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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Sem luz e sem água. Cadê o Alckmin?


http://pigimprensagolpista.blogspot.com.br/
Por Altamiro Borges

A vida dos paulistanos na semana passada foi um inferno - com todo o respeito ao governador tucano Geraldo Alckmin, que já foi um fiel seguidor da seita Opus Dei. Vários bairros da cidade ficaram sem luz; na periferia, milhões de famílias seguem sem água, num racionamento que o governo do PSDB insiste em ocultar; a violência policial prosseguiu matando jovens negros; e os trens do Metrô e da CPTM continuaram lotados e com panes. A sorte do "picolé de chuchu" é que a mídia chapa-branca, que ganha fortunas em anúncios publicitários, mantém o silêncio, o que evita que os paulistanos se deem conta da tragédia do "choque de indigestão" tucano - que já dura mais de 20 anos.   

No caso da energia, vários bairros da capital paulista ficaram sem luz por mais de 24 horas. Segundo a mídia tucana, o "apagão" decorreu das fortes chuvas na terça-feira (8). Cerca de 130 circuitos foram desligados - deixando milhares de casas às escuras e ruas sem semáforos, gerando congestionamentos quilométricos. O Procon registrou 38 reclamações contra a AES Eletropaulo. Até bairros "nobres", como o da Vila Madalena, ficaram sem luz, para a indignação dos seus inconsequentes revoltados. O caos na cidade só não deixou indignados os comentaristas das emissoras de rádio e televisão, sempre tão servis ao governador Geraldo Alckmin. O assunto também não foi manchete nos jornalões!  

Já no que se refere ao racionamento de água, a irresponsabilidade do governo e o silêncio da mídia seguem no "volume morto". Apesar das chuvas desta semana, os reservatórios do Sistema Cantareira continuam diminuindo. Os bairros mais atingidos são os da periferia da capital e em algumas cidades da região metropolitana de São Paulo, que ficam sem água na torneira por várias horas. Diante desta tragédia, a Sabesp teve o cinismo de culpar os moradores, "que aumentaram o consumo de água em plena crise". Geraldo Alckmin também responsabilizou os "gastões", mas rejeitou decretar o rodízio neste ano - como se nas regiões periféricas já não fossem vítimas do racionamento não oficial.

Quanto à violência policial, mais um caso deprimente foi registrado na semana passada. Soldados do 23º Batalhão da PM foram flagrados, em vídeo, matando duas pessoas e forjando as cenas do crime no bairro do Butantã, na zona leste da capital paulista. Eles até tiveram a prisão preventiva decretada pela Justiça, mas nada deve mudar na violência policial contra os jovens, os negros e os moradores da periferia. Até hoje, Geraldo Alckmin não esclareceu a chacina de 19 pessoas em Osasco e Barueri. Por último, sobre o caos no Metrô e na CPTM, basta assistir as imagens do inferno diário - com todo respeito ao governador que já promoveu sessões do Opus Dei em pleno Palácio dos Bandeirantes!

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domingo, 8 de fevereiro de 2015

A “massa cheirosa” vai feder em SP

Altamiro Borges, Blog do Miro

"Apesar das tempestades dos últimos dias, o nível do Sistema Cantareira – que abastece 6,5 milhões de paulistas – continua baixo. Nesta sábado (7), ele atingiu apenas 5,3% da sua capacidade. Para os especialistas do setor, a notícia é péssima, já que o período das chuvas está terminando. A tendência, afirmam, é do total colapso de abastecimento de água a partir de abril. Alguns especialistas, mais apocalípticos, preveem um cenário de “convulsão social” em São Paulo. O quadro é tão dramático que já incomoda até as tais celebridades midiáticas. A “massa cheirosa”, que sempre bajulou os tucanos que governam o Estado há 20 anos, teme ficar fedida. Reproduzo abaixo a hilária reportagem de Mônica Bergamo, na Folha deste sábado, sobre o clima reinante entre os “ricos e famosos”. Até Sophia Alckmin, filha do governador, revela: “Já não lavo o cabelo todo o dia”.

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"Me enxugar, 'bee'? Pra quê?", respondia Ivete Sangalo a um assistente no palco do Baile de Carnaval da revista "Vogue", na madrugada de sexta (6). Com o rosto em bicas, a cantora fazia ferver a pista do hotel Unique, nos Jardins, onde 1.500 convidados suavam e se abanavam no aperto para ver a baiana.

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Pouco antes, no camarim, com maquiagem e cabelo ainda impecáveis, Ivete falava da falta d'água no Estado. "Eu não penso nisso só quando venho para cá. No meu dia a dia também. O problema é que a gente só se preocupa quando há crise", dizia. A seca foi assunto entre os ricos e famosos da festa. Muitos deles fantasiados - Anitta foi de Michael Jackson, Sabrina Sato, praticamente nua.

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Angélica e Bruno Astuto, apresentadores do baile, cantavam ao microfone o que chamaram de "melô da Sabesp": "Bebeu água? Não!/ Tá com sede? Tô!/ Olha a água mineral". O jornalista disparou: "Quero agradecer à [marca de perfume de luxo] Chanel, que me ajudou a atravessar a semana passada sem água".

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Em matéria de chuveiro, a convidada Val Marchiori também mudou hábitos. "Parei de tomar banho de banheira. Fiz a minha parte", disse ela, que ainda não sofreu com o racionamento. "Nos Jardins ainda não faltou [água]. Você acha que faltaria?"

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O Itaim Bibi, onde mora Sophia Alckmin, filha do governador Geraldo Alckmin, já está sem água em alguns horários. "Estou fazendo muita coisa para economizar. Não lavo mais o cabelo todo dia. Agora uso xampu a seco. É ótimo", disse a blogueira.

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O apresentador Rodrigo Faro, que foi garoto-propaganda da Sabesp em fevereiro de 2014, dizia que a população está fazendo sua parte. "Agora é hora de [o governo]investir." "Quando fiz o vídeo, a Cantareira estava com 30%. Faria de novo, mas só se fosse para dizer o que as autoridades estão fazendo".

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Colega de Faro na Record, a apresentadora Ana Hickmann se dizia uma especialista no assunto. "Eu tenho casa em Itu [interior de São Paulo] e lá situação está ruim faz tempo. Já passei por isso."

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A apresentadora Luciana Gimenez engrossava o bloco dos revoltados. "Eu acho que o governo tinha que ter se preocupado antes! Tem desertos em que não falta água porque tem planejamento."

