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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O contragolpe virá quando a esquerda descobrir o povo brasileiro


Quando a esquerda descobrirá o povo brasileiro?
Ao longo de sua história a direita brasileira praticou diversos golpes contra a própria direita. Pouquíssimos foram os governos da Velha República que conseguiram levar a término o mandato único, pois o café transbordava o leite ou vice-versa de acordo com os interesses dos clãs mais fortes. Aí veio Getúlio Vargas que como Pedro II foi derrubado por ferir os clãs pelo simples fato de atender interesses mínimos das camadas populares.

A popularidade alcançada pela monarquia, sobretudo com a abolição da escravatura, não foi suficiente para promover um contragolpe contra a república dos coronéis. Apenas algumas mobilizações isoladas como a de Canudos na Bahia e os fuzilados na fortaleza de Anhatomirim em Desterro, à qual Floriano Peixoto impôs uma homenagem a si mesmo, dando à cidade o nome que até hoje se preserva: Florianópolis.

Já a popularidade obtida pelo ditador que promoveu a primeira democratização social brasileira instituindo leis trabalhistas, saúde e ensino público, impulsionando a economia do país através das primeiras indústrias de base, resultou em ser levado novamente ao cargo executivo através do voto popular que passou a ser desrespeitado por alguns jornais de São Paulo e Rio de Janeiro.

Para ser mais exato “A Tribuna da Imprensa” de Carlos Lacerda e “O Estado de São Paulo” da família Mesquita. Um que outro adotou a mesma linha de defesa dos interesses estrangeiros contra a política nacionalista de Getúlio, mas é falta de memória ou desconhecimento da história dos que tentam comparar os esforços da Mídia de hoje com aqueles tempos em que isso de Mídia praticamente inexistia e o que havia de mais próximo era o grupo Diários Associados de Assis Chateaubriand.

Apesar de viver as turras com Getúlio, amiúde trocavam favores, como quando Chatô obteve do ditador interferência na legislação para manter a guarda de sua filha após a separação matrimonial. Mas nem Lacerda nem Mesquitas puderam impedir a comoção popular promovida pelo suicídio de Getúlio em 54. Um ato individual, mas é o que se pode considerar como único movimento contragolpista de nossa história, pois quanto ao de 64 somente arremedos como o das Ligas Camponesas de Paulo Julião e do governo Miguel Arraes em Pernambuco. Movimentos suspensos por seus líderes para evitar inútil derramamento de sangue.

Desde a criação da estrategia golpista do Mensalão se ouve da própria militância e de integrantes do próprio PT muitas críticas ao governo, afirmando que deveria tomar esta ou aquele atitude, evitar isso ou aquilo. Culpa-se ao governo e ao partido pelo que cada um considera o erro primordial e apenas para citar um exemplo dessas duvidosas autocríticas, citam-se os que consideram contratação de Waldomiro Diniz como origem dos motivos do golpe como se na testa daquele ex-assessor já estivesse escrito: “Fui corrupto”, ou como se houvesse milhares de técnicos experientes a disposição e dispostos a compor uma equipe de governo, ou como se José Dirceu fosse amigo do Carlinhos Cachoeira. No entanto, raro se ouvir críticas à manipulação da Mídia através de um fato ocorrido anteriormente no governo Garotinho que sequer era aliado do PT ou do governo Lula.

E graças à esquerda brasileira o golpe prossegue. Golpe iniciado lá na abolição da escravatura e sempre presente e permanente a cada vez que algum governo brasileiro implanta medidas de interesse popular.

O inverso de tal situação se exemplifica na história de Cuba.

O Partido Comunista Cubano, como todos os partidos comunistas, não concordava com a revolução armada, mas desde a tomada de Moncada as esquerdas de Cuba se uniram em um único propósito. Fidel, Che ou Raúl não foram conscientizar a população cubana sobre estes propósitos de casa em casa. Evidentemente este foi um trabalho de toda a esquerda daquele país.

Dizer que o povo cubano era mais consciente do que o brasileiro é desconhecer a história e a localização geográfica de Cuba ao lado da Meca do consumismo da qual se tornou colônia tão logo finda a revolução da independência cubana da coroa espanhola. Em Cuba não houve independência, apenas troca de colonizadores.

Sujeito ao tráfico de drogas e intensa exploração do lenocínio, por décadas o povo cubano foi educado à subserviência profissionalmente utilizada em cassinos e hoteis de turistas americanos e a exploradores da mão de obra produtora de charutos, cana de açúcar e rum. No entanto, apesar de 5 décadas do mais restrito bloqueio comercial já imposto a um país de tão reduzido território, apesar das inúmeras tentativas de assassinato de Fidel, os Estados Unidos não se estimulam a darem um passo para invadir a Ilha mesmo após 2 décadas de finda sua única proteção internacional: a União Soviética. Atravessaram o mundo para invadir Afeganistão e Iraque e promoverem golpes em Líbia, Síria, etc.; mas o governo de Cuba está preservado.

