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domingo, 6 de novembro de 2016

Para onde vai a política brasileira?

Qual o futuro da política no Brasil? A resposta para esta questão, seja ela qual for, aponta para o esgotamento e a necessidade de superação do modus operandi político vigente no país ao menos desde o advento da “Nova República” (1984).

Seu traço distintivo é um tráfico de cargos e bens públicos, alegadamente em troca de apoio político, mas que na prática significa a perpetuação, nos níveis federal, estadual e municipal, da cultura estamentária de que nos fala Raymundo Faoro, protagonizada por politicos parasitários que sugam e tiram proveito privado do Estado.


Mercado de pulgas
Tal escambo do bem público tem sido a prática politica padrão de todos os partidos que se revezaram no poder desde a redemocratização. Só muda o rótulo: “balcão de negócios” na época do PMDB de Sarney, “toma-lá-dá-cá” com FHC e os tucanos, “realpolitik” na era petista de Lula e Dilma.

A recente fala pública de Aloizio Mercadante anunciando, sem o mínimo pudor, que o segundo escalão será preenchido por quem votar com o governo é a coroação dessa baixa politica, em que cargos técnicos e de comando – que deveriam ser ocupados pelos especialistas mais dotados e capazes – viram mera moeda de troca por um voto no Parlamento. E tal voto - que, por sua vez, deveria se dar em consonância com a consciência, a convicção e o alinhamento ideológico, político e partidário do parlamentar - é trocado por um cargo bem remunerado e de algum prestígio. Como se de uma mera relação comercial se tratasse.




Danos de monta
É imenso, incomensurável o atraso que tal prática politica acarreta ao país, cuja condução fica a cargo de pessoas não apenas despreparadas, mas ávidas por ganhos pessoais advindos de sua posição privilegiada; à democracia, que já carece de partidos programáticos e ideologicamente coesos; e à deteriorização da visão pública que se tem da política, como antro de sujeira e de corrupção.

Essas mais de três décadas de polticas de gabinete, entre a chantagem parlamentar e o suborno do Estado, tornaram a própria política brasileira anacrônica. E esse atraso não diz respeito apenas a instituições, e sim às relações entre arena pública, democracia e ação politica, em todas suas potencialidades. No bojo de tal processo – que o poder quer imutável – são mínimas e negligenciadas as formas efetivas de participação política e de democracia direta; a incorporação efetiva de uma pauta biopolítica que supere o meramente econômico e abarque, como prioritárias, as demandas comportamentais, corpóreas, sanitárias, educacionais, ambientais, recreativas – bem como a promoção efetiva dos direitos humanos de quarta geração.


Esgotamento
Mas, por outro lado, há um claro esgotamento público para com a corrupção, açulado por grandes processos em que Justiça e mídia desempenham um papel central, como o Mensalão e a Operação Lava-Jato. Para além das questões de justeza, de tratamento desigual entre escândalos tucanos e escândalos petistas, de teorias conspiratórias variadas sobre golpes e contragolpes, o fato é que a tolerância para com a corrupção acabou e que esta, neste momento, mostra-se profundamente associada, no imaginário político brasileiro, ao PT.

PT cuja guinada violenta à direita, hoje simbolizada pelo estelionato eleitoral em curso, não é fato recente, decretado pelas consequências da traição eleitoral de Dilma. Trata-se de um processo, que começou efetivamente lá atrás, na primeira eleição de Lula, com concessões sucessivas ditadas por umarealpolitik cada vez mais elástica e amoral - que seria temerariamente esticada, ao longo dos anos, por alianças do PT com personagens como Jader Barbalho, Collor e Maluf.


Corrupção moral
Tal processo agravou-se com o primeiro mandato de Dilma, que - como este blog documentou desde o início – teve na ampliação da hegemonia política via concessões ao conservadorismo o seu principal norte político. Uma dinâmica cujo fim seria – como alertamos diversas vezes entre 2011 e 2014 – o desequilíbrio do pêndulo da política brasileira para o espectro centro-direita, com o esvaziamento político, eleitoral e programático da esquerda.

O que se vê hoje em dia é apenas o bagaço dessa laranja: o petismo tanto cedeu à direita que terminou sua presa, praticando, neste momento, a mesma velha política neoliberal da era FHC, cortando na carne de trabalhadores e desempregados para fazer altos superávits primários e agradar ao mercado financeiro. Se a corrupção financeira é ainda por alguns ingênuos ou fanáticos questionada, a corrupção moral torna-se evidente.



Covardia e conformismo
E setores que poderiam se contrapor, à esquerda, a esse quadro, preferiram, nas últimas eleições, apostar no medo - já covarde e  artificialmente inflado pelo marqueteiro oficial -, confortavelmente insistindo na leniência para com o retrocesso petista, que já era mais do que evidente.

 Pois que Dilma tenha se reeleito graças ao decisivo “voto crítico” de psolistas e demais setores que se dizem de esquerda é uma prova precoce – mas contundente – não só da miopia e má formação política dessa pretensa vanguarda, mas que ela não é coerente com as demandas de renovação das práticas politicas no país. Continua presa aos padrões convencionais e mercantilistas da política. Um museu de grandes novidades, como disse o poeta.


Horizontes
Portanto, a resposta à pergunta que abriu este texto – qual o futuro da política no Brasil? - não virá desse campo minado, desses políticos de discurso ora nuançado, ora agressivo de esquerda mas de postura invariavelmente  retrógrada quando o tema é segurança pública, drogas ou sexualidade.

Os termos de tal resposta nos é permitido apenas intuir; só o futuro dirá se a atual crise do país acabará por impor mudanças de monta ou a agravar ainda mais o retrocesso. Por ora podemos apenas afirmar que a renovação da política no Brasil passa, necessariamente, por um lado, pela horizontalização do debate popular e pelo salto qualitativo no exercício da cidadania; e, por outro, pela reformulação dos partidos e pelo fim do aparelhamento e loteamento do Estado a cada troca de siglas no poder. Que forças serão capazes de se incumbirem de tamanha tarefa só a própria população brasileira poderá determinar.



