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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

TEREMOS UM BRASIL DE PESADELO EM 2022, COMO A DISTOPIA DE ORWELL? E DE SONHO EM 2032, COMO A UTOPIA DE MORUS? – 1

 

dalton rosado
BRASIL, 2022; BRASIL, 2032.
Estando o Brasil devastado pela depressão econômica que provocou a volta da inflação de mais de dois dígitos, com dívida pública superior ao PIB e desemprego na casa de 15%, a candidatura de Boçalnaro, o ignaro à presidência da República é uma miragem que só alguém desvairado pela sede de poder poderia acalentar neste ano de 2022. 

O seu prestígio no Nordeste, decorrente do assistencialismo mais vulgar, fez água desde que teve de interromper o pagamento dos R$ 600 no início de 2021, quando a pandemia da Covid-19 arrefeceu após ter causado quase 200 mil mortes. 

As vacinas de vários países se mostraram eficazes no combate ao coronavírus, mas a economia brasileira, acompanhando o que está acontecendo mundo afora, não consegue voltar aos patamares anteriores (que já eram ruins), mesmo com a interrupção do isolamento social. 

A paralisia econômica causada pelo distanciamento social demonstrou para muitos prestadores de serviços que o home work viabilizado pelo uso da computação e da internet é ótima opção para evitar gastos com transporte e escritórios, e que os sistemas de delivery podem tornar mais cômodas as relações comerciais e pessoais, além de aliviar o trânsito nas grandes cidades.

Ficou claramente demonstrado que os avanços tecnológicos nos permite prescindirmos de muitas práticas anteriores. As vendas no comércio pela internet aumentaram e muitas lojas que dependiam basicamente das compras presenciais fecharam asportas; algumas regiões comerciais estão desérticas.

Com isso, reduziram-se as necessidades de emprego no setor de serviços, o que fez aumentar o desemprego estrutural; o mesmo efeito, aliás, é causado pela crescente robotização na indústria. 

Daí decorre a queda da produção de valor novo, indispensável sob os ditames capitalistas, o que tem provocado o aumento da emissão de moeda sem lastro para suprir o fluxo da irrigação econômica. 

Mas tal emissão de moeda sem lastro, artificial por excelência, é um dos principais fatores que alimentam a escalada inflacionária que ora observamos e que traz consigo uma concentração ainda maior da riqueza nas mãos de uns poucos, ao mesmo tempo em que se aprofunda a miséria, principalmente nas regiões mais pobres do país, como o interior do Nordeste.

O capitalismo cava a sua própria sepultura (Marx). 

O único segmento que ainda oferece alguma sustentação à economia brasileira é o setor agrícola, já que o Brasil vem se tornando o celeiro do mundo graças: 
— à abundância de terras férteis e água (ainda que as chuvas tenham diminuído como consequência do aquecimento global);
— e ao baixo custo de produção que torna os alimentos produzidos no Brasil competitivos num mundo assolado pela fratricida guerra concorrencial de mercado.

As queimadas na Amazônia e os incêndios no pantanal demonstraram quão prejudicial ao equilíbrio ecológico é a insensatez de um modo de produção predatório que extingue a vida em nome de uma lógica de produção que pretensamente visa preservar a própria vida. Já se sente a poluição do ar em regiões que se situam a milhares de quilômetros dos incêndios. 

Um paradoxo da chamada modernidade e sua irracionalidade cega.

No campo político, os deputados do centrão, que deram sustentação ao (des)Governo Boçalnaro, agem com o oportunismo de sempre: sofrendo o desgaste de seus apoios políticos e a mudança dos ventos, já anunciam o abandono do barco, como sempre acontece com os ratos, sempre os primeiros a pressentirem o naufrágio do navio. 

O descrédito da população com a política institucional é cada vez mais acentuado e, neste pleito de 2022, as abstenções e votos nulos se prenunciam tão elevados que comprometerão a legitimidade da escolha eletiva.