O programa Mais Médicos tem permitido maior contato com cubanos, sejam da área da saúde ou os que para cá vieram para administração do plano binacional. Estes, mesmo quando inquiridos a respeito muito pouco se referem a Fidel ou Raúl Castro, tampouco ao comunismo ou qualquer ideologia política, mas repetidamente e com muito orgulho se referem a uma entidade: “nosotros cubanos.

Quando deixarmos de ser da Europa ou dos Estados Unidos e nos descobrirmos em nossa consciência como “nosotros brasileños”, talvez possamos vir a entender que o golpe contra o Brasil não resulta de imaginárias deficiências de comunicação e políticas de um governo que tem cumprido a risca com os propósitos de inclusão social e democratização de oportunidades e acessos à educação e saúde e outras necessidades básicas de nossa população, promovendo a retirada do Brasil do Mapa Mundial da Fome e nosso IDH como jamais nenhum outro o fez antes.

Quando a esquerda brasileira descobrir o povo brasileiro, talvez se conscientize do que realmente seja ser de esquerda e só então poderemos promover o primeiro movimento de contragolpe da história política do Brasil.

Raul Longo, jornalista, escritor e poeta. Mora em Florianópolis e é colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Pouso Longo”.


sábado, 27 de dezembro de 2014

Aula para um formador de opinião



Qual(ais) o(s) jornalista(s) que forma(m) sua opinião? Pois nesse natal você deveria ser bonzinho com ele(s). Não apenas para agradar o Papai Noel, mas porque, afinal, é quem forma a sua opinião e como todo mundo você deve dar muito valor a sua opinião formada.

Ah! Quem não dá! Afinal você não investe na assinatura do seu jornal, da sua revista, nem perde tempo na frente da TV à toa, não é mesmo? Você faz tudo isso para ter uma opinião formada sobre o mundo, o Brasil, a política, a economia, o que seja! Então... Quem é que forma a sua opinião?

Neste Natal seja bonzinho com o seu formador de opinião, pois ele gosta muito de você. Ou nunca viu como todo jornalista se orgulha de se dizer um formador de opinião.

William Bonner, por exemplo, tem tanto carinho por aqueles a quem forma opiniões que os chama de Homer Simpson. Gente maldosa entendeu que chamou de idiotas os de opinião formada pelo Jornal Nacional da TV Globo, mas o Bonner explicou que é só um jeito carinhoso de se referir aos que tem opinião formada pela Globo.

Além da Globo, quem mais forma a sua opinião? Neste natal escreva a todos aqueles que formam a sua opinião, mas seja bonzinho e não faça como o meu amigo Pacheco que por buscar as informações que a imprensa nacional não divulga, não permite que os jornalistas brasileiros formem sua opinião. Nem o William Bonner, nem ninguém!

Veja aí a carta que o mal criado do Pacheco escreveu, dando uma aula num desses formadores de opinião. Esse Pacheco! Vai ver que não acredita em Papai Noel... E você? Acredita em Papai Noel?

E no William Bonner, você acredita?

Leia a carta do Pacheco e a envie para seu formador de opinião favorito. Depois me escreva contando qual a opinião que lhe foi formada sobre a aula do Pacheco ao jornalista da Gazeta do Povo.

Prezado

Creio que você talvez pudesse começar seu bem elaborado artigo, como o fez, criticando nosso pibinho. Contudo, como estamos em ritmo de festas, você poderia ter compensado a crítica com aquele "mas", presente na mídia, sempre desejosa em querer criar um fato negativo quando a notícia é favorável ao governo, tipo:

"menos pessoas passam fome no Brasil, mas...ainda 7 milhões padecem desse mal". Ou

"a inflação vai fechar o ano dentro da meta, mas...em janeiro ela deve ultrapassar o teto ".

Assim, no teu artigo caberia:

"...mas países europeus desenvolvidos apresentarão crescimento negativo"

Quanto à Petrobrás, não creio que o principal problema da empresa seja o "petrolão", embora ele não pare de crescer. Isso será episódico, embora a um grande custo.

O que nossa petroleira está sendo bombardeada em duas frentes: uma doméstica e outra internacional, ambas procurando desacreditá-la.

O aspecto doméstico está configurado no processo de vazamento seletivo de depoimentos prestados sob delação premiada. Sabe-se que alguns dias antes das eleições, um jornalista de prestígio na mídia dominante, noticiou que informações sigilosas foram fornecidas à Aécio Neves e à Álvaro Dias.

É também notória a campanha anti governo na mídia social, desenvolvida pelos delegados federais que atuam no processo Lava Jato. Já há mais tempo agentes federais praticavam exercício de tiro tendo Dilma como "mosca". Isso tudo sob as vistas do Ministro da Justiça (Zé, o lento) seu superior.

O juiz Moro, sempre tucano de carteirinha, vaza somente nomes de políticos da base de sustentação do governo. Já se disse, não sendo muito difícil comprovar, que a corrupção grassa (sem trocadilho) em vários níveis de governo e desde há muito tempo. Um dos advogados de empreiteiro declarou que:

"no Brasil não se coloca um paralelepípedo numa rua, sem o pagamento do "por fora ".

