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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A NATUREZA DA CRISE POLÍTICO-ECONÔMICA BRASILEIRA E QUE POSTURA A ESQUERDA DEVE ADOTAR FACE A ELA


"Quando o capital se converte em ídolo e conduz as escolhas
dos seres humanos; quando a avidez do dinheiro tutela todo
o sistema sócio-econômico, arruína a sociedade, condena o
homem e o converte em escravo, destrói a fraternidade entre
os homens, coloca o povo contra o povo e, como vemos, põe 
em risco esta terra comum – a Mãe Terra!" (papa Francisco)
.
Vivemos um impasse político-econômico. A Operação Lava-Jato foi capaz de tornar explícita uma verdade histórica guardada a sete chaves, ainda que conhecêssemos sua existência: o organismo institucional estatal brasileiro sempre foi corroído pela corrupção, que avançou agora a níveis antes nunca vistos. 

Qualquer um de nós sabe de uma história envolvendo uma falcatrua desde o mais modesto vereador ou prefeito do mais modesto município até os mais altos escalões da República (aí incluídos os representante dos três poderes).

Mas, a explicitação da crise política, reforçada pela crise moral expressa na corrupção, só se deu devido à péssima conjuntura econômica: caso houvesse satisfação popular, com bons níveis de empregabilidade, aumento de salário real e crescimento do PIB, o poder político já teria sufocado a luta contra a corrupção travada por destacados membros do Poder Judiciário. Exemplos disto são as tentativas temerárias ora em curso.

Quando a economia mostra a sua insustentabilidade, cria-se um quadro de anomia social no qual se atribui culpa a diversos fatores, menos àquele que é sua base primária: a contradição da lógica capitalista em processo, que agora atinge o estágio de necessidade de superação de sua forma e conteúdo. Afinal, não se pode negar aquilo que se defende.

A política conduzida incompetentemente e com níveis de corrupção elevados, como ocorre no Brasil, pode causar sérios estragos à economia; mas a política bem conduzida e isenta de corrupção não pode sanar as contradições próprias da economia em seu conjunto, nem evitar a evolução negativa das relações econômicas. Quanto muito, os governos competentes e bem assessorados transferem para zonas periféricas do capital os infortúnios que são próprios da mecânica funcional capitalista. 

É o que acontece com o Brasil e todos os países periféricos do capitalismo, que agora pagam o pesado ônus da sustentação da decadência capitalista mundial, também presente nos países hegemônicos (estes igualmente definham, mas contam com regalias financeiras salvadoras e, eventualmente governos competentes, assessorados por sábios conhecedores da lógica do capital, além de apresentarem baixas taxas de corrupção interna).
A questão que ora se coloca não é apenas de competência administrativa e de combate à corrupção, que são inegavelmente importantes para a sôfrega continuidade do sistema, mas de compreensão sobre o que está na base dos problemas, que são mundiais.

No Brasil, tais problemas são agravados por uma elite política aculturada nos privilégios e na corrupção, de resto cada vez mais composta por bandidos ignorantes travestidos de homens públicos, e que por isto mesmo não percebem estarem cavando as próprias sepulturas. As invasões das instituições parlamentares e de executivos municipais no Brasil afora são exemplos irrefutáveis da consequência desse estado de coisas. 

Os países ricos (que ora definham) não são ricos por serem sábios, sagazes, e por respeitarem as regras do jogo, evitando e punindo até certo ponto a corrupção interna com o dinheiro público; mas sim porque eles são os beneficiários diretos de um jogo que, em si, é corrupto. As suas condições de cultura científica elevada e domínio da tecnologia de produção proporcionam níveis de produtividade de mercadorias que os fazem ricos à custa dos que não têm os mesmos níveis de produtividade. Uma lógica de corrupção em si. 

Mas, agora, mesmos os ricos veem muitas das suas unidades fabris se deslocando para outros países em busca de mão de obra barata, numa fuga do capital para a frente, pois, na medida em que reduzem a massa global de valor e de trabalho necessário e excedente (que formam a extração de mais valia), anunciam o fim irreversível do capital. 

De resto, lá também ocorrem ebulições políticas cada vez mais visíveis (vide o avanço da direita, fruto do desconforto dos nacionais, saudosos de um passado que não voltará).
.
OS REVOLUCIONÁRIOS E O 
DERRETIMENTO DO GOVERNO TEMERÁRIO

