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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Para entender como o maquiavelismo eternizou Maquiavel


Há mais de 500 anos (1513), Nicolau Maquiavel (1469-1527) escreveu “O Príncipe”

Leia aqui “O Príncipe” “Discorsi” ("Comentários", um estudo comparado feito por Maquiavel tendo por base a história da República Romana, no relato do historiador Tito Lívio).

Abaixo, um artigo que contextualiza a obra e explica sua atualidade, cinco séculos depois.


Falem mal, mas falem de mim 
Antonio Lassance
Doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília.
Artigo publicado na Carta Maior em 14/02/2013

         Há 500 anos (1513), Nicolau Maquiavel (1469-1527) escreveu “O Príncipe”. O livro passou de proscrito a célebre. Seu autor, de renegado, passou a ser reverenciado, com direito a estátua na “Galleria degli Uffizi” (Galeria dos Ofícios, ou "escritórios"), em sua cidade natal*. Mais do que relembrar a ocasião do quingentésimo aniversário, é bom entender como o maquiavelismo eternizou Maquiavel.
         “O Príncipe” não era um livro propriamente dito. Era um manuscrito. Livros eram ainda coisa rara e cara, em uma época em que a palavra impressa engatinhava e poucos sabiam ler. Não era destinado ao público em geral, mas a uma pessoa em particular, o governante de Florença, Lorenzo, chefe dos Médici, rica e poderosa família que havia retomado o domínio sobre a cidade, afastado seus adversários, dado fim à república e iniciado uma espécie de principado.

Aproveitando a oportunidade, Maquiavel escreve sobre principados. Lorenzo di Piero de Medici era neto do Lorenzo a quem se conhecia como “O Magnífico”.  Maquiavel não se fez de rogado e conferiu a mesma magnificência ao neto, o que ainda hoje dá margem a confusões sobre a qual dos Lorenzos ele se referia.

         Maquiavel havia caído em desgraça**. Por conta de seu anterior papel político proeminente de Segundo Chanceler daquela cidade-estado, sua figura estava nublada pela desconfiança. No cargo diplomático, ele era um informante e um negociador de conflitos e interesses decisivos. “O Príncipe” era uma carta de intenções pela qual Maquiavel mostrava suas credenciais de conselheiro qualificado e sua missão de servir ao poder.

         Naquele momento, era improvável que Maquiavel ganhasse qualquer projeção maior que a de alguns de seus ilustres conterrâneos. Como literato, nunca seria um Dante, o autor de “A Divina Comédia”. Entre seus contemporâneos, havia o célebre Amerigo Vespucci, aquele que desfez a ideia de que as terras achadas por Cristóvão Colombo seriam as costas da Ásia, sendo na verdade um Novo Mundo - descoberta que renderia a “Américo” a homenagem de ter seu nome associado ao novo continente, a América. Maquiavel, ao contrário, arrastava-se para ser reabilitado.

         “O Príncipe” só se tornaria público em 1532, quando seu autor já estava morto. Não tardaria a se tornar um livro proibido pela Igreja Católica, entrando para o “Index Librorum Prohibitorum” (“Índice dos Livros Proibidos”). Maquiavel atribuía a Roma e ao Papa uma péssima influência sobre a Península Itálica, um fator de divisão, e citava o Papa Alexandre VI (Rodrigo Bórgia) como “exemplo” de como o baluarte da moral e dos bons costumes era capaz de usar a violência, o dinheiro e a manipulação para manter-se no poder.

         “O Príncipe” sequer é a obra melhor estruturada de Maquiavel, comparada aos comentários (“Discorsi”) que fez tendo por pano de fundo a história da República Romana (baseada no relato do historiador romano Tito Lívio), que, mesmo incompleto, se revela um tratado bem mais sistemático sobre a política.