Não exatamente nesses termos.

Mas Moro, muito parcimonioso, permite que apenas dois nomes da oposição sejam revelados: o do tucano Sérgio Guerra e o do "socialista" Eduardo Campos. Ambos já no além vejam só!

A esposa do juiz, advogada, presta consultoria ao governo tucano de Beto Richa e pertence a escritório que defende os interesses de subsidiária da Shell, concorrente da Petrobrás.

Quer dizer que, se no decorrer do processo o magistrado conseguir chegar isento até o fim, merecerá uma "estátua de bronze na praça onze".

Já a mídia, por demais interessada na privatização da estatal, começaria por incentivar a mudança do sistema de exploração, de partilha para concessão, esta o sonho dos tucanos e neoliberais desde os tempos da "Petrobrax".

No âmbito internacional a briga é também encarniçada.

Vejamos: o preço do petróleo, já bastante "despencado", ainda não chegou ao fundo do poço. Como o custo de produção da Arábia Saudita se situa em torno de US$5/barril, ainda há muito espaço. Devemos ter presente que os sauditas não pretendem abrir mão da hegemonia de maior produtor mundial. Com preços tão e cada vez mais baixos, os árabes matam cinco coelhos de uma só cajadada: Rússia, Venezuela, país com a maior reserva mundial, o arqui-inimigo Irã, Líbia e outros menos cotados.

E o quinto?

Oras, a nossa Petrobrás que tem um programa de maior investimento mundial em exploração petrolífera; detém toda a tecnologia de exploração em águas profundas; e agora, com o potencial expressivo do pré-sal, que segundo os estudiosos, será ainda viável com o preço de US$35/barril, podendo se tornar um importante player no tabuleiro mundial da commoditie.

Com essa política, a Arábia Saudita determina que os EUA, seu grande aliado, adie sua exploração de xisto, que ficará estocado à espera de maior emergência e oportunidade. E Obama poderá sapatear sobre o caixão de Putin. A menos que o urso branco recorra à proteção da China, seu mais novo aliado desde o fim da União Soviética. Os dois países possuem um intercâmbio comercial de US$100 bilhões, com novo contrato para 30 anos para o gás russo que atinge US$400 bilhões. A China está numa confortável posição, em cima de uma reserva de US$3,89 trilhões.

Os chineses se preparam para assumir e manter a hegemonia econômica mundial. Começam por dar início à construção do Canal da Nicarágua, alternativa por demais interessante, para escapar da necessidade de utilizar o Canal do Panamá, de domínio americano. Os "amarelos", já em posição de destaque no intercâmbio cultural com diversos países, caminham celeremente para assumir o lugar de maior potência econômica mundial.

O programa chinês de ferrovias é qualquer coisa de impressionante. Com trens que desenvolvem velocidades inimagináveis, estão pretendendo espalhar a malha ferroviária pelos quatro cantos do mundo. Logo, logo o transporte ferroviário, levando e trazendo mercadorias de países longínquos do seu chão, estarão competindo com grande "handicap" com todos os países do mundo.

Então teremos uma nova geopolítica mundial.

Ah, os EUA continuarão com suas guerrinhas.

Enfim, só lamento ter tomado teu tempo com essa longa digressão comentando teu artigo.

Um grande e Feliz Natal para você e familiares.

Abç

Pacheco
Raul Longo
No Pé na Terra, via http://www.contextolivre.com.br/2014/12/aula-para-um-formador-de-opiniao.html

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Raul Longo – A fortuna de Lula e os setores masoquistas da classe média brasileira



