponte para diversos tipos de preconceitos, ou como porta de passagem para a violência física sem nenhum tipo de controle.
Portanto, se formos buscar a fonte da disseminação inconsequente dos crimes de ódio, não poderemos deixar de questionar o papel dos meios de comunicação de massa, ou da ação de alguns ocupantes de assentos nos Parlamentos. Enquanto aceitarmos de forma acrítica que valores conservadores sejam impostos às nossas casas todos os dias pelo rádio, televisão ou internet, ou que o presidente da Câmara vá ao púlpito do Congresso para ofender minorias, ou negarmos a violência simbólica, ainda continuaremos convivendo com a chaga do preconceito.
no blog: http://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/as-maquinas-de-vender-intolerancia-e-preconceito-4823.html?utm_content=buffer71101&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer

segunda-feira, 22 de junho de 2015

É tempo de combater o ódio, a intolerância e o preconceito


Onã Rudá, UJS

“Diabo! Vai para o inferno! Jesus está voltando!”, gritavam os dois homens que com bíblia na mão agrediram um grupo de pessoas vestidas de branco e retornavam pra casa após uma festa de candomblé no bairro Vila da Penha no Rio de Janeiro, em seguida jogaram pedras e uma acabou acertando uma criança de 11 anos.

“Você recebeu treinamento militar?”, bradava Daniel Barbosa em um vídeo que ele mesmo fez abordando um Haitiano em um posto de gasolina na cidade de Canoas, região metropolitana de Porto Alegre.

“A Bíblia, na sua palavra, considera que tais praticantes (LGBT) são dignos de morte”, disse o Sargento Isidório que é deputado estadual na Bahia pelo PSC.

“Buceta fedida, teta preta, sociedade do anel” um cartaz que ligava o nome de alunas a “críticas” sexuais foi exposto em um espaço de estudantes na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq USP) e dividia as alunas, pelos seu “codinomes”, em tópicos vexatórios.

“Minha convicção não é só baixar de 18 para 16. Eu queria pegar mais um pouco, uma lasca desses menores bandidos, criminosos…” deputado e ex-delegado Laerte Bessa (PR-DF) relator da pec 171 na comissão especial.

“Petralha! Vai pra Cuba” jargão adotado pelos mais conservadores e disseminados contra toda e qualquer pessoa que se posicione a favor dos avanços obtidos nos últimos 12 anos, que lute contra opressões, defenda direitos humanos, enfim, toda e qualquer pessoa que vislumbre mudanças estruturantes e que combata as profundas desigualdades, e essa pessoa nem precisa ser Brasileira, basta ter uma posição que caminhe perto disso e assim até o papa já foi chamado de petralha e recomendada a mudança para o país caribenho.

Todos os dias notícias de expressões e ações bizarras de preconceito, intolerância e discriminação tem ganhado cada vez mais espaço nos meios de comunicação em especial na internet.

É notório o acirramento do discurso por parte dos mais conservadores e fundamentalistas em todos os espaços, inclusive no parlamento, onde esbravejam um discurso de ódio contra todos que lutam pra acabar com uma cultura de violência que está entranhada na nossa sociedade, e usando de argumentos mentirosos apregoam, entre outras coisas, que existe uma tentativa de “destruir a família brasileira”, implantar uma “ditadura” gay, que todo processo reparatório é uma garantia de privilégios a grupos.

A ação grotesca dos que querem perpetuar essa ordem social de profundas desigualdades, não se expressa só no discurso, que em muitos momentos leva a população a uma verdadeira histeria coletiva, e na execução da violência, mas opera também pra barrar avanços civilizatórios que nos faça caminhar na construção de uma república popular.

Recentemente a Senadora Lúcia Vânia em seu discurso de despedida do PSDB, partido qual fazia parte a 20 anos, disse “Não acredito em oposição movida a ódio” deixando bem nítido qual tem sido a motivação da oposição, principal financiadora e promotora desse discurso e se observarmos as emblemáticas manifestações que aconteceram no início de 2015 contra o governo e bancada pela oposição perceberemos tranquilamente essa faceta. Nas manifestações caminhavam pessoas que sequer sabiam o que aconteceriam em um eventual impeachment, caminhando junto com ex torturador que teve espaço pra falar no trio, suásticas expostas em faixas, agressões a jornalistas e pessoas que simplesmente usassem vermelho, discurso de preconceito e tantas outras coisas assustadoras.