(Imagem retirada daqui)

http://cinemaeoutrasartes.blogspot.com.br/2015/05/para-onde-vai-politica-brasileira.html

domingo, 8 de maio de 2016

Toda crise tem sua inquisição

Foto: maishistoria.com.br
Foto: maishistoria.com.br
Os ataques às minorias que parecem crescer não são propriamente uma novidade. Ao longo das crises dos séculos XVI e XV, por exemplo, o processo de perda de poder do senhorio feudal para a nascente burguesia foi caracterizado pelo aumento, em muitos casos, da perseguição a “leprosos”, judeus e às “mulheres solitárias”. Por vezes, a explosão de violência contra os marginalizados tinha o apoio das autoridades.
Um inquisidor francês em 1321, por exemplo, reprimiu um suposto “plano dos leprosos” contra as pessoas saudáveis do reino da França, conjecturando que ao infectarem os rios, tornariam o número de adoentados cada vez maior, aumentando suas chances de se tornar senhores de cidades e castelos. Os delírios nunca são tão delirantes assim: servem no mínimo a um propósito político previamente consolidado.
O pensamento conservador clássico – agora exposto nas modernas redes sociais – comumente identifica uma crise econômica a uma suposta “crise de valores” – isto é, os valores morais conservadores que estariam ameaçados.
Esta relação não tem, evidentemente, qualquer conexão racional, visto que a crise depende sobretudo de fatores políticos e econômicos – influenciados inclusive pelo cenário global, em alguns casos –, passando ao largo portanto do que costumamos chamar de “valores morais”. A análise de diferentes sociedades, incluindo as contemporâneas, mostra a falta de solidez de tal tese conservadora.
Mas este discurso é hábil, por exemplo, em identificar potenciais bodes expiatórios – algo como dizer que os protestos dos estudantes seria uma consequência direta da ausência da disciplina de moral e cívica, instituída pela mais recente ditadura militar, com consequências para a sociedade “ordeira” como um todo.
Ou, muito evidentemente, em identificar nos refugiados e migrantes um dos grandes males da economia, quando na verdade são eles em grande maioria trabalhadores assalariados que geram riquezas e dinamizam a economia dos países tanto de destino quanto de origem, conforme demonstram estudos das Nações Unidas.
A crise recente do capitalismo pode, conforme nos demonstra a História, ser longa e imprevisível. E, entre as diversas perdas, já sabemos de pelo menos uma que precisaremos enfrentar cada vez mais: a da cidadania duramente conquistada durante o século XX.
http://consciencia.net/toda-crise-tem-sua-inquisicao/

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O que faltou no release sobre as vendas de Natal nos shoppings


A notícia, amplamente divulgada - e celebrada - pelos jornalões, dias atrás, de que as vendas deste Natal nos shopping centers caíram espantosos 1% em relação ao mesmo período do ano passado, merece alguns comentários.

O primeiro deles: a informação foi extraída de um press release da Associação Brasileira de Lojistas de Shoppings, a Alshop - um release muito mal feito, por sinal. Os jornalões simplesmente extraíram do texto oficial da entidade o que quiseram, dando destaque, evidentemente, ao número negativo.

Ninguém se preocupou em perguntar aos diretores da Alshop algumas coisinhas básicas para que a notícia tivesse condições mínimas de ser publicada.


Uma delas é sobre se essa queda de 1% ocorreu em vendas físicas, volume de mercadorias, ou em valores. Provavelmente foi em valores, mas o texto não informa. 

Outro dado interessante para que o público ficasse sabendo se a retração foi ou não relevante seria saber se os lojistas aumentaram os preços de seus produtos neste fim de ano.

O release cita, en passant, o impacto que a megapromoção chamada "Black Friday" provocou nas vendas do comércio físico, mas não se aprofunda no assunto, nem traz nenhum número sobre ele - por outras fontes, ficamos sabendo que as vendas do comércio eletrônico aumentaram incríveis 26% no Natal.

O público também agradeceria se alguém explicasse a importância dos shopping centers no universo do comércio varejista brasileiro atual - se a fatia que eles ocupam cresceu, diminuiu, ficou estável; qual o perfil do público que compra nesses locais etc e tal.

Os últimos parágrafos do release contradizem o restante, que enfatiza os efeitos nocivos no setor da "crise" vivida pelo Brasil: informam que, neste ano, foram inaugurados 19 shopping centers no Brasil, e que a previsão para os próximos três anos é de que mais 114 empreendimentos sejam erguidos.

Ou é muito otimismo ou é muita mentira...

A seguir, o release da Alshop na íntegra:

PIOR NATAL DOS ÚLTIMOS 10 ANOS

ALSHOP ANUNCIA OS NÚMEROS DO VAREJO DE SHOPPING CENTER EM 2015

Tido como termômetro nacional para a indústria de shopping centers e o varejo em geral, o caderno "Desempenho do Varejo de Shopping e da Indústria de Shopping Centers em 2014/2015 – ALSHOP / IBOPE", trouxe números expressivos: de janeiro a dezembro de 2015, as vendas totais em shopping centers totalizaram R$ 145 bilhões, correspondendo a um aumento de 1,7% em relação a 2014. Em termos reais (descontada a inflação) as vendas caíram 2,82%. As vendas no período natalino - de 1º a 24 de dezembro - caíram 1% em relação à 2014.

Esses números consideram os 19 novos shopping centers, galerias, shoppings de atacado e rotativo, além dos que já operavam em 2014, e sintetiza um ano de instabilidade econômica, em que os varejistas tiveram estoques altos e os consumidores seguraram o dinheiro que tinham dentro do bolso.

"O setor varejista é muito sensível à atividade econômica. Com a atual conjuntura, já poderíamos prever que não seria possível as vendas crescerem", avaliou Nabil Sahyoun, presidente da Alshop. Ele enumera os fatores que contribuíram para a queda nas vendas: "com o crédito mais escasso, juros mais altos, dólar ao redor de R$4 e inflação elevada, não tem como obter resultado positivo nas vendas de Natal. O desemprego maior e as incertezas da economia e da Política também contribuíram para que o consumidor não gastasse".