Financial Times tranquiliza classe média brasileira

image0021Por Raul Longo(*)
Com o passar dos anos, desde 2003 reduziram-se os setores da classe média brasileira preocupados com o enriquecimento do ex operário Luís Ignácio Lula da Silva.
Antes de 2003 a preocupação era ainda maior. Alguns até imaginavam que se virasse presidente do país Lula compraria todos os aparelhos “3 em 1” do mercado, desfalcando os lares de consumidores da então maravilha acústica. Previsões menos modestas acreditavam que monopolizaria a produção de ternos Armani e o próprio presidente da FIESP cogitou que expulsaria todos os empresários do país para não sofrer concorrência.
Mesmo assim Lula virou presidente e a cada de seus dois mandatos aqueles setores da classe média foram se reduzindo a despeito ou graças às previsões dos especialistas em economia da Globo, do O Estado de São Paulo, da Abril e da Folha de São Paulo, por tanto afamados como os 4 cavaleiros do Apocalipse que não veio.
Ainda que se reduzissem os setores preocupados, ampliaram-se as preocupações dos renitentes e se chegou a anunciar que o filho do ex-operário – vejam que acinte – haveria adquirido a fazenda do maior criador de gado nelore do Brasil. Um descalabro que descabelou muita gente preocupada com o continuar daquela roubalheira que não deixaria sobrar nada para ninguém quando os de sempre retornassem ao poder. Felizmente o proprietário e suposto vendedor da tal fazenda tranquilizou todo mundo avisando que aquilo não passava de boato e sequer fora consultado sobre a inexistente possibilidade de suas terras estarem a venda.
Então se aventou um “aerolula” foliado a ouro. Isso revoltou muitos da classe média, pois nem o luxo do iFHC, ainda maior que o do apartamento de Paris do mesmo FHC, chegara a tanto. Mas em 2011 Lula voltou para casa e não levou o avião e caso alguém da alta classe média brasileira torne a ocupar o poder, poderá brincar com a aeronave.
Eis então que o jornalista Amaury Ribeiro lança um livro onde comprova documentalmente os desvios da filha do Serra, do genro do Serra, do primo do Serra, do cunhado do Serra e dos amigos do Serra. São cifras astronômicas e se o Serra sequer foi presidente do Brasil por ter perdido do ex-operário e e até de uma mulher, o que esses dois não haverão rouba na presidência? Imaginem vocês: um ex-operário e uma mulher!
O Genoíno, por exemplo, foi só presidente e roubou tanto que foi condenado pelo Joaquim Barbosa. Nem Barbosa nem Gurgel conseguiram provar que o Genoíno roubou, mas tá na cara que o Genoíno roubou! Não se encontrou nada: nem documento, nem dinheiro, nem propriedade ou qualquer outra coisa, mas o Genoíno roubou. Roubou porque a Veja e o Roberto Jefferson viram. Quer dizer, ver não viram… Mas garantem! E se a Veja garante, como é que o Barbosa não ia condenar, não é mesmo?
Tudo o que se comprova que o Genoíno possua é uma casa de periferia que não deve valer nem R$ 100 mil, mas a classe média preocupada com o regresso de seus representantes ao poder, delira com fortunas incalculáveis. Se delira com a fortuna inexistente do presidente do PT o que não delirará com a do Presidente do Brasil? Tanto que alguém fez circular pela internet uma capa de edição da revista Forbes apontando Lula como um dos bilionários do mundo.
Mas aí veio um gaiato e estragou o prazer masoquista desse setor da classe média preocupado com a possibilidade de que Lula roube tudo antes que voltem ao poder, revelando a montagem da imagem em destaque.
Nem assim o setor Masoch** da classe média brasileira se deu por vencida e continua vibrando de gozo ao acusar Lula de ladrão. São os velhos especuladores, as viúvas de FHC, os militares reformados saudosistas da ditadura que os acobertava, os contrabandistas e demais rufiões tratados injustamente pela democracia que os impossibilita de voltar ao poder e, na falta de atividade mental, entregam-se à lascívia de distribuir preocupações sobre o quanto Lula terá roubado do país.
Com isso enlouquecem a classe média que, por sua vez, se sempre sentiu o maior prazer em ser roubada por acadêmicos, poliglotas, professores, doutores, playboys, engenheiros, generais e todos os que possam ser considerados gente de bem, jamais, nem imaginar, poderia admitir ser roubada por um ex-operário. Muito menos nordestino! É uma afronta!
Mas nesse endereço da Financial Times veio o tranquilizante. Ninguém mais precisa se preocupar. Ao contrário do que faz entender a Globo, a Veja, a Folha e o O Estado de São Paulo, Lula não ficou rico. Confiram:
Os muito preocupados que não leem inglês podem pedir pela tradução da página ao Google ou a alguém alfabetizado neste idioma para saber o que os britânicos deduziram da suposta fortuna de Lula. Dou uma forcinha aqui: o Financial Times, conhecido informativo capitalista inconfundivelmente de direita, conclui que com 30 anos de vida pública os poucos bens que Lula possui são modestíssimos. Conforme o informante do Financial, um hacker contratado por um político da oposição até deprecia as propriedades do ex-operário dizendo-as mal conservadas e mal localizadas.
Já quanto ao apartamento do FHC a Financial não diz nada. Também não sobre a mansão nos Jardins do Serra. Tampouco sobre apartamento milionário acusado pela filha não reconhecida do Álvaro Dias ou sobre os imóveis em BH e Nova Lima e os apartamentos do Leblon e de Ipanema do Aécio Neves. Mas para os setores masoquistas da classe média, isso é de bom tom e só comprovam o bom gosto de seus ídolos políticos.
**Leopold von Sacher-Masoch, citado no texto, foi um escritor austríaco, autor do romance “A Vênus de Peles” onde um dos personagens atinge o orgasmo quando surrado pelo amante da esposa. Daí que se deu a origem aos termos masoquismo e masoquista, no Brasil também versado para eleitor de candidato tucano.
*Raul Longo é jornalista, escritor e poeta. Mora em Florianópolis e é colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Pouso Longo”.
via, http://quemtemmedodademocracia.com/2013/01/13/raul-longo-a-fortuna-de-lula-e-os-setores-masoquistas-da-classe-media-brasileira/

domingo, 22 de abril de 2012

Ubatuba – Se não puder evitar, seja breve


Ubatuba – Se não puder evitar, seja breve                                                                                                                           
*Raul Longo

É costume se responsabilizar o histórico líder tupinambá pela degradação social e urbana de Ubatuba, último município do litoral norte do Estado de São Paulo. Besteira!

