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quarta-feira, 3 de julho de 2019

A IDEIA DE QUE OS DOMINGUEIROS POSSAM CARREGAR O GOVERNO NAS COSTAS NUNCA PARECEU TÃO DISTANTE

joel pinheiro da fonseca
NAS RUAS PARA QUÊ?
"o domingo de manifestação virou o dia do lazer bolsonarista"
A manifestação pró-governo está se tornando um programa rotineiro de domingo em São Paulo. Em outras cidades parece que os protestos murcharam, mas em São Paulo eles seguem fortes. 

Uma vez por mês, cidadãos vestidos de verde e amarelo, aguerridos defensores do governo Bolsonaro, caminham pela avenida Paulista, ouvem uns discursos, gritam algumas palavras de ordem e voltam para casa. 

A cada reedição, o número e a garra dos participantes parecem diminuir um pouco. É essa a grande estratégia do governo?

Moro sem dúvida agradece essa mostra de popularidade, mas não é como se ela trouxesse alguma novidade. Seus apoiadores agora estão estritamente circunscritos ao bolsonarismo. E é nessa condição de fiel escudeiro do Mito e nada mais que ele deve continuar ministro. Fora do governo, os protestos estão se tornando irrelevantes.

A ideia era que Bolsonaro não precisava negociar com o Congresso porque a força da pressão popular sobre os parlamentares os obrigaria a seguir as ordens do Executivo. Na prática, contudo, o Congresso vê os manifestantes entoando cantigas de amor ao presidente e seus ministros e não sente medo nenhum. Não vemos nas ruas as multidões a perder de vista. 
Não seria parcialidaderetrocesso e pibinho?

E como elas não apresentam grandes riscos de partir para a violência, invadir o Congresso, parar a cidade (até o dia dos atos é escolhido para não interferir no trânsito) ou algo do tipo, perdem o potencial intimidatório. O domingo de manifestação virou o dia do lazer bolsonarista.

Assim, deputados e senadores sentem-se à vontade para inviabilizar o decreto que liberava o porte de armas, propõem mudanças várias à reforma da Previdência sem se pautar pelo número mágico do R$ 1 trilhão em dez anos e já se preparam para tocar uma agenda econômica própria assim que a página da Previdência tenha sido virada. 

E ao fazê-lo criarão uma situação difícil para a militância bolsonarista: se o Congresso toma a dianteira nas reformas econômicas do Brasil, o governo não poderá acusá-lo de sabotar seu trabalho.

A pressão popular, para ter algum efeito, precisa ser rara e impactante. E ela o será tanto mais quanto mais parecer que o Congresso —para defender interesses próprios— se coloca contra mudanças importantes do país. Se ele for o motor dessa mudança, a grande crítica do bolsonarismo à velha política estará desarmada.
A kriptonita do Intercept o reduziu a piada

O governo terá três opções. A primeira é aceitar um papel menos importante, apostar na recuperação econômica que o Congresso trará e colher os frutos eleitorais disso. 

A segunda é continuar apostando no embate e tentar sabotar as iniciativas do Congresso (como a reforma tributária); mas transformar essa jogada pelo poder em alguma narrativa virtuosa que convença a opinião pública será difícil. 

E a terceira é correr atrás do prejuízo e fazer o trabalho que deveria estar fazendo, com menos conflitos, menos bravatas e mais discussão de projetos.

A cada nova intriga que vaza para a mídia, a cada nova humilhação pública e demissão sumária imposta a um ministro ou funcionário do alto escalão (como no caso de Joaquim Levy e do general Santos Cruz), o governo perde a confiança e a boa fé de todos aqueles que poderiam colaborar com ele, tornando mais difícil fazer um trabalho sério. 

Os domingueiros de verde-amarelo gostam, festejam cada novo ato intempestivo do Mito. Mas a ideia de que eles possam carregar o governo nas costas nunca pareceu tão distante. (por Joel Pinheiro da Fonseca)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O QUE A ESQUERDA DEVERIA DIZER ÀS SUAS OVELHAS NEGRAS: FORA TUDO, FORA TODOS!!!".

O QUE A ESQUERDA DEVERIA DIZER ÀS SUAS OVELHAS NEGRAS, SEGUNDO O DALTON ROSADO: "FORA TUDO, FORA TODOS!".

O FACCIOSISMO COMO CRITÉRIO
 NEGATIVO DA CRÍTICA
.
"Às pessoas facciosas, depois de admoestá-las
severamente, evita-as, pois, senão, também
serás corrompido" (Bíblia, Livro de Tito)
.
Nestes dias nos quais se escancaram as provas da promiscuidade do todo o segmento político (só estão de fora os que ainda não tiveram força de acesso ao poder ou de interferência nele, mas logo, logo caminharão para tal comportamento, à medida que dele se aproximarem) com o empresariado, expressos pela grande mídia na cobertura da decretação da prisão do bilionário Eike Batista, nós podemos aferir quão facciosas e inconsequentes são as defesas dos corruptos de um lado e de outro. 

Globonews se apressa em demonstrar enfaticamente que os jatinhos do empresário Eike Batista serviram aos governantes petistas e seus aliados, omitindo o fato de que dito empresário, como sói acontecer, também servia aos políticos mais conservadores. Nisto não há nenhuma novidade.