Enquanto isso, o esquerda institucional, antevendo a possibilidade de assumir o poder político e administrar o caos dentro das regras impostas pela lógica capitalista, pretende se aventurar numa assunção ao poder burguês sem perceber que, sob tais premissas, jamais conseguirão corresponder às expectativas despertadas. 

O povo, cansado da alternância no poder de projetos políticos que acabam sempre assemelhando-se no conteúdo, já coloca num mesmo patamar negativo de avaliação todos os políticos, desprezando-os por sua canina submissão a uma ordem democrático-burguesa em rota acelerada para o abismo. (por Dalton Rosado)
(continua)
Aproveitamos para disponibilizar a 1ª versão cinematográfica da novela
1984de George Orwell, dirigida por Michael Anderson. É uma distopia
tão terrível sobre o futuro da humanidade que passou a ser tida como  a 
distopia. O totalitarismo que Orwell em 1948 antevia é diferente da terra
     devastada que o Dalton hoje projeta para 2022, mas igualmente nefando. 

sexta-feira, 19 de junho de 2020

COM PRISÃO DO QUEIROZ, DERRETIMENTO DO GOVERNO SE ACELERA. BOLSONARO JÁ DEVE ESTAR SENTINDO O CHEIRO DO RALO


josias de souza
ACUADO, BOLSONARO LEVA
SEU GOVERNO PARA O BREJO
Fabrício Queiroz foi jogado no ventilador no final de 2018, quando virou notícia. 

Houve um dia em que Jair Bolsonaro poderia ter saído da crise, tomando a trilha da moralidade. Foi em 12 de dezembro daquele ano. Faltavam 19 dias para a posse. Bolsonaro disse: 
"Se algo estiver errado —seja comigo, com meu filho ou com o Queiroz— que paguemos a conta deste erro. Não podemos comungar com erro de ninguém".
Era só continuar nessa linha. Mas Bolsonaro mudou de ideia. Achou que seria possível regatear o custo da crise. A prisão de Queiroz elevou o prejuízo. 

Um presidente precisa abrir o expediente todas as manhãs oferecendo soluções. 

Há duas emergências sobre a mesa: a pandemia e a ruína econômica. Horas depois da prisão de Queiroz, o Banco Central divulgou o Índice de Atividade Econômica do país em abril: um tombo histórico de 9,7%. 
Bolsonaro não tem nada a dizer sobre os mortos da covid-19. Limita-se a lavar as mãos e questionar as estatísticas sem provas. Ainda não apresentou uma estratégia para enfrentar a tragédia econômica.

No momento, o presidente oferece ao país tuítes, lives e brigas. Acuado, entrega-se ao centrão. Bolsonaro consolida-se como parte do problema. 

O presidente conseguiu transformar um pesadelo criminal do amigo Queiroz e do primogênito Flávio num processo de corrosão da sua presidência. Habituado a operar no ataque, Bolsonaro experimenta o amargor das posições defensivas. 

Em privado, diz ser vítima de perseguição do Judiciário. 

Em público, após um dia de silêncio, dedicou os minutos iniciais de sua live semanal noturna a Queiroz. Falou pouco. Calou muito. O pouco que disse foi patético. O muito que deixou de afirmar foi revelador. 

Bolsonaro soou patético ao fazer as vezes de defensor do amigo enroscado com a lei: 
"Não sou advogado do Queiroz e não estou envolvido nesse processo. Queiroz não estava foragido e não havia nenhum mandado de prisão contra ele. E foi feita uma prisão espetaculosa. 
Já deve estar no Rio de Janeiro, deve estar sendo assistido por seu advogado, e que a Justiça siga o seu caminho. Mas parecia que estavam prendendo o maior bandido da face da Terra"
O presidente não fez uma mísera menção ao filho Flávio Bolsonaro. Seu silêncio é revelador. Diz muito sobre a situação em que se encontra o primogênito. 

Ele já protocolou em diferentes instâncias do Judiciário uma dezena de recursos pedindo a suspensão ou o arquivamento do inquérito sobre a rachadinha, eufemismo para desvio de verbas públicas. Não conseguiu senão potencializar a impressão de que percorre a conjuntura como um personagem indefeso. 