NATAL

"A Black Friday, realizada na última semana de novembro reduziu o fluxo nos shoppings no Natal. Os valores dos presentes também ficaram entre 10% e 15% menores - o ticket médio foi cerca de R$ 100", pontua Luís Augusto Idelfonso, Diretor de Relações Institucionais a Entidade.

Mas há números positivos: as categorias de Perfumaria e Cosméticos, vestuários e Óculos, Bijuterias e Acessórios anotaram aumento nas vendas - com 8%, 5% e 3% respectivamente. As vendas de Joias e Relógios e itens de tecnologia e comunicação também se destacaram, com crescimento de 3,2% e 1,7%. Na outra ponta da tabela, as compras de eletrodomésticos caíram 2%, enquanto a categoria de móveis e artigos do lar amargou 13,3% negativos.

INDÚSTRIA DE SHOPPINGS

2015 viu a inauguração de 19 novos shopping centers no Brasil, chegando ao total de 893 empreendimentos em operação. Houve a abertura de 7 malls na região Nordeste; 2 na região Norte; 8 no Sudeste; 1 no Sul e 1 no Centro Oeste. Também houve o crescimento no número de lojas em operação, tanto nos novos empreendimentos quanto pela expansão dos que já estavam operando. Foram 1042 novas lojas, totalizando 139.738 pontos de venda.

Esses locais foram responsáveis por 1.332.910 empregos diretos (1.245.480 funcionários em lojas e 87.430 na operação dos malls), o que representa 30.400 novos postos gerados em 2015.

Os shoppings somaram uma frequência mensal de 470 milhões de pessoas - o que representa 2,3 vezes a população nacional. A previsão é de que 114 novos empreendimentos sejam inaugurados nos próximos 3 anos.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/12/o-que-faltou-no-release-sobre-as-vendas.html

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Ah, se o Brasil tivesse juízes...


O Judiciário é o poder que menos funciona no Brasil - é caro, lento, e promove uma Justiça que, aos olhos do cidadão comum, privilegia os ricos e pune os pobres.

Além disso, muitas de suas decisões são tão estapafúrdias que chegam a ser inexplicáveis, pelo menos à luz da lógica, o que induz as pessoas a crer que elas são fruto de, digamos, um incentivo, uma recompensa, um cafezinho, um por fora, por parte do réu, sendo o beneficiado, claro, o próprio julgador.

Por falar nisso, alguém conhece algum juiz, algum promotor, ou mesmo algum delegado de polícia, pobre, remediado, classe-média?

Entendo pouco de direito, mesmo assim ouso dizer que, para que se faça justiça, seja lá o caso em questão, o interesse coletivo deve prevalecer sobre o individual.

Não há lógica, por exemplo, em condenar à prisão quem rouba meio quilo de carne, ou uma roupa, ou seja réu primário de uma infração menor.

O custo social de uma prisão por esses crimes é maior que os benefícios que ela possa proporcionar à sociedade.

Mas vamos ao que interessa, que é essa crise política e econômica pela qual o país está passando.

Todos sabem que ela é fabricada, é fruto das ações dos perdedores da eleição presidencial de 2014, que não aceitaram, como em qualquer democracia que se preze, a derrota, e tentam, por todos os meios, chegar à presidência sem passar pelo crivo das urnas.

Um dos maiores instigadores e operadores desse processo é o atual presidente da Câmara dos Deputados, que, é notório, não passa de um escroque, com traços latentes de psicopatia, tal qual aqueles gangsteres do cinema americano.

Há outros fatores desestabilizantes à normalidade da vida brasileira, como essa operação Lava Jato, que, mostram os fatos, sob o pretexto de prender corruptos, se transformou num poder extra da República, agindo sob claros interesses partidários-ideológicos, poupando, em sua fúria, principalmente o PSDB, principal partido oposicionista, e investindo furiosamente contra o PT e aliados.

Pois bem, e vamos terminar por aqui, o fato é que, se houvesse juízes no Brasil, ele não estaria mais vivendo essa bagunça toda, e essa desgraça que quase o paralisa, não estaria mais acontecendo. 

Tanto as evidentes irregularidades da Lava Jato teriam sido já interrompidas, como esse ridículo processo de impeachment presidencial devidamente abortado.

O Brasil, se houvesse cá juízes, seria tratado como uma democracia moderna, forte e praticamente consolidada, e não como uma republiqueta de bananas, dessas que são usadas pela sua oligarquia como mero quintal para satisfação de seus desejos.

http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/12/ah-se-o-brasil-tivesse-juizes.html