         Hoje, Maquiavel é mais conhecido do que Dante e Vespúcio. O feitiço agraciou o feiticeiro. A fama de proibido o ajudou a tornar-se popular, assim como seu sentido mais prático e menos erudito. Seu desvendamento dos métodos usuais da política tornou o livro obrigatório para a direita e a esquerda, para liberais e marxistas. A análise crua e dura tecida a respeito dos poderosos passou a ser um guia obrigatoriamente reconhecido pelos próprios poderosos e pelos que ousavam combatê-los. Napoleão leu “O Príncipe”, e suas anotações aparecem publicadas em uma edição muito popular nas bancas de jornais e revistas. Revolucionários, de Rousseau a Gramsci, atribuíram a Maquiavel revelar segredos que até então permaneciam entre quatro paredes.



A certidão de nascimento da ciência da política
         Para além da fama, a grande questão é a de saber se Maquiavel permanece ou não atual. Pelo menos três atributos essenciais ajudaram à sua sobrevida.

         O primeiro é que a obra maquiavélica contribuiu para que a política passasse a ser tratada como um objeto de investigação específica. “O Príncipe” acabou se tornando a certidão de nascimento de uma ciência da política. Gregos e romanos também têm obras fundamentais, mas sua política era indistinta da vida social (a “polis”) e pensada como um assunto da Filosofia e da História, e não como uma disciplina autônoma. Maquiavel tem uma visão filosófica e histórica, mas por suas mãos a política ganhou vida própria e regras particulares. Como renascentista, ele resgatou a tradição clássica, mas criou algo novo.

         Seu grande embate não era com os clássicos, e sim com seus contemporâneos, principalmente, com o moralismo e a pregação religiosa. Os mandamentos de “não roubar”, “não matar”, “não usar o santo nome em vão”, “não levantar falso testemunho” (não mentir) eram bons para a imagem, mas não eram as regras da política. Aliás, tais mandamentos eram descumpridos por todos na luta pelo poder, a começar pela própria Igreja.

         Em geral, se tem a ideia errônea de que Maquiavel prioriza os métodos cruéis, ardilosos, infames – e todos os demais adjetivos encontrados como qualificativos de “maquiavélico”, em qualquer dicionário. O pensador florentino deixava claro que eles eram usuais daquela época, dispensando sua recomendação. Cita inúmeros exemplos a esse respeito. Na verdade, propõe comedimento e se esforça por dizer que tais métodos não deveriam ser utilizados indiscriminadamente, pois poderiam se mostrar contraproducentes. Mesmo a violência tinha regras e deveria aguardar por sua ocasião.

         Em um momento em que todos os poderosos e aspirantes a poderosos se comportavam como leões, até os Papas (o de 1513, por coincidência, se chamava Leão X), ele dizia que as ocasiões muitas vezes requeriam raposas. Portanto, menos violência e mais astúcia. Para a barbárie das disputas políticas da época, o livro tinha até um papel civilizatório.



Em “O Príncipe”, não existe a frase de que os fins justificam os meios.

         Em “O Príncipe”, não existe a frase de que os fins justificam os meios. Nem existe a ideia de que qualquer meio serve para se chegar à vitória. Maquiavel fez uma lista de recomendações sobre os métodos e apontou que alguns tinham um alto custo para o governante e poderiam gerar um ódio generalizado contra sua pessoa. Sendo assim, deveriam ser evitados, pois levariam à ruína, e não à glória.

         É mais apropriado dizer que, para Maquiavel, o critério de certo e errado, na política, é o êxito. Não é o vale tudo. Se os métodos empregados não permitem chegar e se manter no poder, não são bons métodos.

“Trate o príncipe, pois, de vencer e conservar o Estado. Os meios que empregar serão sempre julgados honrosos e louvados por todos”.

         É esta última frase que deu origem à interpretação de que os fins justificam os meios. Interpretação errada. Para Maquiavel, o meio empregado faz toda a diferença para a vitória ou a derrota. É o emprego correto dos meios que ele define como virtude (“virtú”) na política. Fazer a coisa certa no momento certo (a “fortuna”, ou oportunidade) daria ao príncipe um destino grandioso.