O capital costuma corromper a todos os que exercem o poder político, o qual funciona como sua submissa linha reguladora auxiliar. Desta onda não escapa ninguém: os poucos que não se corrompem, perdem o jogo e são dele expulsos como um vírus estranho ao organismo. 
Aécio Neves, outro amigo desde criancinha do Eike Batista

Por seu turno, constato que os companheiros da esquerda, ao contestarem tal facciosismo midiático, verdadeiramente inaceitável, fazem-no no sentido de isentar de culpa os governantes que pertencem ao seu campo político.   

Aos revolucionários, que não compactuam com a promiscuidade, seja ela praticada por companheiros ou pelos corruptos históricos (os insensíveis, prepotentes e intolerantes governantes da direita), cabe a denúncia de todos os corruptos, indistintamente; e o apoio àqueles que, movidos por sentimento de neutralidade jurídica (difícil de ser mantida numa sociedade na qual predomina o poder do capital), norteiam a sua atuação jurisdicional para o combate à corrupção, provenha ela do agrupamento político que provier.. 

A eterna cantilena de que os membros do poder judiciário que combatem a corrupção estão a serviço das forças da direta ou do capital estrangeiro é inconsistente, ainda que eles estejam enquadrados por uma ordem jurídica opressora na sua essência. Mas nós precisamos distinguir as coisas, sob pena de condenarmos as boas ações, ainda que paliativas ou ingênuas. 

O combate, por parte do Judiciário, da corrupção derivada de práticas promíscuas do poder publico com o empresariado privado, equivale a enxugar gelo, na medida em que a grande corrupção sistêmica (aquela que subtrai do trabalhador parte do seu tempo de trabalho, não remunerando-o, via extração de mais-valia) é oficialmente permitida. 

Mas, isto não significa que a corrupção considerada oficialmente como criminosa não deva ser denunciada e combatida, com a punição de quem quer que a pratique, qualquer que seja o campo político do corrupto, e quaisquer que sejam as suas intenções. É o mínimo que se deve fazer. 

Admitir que a corrupção possa ser consentida desde que praticada por companheiros, supostamente servindo para alavancar boas causas, significa permitir o uso continuado de um mesmo cachimbo, acreditando que ele não vá entortar a boca. Tal concepção corresponde a um equívoco moral e a uma ética hipócrita, deturpada e facciosa, amoralista em sua essência.

O empresário Eike Batista construiu a sua meteórica fortuna a partir de maracutaias com o poder, praticadas em todos os níveis deste mesmo poder e em conluio com as siglas partidárias, tudo na base do é dando que se recebe

A corrupção associada ao poder público sempre envolve esferas diferenciadas de controle; de tão variada, não pode ser atribuída apenas a uma ou outra corrente política. Trata-se de um agir entranhado na ordem institucional sistêmica, no qual todos os agentes públicos dirigentes e privados saem ganhando e a imensa maioria do povo, que é quem paga os impostos, sai sempre perdendo.         
À esquerda seria indispensável que abandonasse a defesa de seus pares corruptos, readquirindo credibilidade para combater os seus adversários ideológicos igualmente corruptos. 

Aos revolucionários somente cabe uma frase, cada vez mais necessária: FORA TUDO, FORA TODOS! (*)
                                                       (por Dalton Rosado)
* "Fora tudo, fora todos!" é o refrão da música Coquetel molotov, de autoria de Dalton Rosado, que você pode escutar aqui..
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/o-que-esquerda-deveria-dizer-as-suas.html

sábado, 28 de janeiro de 2017

O QUE A ESQUERDA DEVERIA DIZER ÀS SUAS OVELHAS NEGRAS, SEGUNDO O DALTON ROSADO: "FORA TUDO, FORA TODOS!".

O FACCIOSISMO COMO CRITÉRIO
 NEGATIVO DA CRÍTICA
.
"Às pessoas facciosas, depois de admoestá-las
severamente, evita-as, pois, senão, também
serás corrompido" (Bíblia, Livro de Tito)
.
Nestes dias nos quais se escancaram as provas da promiscuidade do todo o segmento político (só estão de fora os que ainda não tiveram força de acesso ao poder ou de interferência nele, mas logo, logo caminharão para tal comportamento, à medida que dele se aproximarem) com o empresariado, expressos pela grande mídia na cobertura da decretação da prisão do bilionário Eike Batista, nós podemos aferir quão facciosas e inconsequentes são as defesas dos corruptos de um lado e de outro. 

Globonews se apressa em demonstrar enfaticamente que os jatinhos do empresário Eike Batista serviram aos governantes petistas e seus aliados, omitindo o fato de que dito empresário, como sói acontecer, também servia aos políticos mais conservadores. Nisto não há nenhuma novidade.

O capital costuma corromper a todos os que exercem o poder político, o qual funciona como sua submissa linha reguladora auxiliar. Desta onda não escapa ninguém: os poucos que não se corrompem, perdem o jogo e são dele expulsos como um vírus estranho ao organismo. 
Aécio Neves, outro amigo desde criancinha do Eike Batista

Por seu turno, constato que os companheiros da esquerda, ao contestarem tal facciosismo midiático, verdadeiramente inaceitável, fazem-no no sentido de isentar de culpa os governantes que pertencem ao seu campo político.   