Cunhambebe, como ilustrado por
André Thevet, um cosmógrafo francês
que acompanhou a expedição de
Nicolas Durand de Villegaignon
Cunhambebe foi o signatário do primeiro tratado de paz celebrado nas Américas. Pela contraparte assinou o padre que escrevia poemas à Virgem na praia de Iperoig. Tão efêmera quanto os versos na areia beira-mar, a paz prometida por Anchieta foi traída por ele próprio e essa é a maldição que denigre e degrada a sociedade e a cidade de Ubatuba até hoje, sempre empurrando a culpa para o traído Cunhambebe.

Próprio do Brasil e de todas as Américas, aliás, do mundo inteiro, é os invasores e colonizadores que destruíram, escravizaram, mataram, estupraram, e mentiram, sempre conferirem a culpa de suas próprias mazelas a negros, índios, aborígenes, nativos, etc.; alegando-se como salvo conduto um dúbio e contraditório cristianismo.

No caso específico de Ubatuba passei nas últimas semanas por experiências terríveis que demonstram claramente a expansão dos poderes podres que há décadas se instaura no Estado de São Paulo.

Tudo começou quando fui notificado por um telefonema de que meu pai estava hospitalizado na Santa Casa de Ubatuba, vitimado por um AVC. Chegamos ali, eu e Sônia, a enteada de meu pai, recebidos pela notícia de que lhe fora dada a alta médica. Mas chocamo-nos com seu estado. A imagem que me ocorreu para descrevê-lo foi a de um papel celofane amassado, desdobrando-se em movimentos involuntários. Seus movimentos e raciocínio eram retrações e distensões sem propósito, ininteligíveis e inaudíveis.

Quando fui morar em Ubatuba, concretizando um idílio de infância, os corredores daquela Santa Casa eram identificados pelos próprios funcionários como “Corredor do Vietnam”. Mas então a instituição contava com uma equipe médica que prestava atendimento diário a uma população de 35 mil habitantes. Hoje, Ubatuba extrapola 100 mil habitantes e o ainda único hospital da cidade agora está restrito a apenas dois médicos mais experientes e outros mais novos para o pronto atendimento. Ainda que os ianques não a tenham invadido, o aumento populacional de Ubatuba e o abandono de seu hospital reúnem ali os corredores do Vietnam somados aos do Afeganistão.

Por essa razão, naquele mesmo dia em que encontrei meu pai e Sônia o seu padrasto, decidimos retirá-lo daquela cidade assim que as condições o permitissem e para isso concluímos as primeiras providências a serem tomadas:

1º - questionar a alta visivelmente precipitada, já que o paciente apresentava          39 graus de febre.
2º – tentar obter um lugar para onde pudesse ser transferido.
3º – levantar as condições financeiras para transferi-lo a São Paulo.

Sônia trabalha e reside na capital de São Paulo e não poderia me ajudar nestas tarefas, mas se incumbiu de pesquisar uma instituição que correspondesse à realidade de nossas condições. Ela própria reivindicando a urgência dessa transferência para que meu pai pudesse ser atendido pelo Hospital do Servidor, sendo funcionário público aposentado.

Finalizamos a conversa com meu telefonema a uma amiga fisioterapeuta a quem relatei o caso solicitando o número de telefone de uma conhecida comum, diretora da que fora enquanto morei por lá a única instituição de acolhimento de anciãos.

A diretora estava em viagem, mas já no dia seguinte a amiga entrara em contato com a presidente da tradicional instituição e fora informada da inexistência de vagas. Fui pessoalmente até o antiga e agradável construção com quase 4 décadas de existência e a responsável pela contabilidade confirmou que, exclusiva para acolhimento de idosos desamparados, não teriam como aceitar o internamento de meu pai. No entanto, devido à minha amizade com a diretora, aconselhou que a procurasse em seu retorno para que me desse alguma orientação.

Nos dias subsequentes, enquanto aguardava o regresso da diretora e, em São Paulo, Sônia iniciava uma peregrinação por instituições que ofereçam alguma dignidade em acordo com nossas reais disponibilidades financeira e comecei a levantar os provimentos econômicos de meu pai. Paralelamente, tentei amenizar as falhas de atendimento aos seus 87 anos. Por exemplo, quando transferido de quarto, ainda mais prostrado pelo abafamento e calor da cidade por onde passa o Trópico de Capricórnio e sem um único ventilador para os três pacientes ali depositados, percorri as filiais das cadeias nacionais de lojas que se espalham por todo o país. Esgotado em todas elas, só encontrei o equipamento quando me indicaram uma pequena loja ali mesmo, próxima ao hospital.

Hospital que segundo a amiga fisioterapeuta, depois de privatizado deixou de ser Santa Casa da Misericórdia e ficou apenas por conta da Misericórdia.

