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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Ganho de votos de Dilma no 2º turno não tem relação com Bolsa Família

D
 A discussão sobre o peso que o Nordeste teve na reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT), sobretudo nos municípios mais beneficiados pelo programa Bolsa Família, esconde um detalhe. Por mais que Dilma tenha tido votação expressiva nessa região, no segundo turno, como é fácil comprovar, a candidata do PT venceu a eleição pelos votos a mais que conquistou fora do Nordeste e independentemente do Bolsa Família.

O Núcleo de Jornalismo de Dados do GLOBO repetiu o teste realizado com os resultados do segundo turno da eleição presidencial para a relação entre a votação da presidente Dilma e a proporção de famílias que recebem o Bolsa Família nos mais de 5,5 mil municípios. Como o esperado, há uma associação entre a proporção de votos da candidata do PT e o programa federal. Ou seja, a votação de Dilma cresceu conforme a maior proporção de cidades beneficiadas pelo Bolsa Família. Testes como esses são apenas indícios, não podem ser usados para explicar como o eleitor individualmente decidiu o seu voto, já que a unidade de referência utilizada foi o comportamento geral nos municípios. Outro problema é que a análise utiliza apenas um indicador, sem considerar outras variáveis como PIB nos municípios, aspectos políticos locais, entre outros. 

Embora com essa limitação, há uma indicação bastante interessante nos dados. Se a candidata do PT dependesse apenas desses votos não seria reeleita. Um segundo teste, agora considerando o ganho de votos de Dilma entre o primeiro e o segundo turno e a sua relação com o Bolsa Família nos municípios mostra que não houve qualquer associação. Dilma conquistou votos independentemente da maior ou menor proporção de beneficiários do Bolsa Família. Pelos mapas, já divulgados por esse Blog, percebe-se claramente que Dilma cresceu sua votação em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro e em São Paulo. Parte disso se explica porque Dilma apenas repetiu a boa performance nas cidades com alta proporção de Bolsa Família, tendo poucos votos ainda a conquistar nessas áreas. Restaram, portanto, as outras cidades onde ela ganhou votos, independentemente de haver ou não altos percentuais de beneficiários do programa federal.



A grande discussão que se deu após a reeleição de Dilma, como também ocorreu em 2006 e 2010, demonstra o quanto ainda precisamos discutir melhor o peso que as políticas públicas têm sobre a preferência eleitoral. O Blog conversou com o cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Marcus André Melo. Ele tem defendido que a preferência da região Nordeste nas últimas três eleições não tem relação com o chamado “lulismo”, mas com outro fenômeno, o “qualuquismo”, ou seja, os eleitores votam naqueles que de fato podem ajudá-los, e não em razão de uma identificação político-eleitoral com os candidatos.
Melo defende análises mais específicas para determinar o quanto o Bolsa Família de fato pesou na decisão eleitoral. Para ele, há um elemento pouco estudado que é o crescimento econômico dos estados do Nordeste que pode ter influenciado a percepção dos eleitores. Por outro lado, não está claro ainda quais elementos pesaram mais para o voto em Dilma no segundo turno nos estados do Sudeste. 


1) Você tem defendido que as populações mais dependentes do governo federal no governo PT não estão associadas ao chamado fenômeno do Lulismo, mas sim ao qualunquismo, um fenômeno mais antigo. Você poderia explicar um pouco melhor o que é exatamente o qualunquismo?
Marcus André Melo: A expressão vem da ciência política italiana e não se confunde com governismo. O voto qualunquista expressa cinismo cívico, associado à impotência e instinto de sobrevivência. Ele se expressa, sobretudo, no apoio, não ancorado em afinidades eletivas, mas ao cacique local, ao intermediário que aprova a emenda ao orçamento, frequentemente em arranjos corruptos. O eleitor se defronta com um dilema: se deixar de apoiar seu candidato local que garante benefícios estará dando um tiro no próprio pé. Ele se alinhará ao que tiver mais chances - em geral o incumbente do cargo – qualunque. Não se trata de cegueira por ignorância nem tampouco de “bon sauvages” – ou melhor “bons jagunços” _ emancipados pelo governo central como o discurso oficial tem insistido. 