Historicamente é a economia aquilo que dá sustentação aos governos federais. O Panis et circenses acalma a população e, infelizmente, a torna passiva diante da opressão histórica, pois com pouca coisa o capital mantém o seu domínio. Vejamos exemplos recentes:
- o ditador Figueiredo não suportou a vertiginosa queda do PIB havida entre 1981 e 1984 (-1,0% ao ano na média do período) e apressou o fim do regime de exceção; 
- o presidente FHC se elegeu nas asas do Plano Real, concebido por economistas, e que estancou a absurda inflação brasileira do final dos anos 80 e início dos anos 90, sob Sarney e Collor). Quando a inflação voltou e o crescimento do PIB se tornou pífio, o governo neoliberal tucano caiu do ninho;
- o governo Lula somente sobreviveu à crise domensalão graças aos bons e ilusórios números da economia brasileira enquanto o mundo amargava a crise do sistema financeiro de 2008/2009, capaz de ainda eleger Dilma Rousseff, a qual, por sua vez, não resistiu à renitente queda do PIB e foi defenestrada;
- o sistema apostou as suas fichas no presidente Temerário, que contou com o apoio dos segmentos políticos e empresariais para a retomada do crescimento. Sete meses transcorridos desde a posse, a economia não tem dado respostas e já se fala abertamente na sua queda via TSE, por irregularidades e abuso de poder na última campanha eleitoral, caminho juridicamente possível para a perda do seu mandato, ensejando umaeleição indireta (pois o TSE já decidiu que só julgará a chapa Dilma-Temer no ano que vem, com o que caducaria o prazo para a eleição de um ou uma presidente tampão ser direta). 
É natural que este eterno pêndulo da ineficácia seja constantemente objeto de tentativas de conserto ou aperfeiçoamento por quantos querem a permanência do capitalismo e o enxergam como única forma possível de relação social, aí incluídos os partidos socialistas mais ou menos radicais.
Mas, não é natural que tais iniciativas devam constar dos corolários de proposições de quem quer a superação do capitalismo e sua substituição por um modo de produção social que emancipe a humanidade.

Não é uma questão de apostar no quanto pior, melhor, mas sim de optar pelo quanto melhor, melhor.

Por que insistir em curativos diante de uma metástase sistêmica?

Proposições de melhoras econômicas como as que foram apresentadas pelo ministro Henrique Meireles, na tentativa de dar sobrevida ao governo do presidente Temerário, não passam de movimentos desesperados num terreno de areia movediça; ainda que possam alongar a agonia, terminarão por se evidenciar como insustentáveis, porque inseridas na imanência de um sistema que faz água estruturalmente. 

Assim, por que quem almeja a superação dos problemas estruturais e não consertos paliativos deveria participar de proposições dentro da imanência capitalista? Não há nenhuma razão para tanto.

A estes últimos somente cabe:
- a denúncia da farsa dos remédios institucionais e econômicos paliativos; 
 - a denúncia das medidas de austeridade que sacrificam o povo, impingidas como remédio amargo para a solução de problemas de base que, na verdade, são insolúveis dentro da imanência capitalista; 
- o abandono da participação parlamentar e de cargos executivos que apenas legitimam o conservadorismo de um Congresso eleito mediante práticas viciosas, denunciadas todos os dias pela grande mídia. Ao serem obrigados a administrar a crise do capitalismo da esfera estatal, tomando atitudes anti-povo, os governantes de esquerda só colhem descrédito e desmoralização;
- a afirmação paulatina de práticas fora da lógica de mercado; 
- o apoio a quem defende a liberdade e os direitos civis (ainda que sejam iludidos com o capitalismo) e que estejam sendo perseguidos;         
- a defesa de conceitos educacionais pela grade escolar básica, acadêmica e popular, que sirvam de elemento de conscientização popular sobre a essência dos males sociais e formas de sua superação; 
- o reforço das lutas dos trabalhadores, demonstrando que a saída é a própria negação da condição de trabalhadores e do trabalho como categorias capitalistas formadoras do capital privado ou estatal, afirmando que a produção deve estar voltada para a satisfação de suas próprias necessidades e das necessidades coletivas;  
- a denúncia dos crimes ecológicos como a poluição dos rios, lagos e oceanos, a emissão de gases que provocam o catastrófico e ecocida aquecimento global, etc.; e. por fim,
- a defesa de atitudes de afirmação da vida e da liberdade.(por Dalton Rosado) 
 https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/12/a-natureza-da-crise-politico-economica.html