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Advogado aponta provas para responsabilizar gestores públicos por falta d’água




São Paulo – “Temos uma inação clara do governo de São Paulo e da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), com vistas a manter o valor das ações da estatal no mercado. Um sacrifício constante de uma parcela cada vez maior da população, com o racionamento informal. E um discurso extremamente fraudulento em relação à realidade da situação.” Assim o professor de direito internacional da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) João Alberto Alves Amorim resume o cenário de responsabilidades sobre a seca na capital e região metropolitana de São Paulo.
Especialista em direito ambiental, Amorim considera que os estudos que informavam a possibilidade de seca, a mudança no ciclo de chuvas, os documentos que exigiam a redução da dependência do sistema Cantareira, somados às declarações do governador Geraldo Alckmin (PSDB), durante o último debate para a eleição do governo paulista de 2014, podem configurar crime de responsabilidade. O governador disse à época: “Não falta água em São Paulo, não vai faltar água em São Paulo”.
“As provas são robustas. Há dez anos, o documento de outorga do Sistema Cantareira determinava a redução de dependência do manancial. O relatório Cenários Ambientais 2020, desenvolvido em 2009 pela Secretaria de Recursos Hídricos, também já trazia um cenário trágico para 2015”, explica Amorim.
A outorga é o documento de autorização para que a Sabesp utilize a água de determinado rio ou represa para abastecimento da população. E o relatório foi realizado por 200 especialistas, a partir das condições e projeções climáticas para os anos de 2010 e 2020, que já previram a seca em São Paulo. “Por volta de 2015, a crise atinge também a Bacia Hidrográfica dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí”, diz um trecho do documento. Esses rios abastecem represas do Cantareira.
Amorim pondera que não só o atual governador estaria implicado, mas também gestores da Sabesp, da Secretaria de Recursos Hídricos, dos órgãos reguladores, como a Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp), o Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (Daee), e, até mesmo, a Agência Nacional de Águas (ANA), nos últimos dez anos.
“As exigências feitas pela ANA e pelo Daee, na concessão da outorga, não foram cumpridas no prazo estabelecido. Algumas começaram a ser cumpridas recentemente, mas só depois que a crise se instalou. E estes órgãos, ANA, Daee e Arsesp são os que deviam fiscalizar e, inclusive, punir o não cumprimento das normas”, salientou.
Mecanismos de gestão do sistema também foram deixados de lado no início da crise, como a Curva de Aversão a Riscos, que define o quanto pode ser retirado de água de acordo com o nível das represas. Em janeiro de 2014, por exemplo, as represas estavam com 20% da capacidade, podendo ser retirados no máximo, 27 mil litros de água por segundo, de acordo com a curva. Mas estavam sendo retirados 33 mil.
O especialista destaca ainda que o fato de o governador não decretar racionamento também causou efeitos graves aos reservatórios, afetando principalmente a população, que deveria ter o consumo priorizado, de acordo com a Lei 9.433, de 1997, que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos. No último ano, os reservatórios perderam cerca de 70% do volume que tinham em janeiro de 2014.
“A lei diz que o abastecimento de água deve priorizar o consumo humano e a dessedentação animal, em situações de escassez. Mas o governo estadual e a Sabesp fizeram exatamente o contrário. Por razões econômicas e políticas não se reconheceu oficialmente, até hoje, a situação de emergência”, afirma Amorim.
A população é responsável por apenas 8% do consumo de água. Os outros 92% são utilizados pela indústria e pelo agronegócio. “Toda conta pela crise está caindo sobre a população. O setor industrial não tem sido tocado, nem cogitado, muito menos o setor agrícola”, completa.
Além disso, Amorim lembra que há um desperdício que não tem sido considerado nas contas: os cerca de 30% de água tratada que se perdem na rede de água da Sabesp. “Quem vai multar a Sabesp por desperdiçar tanta água tratada através de seus dutos cheios de vazamentos? Essa também é uma obrigação da Arsesp, do Daee e até da ANA, que são órgãos de regulação. E até agora tem sido complacentes”. A estatal tem um programa de redução de perdas, mas a meta estimada é de perder de 10% a 15% da água tratada ainda em 2019.
Neste cenário, Amorim engrossa o coro dos que consideram ilegal a multa por aumento de consumo de água, anunciada em dezembro do ano passado e que passou a vigorar no último mês. A punição prevê que quem aumentar em até 20% o gasto de água vai pagar 40% a mais sobre o valor correspondente ao consumo de água na conta mensal. Se aumentar mais que 20% a multa será de 100%.
“A multa é absolutamente ilegal. Só se pode instituir a multa quando o racionamento estiver decretado”, reitera. Entidades de defesa do consumidor interpelaram judicialmente a Sabesp e o governo do estado por conta disso. Tiveram uma vitória inicial em 8 de janeiro, mas o presidente do Tribunal de Justiça, José Renato Nalini, cassou a liminar dias depois.
No entanto, Amorim teme que a Justiça não seja tão eficaz para punir os responsáveis. “No ano passado, os Ministérios Público Estadual e Federal entraram com ações na Justiça para que fosse reconhecida a crise e decretado o racionamento. Mas o Judiciário não deu sequência a isso. E a ação não pedia nada demais.” Outra ação foi a já citada  suspensão da multa por aumento de consumo de água, que também não tem data para ser julgada.
Via Rede Brasil Atual
no: http://justificando.com/2015/02/04/advogado-aponta-provas-para-responsabilizar-gestores-publicos-por-falta-dagua/

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Tribunal Popular da Água julgará responsabilidade de Alckmin na crise hídrica


