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sexta-feira, 31 de julho de 2020

UMA DICA PARA O TRUMP E O BOLSONARO ENTENDEREM POR QUE ESTÃO AMBOS EM QUEDA LIVRE: "É O VÍRUS, ESTÚPIDOS!"


UMA DICA PARA O TRUMP E O BOLSONARO ENTENDEREM POR QUE ESTÃO AMBOS EM QUEDA LIVRE: "É O VÍRUS, ESTÚPIDOS!"

kennedy alencar
TOMBO DO PIB NOS EUA É LIÇÃO PARA O BRASIL,
QUE SEGUE O MESMO RUMO NA PANDEMIA
Se faltava mais um dado para provar que a economia só vai se recuperar com uma resposta eficiente ao coronavírus, não falta mais. 

Anunciada na manhã desta 5ª feira (30), a impressionante retração de quase 10% do crescimento econômico dos Estados Unidos no segundo trimestre é a prova de que a solução para manter vivos empregos e empresas é priorizar o combate à pandemia. 

"A economia nunca se recuperará completamente até nosso país controlar o vírus. Nunca foi uma escolha entre a saúde pública e a economia", diz o governador de Nova York, Andrew Cuomo, em post no Twitter

A queda do Produto Interno Bruto dos EUA no segundo trimestre foi de 32,9%, se anualizada. Na comparação com o primeiro trimestre, que é a forma como o Brasil afere esse dado oficialmente, o tombo ficou em 9,5%. 

"A queda do PIB estadunidense foi a maior registrada desde a década de 40, o que mostra a gravidade do quadro e a extensão da crise. É uma queda comparada às observadas em período de guerra. Para aqueles que ainda não se convenceram, isso mostra claramente quão grave é o quadro do momento", diz Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional e professora da Universidade Johns Hopkins, em Washington. 

Segundo Monica, esse resultado reflete "algumas das medidas sanitárias mais restritivas" e também o auge da pandemia em Nova York e em outros Estados da costa leste dos EUA, onde muito da indústria está concentrada". 

Mas ela ressalta que todos os números por setores específicos mostram queda generalizada e têm a ver "com a má gestão da crise de saúde pública, que inevitavelmente traz repercussões horrorosas sobre a economia". 

Num cenário de "epidemia nos EUA absolutamente fora de controle, mais efeitos econômicos negativos são esperados pela frente", avalia. 

"Se usarmos os EUA como um espelho do Brasil, país que está indo na mesma linha, vai acontecer a mesma coisa. O Brasil vai sofrer muito em decorrência da má gestão da crise de saúde pública, porque as duas coisas estão entrelaçadas. Há estimativas de queda do PIB brasileiro em 2020 de 8% a 10%, podendo ser até um pouco pior a depender do andamento da pandemia nos próximos meses", afirma Monica de Bolle. 
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TRUMP SUGERE ADIAR ELEIÇÕES  A forma irresponsável e incompetente como os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro lidam com o coronavírus tende a piorar a situação econômica nos EUA e no Brasil, porque faz com que a pandemia dure mais tempo num quadro agudo do que em países que agiram com maior rigor sanitário. Trump e Bolsonaro dinamitam, simultaneamente, os esforços de recuperação econômica e a saúde de estadunidenses e brasileiros. 

Do ponto de vista eleitoral, o número do PIB dos EUA no segundo trimestre deverá minar ainda mais a chance de reeleição de Trump e favorecer o candidato democrata Joe Biden. Fica cada vez mais evidente para o eleitorado que o presidente americano é parte do problema, não da solução. 

As eleições estadunidenses vão acontecer em 3 de novembro, mas será possível votar antecipadamente e pelo correio, modalidades criticadas por Trump com frequência. As pesquisas apontam dianteira de Biden nos estados decisivos para formar maioria no Colégio Eleitoral. 

Na manhã desta 5ª feira (30), Trump foi ao Twitter para repetir a teoria conspiratória de que haverá fraude em massa com votação via correio e sugerir o adiamento das eleições até que a população possa votar com segurança. Adiar as eleições é algo que não tem a menor chance de acontecer. 