domingo, 28 de fevereiro de 2016

O tardio perdão aos povos originários pelo Papa Francisco


Foi memorável a data de 15 de fevereiro de 2016 quando o Papa Francisco esteve na cidade colonial San Cristóbal de de las Casas, capital do estado mais pobre do México, Chiapas, lá onde em 1994 irrompeu a rebelião dos zapatistas que perdurou até 2005. Encontrou-se com os povos originários, maias, quichés e outros. Diante de cem mil pessoas celebrou missa utilizando as línguas deles.
Foi uma visita de dupla reparação. Primeiro aos povos originários, pedindo perdão pelos séculos de dominação e de de sofrimento:”Muitas vezes, de maneira sistemática e estrutural, os vossos povos foram alvo de incompreensão e excluídos da sociedade. Alguns consideraram inferiores seus valores, cultura e tradições, (…) e isso é muito triste. O que nos faria bem, a todos nós, seria um exame de consciência e aprender a pedir perdão”.
Ecoam ainda aos nossos ouvidos as palavras comovedoras do profeta maia Chilam Balam de Chumayel:”Ai entristeçamo-nos porque chegaram…vieram fazer nossas flores murchar para que somente a sua flor vivesse; entre nós se introduziu a tristeza, veio o cristianismo; esse foi o princípio de nossa miséria, o princípio de nossa escravidão”.
O impacto da invasão dos espanhóis foi tão violenta que dos 22 milhões de astecas existentes em 1519 quando Hernán Cortés penetrou no México, só restou em 1600 apenas um milhão de pessoas. Muitos morreram em guerras e a grande maioria por doenças dos europeus contra as quais não tinham imunidade. Foi um dos maiores genocídios da história humana. Os colonizadores sujeitaram os corpos, os missionários conquistaram as almas. Na linguagem de um indígena do século XVI, os espanhóis, todos cristãos, “foram o anti-cristo na Terra, o tigre dos povos, o sugador do índio”.
Agora nos vem um Papa da América Latina que não escamoteia, como sempre se fez pela Igreja oficial e pela Espanha, esta devastação de inteiras nações. Reconhece os pecados e abusos e pede perdão.
Fez uma segunda reparação: o resgate do bispo Dom Samuel Ruiz García, incompreendido pela hierarquia mexicana, em grande parte conservadora e literalmente perseguido pelo Vaticano por introduzir diáconos indígenas e por colocar as bases de uma “Igreja indígena” que combinava elementos de Catolicismo e da cultura autóctone que inclui ramos de pinheiros, ovos e referências a Deus como Pai e como Mãe. O Papa reconheceu as três línguas principais como línguas litúrgicas: chol, tzotzil e tzeltal. Deteve-se diante do túmulo de Dom Samuel Ruiz e rezou longamente.
Mais ainda. O Papa reconhece a grande contribuição que podem dar ao mundo pela forma como tratam a Pacha Mama, com respeito, veneração e harmonia. Retoma o discurso da encíclica sobre o “Cuidado da Casa Comum” e diz enfaticamente: “Não podemos permanecer indiferentes perante uma das maiores crises ambientais da história. Nisto, vós tendes muito a ensinar-nos. Os vossos povos, como reconheceram os bispos da América Latina, sabem relacionar-se harmoniosamente com a natureza, que respeitam como fonte de alimento, casa comum e altar do compartilhar humano”.
Acrescenta ainda: “Entre os pobres mais abandonados e maltratados está o nosso oprimido e devastado planeta. Não podemos fazer-nos surdos face a uma das maiores crises ambientais da história”. E novamente convoca esses povos originários a serem referência viva de um outro modo de habitar a Casa Comum, de produzir, de distribuir e de consumir em consonância com os ritmos da natureza e na equidade na participação dos bens e serviços naturais.
De minhas andanças pelos vários países latino-americanos constato dois fenômenos visíveis: o resgate biológico dos povos originários. Eles estão crescendo em número e refazendo sua população, outrora quase exterminada. E o segundo é a reconquista de sua cultura com suas religiões com e sua sabedoria ancestral, transmitida pelas “abuelas e abuelos” (as avós e os avôs), de geração em geração. É uma experiência inolvidável participar de suas celebrações dirigidas pelos seus sacerdotes, sacerdotisas e sábios. Aí se sente uma profunda sacralidade e comunhão com todos os elementos do universo, da natureza e da Mãe Terra.
Eles não são filhos da modernidade secularizada. Guardam a sagrada veneração por todas as coisas. Sentem-se filhos e filhas das estrelas e em profunda comunhão com os ancestrais. Estes são apenas invisíveis mas estão presentes, acompanhando o povo com seus conselhos transmitidos pelos anciãos e pelos sábios.
Devemos revistar estas culturas ancestrais. Nela estão vivos princípios e valores que nos poderão inspirar formas de superar a nossa crise de civilização e garantir o nosso futuro.
Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu “América Latina: da conquista à nova evangelização”, Vozes 1992.
https://leonardoboff.wordpress.com/2016/02/27/o-tardio-perdao-aos-povos-originarios-pelo-papa-francisco/

terça-feira, 14 de julho de 2015

Não “habemus” mais Papa?



Vamos imaginar uma situação diferente da que aconteceu na semana passada, na qual o Papa asseverou que o capitalismo é uma “ditadura sutil”, que a concentração monopolista dos meios de comunicação impõe “pautas alienantes” e gera um “colonialismo ideológico”, e supor o que ocorreria se o Papa defendesse a redução das funções públicas do Estado, o direito a monopolizar a formação da opinião, o mercado desregulado e o império cultural dos países ricos sobre os países pobres. Convém notar, em primeiro lugar, que as importantes manifestações do Papa tiveram escassos reflexos nas pautas nobres da grande mídia, com exceção da Folha de São Paulo, e só foram expandidas, como informação, pelas “redes” alternativas de comunicação.

Creio que se o Papa tivesse defendido as posições já conhecidas do liberalismo de direita, teríamos o início de uma nova grande campanha contra o setor público, contra os pressupostos de um Estado Social de Direito e, certamente, um novo ciclo de propaganda dos “ajustes”, que tem massacrado as camadas sociais mais pobres de todos os continentes. Se o Papa tivesse adotado as posições já conhecidas da direita liberal, teríamos um novo ciclo de lavagem cerebral, de natureza ideológica, baseada num velho princípio que informou as saídas de crises, sob governos comprometidos com os mais ricos: na hora de bonança e crescimento concentremos renda, na hora de perdas e recessão distribuímos os prejuízos para baixo.