         Outro atributo importante do livro foi ter cravado o conceito de Estado e ter estabelecido uma distinção que, por muito tempo, foi decisiva para explicar grandes diferenças entre regimes políticos. “O Príncipe” abria suas explicações dizendo que, até então, todos os Estados (com maiúsculas) tinham sido ou repúblicas ou monarquias (principados). Depois que as monarquias foram derrubadas ou amainadas pela constitucionalização de seus poderes, a distinção entre presidencialismo e parlamentarismo passou a ser a mais usual.

         O terceiro atributo genial de “O Príncipe” foi ter sido pioneiro na análise do poder como exercício da representação. A permanência no poder dependia de que o líder fosse a encarnação de uma vontade coletiva. Só conquistaria grandeza se seus projetos fossem ousados o suficiente para angariar respaldo entre suas elites e, mais relevante, apoio popular, inclusive contra elites que abrigavam seus adversários em potencial. “O mundo é formado por pessoas comuns”, dizia. É essa dimensão que deu a Maquiavel certa imagem de pensador democrático. Ele foi resgatado por Rousseau, no século XVIII, como aquele que ensinou ao povo como os príncipes governavam e que expôs a perversidade por trás do absolutismo.



A atualidade de Maquiavel

         O que permanece atual em Maquiavel é sua compreensão realista da política. Sua lição fundamental é a de que o ofício do cientista político é o de desvendar. Para tanto, é preciso identificar os atores em disputa, apontar seus métodos de ação, evidenciar o papel e a orientação dada por suas lideranças políticas, desnudar os interesses envolvidos.

         O pensador de Florença proporciona uma visão dinâmica do poder. O resultado da ação política depende não só da posição e dos recursos dos grupos sociais em luta, mas da correção das decisões tomadas por atores centrais e da reação que elas desencadeiam.

         O povo reaparece em Maquiavel como o ator político fundamental, em torno do qual orbitam todos os demais. A sorte (ou “fortuna”) dos contendores depende de sua capacidade de dar voz e sentido de Estado às aspirações populares.

         Podemos ainda nos servir de Maquiavel para apostar que toda crise aguda de regime é acompanhada de um processo de desmascaramento da velha política. Métodos perversos, bastante conhecidos, passam a gerar estranhamento e revolta popular quando seus resultados se mostram pífios e incapazes de garantir adesão em larga escala.

         A alta dose de realismo oferecida por Maquiavel não deixa de ser um ingrediente básico para qualquer nova utopia política. Por isso, “O Príncipe”, 500 anos depois, ainda é uma leitura que vale a pena.


Como citar:

LASSANCE, Antonio. "O Príncipe", 500 anos. Carta Maior São Paulo, 14 fev 2013. Disponível em <http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5970> Acesso em 14 de fevereiro 2013.



* Mais precisamente, Maquiavel nasceu em São Cassiano (Sanctum Cassianum, hoje San Casciano in Val di Pesa), mas que desde o fim da Idade Média passou a estar indissociada de Florença.
** Os detalhes sobre por que Maquiavel caiu em desgraça estão bem detalhados no início do vídeo abaixo, "Quem tem medo de Maquiavel".



Clique para abrir e ler "O Princípe".


Leia em Italiano.




Quem tem medo de Maquiavel?
Documentário da BBC.



sugado do: http://antoniolassance.blogspot.com.br/2013/02/o-principe-500-anos.html

