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terça-feira, 8 de março de 2016

houve um tempo em que discordar era normal...


Uma das coisas que mais me entristecem neste momento trágico pelo que passa o Brasil é ver cair a máscara de bom caráter, de bom mocismo, que muitas pessoas que conheço usavam. 

Não fico desapontado porque elas são de direita, não gostam deste governo ou de Lula ou do PT.

Como ser humano civilizado considero que sou obrigado a respeitar as diferenças.

Se não souber conviver com esse fato absolutamente natural numa espécie que evoluiu ao ponto de transformar, em seu proveito, o mundo em que vive, não mereço estar na companhia dos outros.

O bom da vida, acredito, é justamente a sua diversidade.

Como é que falavam antigamente? "O que seria do vermelho se todos gostassem do amarelo..."

Numa democracia, ou até mesmo num projeto de democracia, como o Brasil, respeitar as diferenças, proteger as minorias, dialogar com a contraparte, deveria ser algo tão comum quanto respirar. 

Por isso é que me entristece profundamente ver gente que considerava igual a mim, em termos intelectuais e de educação - não só a formal, mas principalmente, aquela que nos dita como se comportar em sociedade -, agir, hoje, como se fizesse parte de uma matilha de lobos à caça de uma presa, como nesses documentários que passam na televisão sobre a vida selvagem.

Repito: ninguém é obrigado a gostar do PT, dos comunistas, do Palmeiras, do Corinthians, de feijoada ou da Ana Carolina.

Todos nós temos preconceitos, uns mais, outros menos.

Mas, em muitos casos, pelo simples motivo de que externá-los pode ofender nossos interlocutores, o melhor negócio é calar a boca, em nome da boa convivência.

Convivi com muitas dessas pessoas que julgava serem gente de boa índole, incapazes de fazer ou até de pensar mal dos outros.

Com algumas compartilhei alegrias e frustrações.

Ri e chorei com elas.

Infelizmente, agora só me resta, para que não se apague em mim a frágil chama que alimenta a esperança de um mundo mais fraterno e menos injusto, a recordação do tempo em que éramos todos, simplesmente, bons companheiros.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Você sabe discordar?

Aprenda a discordar usando a lógica do papel higiênico


Qual é a forma certa de se colocar um rolo de papel higiênico no banheiro?

POR CIMA!

60% das pessoas têm a certeza absoluta que o certo é o estilo “cachoeira”, com o papel saindo por cima. É mais fácil achar a ponta, dá pra rasgar certinho no picote, não fica raspando a mão na parede (menos bactérias!) e hotéis podem sinalizar aos seus hóspedes que o banheiro foi higienizado, com dobras elaboradas ou colando selinhos.

POR BAIXO!

Os outros 40% acham esses 60% uns loucos e estão certos que o melhor é por baixo. O “caimento” é melhor, o papel não fica sobrando, gatos e crianças não conseguem desenrrolar um monte de papel e basta uma puxadinha para rasgar um quadradinho, porque para baixo tem mais tração.


Mas, afinal, quem está certo e quem está errado? Todo mundo. Não tem certo nem errado. O papel higiênico é seu, e você usa do jeito que quiser. É uma decisão totalmente pessoal, influenciada apenas por hábitos, com as duas maneiras suportadas por motivos bastante pertinentes.

POR QUE ISSO INTERESSA?

Essa questão bizarra do papel higiênico serve como dinâmica para colocar o foco na nossa habilidade de argumentação e não para se chegar a uma resposta, já que não tem o certo nem o errado. Por exemplo, o professor de sociologia Edgar Alan Burns, do Eastern Institute of Technology Sociology, usa esse truque no primeiro dia de aula. Ele pergunta aos seus alunos:

“Como vocês acham que o papel higiênico deve ser colocado?”

E nos 50 minutos seguintes, os alunos naturalmente começam a avaliar os MOTIVOS para suas respostas e acabam chegando sozinhos a questões sociais muito maiores como:

• diferenças de papéis sociais entre homens e mulheres;

• diferenças entre comportamentos públicos e privados;

• diferenças entre classes sociais;

• etc.

São relações de construção social que nunca pararam para pensar antes, mas que agora, sem que ninguém os orientasse, conseguiram enxergar. Sozinhos, começaram a raciocinar e perceberam correlações e fatos. E, principalmente, começaram a argumentar.

No dia-a-dia, quase nunca fazemos isso. Geralmente, tomamos um partido e passamos a defendê-lo de forma passional, enxergando só o que nos interessa. Somos bons de discutir, mas ruins para argumentar. Piores ainda para mudar de ideia. Mais para o boxe do que para o tênis.

O que parece ser uma estratégia não muito inteligente para encarar essa nova sociedade em que conversamos com muito mais gente, sobre muito mais coisas, todo santo dia.

APRENDER A DISCORDAR

A aula do papel higiênico devia ser dada de cara para crianças. A escola ensina que existe o certo e o errado, e dá notas baseadas nisso. Mas podia estimular abordagens diferentes, habilidade de argumentação, capacidade de deduzir (algumas já fazem, eu sei, mas a maioria ainda não).

Do mesmo jeito que tem nota para as melhores respostas, deveria ter para as melhores perguntas também. Senão a gente vai continuar crescendo com essa mania de preferir estar certo do que aprender algo novo, do que parar pra pensar e repensar sempre. Aproveitar a bagagem e o raciocínio do outro.

Já reparou como a maioria dos comentários feitos todos os dias na internet não tem elaboração nenhuma? Ou é genial ou é a coisa mais estúpida que já se viu em toda a a história da humanidade. O programador Paul Grahan fez um gráfico bacana, que mostra a “Hierarquia da Discordância”, do mais ao menos elegante, do mais ao menos eficiente.


design thinking é isso. A maneira de pensar de um designer não é a do certo ou do errado, porque não existe certo ou errado na hora de projetar um bule de café. Mas existe o melhor, o mais eficiente. É uma maneira de pensar em que se evolui a realidade.

Quem sabe um dia a gente consegue argumentar sobre futebol, política e religião. Dizem que não se discute, mas a recomendação só existe porque somos meio trogloditas. A propósito, o grande designer Donald Norman coloca os rolos de papel higiênico na sua casa… assim:


No Ligia Deslandes, via 
http://www.contextolivre.com.br/2015/07/voce-sabe-discordar.html