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segunda-feira, 11 de maio de 2020

BOLSONARO E O FIM DO BRASIL – 1



Entender a ascensão de Jair Bolsonaro ao poder é tarefa demasiadamente complexa, daí a impossibilidade de esgotar o assunto neste enxuto texto. 

Mas, pode-se fornecer algumas linhas gerais a respeito do fenômeno Bolsonaro, mostrando que, de modo nenhum, sua ascensão terá sido um acaso histórico. 

É importante demonstrar a não casualidade do governo Bolsonaro justamente para dissipar ilusões a respeito da superação da estrutura a ele associada simplesmente com a saída do presidente do poder. Bolsonaro é expressão de algo muito mais profundo e decisivo no capitalismo brasileiro.

Um capitalismo cujo ponto de inflexão situa-se em 1964. Naquele ano, havia uma encruzilhada para o país entre aprimorar um desenvolvimento autônomo e nacionalista ou seguir um desenvolvimento subalterno e dependente das burguesias centrais. Noutras palavras, havia uma disputa entre revolução e contrarrevolução. 

A vitória das forças contrarrevolucionárias selou o destino do Brasil. A partir dali o país seguiu um modelo de desenvolvimento subalterno, excludente e predatório. A industrialização nacional foi pautada inteiramente na instalação de multinacionais via subsídio estatal. 

A burguesia nacional abdicou por completo de criar qualquer tipo de capitalismo próprio por aqui, resignando-se a ser mera sócia minoritária do capitalismo central e assumindo, em termos políticos, uma posição visceralmente reacionária.

A ditadura militar foi a imposição, a ferro e fogo, da contrarrevolução permanente. Quando ela acaba, a nova democracia surge de seu interior com limites claramente delimitados: não se pode tocar na estrutura socioeconômica herdada do antigo regime.  

Como consequência, por mais avançada que tenha sido, a carta constitucional de 1988 já nasceu como letra morta. Seu ideário social-democrata jamais poderia se concretizar face à rigidez do solo pedregoso do Brasil. 

A saída, para as novas forças democráticas, foi embarcar no que chamo de cidadanismo, sobre o que já falei em meu texto de estreia no Naufrago. O cidadanismo foi justamente a crença, triunfante entre a esquerda, de que seria possível modificar o país com medidas administrativas, sem, no entanto, tocar na estrutura socioeconômica reacionária. 

Este processo era tocado mediante um pacto:adotavam-se medidas de compensação social, enquanto o regime de super exploração social continuava e era aprofundado. 

O fracasso do modelo industrial dependente impeliu a burguesia brasileira a retomar seu extrativismo agromineral e a avançar na financeirização da economia. O Brasil passou de aspirante a fábrica do mundo a exportador primário, enviando para fora minérios, grãos e dólares. 

No lugar da indústria, portanto, surgiu um tripé exportador de recursos minerais, agrícolas e financeiros. 

A esquerda – primeiro com FHC, depois com o PT – não apenas aceitou tal situação, como também ajudou ativamente a implanta-la, avançando com privatizações, alargamento da fronteira agrícola, do extrativismo mineral e do sistema financeiro. 

Se a ditadura havia tido seu milagre, também o teve o regime da Nova República, durante o segundo governo Lula, quando o tripé acima mencionado entrou em perfeito equilíbrio. 

As exportações agromineirais bombavam, gerando divisas capazes de manter o cambio a um preço irrisório. Este barateava a importação de produtos industriais, a qual, associada à expansão do crédito por causa da financeirização, garantia uma vida melhor, com padrões de consumo aceitáveis, para milhões de pessoas. Foi o milagre lulista.

Mas, no capitalismo, todo equilíbrio é efêmero. Logo chegou a crise de 2009 e, com ela, a desvalorização das commodities, a pressão sobre o cambio e o encarecimento do crédito. O Brasil começou a entrar em parafuso e o resultado foi a derrocada do regime da Nova República com o impeachment de Dilma. 

No entanto, durante todo este período, a estrutura social e econômica herdada do golpe de 64 permaneceu não apenas inalterada, como também foi reforçada, ganhando profundidade e capilaridade. 

Tampouco as forças reacionárias ficaram sentadas assistindo a execução do pacto pela frente da Nova República. Enquanto a esquerda queimava seu capital político, tais forças trabalhavam para arruinar o texto constitucional e deixa-lo à imagem do mundo real. 

Não à toa, conforme observa Vladimir Safatle, o congresso nacional brasileiro é um parlamento permanentemente reformador: desde 1988 vem mantendo uma média ao redor de três emendas constitucionais por ano. PEC é o normal da legislatura em Brasília. 

Cada PEC reacionária aprovada era seguida por outra, sempre avançando no caminho de constitucionalizar a realidade contrarrevolucionária. Isto até chegarmos a PEC suprema, a teto de gastos, a qual simplesmente transformou o texto socialdemocrata em letra completamente morta. 