Foto: Assessoria de imprensa  do Governo do Estado de São Paulo
Edson Aparecido da Silva-001
Edson Aparecido da Silva, coordenador da Frente Nacional de Saneamento Ambiental: “Entidades, movimentos e articulações envolvidos na luta pela água vão ter de atuar em conjunto, coletivamente mesmo”
por Conceição Lemes
Desde 1993, todo 22 de março é celebrado o Dia Mundial da Água. Ele foi instituído pela Organização das Unidas (ONU) durante a sua Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92, no Rio de Janeiro.
O tema de 2015: Água e Desenvolvimento Sustentável, que será discutido no mundo inteiro inclusive no Brasil.
No Estado de São Paulo, especificamente, um aspecto norteará o debate: a crise hídrica na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), cujo grande responsável é o governador Geraldo Alckmin (PSDB).  Com cumplicidade da mídia tradicional que “comprou” e “vendeu” à população a versão tucana de que a culpa é de São Pedro, poupando incompetência e a irresponsabilidade do governo Alckmin de não ter investido em novos mananciais, como estava previsto desde 1995.
A agenda para o Dia Mundial está sendo montada pelo Coletivo de Luta pela Água, criado em 20 de janeiro por dez entidades ligadas a movimentos sociais, sindical e gestores municipais de saneamento.
“No dia 20 de março, promoveremos o Tribunal Popular da Água, que julgará a responsabilidade do governador em relação à crise”, revela em primeira mão ao Viomundo Edson Aparecido da Silva, coordenador da Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental. “Além disso, estamos preparando uma representação ao Ministério Público do Estado de São Paulo (MPE-SP) com intuito de responsabilizar criminalmente o governador Alckmin pela crise da água.”
Confira a íntegra da nossa entrevista:
Viomundo — Até o momento o que se vê é  uma ou outra manifestação em relação à crise da água em São Paulo. O que está acontecendo?
Edson Aparecido da Silva – Existe, ainda, uma grande dificuldade de mobilização em torno do tema da água. A maioria das pessoas ainda acha que o problema é dos outros e não dela. Na hora em que elas sentirem, de fato, a falta da água para as necessidades básicas do dia a dia, acredito que o comportamento da população irá mudar.
Viomundo — Depois da reunião da Arsesp (agência reguladora de saneamento e energia ligada ao governo do Estado de São Paulo) ficou combinado que as organizações iriam atuar em conjunto, até para dar mais força e legitimidade. Por que a Proteste saiu sozinha e fez aquela manifestação com uns poucos gatos pingados?
Edson Aparecido da Silva – Esse episódio reforça a necessidade de as várias entidades, movimentos e articulações envolvidos na luta pela água e/ou de defesa do consumidor atuarem em conjunto para a realização de grandes manifestações.
Viomundo — Ou seja, agir coletivamente em vez de ser na base “do eu comigo meu umbigo”? 
Edson Aparecido da Silva –  A construção de certas atividades tem que ser coletiva, mesmo.  As pessoas às vezes se entusiasmam com as milhares de adesões no Facebook e que acham o evento vai bombar. Na hora H, aparecem poucas pessoas. A gente tem de atuar no concreto. O Facebook é só um instrumento para ajudar a divulgar. Não substitui o corpo a corpo.
Viomundo —  Certas ações isoladas  parecem disputa de egos, pra ver quem é na melhor na área. Isso não é um tiro no pé, ou melhor, ou tiro na água?
Edson Aparecido da Silva –  Infelizmente é muito comum uma certa disputa pelo protagonismo das ações. Pura bobagem. Essas disputas enfraquecem o movimento e fortalecem os responsáveis pela crise da água.
 Viomundo – É possível unir todos os órgãos, entidades e movimentos preocupados com a crise da água em torno de uma pauta única?
Edson Aparecido da Silva – Sem dúvida, temos que trabalhar nessa perspectiva. Apesar dos movimentos terem características e composições próprias, creio que é possível construirmos agendas unitárias.
 Viomundo — Como viabilizar isso?
Edson Aparecido da Silva – Por exemplo, no dia 20 de janeiro, dez entidades ligadas a vários movimentos e organizações criaram o Coletivo de Luta pela Água. Ele vem se somar a outras articulações importantes que já existem como: Aliança pela Água, De Olho nos Mananciais, Assembleia Estadual da Água, Movimento Itu vai Parar, Coletivo Curupira, entre outros. Iniciamos uma série de conversas no sentido de, na medida do possível, unificarmos nossas ações. Eu, por exemplo, defendo um encontro estadual de todas as articulações de luta pela água como forma de dar visibilidade e força para esses movimentos. Também queremos fomentar e ajudar na criação de “Comitês de Luta pela Água locais e ou Regionais” para envolver a população afetada lá na ponta, especialmente na periferia, onde ocorre a falta de água desde o início de 2014.
Viomundo – O Coletivo de Luta pela Água já tem um calendário de ações previstas?
Edson Aparecido da Silva  – Sim. No dia 20 de janeiro quando criamos o Coletivo, iniciamos uma “Jornada de Luta pela água”, que não tem prazo para acabar. Inicialmente, teremos, pelo menos, dois eventos importantes. No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, nós participaremos de atividades organizadas por coletivos de mulheres relacionadas à crise da água. No dia 20 de março, realizaremos o Dia de Luta pela Água,  com diversas manifestações. Também no dia 20 de março promoveremos o Tribunal Popular da Água, que julgará o governador pela responsabilidade em relação à falta da água. Além disso, estamos preparando uma representação ao MPE-SP com intuito de responsabilizar criminalmente o Governador pela crise. A ideia é que várias entidades subscrevam a representação.
Viomundo – O que nós, cidadãos e cidadãs, podemos fazer?
Edson Aparecido da Silva –É muito importante que o cidadão saiba que não está sozinho e que existem vários movimentos lutando para que essa crise o afete o menos possível. Mas para isso é importante que os cidadãos e cidadãs se informem e ajudem a criar comitês locais. Convidem pessoas das organizações para darem palestras nas associações de moradores, na igreja nas escolas, no clube. E têm que exigir que a Sabesp e o governo do Estado façam sua parte e não continuem penalizando e responsabilizando o povo pela crise.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Escolas fechadas, fuga da cidade, caminhões-pipa…: o cenário possível de São Paulo sem água


Afonso Capelas Jr., DCM

"Paulistas e paulistanos estão perdendo a compostura. No início da semana moradores de um condomínio modesto da zona Sul da cidade foram flagrados por vizinhos aproveitando uma chuva torrencial para sair à rua e tomar banho.

Em entrevista a uma rádio uma vizinha declarou, estarrecida, que eles não dispõem de caixas d’água no prédio. Em outro ponto da capital muitos captavam a água que jorrava aos borbotões no meio fio da calçada para abastecer suas casas.

O cenário sombrio de uma possível seca generalizada na Região Metropolitana tem feito com que a população fique atormentada e com muito medo do que vem pela frente.

Não à toa, uma pesquisa apresentada no início do ano deu conta de que mais da metade dos paulistanos iria embora da cidade, se pudesse. O estudo chamado Você está satisfeito com a qualidade de vida na cidade de São Paulo? Foi encomendado pela organização não governamental Rede Nossa São Paulo, em conjunto com a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio).

Os pesquisadores foram ouvir 1 512 pessoas com mais de 16 anos em todas as regiões da cidade entre os dias 24 de novembro e 8 de dezembro do ano passado.

Uma das perguntas foi exatamente esta: “Gostaria de saber se, caso pudesse, o(a) sr(a) sairia de São Paulo para viver em outra cidade, ou não sairia de São Paulo?” Mais da metade – exatos 57% dos paulistanos – disse sim categoricamente.

Claro, no período em que a pesquisa foi a campo a crise hídrica já estava instalada. Tanto que perguntas sobre o tema foram incluídas. Detectou-se que para 42% da população os principais responsáveis pela crise no abastecimento de água na cidade são a falta de planejamento do governo do estado e o próprio governador.