A internet e as redes sociais por um lado tem se tornado uma ferramenta importante pra denunciar e até mesmo pra combater, por outro lado também são espaços onde mentiras são largamente compartilhadas.

Com o parlamento fechado às demandas sociais e a pouca representação popular nos espaços de poder, nos resta buscar caminhos alternativos pra descontruir e combater o ódio. Uma série de ações tem sido elaborada e executada por diversos grupos e movimentos, já surtindo efeitos, mas é preciso intensificar essa agenda de combate ao senso comum e pensar mecanismos que nos permitam dialogar mais amplamente com a sociedade."

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Razão e emoção


Nunca imaginei, nem nos momentos em que estive imerso nos pensamentos mais desesperançosos, que depois de ultrapassar a barreira dos 60 anos, num mundo repleto de maravilhas, estaria sentindo o desconforto espiritual daqueles que nada entendem, por mais que busquem as respostas para os enigmas que cotidianamente lhes são propostos.

Tolo, achei que com a idade viria a sabedoria, se não aquela dos iluminados, pelo menos a que proporciona ao homem comum a tranquilidade de ver os dias escorrerem sem sobressaltos pela ampulheta do tempo.

Confesso, porém, que, mais que nunca, estou tomado pela estupefação, pelo temor, e por uma ignorância absoluta da compreensão destes dias.


Será que o mundo enlouqueceu - se não todo, ao menos este colorido Brasil no qual vivo?

Ou será que a loucura que constato é apenas minha - como se sabe, os loucos são os últimos a saber de sua condição...

Volto ao tempo.

Lembro de como eu era há quatro décadas - um jovem idealista, mais ou menos sério, que tentava, por meio de seu trabalho, contribuir, de alguma forma, para melhorar a comunidade em que vivia, a sonolenta Jundiaí dos anos 70.

Sem saudosismo, apenas como modo de comparação, recordo que, naqueles anos, tinha a sensação de que as pessoas eram mais compreensivas, mais tolerantes, mais dispostas a conversar e, de certa forma, aceitar as diferenças dos outros.

Vejo o Coelho, o saudoso sociólogo Antônio Geraldo de Campos Coelho, um dos meus tipos inesquecíveis, abrigado detrás do balcão do Bar e Lanchonete Ponto Chic, discordar frontalmente da nossa visão de mundo - ele, um antimarxista extremado, nós, plenos de certezas com as convicções da juventude...

E discutíamos, apaixonadamente, sem que nenhum dos lados impusesse ao outro nenhuma palavra ofensiva, sem que houvesse nenhum resquício de ressentimento depois da cansativa refrega.

Discordávamos como discordam os homens civilizados - os copos de cerveja que tomávamos eram a nossa testemunha.

Não, a sociedade não era menos desigual que a de hoje - ao contrário, o fosso que separava os pobres dos ricos era ainda maior.

O que ocorria, não sei se pela educação que recebíamos em casa e na escola, é que pensávamos mais, refletíamos mais, nos informávamos mais - uma contradição em tempos sem a facilidade da internet...

E eramos, pelo menos aparentávamos ser, mais corteses e mais cordiais.

Retorno ao presente.

Dou uma espiada no Facebook, passo os olhos pelo Twitter.

E observo o ódio se espalhar, a intolerância aumentar, o preconceito crescer, a estupidez grassar e a violência dominar os corações - o brasileiro, parece, está em guerra contra seus próprios compatriotas, seus vizinhos, seus colegas de trabalho, seus amigos e seus familiares.

A minha porção racional tenta me tranquilizar - não julgue o todo pela parte, diz. É apenas uma minoria que está expondo suas frustrações, suas derrotas, seus fantasmas e seus traumas. Ela é barulhenta, mas não tem força para convencer ou influenciar os milhões que estão calados.

Antes fôssemos apenas razão...