Aos revolucionários, que não compactuam com a promiscuidade, seja ela praticada por companheiros ou pelos corruptos históricos (os insensíveis, prepotentes e intolerantes governantes da direita), cabe a denúncia de todos os corruptos, indistintamente; e o apoio àqueles que, movidos por sentimento de neutralidade jurídica (difícil de ser mantida numa sociedade na qual predomina o poder do capital), norteiam a sua atuação jurisdicional para o combate à corrupção, provenha ela do agrupamento político que provier.. 

A eterna cantilena de que os membros do poder judiciário que combatem a corrupção estão a serviço das forças da direta ou do capital estrangeiro é inconsistente, ainda que eles estejam enquadrados por uma ordem jurídica opressora na sua essência. Mas nós precisamos distinguir as coisas, sob pena de condenarmos as boas ações, ainda que paliativas ou ingênuas. 

O combate, por parte do Judiciário, da corrupção derivada de práticas promíscuas do poder publico com o empresariado privado, equivale a enxugar gelo, na medida em que a grande corrupção sistêmica (aquela que subtrai do trabalhador parte do seu tempo de trabalho, não remunerando-o, via extração de mais-valia) é oficialmente permitida. 

Mas, isto não significa que a corrupção considerada oficialmente como criminosa não deva ser denunciada e combatida, com a punição de quem quer que a pratique, qualquer que seja o campo político do corrupto, e quaisquer que sejam as suas intenções. É o mínimo que se deve fazer. 

Admitir que a corrupção possa ser consentida desde que praticada por companheiros, supostamente servindo para alavancar boas causas, significa permitir o uso continuado de um mesmo cachimbo, acreditando que ele não vá entortar a boca. Tal concepção corresponde a um equívoco moral e a uma ética hipócrita, deturpada e facciosa, amoralista em sua essência.

O empresário Eike Batista construiu a sua meteórica fortuna a partir de maracutaias com o poder, praticadas em todos os níveis deste mesmo poder e em conluio com as siglas partidárias, tudo na base do é dando que se recebe

A corrupção associada ao poder público sempre envolve esferas diferenciadas de controle; de tão variada, não pode ser atribuída apenas a uma ou outra corrente política. Trata-se de um agir entranhado na ordem institucional sistêmica, no qual todos os agentes públicos dirigentes e privados saem ganhando e a imensa maioria do povo, que é quem paga os impostos, sai sempre perdendo.         
À esquerda seria indispensável que abandonasse a defesa de seus pares corruptos, readquirindo credibilidade para combater os seus adversários ideológicos igualmente corruptos. 

Aos revolucionários somente cabe uma frase, cada vez mais necessária: FORA TUDO, FORA TODOS! (*)    
 (por Dalton Rosado) - https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/o-que-esquerda-deveria-dizer-as-suas.html

quinta-feira, 17 de março de 2016

ÉTICA, JUSTIÇA E ÓDIO NÃO SÃO SINÔNIMOS

montagem_golpistas
Foto: da esquerda para a direita em sentido horário manifestação nazista da Alemanha pré-hitlerista, manifestação de 13 de março de 2016 na Paulista, saudação de grupo em Santa Catarina em 13 de março de 2016, e saudação da juventude nazista em homenagem a Hitler.

Tenho visto demasiado ódio para querer odiar
(Martin Luther King Jr.)