A aliança entre os governos do PT e figuras como Collor, Renan, Sarney, Jader Barbalho – talvez a imagem icônica do qualunquismo seja o famigerado beijo do Lula na mão do senador paraense – expressa isso. No plano local a dependência dos grotões frente ao governo central impelem os moradores dessas áreas a apoiarem o governo e seus aliados locais. A intensa competição política local – basta ver o segundo turno competitivo das eleições presidenciais nos estados periféricos - é apenas “uma disputa para ver quem iria ter o privilégio de apoiar o governo central” como afirmou há 50 anos Victor Nunes Leal em Coronelismo, Enxada e Voto.

Nas últimas seis eleições presidenciais o voto nessas regiões tem sido invariavelmente governista. O que levou a esse estado de coisas foi a democracia e não a chegada do PT ao poder. A democracia significa que ricos e pobres tem direitos iguais, apenas um voto. A menos que se queira anular o direito ao voto dos mais pobres, a dinâmica redistributiva perdurará. Não é o Nordeste, mas a maioria dos brasileiros, que tem baixa renda, que sob a democracia, apoia medidas redistributivas. O que há de novo na política nacional é o que já denominei de “federalização do crédito político” com a política social, o que antes só existia na fixação do salário mínimo. A política de transferência de renda não tem intermediários: o eleitor de baixa renda vota no presidente que redistribui mais e melhor, e no oligarca local que aprova a emenda ao orçamento, qualunque.

Os testes de correlação indicam que há uma associação forte entre a proporção de beneficiários do Bolsa e o voto em Dilma. É claro que correlação não é necessariamente causalidade. Mas este não seria um sinal forte do qualunquismo?

Melo: A correlação é instigante como ponto de partida. Mas há um enorme risco de se cometer a chamada falácia ecológica – um dos erros primários mais comuns em estatística, mas que até o pai da sociologia, Durkheim, cometeu. Isso ocorre porque estamos misturando dois níveis de análise: o individual e o do grupo (no caso estados). Há muita coisa envolvida, mas um exemplo intuitivo é quando você olha para duas populações A e B, e observa a variação no habito de fumar no tempo. Passado algum tempo, mesmo que 50% dos fumantes tenham abandonado o hábito, e 50% dos que não fumavam tenham passado a fumar, quando você só olha o dado agregado vai concluir equivocadamente que essas populações mantiveram seus hábitos de fumar inalterados. Esse erro de composição é parecido com o da falácia ecológica. Gelman e colegas no livro Red state, blue state, rich state, poor state ,o trabalho mais instigante da ciência politica sobre a geografia do voto no EUA mostram que embora os ricos votem nos republicanos Bush venceu as eleições nos 15 estados mais pobres, e John Kerry em 9 dos 11 estados mais ricos. O que explica esse resultado aparentemente paradoxal: estados ricos votam nos democratas, mas as pessoas ricas votam nos republicano? É que a correlação entre renda e voto é muito mais forte nos estados pobres do que nos ricos, gerando o efeito de composição paradoxal, só capturado por modelos multinível.

Para se estimar o efeito líquido do Bolsa Família haveria que se utilizar técnicas de matching, comparando o voto de duas mulheres, com famílias do mesmo perfil sócio demográfico (inclusive raça), que moram em municípios muito parecidos, uma sendo beneficiária do bolsa e outra não. Haveria que se controlar também pelo alinhamento ou não do governador com o governo federal, a taxa de crescimento do PIB estadual, o perfil de acesso a outros serviços: saúde, coleta de lixo, etc. Sem fazer isso não podemos estimar rigorosamente se o Bolsa faz diferença ou se os pobres votariam no governo mesmo se Bolsa não existisse. Ou se votam no governo porque sua comunidade melhorou embora sua situação individual tenha se mantido inalterada (o chamado voto sociotrópico), ou porque há mais emprego, etc. Como o Bolsa está correlacionado com muita coisa, e não temos um contrafactual não podemos dizer qual o efeito liquido.