Lá no fundo, no canto mais escondido do cérebro, a dúvida persiste - e se desta vez a emoção sobrepujar a razão?
Do: http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/06/razao-e-emocao.html

domingo, 1 de março de 2015

POR QUÊ A MÍDIA BRASILEIRA E O PSDB DETESTAM LULA:

Warum so viele Menschen in Brasilien nicht gerne Lula?”
Raul Longo
O rapaz perguntou no seu idioma com uma cara que me fez entender que achou nossa cerveja uma porcaria. Um alemão achar que a cerveja brasileira é ruim não é de estranhar, mas o que o Lula tinha a ver com isso? E Lula eu entendi! 

Já fiquei imaginando terem inventado que o filho do Lula é dono da maior cervejaria alemã também, mas logo a amiga me traduziu a pergunta do que o jovem alemão não consegue entender do pouco que já vai depreendendo do nosso idioma através da leitura de jornais, como costumam fazer os estrangeiros que aproveitam o turismo para ir adquirindo algum conhecimento do português.

Por que no Brasil não gostam do Lula?”

Expliquei que no Brasil muita gente gosta, sim, do Lula, mas que pela imprensa brasileira a impressão é outra pelos mais diversos motivos e enviaria para o endereço de e-mail alguns desses motivos que faz nossa Mídia odiar o Lula.

Aí encontrei uma matéria do Prof. Emir Sader que espero que a amiga consiga traduzir para o jovem alemão, mas para facilitar relacionei alguns desse motivos que fazem o Lula tão odiado por aqui:

·         Grã-Cruz da Ordem da Águia Asteca (México)7
·         Grã-Cruz da Ordem Amílcar Cabral (Cabo Verde)8
·         Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada (Portugal); 9
·         Grã-Cruz da Ordem da Estrela Equatorial (Gabão);10
·         Grã-Cruz de Cavaleiro da Ordem do Banho Reino Unido 11
·         Grã-Cruz da Ordem de Omar Torrijos (Panamá);12
·         Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito (Argélia);13
·         Grande-Colar da Ordem da Liberdade (Portugal);14
·         Grã-Cruz da Ordem de Boyacá (Colômbia);15
·         Grão-Colar da Ordem Marechal Francisco Solano López (Paraguai);16
·         Grã-Cruz com diamantes da Ordem do Sol do Peru (Peru);19
·         Prêmio Príncipe de Astúrias (Espanha); 22
·         Prêmio Internacional Don Quixote de la Mancha (Espanha); 24
·         Medalha de Ouro "Aliança Internacional Contra a Fome", do Fundo das Nações Unidas contra a Fome;25
·         Prêmio pela paz Félix Houphouët-Boigny da UNESCO, 2008;26
·         Estadista Global entregue pelo Fórum Econômico Mundial em sua edição 2010, ocorrida em Davos – Suíça; 27
·         Prêmio L 'homme de l 'année (Homem do Ano), entregue pelo jornal Le Monde (França), edição 2009;28
·         Prêmio Personalidade do Ano de 2009, entregue pelo jornal El País (Espanha);29 30
·         Prêmio Mikhail Gorbachev;31
·         Prêmio Chatham House 2009 do Reino Unido pela a atuação de Lula na América Latina;32
·         Prêmio Norte-Sul do Conselho da Europa.34
·         XXIV Prêmio Internacional Catalunha pelas políticas sociais e econômicas em seu mandato de Presidente do Brasil.35
·         Ordem Nacional da República Benin, a mais alta condecoração beninense, na cidade de Cotonou.36
·         Doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra (Portugal),38  pela Politécnica de Lausanne (Suíça40 , pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab)41 , pelo Sciences-Po (Institut d'Etudes Politiques de Paris)35 . Embora outras universidades nacionais e internacionais tenham feito diversos convites para que o então presidente recebesse a honraria, Lula recusou todos os títulos honoris causa enquanto ocupou a cadeira de chefe do estado brasileiro, passando a aceita-los apenas após deixar o cargo.37
Emir Sader: Por que eles têm medo do Lula?