Mais: 82% consideram que há grande risco da cidade ficar sem água por longos períodos nos próximos meses. E 68% já tiveram problemas com o abastecimento de água.

O que assusta os paulistanos não se resume tão-somente a ver as torneiras de suas casas secas. É o efeito dominó que a falta d’água detonará em todos os setores da vida cotidiana urbana.

Num rápido exercício de imaginação, a primeira consequência do triste fim do Sistema Cantareira seria haver um colapso nos demais reservatórios. Certamente eles suprirão as regiões antes abastecidas pelo Cantareira. Não darão conta.

Se um rodízio do tipo 5 x 2 – cinco dias sem e dois dias com água – sugerido pela Sabesp for mesmo adotado como ficará a indústria, o comércio, as escolas e creches, os hospitais, as delegacias, a padaria da esquina?

Nesse estado de coisas, estabelecimentos terão que reduzir os horários de funcionamento. Muitos funcionários ficarão sem emprego, alunos sem aula, mães sem onde deixar seus filhos, com creches fechadas.

Com menos água os agricultores já estão perfurando poços para irrigar suas plantações. Como resultado teremos em breve frutas, legumes e verduras muito mais caros nas feiras e supermercados. O custo de vida vai subir.
Mais e mais poços ainda serão perfurados ameaçando seriamente a quantidade e qualidade das águas dos lençóis freáticos.

Caminhões-pipa serão tratados como artigo de luxo disponível apenas para uma camada privilegiada da população. Água mineral será comercializada a peso de ouro, com os estoques definhando.

As periferias já desassistidas sofrerão ainda mais sem água potável, sem saneamento básico, sem qualquer cuidado. O perigo de uma proliferação de doenças causadas pelo consumo de água contaminada estará rondando.
Haverá manifestações, revolta, caos. Regiões antes abastecidas pelo Sistema Cantareira serão desocupadas. A debandada da cidade, como apontou a pesquisa da Rede Nossa São Paulo, pode concretizar-se.

Se congestionamentos, filas, poluição e transportes públicos ineficientes torram a paciência de qualquer cidadão imagine o que terá de suportar diante da desordem de dias assim.

Não se trata de profetizar um futuro catastrófico e pessimista, digno de Ensaio sobre a cegueira, de Saramago. Mas a realidade está aí. É um quadro nada improvável, caso não despenque um dilúvio bíblico sobre o Cantareira nas próximas semanas.

Parece que só o governo paulista não enxerga e deixou tudo chegar a tal ponto. Perdeu a grande chance de – um ano atrás – admitir a situação, escancará-la publicamente, traçar planos de emergência para os próximos meses difíceis, reflorestar e proteger a região dos mananciais, fazer um pacto com a população pelo racionamento de água e conquistar a pronta adesão de todos.

Óbvio, os cidadãos certamente iriam compreender e formar uma corrente de solidariedade em nome da sobrevivência. Todos fariam esforços para economizar água e adaptar-se a uma nova realidade.

Se há males que vêm para o bem, quem sabe agora caia a ficha dos eleitores. Quem dera passem repugnar a mentalidade tacanha de boa parte dos políticos brasileiros: aqueles que cultuam a vaidade e o imediatismo e escondem a verdade para ganhar votos. E passem, então, a escolher os que simpatizam com a honestidade, o bom planejamento, a sustentabilidade. Com o bem comum.

O governador de São Paulo deixou para trás a oportunidade de demonstrar que tem essas qualidades. Ao contrário, provou que passa longe de ser um estadista assim. Agora ficamos nós inseguros diante de um futuro incerto. Perdendo a paz e a compostura."

domingo, 25 de janeiro de 2015

Sem chuva e sem governo, agora é o salve-se quem puder


Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho

"As chuvas não vieram, os governos sumiram, o ministro das Minas e Energia entregou para Deus, e a mídia, finalmente, de uma hora para outra, descobriu que estamos à beira de um colapso no abastecimento de água e energia nas maiores áreas metropolitanas do país.

Diante desta situação, não adianta mais nada ficar discutindo de quem é a culpa, se Dilma e Alckmin esconderam a verdade ou mentiram para os eleitores durante a última campanha, se a responsabilidade é municipal, estadual ou federal.

Agora, meus amigos, é o popular salve-se quem puder. Ou assumimos a nossa própria responsabilidade de cidadãos, e passamos a economizar para valer água e luz, onde ainda tem, ou vamos todos para o inferno, e não demora. Não escapa ninguém.

Vamos reconhecer: pertencemos a uma sociedade habituada ao desperdício de água, luz e comida, ao desrespeito à natureza, a entregar tudo nas mãos dos governantes ou de entidades sobrenaturais, na certeza brejeira de que, no fim, sempre se dará um jeitinho, e nada nos faltará. A maioria nem sabe o que é cidadania, algo que não se ensina nem nas escolas nem nas famílias.

 Ao contrário, a onda agora é ostentação, dane-se o resto.

Desse assunto posso falar com conhecimento de causa. Sou filho de uma família de imigrantes, que passaram sede e fome durante a Segunda Guerra Mundial na Europa, e me ensinaram desde pequeno a não desperdiçar nada porque amanhã pode faltar.

"Aqui ninguém é dono da Light", cansei de ouvir minha mãe reclamar ao mandar a gente apagar a luz acesa sem necessidade. Tudo era motivo para bronca: não ficar muito tempo no chuveiro, não deixar a torneira aberta na hora de escovar os dentes, não deixar comida no prato, não esquecer de desligar a televisão, não comprar coisas caras se tem igual mais barato, não querer dar uma de bacana.

Nos altos e baixos da minha família, nos tempos de fartura ou de dureza, fui acostumado a viver assim, e tem dado certo até aqui. Acho que isto vale tanto para as famílias como para os países que gastam mais do que ganham, vivem endividados e, de repente, como agora, se espantam ao constatar que a festa acabou.

Claro que tudo isso não livra a cara dos governantes de todas as latitudes responsáveis pelo planejamento e implantação das políticas públicas. É para isso que são eleitos e bem pagos por nós. Por mim, deveriam ser todos processados por crime de responsabilidade administrativa pela incúria e soberba com que trataram questões vitais para o bem estar da população.

E vocês, caros leitores do Balaio, como estão fazendo para economizar água e luz? Não podemos mais esperar que a solução venha dos céus ou dos palácios.

Vida que segue."