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O ódio que nos une

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Nada como um inimigo comum para fazer desaparecer diferenças políticas, religiosas, sociais e até futebolísticas. Se existe algo que demonstra enorme capacidade de unir pessoas é o ódio. Em pequenos ou grandes grupos, homens e mulheres se juntam para celebrar o ódio aos gays, aos negros, aos judeus, aos muçulmanos, aos presos, aos drogados, aos corruptos, aos petralhas ou tucanalhas.
Eis que agora reaparece um antigo inimigo comum, novamente indesejável da hora: o adolescente infrator. E as agendas da política e da grande mídia voltam à carga com a velha e cansada proposta de redução da maioridade penal para 16 anos. Os adolescentes envolvidos em alguma prática criminosa são apresentados, pela enésima vez, como os novos inimigos.
O número da proposta de emenda constitucional que trata do tema é sugestivo: 171. Mesmo número do artigo do Código Penal relativo ao estelionato, crime praticado mediante fraude contra vítimas que muitas vezes sucumbem ao afã de levar vantagem em algum negócio, mas que acabam mesmo é caindo no conto do vigário e ficando apenas com o prejuízo.
Estamos diante de uma clara tentativa de estelionato. A população mais pobre, eterna massa de manobra e a mesma massa de onde vêm os prisioneiros de todos os cárceres Brasil afora, é agora levada a acreditar que a redução da maioridade penal seja capaz de trazer segurança pública. Proposta enganosa, tal que a reincidência no sistema prisional é enorme. Proposta que, na prática, está fadada a produzir ainda mais violência. Violência que se voltará exatamente contra os pobres, diante da seletividade escancarada do sistema punitivo. Ou alguém acredita que adolescentes das classes sociais mais abastadas serão levados à prisão? Isso por acaso já acontece com os criminosos adultos?
Entretanto, seduzidos e entorpecidos pela ideia de que o inimigo comum deve ser combatido com todas as forças, também os mais pobres apoiam a iniciativa. Acreditam, tal qual a vítima do estelionato, que a medida será uma vantagem para eles próprios. Que terão paz. Ledo engano. Aprovada a lei, não tardará em aparecerem aos montes os enganados, as vítimas da PEC 171.
Se estamos muito distantes de uma educação de qualidade, se a greve dos professores não é sequer notícia na televisão, se o governo oferece um salário de miséria para seus professores, se não temos conselhos tutelares decentes, se não há creches para os filhos dos trabalhadores, se não existem praças de esporte e lazer nos bairros periféricos, se não temos acesso a serviços públicos dignos, como transporte e saúde, se temos meninas e meninos marginalizados pelas ruas da cidade… Nenhum desses problemas parece importar tanto assim para uma causa comum.
Não! Se nada disso nos une, vamos então apoiar a exclusão dos adolescentes nas masmorras de sempre. Eles são os reais culpados pela violência que impera nas cidades, pela nossa depressão e pela alta do dólar. Não os “nossos” adolescentes, fazemos questão de ressaltar. O problema não é nosso, mas do outro, do filho do vizinho do lado de lá do muro.
Se as causas que poderiam levar à transformação da realidade brasileira para melhor não nos mobilizam, vamos, então, nos unir em torno do ódio, esse sentimento tão gostoso de sentir, em que projetamos cegamente toda nossa ira e ignorância para um inimigo imaginário, porém comum. E o inimigo é aquele jovem, compleição física de homem feito, drogado, coincidentemente negro, pobre, analfabeto e desempregado, mas que pode até votar. – Olhe lá! Parece que ele tem uma arma na mão!
Movidos pelo ódio vamos, então, defender a redução da maioridade penal. Vamos defender a PEC 171! Mas vamos assumir desde agora, com o mesmo rubor de vergonha da vítima do conto do vigário, que aceitamos o discurso fácil que vem de Brasília e que ecoa na televisão e nas redes sociais. Afinal, para que o estelionato aconteça não basta o vigarista; é preciso também o otário.
Por: Haroldo Caetano da Silva é promotor de Justiça em Goiânia-GO e Mestre em Direito.
sugado do: http://justificando.com/2015/04/24/o-odio-que-nos-une/

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Limite do humorismo como transformação da realidade



GGN

'A grande comoção provocada pela chacina deste início de ano na Europa deve, no mínimo, gerar reflexões profundas, que evitem a consagração e a disseminação de visões simplistas a respeito de fenômenos sociais de grande complexidade e alcance.

São inadmissíveis quaisquer argumentações que apontem a culpabilização das vítimas do atentado de Paris por seus próprios homicídios, bem como aquelas de outras tantas situações de violência frequentes no mundo contemporâneo, tais como o estupro.