O regime da Nova República se assemelhava a uma árvore infectada por parasitas. Por fora, verde e esplendorosa; mas, por dentro, completamente oca e tomada por vermes. (por David Emanuel de Souza Coelho)
(continua)

quinta-feira, 12 de março de 2020

DE HORA EM HORA A SITUAÇÃO DO BOZO PIORA E MAIS GENTE O QUER VER FORA


igor gielow
TÁTICA KAMIKAZE DE BOLSONARO PODE DEIXAR PRESIDENTE SOZINHO NO PALCO
Num espaço de dez dias, dois governadores de estado importantes disseram a interlocutores não acreditar que o presidente Jair Bolsonaro chegue ao final do mandato —quiçá ao fim deste ano.

Nenhum deles morre de amor pelo inquilino do Planalto, mas são aderentes de leituras usualmente sóbrias da realidade política. Têm ojeriza a processos de impeachment, que de resto não veem como opção agora. Deixam o quanto pior, melhor para seus colegas à esquerda.

Isso não quer dizer que não façam avaliações. Os motivos apresentados pelos governantes foram diversos, mas convergem para a ideia de que a governabilidade ora precária está se tornando inexistente.

Bolsonaro, como se sabe, está em conflito com o Congresso e dobrou a aposta no radicalismo de sua base mais aguerrida. Explicitou o apoio que antes negara ao protesto de domingo (15), fazendo um hedge ao dizer que ele também deveria ser um dos cobrados.

Não enganou ninguém. A manifestação democrática a que se refere, da voz do povo como dizem seus apoiadores, tem como itens centrais o palavrão dito pelo general Augusto Heleno, a crítica ao Congresso e mesuras como o fechamento de instituições.

Claro que direito de ir à rua é livre. Cabe lembrar que os protestos que ajudaram a derrubar Dilma Rousseff no biênio 2015-16 também incluíam em suas franjas toda sorte de boitatás que hoje proliferaram e viraram majoritários numa certa direita brasileira: defensores de intervenção militar, gente que celebra a suspeita de coronavírus se a vítima for alguém de quem não gosta, por aí vai.
Mas o centro das manifestações, concorde-se ou não com elas, nunca esteve nesse pessoal. Havia um caldo de insatisfação antipolítica brotado em 2013 associado à hecatombe econômica dilmista.

Já o ato insuflado pelo presidente orbita a acusação de um Poder contra outros. Isso para não falar nas bolas extras ofertadas pelo presidente, como a bizarra acusação de fraude sobre o Tribunal Superior Eleitoral. Ponto.

Que Bolsonaro levará gente à rua, há poucas dúvidas, ele ainda tem um naco respeitável do eleitorado. Será uma estrondosa demonstração de apoio popular à agenda do presidente contra a malvada classe política?

Parece improvável, a começar pelo fato de que ninguém sabe de que agenda se trata, fora os delírios e os retrocessos. O engasgo econômico atinge diretamente a classe média que costuma ir a essas manifestações. Já as reformas, bem, nessas nem mesmo os antes empolgados operadores da Faria Lima têm colocado muita fé.

Tanto é assim que os alvos potenciais estão quietos, apostando em que a coisa se esvaia de forma natural. A ver.

Segundo essa leitura, novamente o presidente emula seu antípoda, Lula. O petista passou anos ameaçando o uso do exército do Stédile, para ficar na massa de manobra miserável do campo, para impressionar elites, políticos e os militares ora sequestrados pelo bolsonarismo. Era nada, vento.

O que o presidente faz é assoprar a brasa antiestablishment que tão bem operou em 2018.

A questão é a percepção de que isso já não é suficiente ante a incapacidade do governo de encarar de forma adulta o desafio de lidar com nossos problemas enquanto o mundo desaba sob as brumas apocalípticas do coronavírus, da guerra do petróleo e todo o mais.

O bolsonarismo mais ideológico, com o perdão às ideologias, sempre gostou desse tom de Götterdämmerung inevitável, de embates épicos comandados por seu líder, da mística do sangue derramado em Juiz de Fora.

Muitos políticos ainda creem ser possível uma reversão parcial do quadro, justamente por compartilhar com os governadores supracitados a falta de ânimo com uma ruptura maior. É uma abordagem prudente. 

Mas se insistir na rota atual, Bolsonaro poderá cumprir a previsão dos chefes estaduais e acabar sozinho no palco, num teatro esvaziado. (por Igor Gielow)



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

RENAN CALHEIROS NÃO PRESIDE MAIS O SENADO; ISTO NÃO BASTA PARA O BRASIL DEIXAR DE SER REPÚBLICA DAS BANANAS.


O Senado era presidido por Renan Calheiros, cidadão há muito envolvido em episódios nebulosos ( e que teve de renunciar sob vara à presidência da mesma casa legislativa em 2007, o que não impediu os nobres colegas de a ela o reconduzirem em 2013). 