O presidente estadunidense parece buscar desculpa para eventual derrota. Ele já disse que vai esperar o resultado da eleição para ver se o aceita. Ao abusar de bravatas diversionistas, Trump cria mais divisão política no país, desperdiçando uma energia que deveria ser gasta para combater a covid-19, que já matou mais de 150 mil estadunidenses. 

Como diria James Carville, é o vírus, estúpidos!

Qualquer semelhança com o Brasil e suas 90 mil mortes não é mera coincidência. (por Kennedy Alencar)







terça-feira, 12 de novembro de 2019

TIMING DE TCHUTCHUCA: GUEDES ESCOLHEU UM MOMENTO EM QUE O MUNDO PEGA FOGO PARA JOGAR GASOLINA NA NOSSA FOGUEIRA


TIMING DE TCHUTCHUCA: GUEDES ESCOLHEU UM MOMENTO EM QUE O MUNDO PEGA FOGO PARA JOGAR GASOLINA NA NOSSA FOGUEIRA

"No frigir dos ovos, Evo foi o grande inimigo de si mesmo"
O golpe de Estado contra Evo Morales é o desfecho de um processo de instabilidade política propiciada pelo atingimento doa limites da expansão capitalista na Bolívia. 

Limite não muito bem expresso em número de PIB, mas perceptível nos indicadores econômicos do dia a dia do povo boliviano. 

O resultado foi a erosão da base de apoio de Evo, levando à fragilização de sua liderança, fato já visível na derrota sofrida por ele no plebiscito sobre seu quarto mandato. 

Político hábil ao estilo lulista, Evo acabou tendo forçar uma situação impraticável e, com isto, deu munição à direita boliviana, de matriz racista, que tenta há anos apear o presidente do poder e reverter os avanços políticos e sociais lá registrados. No frigir dos ovos, Evo foi o grande inimigo de si mesmo. 

Mas, não é possível considerar a situação boliviana em separado do quadro maior internacional. No mundo inteiro, insurreições, revoltas ou impasses políticos assolam o sistema planetário de produção de valor. 

No centro do capitalismo, o impeachment de Trump avança, tornando-se, cada vez mais, uma luta aberta entre a Presidência da República e o Congresso.  
"Luta aberta entre a Presidência da República e o Congresso"

Numa situação jamais vista na história dos Estados Unidos, o presidente recusa-se terminantemente a colaborar com o Legislativo, faz ameaças aos congressistas e se queixa abertamente de que estariam tentando dar um golpe de estado contra ele.

Na Europa, o drama do Brexit leva o Reino Unido a mais uma eleição e ameaça seriamente o futuro da unidade do país. Escoceses querem novo plebiscito sobre independência e os norte-irlandeses não admitem o fechamento de suas fronteiras com a República da Irlanda. 

Na França, Macron se sustenta a duras penas, após a crise dos coletes amarelos, a qual foi postergada, mas nem de longe solucionada. 

Na Espanha, uma crise política paralisa o país há pelo menos três anos, impossibilitando a formação de um governo, pois nenhum partido consegue alcançar a maioria. O separatismo catalão aguça ainda mais os problemas, levando igualmente a dúvidas sobre o futuro da unidade nacional. 

Podemos considerar a crise planetária como estando ainda em limites civilizados no centro do capitalismo. A paralisia das instituições e a possível dissolução de estados nacionais ainda é uma forma relativamente branda de manifestação da enfermidade que assola o dito cujo neste início de século. 
"A crise dos coletes amarelos nem de longe foi solucionada"
Até quando a fervura ficará neste nível por lá é algo complicado de se prever, mas caso se realizem as previsões econômicas de aprofundamento da crise atual, o centro também pode entrar em erupção completa. 

Se formos para a periferia, a coisa fica pior, com o nível de violência muito mais intenso e com os poderes abertamente saindo de seus esquadros. 

Chile e Haiti vivem levantes populares há semanas, já com mortes na casa das dezenas. O Equador era palco até outro dia de massivos protestos que quase levaram à queda do presidente. 

Na Ásia, o Iraque passa por imensos levantes populares há pelo menos uma semana. Hong Kong sofre há meses com confrontos nas ruas entre manifestantes e policiais, enquanto a Indonésia é varrida por manifestações estudantis. 