Não há justificativas para tais atos que devolvem a humanidade aos tempos da barbárie, às condições de pré-consciência da alteridade como elemento constituinte do conceito de civilização.

Um dos possíveis questionamentos que se erguem neste momento é qual o limite de atuação do humorismo no mundo do século XXI. A pretensão de que qualquer forma particular do pensamento humano, incluindo as poderosas ciência e religião, possa dar conta individualmente dos dilemas humanos atuais é intelectualmente ingênua e muito perigosa.

Quando essa expectativa se amplia para uma forma peculiar do pensamento criativo de arte, tal como a literatura ou o humorismo, a indicada pretensão se torna ainda mais débil e arriscada.

Artistas em geral - cartunistas e escritores, por exemplo - são seres humanos como todos os outros, embora a força do papel social de cada uma dessas categorias profissionais induza a uma supervalorização de suas habilidades específicas. Dessa forma, é preciso admitir-se que é a política a construção do intelecto humano que reúne as diversificadas vertentes de pensamento detentoras da potência transformadora da realidade.
O humor como expressão estética e discursiva pode ser parte da política, mas será, sempre, apenas parte.

Pretender que ele possa enfrentar de forma auto-suficiente a postura tresloucada de extremistas, num ambiente virtualmente incontrolável de manifestações e virulência irracional minoritária é assumir riscos incomensuráveis que, no caso da tragédia em evidência, foi antecipada numa charge política, há três anos, como suicídio, por um colega de mister dos quatro assassinados mais reconhecidos profissionalmente entre os doze mortos.

O humor é necessário, mas insuficiente para deter a demência que projeta no outro as razões do drama existencial que deveria unificar na compaixão todos os seres humanos.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Por que o enredo do filme “A Entrevista” revoltou a Coreia do Norte


Publicado na BBC Brasil

"Fontes no FBI, a polícia federal americana, asseguram que a Coreia do Norte está por trás do recente ataque cibernétrico à Sony Pictures, atribuído a um grupo de hackers que se autodenomina GOP (Guardians of Peace – ou Guardiões da Paz, em tradução livre).

A notícia de que o regime norte-coreano estaria envolvido no roubo de informações surgiu dois dias depois de a Sony anunciar que suspenderia o lançamento do filme A Entrevista, uma paródia a Kim Jong-un, líder do país asiático.

O estúdio tomou a decisão depois de algumas das principais redes de cinemas dos Estados Unidos cancelarem a exibição do filme. Elas alegam ter sofrido ameaças de hackers da GOP.

Tais acontecimentos – que incluem a interceptação de uma enorme quantidade de dados da Sony Pictures, incluindo milhares de e-mails trocados pelos principais executivos do estúdio – causaram revolta e surpresa em Hollywood.

Kate Perry

Muita gente se pergunta: o que acontecerá com a liberdade de expressão na meca do cinema mundial, uma vez que piratas eletrônicos são capazes de evitar que um filme, por mais polêmico que seja, chegue às salas de projeção?

A Entrevista gira em torno de um plano para que jornalistas norte-americanos – interpretados por James Franco y Seth Rogen – assassinem Kim Jong-un.
No filme, o líder norte-coreano é fã de um talk-show com famosos apresentado pelo personagem de Franco. O fato é então aproveitado pela CIA, que decide orquestrar uma viagem dos repórteres à nação asiática com o objetivo de assassinar o mandatário.

Na tela, Kim Jong-un e o jornalista Dave Skylark – interpretado por Franco – compartilham seus vícios por basquete, pelas músicas de Katy Perry e pelas mulheres.

Preocupação

De acordo com os e-mails de executivos da Sony trazidos a público nas últimas semanas, a direção do estúdio estava mesmo preocupada com a reação da Coreia do Norte à estreia de A Entrevista – mesmo antes de um funcionário do governo de Pyongyang classificar a película como um “ato de guerra”, em junho passado.