Ética é uma palavra de origem grega, e pode ser considerada como uma parte da filosofia que estuda os princípios morais que orientam a conduta humana. Na sua utilização usual, ética e moralidade são palavras que se confundem e tratadas como sinônimos. Ser ético significa ter o comportamento conduzido por determinados valores. É um atributo pessoal, individual, e não um propósito de julgamento. Exatamente por isso que Kant afirmava que a moral é autônoma, enquanto o direito é heterônomo. Ou seja, a ética, como sinônimo de moral, é uma forma de conduzir o seu próprio ser, e não um mecanismo para conformar os outros.
A justiça, por outro lado, também carrega elementos de natureza moral, muito embora a sua execução ultrapasse os limites interiores do indivíduo. Isto quer dizer que justiça pode ser considerada como uma construção coletiva, baseada em valores éticos e morais mediados por um consenso. Se tais valores foram construídos numa sociedade com diferença de poder entre os indivíduos, sem elementos de equiparação ou equidade, há uma tendência a injustiça, como observamos em regimes ditatoriais e escravagistas.
Ser justo, portanto, significa, entre outras coisas, mediar valores, respeitar diferenças e buscar alternativas construídas de forma coletiva. Todavia, em momento algum podemos confundir justiça com direito, muito embora o último deva ser orientado por conceitos de um ideal de justiça.
É importante destacar o papel da política como elemento de mediação da justiça, pois é o ser político voltado à construção de ideias e argumentos racionais que conforma as Leis e estuda modelos de outras sociedades que possam ser transpostos para a sua esfera vivenciada. Neste sentido, queremos nos afastar, e muito, de Carl Schimdt, jurista alemão que aderiu ao nazismo e via no direito uma atividade estritamente política, permitindo um linchamento de opiniões diferentes do modelo dominante por uma opinião pública pré-construída.
O ódio, por seu turno, é uma antítese integral dos outros dois conceitos. É, de forma sintética, um sentimento de profunda antipatia, desgosto, aversão, raiva, repulsa a alguém ou alguma coisa. É uma concepção de mundo que pode ser construída racionalmente, com o objetivo de manipular comportamentos, ou de forma inconsciente, baseada em medos e preconceitos. Aliás, o medo e o preconceito são os principais parceiros do ódio. Uma sociedade controlada pelo ódio normalmente elege inimigos e os fixa como alvos. Foi assim durante a inquisição frente aos “não católicos”, durante o nazismo frente aos judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, deficientes físicos e ciganos, e durante as ditaduras militares latino-americanas contra “os comunistas”.
Um traço marcante das doutrinas marcadas pelo ódio é o maniqueísmo construído no senso comum de forma inconsciente. Não se busca justiça com o ideal de equidade, mas o “justiçamento”, o linchamento público e a destruição de imagens públicas sem o domínio de elementos probatórios materiais ou razoáveis. Trata-se de uma guerra de aniquilação contra os “outros” (os diferentes).
A alienação coletiva de grupos ou segmentos da sociedade, aqui tratada a alienação como perda de identidade entre os argumentos utilizados e os fatos ou as normas, também é uma forma de imposição de regime de ódio.
E foi exatamente por isso que observamos no dia 13 de março de 2016 na Avenida Paulista, Copacabana, Brasília e outros locais, especialmente quando são vistas pessoas carregando faixas que defendem a ditadura, fazendo apologia a símbolos nazistas e fascistas, ou quando temos a eleição de demagogos moralistas, dentre os quais Jair Bolsonaro e Sérgio Moro, sendo tratados como heróis.
O que observamos não foi apenas a condenação da diferença política (expressa no pensamento e nas ações do Partido dos Trabalhadores),mas da própria política, principal elemento de mediação democrática, e dos políticos. O alvo principal das críticas foi a democracia, num movimento com forte corte de classe e de cunho elitista.
Haviam oportunistas? Sim, muitos deles respondendo por processos de corrupção e sonegação fiscal, enquanto diziam lutar contra a corrupção, e isso inclui os grandes meios de comunicação com suspeita de lavagem de dinheiro em paraísos fiscais. Haviam conservadores e reacionários conscientes? Sim, já citei um deles no parágrafo anterior. O problema é que na turba verde-amarelista (e a alusão à Plínio Salgado não é mera coincidência) existiam milhares de pessoas professando um ódio explícito contra tudo aquilo que o Brasil construiu em pouco mais de 30 anos de democracia, e é neste ponto que mora o perigo!
Todas as acusações feitas pela mídia e alguns setores do conservadorismo contra o ex-presidente Lula, principal alvo das ações de ódio, e que inflaram a orda golpista, são desprovidas de antijuridicidade e, por óbvio, de tipicidade ou de culpabilidade. Simplificando: “tais crítica não têm um objeto ilegal, passível de punição, pois são meras ilações preconceituosas que atacam a emergência pública e econômica de alguém que vem das classes mais pobres”.
Por outro lado, mesmo que provas do crime de corrupção tenham batido definitivamente na “casa grande”, atingindo Aécio e FHC e vários articulistas do movimento de 13 de março de 2016, não é motivo para deixarmos de observar a construção de um “estado-policial sem comando”, no qual os delegados da polícia federal vociferam contra a hierarquia administrativa imposta pela Lei e pela Constituição, e onde um canal de televisão manipula uma conversa da Chefe de Estado gravada ilegalmente.
A corrupção deve ser punida, mas quando realmente existente no mundo concreto, e não a produzida na hiper-realidade midiática. Não é a Globo que dita as Leis, nem qualquer ente da grande mídia, mas o Congresso Nacional eleito democraticamente dentro de um processo legislativo constitucionalmente definido. Além disto, qualquer punição a eventuais responsáveis não pode ser feita ao custo das liberdades democráticas, transformando o judiciário brasileiro num “cadafalso de velho-oeste”. As liberdades democráticas são fundamentais, caso o contrário teremos um país onde a lei será apenas subterfúgio para aprisionar a diferença!
Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.
https://sustentabilidadeedemocracia.wordpress.com/2016/03/17/etica-justica-e-odio-nao-sao-sinonimos/

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Canetada de Aécio Neves provoca demissão de quase 60 mil em MG

"A última segunda-feira foi o primeiro dia do oficial desligamento dos 60 mil funcionários. Por que será que nenhum jornal deu destaque a tal absurdo? 

Faustino Rodrigues,

O Brasil tem 5.037 municípios com uma população de até 50 mil habitantes. Isso equivale a mais de 90% de um total de 5.561 municipalidades. Os números contrastam e revelam que uma parte significativa da população brasileira vive em cidades que, para os nossos padrões, são consideradas pequenas. Sua existência é quase inacreditável para um paulistano típico, nascido e criado em uma das maiores cidades do mundo, em meio a outros 10 milhões de pessoas.