Como leopardos não perdem as pintas, ei-lo encalacrado de novo. Como é quase certo que a decisão provisória de Marco Aurélio Mello será confirmada pelo pleno, cabe indagarmos quanto vai durar o ostracismo de Calheiros desta vez. Apenas mais seis anos?

Independentemente de delitos cometidos ou a ele atribuídos, Calheiros recentemente se colocou na berlinda por extrapolar flagrantemente as atribuições do seu cargo:
  • quando articulou com Ricardo Lewandowski, do STF, a não cassação dos direitos políticos de Dilma Rousseff, embora a aprovação definitiva do seu impeachment  a tornasse obrigatória (seria, na minha opinião, uma medida draconiana e desnecessária, mas nenhum dos dois personagens tinha poderes, à luz da Constituição, para tomar tal decisão);
  • ao articular no Senado a completa descaracterização das medidas de combate à corrupção recém-aprovadas, parecendo até (com uma das alterações) querer tolher e intimidar  os futuros juízes dos seus processos.
Deve perder não apenas a presidência do Senado, como também o mandato e, provavelmente, a liberdade. Mas, depois que a onda moralista passar, tende a renascer das cinzas, como ele próprio, seu velho parceiro Collor e tantos outros já conseguiram.

Seu substituto está sendo pressionado a agir como militante do partido a que pertence, desmarcando uma segunda votação já agendada para data próxima. 

Mais uma vez, deixo claro que, por força de convicções que tenho defendido durante toda a minha vida consciente, sou totalmente contrário a ajustes fiscais, redução de direitos trabalhistas e quaisquer outros austericídios
Mas, o vale-tudo que se instalou na política brasileira, com cada personagem agindo como bem lhe dá na telha, sem o mínimo respeito pelos limites dos seus poderes e pela liturgia do seus cargos, comportando-se como se não passasse de um troglodita organizadodos estádios de futebol, faz da pátria (mal) amada uma mera república das bananas.

Daí estarmos cada vez mais embananados, sem solução à vista para uma recessão que sacrifica terrivelmente nosso povo e o está levando ao desespero. Até quando?!
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sábado, 19 de novembro de 2016

REDEMOCRATIZAÇÃO PELA METADE DÁ NISSO!

A meia centena de viúvas da ditadura grunhindo e zurrando no plenário do Congresso Nacional assustou o articulista Vladimir Safatle, professor de filosofia na USP, inspirando-lhe um alerta agourento: "Nada morreu, tudo pode retornar". 

Parece que as vitórias do Brexit e de Trump deixaram nossa intelligentsia à beira de um ataque de nervos, tendo pesadelos com Bolsonaro no papel de Hitler brasuca, prontinho para implantar o 3º reich (depois dos de Vargas e dos generais). 

Há um tanto de exagero nesses receios, não só por se tratarem de épocas e crises diferentes, como também porque seria a repetição da História já nem mais como farsa, mas sim como chanchada da Atlântida...

Evidentemente, concordo com Safatle quanto à imperdoável omissão dos governantes brasileiros que deixaram de revogar a anistia de 1979, abrindo caminho para a apuração e punição dos crimes cometidos pelas forças repressivas durante a ditadura militar. Era algo a ser feito tão logo o País se redemocratizasse, mas a uns faltou convicção e a outros, coragem. 

Collor, provavelmente, simpatizava com os pitbulls do arbítrio. Sarney, como governador e senador, servira repulsivamente ao regime de exceção que lhes retirou as focinheiras. Itamar Franco não era homem para comprar tal briga. Mas FHC, Lula e Dilma ficaram com suas biografias manchadas para sempre. 

Quem teve de exilar-se e quem chegou a ser preso durante aquela ditadura jamais poderia sair pela tangente para evitar problemas, como os pusilânimes fazem; estava moralmente obrigado a defender os valores civilizados, custasse o que custasse!

FHC amarelou e, comoprêmio de consolação para os humilhados e ofendidos, instituiu programas de concessão de reparações às famílias dos assassinados e aos sobreviventes do morticínio. 

Lula se apavorou com uma nota oficial do Alto Comando do Exército (vide aqui) que não passava de blefe e, ao invés de destituir imediatamente os insubmissos, determinou a seus ministros que ficassem em cima do muro, nem sim nem não, muito pelo contrário, apontando aos que tinham sede de Justiça o caminho dos tribunais. 

O Supremo Tribunal Federal tomou em 2010 uma das decisões mais infames de sua história (na contramão do entendimento sobre crimes contra a humanidade que vem se consolidando mundialmente desde o Julgamento de Nuremberg), ao outorgar a déspotas o direito de anistiarem a si próprios e aos seus esbirros com o arbítrio em  plena vigência. 

Dilma ignorou a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre a necessidade de apuração integral da chacina do Araguaia e sobre a não-validade de autoanistias promulgadas por ditadores, montando, como alternativa meramente propagandística, uma comissão da verdade engana-trouxas. 