Maldição de Cunhambebe?

Num final de tarde confiro que o pai arde em febre. Procuro a enfermeira de plantão que consulta o prontuário onde se inscrevem as temperaturas de cada paciente daquela ala, medidas poucos instantes antes. A moça insiste que a temperatura de meu pai se limita a 37 graus e não requer qualquer providência. Saio do hospital, vou à farmácia e compro um termômetro. Procuro novamente a enfermeira sugerindo compararmos a aferição dos aparelhos, pois o que comprei indicava 39,4º. Ela sequer questionou sobre a possibilidade de erros com os demais apontamentos de seus prontuários e imediatamente informou que administraria a medicação.

Aguardo as três enfermeiras que sob suas ordens conectam meu pai a um frasco de soro, o que eu ainda não vira ocorrer. Desde aí o atendimento melhorou bastante, mas acredito que principalmente devido à visita de minha amiga fisioterapeuta. Embora não atenda aos pacientes da Santa Casa, a amiga é muito respeitada por todos os profissionais de saúde da cidade e foi quem conseguiu se avistar com o médico que o atendia, informando-me o que diagnosticaram: AVC Isquêmico Difuso.

Antes disso, sabendo de um ortopedista a quem meu pai consultava e em nossas conversas telefônicas usava das recomendações deste médico para recusar meus convites a vir morar comigo, contando terem desenvolvido uma relação de amizade; procurei este doutor pretendo explicar as péssimas condições da casa de meu pai, para conferir qual a possibilidade de mantê-lo ali até que conseguisse, ao menos, limpar o excesso de poeira espalhada por toda a casa que, embora pequena, estava em estado de abandono.

O hospital instala-se no meio de uma quadra e se estende de uma à outra rua do centro de Ubatuba. Por indicação de seus funcionários percorri a quadra de um lado a outro umas cinco vezes até que um dos impacientes funcionários se livrou de mim avisando que a única forma de conversar com os médicos seria marcando consulta. Teria de aguardar as semanas ou os meses que se fizessem necessários para realização da consulta, pois os médicos de Ubatuba não tem tempo a perder com parentes de pacientes.

Comento o despropósito com a acompanhante do colega de quarto de meu pai e para minha sorte a mulher aponta um rapaz que se aproxima do bebedouro próximo, informando ser um enfermeiro em dia de folga. Aproximo do rapaz e explico minha necessidade. Talvez por ser sua folga, prestou alguma atenção a minha existência e mandou que o seguisse. Descemos as escadas para o primeiro pavimento, entramos em um corredor que dá para um beco externo. Adiantando o rapaz olha furtivamente e retorna rápido, sussurrando: “- É aquele que está ali”. Ali era o fumódromo do hospital, onde o médico amigo de meu pai baforava um cigarro.

Achando que transmito alguma nova informação, conto da condição de meu pai como paciente internado. “- Ainda?” – espanta-se, desestimulando-me de qualquer pedido.

Num outro dia, quando chego na portaria do hospital às 8:30 da manhã, antes que pudesse proferir “Bom dia!” o porteiro me enfia o indicador na cara e aos berros diz que não posso entrar e sair a hora que queira. Como naquele dia ainda não havia sequer entrado, também aos berros tentei fazê-lo compreender que o que determinaria meu direito de entrar e sair seria as necessidades de meu pai, e que reconhecesse as diferenças entre as funções de porteiro de hospital e de carcereiro.

Maldição de Cunhambebe?

Não são exclusividades da Santa Casa do Senhor dos (maus) Passos de Ubatuba. Através de papel timbrado da República Federativa do Brasil a procuração que tive de providenciar ao custo de R$ 300,00 pela diligência cartorial, me conferiu plenos poderes para poder recolher benefícios junto ao ISS e movimentar a conta no Banco do Brasil. Tudo imediato, afinal a procuração, com as devidas testemunhas e assinaturas de representantes das autoridades competentes, é inquestionável. Mas não foi para o gerente da agência da Caixa Econômica Federal onde o velho mantinha uma poupança que a princípio julguei ser interessante permanecer ali para eventual necessidade de um empréstimo, possibilitando sua almejada transferência de cidade.

Entrei naquela agência pouco depois das duas horas da tarde e só próximo às 17:30 hs. a senhora que minuciosamente leu todos os termos, vírgulas e pontos do documento, me indicou que deveria retornar no dia seguinte com as devidas cópias e originais de meus documentos, dos documentos de meu pai e daquela procuração, após o que ainda teria de aguardar mais dois dias.

Estranhei não ter perdido sequer dez minutos no Banco do Brasil para obter exatamente a mesma coisa, sem necessitar de cópia alguma, mas no dia seguinte compareci no horário de abertura das agências bancárias de Ubatuba: 11 da manhã. No pronto atendimento indicado pela senhora do dia anterior, um funcionário mal humorado folheou bruscamente as 3 páginas do documento que disse não servir. Questiono a razão e afirma que ali não se inscreve o nome daquela instituição bancária. Tento destacar-lhe o parágrafo onde se descrimina plenos poderes de representação para movimentação em qualquer instituição bancária do país, inclusive junto ao Ministério da Fazenda e a Receita Federal.

