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domingo, 18 de outubro de 2015

Médicos, doutores e seres humanos


O Brasil mudou muito.

Em certas áreas, para pior.

A saúde, por exemplo - mas não a saúde pública, o SUS, esse excepcional instrumento de proteção à vida e à dignidade humanas.

Estou falando dos médicos, esses profissionais que atuam na defesa do nosso mais valioso patrimônio, o nosso corpo.

Nestes últimos dias, por causa de uma crise extremamente dolorosa de ciatalgia, fui a quatro profissionais diferentes: três, possivelmente, clínicos gerais, pois me atenderam num posto de pronto socorro da Unimed-Amparo, e um ortopedista.

Antes dessa experiência, ainda em São Paulo, por causa do mesmo problema, me consultei com dois outros ortopedistas, e, no ano passado, com outro clínico geral do Posto de Pronto Atendimento da Unimed-Amparo, e uma médica do pronto socorro do hospital de Serra Negra.

Então, vejamos: em um período de cinco anos, mais ou menos, passei por oito médicos diferentes por causa de uma ciatalgia.

O extraordinário é que nenhum desses oito profissionais, de idades, formação e, presumo, experiências variadas, sequer me fez perguntas sobre como é a minha vida, atividades rotineiras, sobre há quanto tempo tinha as dores, sobre os medicamentos que tomo, sobre meus outros problemas de saúde. 

Sequer mediram a minha pressão.

Sequer apertaram a minha mão.

Sequer fizeram um exame, superficial que fosse, nas minhas costas, na minha coluna, em qualquer parte de meu corpo.

As consultas, em média, duraram uns 5 minutos.

Agiram como se fossem autômatos, robôs, androides, seres sem alma ou emoções.

Numa das vezes, o médico parecia mais preocupado em criticar o governo do PT:

- Sonhou com a Dilma? - perguntou em tom de galhofa, ao ver a minha cara de sofrimento.

Desta última vez nenhum dos quatro médicos com os quais me consultei conseguiu aliviar a dor que sentia.

Creio, sinceramente, que ainda existam médicos neste país.

E quando digo médicos, não quero me referir a profissionais titulados, professores eméritos com cursos no exterior, que cobram R$ 1 mil a consulta, e a quem as pessoas recorrem na esperança de se livrar, como por milagre, de suas mazelas físicas ou psicológicas.

Quero simplesmente falar daqueles que olham seus pacientes como seres humanos fragilizados, mas esperançosos, gente que sairia do consultório muito mais feliz se sentisse que passou alguns minutos com alguém que se importa com o seu bem-estar do que com um pedido de exames na mão.

A esses médicos de verdade que ainda restam, as minhas sinceras saudações.

A esses outros, que se fantasiam de "doutores", desejo vida próspera e que nunca tenham de se consultar com alguém igual a eles.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/10/medicos-doutores-e-seres-humanos.html

domingo, 31 de maio de 2015

O uso de plantas medicinais pode fazer mal?

O mastruz




Eliane Evanovich- mestra em Ciências Biológicas - Universidade Federal do Pará



As primeiras escrituras sobre o uso de plantas medicinais data de cerca de 3700 a.C da China. Relatos sumérios, egípcios, hindus e de populações pré-colombianas também são clássicos sobre o uso de extratos de plantas para diferentes fins. No Brasil, por contarmos com uma enorme diversidade botânica e origem multiética, o uso de plantas medicinais está diretamente atrelada à nossa cultura. Atualmente, os conhecimentos etnofarmacológicos extraídos de povos amazônicos por cientistas, principalmente estrangeiros, auxiliam na aquisição de informações necessárias para o desenvolvimento de novos medicamentos a partir de substâncias extraídas de plantas locais. Esses povos muitas vezes sabem qual planta deverá ser usada para tratar determinada moléstia e qual a dose aproximadamente necessária. Apesar de ser um conhecimento passado de geração a geração será que muitas dessas plantas não causariam mais problemas ao leigo que as usam do que soluções? 

Quando preparo um determinado chá de planta X para tratar um problema Y, sei mesmo qual a quantidade apropriada para 1 litro de água? 

Sabemos a veracidade da popular frase de Paracelso: "A diferença entre um remédio e um veneno está só na dosagem” quando lemos as bulas de medicamentos e percebemos os efeitos colaterais, interações medicamentosas e as consequências de uma superdosagem. Mas, remédios extraídos da natureza seriam capazes de causar tais reações? Ah, sempre ouvimos dizer que é tudo natural é bom, e se bem não fizer, mal não poderá causar! Será?

Uma importante informação que os cientistas que fazem pesquisas de etnofarmacologia sabem, mas poucos povos da floresta entrevistados conhecem, é que uma mesma planta pode apresentar vários princípios ativos - alguns com efeito medicinal e outros tóxicos (muitas vezes letal). Desta forma, ao usar um chá de uma planta como anestésico poderei ao mesmo tempo consumir outra substância que mata minhas células hepáticas. 

Afinal, para que a preocupação em escrever essa matéria? 

A preocupação está em ver centenas de páginas no Brasil que estimulam o uso de plantas medicinais comprovadamente tóxicas. Algumas dessas até sugerem o uso para tratamento do "Câncer" (como se este fosse somente uma doença e não várias com diferentes causas). Não podemos afirmar que certa planta de fato não possui o princípio ativo que irá auxiliar na busca e desenvolvimento de tratamentos para conter o crescimento de células tumorais. Seria pretensão afirmar isso, mas também é um ato pretensioso e perigoso dizer que certo tratamento natural terá um poder curativo sobre um problema letal como câncer (nesse momento generalizo câncer como crescimento descontrolado de um determinado tipo celular).

Alguns exemplos do uso indiscriminado e danoso de plantas é o confrei (Symphytum officinale) - planta usada normalmente como cicatrizante (para uso externo) ou em forma de chá. O uso dessa planta exótica extremamente usada pelo mundo é responsável por algumas mortes por hepatite tóxica, sendo, portanto o uso caseiro condenado pela Organização Mundial de Saúde nas últimas décadas (MAGNABOSCO et al., 1997; TANIGUCHI et al., 2002). Apesar dessa proibição, em pesquisas no google, ainda encontramos inúmeras páginas nacionais de medicina alternativa que indicam o uso desta planta. Fígados e rins em geral são os órgãos mais afetados pelo uso indiscriminado de plantas medicinais por causa da presença de substâncias como safrol, ligninas, alcalóides pirrolizidínicos (também com potencial carcinogênico), terpenos e saponinas.