Os números acima revelam. Porém, os jornais, não. Essa semana vivemos mais um capítulo do imbróglio mineiro da lei 100. O Supremo Tribunal Federal determinou que quase 59.412 servidores públicos, efetivados em uma canetada, em 2007, pelo então governador Aécio Neves, hoje senador e atual presidente de seu partido, o PSDB, fossem desligados[1]. O STF alega inconstitucionalidade no processo de admissão do funcionalismo público que, como se sabe, se faz exclusivamente por concurso público, de concorrência ampla em praticamente todos os seus setores e instâncias – federal, estadual e municipal[2]. O senhor Aécio parece que não entendeu.

Devido à carência da cobertura jornalística, os números de servidores efetivados em 2007 são incertos. Mas, já se fala em cerca de 76 mil. Descontando os aposentados e desligados por motivos diversos, o saldo da dispensa determinada pelo STF é de 60 mil. Como visto no primeiro parágrafo deste texto, se reuníssemos todos esses servidores em um mesmo lugar, teríamos mais uma cidade brasileira. Para deixar os nossos números mais interessantes, uma comparação bem popular: à exceção do Flamengo e Coritiba, no dia 17 de setembro, em Brasília, nenhum outro jogo do Brasileirão 2015 chegou à cifra dos 60 mil.

José Murilo de Carvalho, em seu Construção da ordem, demonstra como os bacharéis coimbrenses do século XIX, filhos da elite agrária brasileira, ao voltarem para o Brasil, encontram-se praticamente distantes de qualquer possibilidade de uma atuação profissional que garanta o mesmo “prestígio” político e econômico de seus pais, de sua tradicional família. E assim ingressam no serviço público – contribuindo, quiçá, para a compreensão do motivo de alguns de seus salários serem tão exorbitantes (mas isso é conversa para outro texto). Faz-se, então, a fama de um funcionalismo público, alvo de muitos comentários jocosos, que, a despeito da qualificação profissional, garante uma estabilidade econômica invejável por muitos. Debalde a constante instabilidade da política e economia tupiniquim, ter o salário garantido no final do mês é uma grande vantagem.

Nada mais do que normal que estes funcionários efetivados na canetada do senador mineiro adquiram dívidas – como a da casa própria – e planejem o seu futuro, as vezes o futuro de uma família em função do cargo concedido por uma autoridade política e administrativa como o próprio governador[3]. Com tal chancela, pensa-se, minimamente, que ele sabe o que está fazendo. Aliás, admite-o como uma figura extremamente preocupada com a máquina pública e com a qualidade dos serviços à medida em que procede de tal maneira. Para alguns, designados por eternos contratos, sempre renovados, isso soa como uma calma e fina canção mineira como a de Milton Nascimento.

Mas, não. Não foi muito difícil para o STF determinar a inconstitucionalidade da tal lei 100. E, agindo constitucionalmente, determina a sua revogação, bem como a devolução dos cargos indevidamente ocupados ao governo do estado de Minas Gerais, que, por sua vez, deve tomar providências para a sua ocupação através de concurso ou novas designações contratuais. É difícil discordar do STF. Mas, é difícil não se comover com as vidas que aí estão em jogo – vítimas da irresponsabilidade administrativa de uma pessoa. A mídia nacional, entretanto, parece não se preocupar muito.

A última segunda-feira, dia 04 de janeiro de 2016, foi o primeiro dia do oficial desligamento dos funcionários da lei 100 – a maioria alocados na educação pública estadual. Sendo eu juiz-forano, digo que saiu uma nota aquém do destaque merecido no principal diário da cidade, o Tribuna de Minas. Na Folha de São Paulo, nada. No periódico da família Frias um assunto como este perde fácil a disputa para notícias sobre o parlamento venezuelano e novos valores da passagem de ônibus em algumas capitais. Pelo lado da família Marinho as atenções estão para o crack chinês e o seu fortíssimo indício de que a crise econômica não é só no Brasil, exigindo de seu jornalismo novas estratégias políticas de abordagem do tema. Até mesmo no mencionado jornal da Zona da Mata mineira as informações quanto a um acidente na avenida JK, em Juiz de Fora, adquirem mais destaque por mais tempo – aliás, manifesto a minha solidariedade às vítimas.

Resumindo, se um estádio de futebol lotado em mais de 90% de sua capacidade com funcionalismo público mineiro desaparece, a grande mídia brasileira não tem nada com isso. Pode-se exterminar toda uma cidade que isso não é importante. É óbvia a responsabilidade do político tucano, com imagem recentemente abalada pelas declarações de Carlos Alexandre de Souza Rocha, o Ceará, funcionário de Alberto Youssef, na já familiar Lava-Jato. É igualmente óbvia a sua responsabilidade, enquanto gestor de uma unidade federativa, pelo destino de quase 60 mil pessoas efetivadas por uma canetada, bem como dos recursos públicos movimentados neste caso. A quem interessa a desinformação?

Em clima de denúncia política, ingerência na administração pública é algo praticamente irrelevante – a não ser que se possa associar a atividades relativas a bicicletas, como pedaladas e ciclovias. Além de responder às denúncias de corrupção feitas pelo mesmo delator que o PSDB outrora atribuía tanta autoridade, há que responder também por incompetência. Dizia Wanderley Guilherme dos Santos que se as instituições políticas falham, resta o caráter.