Em meados de 2008 (vide aqui), percebendo que a falta de vontade política para se punir os algozes dos anos de chumbo inviabilizaria seu merecido encarceramento, eu já tentava convencer a esquerda e os cidadãos com espírito de Justiça a adotarem uma postura mais flexível: exigirem a condenação dos culpados, mas relevarem o cumprimento das penas, eliminando o ingrediente emocional que lhes poderia granjear alguma solidariedade na caserna.

Ou seja, como o Estado brasileiro demorara uma eternidade para fazer o que lhe competia e os réus, ou já haviam morrido, ou tendiam a falecer em breve, além de não representarem mais perigo para a sociedade, então que se concertasse alguma iniciativa no sentido da condenação inequívoca da ditadura de 1964/85, considerando criminosos os torturadores e seus mandantes, mas permitindo (sob pretextos humanitários, em funçao da idade avançada, etc.) que terminassem a vida fora das grades. 

Propus, portanto, abdicarmos do que (saltava aos olhos!) jamais conseguiríamos mesmo obter, em troca do encerramento da questão em termos minimamente aceitáveis, legando um precedente jurídico correto para os pósteros.

Clamei no deserto, claro, porque no Brasil as bravatas que invariavelmente conduzem às derrotas tendem a prevalecer sobre a sensatez que permite salvar algo do incêndio.

E é graças aos erros por nós cometidos no passado que as atrocidades totalitárias voltaram a ser bandeira dos rancorosos anônimosComo ressaltou Safatle:
"Esse é o preço pago pelo Brasil ser um país incapaz de encarar seu passado ditatorial, prender torturadores, exigir das forças armadas um mea-culpa pelo golpe contra a democracia, retirar o nome de membros da ditadura de suas praças e estradas, ensinar a seus jovens o desprezo por intervenções militares...
Não nos enganemos. Essas pessoas que estão a vociferar por mais um golpe de Estado não estão expressando uma opinião. Clamar por golpe militar não é uma opinião. É um crime, o pior de todos os crimes em uma democracia. Quem quer a causa quer os efeitos. Quem pede por golpe militar está a gritar por assassinato, tortura, ocultação de cadáver, censura, estupro, terrorismo de Estado.
Em qualquer democracia mais ou menos consolidada no mundo, o lugar dessas pessoas seria na cadeia, por sedição e incitação a crime".
Veio, assim, ao encontro do que proponho desde a década passada: que apologias da ditadura passem a receber no Brasil o mesmo tratamento jurídico dado à negação do Holocausto nos países civilizados (talvez substituindo as penas de prisão por prestação de serviços à comunidade, pois as condições das penitenciárias daqui são tão terríveis que nelas correriam risco de vida, algo que nem mesmo os pregadores do ódio merecem).

terça-feira, 8 de novembro de 2016

PARA BOM ENTENDEDOR, GILMAR MENDES ANTECIPOU QUE SÓ DILMA SERÁ CONDENADA PELO TSE.

Entrevistado pelo jornal Valor em Washington, o ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral Gilmar Mendes não teve a mínima preocupação em deixar dúvidas sobre qual será a decisão da Justiça Eleitoral com relação à chapa vencedora na última eleição presidencial: ela será mesmo impugnada pelo TSE. 

É o que se depreende de suas afirmações, segundo as quais:
  • a campanha da ex-presidente Dilma Rousseff teria custado quatro vezes mais do que o valor declarado;
  • teriam sido descobertas várias ilegalidades, como doações de empresas cujas receitas não demonstram capacidade para fazer aportes e de pessoas físicas que recebem pelo programa Bolsa Família e, portanto, não estariam em condições de doar; e
  • certas doações teriam sido, na verdade, parte de pagamento por obras com a Petrobrás (casos levantados pela Operação Lava-Jato e repassados ao TSE).
Depois, ao afirmar que "o tribunal terá de fazer a avaliação levando em conta um quadro de grande responsabilidade institucional", Mendes deu uma óbvia pista de que o TSE vai aceitar a tese da separação de contas, poupando o vice e condenando apenas a cabeça de chapa.

Dilma Rousseff poderá, inclusive, ter seus direitos políticos cassados, independentemente de o Senado Federal ter decidido em contrário no julgamento do impeachment.

Se Mendes dissesse, p. ex., que lei é lei e precisa ser integralmente cumprida, sinalizaria punição também para Michel Temer; já ao aludir àgrande responsabilidade institucional, dá a entender que, para não tumultuar ainda mais o cenário político e agravar a crise econômica com uma nova troca de presidente (agora por via indireta), será melhor deixar tudo como está.
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/11/para-bom-entendedor-gilmar-mendes.html

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

FHC VAI PARA O TRONO OU NÃO VAI?


Graziano costuma atrair holofotes
Xico Graziano, que assessorava Fernando Henrique Cardoso quando este era presidente da República, praticamente lançou a campanha para o 3º mandato, em artigo que escreveu para a Folha de S. Paulo, cujo título já diz tudo: Volta, FHC.