Emir Sader, via Carta Maior
Lula virou o diabo para a direita brasileira, comandada por seu partido: a mídia privada. Pelo que ele representa e por tê-los derrotado três vezes sucessivas nas eleições presidenciais, por se manter como o maior líder popular do Brasil, apesar dos ataques e manipulações de todo tipo que os donos da mídia – que não foram eleitos por ninguém para querer falar em nome do País – não param de maquinar contra ele.
Primeiro, ele causou medo quando surgiu como líder operário, que trazia para a luta política aos trabalhadores, reprimidos e superexplorados pela ditadura durante mais de uma década e o pânico que isso causava em um empresariado já acostumado ao arrocho salarial e à intervenção nos sindicatos.
Medo de que essa política que alimentava os superlucros das grandes empresas privadas nacionais e estrangeiras – o santo do chamado “milagre econômico” – terminasse e, com ela, a possibilidade de seguirem lucrando tanto à custa da superexploração dos trabalhadores.
Medo também de que isso tirasse as bases de sustentação da ditadura – além das outras bases, as baionetas e o terror – e eles tivessem de voltar às situações de incerteza relativa dos regimes eleitorais.
Medo que foi se acalmando conforme, na transição do fim do seu regime de ditadura militar para o restabelecimento da democracia liberal, triunfavam os conservadores. Derrotada a campanha das diretas, o Colégio Eleitoral consagrou um novo pacto de elite no Brasil, em que se misturavam o velho e o novo, promiscuamente na aliança PMDB/PFL, para dar nascimento a uma democracia que não estendia a democracia às profundas estruturas econômicas, sociais e midiáticas do país.
Sempre havia o medo de que Lula catalisasse os descontentamentos que não deixaram de existir com o fim da ditadura, porque a questão social continuava a arder no país mais desigual do continente mais desigual do mundo. Mas os processos eleitorais pareciam permitir que as elites tradicionais retomassem o controle da vida política brasileira.
Aí veio o novo medo, que chegou a pânico, quando Lula chegou ao segundo turno contra seu novo queridinho, Collor, o filhote da ditadura. E foi necessário usar todo o peso da manipulação midiática para evitar que a força popular levasse Lula à Presidência do Brasil, da ameaça de debandada geral dos empresários se Lula ganhasse, à edição forjada de debate, para tentar evitar a vitória popular.
O fracasso do Collor levou a que Roberto Marinho confessasse que eles já não elegeriam um presidente deles, teriam que buscar alguém no outro campo, para fazê-lo seu representante. Se tratava de usar de tudo para evitar que o Lula ganhasse. Foram buscar ao FHC, que se prestou a esse papel e parecia se erigir em antidoto permanente contra o Lula, a quem derrotou duas vezes.
Como, porém, não conseguem resolver os problemas do País, mas apenas adiá-los – como fizeram com o Plano Real –, o fantasma voltou, com o governo FHC também fracassando. Tentaram alternativas – Roseana Sarney, Ciro Gomes, Serra –, mas não houve jeito.
Trataram de criar o pânico sobre a possibilidade da vitória do Lula, com ataque especulativo, com a transformação do chamado “risco Brasil” para “risco Lula”, mas não houve jeito.
Alívio, quando acreditaram que a postura moderada do Lula ao assumir a Presidência significaria sua rendição à politica econômica de FHC, ao “pensamento único”, ao Consenso de Washington. Por um lado, saudavam essa postura do Lula, por outro incentivavam os setores que denunciavam uma “traição” do Lula, para buscar enfraquecer sua liderança popular. No fundo acreditavam que Lula demoraria pouco no governo, capitularia e perderia liderança popular ou colocaria suas propostas em prática e o país se tornaria ingovernável.
Quando se deram conta que Lula se consolidava, tentaram o golpe em 2005, valendo-se de acusações multiplicadas pela maior operação de marketing político que o País já conheceu – desde a ofensiva contra o Getulio, em 1954 –, buscando derrubar o Lula e sepultar por muito tempo a possibilidade de um governo de esquerda no Brasil. Colocavam em prática o que um ministro da ditadura tinha dito: Um dia o PT vai ganhar, vai fracassar e aí vamos poder governar o País sem pressão.
Chegaram a cogitar um impeachment, mas tiveram medo do Lula, de sua capacidade de mobilização popular contra eles. Recuaram e adotaram a tática de sangrar o governo, cercando-o no Parlamento e por meio da mídia, até que, inviabilizado, fosse derrotado nas eleições de 2006.