Impaciente, me manda reclamar ao gerente. Chego à mesa do gerente que interrompe o atendimento a alguém em sua frente para responder ao telefone. Atende e seus olhos se voltam para os meus, depois descem até o documento em minha mão. Murmura alguma coisa ao telefone e desliga. Retorna ao cliente do outro lado de sua mesa num atendimento que se arrasta por longos minutos que me preocupam pela proximidade do horário de almoço no hospital. Aproveitando um momento em que o gerente se levanta, tento interpelá-lo, mas apontando a procuração em minha mão, de longe já adianta a informação de que aquele documento não serve. Pergunto o que serviria, diz que devo esperar que finalize o atendimento em curso. Explico ter passado à tarde anterior naquela agência e que teria de servir o almoço ao meu pai impossibilitado de se alimentar sozinho e hospitalizado na Santa Casa, onde é comum pacientes ficarem sem as refeições quando não têm acompanhantes, por simples falta de pessoal para auxiliá-los nessa necessidade básica e vital a um doente.

O rapazote não se comove e impressionado com sua incapacidade compreensão ao que exponho, mais uma vez desisto.

Do que tanto se desiste em Ubatuba? De enfrentar a Maldição de Cunhambebe?

À tarde volto ao cartório, em busca da informação que me faltou na Caixa Econômica e também sem condições de oferecer qualquer justificativa, a escrevente sugere que procure o PROCON. Na manhã seguinte dali se telefonou para o mesmo gerente a quem se releu o parágrafo referente aos poderes a mim transferidos.  Do outro lado da linha pediu que me encaminhassem de volta à sua mesa e dessa vez encontrei-o sozinho. Sem qualquer questionamento juntou as cópias requeridas por um clipe com um bilhetinho ao caixa que me atendesse para que procedesse imediata transferência da poupança à conta do mesmo titular no Banco do Brasil, conforme me convencera ser o melhor a ser feito.

Ao se despedir, confessou: “- Também... Nem olhei essa procuração!” Poderia ter perguntado como sabia que ela não serviria se reconhecia não a ter sequer olhado, mas preferi conferir minhas experiências dos tempos em que morava em Ubatuba, indagando: “- Você é de Taubaté, não é?”

Confirmou, sorri, e deixei-o intrigado sobre meu poder de adivinhação. Só poderia entender-me se houvesse lido “Os Donos do Poder” de Raymundo Faoro, no capítulo em que trata da Confederação de Taubaté. Mas não se confunda os poderes podres herdados das antigas elites latifundiárias de cafeicultores paulistas com a Confederação dos Tamoios. Cunhambebe era tapuia e não taubateota como Hebe Camargo, Cid Moreira, o gerente da Caixa Econômica de Ubatuba e aquela velhinha estúpida, personagem do Luís Fernando Veríssimo do final da ditadura militar, como tantos outros que invadiram Ubatuba e ocuparam os cargos chaves de direção dos destinos e desatinos do pequeno município.

Transformada em parque de diversões de Taubaté, Ubatuba deixou de ser a bucólica cidade cantada em verso e prosa como fez o pernambucano Osman Lins ao exaltar a hospitalidade acolhedora das pérgulas de Ubatuba.  Não há mais pérgula alguma e as belas casas coloniais, com seus frisos decorativos, foram todas substituídas por pesados galpões retilíneos, sem a menor função atrativa. Pelo contrário! Se quiser ver algo de bonito, o turista que se refugie nas praias mais distantes. Essas, sim, lindas.

“Ubatuba é linda! Pena que fede.” - escreveu o publicitário Paulo Poleh na chamada de uma campanha que tentaria conscientizar aqueles que lançavam seus esgotos nos rios da cidade. Poleh foi considerado radical e agressivo e nunca se atacou o problema satisfatoriamente.

Não encontrei, embora as procurasse por diversas vezes, uma única lixeira na cidade também sem girassóis, mas por onde profusos bandos de urubus voejam tardes inteiras. Na verdade, são os únicos a colaborar com alguma limpeza em Ubatuba. E, sem dúvida, dos mais sinceros seres que ali habitam.

Na outrora bucólica Ubatuba que tantos comparavam a um presépio e inspirou muitos poetas, escritores e cantadores, entre os feiosos caixotões de concreto abundam, a cada quarteirão, borracharia e oficina mecânica, igreja evangélica e boteco. As primeiras se justificam pela situação das ruas, só comparáveis às de Bagdá bombardeada, mas para entender a profusão dos demais itens é preciso conviver um pouco mais, como me ocorreu em consequência ao encontro com a diretora da instituição de acolhimento de idosos desamparados.