Eis o trecho culminante:
"Qual liderança poderá recolocar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento? Como fazer a reforma política tão desejada? Quem conseguirá estabelecer conexão com a sociedade organizada nas redes? É o que todos querem saber.
Creio que somente o ex-presidente FHC se legitima, pela vasta experiência, sensatez e sabedoria, para nos conduzir nessa difícil travessia",
Graziano fez o serviço completo: apontou o idoso sociólogo como o melhor nome tanto na eleição indireta de um presidente-tampão até 2018 (caso o Tribunal Superior Eleitoral condene os dois integrantes da chapa vencedora em 2014), quanto na disputa nas urnas que haverá se Temer cumprir o mandato até o fim. Com os pés ou com as mãos, o Corinthians é campeão...

Numa resposta enviada do exterior por escrito, FHC desconversou: "Jamais cogitei dessa hipótese nem ninguém me consultou sobre o tema".

Já por telefone, foi curto e grosso:  "Não. A Presidência abrevia a morte".

Brigou com as palavras, como notou o jornalista Jânio de Freitas: "O que a Presidência pode abreviar não é a morte, é a vida. À morte, poderia antecipá-la". 
Teremos um recordista do Guinness Book?

E ficou parecendo um homem público um tanto poltrão. Afinal, aos 85 anos, a vida que lhe resta é tão importante a ponto de, por receio de perdê-la, recusar-se a prestar um último serviço ao País? 

Enfim, pode ser apenas uma manobra de quem não quer ver Geraldo Alckmin bombando no noticiário como está desde que elegeu o poste João Doria. Colocar outro nome na parada serviria para baixar um pouco a bola do Sr. Pinheirinho, pouco importando se os planos de FHC forem outros.

Já no caso de ser mesmo um balão de ensaio, valeria a pena FHC ponderar sobre esta avaliação da jornalista Eliana Cantanhêde:
"Quem alardeia essas ideias pirotécnicas, ou piromaníacas, de derrubar Michel Temer para pôr Fernando Henrique no lugar já pensou em quem, como, onde e por quê? 
O colégio eleitoral seria o Congresso, onde, logo, logo, mais de uma centena de camaradas estarão na fila da Lava Jato. A reação automática seria que o PSDB tirou Dilma e pôs Temer para, aí, sim, dar um golpe. E a economia, a política, a imagem do País e a paciência da sociedade explodiriam de vez"
do:  https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/11/fhc-vai-para-o-trono-ou-nao-vai.html

domingo, 23 de outubro de 2016

VIRADA IDEOLÓGICA ONDE, CARA PÁLIDA?