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Dois modelos esgotados

povo pobre consumismo rico governo cortes
Cortes draconianos em direitos como seguro-desemprego, aposentadoria, saúde, educação; um orçamento comprometido com o pagamento dos juros e amortizações da dívida pública; um governo fragilizado, sem base social após promover grosseiro estelionato eleitoral e entregar a cada dia um anel para o capital financeiro e o PMDB, a fim de afastar as ameaças de um impeachment; um Congresso Nacional cada vez mais distante dos anseios da maioria da população, manipulado por um mestre da pequena e corrupta política, condutor da bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia), a dar o tom de um fundamentalismo conservador inédito desde a redemocratização.
Ivan
Ivan
Mas esta crise, que tem nomes como Dilma Rousseff e Eduardo Cunha entre seus protagonistas, não é um episódio conjuntural. Estamos diante de uma crise de natureza estrutural, produto de uma soma ou mesmo convergência de crises.
Em linhas gerais, testemunhamos o esgotamento de dois “modelos”.
O primeiro refere-se ao padrão de “desenvolvimento” do lulismo, isto é, a condução de políticas públicas com moderada intervenção do Estado e valorização do salário mínimo. Ancorado numa conjuntura comercial externa favorável às commodities, esse modelo permitiu aos seguidos governos petistas dinamizar o mercado interno e conter ou retardar por essa via os efeitos mais devastadores da crise econômico-financeira internacional.
O “problema” deste modelo é que ele nunca, em momento algum, rompeu com a dependência e subordinação do orçamento do país ao capital financeiro. Religiosamente, juros foram pagos em nome da impagável “dívida pública”. Sequer a longa era do lulopetismo no poder cogitou realizar uma auditoria da dívida. A data de validade deste modelo um dia chegaria.
Bastaram a desaceleração deste cenário externo antes muito favorável, a débâcle econômico-financeira do sul da Europa, a pressão do capital financeiro e da especulação por juros mais altos e o compromisso com ajustes e cortes sociais e trabalhistas, para fazer ruir o chamado “neodesenvolvimentismo”.
Tal fragilidade carregada pelo modelo fica evidente com o fato de que, quase da noite para o dia, a decantada estabilidade econômica do lulismo deu lugar ao tripé arrocho-inflação-desemprego, que volta a assombrar o cotidiano da classe trabalhadora brasileira.
A segunda das crises é a do modelo institucional de representações políticas. Um esgotamento das instituições da Nova República, feridas pelo modus operandi da corrupção, desde o financiamento das campanhas eleitorais até os grandes negócios na cadeia de relações promíscuas entre grandes conglomerados capitalistas e Estado, governos e partidos dessa ordem.
A superação de tais crises é a superação dos dois “modelos” mencionados, com uma ruptura de paradigmas. O Brasil precisa de outro projeto de país, que parta de bases democráticas e igualitárias, política e socialmente.
Ao contrário da lógica do ajuste neoliberal, à qual o governo Dilma amarra o país como remédio para a crise, precisamos de um modelo de desenvolvimento soberano, que, para começar, estabeleça linhas de ruptura com a dominação do capital financeiro, faça o orçamento estatal girar em torno do social, estabeleça uma reforma tributária progressiva, capaz de taxar a fortuna e o Capital, e amplie a oferta e garantia de direitos ao povo.
Ao contrário da lógica de restrição de direitos democráticos e civis – proposta cinicamente pela direita ‘social’, que vai às ruas pedir o impeachment de Dilma, assim como pelo corrupto presidente da Câmara dos Deputados e suas agressivas bancadas, em relação a mulheres, LGBT, negros –, o Brasil precisa de mais direitos e mais democracia. Porém, uma democracia verdadeira, não manipulada, uma outra institucionalidade, com ampla e plural participação popular e poder decisório sobre os grandes temas do país.
Não será por produto do acaso que se poderá pensar em outro projeto, assentado em tais bases, para começar a caminhada. Trata-se de longo trajeto, que dependerá fundamentalmente da recomposição de um bloco histórico das classes exploradas e oprimidas, de uma pluralidade de atores sociais combativos e progressistas, juntando movimentos sociais independentes (que não sejam atrelados e nem correia de transmissão de governos e Estado), ao lado dos partidos de uma renovada esquerda.
É um desafio de longos anos, que demandará muitas lutas sociais independentes, muito diálogo entre atores do mesmo campo político de oposição à ordem e muita formulação estratégica.
Nesses tempos que se apresentam hostis, dada a ofensiva econômica conservadora contrária aos direitos democráticos, aprofunda-se, de outro lado, uma tremenda crise estrutural. É exatamente nesta crise que poderá reflorescer a esperança e o espaço para a construção de projeto social igualitário.
Genildo Ronchi

domingo, 25 de outubro de 2015

A Crise no Brasil É Para Sempre?

A Crise Mundial não perdoa nenhum país. (charge Bira Dantas)


“Ó Deus, ó Deus! Como são enfadonhas, azedas ou rançosas,