Parece que todos aqueles colunistas, jornalistas, “especialistas” de plantão da grande mídia, que saudaram a emergência de um Papa que se locomovia de ônibus, que conhecia a vida dos pobres de Buenos Aires, que falava com palavras simples aos seus fiéis, não esperavam que  ele fosse o homem que aparentava ser: um homem profundamente religioso, que não escondia as suas convicções de que o ser humano real, este que  sofre os tormentos do capitalismo “sem alma”, merece a atenção e o carinho de uma Igreja que promete a salvação na eternidade.

Nas memórias do grande diretor John Huston está transcrita uma carta do magnífico escritor B.Traven, autor do precioso, entre outros, “Tesouro de Sierra Madre”, que se tornou película dirigida por Huston  e cujo personagem principal foi encenado por Humphrey Bogart. O escritor, que duvidava da seriedade de intenções dos que queriam transformar seu livro em filme diz, na carta citada por Huston: “Em Hollyhood todo mundo pensa unicamente em dinheiro e em novos contratos, ninguém pensa em fazer algo extraordinariamente grande.”

Fazer “algo extraordinariamente grande”, mesmo se os tortuosos caminhos da História venham, depois — independentemente da vontade daqueles seres humanos especiais — desviar o curso da sua intencionalidade ética. O Papa deve ter pensado algo parecido, quando deu as declarações que afrontaram aqueles que, além de deter um poder extraordinário pela sua riqueza material, controlam a formação das opiniões a seu respeito. E o fazem porque subjugam o “direito humano à comunicação”, como diz aqui o nosso professor Pedrinho Guareschi, colocando as emoções a serviço da acumulação sem trabalho e profanando  os corpos na chama irracional do consumismo.

A Europa das Luzes teve capacidade de combinar, por um certo tempo, a emergência da cultura democrática com o escravismo; depois, fez conviver a democracia política com o colonialismo e seus massacres; hoje, depois do curto reinado social-democrata — na mesma Europa — a Alemanha, nação devedora do Século passado que jamais pagou suas dívidas de guerra, dá um passo trágico: faz da Grécia, estuprada pelo nazismo, a Câmara de tortura do capital financeiro. Nós, seres não especiais, dizermos isso que o Papa disse, é o trivial. O não-trivial é o Papa dizer isso, que ele disse, e a grande mídia praticamente censurar suas mensagens.

Parece que, de repente, o essencial do que é o Papa, um ser humano solidário com os pobres e que  desafia o capitalismo a ser verdadeiramente democrático, que não teme ser taxado de “esquerda” — parece que este Papa essencial — deixou de existir para a grande mídia, que o tratará, agora, como já fez um apressado colunista da mesma Folha, como um populista-peronista. O Papa, que não teve seu coração nem sua mente forjados pela direita midiática escapou do controle ideológico do neoliberalismo, e disse: sois seres humanos, não sois mercadorias. Não aceitem isso que aí está, façam algo extraordinariamente grande!

Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.
No Sul21, via http://www.contextolivre.com.br/2015/07/nao-habemus-mais-papa.html

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

PAPA NAO PODE SER JUIZ DO LIMITE DA CRITICA RELIGIOSA NÃO TEM MORAL HISTÓRICA

Nossa Idade Média: religiosos não podem ser os juízes do limite da crítica à religião



por Paulo Jonas de Lima Piva

Mesmo com tantos avanços científicos e tecnológicos ainda vivemos num mundo em que as pessoas acreditam em divindades, livros sagrados, messias, espíritos, vida após a morte e capetas. Por outro lado, há muitos que não acreditam. Para administrar tal discrepância, a tolerância mostrou-se o melhor caminho no mundo secularizado e pós-teocêntrico. E como parte constituinte do valor da tolerância está o direito de crítica aos dogmas religiosos - aliás, um grande avanço civilizacional -, o qual inclui o humor como uma de suas formas.

Criticar dogmas religiosos, dentre eles seus personagens, é bem diferente de ofender o direito de fé das pessoas. Obviamente é de se esperar que nos sintamos incomodados de algum modo quando nossos dogmas são alvejados por críticas muitas vezes duras. Aí o problema é de quem se ofendeu com as críticas aos dogmas e não de quem critica os dogmas dessa fé. Pois se a crítica deixar se levar pelas reclamações dos carolas, pela sensibilidade da paixão dos religiosos, como quer o papa Francisco, o pensamento crítico simplesmente irá se atrofiar. Portanto, é fundamental que insistamos: criticar os dogmas religiosos, seja por meio de argumentos sisudos, seja por meio do humor, é diferente de insultar o direito de fé dos religiosos. E se estes se sentirem ofendidos com as críticas sisudas ou sarcásticas aos dogmas da sua religião, o problema é do religioso que ainda não se preparou psicologicamente para viver numa sociedade pluralista. O que é inaceitável é que os religiosos estabeleçam os limites dessa crítica, como quer fazer o papa, pois são parte diretamente interessada na questão.
*opensadordaaldeia, via : http://chebolas.blogspot.com.br/2015/01/papa-nao-pode-ser-juiz-do-limite-da.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+Chebola+(CHEbola)

sábado, 23 de março de 2013

Veja já apela até para o papa argentino Francisco I




Depois de uma pesquisa Datafolha que aponta a presidente Dilma Rousseff com 58% da preferência nacional e de um Ibope que lhe dá um potencial de até 76% dos votos, a revista Veja roga ao Vaticano; capa desta semana pede que o papa exerça influência política sobre a América Latina e ajude a conter governos "populistas"; na imagem de capa, Dilma e Cristina Kirchner aparecem à "sombra do papa"; será que Francisco I disputará eleições?