http://anovademocracia.com.br/170/03.jpg
Alguns analistas de meia tigela, daqueles que só veem as coisas e os acontecimentos pela aparência, chegaram a afirmar que a substituição de Dilma Rousseff por Michel Temer tratava-se de uma grande virada ideológica.
QUE IDEOLOGIA É ESSA?
Afirmação dessa natureza só poderia vir de alguém que esteve ausente do planeta nos últimos 13 anos e meio. Alguém que não viu Luiz Inácio assinar a “carta aos brasileiros”; que não viu o gerenciamento petista dar prosseguimento ao de Cardoso na condução da política de subjugação nacional; que não viu a dívida pública saltar de cerca de 600 bilhões de reais para mais de três trilhões de reais; que não viu a promessa de reforma agrária ser substituída pelos acordos com o agronegócio; que não viu a desindustrialização e a primarização da produção nacional; que não viu a educação superior ser entregue a grupos privados, inclusive, internacionais; que não viu a cooptação das centrais sindicais com sua corporativização para possibilitar a perda de direitos trabalhistas e previdenciários dos trabalhadores; que não viu a armadilha consumista do crédito fácil para favorecer a indústria automobilística e da linha branca, transnacionais, em detrimento das reais necessidades do povo; que não viu as empreiteiras serem favorecidas com megaprojetos de interesse de mineradoras, principalmente, em prejuízo de populações indígenas, camponesas e quilombolas; etc...
O PRISMA DA LUTA DE CLASSES
Desde quando a sociedade dividiu-se em classes antagônicas que o posicionamento ideológico dos indivíduos e dos partidos correspondem aos interesses de um ou de outro lado das classes em luta.
Sendo a característica principal do Estado o uso da força para submeter as classes dominadas, o que dizer do discurso de Dilma inaugurando uma “Unidade de Polícia Pacificadora” (UPP) no Rio de Janeiro, ocasião em que ela disse estar encantada com as UPPs, dizendo que as implantaria em todo o país? E mais, o que dizer do envio da “Força Nacional de Segurança” para reprimir e matar os indígenas em luta e os camponeses, como ocorreu no gerenciamento da petista Ana Júlia Carepa no Pará, entre 2007 e 2011.
O prisma da luta de classes, objetivamente, é o definidor da posição ideológica de indivíduos e partidos. Assim, não precisa ser “cientista político” (talvez melhor não sê-lo) para examinar os procedimentos relacionados acima e concluir que os dois lados dessa pugna jogam água no moinho do latifúndio, da grande burguesia e do imperialismo. Estão, pois, em total consonância com a ideologia burguesa.
Diz o dito popular que ninguém pode servir a dois senhores. Supondo, como querem os analistas de meia pataca, que tenha havido uma virada ideológica: como justificar a presença de Henrique Meirelles, agente do FMI, presente em dois mandatos de Lula e agora estando como “superministro” de Michel Temer?
Em se tratando dos interesses fundamentais do povo e da Nação brasileiros, que diferença pode ser apontada diante da comparação do gerenciamento de turno petista com os demais que o antecederam e, também, deste seu temeroso sucessor? Nenhuma diferença, pois, os fundamentos do apodrecido sistema político brasileiro estão dados pelo seu caráter semifeudal e semicolonial. Condição que o PT e seus congêneres oportunistas eleitoreiros aceitam e reproduzem. Condição que não pode ser quebrada pelo oportunismo, porque para fazê-lo pressupõe uma revolução a qual eles renegam por desfraldarem a bandeira da burguesia, com seus mitos de “democracia como valor universal” e “Estado democrático de direito”.
MATRIZ IDEOLÓGICA
A natureza do Estado de uma sociedade define sua matriz ideológica, pois, estando sob o domínio de determinadas classes, a sua ideologia reflete a ideologia das classes que o dominam. Assim, na medida em que durante os últimos 13 anos e meio o “Partido dos Trabalhadores” prestou inestimáveis serviços ao latifúndio, à grande burguesia e ao imperialismo, como poderia haver uma virada ideológica ou, como sugerem os petistas, um “golpe de Estado” se, sob o gerenciamento de turno de Temer, a natureza do Estado não sofreu e nem sofrerá qualquer mudança, como não sofreu quando Cardoso passou a faixa presidencial a Luiz Inácio?
A IDEOLOGIA BURGUESA DO PT
Sinceramente, fazendo uma análise concreta da situação concreta, como propunha Lenin, responda, caro leitor: tirante algumas propostas aprovadas em congressos “pra inglês ver”, as quais jamais foram postas em prática nos gerenciamentos petistas, o que teve, na prática petista, de ideologia proletária ou popular?
Ao usar e abusar de termos como “republicano”, “democrático e popular” etc., os oportunistas do PT, pecedobê e assemelhados, na verdade, encobrem sua ideologia burguesa com fraseologia oca.
REVOLUÇÃO DEMOCRÁTICA E NOVA DEMOCRACIA
A ideologia proletária, ao contrário da ideologia burguesa com seus mitos, é verdadeira por ser científica, e é científica por ser ancorada no materialismo histórico e dialético. Colocando a prática como critério da verdade, ela aponta para o fato de que só através da Revolução Democrática, Agrária e Anti-imperialista, a Nova Democracia, as nações oprimidas e exploradas pelo imperialismo, como o Brasil, poderão se libertar, completando a própria formação nacional, alcançando a soberania enquanto Nação e a verdadeira democracia. Seu programa propõe revolver os fundamentos da velha sociedade e do apodrecido Estado, liquidando os privilégios seculares das classes dominantes, alocando os recursos provenientes da produção nacional em favor do melhoramento geral e imediato da vida do povo massacrado na velha ordem semicolonial/semifeudal de exploração e opressão.
http://www.jornalorebate.com.br/opiniao/13265-virada-ideologica-onde-cara-palida

SE A ESQUERDA NÃO REASSUMIR A LUTA DE CLASSES, CONTINUARÁ PATINANDO SEM SAIR DO LUGAR... À BEIRA DO ABISMO!

Dois dias antes de o Senado mandar Dilma Rousseff para casa, mas tendo absoluta certeza de que seria este o desfecho do espetáculo mambembe encenado em Brasília, lancei no blogue Náufrago da Utopia uma discussão sobre os novos rumos que a esquerda deveria tomar, após suas ilusões reformistas e eleitoreiras a terem conduzido à mais acachapante derrota desde a rendição sem luta de 1964. Passados 26 dias, não tenho nada a subtrair ou acrescentar ao artigo inicial daquela série, que republico abaixo, como indicação do cenário ideal para a esquerda nos dias atuais.

Em seguida, reproduzo a coluna semanal de Demétrio Magnoli, dando uma pincelada nas inclinações da esquerda após o vendaval. Melancolicamente, o quadro nela mostrado (o cenário funesto) faz lembrar o cínico conselho do personagem Tancredi, na obra-prima O Leopardo, de Tomasi di Lampedusa: "Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude".