Onde não há levantes populares, há paralisia política e bateção de cabeça entre as forças institucionais, resultado do colapso econômico processado no mundo desde a grande crise dos anos 2008-2009. 

O empobrecimento generalizado, o desaparecimento da classe média, o alto custo de vida e a estagnação econômica geram inconformidade global. 
Na 6ª feira passada, o povo chileno novamente foi às ruas exigir a renúncia de Piñera


O impacto é maior e mais doloroso na periferia, onde o baixo poder financeiro das populações torna a situação mais dramática. 

Neste quadro, as elites dirigentes mais realistas já se deram conta da impossibilidade de simplesmente seguirem adiante com suas antigas receitas de austeridade fiscal e arrocho sobre o povo. 

Até bilionários estadunidenses já admitem a necessidade da taxação de suas pornográficas fortunas, além da criação de mecanismos de proteção social mínimos. E o próprio FMI mudou seu clássico discurso neoliberal e hoje pensa de modo menos ortodoxo. 

Por isso, fica mais chocante a política seguida por Paulo Guedes e aplaudida pela plutocracia nacional. Com atraso de décadas, Guedes tenta implantar no Brasil o que já não é seguido em quase lugar nenhum do mundo. 
"O medíocre Guedes acenderá o estopim da revolução brasileira?"

Mais, tenta aplicar um modelo que comprovadamente conduziu a toda essa condição crítica hoje vivenciada e que faz explodir as ruas, os parlamentos e os palácios governamentais. 

Guedes e sua trupe, alheios à realidade, pretendem jogar gasolina no fogo ainda brando que se aproxima do barril de pólvora brasileiro. Só conseguirão com isto acelerar a explosão. 

No entanto, talvez esta seja a forma da história se acelerar e efetivar suas rupturas, com as classes dominantes apertando o parafuso e involuntariamente empurrando os subalternos para a ruptura. 

Foi assim na Inglaterra e na França quando, diante da penúria social, os aristocratas resolveram impor mais impostos ao povo, daí resultando a eclosão das revoluções que acabaram levando tais insensatos a perderem tudo, de cavalos aos pescoços. 

Será, então, o medíocre e lunático Guedes quem acenderá o estopim da revolução brasileira? Só o tempo dirá. (por David Emanuel de Souza Coelho) 

domingo, 5 de março de 2017

RECADO PARA O TRUMP: O APOCALIPSE NÃO É UM REALITY SHOW!


Eu tinha acabado de fazer 12 anos quando a crise dos mísseis cubanos estava em grande destaque no noticiário. 

Ingenuamente, perguntei a um colega mais velho do ginásio se ele temia ser convocado para lutar numa eventual 3ª Guerra Mundial. 

Nem me passava pela cabeça que não haveria guerra, mas sim o extermínio quase instantâneo da espécie humana.

Agora que o presidente demente Donald Trump trama um aumento de 10% no orçamento militar dos Estados Unidos, podendo dar o pontapé inicial de uma nova corrida armamentista, fico pensando como seria bom se as novas gerações não olhassem tanto para o próprio umbigo, alheias a quase tudo que aconteceu anteriormente na história da humanidade.

Quantos saberão hoje em dia que, durante 13 dias do mês de outubro de 1962, a sobrevivência da espécie humana esteve por um fio? Quantos se mostrariam tão indiferentes aos planos sinistros de Trump se soubessem disto?

Rememoremos. O presidente John Kennedy deu um ultimato à União Soviética, exigindo a retirada de mísseis nucleares instalados secretamente em Cuba, cuja presença fora revelada por fotos de aviões espiões, e ordenou o bloqueio naval da ilha. A resposta do premiê Nikita Kruschev foi despachar uma força-tarefa rumo à linha do bloqueio. 

Militares linha-dura de ambos os lados acalentavam o sonho de destruírem o inimigo atacando em primeiro lugar com suas bombas atômicas. Isto não teria dado certo pois, além de empestear com radiatividade um enorme naco do planeta, ainda sobraria ao país atacado tempo suficiente para lançar seus mísseis antes de ser pulverizado.

Então, quando aquelas dezenas de navios de guerra se colocaram frente a frente, bastaria um dos comandantes perder a cabeça e gritar fogo! para as pedras de dominó começarem a tombar uma por uma. A guerra começaria no mar e, em  terra, logo os mísseis seriam libertados dos silos.