O ambiente político para forças políticas de direita ou mesmo centro-direita na América Latina, definitivamente, não é dos mais alvissareiros. Nos últimos anos, governos de esquerda e centro-esquerda chegaram ao poder em praticamente todos os países do continente e se legitimaram junto ao povo graças a políticas sociais mais amplas, que ajudaram a desconcentrar a riqueza numa das regiões mais desiguais do mundo. A isso, alguns dão o nome de distribuição de renda. Outros, de "populismo".

No Brasil, a revista Veja faz parte do segundo grupo. E um dia depois de duas pesquisas que representam um balde de água fria – o Datafolha que dá 58% da preferência eleitoral à presidente Dilma Rousseff e um Ibope que revela um potencial de até 76% dos votos –, a publicação da Editora Abril aposta suas últimas fichas no Vaticano. Veja pede que Francisco I exerça influência política sobre a América Latina e ajude a conter governos "populistas" – grupo em que a publicação de Roberto Civita, internado na UTI do Sírio-Libanês, inclui o Brasil.

Na reportagem "O povo é do papa", Veja ajoelha e reza. "Para nenhum governante da América Latina com tentações populistas a existência de um papa genuinamente popular, avesso a demagogias, e ainda por cima argentino, seria motivo para comemorações. O viés paternalista dos governos da Argentina, do Equador, da Venezuela, da Bolívia e, cada vez mais, do Brasil, sobrevive apenas se tiver exclusividade no papel de representante do povo. Ter de dividir essa função com alguém que lidera a religião de 483 milhões de latino-americanos (…) é um grande incômodo político".

Em sociedades que progridem, como ocorre na América Latina, religião e política são temas cada vez mais distantes. O próprio Francisco I já deixou claro que sua missão nada tem a ver com política. A despeito disso, a imprensa conservadora, aristocrática e de direita, como é o caso de Veja, deposita nele suas últimas esperanças. Segundo a revista, Francisco I fará bem ao ambiente político da América Latina. Será que ele também disputa eleições?”

domingo, 17 de março de 2013

"Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino da Terra", Chico 2.0





A mídia está querendo transformar o novo Papa em aliado de sua luta contra os governos populares da América Latina (berço da Teologia da Libertação). Pode vir a ser, mas acho difícil. Essa luta não é o foco atual da igreja Católica e um escorregão nessa direção pode atrapalhar na sua questão principal, que é a luta contra o avanço dos evangélicos, basicamente os pentecostais e neopentecostais. Ao contrário do medievalismo católico, que oferece como única alternativa “concreta” a felicidade no Reino do Céu, os evangélicos acenam com riquezas bem terrenas a seus fiéis. A partir dessa diferença básica e com uma estratégia de marketing bem mais agressiva, os evangélicos arrebanham fatias cada vez mais expressivas das estatísticas católicas (principalmente nas áreas urbanas, com suas franjas lumpen). No Brasil, o maior país católico do mundo, de 1970 para 2010, a participação do catolicismo caiu de 91,8% para 64,6%, enquanto a participação dos evangélicos pulou de 5,2% para 22,2%. (Destacamos que, na Argentina, as estatísticas de 2008 mostram 75,5% de católicos contra 9% de evangélicos – mas com grande crescimento desses últimos, o que também ajuda a explicar um Papa argentino.)
Diante dessa realidade infernal, à igreja Católica – agora sob nova direção –, interessa muito mais aliar-se aos governos populares do que forçá-los a uma aproximação do universo evangélico. Se o Papa Francisco nos tempos das ditaduras foi conivente ou omisso, é uma questão que vai se tornar um “não foi nada disso”. E em vez de oferecer riquezas imateriais, a igreja Católica passará a acenar com riquezas mais palpáveis, capazes de abafar o canto da sereia evangélico. Para isso, terá que apoiar as políticas sociais e fugir como o diabo foge da cruz da política de terra arrasada dos neoliberais. "Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus”, como diz Lucas 6.20? Nem pensar. O mote é outro, surge a possibilidade de uma nova aliança popular. E quem saltou na frente estendendo a mão para esse novo acordo político-religioso foi o presidente Maduro, da Venezuela, que atribuiu aos conselhos do “apóstolo” Chávez a escolha do novo Papa. Apesar desse Papa estar sendo visto (com razão) com certa desconfiança por parte da esquerda,  pode estar sendo lançada a Nova Igreja Católica Popular da América Latina.
(“Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis.” Lucas 6.24 e 25)
blogdogadelha