O mastruz (Chenopodium ambrosioides), extremamente disseminado em nossa cultura no tratamento humano e de animais domésticos como antifúngico, antibactericida, anti-helmíntico, cicatrizante, anestésico, etc., com múltiplas funções na "medicina popular" dispõe de doze princípios ativos que servem para muitos tratamentos, incluindo os citados acima, mas também apresenta terpenos e saponinas, substâncias não isoladas no uso comum, sendo os efeitos tóxicos inevitáveis  1.

A trombeteira (Brugmansia suaveolens), planta ornamental normalmente utilizada na forma de chá (das flores) ou cigarro para uso antiasmático, anticonvulsional, cardiotônico e narcótico, apresenta dezenas de substâncias ativas, dentre elas alucinógenos que causam uma lista gigantesca de efeitos colaterais, como náuseas, vômito, mudança comportamental, retenção urinária, redução dos reflexos, hipotermia, alteração do controle hidroeletrolítico, etc. Portanto, os efeitos neurológicos da planta são claros. E antes que alguém se empolgue com seu uso experimental, trabalhos com ratos revelaram efeito neurotóxico e promotor de estresse oxidativo, afetando várias regiões cerebrais que coordenam a capacidade cognitiva (Dickel et al., 2010).

A trombeteira


Arruda (Ruta graveolens), planta aromática usada desde a Grécia antiga para diferentes males inclusive o "mau-olhado" e energia negativa é comumente usado como anestésica, anti-helmíntica, antibactericida, calmante, etc. Os perigos de seu uso são tão evidentes que mesmos as páginas e livros que a indicam para tratamento de doenças pedem prudência em seu uso devido os inúmeros efeitos colaterais como hemorragias uterinas, aborto e até morte. Segundo Ritter et al. (2002), a arruda apresenta alcaloides que estimulam as contrações uterinas resultando em aborto. De Freitas et al. (2005) observou a morte de fetos após o tratamento de fêmeas grávidas com a arruda, assim, estes autores sugerem evitar o uso de qualquer planta medicinal durante a gestação. A presença de substâncias fotossensíveis também causa queimaduras e lesões cutâneas. Portanto, o uso desta planta precisa de cautela.

Outras plantas que também possuem afeito abortivo e potencial efeito teratogênico são o boldo-do-chile (Peumus boldus Molina), falso boldo (Plectranthus barbatus Andr. Benth), Buchinha-do-norte ou cabacinha (Luffa operculata L. Cogn.) e Losna (Artemisia absinthium L.) (Costa et al., 2004). Esses são apenas alguns exemplos, muitos outros poderiam ser citados.

Na França durante a década de 90 vários casos de hepatite foram relatados devido ao uso de cápsulas de têucrio (Teucrium chamaedrys) - medicamente usado normalmente para emagrecer. Outros casos similares foram observados no norte do Brasil decorrentes do uso de sacaca (Croton cajucara Benth), planta usada no tratamento de emagrecimento e males intestinais2.

Quando fazemos pesquisas mais minuciosas verificamos que intoxicações por plantas são comuns, principalmente por superdosagem ou metabolização daquelas substâncias indesejadas citadas acima (não isoladas nos preparos caseiros). E por isso poderia discorrer durante mais linhas sobre a toxicidade já comprovada de várias plantas medicinais em humanos, animais domésticos ou cobaias, mas não é esse o meu objetivo. Apenas peço cautela e tento alertar para os inúmeros riscos associados a um hábito tão comum em nossa cultura, mas que pode ser letal. 



Referências Bibliográficas

Costa KCS, Bezerra SB, Norte, CM, et al. Medicinal plants with teratogenic potential: current considerations. Braz. J. Pharm. Sci. vol.48 no.3 São Paulo July/Sept. 2012.

De Freitas, TG.; Augusto, P.; Montanari, T. Effect of Ruta graveolens L. on pregnant mice. Contraception, v.71, n.1, p.74-77, 2005.

Dickel et al. Efeitos comportamentais e neurotóxicos do extrato aquoso de Brugmansia suaveolens em ratos. Rev. Bras. Farm., 91(4): 189-99. 2010.

Magnabosco M.; Rivera m. L.; Prolla i. R.; de Verney y. M.; de Mello e. S. Hepatic veno-oclusive disease: report of case, Journal of Pediatrics, Nova York, v. 73, n. 2, p. 115-118, 1997.

Taniguchi, A. N. R.; Ccélia, Vieira, S. M.; Ferreira, C. T.; Zaffonatto et al. Relato de caso – Doença veno-oclusiva induzida por chá de Senecio brasiliensis. 2002.



Link Consultado:

1 http://www.ansci.cornell.edu/plants/medicinal/epazote.html



2 http://www1.unimed.com.br/nacional/bom_dia/saude_destaque.asp?nt=13337


Comentário:

Excelente artigo, que serve para alertar quem confia cegamente em páginas do Facebook como "Cura  pela natureza" e dá credibilidade a sites que garantem que determinados chás curam várias doenças. Consulte sempre um médico antes de acreditar em curas naturais, indicadas na internet.
vi no: http://aureliojornalismo.blogspot.com.br/2015/05/uso-de-plantas-medicinais-pode-fazer-mal.html

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Losna: Uma Erva Que Mata 98% Das Células Cancerígenas Em 16 Horas