Para Bolsonaro, o prejuízo é mais político do que judicial. Por ora, quem está com os glúteos expostos no processo é o Zero Um. Acusam-no de chefiar organização criminosa. Responde pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. 
Mas ninguém ignora que foi o pai quem indicou Queiroz, amigo de 30 anos, para a função de operador dos recursos desviados da folha salarial do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Embora o presidente não seja investigado, há nos autos um cheque de R$ 24 mil de Queiroz para a primeira-dama Michelle Bolsonaro. 

De resto, flutua na atmosfera o risco de delação. Em junho, do ano passado, ganhou o noticiário uma troca de áudios pelo WhatsApp. Num deles, Queiroz soou ameaçador: 
"Eu não vejo ninguém mover nada para tentar me ajudar aí. Vê, tal. É só porrada cara, o MP está com uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente e não vem ninguém agindo". 
A mensagem surtiu efeito. Foi nessa época que Queiroz mudou-se para um imóvel do advogado Frederick Wassef, defensor de Flávio e também do presidente. Consumada a prisão, o capitão se esforça para tomar distância de Fred, como o doutor é tratado na primeira-família. 

Esforço inútil. Bolsonaro já foi gravado referindo-se a Frederick como seu advogado. O personagem tornou-se frequentador assíduo do Planalto e, sobretudo, do Alvorada. Não há borracha ou conveniência capaz de apagar um convívio assim, tão intenso. 

A prisão de Queiroz empurrou Bolsonaro para o córner num instante em que o presidente já enfrenta um cerco judicial:
— é investigado por tramar a conversão da Polícia Federal num aparato político;
 assiste ao avanço do Supremo sobre a indústria de ódio mantida pelo bolsonarismo nas redes sociais e nas ruas;
 sente o hálito quente da Justiça Eleitoral, às voltas com meia dúzia de pedidos de cassação da chapa com o vice Hamilton Mourão. 

Sabia-se que o governo estava enfraquecido e sem rumo. Descobre-se aos poucos que Bolsonaro fez uma opção preferencial pela crise. O que estimula a suspeita de que o rumo pode vir a ser o do brejo. 

Antes, discutia-se o potencial do projeto de Bolsonaro de disputar a reeleição em 2022. Agora, emerge uma indagação incômoda: será que o capitão conclui o mandato? (por Josias de Souza)
Para ocultar as legendas em inglês, clique no 5º ícone da dir. p/ a esq.



quinta-feira, 5 de outubro de 2017

VEJA NO BLOG UM FILME COMPLETO E LEGENDADO SOBRE OS PRIMÓRDIOS DE MARX E ENGELS, ATÉ CRIAREM O 'MANIFESTO'

AINDA PODE SER VISTO O FILME COMPLETO E LEGENDADO SOBRE OS PRIMÓRDIOS DE MARX E ENGELS, ATÉ CRIAREM O 'MANIFESTO'

Se você, caro leitor, chegou até aqui e não se deparou com o filme que prometi, devo-lhe uma explicação e algumas dicas de como ainda encontrá-lo na web.

Eu o achei disponibilizado no Youtube na 2ª feira, 2, e não pensei que a empresa proprietária dos direitos autorais (California Filmes) fosse tão rapidamente exigir sua retirada do ar. É indício de que o lançará nos cinemas ou em DVD/blu ray dentro em breve.

Felizmente, encontrei uma página do Facebook na qual O Jovem Karl Marx está postado e ainda pode ser assistido on line: esta.

Tenho também dois links a sugerir àqueles que sabem baixar filmes: este (pelo Mega) e este (por torrent).

Suponho ser desnecessário avisar que, tanto quanto no Youtube, tudo isso pode mudar rapidamente. Então, recomendo aos interessados n'O Jovem Karl Marx que façam jogo rápido.

"Com pouco mais de 20 anos, Marx conheceu em Paris Friedrich Engels, o filho de um industrial de Wuppertal, que trazia consigo uma rica experiência da Inglaterra. Em Manchester, seu pai tinha uma tecelagem.