sábado, 16 de março de 2013

O PAPA FRANCISCO E O JORNAL NACIONAL



JN esquece do jornalismo e presta enorme serviço à igreja católica
A exemplo de quarta-feira, 13, quando foi eleito o novo papa, o Jornal Nacional de ontem também foi quase todo dedicado ao assunto. Com a íntegra em mãos, planejava contar quantas vezes, em 33 minutos de noticiário, determinadas palavras apareceriam. Desisti após o primeiro bloco, quando já se somavam 23 “papas”, sete “Jesus Cristo”, seis “missa” e uma pilha de “cardeais”, “igreja”, “basílica”, “deus”, “cúria”, “senhor” etc. Montei então o roteiro de frases abaixo, todas ditas pelos apresentadores William Bonner (nos estúdios da Globo no Rio) e Patrícia Poeta (no Vaticano) e pelos repórteres da Globo que fizeram a cobertura por lá, na Argentina e em Jerusalém. Lembro que todo material abaixo vinha acompanhado da entonação certa, trilha “emocionante”, edição cuidadosa, sorrisos etc. As frases estão colocadas em ordem de aparição:
“O primeiro dia do novo papa, a primeira missa”
“Como o papa se tornou conhecido pela simplicidade”
“Um papa matutino”
“Começou impondo um estilo novo ao papado e recusou o carro oficial”
“´Também sou um peregrino´, disse”
“Comportou-se como um padre, quase um pai de família. Nem usou o trono para a homília”
“Tem a simplicidade evangélica de João 23 e o sorriso paterno de João Paulo I”
“O papa Francisco começa a conquistar um certo fascínio que já existia entre os cardeais”
“O colégio, num grande e inteligente gesto, em poucas horas mudou o rosto da igreja”
Aí entra ao vivo Don Odilo Scherer, que respondeu a 4 perguntas rápidas. Terminou a última, sobre a “torcida brasileira” a seu favor, dizendo que “os cardeais deveriam escolher aquele que deus indicasse”. Ao que Patrícia Poeta emenda, emocionada: “Que assim seja”.
Vem então uma reportagem sobre beatificação de João Paulo 2: “O papa peregrino, João Paulo 2º, pregou com gestos a humildade … tinha sorriso sereno e cativante … enorme carisma de se comunciar com as multidões… apenas 6 anos depois de sua morte, a igreja concluiu a beatificação, último passo, antes de torná-lo santo … O clamor começou logo após sua morte, em abril de 2005. Depois, veio a descoberta do primeiro milagre. A cura de uma freira francesa, que sofria de mal de parkinson”.
[O milagre entrou dessa forma, como uma notícia banal, sem a palavra “suposto” ou “segundo a igreja”]. E termina assim a matéria de João Paulo 2º: “A imagem de um dos papas mais adorados da história recente é o reflexo também do que a igreja busca com a escolha de agora: a força de um líder carismático e amado”.
Continuam as frases do JN:
“O moderado e humilde Jorge Bergoglio”
“Antes mesmo de se tornar papa, Jorge Bergoglio já era conhecido por cultivar hábitos simples”
“Nos primeiros gestos, nas primeiras palavras, já um jeito próximo, natural. ‘Irmãos, irmãs, boa noite’. Ali estava não mais o Jorge, mas o Francisco”
“O nome já era um recado, mas era necessário mais. E para esse papa, o mais era o menos. Despojado, sem joias, apenas a batina branca”
“Repare no crucifixo, é de aço, nem mesmo é de prata”
“[Deixou que] vários cardeais se apertassem no elevador com ele”
“O papa preferiu ir de ônibus com os cardeais, deixando o carro especial do pontífice seguir vazio”
“De onde vem essa inspiração, esse sentimento de humildade? Até agora, o próprio papa não falou nada sobre isso”
“Francisco parece já ter definido como prioridade do seu papado a solidariedade para os que mais precisam”
“Ontem ao se despedir do publico, dizendo ´boa noite, bom repouso´, parecia um pai que vela pelos filhos. Sua santidade. Santa simplicidade”
Começa um bloco sobre a vida de Jorge Bergoglio na Argentina. O JN lembrou rapidamente das críticas mais fortes que pesam sobre o novo papa, seu suposto apoio à ditadura no país vizinho:“Durante a década de 1970, na ditadura argentina, Bergoglio era a principal autoridade eclesiástica do país. Um jornalista o acusou num livro de ter dado informações que levaram à prisão de 2 padres jesuítas, que supostamente teriam ligações com grupos de esquerda. Em sua defesa, Bergoglio disse que há um documento que prova o contrário, ele pediu a renovação dos vistos de permanência no país de um deles. Já um biógrafio do papa diz que ele agiu secretamente para ajudar a retirar perseguidos politicos da Argentina”. Esse pedaço “crítico” do noticiário, que durou pouco mais de um minuto, termina assim: “Papa Francisco tem posição semelhante a de Bento XVI: é contra o uso de preservativos”.
Voltam as frases:
“Na terra santa, as pessoas rezaram e se disseram contentes com a escolha de um papa humilde, de nome Francisco”
“Por todo oriente médio foi assim: atenções voltadas para o homem de fala suave e olhar sereno”
“Já que estamos falando de carisma, o que chamou a atenção hoje aqui nas ruas do Vaticano foi o número de fieis tirando fotos, entrando nas lojas e perguntando se tinha um santinho, um terço, uma lambrança do novo papa. Isso horas depois dele ter sido eleito. E quem procurou muito, acabou encontrando. Eu achei, nós procuramos bastante e achamos, tá aqui: “Habemus Papam Franciscum [e mostra um santinho com a cara do argentino]. Tá aqui Bonner, tô mostrando pra vocês”
No bloco final, a ameaça de um pouco de jornalismo: “Apesar de tanto segredo, a imprensa daqui começa a publicar alguns detalhes do conclave que elegeu o novo papa. De acordo com o que um respeitado vaticanista declarou a um jornal italiano, a primeira votação apresentou o italiano Ângelo Scola, o canadense Mark Ouellet e Jorge Bergoglio com mais votos”. Patrícia Poeta, contudo, desconversa: “Mas isso não importa mais”. E volta ao normal:
“Em mais uma demonstração do bom humor que estamos começando a conhecer, o papa brindou com os cadeais que o escolheram”
Por fim, recebe os cumprimentos do parceiro de mesa e editor do JN, William Bonner, que encerra assim o jornal:
“Missão cumprida, Patrícia. Para você e para toda nossa equipe que fizeram esse trabalho belíssimo aí no Vaticano, parabéns”.