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Nota SS:  É possível encontrar a Artemisia (Losna) em qualquer loja de produtos naturais.
Uma erva que mata 98% das células cancerígenas em 16 horas
Já reconhecida à mais de 2000 anos pela medicina tradicional chinesa como um poderoso remédio contra a febre e, mais recentemente, contra a malária, Artemisia annua (conhecida também como Losna ouAbsinto), é uma planta aromática com qualidades medicinais inequívocas.
Estudos recentes que usaram a planta para combater as células cancerígenas foram muito surpreendente. Assim, numa série de estudos, a artemisinina, uma substância extraída do losna e utilizada em fitoterapia chinesa há séculos, reduz as células do cancro do pulmão de até 28%. Em combinação com ferro, esta planta incrível mata 98% das células cancerígenas em apenas 16 horas. Ainda melhor; ele ataca seletivamente células “más” sem afetar o tecido saudável.
“Em geral, nossos resultados mostram que a artemisinina para o fator de transcrição” E2F1 ‘e está envolvido na destruição de células de cancro do pulmão “, foi indicado na conclusão da pesquisa realizada no laboratório de cancro da Universidade da Califórnia.
Um outro estudo da Universidade de Washington, liderado pelo Dr. Henry Lai e Narendra Singh, e até agora, o maior estudo feito à artemisinina nos Estados Unidos mostra que a artemisinina, sempre combinado com ferro, tem uma taxa comprovada de 75% de destruição do cancro da mama após apenas 8 horas e quase 100% de destruição em apenas 24 horas.
As células cancerígenas tendem a acumular mais ferro do que as células normais para promover a divisão celular, eles tornam-se mais suscetíveis à combinação de artemisinina e ferro. Finalmente, muitos outros experimentos foram realizados até agora todos eles têm mostrado que a artemisinina combinada com ferro pode efetivamente destruir o cancro em vários órgãos (intestino, próstata, etc). A infusão de artemisinina já oferece uma boa proteção contra vários tipos de cancro, mas a versão em pó seco seria muito mais eficaz.
Dr. Len Saputo classifica a artemisinina de “bomba inteligente contra o cancro.” Neste vídeo em Inglês, Dr. Saputo mostra como esta combinação de ferro e artemisinina pode ser desenvolvido em poderosos medicamentos anti-cancro.”
Leitura sugerida:
Losna: A Nova Erva Contra o Câncer
Fonte: ZacaMenvia: http://ultimas-curiosidades.blogspot.com.br
fonte: http://www.segundo-sol.com/2014/09/uma-erva-que-mata-98-das-celulas-cancerigenas-em-16-horas.html

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Sim, uma outra medicina é possível: o grande medo do Conselho Federal de Medicina



O Conselho Federal de Medicina (e suas filiadas regionais) são entidades colonizadas por dois senhores: os grandes laboratórios farmacêuticos internacionais e os planos de saúde parasitários e inúteis.

Essa corporações médicas, assim como as escolas de medicina das Universidades brasileiras estão orientadas por uma lógica de mercado, onde ganhar dinheiro a qualquer custo é lícito, elogioso e uma meta a ser perseguida.

O programa "Mais Médicos" do governo Dilma provoca tanto ódio de classe no meio médico porque representa uma alternativa à medicina de mercado predominante hoje no Brasil. O "Mais Médicos" afirma que uma outra medicina é possível. Uma medicina preventiva e comunitária, que pode representar o fim do receituário irresponsável de ministrar drogas e medicamentos de forma indiscriminada e a esmo, com o exclusivo intuito comercial de aumentar o faturamento dos grandes laboratórios fabricantes de remédios que nada curam.

E os planos de saúde, que contribuição dão para qualificar a saúde do povo brasileiro? Como sabemos, a contribuição é nula.

Os planos de saúde - muitas vezes, arapucas para enganar incautos e desesperados - não estimulam a medicina preventiva. Ao contrário, fazem dos pacientes contribuintes passivos de uma ciranda que enriquece poucos e traz prejuízos financeiros e humanitários para milhões de brasileiros desassistidos e carentes de serviços de saúde.

No ano de 2012, os planos de saúde - são mais de 1.500 planos no Brasil - recolheram cerca de 95 bilhões de reais dos brasileiros. Esse dinheiro - todos sabemos - vai para os bolsos de alguns poucos espertalhões que não tem o menor compromisso com a qualificação da saúde pública do Brasil. É essa gente que combate o programa "Mais Médicos", que controla a corporação médica no País inteiro, que mobiliza médicos e médicas ignorantes (e racistas) para vaiar e insultar os médicos estrangeiros (foto abaixo) que irão tratar das populações dos rincões mais distantes do Brasil.

O governo Dilma está propondo um outro tipo de exercício da medicina no Brasil. Com isso, o campo da saúde e da medicina passa a ser disputado por uma alternativa real aos valores egoísticos daqueles que entendem a saúde como um mero mercado para ganhar dinheiro e enriquecer alguns oportunistas e negocistas.

A direita brasileira e os jogadores do mercado de saúde não admitem é isso: que o campo onde eles eram hegemônicos seja disputado por uma medicina humanitária, preventiva e comunitária.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Vinda dos médicos cubanos, uma guerra ideológica

DRA. DISLENE DE LEMOS, MÉDICA GINECOLOGISTA E OBSTETRA EM FORTALEZA, CEARÁ, MOSTRA COMO A VINDA DOS MÉDICOS ESTRANGEIROS SE TRANSFORMOU EM UMA GUERRA IDEOLÓGICA.


As manifestações de junho e julho tiveram muitas consequências, que precisam ser analisadas com muito cuidado, dentre elas uma das principais foi o questionamento sobre a capacidade e a qualidade do serviço público, principalmente na área da saúde, com destaque para a falta de médicos nas cidades interioranas e nas periferias das metrópoles.  

O debate público que se seguiu às manifestações, levando em consideração a atuação forte na convocação das passeatas da mídia comprometida com o discurso da oposição (Rede Globo, Folha, Estadão e Veja) trouxe à tona sentimentos que estavam submergidos principalmente no setor da sociedade brasileira que tem origem social na classe média alta tradicional, que passaram a expressar publicamente preconceitos que circulavam somente em conversas restritas e que foram expostos, principalmente quando este setor da sociedade aderiu ás manifestações do Movimento Passe Livre e incorporou seus descontentamentos aos protestos de rua. 

Assim, o preconceito de classe em relação aos pobres da periferia e a ascensão social que esta acontecendo no Brasil na última década ficou evidente, principalmente nas redes sociais.

O texto da Dra. Dislene de Lemos desvenda uma das partes mais importantes desta guerra ideológica, com destaque para o debate decorrente da implantação do Programa Mais Médicos pelo Governo da Presidenta Dilma Roussef.


A VINDA DOS MÉDICOS ESTRANGEIROS, UMA GUERRA IDEOLÓGICA.
Dra. Dislene de Lemos - Médica Ginecologista e Obstetra.