No caso mineiro, com a administração nas mãos de Aécio, as instituições falharam. Sobrou apenas seu caráter – o mesmo acusado por Ceará. Agora, questiono-me fundamentado nos preceitos mais éticos do jornalismo se o princípio de Wanderley não poderia ser transposto para os veículos de informação. Eles, com suas instituições, não falhariam ao não veicularem com a devida importância algo de tamanha relevância para o Brasil? E, se falharam, resta-nos o caráter destes jornalistas? Se, sim: que dó.

Faustino da Rocha Rodrigues é jornalista, professor e cientista social

[1] http://www.iof.mg.gov.br/index.php?/institucional-2/missao/anexoextra31.html

[2] http://www.tribunademinas.com.br/mais-de-73-mil-servidores-de-mg-sao-desligados-pela-lei-100/

[3] https://www.youtube.com/channel/UC4IapcuhDt8EXjcRcbacZCA 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A gandola chavista que fez um vuelco e parou a Marcha dos Patetas em Caracas


Fernando Brito, Tijolaço 

"Sensacional!

Descobrimos que foi o “comando chavista” que bloqueou a passagem da “comitiva libertadora” liderada por Aécio Neves!

Chama-se gandola!

Sabem o que é? É carreta, no espanhol que se fala por lá. Ganhou este nome como corruptela (calma, coxinhas, não é corrupção) de gôndola, porque os empresários de transporte na Venezuela eram italianos.

Pois a gandola chavista, fez um vuelco – isto é, capotou, exatamente às 6:30 horas de Caracas – que tem duas horas e meia de fuso a mais que Brasília- ou às 9 horas do Brasil, interrompendo trânsito de veículos entre Caracas e La Guaira, que fica próxima ao Aeroporto de Maiquetía.

Está no jornal, acessível a qualquer um pela internet!

Aliás é bom ler lá, porque senão vão achar jeito de me processar por insinuações, já que a carga da gandola era farinha.

Foram três horas de interdição, até às meio-dia do Brasil (9:30 de Caracas). E, depois disso, os reflexos no trânsito, claro.

Bem na hora que a turma do Aécio chegava e denunciava o “engarrafamento ditatorial”.

E a Folha noticiando  que um policial “confessou” que o engarrafamento  era uma sabotagem.

Será que quando acontece um acidente no Rio ou em São Paulo e o trânsito para é sabotagem?

Não estou dizendo que o repórter mentiu, porque em qualquer parte do mundo policial anônimo conta muita mentira nestas horas. E não é difícil ter policial por lá querendo da uma mãozinha anti-Maduro, como aqui dariam contra Dilma.

Mas que não apurou coisa alguma, lá isso foi. Coloquei até o mapa de onde fica La Guaira, bem no caminho da auto-estrada que vai ao aeroporto de Maiquetía.

Aliás, quem já foi a Caracas sabe que esta estrada passa num vale estreito, o que é, aliás, a razão de a cidade não ser, apesar de próxima, localizada na costa: é que Caracas era uma fortificação natural, pela dificuldade de acesso.

E tem mais: boa parte dela é cercada por barrios – nome das favelas por lá –  onde o chavismo é forte, muito forte, fortíssimo.

Mas agora descobrimos, afinal: é a gandola o que cortou o “barato” do Aecinho.

Ainda mais gandola com vuelco, arma secreta dos esquadrões bolivarianos.

Este Aécio seria uma comédia, se não fosse uma tragédia!"

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Ao buscar o impeachment, Aécio tem tudo para ser vítima da histeria coletiva que ajudou a criar


Kiko Nogueira, DCM

O ódio, já apontou alguém, não é um bom conselheiro. Aécio Neves tem tudo para ser uma vítima da histeria coletiva que ajudou a fomentar.

Tentando pegar uma carona nos protestos, o senador está articulando com outros cinco partidos a pavimentação para um pedido de impeachment.

Depois de o PSDB encomendar pareceres a juristas, Aécio afirmou que, caso se comprove a participação de Dilma nas chamadas “pedaladas fiscais”, vai agir “como determina a Constituição”. Leia-se tentar o impedimento.

Líderes dos movimentos antigovernistas se reuniram com ele e com dirigentes do DEM, PPS, PSB, PV e SD. Cobraram uma posição clara sobre o afastamento de Dilma e de Toffoli, entre outras reivindicações listada numa Carta do Povo Brasileiro (sacou a pegadinha?).

Rogério Chequer — chamado popularmente de “Chequer Sem Fundo” –, do Vem Pra Rua, falou que o resultado das manifestações dependia agora do Congresso. “Por que a oposição não pode se organizar? Chegamos ao nosso limite, levamos 3 milhões de pessoas as ruas”, disse.

“Quero deixar claro que viemos aqui para dizer um sonoro sim para a pauta das ruas e queremos o apoio das redes sociais, dos movimentos, isso é o impulso que essa Casa precisa para fazer valer esse sentimento”, devolveu Aécio. “Vocês tem o instrumento que nos faltava, que é o apoio popular”.