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O apagão de São Paulo



Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa 

"A gestão da comunicação em torno da crise de abastecimento de água na região metropolitana de São Paulo está sendo feita por um gabinete junto ao governador Geraldo Alckmin. A equipe de assessores da Sabesp ficou encarregada apenas de ações defensivas e pontuais, como o encaminhamento de declarações e dados para os consumidores e para jornais e emissoras cujo noticiário se desvia eventualmente do padrão estabelecido por praticamente toda a imprensa: a prioridade é preservar o governo paulista e criminalizar os cidadãos que ainda não aderiram ao racionamento dissimulado.

Na comunicação direta com o contribuinte, a Sabesp tem trabalhado com textos ambíguos até mesmo para informar cortes no fornecimento de água ou redução na pressão do bombeamento. Por exemplo, ao anunciar a suspensão do serviço na região da Avenida Paulista, no último fim de semana, a empresa informava que a medida era necessária “devido a falta de energia que afeta o abastecimento”. Ou seja: a culpa da falta de água agora é da Eletropaulo.

A principal preocupação do gabinete de crise não é apenas conscientizar o consumidor, mas evitar que a opinião pública faça associações que levem ao ponto de origem do problema: a incúria do governo do estado, que vem sendo prevenido há mais de uma década sobre a redução da oferta de água no sistema que abastece a capital paulista e as cidades vizinhas.

A mensagem da Sabesp tenta diluir as responsabilidades, criando outro foco na própria máquina do Estado – a empresa de energia – dentro da estratégia central, que consiste em manter o governador longe da cena, nem que para isso seja preciso, por exemplo, fomentar conflitos entre vizinhos. 

A mídia tradicional, principalmente os grandes jornais paulistas, funciona como extensão do Palácio dos Bandeirantes: embora o noticiário registre diariamente a redução do nível dos mananciais que abastecem a maior concentração urbana do país, os jornalistas se contentam com as frases de efeito e as platitudes produzidas pelo governador. Omite-se o fato de que não apenas o sistema hídrico já entrou em colapso, mas esconde-se o quadro geral, que mostra a deterioração da infraestrutura de saneamento, energia, segurança e educação do estado nos últimos vinte anos.

Infraestrutura sucateada

Quando a Sabesp afirma, em comunicado oficial, que vai faltar água por problemas na rede de distribuição de energia, o cidadão atento enxerga o emaranhado de fios que pende perigosamente sobre as cabeças dos transeuntes. Os constantes cortes no fornecimento de eletricidade, que se tornaram rotina, são noticiados burocraticamente, sem referência ao contexto mais importante, que é o sucateamento do sistema em toda a região metropolitana. Comentaristas de emissoras de rádio tratam de misturar o assunto com as quedas de árvores, e muitos ouvintes ficam com a impressão de que a culpa é do prefeito petista da capital, Fernando Haddad.

Observe-se que nunca houve tanta oferta de financiamento para obras públicas como nas duas últimas décadas. Eventualmente, especialistas citam medidas que nunca foram tomadas, embora tenha havido dinheiro disponível, por falta de projetos executivos.

Há muito sinais de negligência na ação dos governantes que se sucederam nos últimos anos à frente do Executivo paulista, suficientes para autorizar pelo menos uma investigação sobre prevaricação. O antecedente criado pelo escândalo dos contratos para obras no metrô e no sistema de trens metropolitanos deveria suscitar ao menos a curiosidade dos jornalistas.

Nos meses que antecederam a Copa do Mundo, problemas pontuais em dois ou três aeroportos motivaram a imprensa a anunciar o apocalipse e a prever o “apagão” geral do país. “Imagine na Copa” – era a senha dos profetas do caos.

Nove entre dez consultores de comunicação, assim como administradores de empresase políticos, são adeptos dos ensinamentos do general chinês Sun-Tzu, personagem improvável que teria vivido entre os séculos 6 e 5 antes da era cristã. Mas o noticiário sobre o problema hídrico de São Paulo ignora um dos principais aforismas atribuídos ao suposto estrategista: “Aquele que se empenha em resolver as dificuldades resolve-as antes que elas surjam”.

Especialistas afirmam que, se nada mudar, São Paulo vai conhecer uma crise social sem precedentes a partir de março, ou seja, daqui a dois meses, quando 6 milhões de pessoas poderão ficar sem água.

E a imprensa continua tratando como estadista um governador anódino, anestesiado, incapaz de enfrentar publicamente sua responsabilidade."

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Pesquisadora diz que crise hídrica em SP é falta de eficiência do Estado


Jornal GGN

"A falta d'água em São Paulo não é só fruto de condições climáticas anormais, mas também "falta de eficiência do sistema do Estado", estampa a Folha no lead de uma entrevista com pesquisadora da Universidade de Stanford, na Califórnia, Newsha Ajami. A entrevistada, diretora do programa Water in the West, afirmou que o problema foi majorado pela falta de gerenciamento e de soluções. Criticou também as soluções que o governo do Estado aponta para o futuro próximo, dizendo que tudo o que é proposto não pode ser feito de uma hora para outra. Para a pesquisadora, a primeira e rápida medida seria consertar os vazamentos e, então, partir depois para reprimir a demanda com aplicação de multas para o excesso de consumo. Leia a matéria na íntegra. 

da Folha

SP deve mirar curto prazo na luta contra crise da água, diz pesquisadora

GIULIANA VALLONE

DE NOVA YORK

Os problemas no abastecimento de água enfrentados por São Paulo não resultam apenas das condições climáticas anormais, mas também da falta de eficiência do sistema do Estado. A opinião é da pesquisadora da Universidade de Stanford, na Califórnia, Newsha Ajami.

Ela é diretora do programa Water in the West, voltado para a pesquisa e desenvolvimento de soluções para os problemas de abastecimento de água no Oeste dos EUA.

Ajami esteve em São Paulo em dezembro, a convite do governo do Estado, para discutir a questão com autoridades e outros pesquisadores.

"É, sim, um problema nacional de seca, mas [no Estado] ele é exacerbado pela falta de gerenciamento e de soluções", disse à Folha.

Para ela, o primeiro passo deveria ser consertar os vazamentos no sistema paulista –uma solução de curto prazo que, segundo ela, ajudaria a aumentar o volume de água disponível para o uso.

"Eles estão falando em fazer grandes obras, como construir mais reservatórios ou fazer a interligação com outros Estados, mas não dá para construir isso de uma hora para outra", disse.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

*

Folha - Como você avalia a situação atual do sistema de água em São Paulo?

Newsha Ajami - Eu estava informada sobre os problemas de abastecimento ao viajar. Mas, quando cheguei a São Paulo, me surpreendi ao descobrir que há um rio [o Tietê] correndo no meio da cidade. Ele é bastante contaminado, claro, mas é impressionante saber que, no meio de uma seca, ninguém tenha levado em consideração usar essa água, descontaminá-la.
Há também um sistema de coleta de água da chuva, que é muito mais limpa que o esgoto. Mas, no fim, os dois são despejados no mesmo lugar.