Primeiro o que tem ocorrido nos últimos anos é uma elitização da medicina, onde os custos mensais com o curso atualmente, gira em torno de cinco a seis mil reais em faculdades particulares e ainda a grande maioria das vagas de faculdades públicas são preenchidas com estudantes egressos dos melhores e mais caros colégios. Consequentemente este médico faz parte de uma classe que não tem a necessidade de trabalhar nos rincões deste Brasil, preferindo especializar-se em longas residências, em que não estão errados.

Historicamente o interior sempre foi assistido de forma transitória por médicos recém formados em sua maioria. E que ao longo do tempo foi tornando–se figurinha rara. Poucos fixavam-se naquelas cidades. Para complicar ainda mais, o mercado da medicina está aquecido nos grandes centros. Aqui em Fortaleza vários hospitais tem dificuldades em preencher as escalas de plantão, mesmo oferecendo quantia acima de mil reais por 12 horas de trabalho. O governo do estado do Ceará tem custeado inclusive passagens aéreas para especialistas em cidades do interior como Juazeiro do Norte e Sobral. Portanto a ausência de médicos no interior do país se deve principalmente a esta elitização. Todos preferem o conforto e as melhores condições de vida que as capitais oferecem. 

A justificativa de péssimas condições de trabalho no interior, não convence, já que nas metrópoles a maioria dos hospitais públicos ou privados estão muito aquém de condições ideais. 
Do médico estrangeiro espera-se um serviço em atenção básica de saúde e todos temos consciência de que estes não são ameaça aos empregos da categoria. A qual valoriza a especialização da especialização.
Dizer-se preocupados com a saúde da população é falácia, pois pior que ser atendido por um médico sem revalida é não ter médicos. Sem falar que eles estão vindo para nos ajudar, somos nós os necessitados, somos nós que os chamamos, como exigir revalida? Além do que é sabido que muitas de nossas faculdades, apesar de caras formam muito mal nossos médicos. E que estes recebem seus diplomas imediatamente após o termino do curso.
Não podemos falar mal da medicina cubana, pois os índices revelam o quão são competentes em medicina preventiva, deixando o Brasil muito aquém de Cuba.

É sabido também que o PROGRAMA MAIS MÉDICOS, não resolverá o problema de saúde do Brasil, pois os problemas vão além de falta de médicos, mas trará alguma assistência médica básica para uma parte carente da população. 

Outro fator sem fundamento é acreditar que os médicos cubanos estão sendo escravizados. Isto é analisar a atuação destes sob o prisma consumista do capitalismo, é a visão de uma categoria com um perfil elitista de direita.

Enfim, vejo nessa guerrinha estúpida e insana, um "rancor ideológico" que não trará benefícios nenhum a categoria e nem a sofrida e carente população brasileira.


Nos dias seguintes logo após as manifestações, principalmente em julho, muitas pessoas foram as redes sociais expressar seus sentimentos de admiração a ideologia de direita e até mesmo defendendo a volta do regime militar. Muitas dessas pessoas eram próximas e do meu convívio, colegas e até mesmo parentes. Fiquei surpreendido com a atitude delas. Por isso considero que textos como o da Dra. Dislene de Lemos são fundamentais para explicar didaticamente a realidade fundamentada na história porque a maioria das pessoas, na maioria das situações, geralmente, parafraseando as sábias palavras de Jesus Cristo, "não sabem o que fazem", não sabem o que falam.