Marx e Engels ficaram amigos. Junto a Jenny, esposa de Karl Marx, os jovens desenvolveram o Manifesto Comunista. O texto deveria reunir tudo o que os três consideravam importante observar numa época de grandes mudanças sociais.

O filme acompanha a juventude de Marx e Engels, delineia a amizade inabalável entre os dois e mostra como um trio único nasce a partir das dificuldades que eles viveram durante a sua turbulenta juventude."

Assim o diretor e roteirista haitiano Raoul Peck introduz seuO jovem Karl Marx (2017), que reconstitui a trajetória de Marx (August Diehl), Engels (Stefan Konarske) e Jenny (Vicky Krieps) entre Paris, Bruxelas e Londres, nos primeiros cinco anos de sua amizade e colaboração intelectual, até criarem um dos livros mais influentes da história da humanidade, o Manifesto do Partido Comunista.

https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/10/veja-no-blogue-um-filme-completo-e.html?spref=fb

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

PROTECIONISMO DE TRUMP VAI ACELERAR O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO?


"O domínio do capital é o pressuposto da livre concorrência,
exatamente como o despotismo dos césares era o 
pressuposto do livre direito privado 
romano" (Karl Marx) 
regime concorrencial de livre mercado atingiu o seu nível máximo com a globalização. 

O capital, tal qual a água face à lei da gravidade, procura acomodação em áreas possíveis. Assim, o regime de concorrência obriga os produtores que necessitam de reprodução aumentada do capital a reduzirem seus custos de produção como forma de sobrevivência, migrando para lugares onde isto seja possível.  

Podemos concluir, portanto, que a concorrência mundial de mercado corresponde a um estágio superior da guerra canibalesca que os capitais travam com outros capitais, em busca da hegemonia.  

O discurso protecionista de Donald Trump contra a economia chinesa contradiz esta lei da concorrência de mercado. A dúvida é se o dito cujo não passava de retórica eleitoral ou é para valer. 

Qualquer das duas posições político-administrativas, protecionista ou não, vai enfrentar muitas dificuldades.

Caso Trump crie barreiras alfandegárias para a entrada dos produtos chineses, a produção mercantil estadunidense, com seus elevados custos, ficará fora da realidade da concorrência de mercado mundial; isto fará crescer de tal forma o contrabando de mercadorias que os EUA entrarão numa guerra fiscal de fazer inveja à dos tempos da lei seca (1920/1933). 

Confirmadas as medidas protecionistas, elas simplesmente provocarão a falência do sistema financeiro, pois vão acarretar a inadimplência da monstruosa dívida privada chinesa (254% do PIB daquele país), atingindo em cheio as instituições bancárias estadunidenses. Tudo está catastroficamente interligado.     

Por outro lado, se Trump mantiver a política de déficit comercial graças ao sistema de compra de mercadorias chinesas e de outros países com moeda podre (o dólar dos EUA), mais cedo ou mais tarde evidenciar-se-á a insustentabilidade de tal procedimento.

É que, em economia, tudo tem um efeito colateral irracionalmente ignorado, pois, como dizia Adam Smith, “o homem tem uma tendência universal de colher o que não plantou”. A riqueza estadunidense é falsa na dimensão de poder que imaginamos, pois, ainda que se trate do maior produtor de grãos do planeta e do maior parque industrial mundial, a economia dos EUA sobrevive à custa de artifícios financeiros facultados por sua condição de emissor de moeda mundial.   
O atual estágio mundial do livre comércio, a globalização da economia, representa o último momento do desenvolvimento do capitalismo. 

Atingido tal estágio, o capital, que vive uma disputa entre detentores de capitais pela hegemonia (daí as intermináveis guerras que sempre têm um interesse econômico não declarado), começa um processo de canibalismo no qual ele passa a sofrer do que chamo de síndrome de tucunaré. Aprofundarei este aspecto no tópico final. 