O perigo era tão dantesco que, do lado dos EUA, o próprio John Kennedy comandou com mão de ferro a operação. Inclusive contatava pessoalmente, por rádio, os comandantes dos navios, dando-lhes ordens e instruções. Ele e o irmão Bob (seu conselheiro militar) fizeram tudo que podiam para que a situação não escapasse de controle.

Não se sabe ao certo o que Kruschev fez nem quem foi o responsável pela decisão de ordenar aos navios soviéticos que dessem meia volta, desistindo de romper o bloqueio.

Mas o premiê soviético estava tão pressionado que, quando resolveu entrar em contato com John Kennedy para discutirem o impasse, optou por mandar recado por um canal inusitado, ao invés de recorrer aos diplomatas profissionais que imediatamente transmitiriam a novidade ao serviço de espionagem.

Ou seja, escondeu de todos seu governo que estava negociando em segredo com os EUA até fechar o acordo e só então apresentou o prato feito ao Politburo, obtendo seu aval (seria difícil discordar naquela altura).
Aceitara retirar imediatamente os mísseis soviéticos de Cuba, em troca da promessa de Kennedy de retirar dentro de algum tempo, sem alarde, os mísseis estadunidenses da Turquia e da Itália.

Ou seja, em termos concretos o resultado foi um empate, mas Kruschev permitiu que os EUA posassem de vencedores, pois esta era a imagem que os filmecos de Hollywood sempre impingiram ao resto do mundo. 

De quebra, foi instalado o célebre telefone vermelho, linha direta para os dois dirigentes supremos se contatarem em momentos de grave crise, como garantia adicional de que uma guerra apocalíptica não começasse por mero equívoco.

Chegamos a um passo do abismo e recuamos horrorizados; aí atravessamos mais de meio século sem sustos semelhantes. Agora, contudo, podemos voltar às paranoias do tempo da guerra fria, quando aquelas imagens horrorosas da destruição das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki assombravam-nos em pesadelos e cidadãos particulares chegavam ao cúmulo de construírem precários abrigos nucleares em suas residências.

Pior: tendo plena consciência de que, mais dia, menos dia, a casa acabará finalmente caindo, caso não transformemos radicalmente a nossa sociedade. Enquanto os artefatos de destruição em massa existirem, não teremos garantia nenhuma de estarmos vivos no dia seguinte.

https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/03/recado-para-trump-o-apocalipse-nao-e-um.html

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

SOMOS VÍTIMAS E PROTAGONISTAS DE UMA SOCIEDADE DOENTE


"Errar é humano. Botar a culpa nos outros,
também." (Millôr Fernandes, humorista)
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O ser humano tem uma capacidade impressionante de adaptação e submissão às condições adversas de vida, a ponto até mesmo de rejeitarem as possibilidades de melhora de vida propostas. 

Atualmente no Brasil (e na maior parte no mundo), as pessoas convivem apaticamente com claros sintomas de que a sociedade está doente. Ao invés de se rebelarem contra tal situação, preferem fechar-se numa concha individual de pretensa proteção, à espera da solução dos problemas por parte de outrem, como se coubesse apenas aos entes chamados vagamente de autoridades a responsabilidade de apagarem os incêndios que não cessam de surgir.  

Os indícios de patologias sociais são flagrantemente constatáveis, bastando para isto abrirmos a porta das nossas casas ou ligarmos a televisão. 

Por que somos obrigados a erigir muros em volta das nossas casas e (os que temos maior poder aquisitivo) sobre eles colocar cercas elétricas, ou (os menos favorecidos) aqueles feios cacos de vidros, enquanto os favelados dispensam muros, pois não possuem quase nada que alguém possa cobiçar? 

Por que não podemos ver a diversidade da arquitetura urbana, que, a partir dos muros, mais parece um tedioso e repetitivo bloqueio visual dos emparedados (agora, em São Paulo, sem a arte dos desenhos em grafites, que quebravam um pouco tal monotonia)?     

Por que nos grandes centros urbanos somos obrigados a passar horas e horas no congestionamento de veículos para ir ao trabalho e para dele voltar, seja em ônibus ou carros particulares, aspirando gás carbônico que, além de poluir o ar que respiramos, produz o chamado efeito estufa, criando uma barreira na atmosfera que contribui para o aquecimento do planeta?