Como você compararia a situação da Califórnia com a de São Paulo?

Bom, nós realmente não temos água, não está chovendo e os nossos rios estão secos. Mas parte dos problemas que o Estado está enfrentando está ligada ao mau gerenciamento, e não a questões climáticas ou ambientais. É um problema nacional de seca, mas exacerbado pela falta de gerenciamento e soluções.

Estão falando em fazer grandes obras, como construir mais reservatórios ou fazer a interligação com outros Estados, mas essas são soluções de longo prazo.

E se há seca, a primeira coisa a fazer é adotar medidas que tenham efeito no curto prazo: tentar reduzir o consumo, fazer a água disponível durar mais. E quando visitei a cidade [em dezembro], eles não estavam necessariamente explorando essas opções.

O governo estadual acaba de conseguir na Justiça autorização para cobrar uma sobretaxa de quem aumentar o consumo de água. Isso é uma solução?

Com certeza. Discuti essa possibilidade em São Paulo, porque essa é uma opção para conter o uso da água. A resposta que recebi é que isso acabaria punindo todos, porque há prédios em que a cobrança pelo uso da água é conjunta e é difícil descobrir quem está gastando mais.
Mas a justiça é um padrão difícil de se estabelecer quando você quer garantir que todos tenham acesso à água potável. E é preciso ter uma medida para emitir um alerta de que é preciso parar de desperdiçar. A mudança na estrutura de preço é um dos melhores jeitos de sinalizar isso para os consumidores.

A Sabesp também tem reduzido a pressão da água durante a noite, reduzindo o volume entregue às residências.

Não fazemos isso na Califórnia e não achamos que é uma boa ideia. A redução da pressão da água aumenta o risco de contaminação.
Durante minha visita, chegamos à conclusão de que usamos o termo racionamento de forma diferente. Sob o nosso ponto de vista [da Califórnia], racionamento não significa cortar o abastecimento de água e, sim, restringir o volume para assegurar que as pessoas usem só uma determinada quantidade.
Percebi que em São Paulo o termo racionamento é usado para cortes no abastecimento. E isso é uma coisa bastante custosa para a agência responsável, por causa do risco de contaminação da água. O sistema do Estado tem cerca de 40% a 45% de vazamentos, então eu me concentraria em aumentar a eficiência ao invés de racionar.

Como a redução da pressão pode aumentar o risco de contaminação da água?

A água corre pelo sistema a uma velocidade muito alta. Se há um vazamento, a água sai da tubulação, mas não permite que nada entre nela.
Agora, se você reduz a pressão, vai haver mais espaço dentro dessa passagem e, nos lugares em que há vazamentos, essa água que saiu pode voltar a entrar na tubulação, já contaminada.

O governo também admitiu a possibilidade de fazer um rodízio no abastecimento de água. Isso pode ajudar a aumentar a duração dos reservatórios?

Eu também não diria que é uma boa ideia. Nos EUA, você não pode fazer isso, então me surpreendeu muito que isso possa ser feito em São Paulo.
De qualquer forma, acredito que seja mais eficaz fazer alterações de preço, tornando as pessoas mais conscientes do uso que fazem da água.

A interligação da bacia do rio Paraíba do Sul, nos Estados de São Paulo, Minas e Rio, com o sistema Cantareira –autorizada na sexta-feira (16), pela Agência Nacional de Águas. é uma boa alternativa a longo prazo?

Na Califórnia, tivemos de trazer água de outros lugares para sobreviver. E percebemos que isso tem custos ambientais e econômicos bastante significativos a longo prazo.

Agora, nós estamos encorajando as regiões a buscarem soluções locais. Em São Paulo, há muitas ações locais para serem exploradas. Se eu estivesse à frente do governo, investiria em um sistema que limpasse a água do rio Tietê e permitisse reutilizá-la.

Quais são as soluções de curto prazo para São Paulo?

A primeira medida deveria ser consertar os vazamentos. É uma solução rápida.
Outra solução de curto prazo é reduzir a demanda, como multar quem usa mais ou dar incentivos para quem economiza, o que já estão fazendo.
Há também a estrutura, já instalada, que separa a água da chuva do esgoto e poderia ajudar em períodos de seca. Eu tentaria captar essa água pluvial para limpá-la e usá-la novamente.

Você acha que essa situação poderia ter sido evitada?

Talvez. Eles estavam cientes de que havia vazamentos no sistema e me surpreende que não tenham tentado resolver isso. Acho que o governo não vinha fazendo a manutenção ativa do sistema. Pode ser que eles não tivessem recursos financeiros para fazê-lo ou pode ter sido só negligência.

Com a mudança climática, você acredita que as secas serão um problema cada vez mais frequente?

Com certeza. E isso pode ser uma realidade na Califórnia e em São Paulo, de formas diferentes. De forma geral, acredito que mudar a maneira como gerenciamos a água pode melhorar o nosso acesso a ela. Precisamos ter um sistema mais eficiente e mais resistente."

domingo, 11 de janeiro de 2015

Cantareira e Alto Tietê secarão neste ano


Rede Brasil atual

 A crise hídrica na região metropolitana de São Paulo caminha para o colapso, e até o meio do ano, os sistemas Cantareira e Alto Tietê poderão chegar ao nível zero, acreditam os especialistas que acompanham com apreensão o problema. 
"Atualmente, com a capacidade da Cantareira abaixo de 7%, estamos observando que as chuvas não estão compensando a redução dos níveis de água por captação e evaporação; caso a situação de chuvas e de consumo continue do jeito que está os dois reservatórios vão ficar sem água", preocupa-se Pedro Luiz Côrtes, geólogo e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) na área de meio ambiente e sustentabilidade, e professor de mestrado em gestão ambiental na Uninove.
  
É preciso "preparar-se para o colapso no sistema público de abastecimento", escreveu o professor Reginaldo Bertolo, do Instituto de Geociências da USP, em palestra realizada em novembro de 2104, na qual defendeu a produção de águas subterrâneas para atenuar o problema que os cerca de 20 milhões de habitantes da região metropolitana terão de enfrentar.

Os especialistas podem divergir quanto a detalhes dos desdobramentos do colapso anunciado, mas praticamente não há como discordar que a situação criará impactos sociais e econômicos consideráveis. Nos últimos dias, chegou-se a falar em êxodo populacional, mas isso é um certo exagero na opinião de Côrtes. O que ele não descarta, contudo, é que a situação prejudicará o dia a dia da região, afetando inclusive o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) paulista. "Isso pode sim influenciar em uma redução do PIB e na geração de empregos; há indústrias que têm suprimentos de água subterrânea, mas bares, restaurantes, enfim, muitos dependem do abastecimento dos sistemas da Sabesp", afirma.