 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA x 
ADMINISTRAÇÃO EMPRESARIAL PRIVADA

Quando se administram as finanças públicas, ainda que elas existam para dar sustentação à dinâmica e desenvolvimento do capital, os parâmetros de governabilidade são substancialmente diferentes da administração empresarial privada. A primeira tem uma dimensão populacional abrangente (mormente num país que se constitui na meca do capitalismo), ao passo que na segunda os objetivos são circunscritos ao lucro empresarial localizado, sem qualquer preocupação com os efeitos colaterais das suas ações.

A capitalista investe em capital fixo que dispensa capital variável para aumentar o lucro, ainda que isto represente um decréscimo da massa global de valor. O administrador público tem de se virar nos trinta para manter as aparências diante da ingovernabilidade estatal atual, resultante da incompatibilidade entre os custos das demandas sociais e a arrecadação fiscal minguante. Este é um exemplo fácil de entender sobre as diferenças da administração pública e privada.                         

Vivemos o estágio da livre concorrência e das suas leis inflexíveis de mercado.

Segundo Marx, “tão logo o capital começa a sentir a si próprio como obstáculo ao desenvolvimento e a tomar consciência disso, ele busca refúgio em formas que, parecendo aperfeiçoar o domínio do capital pela contenção da livre concorrência, são ao mesmo tempo os prenúncios da sua dissolução e da dissolução do modo de produção baseado nele”. Nada mais adequado como contestação ao discurso eleitoral de Donald Trump do que esta conclusão marxiana. 

Atingido o estágio da globalização sob a lógica do capital, estabelecem-se pela primeira vez as suas leis contraditórias.

Donald Trump, pessoalmente, ignora tais leis do capital, e não está interessado em ouvir os seus assessores capacitados que as conhecem. Afinal, como administrador privado empresarial (além de dublê de apresentador de TV), ele é escravo do paradigma sob o qual se tornou bilionário. 

Mas o mundo não é uma empresa capitalista, nem um reality show ou concurso de misses na tevê. A administração pública é algo muito mais complexo, pois mexe com a vida de milhões de pessoas que acham equivocadamente que o Estado seja uma esfera social isonômica e defensora da cidadania (esta última tida, também de forma equivocada, como um direito civil a ser preservado). 

As impossíveis soluções substanciosas dos problemas sociais no atual estágio do sistema produtor de mercadorias em fase de livre concorrência de mercado são incompatíveis com os arroubos sectários conservadores de um Donald Trump. Cedo os seus eleitores constatarão a farsa do discurso salvador da pátria.   

É esperar pra ver. 
SÍNDROME DE TUCUNARÉ

O tucunaré é um peixe de água doce que tem um apetite voraz. Quando introduzido em açude cresce com mais rapidez do que outras espécies, acabando por devorá-las a todas; por último, come os alevinos da própria espécie. Assim, necessita de cada vez mais alimentos para continuar crescendo e, na falta destes, entra em colapso existencial.   

Havia na minha cidade do interior o Raimundo Farmacêutico, que durante décadas tirou de sua farmácia o próprio sustento e o de seus familiares . Lá se comprava fiado sem maiores problemas de modo que nenhum morador mais conhecido deixava de se medicar com a urgência devida por falta de dinheiro no momento da necessidade. 

Hoje tal farmácia não existe mais, substituída pela filial de uma grande rede farmacêutica espalhada pelo Brasil inteiro. Mas, a coisa não ficou por aí. 

Perguntei pelo dono da loja de calçados A majestosa e me disseram que há muito o estabelecimento tinha fechado. Mas, sapatos continuavam sendo vendidos... por filiais de uma grande rede nacional, instaladas num shopping recém-inaugurado. 

Meio saudoso, resolvi tomar uma cerveja gelada e o garçom me perguntou se eu preferia da Brahma ou da Antártica, não sem antes me explicar que agora eram do mesmo fabricante [a Ambev], pois ambas se fundiram [em 1999] numa só.   

Foi aí que eu me lembrei do canibalismo do tucunaré: assim como este peixe que somente cresce ao custo da morte dos outros, o capitalismo também se autodestruirá numa autofagia existencial. 

Hoje, somente as lojas de serviços (lanchonetes, padarias, cabeleireiros, chaveiros, gráficas rápidas, etc.) escapam das garras dos grandes monopólios, com o comércio individual se restringindo a uns poucos negócios autônomos. 