Todas as práticas do mundo!
O tédio, ó nojo! Isto é um jardim abandonado,
Cheio de ervas daninhas, Invadido só pelo veneno e o espinho –
Um quintal de aberrações da natureza.
Que tenhamos chegado a isto…” ( Hamlet – W. Shakespeare)
A Crise de superprodução de Kapital tem uma lógica própria, que poucos se dão conta de seu movimento real. Alguns tentam adivinhar seu fim, outros, o seu começo. Mas quase nenhum se preocupa em entender o seu ciclo, ou sua dialética, de que ao mesmo tempo em que é o momento do auge de um ciclo, ele também anuncia seu declínio.
Mais ainda, a queima de Kapital (Empregos, salários e preço das mercadorias) que caracteriza o fundo do poço, é também o início de um novo ciclo, pois, sem a ruptura (a queda do sistema como um todo, a Revolução), a roda da história continuará a girar, a girar, num crescente, jamais com o fim em si mesma, com alguns autores vulgares preconizam. O Kapital não cairá de maduro ou podre, ele sempre se recompõe, seus ciclos podem diminuir dramaticamente, mas não acabam.
Feitas essas observações, cabe à pergunta fundamental: Em que momento do ciclo do Kapital, a economia no Brasil se encontra? A resposta não é simples e direta, vamos construir uma visão.
A Crise de Superprodução de Kapital que atingiu os EUA, em 2005, e depois a Europa, em 2007, já debatida aqui e no meu livro, deu-se quando houve o pleno emprego (ou taxa mínima de desemprego), com o maior pico de salários e do preço das mercadorias, em especial, nos EUA, dos imóveis (hipotecas). A “crise”, só se tornou “pública” com a quebra dos bancos em 2008, nos EUA e 2009, na Europa.
A superabundância de Kapital no mundo, no início dos anos 2000, aportou no Brasil, China, Índia e Rússia, não a toa o bloco dos BRICS foi possível, com forma organizada de receber e aplicar essa parcela do Kapital, vinda para esse lado como forma de se expandir e extrair mais lucros. Mão de obra farta, barata e possibilidade de grandes obras de infraestrutura, como também as privatizações das empresas locais, já como parte do “lucro”. 
Coincidiu com os governos de Lula essa entrada e a expansão do Kapital no Brasil, a despeito das enormes desigualdades regionais, do abismo social e da infraestrutura precária, fruto de um Estado endividado pelos militares, depois semiprivatizados pelos tucanos, além de uma esdrúxula dolarização da economia completamente artificial, mantida com taxas de juros pornográficas (lucros consolidados pelo Kapital Financeiro).
Os primeiros oito anos da aventura petista foram de pleno sucesso, alguma das tarefas mais elementares do Estado, como o combate à fome, garantia de renda mínima, emprego (ainda que de baixa qualidade), foram possíveis graças a essa entrada de Kapital. Mas o ciclo sempre tem seu fim, em meados de 2010, o país tinha situação típica da superprodução: Pleno emprego, salários recompostos (o mínimo que nunca passara de US$ 100, chegou aos 350 dólares), crédito para compra de bens e produtos, uma febre de consumo.
A Crise do Kapital, no seu centro ( EUA e Europa) fechou as torneiras e cobrou a volta à matriz dos investido aqui e nos outros países. Por quatro anos, a nova Presidente tentou domar a economia, usando de instrumentos que já não surtiam efeitos, é fato que evitou uma queda dolorosa e rápida como nos EUA ou na Europa, que o desemprego dobrou em menos de um ano (dados de 2007 para 2008 nos EUA e 2008 para 2009 na UE).
Aqui a queda foi lenta, até pelas condições gerais e custos das empresas com salários não tão altos, mas em 2015 veio o “ajuste” imposto pelo Kapital. A imposição de Levy e o conjunto de medidas em execução são parte da estratégia do Kapital para retomar o controle total do Estado. O petismo caducou, já não serve, por vias eleitorais perderam, por bem pouco, mas perderam. Entretanto, a via escolhida agora é de mudar o comando, por bem ou por mal.
A Crise econômica efetivamente já tem um novo patamar, a desvalorização do Real, cerca de 40% do seu valor, é a maior queima de Kapital já feita em tão curto espaço de tempo. O desemprego sobe rapidamente, o preço relativo dos salários e das mercadorias também caiu, a condição fundamental para que um novo ciclo se reinicie estão dadas, faltam às condições políticas para azeitar o Kapital. 
Do ponto de vista puramente econômico não mais o que ajustar, mas sempre o Kapital tentará impor mais perdas, pois está em pleno ataque, gostemos ou não, a luta de classes é isso. Manda quem tem mais força, resiste quem pode. O governo não tem instrumentos para resistir, entregou o pomo de ouro aos seus algozes, os ministérios da economia e o Banco Central, além de não ter como segurar a política de transferência de rendas.
A resposta para questão geral, a crise não é para sempre, aliás, o Brasil já entrou no novo ciclo, mas os seus reflexos políticos, continuarão imprevisíveis. Efetivamente, o Governo do PT, é, objetivamente, um entrave à liberdade do Kapital. Nesse novo patamar do neoliberalismo redivivo (Estado Gotham City), a democracia é um estorvo, ou um mero detalhe.
http://arnobiorocha.com.br/2015/10/20/a-crise-no-brasil-e-para-sempre/