Um outro teste indica que o ganho de votos de Dilma no segundo turno não se associa com o Bolsa Família. Analisando os mapas, observa-se que ela ganhou votos em regiões como Minas, São Paulo, Rio de Janeiro. Qual seria a hipótese explicativa para este voto? Será que não teríamos aí o retorno de antigos petistas ou lulistas? 
Melo: Esse dado não me surpreende. O eleitor nordestino de baixa renda é racional, e nesse sentido é rigorosamente igual ao eleitor de qualquer outra parte do país: ele responde a melhorias no seu bem estar. Sob FHC, ele premiou a inflação baixa, reelegendo-o. Um fator não considerado nas análises correntes é a taxa de crescimento do PIB estadual. Oito dos 12 estados com maior crescimento médio do país no período 2007-2011 estão no Nordeste. Na rabeira está o Rio Grande do Sul (o segundo pior colocado dentre 26 estados). Em 2012, o Ceará cresceu 3,7% e o Rio Grande do Sul encolheu -1,8%. Se o Pará fosse um país teria tido a maior taxa de crescimento do PIB no mundo em 2010: 33, 3 % do PIB. Mas temos que fazer uma distinção entre o conhecimento dos indicadores e políticas e a experiência da economia real. Os indicadores sugerem enorme perda de dinamismo, problemas fiscais seríssimos, represamento de preços, etc. A influência da economia real no eleitor médio se dá através de três sinais: desemprego, preços e custo do crédito – e eles ainda não refletem a crise que vem por aí. Se a eleição fosse daqui a 6 meses o resultado seria completamente diferente. Aliás, Bartels que estudou 70 anos de eleições presidenciais nos EUA mostrou que a economia que importa é a dos últimos 9 meses para o eleitor. O passado ou o futuro não importa para o eleitor médio. 

Sem crescimento, com reversão de expectativas e com péssimos serviços, os eleitores dos estados do Sul e São Paulo estavam mais sensíveis às questões de corrupção: nossas pesquisas e também de pesquisadores fora do Brasil já mostraram que o efeito da corrupção sobre o voto depende do desempenho da economia e das políticas públicas. Mas São Paulo é um mistério: numa das poucas pesquisas acadêmicas sobre o efeito de secas sobre o comportamento eleitoral, Bartels conclui que há punição eleitoral mesmo quando fica patente que o incumbente não poderia ser responsabilizado. Se isso é generalizável, a votação de Alckmin teria sido ainda maior sem seca. 

A se manter a tendência de melhora da economia nos municípios mais pobres, sobretudo no Nordeste, e a ascensão ou também melhora das condições de vida da Classe D/E, teríamos, num futuro próximo, uma quebra do qualunquismo, ou você não acredita nisso, dada as característica da cultura política brasileira?
Melo: A questão poderia ser invertida e referir-se à possibilidade de desenvolvimento efetivo sob o qualunquismo. Afinal ele está ancorado em uma aliança entre governos centrais e elites predadoras locais. Trata-se de uma cooptação de baixo custo. Nesse sentido representa um impedimento ao fortalecimento das instituições dos estados e municípios. Essas alianças debilitam as instituições que são pré-condição para a emancipação econômica. É importante sublinhar que a discussão da politica social no Brasil é similar apenas na forma ao debate político em torno do welfare state em países como a Inglaterra, e que opõe conservadores e liberais. A discussão nesses países é programática e gira em torno de concepções de justiça social, efeitos não antecipados de transferências sobre o mercado de trabalho etc. No Brasil, as alianças constituídas em torno de programas sociais criam as condições para minar seus efeitos emancipadores. E isso deveria reconfigurar o debate.
Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/base-dados/posts/2014/10/29/ganho-de-votos-de-dilma-no-2-turno-nao-tem-relacao-com-bolsa-familia-553452.asp

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Diga-me quem te apóia e te direi quem és