Côrtes acredita que em vez de oscilar entre medidas como o desconto para quem economizar e a multa para quem gastar mais, o governo estadual já deveria ter decretado o racionamento que a cada dia se torna mais premente. "O racionamento deveria ser na base de um dia com água e um dia sem, algo na base do meio a meio", acredita o geólogo, acrescentando que se isso não reverter a situação no próximo ano podemos ter a difícil situação de um dia com água e dois dias sem.

O geólogo calcula que como o Cantareira abastece perto de 40% da região e está próximo de zero, é preciso cortar os mesmos 40% no consumo da região metropolitana. Nesses casos, instalações como hospitais, entre outras que são fundamentais, precisarão de regimes diferenciados de abastecimento, inclusive contando com o suprimento de carros-pipa.

Já que não cumpriu os investimentos previstos pela outorga de 2004 para ampliar a capacidade de abastecimento do sistema Cantareira, o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) prefere a abordagem do problema na questão das chuvas. Mas essa perspectiva está 'virando água', ou se frustrando a cada dia. Neste mês, cujas chuvas históricas são de 271,1 milímetros, até agora choveu apenas 45,7 milímetros, o que é praticamente a metade do que já estaria acumulado no mês, caso as chuvas estivessem em regime regular.

E para os próximos dias não há previsão de alteração desse quadro. Segundo a carta de previsão do tempo a médio prazo do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), as probabilidades de chuvas acima de 5 milímetros nos próximos dias são de 1% até sábado (17), e de 7% entre os dias 18 (domingo) e 21 (quarta-feira); a situação de chuvas deve melhorar um pouco somente no dia 22 (quinta-feira), quando a probabilidade de precipitações acima de 5 milímetros sobe para 20%.

"A previsão de recomposição da Cantareira leva uns cinco anos, talvez sete anos; infelizmente, estamos no início da crise, pois o pior ainda não aconteceu", afirma Côrtes. "O governo do estado devia mostrar para a população os cenários com os quais está trabalhando e as ações dentro de cada cenário", continua, lembrando que as obras que estão sendo realizas só ficam prontas a partir do ano que vem e que neste ano só há mesmo a possibilidade de contar com o apoio da população. "Este ano provavelmente não vai haver chuva para recomposição dos mananciais do Cantareira. Muitas vezes as chuvas não passam da barreira da serra", diz.

Para Côrtes, outros órgãos gestores de recursos hídricos também estão lerdos em tomar iniciativa. "A Agência Nacional de Águas está como um observador distante, mas poderia interferir, porque o sistema Cantareira é importante também para outras regiões do estado", afirma. "É necessária uma discussão sobre governança hídrica. A discussão não é promovida como deveria, de forma ampla", acredita.

Outro problema, segundo o especialista, é que os comitês de bacia são muito burocráticos: "Seria importante desenvolver uma nova forma de gestão e investimentos, pois, mesmo que o Cantareira voltasse, a situação ainda ficaria crítica", lembrando que o consumo tem crescido acompanhando o crescimento populacional.

"O governo do Estado tem visão paternalista, as pessoas ficam imaginando que o cenário é olhar para as chuvas e achar que a chuva vai resolver é ilusão. O fato é que hoje não temos segurança hídrica. Nós entramos no cheque especial da água e vai ser difícil sair."

A crise hídrica na região metropolitana de São Paulo caminha para o colapso, e até o meio do ano, os sistemas Cantareira e Alto Tietê poderão chegar ao nível zero, acreditam os especialistas que acompanham com apreensão o problema. “Atualmente, com a capacidade da Cantareira abaixo de 7%, estamos observando que as chuvas não estão compensando a redução dos níveis de água por captação e evaporação; caso a situação de chuvas e de consumo continue do jeito que está os dois reservatórios vão ficar sem água”, preocupa-se Pedro Luiz Côrtes, geólogo e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) na área de meio ambiente e sustentabilidade, e professor de mestrado em gestão ambiental na Uninove.
É preciso “preparar-se para o colapso no sistema público de abastecimento”, escreveu o professor Reginaldo Bertolo, do Instituto de Geociências da USP, em palestra realizada em novembro de 2104, na qual defendeu a produção de águas subterrâneas para atenuar o problema que os cerca de 20 milhões de habitantes da região metropolitana terão de enfrentar.
Os especialistas podem divergir quanto a detalhes dos desdobramentos do colapso anunciado, mas praticamente não há como discordar que a situação criará impactos sociais e econômicos consideráveis. Nos últimos dias, chegou-se a falar em êxodo populacional, mas isso é um certo exagero na opinião de Côrtes. O que ele não descarta, contudo, é que a situação prejudicará o dia a dia da região, afetando inclusive o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) paulista. “Isso pode sim influenciar em uma redução do PIB e na geração de empregos; há indústrias que têm suprimentos de água subterrânea, mas bares, restaurantes, enfim, muitos dependem do abastecimento dos sistemas da Sabesp”, afirma.
Côrtes acredita que em vez de oscilar entre medidas como o desconto para quem economizar e a multa para quem gastar mais, o governo estadual já deveria ter decretado o racionamento que a cada dia se torna mais premente. “O racionamento deveria ser na base de um dia com água e um dia sem, algo na base do meio a meio”, acredita o geólogo, acrescentando que se isso não reverter a situação no próximo ano podemos ter a difícil situação de um dia com água e dois dias sem.
O geólogo calcula que como o Cantareira abastece perto de 40% da região e está próximo de zero, é preciso cortar os mesmos 40% no consumo da região metropolitana. Nesses casos, instalações como hospitais, entre outras que são fundamentais, precisarão de regimes diferenciados de abastecimento, inclusive contando com o suprimento de carros-pipa.
Já que não cumpriu os investimentos previstos pela outorga de 2004 para ampliar a capacidade de abastecimento do sistema Cantareira, o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) prefere a abordagem do problema na questão das chuvas. Mas essa perspectiva está 'virando água', ou se frustrando a cada dia. Neste mês, cujas chuvas históricas são de 271,1 milímetros, até agora choveu apenas 45,7 milímetros, o que é praticamente a metade do que já estaria acumulado no mês, caso as chuvas estivessem em regime regular.
E para os próximos dias não há previsão de alteração desse quadro. Segundo a carta de previsão do tempo a médio prazo do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), as probabilidades de chuvas acima de 5 milímetros nos próximos dias são de 1% até sábado (17), e de 7% entre os dias 18 (domingo) e 21 (quarta-feira); a situação de chuvas deve melhorar um pouco somente no dia 22 (quinta-feira), quando a probabilidade de precipitações acima de 5 milímetros sobe para 20%.
“A previsão de recomposição da Cantareira leva uns cinco anos, talvez sete anos; infelizmente, estamos no início da crise, pois o pior ainda não aconteceu”, afirma Côrtes. “O governo do estado devia mostrar para a população os cenários com os quais está trabalhando e as ações dentro de cada cenário”, continua, lembrando que as obras que estão sendo realizas só ficam prontas a partir do ano que vem e que neste ano só há mesmo a possibilidade de contar com o apoio da população. “Este ano provavelmente não vai haver chuva para recomposição dos mananciais do Cantareira. Muitas vezes as chuvas não passam da barreira da serra”, diz.
Para Côrtes, outros órgãos gestores de recursos hídricos também estão lerdos em tomar iniciativa. “A Agência Nacional de Águas está como um observador distante, mas poderia interferir, porque o sistema Cantareira é importante também para outras regiões do estado”, afirma. “É necessária uma discussão sobre governança hídrica. A discussão não é promovida como deveria, de forma ampla”, acredita.
Outro problema, segundo o especialista, é que os comitês de bacia são muito burocráticos: "Seria importante desenvolver uma nova forma de gestão e investimentos, pois, mesmo que o Cantareira voltasse, a situação ainda ficaria crítica”, lembrando que o consumo tem crescido acompanhando o crescimento populacional.
“O governo do Estado tem visão paternalista, as pessoas ficam imaginando que o cenário é olhar para as chuvas e achar que a chuva vai resolver é ilusão. O fato é que hoje não temos segurança hídrica. Nós entramos no cheque especial da água e vai ser difícil sair.”