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A crise é gerada por uma elite que quer quebrar o sistema, diz economista


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Segundo o economista Ladislau Dowbor, da PUC de São Paulo, em entrevista publicada originalmente em Engenharia em Revista,  a origem da crise no Brasil não está em uma crise econômica que gera recessão, e sim é uma crise política criada por uma elite que quer quebrar o sistema, e que em grande parte está conseguindo isso. “Não há base para falar numa crise de enormes proporções, ou que o país está quebrado, ou ainda que vai quebrar. Isso não faz o mínimo sentido. Podem até ocorrer ajustes que levem a uma racionalização de gastos do governo, mas isto não anula simplesmente a realidade de que o país está num ciclo de avanços absolutamente impressionante.. ”, afirma.
Dowbor: ausência de reformas bloqueou lulismo
Para economista, país viveu doze anos de avanços, mas processo atingiu seu limite – e hesitação do governo frustrou mudanças estruturais indispensáveis
O Brasil andou muito nas últimas duas décadas. Obteve um avanço social histórico desde o governo Lula, mas entrou no ciclo travado, a partir do qual sobram apenas duas alternativas: ou a coragem para fazer reformas estruturais, eternamente adiadas, ou o recuo. Jamais ficar no mesmo lugar.
O raciocínio é do incansável economista Ladislau Dowbor, da PUC de São Paulo. Do alto de um invejável currículo acadêmico – graduação em Lausanne, doutorado em Varsóvia, professor em Coimbra – e profissional, Dowbor carrega consigo uma vocação de eterno militante. Era um dos 40 presos políticos que, nos primeiros dias de 1971, foram trocados pelo embaixador suiço Giovanni Bucher, numa operação comandada por Carlos Lamarca.
Hoje brinca que a ditadura incentivou muito o “intercâmbio” daqueles jovens brasileiros que vagaram pelo mundo – os banidos do Brasil que ficaram preferencialmente pela Europa, depois de terem sido trocados por embaixadores sequestrados em ações da guerrilha urbana.
É com alma de militante que Dowbor tem participado de todas as intermináveis reuniões que acontecem em São Paulo desde o início do ano entre intelectuais, e professa uma “oposição” que se traduza numa unidade de forças progressistas capazes de empurrar o governo para a esquerda, garantir os avanços conquistados de direitos civis, políticos e sociais desde a Constituinte de 1988 e romper com o que ele chama de “ciclo travado”, ou seja, as limitações impostas por uma elite financeira ao desenvolvimento pleno do país.
No centro de seu pensamento está a constatação de que o rentismo impôs uma ciranda de juros elevados para rolagem da dívida pública e alto custo do crédito para pessoas físicas e jurídicas. E essa realidade se traduziu, na prática, em um severo limite ao ciclo de crescimento baseado no mercado interno, iniciado no governo Lula.
A partir de agora, ou o país banca reformas estruturais, inclusive uma reforma financeira, ou retrocederá de um período de quase três décadas de avanços contínuos – sociais, econômicos e políticos. Ladislau Dowbor concedeu esta entrevista, em São Paulo, logo depois de uma rodada de debates sobre o futuro do Brasil entre os integrantes do chamado “Fórum Brasil 21”, que tem por objetivo definir uma agenda política comum para as forças progressistas do país. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu à jornalista Maria Inês Nassif.
Um acumulado de impasses
O Brasil hoje vive vários impasses. Um deles tem dimensão internacional e sofre o impacto de movimentos especulativos, sobretudo no mercado de commodities. Nos últimos 12 meses, o minério de ferro, por exemplo, que tem um grande peso na pauta de exportações brasileiras, perdeu 40% do seu valor; a soja, a laranja e outras commodities encolheram entre 20% e 30%. São cifras bastante significativas. No plano interno, o país vive um limite estrutural. O Brasil conquistou um conjunto de avanços, em particular nos governos de Lula e no primeiro governo de Dilma, mas os processos de expansão das políticas sociais chegaram a um limite, a partir do qual são necessárias mudanças estruturais.
As eternamente adiadas reformas de base não são mais adiáveis.
A resistência das elites e a crise política
Nesta tensão, a resistência das elites mostra-se extremamente forte. É por isso que a crise que se gera é essencialmente política. Não há base para falar numa crise de enormes proporções, ou que o país está quebrado, ou ainda que vai quebrar. Isso não faz o mínimo sentido. Podem até ocorrer ajustes que levem a uma racionalização de gastos do governo, mas isto não anula simplesmente a realidade de que o país está num ciclo de avanços absolutamente impressionante.
Socialmente, o Brasil mudou a sua cara. Entre 1991 e 2010, o brasileiro, que vivia até 65 anos, passou a viver 74 anos; em 2012, já vive 75 anos; ou seja, estamos falando de um país onde os brasileiros vivem 10 anos a mais. A mortalidade baixou de 30 por mil para 15 por mil. Isso resulta de uma convergência de mudanças: essas pessoas passaram a ter uma casa mais decente, a comer, são benefi ciários da expansão do serviço básico de saúde, o SUS, etc. São fatores que convergem para uma expansão do tempo de vida e para a redução da mortalidade infantil – e, convenhamos, dividir pela metade a mortalidade infantil é um gigantesco avanço. Além disso, temos um conjunto de outros números já conhecidos: a criação de 20 milhões de empregos formais e 40 milhões de pessoas que saíram da miséria.
Segundo dados do Atlas das Regiões Metropolitanas elaborado conjuntamente pelo PNUD, Ipea e Fundação João Pinheiro, houve uma redução drástica da pobreza em todas essas regiões e um aumento dos Indicadores de Desenvolvimento Básico (IDB). Mais recentemente foram divulgados os Indicadores de Progresso Social, o IPS, que acompanha 54 indicadores que são o PIB, e coloca o Brasil no 42º lugar entre 130 países, puxado para baixo essencialmente pelo problema da segurança, que é o ponto crítico e está diretamente ligado ao problema da desigualdade.
O sistema financeiro emperra a locomotiva
Escrevi um documento chamado “Bancos: o peso morto da economia brasileira”, em que eu descrevo como os juros internos da economia esterilizam as ações de política econômica social. O Rubens Ricupero e o Bresser Pereira, que foram ministros da Fazenda e entendem disso, aprovaram as minhas anotações. O capitalismo financeiro impõe severas limitações ao momento seguinte desses avanços sociais, ao avanço do Brasil em direção ao futuro. Está em curso um processo de globalização financeira mundial que torna difícil ao país adotar políticas macroeconômicas independentes e as reformas financeiras que são necessárias. Quando se cobra nos crediários mais de 100% de juros, a intermediação financeira está se apropriando da metade da capacidade produtiva da população. O imenso esforço que o Brasil fez de redistribuição e de inclusão no mercado de dezenas de milhões de pessoas, os bancos, os comerciantes com crediários, as administradoras de cartões de crédito capturaram. As instituições de crédito sugaram a capacidade de compra da população, e dessa forma esterilizaram a dinamização da economia pelo lado da demanda. Os juros para pessoas jurídicas são absolutamente escorchantes, o que trava também a economia pelo lado do investimento. Os empresários já tendem a investir pouco quando a economia está travada. Quando, ainda por cima, adquirir equipamentos e financiar empresas custa de 40% a 50% de juros, então esqueça de novos investimentos.