Flávio Luiz Sartori
http://flavioluizsartori.blogspot.com.br/

domingo, 25 de agosto de 2013

O que você precisa saber sobre médicos cubanos

Membro do núcleo de estudos cubanos da Universidade de Brasília, o jornalista Hélio Doyle, que conhece como poucos a realidade do país, expõe argumentos técnicos sobre a vinda de profissionais de saúde; ele diz, por exemplo, que eles já atuaram em regiões remotas do País no passado, sem que houvesse qualquer gritaria; como Cuba é um país socialista, a contratação é feita diretamente junto ao Estado, que tem a preocupação de preservar baixos índices de desigualdade; dos 78 mil doutores cubanos, que têm uma das melhores relações médico/paciente do mundo, 30 mil atuam no exterior o índice de deserção é baixíssimo
:
Profundo conhecedor da realidade de Cuba e membro do núcleo de estudos cubanos da Universidade de Brasília, o jornalista Hélio Doyle produziu diversas análises técnicas, e sem ranço ideológico, sobre a importação de 4 mil profissionais pelo governo brasileiro.
Os textos foram cedidos ao 247 e permitem uma maior compreensão sobre um tema que tem gerado tanto debate. Leia abaixo seus artigos:
O QUE NÃO SE DIZ SOBRE OS MÉDICOS CUBANOS
A grande imprensa brasileira, que nos últimos anos exacerbou, por incompetência e ideologia, a superficialidade que sempre a caracterizou, tem sido coerente ao tratar da vinda de quatro mil médicos cubanos: limita-se a noticiar o fato e reproduzir as críticas das associações corporativas de médicos e dos políticos oposicionistas. Mantém-se fiel à superficialidade que é sua marca, acrescida de forte conteúdo ideológico conservador e de direita.
Não conta, por exemplo, que médicos cubanos já trabalharam no Brasil, atendendo a comunidades pobres e distantes nos estados de Tocantins, Roraima e Amapá. Não houve nenhuma reclamação quanto à qualidade desse atendimento e nenhum problema com o conhecimento restrito da língua portuguesa. Os médicos cubanos tiveram de deixar o Brasil por pressão do corporativismo médico brasileiro – liderado por doutores que gostam de trabalhar em clínicas privadas e nas grandes cidades.
A grande imprensa não conta também que há mais de 30 mil médicos cubanos trabalhando em 69 países da América Latina, da África, da Ásia e da Oceania, lidando com pessoas que falam inglês, francês, português e dialetos locais. Só no Haiti, onde a população fala francês e o dialeto creole, há 1.200 médicos cubanos – que sustentam o sistema de saúde daquele país e, como profissionais com alto nível de educação formal, aprendem rapidamente línguas estrangeiras.
O professor John Kirk, da Universidade Dalhousie, no Canadá, estudou a participação de equipes de saúde de Cuba em vários países e é dele a frase seguinte: “A contribuição de Cuba, como ocorre agora no Haiti, é o maior segredo do mundo. Eles são pouco mencionados, mesmo fazendo muito do trabalho pesado”. Segredo porque a imprensa internacional – especialmente a estadunidense — não gosta de falar do assunto.
Kirk contesta o argumento de que os médicos cubanos que atendem as comunidades pobres em vários países não são eficientes por não dominar as últimas tecnologias médicas: “A abordagem high-tech para as necessidades de saúde em Londres e Toronto é irrelevante para milhões de pessoas no Terceiro Mundo que estão vivendo na pobreza. É fácil ficar de fora e criticar a qualidade, mas se você está vivendo em algum lugar sem médicos, ficaria feliz quando chegasse algum”.
O problema dos que contestam a vinda de médicos estrangeiros e, em especial dos cubanos, é que as pessoas que passam anos ou toda a vida sem ver um médico ficarão muito felizes quando receberem a atenção que os corporativistas do Brasil lhes negam e tentam impedir.
SOCIALISMO E GUERRA FRIA
Duas informações referentes à vinda de médicos cubanos para o Brasil e que podem ser úteis aos que querem ir além do que diz a grande imprensa:
- Cuba é um país socialista e por isso, gostemos ou não, as coisas não funcionam exatamente como em um país capitalista. Como é um país socialista, há a preocupação de manter baixos os índices de desigualdade econômica e social. Por isso nenhuma empresa ou governo estrangeiro contrata trabalhadores cubanos diretamente, em Cuba ou no exterior (nesse caso quando a contratação é resultado de um acordo entre estados). Todos são contratados por empresas estatais que recebem do contratante estrangeiro e pagam os salários aos trabalhadores, sem grande discrepância em relação ao que recebem os que trabalham em empresas ou organismos cubanos. Os médicos que trabalham no exterior recebem mais do que os que trabalham em Cuba. Mas algo como nem muito que seja um desincentivo aos que ficam, nem tão pouco que não incentive os que saem.
- O governo dos Estados Unidos tem um programa especial para atrair médicos cubanos que trabalham no exterior. Eles são procurados por funcionários estadunidenses e lhes são oferecidas inúmeras vantagens para “desertar”, como visto de entrada, passagem gratuita, permissão de trabalho e dispensa de formalidades para exercer a atividade. Os que atuam na América Latina são os mais procurados e uma condição para serem aceitos no programa é que critiquem o sistema político cubano e digam que os médicos no exterior são oprimidos e mantidos quase como escravos. Os que aceitam as ofertas dos Estados Unidos, os que emigram para outros países ou ficam no país que os recebe depois de terminado o contrato representam cerca de 3% dos efetivos. No Brasil, mantida essa média, pode-se esperar que até 120 dos quatro mil médicos cubanos “desertem”.
UM SISTEMA IRREAL
A citação a seguir é do New England Journal of Medicine: “O sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.
Menções elogiosas ao sistema de saúde cubano e a seus profissionais são frequentes em publicações especializadas e ditas por autoridades médicas e organizações internacionais, como a Organização Mundial de Saúde, a Organização Panamericana de Saúde e o Unicef. Mas mesmo assim, querendo negar a realidade, médicos e políticos brasileiros insistem em negar o óbvio, chegando ao absurdo de dizer que nossa população está correndo riscos ao ser atendida pelos cubanos.
Para começar, os indicadores de saúde em Cuba são os melhores da América Latina e estão à frente dos de muitos países desenvolvidos. A mortalidade infantil, por exemplo (4,8 por mil), é menor do que a dos Estados Unidos. Aliás, para os que gostam de dizer que Cuba estava melhor antes da revolução de 1959, naquela época era de 60 por mil. A expectativa de vida dos cubanos é também elevada: 78,8 anos.
Outro aliás quanto aos saudosistas: em 1959, Cuba tinha seis mil médicos, sendo que três mil correram para os Estados Unidos quando viram que não haveria mais lugar para o sistema privado de saúde e que os doutores elitistas e da elite perderiam seus privilégios. Hoje tem 78 mil médicos, um para cada 150 habitantes, uma das melhores médias do mundo. Isso permite a Cuba manter mais de 30 mil médicos no exterior. Desde 1962, médicos cubanos já estiveram trabalhando em 102 países.
Em 2012 formaram-se em Cuba 5.315 médicos cubanos em 25 faculdades públicas e 5.694 estrangeiros, que estudam de graça na Escola Latino-americana de Medicina (Elam). A Elam recebe estudantes de 116 países, inclusive dos Estados Unidos, e já formou 24 mil estrangeiros.
Os médicos cubanos se formam após seis anos de graduação, incluindo um de internato, e mais três ou quatro anos de especialização. Os generalistas, que atendem no sistema Médico da Família (um médico e um enfermeiro para 150 a 200 famílias, e que moram na comunidade que atendem) são preparados para atuar em clínica geral, pediatria, ginecologia-obstetrícia e fazer pequenas cirurgias.
Dos quatro mil médicos que vêm para o Brasil, todos têm especialização em medicina de família, 42% já trabalharam em pelo menos dois países e 84% têm mais de 16 anos de atividade. Grande parte já atuou em países de língua portuguesa, na África e em Timor-Leste. Foi em Timor, a propósito, que ocorreu o fato seguinte: o embaixador estadunidense exigiu do então presidente Xanana Gusmão que expulsasse os médicos cubanos. Xanana perguntou quantos médicos dos Estados Unidos havia no Timor-Leste e quantos o país mandaria para substituir os mais de duzentos cubanos que estavam lá. Diante da resposta, de que havia apenas um, que atendia os diplomatas norte-americanos, e que não viria mais nenhum, Xanana, simplesmente, disse que os cubanos ficariam. E estão lá até hoje. Falando português.
OS LIMITES DO CORPORATIVISMO
1 – Sindicatos de trabalhadores existem para defender os interesses das categorias profissionais que representam. São corporativistas por definição.
2 – É natural que esses interesses conflitem com os de seus empregadores, especialmente em questões ligadas à remuneração e condições de trabalho.
3 – Muitas vezes os interesses de uma categoria batem de frente com interesses de outras categorias, e aí cada sindicato defende seus representados, o que também é natural.
4 – Outras vezes os interesses de uma categoria colidem com interesses do país e da sociedade. Essa é uma questão complicada: quem tem legitimidade para definir os interesses nacionais é a população, que só é consultada quando elege seus governantes e representantes. E esses governantes e representantes têm, muitas vezes, sua legitimidade contestada.
A contradição entre interesses corporativos e interesses nacionais e da sociedade, assim, só pode ser resolvida pelos que têm legitimidade para expressar esses interesses nacionais e da sociedade em seu conjunto.
Nos últimos dias, tivemos três bons exemplos de como os interesses corporativos colidem com os da sociedade. São três causas que podem interessar às categorias profissionais, mas violam a legislação e ferem os direitos humanos e sociais:
- O sindicato dos servidores no Legislativo defendeu que funcionários da Câmara e do Senado recebam remunerações que superam o teto salarial que deve vigorar para todos.
- O sindicato dos aeroviários defendeu a tripulação que criou absurdos e desnecessários constrangimentos a uma criança de três anos e a sua família, por causa de uma doença não infecciosa.
- Os sindicatos de médicos são contra o trabalho de médicos estrangeiros no Brasil, mesmo não havendo médicos brasileiros interessados no trabalho que eles vão fazer.
O corporativismo é inevitável, e os interesses corporativos devem ser discutidos e considerados. Não podem é prevalecer quando contrariam interesses e direitos da sociedade: o teto salarial dos servidores tem de ser respeitado, ninguém pode ser submetido a constrangimentos por causa de uma doença e as pessoas têm o direito de receber assistência médica, seja de um brasileiro ou de um estrangeiro.
SISTEMA CUBANO DÁ “DE LAVADA”
As frases a seguir são de um médico cubano radicado no Brasil desde 2000. Insuspeito, pois abandonou Cuba. Formou-se lá e se especializou em epidemiologia e administração da saúde. Trabalhou por dois anos em Angola e veio para Santa Catarina em um acordo da prefeitura de Irati com o governo de Cuba. Dois anos depois resolveu ficar no Brasil, onde vive com a mulher e quatro filhos. Critica o sistema de pagamento aos médicos, dizendo que ficava com 50% do que era pago pela prefeitura. Mesmo tendo “desertado”, não entra na onda dos médicos brasileiros e dos oposionistas de direita que atacam a vinda dos cubanos.
O que o médico cubano Alejandro Santiago Benítez Marín, 51 anos, disse ao portal G1:
“Em dois meses, eu já entendia perfeitamente tudo (diferenças culturais, língua). Fazer medicina é igual em todo o lugar, só muda o endereço”.
“Eu não sou contra que eles venham, não. Os médicos cubanos são muito bons, nossa medicina é a melhor do mundo. Só não concordo com a forma como o governo quer pagar, repassando o dinheiro para Cuba e Cuba vai decidir a quantia que vai repassar. Isso não tem cabimento”.
“Há médicos cubanos fazendo um excelente trabalho no Norte e Nordeste. O Conselho Federal de Medicina tem nos ofendido sem necessidade desde o início, chamando-nos de curandeiros, feiticeiros. Eu sou incapaz de ofender um médico brasileiro, mesmo conhecendo médicos brasileiros que cometem erros, a imprensa publica sempre. Tem médico ruim e bom tanto no Brasil quanto em Cuba. Não temos culpa do que está acontecendo no Brasil e que os médicos de fora têm que vir”.
“Em Cuba é bem mais fácil o atendimento, não tem esta fila que há hoje no SUS, em que há a demora de três meses para a realização de exames simples, como ultrassonografia ou ressonância. Em Cuba este exame é feito no mesmo dia ou na mesma semana. Esta demora faz o diagnóstico médico ter que esperar”.
“O sistema cubano dá ‘de lavada’ no SUS, tanto no atendimento normal quanto de emergência. A especialização nossa é muito boa, tanto que Cuba exporta médicos para mais de 70 países”.
No 247