No mês de maio, por exemplo, um alto executivo da Sony disse ter reservas à data inicialmente prevista para a estreia do filme.

Keith Weaver considerava que a estreia em 10 de outubro não seria uma boa indeia, já que neste dia a Corea do Norte celebra uma de suas festas nacionais mais importantes.

Em junho, a Sony Pictures decidiu que as ações promocionais do filme, junto a seus diretores e protagonistas, deveriam minimizar a importância do roteiro político de A Entrevista.

O temor de possíveis repercussões negativas também ficava claro num e-mail em que Amy Pascal, vice-presidente da Sony Pictures, sugeria a Seth Rogen – codiretor ao lado de Evan Goldberg – mudanças na cena em que se vê a cabeça de Kim Jong-un explodindo. A ideia era torná-la menos sangrenta.

Mas estas cenas realmente justificam os ataques cibernéticos à Sony que supostamente foram orquestrados pelo governo da Coreia do Norte? Alguns dos jornalistas consultados pela BBC que chegaram a assistir ao filme não acham que seja para tanto.

“Humor vulgar”

“Tenho a sensação de que o motivo pelo qual não se está falando muito sobre o filme é porque ele nem chega a ser uma boa comédia”, diz Scott Foundas, crítico da revista Variety.

“Ao longo das décadas vimos bons filmes cuja história acontece em regimes totalitários, como O Grande Ditador, de Charles Chaplin, ou Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick. No caso de A Entrevista, não me parece um filme especialmente subversivo ou surpreendente”, assinala Foundas.

“É uma película de humor vulgar e juvenil, cujo argumento acontece por casualidade na Coreia do Norte, mas que poderia estar situado em qualquer outro lugar.”

O crítico da Variety não acredita que ninguém que assista a A Entrevista considere o filme “incendiário no ponto de vista político” e acredita ser irônico que um filme como este tenha causado tanta revolta, “já que é bastante inócuo”.

“Kim Jong-un é apresentado da maneira mais óbvia, tendo-se em conta o pouco que se sabe dele. O mostram como um menino mimado que tem traumas com seu pai.”

“Muitas das cenas do filme consistem em Kim Jong-un jorgando basquete ou escutando a músicas de Katy Perry com o personagem de James Franco”, explica o jornalista.

‘Liberdade de expressão’

Jen Yamato, crítica de cinema da Deadline Hollywood, tem uma opinião mais favorável ao filme, ainda que também não creia que seu enredo justifique o ataque sofrido pela Sony.

“Achei divertida e acho que é uma boa sátira do mundo do jornalismo, em particular o jornalismo de entretenimento e celebridades, e sobre como às vezes ele se mistura com a política”, diz Yamato em entrevista à BBC Mundo.

“Alguns dirão que é só mais uma comédia de James Franco e Seth Rogen, mas a acho mais sofisticada que isso. A ideia de fazer ficção a partir da intenção de assasinato de um líder mundial ativo nunca tinha sido feita dessa maneira”, diz a jornalista.

“Cinema é arte, e através da arte é possível fazer interpretações sobre a atualidade e a política”, diz Yamato.

Justificada ou não a ira do governo norte-coreano com o argumento de A Entrevista, o certo é que o cancelamento de sua estreia causou surpresa e indignação em Hollywood. Muitos consideram que o ataque à Sony e as ameaças dos hackers do GOP não deixaram alternativas ao estúdio.

“Se houvesse acontecido algum incidente em algum cinema, a Sony teria que enfrentar processos de dezenas de milhões de dólares e se teria criado um problema enorme”, alerta Stephen Galloway, editor da revista The Hollywood Reporter.

“Acho que se trata da um precedente terrível, mesmo que a Sony não tivesse outra saída. Este ataque causou muitos danos ao estúdio e vão perder muito dinheiro”, afirma.

Galloway conhece há anos Amy Pascal, vice-presidente da Sony e uma das pessoas mais prejudicadas pelos vazamentos do ataque cibernético.