Caso continue desperdiçando tempos e esforços no terreno minado do sistema capitalista, com suas instituições moldadas para eternizarem a propriedade privada e a preponderância avassaladora do poder econômico sobre as decisões políticas, a esquerda nada mais fará do que patinar sem sair do lugar, coonestando uma farsa sinistra: só os crédulos e os obtusos não percebem que as contradições insolúveis do capitalismo e a devastação ambiental delas decorrentes hoje colocam em risco a própria sobrevivência  da espécie humana. 

O QUE FAZER: RETORNARMOS ÀS RUAS, 
COMO PALCO PRINCIPAL DAS NOSSAS LUTAS!

Em 1967, aos 16 anos, fiz minha opção definitiva pelos ideais de esquerda, que eu inicialmente identificava apenas com o marxismo.

A única mudança importante nas minhas convicções ideológicas, desde então, foi ter saído dos cárceres da ditadura convencido de que nada, absolutamente nada, justificava o esmagamento do indivíduo pelo Estado, que eu e meus companheiros sofrêramos na pele. 

Passei a colocar em plano de absoluta igualdade os objetivos revolucionários e o respeito aos direitos humanos. Ou seja, encaro ditaduras, permanentes ou transitórias, como incompatíveis com a dignidade do ser humano e também com a própria integridade da revolução, pois a desvirtuam irremediavelmente, favorecendo a imposição da vontade de nomenklaturas sobre os trabalhadores.

A revolução deve transferir o poder ao povo, não entronizar novos privilegiados.

Coerentemente, deixei de me considerar apenas marxista. No que tange à ditadura do proletariado, os anarquistas é que sempre estiveram certos. Se fossem ouvidos, a revolução soviética não frustraria as enormes esperanças que despertou, a ponto de tornar-se o exemplo negativo que o capitalismo utilizou para dissuadir os trabalhadores de outros países de também lutarem por sua emancipação.

Hoje enxergo pontos válidos no marxismo, no anarquismo, no trotskismo e em muitas bandeiras específicas da geração 68. Se a humanidade vier a ser libertada (há, infelizmente, a possibilidade de o capitalismo nos conduzir ao extermínio antes disto), será pelo que de melhor tais vertentes produziram. É essencial que estejam unidas nos momentos decisivos.

A revolução também não se confunde com capitalismo de estado, nem é necessariamente alavancada pela estatização da economia. Por tal caminho se chega mais facilmente ao fascismo do que ao reino da liberdade, para além da necessidade.

Fui dos primeiros a entrevistar o Lula na campanha eleitoral de 1989. Perguntei-lhe como faria para evitar que as estatais continuassem a serviço da politicalha. Ele disse que as colocaria sob a tutela de conselhos de trabalhadores.
Quando finalmente chegou à Presidência da República, não moveu uma palha neste sentido. Nem isto lhe foi cobrado por quase ninguém, infelizmente. De 1989 a 2002, a esquerda não avançou, retrocedeu. E continua até hoje andando para trás, como os caranguejos.

Eu não mudei um milímetro; considero, p. ex., que teria sido muito melhor se a gestão da Petrobrás coubesse aos trabalhadores organizados. Talvez estes a tivessem mantido nos trilhos, evitando que fosse saqueada e quase destruída pelos políticos profissionais (ou em benefício dos ditos cujos). 

É patética a compulsão pelo poder sob o capitalismo que contagiou a maior parte da esquerda brasileira. Da Presidência da República à vereança, os cargos eletivos na democracia burguesa sempre foram encarados pelos revolucionários como meios para impulsionar a revolução, meras ferramentas da ação revolucionária, e não como fins em si. 

Acabamos de assistir, pelo contrário, à utilização de um imenso arsenal de ilicitudes, falácias e casuísmos para tentar salvar uma presidente que nem sequer estava conseguindo governar, tendo chegado ao cúmulo de entregar a condução da política econômica a um neoliberal, ou seja, a um inimigo de classe

Martelavam que cabia aos esquerdistas apoiarem incondicionalmente Dilma Rousseff, mesmo que isto lhes acarretasse enorme desprestígio e apesar de ela pisar o tempo todo nos ideais e bandeiras da esquerda que um dia honrou. Mas, como a ex-guerrilheira seria vista hoje por qualquer pessoa isenta e dotada de espírito crítico? Apenas como uma tecnoburocrata que aposta todas as suas fichas no Estado e não no povo, com um indisfarçável viés autoritário. 

A revolução é infinitamente mais importante do que quaisquer governos que se limitem a gerenciar o capitalismo para os capitalistas. Pois só ela é solução solução definitiva para os dramas que nos afligem na sociedade de classes. Inexistindo o poder popular, as conquistas de uma fase podem ser todas anuladas na fase seguinte, como está acontecendo agora.

Desmoralizar a revolução aos olhos dos trabalhadores, fazendo-os identificarem-na com tudo que há de antipopular e antiético, equivaleu a destruir sua esperança num futuro de realização plena dos seres humanos, em troca de um poder muito mais ilusório do que real. Quando o verdadeiro poder –o econômico– decidiu dar um fim ao ciclo petista, o fez com um simples piparote, sem nem mesmo ter de recorrer aos serviçais fardados.