Porque prefiro ser tratado por médicos brasileiros. Ou não


Eu prefiro ser tratado por médicos brasileiros, embora 54,5%  dos 2400 formandos que fizeram a prova do Conselho Regional de Medicina de SP não atingiram a nota mínima. O pior é que os erros se concentraram em áreas básicas. Mesmo assim vão poder exercer a profissão e atender aos infelizes que caírem em suas reprovadas mãos. Mas eu não moro em São Paulo.
Prefiro médicos brasileiros, porque eles são coisa nossa. Por exemplo, a gente liga pra marcar consulta e a telefonista do doutor pergunta: - é particular ou plano? Se for plano, empurram sua consulta lá pra frente. Particular, eles dão um jeitinho. Coisa nossa.
Prefiro médicos brasileiros, porque quando chego ao consultório, fico esperando mais de uma hora pra ser atendido. É porque eles são bonzinhos, gostam de atender a todo mundo, e sabem que ali, no calor apertado da sala de espera, sempre pode rolar uma conversa agradável sobre sintomas e padecimentos com outros médicos. E a socialização é muito importante. Sem contar que podemos adquirir informação, com a leitura daquela Veja em que Airton Senna e Adriane Galisteu ainda estão namorando. Ah, tempo bom! É coisa nossa.
Prefiro médicos brasileiros, porque quando a consulta é particular, eles fazem questão de não dar recibo, ou então a recepcionista pergunta se vou querer a nota fiscal, porque aí o preço é diferente. Não é sonegação, claro que não. É porque eles têm vergonha de espalhar quanto cobram pela consulta. Coisa nossa.
Prefiro médicos brasileiros, porque eles vivem chorando miséria, mas, mesmo assim, no estacionamento dos médicos nos hospitais só tem carrão importado. Parece até pátio de delegacia de polícia. Coisa nossa.
Prefiro médicos brasileiros, porque você faz todo o acompanhamento de sua doença com o doutor do seu plano de saúde, mas na hora da cirurgia, embora ela seja coberta pelo plano, o doutor sempre pede um por fora, pra ele e equipe. Inclusive o anestesista, aquele médico que não é médico, não tem plano, não obedece a sindicatos nem nada. É sempre por fora. É coisa nossa.
Prefiro médicos brasileiros, porque várias vezes você chega ao posto de saúde, a uma emergência ou ao hospital e ele simplesmente não foi trabalhar, e usa de sua criatividade, inventando até dedinhos de silicone, para receber aquele salário que eles dizem que é uma merreca. Mas, isso é mentira, na verdade eles não vão trabalhar porque os hospitais, ambulatórios, as emergências e postos de saúde não dão condições. Eles só não largam o emprego porque têm pena dos pacientes que vão deixar na mão - embora não trabalhem. Pelo menos é o que dizem. Coisa nossa.
Só escrevo este texto, porque tenho vários amigos médicos e, infelizmente, não vejo nenhum deles se levantar contra esse hediondo corporativismo, contra essa maluquice generalizada de que seus colegas cubanos (que trabalham no mundo inteiro) são despreparados e, pior, vão espalhar a ideologia comunista pelo Brasil. Esses médicos que acham que municípios sem médicos têm que continuar assim, enquanto não tiverem infraestrutura, como naquela história da época da ditadura, de que era preciso primeiramente fazer crescer o bolo para depois dividi-lo.
Se os médicos estivessem defendendo seu mercado de trabalho... Mas, não, os médicos estrangeiros só estão vindo ocupar vagas que foram recusadas por seus colegas brasileiros, que não querem trabalhar e também não querem que outros trabalhem. O paciente... ah, o paciente. Ele não é mais paciente, agora é cliente.
Claro que temos ótimos médicos. E muitos deles já se declararam a favor da vinda de seus colegas do exterior.
Temos ótimos médicos, repito. Vários deles trabalhando em condições precárias. Temos muito o que melhorar, e a presidenta Dilma reconheceu o problema em seu pronunciamento na TV:
Quero propor aos senhores e às senhoras acelerar os investimentos já contratados em hospitais, UPAs e unidades básicas de saúde. Por exemplo, ampliar também a adesão dos hospitais filantrópicos ao programa que troca dívidas por mais atendimento e incentivar a ida de médicos para as cidades que mais precisam e as regiões que mais precisam. Quando não houver a disponibilidade de médicos brasileiros, contrataremos profissionais estrangeiros para trabalhar com exclusividade no Sistema Único de Saúde. 