Politicos Cantores Diga me quem te apóia e te direi quem és
Ao contrário do que aconteceu em campanhas anteriores, quando tivemos uma luta feroz dos candidatos por apoios que pudessem multiplicar votos, desta vez a participação de artistas, atletas, intelectuais, líderes políticos e religiosos, e celebridades em geral, foi bem mais discreta.
A três dias da eleição, fiz uma rápida pesquisa no Google e reparei que, neste quesito, o candidato tucano Aécio Neves sai em vantagem, pelo menos no número de apoiadores anunciados ao longo do segundo turno, tanto que dedica boa parte do seu programa de televisão a eles.
Tem um muito de tudo nesta lista e, mesmo que, em seu conjunto, os apoios possam não ser decisivos na eleição de domingo, dão uma boa ideia do que pensa e defende o candidato, talvez até mais do que aquilo que Aécio fala nos debates.
Fui anotando aleatoriamente estes nomes e listo abaixo alguns deles entre os mais conhecidos do grande público.
Pró-Aécio:
FHC, Lobão, José Serra, Neca Setúbal, a família de Eduardo Campos, Silas Malafaia, Zezé di Camargo, Roger, Ronaldo Fenômeno, Romário, Alexandre Frota, Jorge Bornhausen, Dado Dolabella, Fagner, Roberto Freire, Luciano Hulk, Regina e Lima Duarte, Alberto Goldman, Walter Feldman, Paulinho da Força, Marina Silva, Levy Fidelix, Eymael, Pastor Everaldo, Eduardo Jorge, Coronel Telhada, além de setores organizados da mídia e do mercado, que não podem oficialmente declarar suas preferências.
Pró-Dilma:
Lula e Chico Buarque.
E precisa mais?
É aquela velha história: diga-me quem te apoia e te direi quem és.
E o caro leitor do Balaio declara seu apoio a qual dos dois candidatos?
Bolão do Balaio
Por falar em apoios e palpites nesta reta final, chegou uma boa ideia da leitora Maria do Rosário, enviada às 9h09 desta quinta-feira:
"Para animar um pouquinho mais este Balaio de Gatos, sugiro que façamos um bolão para que cada balaieiro dê o seu placar para domingo".
A própria leitora já abriu o bolão: cravou 56 a 44 para Dilma Rousseff.
Participe você também!
 do : http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2014/10/23/diga-me-quem-te-apoia-e-te-direi-quem-es/

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Esse povinho que não sabe o seu lugar...


Ouço as mais esfarrapadas desculpas para o voto anti-PT.
"É preciso acabar com a corrupção."
"O Brasil está virando uma Venezuela."
"A vida piorou muito com o PT."
E por aí vai.
Sem ter, porém, o título de "cientista social" que alguns exibem para justificar arrazoados que não passam de peças publicitárias, ouso afirmar, com base apenas na percepção, que todas essas justificativas são totalmente falsas.
O fato é que a nossa classe média alta, os ricos e mesmo muitos da classe média, mas média mesmo, detestam o PT justamente pelo bem que as suas políticas sociais e econômicas fizeram ao país.
Explico melhor: o sentimento de classe social, de casta, é tão arraigado nessas pessoas, que elas não toleram que os mais pobres ascendam socialmente.

Quantos de nós já ouviu frases do tipo "aquele fulano não sabe o seu lugar"?
Ora, para quem rejeita qualquer tipo de mobilidade social, que foi criado numa casa ou apartamento com empregadas que dormiam naqueles cubículos abafados, à disposição de seus patrões 24 horas por dia, é inconcebível que essas pessoas ou os seus filhos tenham um emprego bem remunerado, estudem numa faculdade, frequentem e comprem em shopping centers, viajem nas férias - de avião! -, venham um dia a se tornar "doutores" - se é que já não são...
Isso, para quem nasceu e viveu na Casa Grande, com os negrinhos da senzala às suas ordens, é o fim do mundo.
Conheço algumas pessoas, muito bem de vida, que vão à missa todos os domingos, rezam, cantam e tecem louvores ao Senhor, ficam, durante alguns minutos, com o espírito imerso no sentimento de bondade e respeito ao próximo pregado por todas as religiões.
Mas que, fora do templo se recusam a pagar o salário mínimo e a registrar na carteira profissional a sua empregada doméstica.
Nem a lei cumprem.
E se sentem com a consciência tranquila depois que dão a algum pobre coitado uma roupa velha, fora de uso.
Essas pessoas não perderam nada nesta década em que o PT governa o país. 
A contrário, aumentaram seus rendimentos.
Vivem num país que finalmente começou a distribuir suas riquezas e a diminuir a ignóbil desigualdade que o envergonhava no mundo inteiro.
Sob o governo do PT milhões de miseráveis se tornaram pobres, milhões de pobres já estão remediados e a pequena quantidade de ricos ficou ainda mais rica. 
Não houve mudança para pior para quem estava no meio da pirâmide social. 
A única coisa que realmente se alterou foi que o preconceito - de todo o tipo - que essa gente guardava no fundo de sua alma, veio à tona quando a nova realidade social foi percebida.
"O PT está acabando com o Brasil."
Sim, está.
Aos poucos está acabando com um país no qual dezenas de milhões não sabiam que eram cidadãos, não sabiam sequer que tinham direitos.
E isso dói em quem sempre se acostumou a mandar, a ser o senhor.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2014/10/esse-povinho-que-nao-sabe-o-seu-lugar.html#more