“É triste. Amy Pascal é uma amante do cinema. É incrível que agora se veja envolta em um incidente com ramificações de política internacional que envolveu até Barack Obama. Deve ser tremendamente difícil para ela.”

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Mensagens satânicas subliminares em músicas: o que é fato e o que é lenda?


Ozzy, filho do capeta
Da BBC

"Em 1878, um ano depois de criar o fonógrafo, o inventor americano Thomas Edison percebeu que o cilindro do aparelho poderia ser rodado no sentido contrário, gerando um efeito sonoro peculiar.

“A música continua bastante melódica em muitos casos, e alguns dos acentos são doces e novos, mas é algo totalmente diferente da música quando tocada no sentido correto”, escreveu ele.

No século 20, com a explosão da indústria de discos de vinil e fitas cassete, muitos músicos usaram essa técnica para gravar mensagens “escondidas” no meio de suas canções. As mensagens só podiam ser ouvidas quando tocadas de trás para frente. Mas junto com o fenômeno surgiram também muitos boatos falsos sobre supostos recados secretos em discos.

Então, quais são as mensagens verdadeiras, e quais são lenda?

Beatles

Entre as bandas de death metal – um dos gêneros de rock pesado – é quase uma regra que se deve gravar mensagens satânicas secretas em discos.
Mas nenhuma banda em nenhum outro gênero atraiu tantas histórias quanto a mais influente de todos os tempos: os Beatles.

A primeira vez que eles tiveram contato com esse tipo de técnica de gravação foi em 1965, durante a criação do álbum Rubber Soul. Ao final da música Rain, ouve-se a voz de John Lennon – de trás para frente – cantando a primeira frase da canção.

O cantor contou à revista Rolling Stone em 1968 como teve a ideia:
“Nós tínhamos gravado a parte principal da canção na EMI e tínhamos o hábito de levar as músicas para casa e pensar em coisas extras que poderíamos incluir, ou o que seria colocado de guitarras. Quando cheguei em casa no dia seguinte, totalmente chapado, eu rastejei até o gravador de fitas e liguei, só que de trás para frente, e entrei em uma espécie de transe com os fones de ouvido. ‘O que é isso? – O que é isso? Isso é demais, sabe, e eu quase quis lançar toda a música de trás para frente. E foi assim que aconteceu. Então decidimos colocar no final da música. ‘”

Boatos sobre Beatles

Os Beatles popularizaram esta técnica, chamada “backmasking” em inglês. Mas foi outro boato que fez com que muitos de seus fãs tentassem identificar mensagens secretas nos discos do conjunto.

Universitários americanos espalharam um rumor de que Paul McCartney havia morrido em 1966, e que tinha sido substituído por um sósia. A prova? Poderia ser identificada em mensagens passadas pelos Beatles em seus discos – tanto na capa quanto nas gravações.

Em outubro de 1969, um ouvinte de uma rádio em Detroit disse ter conseguido ouvir a frase “turn me on, dead man” (“me ligue, homem morto”) ao rodar a canção Revolution 9 de trás para frente, no disco branco dos Beatles.

Outras pessoas dizem ter ouvido John Lennon murmurar “Paul is a dead man. Miss him” (“Paul é um homem morto. Sinto falta dele”) entre as canções I’m TiredBlackbird.

Na época, a assessoria de imprensa da banda se manifestou a respeito dos boatos, classificando-os de “um monte de lixo velho”. Naquele ano, a manchete de uma entrevista de Paul McCartney à revista LIFE foi: “Paul ainda está conosco”.

Em 1995, quando os Beatles gravaram em cima da demo Free as a Bird de John Lennon, de 1977, o conjunto decidiu colocar uma mensagem de trás para frente. Nela, Lennon diz: “turned out nice again” (“acabou tudo bem de novo”). Paul McCartney revelou que se tratou de uma brincadeira com os fãs.

“Nós colocamos uma dessas gravações de trás para frente no final do single apenas para nos divertir, para dar alguma ocupação a todos aqueles malucos por Beatles.”