E, ao mesmo tempo em diminuem os pequenos comerciantes, fazendeiros e industriais em razão da concentração de capitais gerada pela concorrência de mercado, decresce também a massa global de lucros, de valor e de mais-valia, opondo uma barreira intransponível à expansão capitalista. 

A tecnologia aplicada à produção provoca o desemprego estrutural, e o nível de emprego decresce mundialmente (atualmente, cai inclusive nos países recentemente chamados de emergentes, como China e Brasil, que pagam baixos salários). 

Tudo somado, provoca a crise da economia (real e financeira) e, por decorrência, a crise da política e do Estado, esferas de regulamentação que lhe são dependentes e imanentes.

O capitalismo sofre da síndrome do tucunaré
(por Dalton Rosado)https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/protecionismo-de-trump-vai-acelerar-o.html

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

UM CLÁSSICO DO TEMPO EM QUE NINGUÉM ERA MORTO POR ENCARAR A RELIGIÃO COM ESPÍRITO CRÍTICO E MENTE ABERTA

Os religiosos conservadores consideram que a Bíblia, o Alcorão e outros textos antigos sejam a expressão fiel, eterna e imutável da palavra divina, não comportando questionamentos nem reflexões, apenas a aceitação incondicional.

Quem não abdica do nosso grande diferencial em relação aos animais, a capacidade de pensar, encara tais textos como produtos históricos. Neles existem ensinamentos válidos até hoje, mas também preceitos superados, característicos de sociedades extremamente menos complexas do que a nossa. 

Há, contudo, os que fazem da fidelidade à ortodoxia uma bandeira, mesmo estando muito longe de por ela pautarem sua vida privada. Geralmente, assim procedem por ser esta a atitude mais conveniente para obterem sucesso em determinado nicho de mercado. 

A reverência obtusa marcava os intragáveis filmes religiosos da minha meninice, como O mártir do calvárioVida, paixão e morte do Nosso Senhor Jesus Cristo e que tais. Eram projetados ano após ano na 6ª Feira Santa, sempre com as mesmíssimas cópias gastas, roídas até o osso. A lembrança que me ficou é a de feriados estragados pela falta da minha diversão favorita, a matinê dos saudosos cines Aliança e Patriarca 
Até 1973, eu só travara contato com uma visão alternativa, a de Pier Paolo Pasolini em O evangelho segundo São Mateus(1964). Enfatiza os aspectossubversivos da pregação de Cristo, mas era um filme árido demais para me cativar, deliberadamente pobre e sombrio, com pouca ação e uma overdose de diálogos, parecendo teatro filmado.

Veio então o musical Jesus Christ Superstar, e foi uma grata surpresa. Adorei. Tinha ótimas músicas, coreografias belíssimas, fotografia impecável, força dramática e, acima de tudo... vida inteligente. Tratava-se da adaptação cinematográfica da melhor de todas as óperas-rock.

Andrew Lloyd Weber mandou bem nas músicas, mas o maior mérito foi do letrista Tim Rice, que deu uma abordagem crítica aos últimos dias de Cristo. Mostrou os grandes personagens do drama bíblico como prisioneiros da História, relutantes em cumprir sua sina mas impotentes para dela escaparem.

Assim, Jesus não quer o cálice do martírio mas se submete à vontade divina, pedindo, contudo, a Deus que faça tudo acontecer rapidamente, antes que ele mude de ideia.

Judas não quer trair, mas teme que Cristo tenha perdido o controle da multidão e dê aos romanos motivos para promoverem um banho de sangue.

Pilatos não vê crime a ser punido, mas recua quando o povaréu lhe urra que acima dele está César e a tibieza poderá acarretar sua desgraça.

O sumo-sacerdote Caifás teme o caos que, na sua opinião, advirá se a autoridade religiosa for abalada.

Só Herodes, mostrado como um frívolo hedonista, não age a contragosto e optando pelo que seria um mal menor. 