Governos vêm, vão e nada muda sob a democracia burguesa e o capitalismo. Cabe-nos, então, priorizar sempre os ideais de esquerda, pois são eles a bússola que nos aponta o caminho para uma sociedade igualitária e livre.

E os erros cometidos nos últimos governos nos devem servir de lições: teremos de fazer tudo bem diferente da próxima vez, para que os frutos dos nossos árduos e abnegados esforços não nos escapem novamente dentre os dedos. (artigo Fim de uma impostura, de Celso Lungaretti)

O QUE NÃO FAZER: CONTINUARMOS
CIRCUNSCRITOS AOS GABINETES E SALÕES.

morte do PT, essa profecia disseminada, não é um exercício de análise política, mas a expressão triunfalista de um desejo autoritário. O PT provavelmente sobreviverá. Contudo, o impeachment de Dilma e as imputações penais a Lula assinalam o ocaso da hegemonia petista sobre a esquerda brasileira. Chega ao fim uma longa era de unificação partidária quase completa das correntes de esquerda. A encruzilhada atual descortina os rumos contrastantes da substituição de hegemonia ou de uma reunificação pluralista. Batizemos o primeiro caminho como partido-movimento e o segundo como Frente Ampla.

O PSOL sonha construir-se como partido-movimento, assumindo a posição hegemônica no campo da esquerda. Suas referências são o Syriza, que chegou ao poder na Grécia em 2015, e o Podemos, que naquele ano atingiu votação similar à do Partido Socialista, disputando o posto de segundo maior partido espanhol. O Syriza tem raízes noSynaspismos (Coalizão da Esquerda Progressista), um movimento de unificação de correntes radicais fundado em 1991. O Podemos nasceu das manifestações contra a austeridade promovidas pelosIndignados a partir de 2011. Tanto um como o outro expressaram uma dupla rejeição política: à social-democracia e ao comunismo stalinista.

Os intelectuais do PSOL traçam um paralelo esquemático entre o PT e a social-democracia europeia. Na falência do Pasok grego e na decadência do PSOE espanhol, enxergam os funestos indícios do futuro próximo do PT. Assim como a crise do euro abriu a via para a ascensão dos partidos-movimento grego e espanhol, a crise do impeachment propiciaria a troca de hegemonia no Brasil.

Anos atrás, um cartaz de Che Guevara adornava a porta do gabinete de Alexis Tsipras, na sede doSyriza, enquanto Pablo Iglesias, o líder do Podemos, cantava as glórias de Hugo Chávez. O PSOL repete os evangelhos do castrismo e do chavismo, mas sua execução musical está atrasada em um compasso. 
No governo, o Syrizaexperimentou uma cisão e sua facção majoritária curvou-se à ortodoxia europeia, passando a ocupar o lugar que foi do Pasok. Por seu lado, após o anticlímax das eleições de junho, oPodemos anunciou um giro pragmático à centro-esquerda, borrifando água na chama da rebeldia.

O principal arauto do caminho daFrente Ampla é Tarso Genro, dirigente da Mensagem ao Partido, ala petista devotada àrefundação do partido. Seu modelo é a coalizão Frente Amplio, que governa o Uruguai desde 2005, apoia-se na central sindical PIT-CNT e se estende do centro à extrema-esquerda, abrangendo democrata-cristãos, social-democratas, comunistas e tupamaros. Partindo do reconhecimento de que se esgotou a hegemonia do PT sobre a esquerda, a ideia da mesa progressista busca a reunificação por meio de um mínimo denominador comum. Cada um na sua, mas todos juntos na hora das eleições —eis o estandarte de Genro.

Frente Ampla contempla interesses diversos. De um lado, evita o isolamento de um PT declinante, açoitado pela ventania da desmoralização. De outro, oferece lugares ao sol para a CUT, o MST, o MTST, o PCdoB e a UNE, que já compraram seus bilhetes de ingresso à nau das esquerdas. Mas a estratégia fracassará se não seduzir o PSOL, deixando espaço à ascensão de umpartido-movimento. Os primeiros sinais da tensão entre as estratégias conflitantes aparecem nas campanhas municipais de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

Nesses tempos de delinquência intelectual, o discurso partidário dissimula-se sob o rótulo da ciência política. Mathias de Alencastro reproduziu o clássico ardil dos antigos partidos stalinistas ao acusar o PSOL de fazer ojogo da direita nas eleições paulistanas. O intelectual-militante fantasiado de acadêmico exprime o desejo inviável de voltar no tempo, reinstaurando a hegemonia que se estilhaça. (artigo Após fim da hegemonia do PT, esquerda brasileira tem dois caminhos, de Demétrio Magnoli)
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/09/se-esquerda-nao-reassumir-luta-de.html