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Chefe da Sabesp pede 'todos preparados para o pior'


"Olhando para a frente, a situação de São Paulo é preocupante, é grave, e temos que torcer pelo melhor, mas estar preparados para o pior", disse Jerson Kelman, novo presidente da Sabesp; ele lembrou que as pancadas de chuva de verão não têm sido fortes o suficiente para recuperar os níveis do Sistema Cantareira; "é preciso deixar claro para manter sempre esclarecida a população de que essas chuvas intensas e curtas não resolvem o problema"; ele pediu que a população continue economizando o máximo possível para evitar medidas mais drásticas em 2015

Brasil 247

A situação hídrica de São Paulo ainda é crítica, apesar dos temporais que têm marcado este início de verão em São Paulo.
  
Quem afirma é o novo presidente da Sabesp, Jerson Kelman, que concedeu uma importante entrevista ao jornalista Artur Rodrigues, da Folha de S. Paulo (leia aqui a íntegra).

"Olhando para a frente, a situação de São Paulo é preocupante, é grave, e temos que torcer pelo melhor, mas estar preparados para o pior", disse ele.
Kelman pediu ainda para que a população continue economizando, a despeito das imagens do noticiário de verão, que mostram enchentes e carros boiando em São Paulo.

"O que poderia acontecer de ruim é você ter uma enchente, carros boiarem, essas coisas que acontecem no verão, e ter um efeito colateral indesejável que seria a população imaginar que o problema está resolvido e relaxar na postura que está tendo de uso econômico da água."

Segundo ele, o uso consciente da água é crucial para evitar medidas mais drásticas em 2015.

Ontem, ao tomar posse para mais um mandato, o governador Geraldo Alckmin se colocou como principal voz da oposição, no cenário político nacional.

Pré-candidato à presidência da República em 2018, ele precisa, antes, solucionar a crise de abastecimento de água no estado mais próspero do País para levar adiante suas pretensões.

A atuação de Kelman, portanto, será decisiva para o futuro de Alckmin. Ontem, o Sistema Cantareira operava a 7,2% de sua capacidade."

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Com 20 anos de PSDB em SP e vários alarmes, faz sentido Alckmin pedir água ao governo federal?



DCM
"Alckmin é a exceção que confirma a regra de que você pode enganar algumas pessoas por algum tempo, mas não todo o mundo o tempo todo.
O governador de São Paulo pediu 3,5 bilhões de reais a Dilma Rousseff para combater a crise hídrica. O nível dos seis mananciais que abastecem a região metropolitana apresentou nova queda na segunda-feira.

O problema mais grave diz respeito ao Sistema Cantareira, que opera atualmente com 11,3% da capacidade, percentual que inclui as duas cotas do famigerado volume morto.

São oito obras. O próprio Geraldo afirma que não se trata de solução imediata, já que algumas levariam nove meses para ficar prontas e outras até 60. Um grupo de trabalho foi montado com gente do governo estadual e do governo federal.

Alckmin abusa de uma espécie de bloqueio retórico-mental. Sua negação de uma série de fatos, porém, funciona como afirmação. Primeiro, insiste que não há racionamento. Depois, ao responder se a eleição atrasou uma tomada de atitude, falou que “o palanque acabou. Vamos trabalhar juntos para o benefício da população”.

Ou seja, enquanto o palanque estava montado, o interesse da população foi posto de lado. Por quê? Porque é assim que funciona.

É assombroso que em mais de duas décadas de continuidade do PSDB — alternância de poder, alguém? – no estado a questão da água tenha chegado a esse nível dramático. Esse é o choque de gestão?

O alarme soou para o Cantareira em 2004, quando ele era governador. Num documento de concessão de outorga à Sabesp, estipulava-se a necessidade de “estudos e projetos que viabilizem a redução da dependência do sistema”.
Em 2008, o Plano Diretor de Recursos Hídricos para a Macrometrópole Paulista apontava que o atual sistema de abastecimento das 180 cidades deixaria pelo menos 79, entre elas São Paulo, Campinas, Piracicaba e Santos, com falta de água se houvesse “cenário equivalente ao da pior seca da história, entre 1951 e 1956″.

O estudo registrava que a região “não dispõe de dispositivos hidráulicos capazes de garantir o suprimento quando da ocorrência de eventos críticos de escassez.” O relatório apontava que teriam de ser investidos de 4 bilhões a 10 bilhões em novos reservatórios, captações e sistemas de transferência.

O que Geraldo entregou em 2004? Duas promessas: o fim das enchentes na Marginal Tietê e, veja que maravilha, a possibilidade de navegar no rio defunto. O aprofundamento da calha, no valor de 688 milhões de reais, seria acompanhado da construção de jardins floridos. “Teremos um Tietê muito mais saudável”, disse ele.

Dez anos depois, enchentes continuam parando o trânsito na marginal, aquele esgoto continua obsceno, a situação do Cantareira piorou, Alckmin passou o chapéu em Brasília e os paulistanos não ficarão sequer a ver navios porque não haverá água para tanto."