Por que nossos rios e mares são poluídos com o lixo que descartamos de modo displicente e irresponsável, além de neles jogarmos dejetos industriais altamente poluentes e de termos uma deficiente coleta do lixo, cujo destino final são os aterros anti-sanitários?

Por que se estabeleceu entre nós a cultura de buscarmos sempre sobrepujar os nossos semelhantes nas mais variadas situações do cotidiano, como se fôssemos adversários uns dos outros numa competição fratricida, que acaba sendo o salvo-conduto para a prática da  beligerância coletiva? 

Por que cometemos a pequena corrupção e recriminamos a corrupção sistêmica (desde que praticada por nossos adversários ideológicos)?  
Por que somos obrigados a pagar um plano de saúde caro, cujo atendimento muitas vezes nos é negado em momentos cruciais por uma burocracia qualquer, ou a nos sujeitar ao atendimento médico do SUS, cuja ineficiência é notória? 

Por que na periferia das cidades as pessoas são obrigadas a viver em ruas mal pavimentadas, sem esgotamento sanitário e drenagem contra alagamentos, além de terem de viajar em ônibus precários e vagões abarrotados?

Por que somos obrigados a conviver com tão extremado nível de violência, expresso, p. ex., nas mortes por balas perdidas e na assustadora frequência de assaltos a caixas eletrônicos, num país que outrora era conhecido pela cordialidade do povo e convívio pacífico das várias etnias?

Por que assistimos à volta de doenças como tuberculose, hanseníase e febre amarela, além do recrudescimento da dengue e do surgimento de viroses como zika e chikungunya?  

Por que ainda temos elevado índice de analfabetismo e (o que é tão grave quanto!) grande parte da população sendo considerada analfabeta funcional, incapaz de interpretar um texto, por mais simples que seja, ou de redigir um recibo?

Por que somos obrigados a tomar conhecimento, pelo noticiário, dos repetidos episódios de desvio de verbas da merenda escolar por políticos corruptos?

Por que somos obrigados a aceitar taxas de juros do cartão de crédito que atingem até 480% ao ano, quando a inflação anunciada se situa atualmente na casa de pouco mais de 6% ao ano?

Por que temos de suportar a constante anulação dos direitos adquiridos (como a redução dos valores da aposentadoria por parte do sistema de previdência social estatal, ao mesmo tempo em que passa a exigir cada mais tempo de contribuição do candidato à mesma aposentadoria?

Por que uma condenação penal por qualquer crime pode significar inclusão obrigatória como soldado do crime organizado, ou a morte num presídio, sem que o estado garanta a incolumidade física do apenado, função e responsabilidade de sua incumbência, fato que significa uma condenação à criminalidade ou à pena de morte não oficializada? 

Por que temos (principalmente os jovens) de conviver com o fantasma do desemprego, que obriga um pai e/ou uma mãe de família, a passar fome junto com seus filhos, sob risco de despejo por falta de pagamento de alugueis, quando estão aptos a um emprego, mas este lhes é negado? 

Por que somos obrigados a consumir vegetais e frutas contaminadas com agrotóxicos que causam câncer, tudo em nome de melhora da produtividade para maximização dos lucros?

Ufa! 

Seriam ainda muitas as citações possíveis de fatos inerentes à miséria social que à qual a maioria da população é submetida no atual estágio da vida brasileira, em contraste com o admirável desenvolvimento tecnológico, capaz:
— de produzir embriões humanos ou clones de animais pela engenharia genética, como se fossem xerox de papel;  
— de produzir drones minúsculos ou gigantes, capazes de transportar pequenos objetos ou seres humanos;  
— da comunicação imediata auditiva e visual em todos os quadrantes do mundo, via satélite;  
— dos robôs com inteligência artificial;  
— dos veículos que trafegam sem motoristas pelas ruas e avenidas;  
— das naves interplanetárias capazes de pousar em planetas distantes com transmissão instantânea de informações; etc., etc. etc. 
Entretanto, o contraste entre os ganhos do saber da humanidade e a miséria social antes referida é flagrante, e deriva de um modo de relação social cuja superação é tema tabu; e que sempre foi ruim, mas que agora se tornou absolutamente insuportável, por obsolescência completa de sua forma e conteúdo, mas que continua a ser praticado. 