Até ontem, Aécio era um golpista recalcitrante. No dia 15, deu o ar da graça na janela do apartamento no Leblon com uma camisa da seleção brasileira. No 12, não atendia nem o telefone. Isso depois de gravar um vídeo conclamando a população a ir para a avenida. Foi xingado, posteriormente, de cagão para baixo.
Enquanto isso, Jair Bolsonaro era tratado como heroi. O deputado fascista foi tietado e apareceu em mais selfies na Paulista do que os PMs. Seu competidor era Ronaldo Caiado, o médico que veste uma camiseta amarela com quatro dedos em homenagem a Lula e está a cada dia mais celerado, especialmente depois da cacetada que tomou de Demóstenes Torres.

Embora esses grupos tenham dado um voto útil para Aécio contra Dilma, a agenda é obscurantista e antidemocrática, embora supostamente liberal. Têm como ponto em comum a inspiração em Olavo de Carvalho e seu anticomunismo doidivanas. O velho Olavo que considera o PSDB “um partido da Internacional Socialista” e que disse que Aécio foi uma “ejaculação precoce” em 2014. A tal carta cita uma das obsessões lelés olavísticas, o Foro de São Paulo.

Em Curitiba, o vereador tucano Professor Galdino saiu escorraçado da marcha do dia 12, depois de tomar cascudos. Um retrato do pessoal que essas milícias estão mobilizando está na pesquisa conduzida pelos professores Pablo Ortellado, da USP, e Esther Solano, da Unifesp, em São Paulo no 12 de abril. Apenas 23% confiam muito em Aécio e 11% no PSDB.

“Baixa confiança nos partidos; baixa confiança na imprensa: pilares da democracia liberal colocados em xeque”, resumiram Ortellado e Ester num artigo.

É com essa massa cheirosa que Aécio Neves está flertando em sua louca cavalgada. Parabéns aos envolvidos."

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A organização criminosa que apoiou Aécio Neves


"O Senador Aécio Neves (PSDB-MG) terá que engolir a sua afirmação de que foi derrotado por uma organização criminosa nas eleições deste ano. 

Antonio Lassance, CartaMaior

O Senador Aécio Neves terá que engolir sua afirmação de que foi derrotado por uma organização criminosa.

Grande parte dos políticos corruptos que receberam propina do esquema que saqueou a Petrobrás, citados por um dos delatores, apoiou sua campanha, desde o primeiro turno.

Ainda conforme os próprios delatores, o envolvimento de cada um deles com essa organização criminosa data do governo do presidente Fernando Henrique.

Já basta desse lenga-lenga de Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró e Roberto Duque.

Os brasileiros querem saber os nomes dos políticos que receberam dinheiro de propina do esquema que assaltou a Petrobrás. 

O que se espera agora é que as informações já vazadas sejam confirmadas no inquérito da Polícia Federal, se os delegados fizerem o trabalho de delegados e não de cabos eleitorais de distintivo.

O que se quer é que todos sejam imediatamente julgados pelo STF ou fujam logo de seus mandatos para serem processados em primeira instância, como fizeram os acusados Eduardo Azeredo e Clésio Andrade, mensaleiros amigos de Aécio Neves.

Quando os nomes ligados a Aécio nas eleições de 2014 e que constam da delação premiada forem qualificados como parte do esquema, Aécio terá uma organização criminosa para chamar de sua.

No PP, o senador Francisco Dornelles (PP-RJ), ao que consta, um dos citados na delação, organizou o apoio de todo o Diretório do Partido Progressista do Rio de Janeiro ao presidenciável tucano.

Outro citado, João Pizzolatti, presidente do PP de Santa Catarina, articulou o apoio desse diretório a Aécio e ao chapão em aliança com o PSDB no estado, incluindo o apoio à candidatura do tucano Paulo Bauer, a governador, e de Paulo Bornhausen ao Senado, pelo PSB - também apoiador de Aécio.

Mesmo no PMDB, muitos dos nomes citados estiveram oficialmente associados à oposição, como o atual presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), o senador Romero Jucá, de Roraima, e o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

A recomendação ética de Aécio aos membros prediletos dessa que acusa de ser uma organização criminosa foi: "suguem mais um pouquinho e depois venham para o nosso lado".

A consequência da baixaria do senador e presidente do PSDB é que ele próprio, ao nivelar por baixo o debate político, ao invés de agir como líder da oposição, incorporou o discurso e vestiu a camisa de chefe de um bando desqualificado de extrema direita que pretende levar a disputa política para as vias de fato.

A partir de agora, Aécio torna-se responsável direto por qualquer ato que fuja do controle do processo democrático e revele a face não apenas golpista e autoritária, mas violenta desse bando.

O que se viu nas galerias do Congresso (terça, dia 2) é apenas o começo de algo que, na República, sempre teve um fim triste e personagens obtusos. 

Aécio acaba de entrar para a essa galeria de personagens obtusos."

 Antonio Lassance é cientista político. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Irreconhecível, Aécio insiste em linha dura


"Presidente do PSDB avança na radicalização; irritado com maioria governista no Congresso, para aprovação do fim do superávit primário, Aécio Neves defende baderneiros que derrubaram sessão de ontem com violência nas galerias; na véspera, chamou PT de "organização criminosa"; hoje, disse que a presidente Dilma cometeu crime de responsabilidade; discurso duro e estreito o penalizou na eleição presidencial; neto do conciliador Tancredo Neves, para alguns ele hoje parece outra pessoa: "Não estou reconhecendo o Aécio que sempre conheci", resumiu governador Cid Gomes; afinal, o que está acontecendo com Aécio?