Como meu pai não é propriamente um desamparado, expliquei que precisava da indicação de profissionais que me auxiliassem naquele primeiro momento de urgência, pois não tendo capacidade de se suster sequer sentado, com minha total inexperiência não teria condições de atendê-lo e ao mesmo tempo assumir as diversas pendências deixadas por alguém imprevidentemente impossibilitado de consciência, memória e movimentos físicos.

A diretora me surpreendeu indo em desacordo a todas as previsões de impossibilidade de acolhimento de meu pai, afirmando ser loucura imaginar pagar pessoas que não dariam conta do problema e não corresponderiam a confiança e segurança necessária. Praticamente ordenou que o levasse para lá. Reafirmando o caráter emergencial e temporário da providência, foi o que fiz em 19 de março, mas ao retornar na manhã seguinte ela se disse arrependida por não ter imaginado que meu pai fosse tão pesado.

Uma semana antes de ocorrer o acidente vascular, com seus 87 anos ele reclamou através de telefonema que lhe fazia regularmente, da falta de um dispositivo que permitisse levar seu caiaque à praia, lamentando por apenas poder nadar. Na altura o homem é ainda menor do que eu, mas constituído de puros músculos e se alimentando como atleta, nem eu nem o único atendente de enfermagem homem do asilo seriamos páreos para seus mais de 80 kg, acrescidos pelo enrijecimento de sua coluna vertebral.

Foi a responsável pela contabilidade quem propôs a solução do problema. Explicando que os recursos previdenciários dos ali asilados são mantidos pela instituição que os provê de tudo o que necessitam para suas sobrevivências, sugeriu um complemento, um acréscimo ao valor de sua aposentadoria como funcionário público. Esse acréscimo reverteria ao pagamento de outro técnico do sexo masculino, substituindo o que atua apenas em dias alternados. Um sim e outro não.

Evidente que o substituto não atenderia exclusivamente meu pai, mas mesmo considerando isso mais do que justo tive de explicar que os R$ 1.500,00 propostos completam exatamente os recebimentos previdenciários mensais de meu pai e parte dessa renda pretendia utilizar para viabilizar a transferência para São Paulo. Formulei a contraproposta de R$ 1.000,00 mensais e assim acordamos. Paguei e mantenho o recibo datado de 20 de abril, reafirmando, em contrapartida, a intenção de transferi-lo o quanto antes sem requerer reembolso de diferença relativa ao período realmente utilizado.

Quando o amigo que me acompanhou diariamente em minhas maratonas por Ubatuba, me deixou na rodoviária para o embarque a São Paulo, de onde partiria para um breve e imprescindível retorno à Florianópolis, não deu mais pra segurar: debulhei.  Ninguém viu, mas se vissem não importava, pois chorei de comoção em agradecimento àquele amigo tão prestativo. E também em agradecimento à amiga fisioterapeuta que, sem que lhe pedisse, prontificou-se a atender meu pai gratuitamente e através de sua especialidade tão vital aos acometidos por AVC. Chorei em agradecimento a compreensão da amiga diretora da casa de repouso e também a de sua contabilista. Também pela amiga escrevente do cartório e todos os que apesar dos 15 anos que não os via, me ofereceram solidariedade. Chorei pelo Zé e a Dona Amélia, vizinhos e amigos de meu pai que também tanto ajudaram. Chorei comovido de agradecimento a todos os que tornaram aqueles dias suportáveis, apesar do jeitão embrutecido da maioria das pessoas daquela cidade degradada, seja moral ou socialmente, urbana ou administrativamente.

Só duas semanas depois percebi que subestimara a lenda que diz que Ubatuba só sairá do atraso e retornará a ser uma cidade que ofereça alguma qualidade de vida e de relacionamento humano, quando encontrarem e desenterrarem a caveira de Cunhambebe. Mas aí já é outro capítulo dessa história que se aparenta muito pessoal para ser assim distribuída pela internet, no entanto na segunda parte se demonstrará um alerta a todos que por alguma razão tenham de atravessar do sul ao norte do país, ou vice-versa, passando pelo Estado de São Paulo.

Não há nenhum aviso nas fronteiras, mas as duas décadas de poder tucano tornam São Paulo um risco ao qual eu e meu pai sobrevivemos a duras penas para escrever o próximo capítulo dessa novela. Espero que seja o último, mas enquanto aguardam pelo final, não vacilem e sigam o conselho de minha experiência nestas últimas semanas: adentrando as fronteiras paulistas, não bobeie. Acelere até encontrar a próxima divisa.

Crônica enviada pelo autor, Raul Longo, e corroborada por Urariano Motta

*Raul Longo é paulistano, jornalista e ficcionista, Raul Longo reside em Sambaqui (Florianópolis) desde 1997. Começou a atividade profissional em 1967 publicando contos infantis na revista Recreio (Editora Abril).

Nas décadas seguintes atuou em diversos veículos da imprensa alternativa. Foi repórter, redator, articulista e editor de jornais e revistas em São Paulo, Salvador, Recife, Fortaleza, Campo Grande, Rio de Janeiro e Ubatuba. Hoje com 59 anos, autor de livros, publica a maior parte da produção em sites e blogs.