Mas, a permanência deste modelo de relação social cruel e falido pode ser explicada a partir de alguns fatores principais, quais sejam:
— a força coercitiva institucional, que mantém pela lei e pela força manu militari o atual status quo 
— a inconsciência social sobre a negatividade da mediação social reificada que lhe é subjacente;  
— a adaptação comodista dos indivíduos sociais à opressão que lhes é imposta; 
— o medo do novo e do desconhecido.
A miséria, por si só, não se constitui em fator de emancipação. Ao contrário, é fator de submissão, por um lado, e de promoção da barbárie na sua forma mais cruel e opressora, por outro lado. Caso a miséria fosse indutora da emancipação, a África com seu quase 1 bilhão de habitantes, seria um bom exemplo. Não é.  

Neste sentido, os países desenvolvidos, ora atingidos pela crise do capitalismo e com seus altos níveis de escolaridade e consumo em fase de perdas, devem representar uma luz no fim do túnel. 

Que o digam as crescentes e altamente participativas manifestações contra a estupidez de um Donald Trump, que, com sua visão microeconômica da economia aplicada à administração pública, está apressando a morte de um sistema moribundo chamado capitalismo.
 
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/somos-vitimas-e-protagonistas-de-uma.html

UM NOVO 1968 PODE ESTAR COMEÇANDO


O protesto dos estudantes contra a palestra ultradireitista...
Esta notícia é atual:
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"O campus da Universidade da Califórnia em Berkeley foi fechado nesta quarta-feira (1) em meio a um protesto violento contra uma palestra do editor do site de extrema-direita Breitbart, Milo Yiannopoulos.

...A polícia ordenou que os manifestantes da universidade se dispersassem e, de acordo com a rede de TV americana CNN, pelo menos um incêndio foi iniciado pelos manifestantes".

Este trecho de um ótimo artigo da revista Cult, assinado por Sean Purdy (professor do departamento de História da USP), nos mostra o papel histórico que tal universidade desempenhou na década de 1960:
                                                                                                              .
"A primeira grande mobilização do movimento estudantil nos Estados Unidos aconteceu na Universidade da Califórnia em Berkeley em 1964-1965 sobre o direito dos estudantes de organizar atividades políticas no campus, já que, nos anos 1950, os administradores dessa renomada universidade pública haviam banido tais atividades.

No outono de 1964, estudantes abertamente organizaram atos no campus em solidariedade ao movimento negro para desafiar as proibições. O aluno Jack Weinberg foi preso pela polícia e uma manifestação espontânea de 3 mil estudantes cercou o carro da polícia, proibindo-o de partir por 32 horas. Por dois meses, estudantes continuaram organizando grandes atos e manifestações sob a bandeira do Movimento pela Livre Expressão. Em dezembro, alunos ocuparam o principal prédio da administração da universidade. A polícia entrou e mais de 700 alunos foram presos.
...veio na sequência das manifestações de repúdio a Trump. 

Em janeiro, a universidade suspendeu os líderes da ocupação, provocando uma greve estudantil e manifestações amplas que efetivamente fecharam a universidade. Logo depois, a administração da universidade cedeu e atividades políticas foram permitidas no campus.

O Movimento pela Livre Expressão obteve uma vitória importante, inspirando a organização estudantil no país inteiro. Com a aceleração da guerra no Vietnã, a SDS e outras organizações montaram campanhas nacionais contra a guerra e contra o serviço militar obrigatório".

Estamos passando por momento semelhante, com uma difusa insatisfação entre os jovens dos EUA e Europa, cientes de que a crise econômica colocará enormes obstáculos no seu caminho para a inserção profissional e sucesso nas futuras carreiras. 

Os avanços autoritários pipocam em várias nações e a recém-iniciada presidência de Donald Trump vai na contramão de quase tudo que é belo, digno e justo na face da Terra, ameaçando tanger a humanidade para uma nova Idade Média ou mesmo para o extermínio (em função de seus desvarios ambientais).