Veja o poder político que esses grupos têm para obrigar o governo americano, o Banco Central Europeu, Bruxelas, a encontrar trilhões de dólares em poucos meses, quando os recursos são escassos para resolver o problema da destruição ou da pobreza.
“A financeirização não é abstrata. Grupos financeiros controlam os conselhos de administração das mais diversas empresas e ditam as políticas das corporações”.
A urgente reforma financeira
Sem dúvida, são urgentes as reformas política e tributária, mas é igualmente central uma reforma financeira em profundidade.
O componente rentista da crise é parte de minha análise. Na minha avaliação, o fator central dessas limitações ao futuro é que não temos mecanismos de canalização adequada dos recursos do país. O Brasil tem uma renda per capita de US$ 11 mil – e isso é um nível de renda de um país rico. O nosso país também domina tecnologias e tem instituições. Não existem razões plausíveis para a economia não funcionar. Contudo, a generalização da inclusão social e a redução dos desequilíbrios internos esbarram em razões estruturais.
O Brasil andou para frente nas últimas duas décadas
No Atlas Brasil 2013 de Indicadores de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), se compararmos os índices de 1991 e 2010, observamos avanços espantosos. Em 1991 nós tínhamos 85% dos municípios do Brasil que tinham um IDH muito baixo, inferior a 0,50. Em 2010 apenas 32 municípios estavam nessa situação, ou seja, 0,6%. Essa é uma mudança extremamente profunda e estrutural. O Brasil começou a se transformar, na fase anterior ao governo Lula, com a aprovação da Constituição de 1988, que criou regras do jogo democrático que permitiram o início dos avanços.
Foi um avanço também a ruptura com a inflação. Afinal, numa hiperinflação não se consegue fazer administração do setor público.
Tudo isso viabiliza uma série de avanços significativos na década de 1990. A partir do governo Lula isso se sistematiza, e os avanços se tornam extremamente poderosos.
Mundo em explosão
Nós estamos num ano crítico em termos mundiais. Chegamos a limites críticos de destruição do planeta. Em 40 anos, destruímos 52% da vida vertebrada do planeta. O relatório da WWF é dramático: nós estamos esterilizando solo e liquidando a cobertura florestal.
Além desses problemas na área ambiental, persistem também um conjunto deles na área da desigualdade. O relatório da Oxfam sobre a desigualdade é devastador. Nós temos 85 famílias que têm mais patrimônio acumulado do que a metade mais pobre da população, ou seja, 13,5 milhões de pessoas. Se você junta o ambiental e o social, conclui-se que o mundo está explodindo.
Coffee Party
O Tea Party paralisa os Estados Unidos. Estes mesmos grupos estão querendo um Coffee Party no Brasil. Partem do mesmo fundamentalismo, do mesmo discurso radical conservador sem propostas. O que eles querem, afinal? Aumentar a desigualdade?
“O capitalismo financeiro impõe severas limitações ao momento seguinte dos avanços sociais, ao avanço do Brasil em direção ao futuro”.
O caminho é olhar para dentro…
Se entendermos as transformações que ocorrem interna e externamente – estamos numa crise planetária e numa volatilidade extrema, inclusive dos preços das commodities –, o caminho que temos de trilhar torna-se claríssimo. O Brasil é um país muito grande, de mais de 200 milhões de habitantes, e tem tranquilamente 100 milhões de pessoas que precisam melhorar a situação de vida. Nós temos, portanto, como crescer na fronteira interna. E quando a área externa é extremamente insegura, nada como reforçar a base interna de desenvolvimento. Isso implica manter e aprofundar as políticas de inclusão e de distribuição de renda, mas garantindo que isso ocorra simultaneamente às transformações significativas no sistema financeiro.
Um futuro em suspenso
O caminho para frente é o aprofundamento da luta contra a desigualdade por meio da inclusão produtiva, da expansão dos programas sociais e coisas do gênero. A oposição que devemos fazer nesse momento não é contra a presidente Dilma (Rousseff), mas para que ela avance muito mais e retome os processos que tinham sido anunciados.
Uma crise para travar o ciclo
A imbricação entre a situação internacional e a situação econômica interna com o seu respectivo embasamento político trava as reformas estruturais que são indispensáveis à continuidade do processo.
É um ciclo travado, mas não acho que a direita tem qualquer coisa coerente a propor. Não está conseguindo propor nada de coerente nem nos Estados Unidos, nem na França, nem na Grã-Bretanha, nem em lugar nenhum. Por todo lado está surgindo um Podemos, ou um Syriza (partido grego de esquerda). Os Estados Unidos estão paralisados em termos de capacidade de governo.
Capital financeiro contaminou a produção
O capital financeiro tornou-se hegemônico de uma maneira que desconhecíamos até 2011. Naquele ano, foi divulgado o relatório do primeiro estudo mundial sobre o sistema corporativo internacional, produzido pelo Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica (ETH), que corresponde ao MIT da Europa e tem 31 prêmios Nobel de Tecnologia, a começar por Albert Einstein. Uma fonte absolutamente inatacável.
Segundo o estudo, 737 grupos do planeta controlam 80% do valor das empresas transnacionais. Destes, 147 grupos, dos quais 45 são bancos, controlam 40% do sistema mundial. A financeirização, portanto, não é abstrata, um mecanismo diluído ou misterioso. Esses grupos financeiros controlam os conselhos de administração das mais diversas empresas e ditam as políticas das corporações. Como são grupos financeiros que têm participações acionárias poderosas em empresas produtivas,
eles dizem a essas empresas o que fazer: “Nós queremos uma rentabilidade de tanto, senão tiramos o nosso capital e quebramos a empresa”. Se uma empresa decide adotar uma política ambiental mais sustentável, ou qualquer outra coisa que pode afetar a rentabilidade da empresa, esquece.
Centenas de exemplos de fraudes das mais variadas corporações internacionais, como as cometidas por empresas farmacêuticas, de agrotóxicos ou os próprios bancos, têm o objetivo central de gerar lucros. Essa estrutura mundial de poder foi suficientemente forte para, na crise de 2008, levar trilhões de dólares de governos para socorrer os bancos que haviam se excedido nos processos especulativos e estavam desequilibrados. Um socorro para os grupos financeiros que criaram a crise.
A contaminação da Justiça
O poder das corporações está estampado na votação, pelo Supremo, da ação de inconstitucionalidade do financiamento empre-sarial de campanha. As corporações não votam nem devem ter interesses políticos próprios. É legítimo a Federação de Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) ser um instrumento de participação política das corporações. Mas uma corporação comprar um mandato para um deputado ou senador, financiando-o, certamente isso não é certo. Seis juízes do Supremo, e portanto a maioria, já votaram pela inconstitucionalidade do financiamento empresarial e um único, Gilmar Mendes, ligado a interesses evidentes, pede vistas antes das eleições. Esta única pessoa transformou radicalmente o perfil do Congresso que foi eleito em seguida, pois se tivesse sido proibido o financiamento empresarial antes das eleições, os candidatos não poderiam ter mantido o vínculo com as corporações empresariais. Isso também é uma medida do grau de aprisionamento da política pelo Judiciário, pelas corporações e pela mídia, e coloca como objetivo central das forças progressistas resgatar o processo democrático da órbita do poder econômico.
Crédito a Fernando Henrique, mas em termos