Sátiras

Nos anos 1980, muitos boatos envolviam mensagens satânicas – talvez inspirados pelo filme O Exorcista, de 1973, em que uma vítima deixa um recado em uma fita gravada de trás para frente.

De fato, Ozzy Osborne gravou, na canção Bloodbath in Paradise, de 1988, a frase “Your mother sells whelks in Hull” (“Sua mãe vende caramujos em Hull”) – uma paródia de um xingamento impublicável que ficou famoso em O Exorcista.

Em 1985, fundamentalistas cristãos nos Estados Unidos criaram o Parents Music Resource Center (PMRC), uma organização que acusou bandas como Led Zeppelin, Judas Priest e até mesmo The Eagles de espalhar mensagens satânicas de forma subliminar.

A organização acusou a faixa-título do disco Eldorado, do grupo Electric Light Orchestra (ELO), de trazer uma mensagem satânica, quando tocada de trás para frente: “He is the nasty one – Christ you’re infernal” (“Ele é o perverso – Cristo você é infernal”). O ELO sempre negou ter gravado a mensagem subliminar, mas decidiu abusar do “backmasking” nos próximos discos.

Na música Fire on High, do disco Face the Music, o recado secreto é: “A música é reversível, mas o tempo não. Volte. Volte. Volte. Volte”. Em 1983, o conjunto lançou o álbum Secret Messages feito com vários vocais gravados ao contrário. A mensagem ao final do disco diz: “obrigado por ouvir”.

Diante das paranoias generalizadas na época, o comediante Weird Al Yankovic fez uma paródia da técnica na canção Nature Trail to Hell, de 1983, em que aparece o trecho “Satan eats Cheese Whiz” (“Satan come Cheese Whiz”, em referência a uma pasta de queijo comum nos supermercados americanos).

Mais recentemente Justin Bieber e Miley Cyrus foram acusados de coisas semelhantes em canções pop aparentemente despretensiosas.
Bieber teria cantado, segundo alguns, a frase: “We’re going to bomb these banks/Satanic new world order/Soon, bro!” (“Nós vamos bombardear estes bancos/Nova ordem satânica/Em breve, irmão.”)

Já Miley Cyrus teria feito um apelo a Deus na canção The Climb: “Help me, Find Me, Save Me, God I’m lost” (“Ajude-me, ache-me, salve-me, Deus, estou perdida”). Ambos negam o uso de mensagens subliminares.

Sentido contrário, mas qual o sentido?

Algumas mensagens são enigmáticas mesmo quando as palavras são bem claras.

Na canção Empty Spaces da ópera-rock The Wall do Pink Floyd, de 1979, Roger Waters diz: “Parabéns, Você acaba de descobrir a mensagem secreta. Por favor, mande a resposta ao velho Pink, aos cuidados da fazenda engraçada, Chalfont…” (como se estivesse passando um endereço para correspondências).

E no fundo ouve-se uma voz: “Roger, Carolyne está no telefone”. E Waters nunca completa o endereço que começou a passar.

Para alguns, o “Velho Pink” citado por Waters seria o primeiro vocalista da banda, Syd Barrett, que sofreu um colapso nervoso em 1968 e nunca mais voltou a tocar com o conjunto.

Na canção Christian Rock Concert, de 1991, o grupo britânico Half Man Half Biscuit gravou uma das mensagens mais esquisitas: “O corpo de Shane Fenton está na calha da lavanderia no hotel New Ambassadors, perto da estação Euston”.

Mas provavelmente a frase mais esquisita é de Robert Fripp, criador do conjunto King Crimson, que gravou ao contrário na música Haaden Two, de 1979, o seguinte verso: “One thing is for sure – the sheep is not a creature of the air. Baaaah” (“Uma coisa é certa – a ovelha não é uma criatura do ar.

Baaaah.”) A mensagem seria uma referência a um quadro do programa de humor Monty Python, sobre ovelhas voadoras."