Não é utópico trabalharmos com a hipótese de que os EUA novamente se dividirão entre uma embotada e intolerante parcela reacionária e uma ampla frente comum de pessoas esclarecidas e idealistas, dispostas a deter a marcha para a insensatez trumpiana. 
Trump poderá bisar o papel da Guerra do Vietnã: o de aberração contra a qual os melhores se unem.
Sendo que, desta vez, a correlação de forças não será maioria silenciosa x minoria estridente, mas, provavelmente, meio a meio (não esqueçamos que a o apresentador de reality show só ganhou permissão para tocar o terror graças ao estapafúrdio sistema eleitoral estadunidense, pois foi sua hilária adversária quem obteve maior quantidade de votos).

E, com os rigores que se abatem sobre a Europa, tudo leva a crer que uma escalada de protestos estudantis e outras manifestações de inconformismo contra as políticas de Trump repercutirá instantaneamente no velho continente, alavancando o ressurgimento, em larga escala, da contestação jovem.

Um novo 1968 não só é possível, como pode já estar começando.

https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/02/um-novo-1968-pode-estar-comecando.html

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

"O CENÁRIO DE 'TEMPESTADE PERFEITA' PARA O CAPITALISMO ESTÁ MONTADO".

A CHINA CAPITALISTA E A NOVA
CONJUNTURA ECONÔMICA MUNDIAL
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"Uma por uma, as fábricas fecharam e deixaram nosso solo 
sem nem pensar nos milhões e milhões de trabalhadores 
americanos que foram deixados para trás. A riqueza da 
nossa classe média foi arrancada de suas casas e 
depois redistribuída ao redor do mundo." 
(Donald Trump, em seu discurso de posse)  
As sociedades mercantis têm a economia como astro-rei e a política gira na sua órbita. Assim, as mudanças de mãos na vitória da guerra de concorrência de mercado, decorrentes do desenvolvimento das forças produtivas numa determinada região, alteram o comando geopolítico que é o instrumento serviçal de regulação da economia.

Quando a vontade política, ditada por questões de interesses eleitorais, interfere no curso natural da lógica capitalista, contrariando as suas rígidas leis de funcionamento, ocorre um conflito inconciliável dentro de um mesmo modo de relação social e os resultados econômicos são desastrosos.  

Nestes tempos de globalização dos mercados, a transferência dos meios de produção de mercadorias de uma região para outra, com alteração profunda dos custos de produção e encurtamento do tempo de circulação que vai da produção das mercadorias até o retorno aumentado do capital (ciclo de reprodução do capital — D=M=D’) altera a hegemonia política anteriormente estabelecida, daí decorrendo um conflito de graves proporções. Leitmotiv das guerras mundiais do séc. 20, tal fenômeno volta a suceder.

Quando, ademais, tal mudança implica uma redução da massa global de mais-valia e de valor, ocorre um somatório de problemas. Verifica-se uma guerra mercadológica dentro de espaços cada vez mais reduzidos e se inviabilizam as administrações financeiras estatais e privadas, o que corresponde a um conflito inconciliável dentro da lógica econômica mercantil.      
Fábrica fechada em Michigan, EUA.

A China, e agora a Índia, com suas mercadorias de baixo custo de produção industrial, estão fazendo um enorme estrago nas relações mercantis mundiais e alterando profundamente as relações de poder econômico mundial (e, como consequência, de poder político). 

Após a terceira revolução industrial ditada pela difusão do saber tecnológico aplicado à produção de mercadorias, graças à livre e imediata possibilidade de comunicação e à conveniência da transferência de unidades fabris em face da concorrência de mercado para regiões antes meramente agrícolas (como são os casos da China e da Índia), promoveu-se um êxodo rural para as áreas urbanas em ritmo acelerado como jamais tinha sido visto na história da humanidade. 
Os resultados de tais fenômenos estão sendo decisivos para a nova configuração mundial de poder e é isto que agora se coloca com a desintegração da União Europeia e o ressurgimento das posições nacionalistas e populistas que tanto encantam os eleitores, muitos deles saudosos do tempo dowellfare state dos países ricos. Pari passu, grassa a desintegração política e econômica nos países pobres que estão fora do processo.  