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Por que Dilma fez muito bem em não ir ao Jornal da Globo


WW
WW
Errar uma vez, tudo bem.
Mas duas, uma em cima da outra?
Acho que foi mais ou menos esta a lógica que governou Dilma ao recusar participar da entrevista-suplício para a qual fora convidada-intimada pelo Jornal da Globo.
Depois da experiência excruciante da entrevista no Jornal Nacional, seria incrível que Dilma comparecesse ao Jornal da Globo.
Foi um ato de sanidade o WO presidencial.
Ter Dilma seria bom para o JG. Mas e para ela?
William Waack mostrou as perguntas que seriam feitas. A mais branda delas indagava se Dilma achava correto oferecer dentes postiços a uma “cidadã pobre” pouco antes que ela participasse de um programa da campanha.
Num tom acima, Dilma era questionada sobre até quando continuaria a culpar a crise internacional pelos problemas econômicos brasileiros.
Quer dizer: Waack já decretara, com toda a sua genialidade econômica, que a culpa não é da crise internacional.
Na atitude de Dilma, há um gesto tardio, mas ainda assim relevante. Por que os candidatos têm que comparecer aos telejornais da Globo?
Porque a Globo manda no país?
É um comportamento obtuso e inercial. No passado, os Ibopes da Globo eram intimidadores, do ponto de vista dos candidatos.
Mas hoje o quadro é outro.
A internet está matando a audiência da tevê aberta.
O Jornal da Globo tem um Ibope na faixa de 7%, coisa que antes você associava a emissoras de segunda ou mesmo terceira linha.
O próprio Jornal Nacional faz força, hoje, para se manter na casa dos 20%, uma migalha em relação às taxas de alguns anos atrás.
Dias atrás, soube-se que a Globo teve em agosto o pior Ibope de sua história no horário nobre: 12,5% em média. (Uma hora, e não vai demorar, o desabamento da audiência vai-se refletir fortemente na bilionária receita publicitária da Globo. O milagre da Globo, hoje, é ter a maior publicidade de sua história com a menor audiência. Só que este paradoxo é, simplesmente, insustentável. Quando um grande anunciante acordar, haverá um efeito dominó, semelhante ao que vem acontecendo no universo das revistas.)
Poderia haver uma razão maior para os candidatos se submeterem às entrevistas da Globo: informação para as pessoas sobre planos, visões, etc.
Mas essa informação – na era da internet – está espetacularmente disseminada.
Coisas boas, coisas más, coisas nebulosas: você pode saber tudo sobre qualquer candidato se rodar pela internet.
Com algum cuidado, você pode se informar sem o conhecido viés – já que estamos falando dela – da Globo.
Em suma: Dilma só teria aborrecimento caso fosse ao Jornal da Globo. Perguntas hostis, feitas para matar e não para informar, e se não bastasse isso uma audiência esquálida e composta maciçamente de antipetistas viscerais.
Dilma tinha muitas razões para não ir, e nenhuma para ir.
Sua decisão não poderia ser melhor.
Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.


no: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-dilma-fez-muito-bem-em-nao-ir-ao-jornal-da-globo/