Fracassaram uma vez mais, quando o Lula convocou as mobilizações populares contra os esquemas golpistas, ao mesmo tempo que a centralidade das políticas sociais – eixo do governo Lula, que a direita não enxergava, ou subestimava e tratava de esconder – começava a dar seus frutos. Como resultado, Lula triunfou na eleições de 2006, ao contrário do que a direita programava, impondo uma nova derrota grave às elites tradicionais.
O medo passou a ser que o Brasil mudasse muito, tirando suas bases de apoio tradicionais – a começar por seus feudos políticos no nordeste –, permitindo que o Lula elegesse sua sucessora. Se refugiaram no “favoritismo” do Serra nas pesquisas – confiando, uma vez mais, na certeza do Ibope de que o Lula não elegeria sua sucessora.
Foram de novo derrotados. Acumulam derrota atrás de derrota e identificam no Lula seu grande inimigo. Ainda mais que nos últimos anos do seu segundo mandato e na campanha eleitoral, Lula identificou e apontou claramente o papel das elites tradicionais, com afirmações como a de que ele demonstrou “que se pode governar o Brasil, sem almoçar e jantar com os donos de jornal”. Quando disse que “não haverá democracia no Brasil, enquanto os políticos tiverem medo da mídia”, entre outras afirmações.
Quando, depois de seminário que trouxe experiências de regulações democráticas da mídia em várias partes insuspeitas do mundo, elaborou uma proposta de lei de marco regulatório para a mídia, que democratize a formação da opinião pública, tirando o monopólio do restrito número de famílias e empresas que controlam o setor de forma antidemocrática.
Além de tudo, Lula representa para eles o sucesso de um presidente que se tornou o líder político mais popular da história do Brasil, não proveniente dos setores tradicionais, mas um operário proveniente do nordeste, que se tornou líder sindical de base desafiando a ditadura, que perdeu um dedo na máquina – trazendo no próprio corpo inscrita a sua origem e as condições de trabalho dos operários brasileiros.
Enquanto o queridinho da direita partidária e midiática brasileira, FHC, fracassou, Lula teve êxito em todos os campos – econômico, social, cultural e de políticas internacionais –, elevando a autoestima dos brasileiros e do povo brasileiro. Lula resgatou o papel do Estado – reduzido à sua mínima expressão com Collor e FHC – para um instrumento de indução do crescimento econômico e de garantia das políticas sociais. Derrotou a proposta norte-americana da Alca – fazer a América Latina uma imensa área de livre comércio, subordinada aos interesses dos EUA –, para priorizar os projetos de integração regional e os intercâmbios com o Sul do mundo.
Lula passou a representar o Brasil, a América Latina e o Sul do mundo, na luta contra a fome, contra a guerra, contra o monopólio de poder das nações centrais do sistema. Lula mostrou que é possível diminuir a desigualdade e a pobreza, terminar com a miséria no Brasil, ao contrário do que era dito e feito pelos governos tradicionais.
Lula saiu do governo com praticamente toda a mídia tradicional contra ele, mas com mais de 80% de apoio e apenas 3% de rejeição. Elegeu sua sucessora contra o “favoritismo” do candidato da direita.
Aí acreditaram que poderiam neutralizá-lo, elogiando a Dilma como contraponto a ele, até que se rendem que não conseguem promover conflitos entre eles. Temem o retorno do Lula como presidente, mas principalmente o temem como líder político, como quem melhor vocaliza os grandes temas nacionais, apontando para a direita como obstáculo para a democratização do Brasil.
Lula representa a esquerda realmente existente no Brasil, com liderança nacional, latino-americana e mundial. Lula representa o resgate da questão social no Brasil, promovendo o acesso a bens fundamentais da maioria da população, incorporando definitivamente os pobres e o mercado interno de consumo popular à vida do país.
Lula representa o líder que não foi cooptado pela direita, pela mídia, pelas nações imperiais. Por tudo isso, eles tem medo do Lula. Por tudo isso, querem tentam desgastar sua imagem. Por isso 80% das referências ao Lula na mídia são negativas. Mas 69,8% dos brasileiros dizem que gostariam que ele volte a ser presidente do Brasil. Por isso eles têm tanto medo do Lula.

No: http://anncol-brasil.blogspot.com.br/2015/03/por-que-midia-brasileira-e-o-psdb.html