O mundo entra em ebulição política e econômica.
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CHINA PASSA AGORA A CONVIVER COM OS 
FANTASMAS DO MODELO QUE ESCOLHEU
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Mas, nem tudo são flores para os chamados países emergentes no mundo capitalista; os sintomas colaterais deletérios da entrada destas nações no contexto econômico mundial já denunciam que o buraco é mais embaixo.  

Como sabemos, o capitalismo necessita de crescimento incessante do consumo de mercadorias para manter a sustentação da relação social pela forma-valor, representada pelo dinheiro, como modo minimamente viável. 

Mas, para seu infortúnio, a capacidade de consumo das mercadorias tem limite e a redução de renda per capita global e do poder de compra diminui ainda mais tal limite. Esta é uma contradição básica e irresolúvel entre a necessidade imperiosa do aumento da produção ad infinitum e o limite de consumo humano, que determina a capacidade de absorção pelo mercado das mercadorias produzidas. 

A China, país de 1,5 bilhão de habitantes, outrora com 80% da população rural extremamente pobre, ofereceu ao mundo capitalista mão-de-obra barata, isenção de impostos, manipulação cambial e quebra de qualquer respeito à lei de patentes. 

Estavam, assim, formadas as condições para a tempestade perfeita no processo de crise capitalista atual com a globalização da produção de mercadorias e o deslocamento desta dos centros tradicionalmente produtores para a China (e também para a Índia e a Indonésia, esta última com mais de 260 milhões de habitantes). 

Nos últimos 30 anos a China cresceu vertiginosamente sob os fundamentos capitalistas, com o PIB aumentando de US$ 309 bilhões em 1985 para USS 10,4 trilhões em 2014 (crescimento de 3.300%).

Entretanto, como no capitalismo tudo tem efeito colateral negativo, a China esbarrou no limite interno da expansão dentro de tal sistema, passando agora a conviver com os fantasmas do modelo capitalista que escolheu. São eles: 
a) acúmulo de reservas cambiais em dólares estadunidenses, fruto da exportação one way, sem que possa desovar tais recursos, pois isto evidenciaria a insustentabilidade da moeda internacional; 
b) endividamento do setor privado com montante de dívida privada de 251% acima do PIB em desaceleração (Estados Unidos, 260% do PIB; Japão, 415% do PIB); 
c) mercado interno incapaz de compensar a queda nas exportações, principalmente em meio à crise no setor imobiliário, com encalhe de verdadeiras cidades fantasmas sem possibilidade de venda, provocando a queda no preço das habitações (5,0% em janeiro e 5,7% em fevereiro de 2016) e redução na venda de cimento, importante segmento industrial; 
d) deslocamento da produção para países vizinhos onde a mão-de-obra é ainda mais barata, como o Camboja, com salários de U$$ 80 mensais, aliado ao uso crescente da robotização, modo de produção que elimina valor e postos de trabalho; e) bolha de valorização artificial no mercado de ações, fruto da migração especulativa financeira; etc. 
A diminuição acentuada do crescimento do PIB chinês, que era prevista para 6,8% em 2015, “aumenta a pressão para baixo”, segundo disse no ano passado o vice-ministro-presidente Zhiang Gaol. Agora, a previsão é de crescimento do PIB é de 6,7% para 2016, numa demonstração de renitente pressão de queda. Tudo isso prenuncia um terremoto interno e mundial.

Assim, a China necessita desesperadamente do livre comércio internacional para poder se manter sustentável industrial e economicamente, sob pena da insatisfação social provocar uma guerra civil ou um movimento belicista mundial, uma vez que a volta para uma vida rural é impossível nesta altura dos acontecimentos. Um colapso da China implicará um efeito dominó, afetando todo o sistema financeiro planetário. 

Os países afetados pelo fenômeno da industrialização dos países emergentes da Ásia, por sua vez, sairão prejudicados caso adotem medidas protecionistas de mercado, porque verão minguar o comércio internacional e a produção de mercadorias; além disto,  a crise do sistema financeiro será danosa para as suas finanças públicas.

O cenário de tempestade perfeita para o capitalismo, repito, está montado. E só há uma saída para que a paz mundial seja mantida: a viabilização da vida social sob outros parâmetros, com a superação do capitalismo. 
(por Dalton Rosadohttps://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/dalton-rosado-o-cenario-de-tempestade.html