Brasil 247

A radicalização não é a praia do presidente do PSDB, senador Aécio Neves. Pesquisa realizada pelo PMDB do Rio de Janeiro apurou que, logo após o debate televisivo em que o então presidenciável Aécio Neves dirigiu-se a presidente Dilma Rousseff como 'mentirosa' e 'leviana', o candidato tucano apresentava cerca de 400 mil votos a menos do que na véspera. Antes daquela reação, Aécio contava, segundo os organizadores da chapa Aezão, com 1,4 milhão de intenções de votos no Estado, mas fechou a jornada com cerca de 800 mil. Em outras palavras, o ataque direto a Dilma foi um péssimo negócio eleitoral para ele.

Dali para a frente, o certo é que Aécio deu de ombros para as pesquisas e não parou mais de bater. Em frases soltas, entrevistas, discursos e notas oficiais, ele passou a desenvolver uma estratégia de confronto que, para muitos, resvala no questionamento do próprio sistema democrático.

No fim da manhã desta quarta-feira 3, depois de aquiescer contra presença de baderneiros nas galerias do Congresso na véspera, Aécio ocupou o microfone de apartes para despejar nova carga de bílis sobre Dilma.

- Hoje a presidente coloca de cócoras o Congresso ao estabelecer que cada um aqui tem um preço. Fala-se em  748 mil reais. Essa é uma violência jamais vista nesta casa, disse o senador mineiro.

BADERNEIROS PAGOS - Sabe-se que há outra versão, mais plausível, para explicar a votação que estava em curso, sobre a derrubada da obrigatoriedade de feitura de superávit fiscal em 2014 e, em seguida, a liberação de emendas parlamentares com recursos no Orçamento. Numa atitude que pode ser dura, mas tem justificativa financeira, o governo resolveu condicionar a liberação de emendas a desobrigação do superávit. Afinal, com gastos extras estimados em quase meio bilhão de reais, como o governo poderá fazer o superávit?
Além da conta que não fecha, o carnaval que a oposição faz em torno da derrubada do superávit está em conflito com o que acontece no mundo. Entre os 20 países mais ricos do planeta, que compõe o G20, nada menos que 16 não tem a obrigação da fazer superávit. A alegação do governo é que a obrigatoriedade deixaria o Orçamento dentro de uma camisa de força e, para evitar essa situação, busca usar de sua maioria parlamentar, construída em eleições livres, para aprovar sua proposta.

Para Aécio, no entanto, o jogo de a maioria parlamentar aprovar matérias com as quais a minoria não concorda parece ter se tornado antidemocrática.

- Esta é a casa do povo, e o PT tem de aprender a conviver com o povo novamente nas galerias, insistiu Aécio, em nota divulgada pelo PSDB.

O senador preferiu desconhecer que há fortes suspeitas de que militantes políticos teriam sido pagos para, a partir das galerias, tumultuar a sessão. O que se sabe é que a balbúrdia impediu na noite da terça 2 a votação do projeto, enquanto hoje o parlamentares votaram, em maioria, para o exame e o voto da matéria sem acompanhamento do público.

- Escondidinho, definiu Aécio.

Mesmo que tenha justificativa na derrota eleitoral de outubro, a postura do senador e presidente do PSDB está espantando os meios políticos.

- Eu não estou reconhecendo o Aécio, resumiu o governador do Ceará, Cid Gomes, do PROS.

INCOERÊNCIA HISTÓRICA - Mais do que uma provocação, a estupefação de Cid também é de outros analistas. Historicamente, a partir da entrada na política pela mão de seu avô Tancredo Neves, Aécio sempre foi um político cordial e de diálogo. Como o avô, ele sempre marcou com nitidez as suas posições, mas nunca escolheu a radicalização. Em 1964, talvez na votação mais dramática do Congresso Nacional, o então deputado Tancredo Neves, do referencial PSD, votou contra a declaração de vacância da Presidência da República, o que abrir as portas do Congresso ao golpe militar. Nos anos seguintes, sempre pela oposição, Tancredo foi um batalhador pela volta da democracia, ainda que não saísse pelas ruas xingando os militares ou participando de ações de luta armada. Em 1983, de mãos dadas com colegas que haviam apoiado o regime militar, Tancredo reconduziu com sua candidatura o País à democracia, culminando uma trajetória de crença na política e ojeriza à violência. Aécio, então um jovem com pouco mais de 20 anos, o acompanhava.

- Em Minas, todos reconhecem Aécio como um herdeiro do que o PSD tinha de melhor, mas ele tem se comportado como um radical da UDN, analisa o deputado federal Leonardo Picciani, do PMDB fluminense, que fez campanha para Aécio em seu Estado. Não se tem notícia, até agora, de um gesto de agradecimento, por parte de Aécio, da mobilização feita em torno da chapa Aezão.

O nervosismo de Aécio pode estar ligado a dois fatores. Um deles está no STF. Caso o relator Gilmar Mendes, das contas eleitorais da presidente Dilma, as rejeite, Aécio acredita que poderá sair na liderança de um pedido de impeachment contra ela."