É creditado ao governo Fernando Henrique Cardoso a ruptura com o processo inflacionário, o que é correto. Mas, segundo o The Economist, em 1992 o mundo tinha 44 países com hiperinflação, e todos eles liquidaram esse problema pela razão simples de que não se abriria a eles a possibilidade de participar do sistema financeiro que se internacionalizava se não resolvessem seus processos inflacionários. A globalização financeira, a formação do sistema especulativo, a chamada financeirização era incompatível com economias que tinham moedas não conversíveis, que mudavam de valor no decorrer do dia.
A articulação do rentismo com a mídia
O maior jornal econômico do país, por exemplo, em fevereiro publicou uma matéria que contém um quadro com as projeções de inflação, com o título: “O que os economistas esperam”. E são listadas 21 “apostas” em índices inflacionários feitas por economistas de instituições. Entre eles, não tem nenhum Amir Khair, um Luiz Gonzaga Belluzzo, uma Tânia Bacelar, um Rubens Ricúpero, um Bresser Pereira ou um Márcio Pochmann; sequer um IBGE ou um DIEESE. Apenas de bancos ou consultorias ligadas ao mercado financeiro – e ambos ganham com a inflação. Esses economistas geram expectativas inflacionárias que se autocumprem, pois os agentes econômicos acompanham as expectativas e elevam preventivamente os preços.
Existe um trabalho de chantagem e contaminação pelo aceno do “risco inflacionário” – e todos sabem que a inflação é um golpe mortal em termos políticos. Esse tipo de chantagem segura o governo pelo pescoço. A inflação virou arma ideológica.
Uma crise civilizatória
Não há mais pobres como antigamente. As pessoas hoje sabem que podem ter uma saúde decente para os seus filhos, acesso à educação decente e a outros direitos. Nesse sentido vivemos uma crise civilizatória. Não é simplesmente uma crise global que o mundo enfrenta. O volume de recursos apropriados pelos intermediários financeiros seria suficiente para enfrentar tanto a reconversão tecnológica que o meio ambiente exige, com os investimentos de inclusão produtiva que a dinâmica social determina.
Isso seria conferir uma outra articulação do sistema financeiro, pois ele não é só moeda, mas o direito de alocar os recursos onde eles são necessários. A função da moeda não é a especulação financeira. Essa é a reconversão que temos pela frente, que une a oposição propositiva que queremos criar no Brasil. Daqui saíram US$ 20 bilhões para paraísos fiscais, ou 25% do PIB, dinheiro que daria para financiar Deus e o mundo.
Rentismo, um obstáculo
O rentismo é um conceito que se vincula ao mercado internacional, que gerou uma espécie de elite que vive dos juros, não da produção. E isso tem uma enorme profundidade no país. O San-
tander, por exemplo, que é um grande grupo mundial, tem cerca de 30% de seus lucros originários do Brasil. Isto é, o mercado financeiro impõe drenos e também estruturas políticas de poder que tornam muito difícil a qualquer governo gerar transformações necessárias para romper essa lógica. De, 2013 a 2014, Dilma tentou reduzir a taxa Selic e os juros de acesso de pessoas físicas e jurídicas ao crédito, e a reação foi de pressões políticas muito fortes. E é curioso como as reações se manifestam. Quando se baixa os juros, nas televisões, nas rádios, nos jornais, imediatamente se consulta os chamados economistas que dizem, “é inevitável, a inflação vai subir”. Em regra, esses economistas são todos eles de empresas financeiras.
Crise internacional não é impedimento, mas oportunidade
É esse contexto internacional que torna fundamental a adoção de medidas inclusivas, a expansão do horizonte interno econômico. É vital nos basearmos nos objetivos internos da nossa economia. Nas condições de hoje, apoiar o país no sistema internacional é suicídio. Nessa perspectiva, superdimensionar o problema fiscal pode ser um erro, pois há ralos muito maiores no sistema financeiro. O país tem que resgatar o que vaza por sistemas especulativos e para paraísos fiscais e financiar a inclusão produtiva da maioria da população.
O Brasil não está quebrado, mas sob ataque
O (Luiz Gonzaga) Belluzzo diz que as forças conservadoras estão criando, politicamente, uma crise e eu concordo. O Brasil não está quebrado. A origem desta crise não está em uma crise econômica que gera recessão. É uma crise política criada por uma elite que quer quebrar o sistema, e em grande parte está conseguindo isso.
A rigor, essa é a ação que envolve grandes interesses, em particular interesses internacionais no Pré-Sal e o interesse dos grandes bancos internacionais que querem manter a mamata da Selic elevada, pois é um grande negócio aplicar aqui e ganhar 12% de juros, enquanto os Bancos Centrais da Europa e dos Estados Unidos estão trabalhando com taxas de juros de 0,5%, quando muito 1%.
A tentativa da Dilma de reduzir a Selic a 7% e de abrir os bancos oficiais para obrigar a concorrência foi, para esses interesses, um grito de guerra. Tanto que ela teve que voltar atrás. Mas nós não podemos continuar a trabalhar para encher o bolso de dinheiro dos especuladores financeiros. Acho que esse não é apenas o objetivo da classe trabalhadora, mas dos empresários efetivamente produtivos. Não é possível desenvolver o país quando todo mundo se vê obrigado a pagar uma espécie de royalties sobre o dinheiro, aliás um dinheiro que nem é dos próprios bancos, mas dos nossos depósitos, ou então dinheiro fictício criado por meio de alavancagem.
Ou avança, ou recua. Não dá mais para ficar onde está
O Brasil vive um impasse – e, a partir desse impasse o país avança, e consolida os ganhos das últimas décadas, ou retrocede, e perde o que ganhou. Por isso considero importante unificar o debate. E estou convencido de que há muita gente que quer avançar. Muitas famílias, pela primeira vez, têm os filhos na universidade, muitas delas apenas agora conseguem alimentar os seus filhos – e todas elas são mobilizáveis. As mudanças não acabaram porque 200 mil tomaram a Avenida Paulista. Este país tem base.
Eu acho que o fato de uma parcela desses manifestantes do atraso pedirem a volta da ditadura mostra o tipo de ausência de uma visão propositiva da direita. O que eles querem? Sangrar mais os pobres, aumentar mais a desigualdade, privatizar mais?
A contaminação da política pelo poder econômico
Hoje o país tem um Congresso com uma bancada ruralista, uma bancada dos bancos, uma bancada das grandes empreiteiras, uma bancada das grandes montadoras, e você conta nos dedos quem é da bancada cidadã. A lei aprovada em 1997 que autorizou as corporações a financiarem campanhas foi um golpe terrível para o processo democrático. Não se pode qualificar de democracia o que vivemos no Brasil só porque a gente vota, porque o voto é rigorosamente determinado por uma gigantesca máquina de financiamento que vai se traduzir no tipo de Congresso que temos. Isso coloca a questão da reforma política e, em particular, o financiamento das campanhas, na linha de frente.
Nada para o planeta, tudo para os bancos
A Rio+20 teve uma grande reunião internacional que firmou como um dos objetivo levantar US$ 30 bilhões para salvar o planeta. Não conseguiu. Em 2008, em meses, os governos levantaram trilhões de dólares para salvar o sistema financeiro, se endividaram e passaram a pagar juros para o próprio sistema financeiro que foi socorrido com esse dinheiro. Esse movimento dos governos praticamente destruiu o que restava do legado da social democracia nesses países, do chamado Welfare State, ao reduzirem os direitos sociais.
(Entrevista publicada originalmente em “Engenharia em Revista”)
Fonte: MST