Foi um achado a solução encontrada pelo brilhante cineasta Norman Jewison (o diretor de A mesa do diaboNo calor da noite e Hurricane): encenar seu drama nas ruínas e desertos de Israel. Estava bem no espírito da era hippie, tendo tudo a ver.

E, num elenco de desconhecidos que não destoaram, o destaque absoluto é o enérgico e carismático Carl Anderson como Judas. Aliás, Jewison foi indagado sobre o motivo da escolha de um negro para papel tão melindroso. Respondeu que se tratava do personagem com maiores exigências dramáticas, daí ter optado pelo melhor ator de que dispunha, sem dar a mínima para sua cor..

https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/12/um-classico-do-tempo-em-que-ninguem.html

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

ASSISTA AQUI A "O OVO DA SERPENTE". TEM TUDO A VER COM NOSSAS AGRURAS ATUAIS.

Como não sou mais crítico de cinema, posso agora dizer algo que faria o céu desabar na minha cabeça quando frequentava as cabines das empresas cinematográficas para assistir antecipadamente aos filmes prestes a estrearem, ao lado (qual primo pobre) dos medalhões da grande imprensa: sempre achei o diretor sueco Ingmar Bergman superestimadíssimo e a maioria dos seus filmes, tediosos.

Antes mesmo de 1968 eu já estava antenado com os ventos de mudança que varreriam as teias de aranha do chamado cinema de arte. Não por acaso, o cineasta que mais me fazia a cabeça em 1966 e 1967 era Jean-Luc Godard, o gênio anárquico e desmedido por excelência. 

Mas, se O silêncio me dava sono, os Morangos silvestres eram sem gosto e eu não estava minimamente interessado no que acontecia Quando duas mulheres pecam, nem tudo do Bergman eu botava na mesma vala comum.

O sétimo selo, p. ex., eu considerei quase bom. A disputa de xadrez entre o cavaleiro e a Morte foi uma grande sacada, mas os acontecimentos que vão desiludindo o herói a ponto de ele não fazer mais questão de ganhar a partida (e a vida) são mostrados em clave piegas, lembrando até o chororô neo-realista.

Adorei O rosto enquanto os atores itinerantes, vingando-se da má acolhida no castelo, utilizam as ferramentas de sua arte para apavorar e humilhar seus anfitriões; mas, quando eles recuam no final, curvando-se à hierarquia social ao não irem às últimas consequências, foi um verdadeiro balde d'água fria atirado no meu entusiasmo. Entrada de leão, saída de cão. 

O ovo da serpente (1977), com o qual reativo a seção filmes para ver no blogue, é mais um que começou com tudo mas não manteve o pique. Ainda assim merece ser visto, inclusive por ser o que melhor reconstituiu até hoje o impacto de um colapso econômico na vida dos cidadãos comuns (e, afinal, trata-se de uma situação muito afim com o soturno momento pelo qual passamos).

Falo, é claro, da hiperinflação alemã de 1923, quando o dinheiro não valia mais nada  e as pessoas haviam perdido toda perspectiva de futuro; ou estavam prostradas, sem forças para reagirem aos infortúnios que as esmagavam, ou sofregamente perseguindo prazeres como se o mundo fosse acabar no momento seguinte.
Fica muito claro que, não suportando a falta de uma âncora para suas existências, os alemães tenham se deixado mesmerizar pelos discursos raivosos daquelesalvador da pátria com bigodinho engraçado.

Mas, após uma primorosa primeira metade, o filme saiu dos eixos. Bergman quis detalhar oovo da serpente e não o soube fazer. A trama se torna policialesca, envolvendo as primeiras experiências nazistas com cobaias humanas, e aí uma profusão de clichês invade a tela. Parece até filme hollywoodiano sobre o Holocausto.

Os fãs sofisticados (ou seja, quase todos) do Bergman se escandalizaram com a escolha de DavidKung Fu Carradine para o papel principal, ao invés do Max Von Sidow de sempre. Segundo sua visão preconceituosa, Carradine não tinha pedigree suficiente para o cinema de arte. Para mim, ele foi um dos pontos altos do filme...
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