Fonte:  Conversa Afiada

quinta-feira, 14 de março de 2013

Manifestações de apoio e repúdio ao novo papa dividem argentinos



Logo após o anúncio, fiéis católicos se reuniram nas escadarias da Catedral de Buenos Aires
Logo após o anúncio, fiéis católicos se reuniram nas escadarias da Catedral de Buenos Aires
Buzinaços foram ouvidos nas ruas de Buenos Aires logo após o anúncio da escolha do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, como novo papa. Mas as comemorações logo deram lugar às manifestações de apoio ou repúdio ao novo pontífice. Logo após o anúncio, fiéis católicos se reuniram nas escadarias da Catedral de Buenos Aires, no centro da cidade. Com bandeiras azuis e brancas, as cores da Argentina, gritavam: “O papa é argentino” e “Salve Bergoglio”.
A catedral fica a poucos passos da sede da Presidência da República, a Casa Rosada, e em frente à Praça de Maio, símbolo dos protestos em defesa dos direitos humanos e contra os crimes da ditadura, com a qual o agora papa Francisco foi acusado de colaboração por um jornalista local. Nas ruas, a euforia durou poucos minutos. O clima ainda era de surpresa e, ao mesmo tempo, de orgulho com o nome de um papa argentino. “Temos rainha (princesa Máxima, mulher do príncipe herdeiro da Holanda), temos Messi e agora o papa”, disse a comerciante Maribel Cortinez, de 36 anos.
- Ele nos acolheu, nos abraçou e se emocionou com cada um de nós quando perdemos nossos filhos naquela tragédia de Cromañon – disse, na quarta-feira, o pai de uma das vítimas do incêndio em uma discoteca que deixou dezenas de mortos em 2004, em Buenos Aires. Nas principais emissoras de rádio e de televisão do país, como os canais TN e C5N, comentaristas destacavam a “austeridade” de Bergoglio, que costumava viajar de metrô e de trem na capital argentina, e suas homilias criticando a exclusão social e a corrupção nos governos. “Um povo que não cuida de suas crianças e de seus idosos é um povo em decadência”, disse ele em uma missa.
Casamento gay
Suas declarações polêmicas incluíram a condenação publica ao então projeto do casamento entre pessoas do mesmo sexo, aprovado em 2010 no país, transformando a Argentina no primeiro país da região a adotar a medida. “Não sejamos ingênuos, não se trata de simples luta política, mas a pretensão destrutiva ao plano de Deus, o de um homem e uma mulher crescerem e se multiplicarem”, afirmou.
Os sacerdotes que trabalharam com ele, em Buenos Aires, onde nasceu e foi cardeal, disseram à imprensa local que “ele condenou as críticas e a falta de respeito aos gays”. Outro tema controverso foi seu papel durante a ditadura argentina (1976-1983), com acusações de que teria sido “omisso” ou “cúmplice” naqueles anos de chumbo e, principalmente, suas diferenças públicas com o governo do ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007), morto em 2010, e de sua mulher e sucessora, a presidente Cristina Kirchner.
Em um discurso, transmitido ao vivo pelas emissoras de televisão do país, nesta quarta, Cristina Kirchner disse que espera que ele “defenda o diálogo” e “os excluídos”. Mas quando ela citou o nome do papa Francisco, setores da platéia vaiaram e outros aplaudiram. Cristina fez um gesto pedindo silencio, e lembrou que Francisco “é o primeiro papa latino-americano”. “É um dia histórico para a América Latina. Desejamos ao papa Francisco toda a sorte do mundo nesta missão pastoral”. O público, então, aplaudiu.
Ditadura
O porta-voz da Presidência, Alfredo Scoccimarro, disse que a presidente comparecerá à posse do novo papa, no Vaticano. Analistas disseram às rádios locais que a presidente “não compareceria à posse caso Bergoglio tivesse vínculos com a ditadura”. A polêmica sobre o posicionamento de Bergoglio durante a ditadura foi destaque nas redes sociais. “Um cardeal que não excomungou (o ex-ditador Jorge Rafael) Videla nunca será um papa para todos e todas”, escreveu em seu mural no Facebook a transexual Melisa Stella Saagratta.
A denúncia sobre os supostos vínculos de Bergoglio com o regime militar foi feita pelo jornalista Horacio Verbitsky, no livro El Silencio. Segundo ele, testemunhos de vítimas do regime indicavam em 1976 Bergoglio, então chefe da congregação jesuíta na Argentina, teria retirado a proteção a dois sacerdotes de sua ordem que realizavam tarefas sociais em bairros pobres de Buenos Aires.
Os dois religiosos – Orlando Yorio e Francisco Jalics- foram detidos em 1976 e ficaram presos por cinco meses na Escola Mecânica da Marinha, local conhecido por ter sido um dos principais centros de tortura durante a ditadura argentina. Bergoglio posteriormente rechaçou as acusações. “Fiz o que podia, com a idade que tinha e os poucos relacionamentos com que contava, para advogar por pessoas sequestradas”, disse. Ele afirmou que não havia respondido às acusações imediatamente para “não fazer o jogo de ninguém, não porque tivesse algo a ocultar”.
O cardeal também foi chamado como testemunha em processos relacionados à ditadura, como o caso do desaparecimento de uma mulher grávida, filha de uma das cofundadoras da organização Avós da Praça de Maio, ou o sequestro e assassinato de um padre francês na província de La Rioja, em 1976.
- Segundo a fonte que se consulte, Bergoglio pode ser definido como o homem mais generoso e inteligente que já existiu ou um maquiavélico que traiu seus irmãos e os entregou ao desaparecimento e à tortura aos militares – escreveu Verbitsky. O Nobel da Paz Adolfo Perez Esquivel, que recebeu o prêmio por seu ativismo durante o último regime militar, disse à agência britânica de notícias BBC  que “o papa (Francisco) não tinha vínculos com a ditadura”.
O escritor Ceferino Reato, autor do livro Disposición final, no qual Videla reconhece o desaparecimento de vítimas da ditadura, disse à BBC Brasil: “Bergoglio é austero, atento com o cotidiano dos pobres, apóia fortemente o trabalho dos sacerdotes nas favelas. É um homem inteligente e a favor do diálogo com o judaísmo e o islamismo. Sobre as acusações sobre seus vínculos com a ditadura, Bergoglio disse que, ao contrário, que ele se preocupou com estes sacerdotes (dois jesuítas) e conseguiu que a Marinha os liberasse”, disse.
Reato afirmou que “uma das criticas de Bergoglio ao casal Kirchner (Nestor e Cristina Kirchner) é que defende os direitos humanos agora, na democracia, mas não o fez durante a ditadura”, afirmou o escritor.
“Caráter forte”
Especialista em questões sobre a Igreja Católica, José Ignácio López disse à imprensa argentina que Bergoglio “sempre denunciou a corrupção” no país. “De (ex-presidente Carlos) Menem até hoje, ele sempre denunciou a corrupção, condenou a inflação e esteve ao lado dos familiares das vítimas da tragédia da (discoteca Republica) Cromañon e da tragédia do trem na estação Once (na capital argentina, em 2012, que matou 51 pessoas)”, afirmou López.
Setores da oposição ao governo central afirmam que “ninguém do governo compareceu nestas tragédias, mas ele sim”. O padre Alejandro Bunge, professor da UCA (Universidade Católica Argentina), disse que Bergoglio tem “gênio forte, ouve muito, mas não deixa de dizer o que pensa de forma direta”.
O rabino Abraham Skorka, reitor do Seminário Rabínico Latino-americano, em Buenos Aires, contou à imprensa local que costuma conversar com Bergoglio e que ele “ouve os diferentes credos”. “E que Deus o abençoe, porque merece estar ali”, disse. A série de comentários sobre o novo papa incluiu declarações de apoio de políticos da oposição ao governo da presidente Cristina Kirchner, com quem Bergoglio mantinha diferenças públicas.
- Quando saiu o anúncio do nome de Bergoglio como papa, a bancada do governo na Câmara dos Deputados parecia que estava num velório. Por favor, é o primeiro papa latino-americano e deveríamos estar comemorando  disse a deputada Elisa Carrió, da opositora Coalición Cívica. O deputado e cineasta Fernando “Pino” Solanas, do Projeto Sur, afirmou “lamentar” que o governo atual “não tenha dialogado com Bergoglio, homem preparado, defensor dos excluídos e do diálogo com os diferentes setores e credos”.
Antes de ser papa, Bergoglio foi definido como “muito argentino” e “muito portenho” na biografia “El Jesuíta” (“O Jesuíta”) assinada pelos jornalistas Sergio Rubin e Francesca Ambrogetti, de Buenos Aires. “Torcedor do time de futebol San Lorenzo, apaixonado por tango e leitor do escritor Jorge Luis Borges”, descreveram.