Neste último aspecto, sei que vamos enfrentar um bom debate democrático. De início, gostaria de dizer à classe médica brasileira que não se trata, nem de longe, de uma medida hostil ou desrespeitosa aos nossos profissionais. Trata-se de uma ação emergencial, localizada, tendo em vista a grande dificuldade que estamos enfrentando para encontrar médicos, em número suficiente ou com disposição para trabalhar nas áreas mais remotas do país ou nas zonas mais pobres das nossas grandes cidades.
 

Sempre ofereceremos primeiro aos médicos brasileiros as vagas a serem preenchidas. Só depois chamaremos médicos estrangeiros. Mas é preciso ficar claro que a saúde do cidadão deve prevalecer sobre quaisquer outros interesses. O Brasil continua sendo um dos países do mundo que menos emprega médicos estrangeiros. Por exemplo, 37% dos médicos que trabalham na Inglaterra se graduaram no exterior. Nos Estados Unidos, são 25%. Na Austrália, 22%. Aqui no Brasil, temos apenas 1,79% de médicos estrangeiros. Enquanto isso, temos hoje regiões em nosso país em que a população não tem atendimento médico. Isso não pode continuar. Sabemos mais que ninguém que não vamos melhorar a saúde pública apenas com a contratação de médicos, brasileiros e estrangeiros. Por isso, vamos tomar, juntamente com os senhores, uma série de medidas para melhorar as condições físicas da rede de atendimento e todo o ambiente de trabalho dos atuais e futuros profissionais.
 

Ao mesmo tempo, estamos tocando o maior programa da história de ampliação das vagas em cursos de Medicina e formação de especialistas. Isso vai significar, entre outras coisas, a criação de 11 mil e 447 novas vagas de graduação e 12 mil e 376 novas vagas de residência para estudantes brasileiros até 2017.  [Fonte]
Mas, o que estamos vendo é que existe um grupo de médicos para quem os cidadãos brasileiros de municípios sem médicos devem sofrer calados ou pegar um ônibus, barca, trem, o que seja, para procurar uma cidade onde um senhoríssimo doutor (brasileiro) o atenda, quando der. A esses lembro que Deus é ironia, e eles podem amanhã ou depois sofrer um acidente, numa pequena cidade, um pequeno município daqueles que ninguém jamais ouviu falar, eu gostaria de saber o que sentiriam ao ouvir alguém lhe falar assim:
- Necesita de ayuda, señor?
No Blog do Mello
PS: Sugiro a leitura deste texto de Luciano Martins Costa, publicado no Observatório da Imprensa:

O que move as entidades médicas

Uma leitura cuidadosa dos principais jornais brasileiros de circulação nacional mostra que há uma tendência da imprensa a desqualificar o programa Mais Médicos, pelo qual o governo federal procura suprir a falta de profissionais de saúde em bairros periféricos das grandes cidades e nos municípios distantes dos grandes centros.
De modo geral, o noticiário abre com informações aparentemente equidistantes da polêmica central sobre o assunto, mas a hierarquia das notícias e as escolhas das análises priorizam opiniões contrárias à iniciativa do governo.
Nas edições de sexta-feira (23/8), a exceção é a Folha de S. Paulo, que dá espaço para um artigo esclarecedor sobre a questão. No Estado de S. Paulo, o principal destaque vai para dados factuais, como o número de cidades paulistas que vão receber médicos selecionados na primeira fase do programa. Nesse texto está inserida a defesa do projeto, sem um destaque especial. As opiniões contrárias estão separadas em dois outros textos, um deles informando que as entidades representativas dos médicos brasileiros e partidos de oposição vão recorrer ao Ministério Público do Trabalho para impedir que se consolide a contratação de estrangeiros.
Abaixo da reportagem principal também é publicado o resultado de uma pesquisa que supostamente mostra que o programa Mais Médicos é rejeitado pela maioria da população. No entanto, esse texto peca pela falta de precisão e acuidade. Por exemplo, não informa de quem é a iniciativa da consulta, feita por um tal Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade Industrial (ICTQ). Também omite que o ICTQ é uma empresa de educação continuada que é apoiada pela indústria farmacêutica, oferecendo cursos para profissionais do setor.
A “pesquisa” é referendada por um dirigente do Conselho Federal de Medicina, que usa as informações para reforçar a campanha da entidade contra o programa do governo. Trata-se, portanto, de uma daquelas artimanhas do jornalismo segundo a qual um suposto dado objetivo, como o resultado de uma pesquisa, é apresentado como fato comprovador de uma opinião preexistente, omitindo-se do leitor o contexto que lhe permitiria relativizar a informação – no caso, o interesse específico da indústria farmacêutica.
A serviço das farmacêuticas
Globo nem mesmo se dá ao trabalho de dissimular sua posição: abre a página explorando contradições entre integrantes do governo sobre o salário que os médicos cubanos irão efetivamente receber. No quadro em que o jornal costuma emitir sua opinião, fica claro que seus editores se alinham com o viés mais reacionário das entidades médicas: o texto afirma que “como existe um eixo Havana-Brasília, assentado em simpatias ideológicas, é preciso atenção redobrada na qualidade da prestação de serviço dos companheiros cubanos”.
Assim, em linguagem quase chula, o jornal carioca apoia a ideia de que os médicos cubanos estão sendo trazidos para fazer “pregação comunista”, como entende o presidente do Conselho Federal de Medicina.
Folha de S. Paulo se destaca por abrir um pouco mais o leque de alternativas do leitor, informando na reportagem principal que o Ministério Público do Trabalho vai investigar as condições da contratação de médicos cubanos. Em outra página, também com destaque, publica a posição do governo brasileiro, manifestada pelo secretário nacional de Vigilância Sanitária e pelo ministro das Relações Exteriores. Há também um perfil dos médicos cubanos que já atuam no Brasil, material acompanhado por um infográfico que mostra a distribuição desses profissionais em todos os estados.
Mas o diferencial da Folha é uma análise produzida pelo jornalista Marcelo Leite (ver aqui), na qual ele observa que Cuba forma milhares de médicos por mês, “como produto de exportação”. O autor explica que o governo cubano montou uma verdadeira indústria de profissionais de saúde, a maioria deles com especialização em medicina preventiva. Esse seria o segredo principal das realizações do regime cubano na área da saúde, como uma taxa de mortalidade infantil inferior à dos Estados Unidos. A ilha comandada pelos irmãos Castro desde 1959 produziu a partir de então 124.789 médicos e se destaca pela prevenção de doenças, diz o articulista.
Esse é o ponto central da polêmica: ao trazer 4 mil médicos de Cuba, o governo brasileiro está sinalizando que sua estratégia para suprir as deficiência da saúde nos lugares mais pobres vai se basear no atendimento preventivo, que reduz sensivelmente os custos do sistema e diminui a dependência em relação às empresas do setor farmacêutico.
O articulista da Folha dá a pista de onde vêm os interesses contrários ao programa do governo, ao afirmar que “na medicina preventiva, sua especialidade, é possível que [os médicos cubanos] se revelem até mais eficientes que os do Brasil, cuja medicina tem outras prioridades”.
Some-se isso com aquilo e... bingo! O leitor já sabe a serviço de quem estão as entidades que se opõem ao programa Mais Médicos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

No Brasil é assim mesmo, cada um por si



A reação hidrófoba dos médicos brasileiros ao anúncio de que cerca de 4 mil colegas cubanos virão atender a população miserável de quase uma centena de municípios do Norte e Nordeste, abandonada há séculos à própria sorte, é facilmente explicada: no Brasil as coisas são assim mesmo.
A afirmação não carrega nenhum sentido de fatalidade. 
É apenas reveladora de como funciona o sistema capitalista, esse salve-se quem puder, porque o que importa é dinheiro no bolso.
O Brasil tem um modelo de saúde estranho, onde convivem o estatal e o privado, o atendimento universal, gratuito, do SUS, e o para quem tem uma boa grana, dos planos de saúde.
Ora, é claro que, se um dia, o SUS conseguir atender a população de modo satisfatório, quem vai sofrer com isso são as empresas donas dos planos de saúde.

A grita dos médicos, capitaneados pelas suas associações de classe, é, portanto, lógica: eles simplesmente temem que a saúde pública do país atinja um tal nível de excelência que prejudique os seus negócios.
Qualquer análise com um mínimo de lógica desse xenofobismo extremado revelado por esses profissionais mostra a absoluta fragilidade de seus argumentos. 
São pueris, num extremo; canalhas, no outro.
O desarrazoado de suas alegações mostra ainda um engajamento partidário inconcebível. 
Ora, qualquer médico, como cidadão, tem o direito de fazer propaganda política para quem quer que seja, desde o mais democrata dos democratas até o mais fascista entre os fascistas, mas essa prerrogativa não se estende ao seu trabalho, que, pelo menos na teoria, é diminuir o sofrimento das pessoas, e não induzí-las em quem votar.
Os médicos, porém, não estão sozinhos nessa cruzada em favor de seus interesses.
Há vários outros exemplos de categorias profissionais, entidades de classe e setores empresariais cujo único objetivo, seguindo a lógica implacável do capitalismo - obter lucro seja como for -, é impedir qualquer mudança que possa prejudicá-los.
Não é por acaso que o Enem, um extraordinário avanço na educação brasileira, é bombardeado pela nossa gloriosa imprensa a cada ano: seu sucesso implica o enfraquecimento da indústria de cursinhos preparatórios ao vestibular.
Não é por acaso que o projeto do trem-bala ligando Campinas ao Rio de Janeiro tem sido submetido a toda espécie de críticas: no mundo todo, as empresas aéreas tiveram de reduzir drasticamente suas operações nos trechos de média distância em que competem com o transporte ferroviário de alta velocidade.
No Brasil as coisas são assim mesmo: cada um se preocupa com o seu próprio umbigo.
Tudo bem, isso faz parte da natureza humana, contaminada pelo egoísmo de um sistema econômico que pretende nos igualar aos mais ferozes predadores, que nos trata como bestas-feras.
Mas é sempre bom lembrar disso quando a gente se depara com tais aberrações de caráter como essas exibidas, orgulhosamente, pelos nossos desinteressados, altruístas e patriotas doutores.
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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Raízes do Brasil: no levante dos bisturis, ressoa o engenho colonial



“Credite-se  à elite brasileira façanhas anteriores dignas de figurar, como figuram, nos rankings da vergonha do nosso tempo. O repertório robusto ganhou agora um destaque talvez inexcedível em seu simbolismo maculoso: uma rebelião de médicos contra o povo. Sim, os médicos, aos quais  o senso comum associa a imagem de um aliado na luta pela vida, lutam hoje nas ruas do Brasil. Contra a adesão de profissionais ao programa ‘Mais Médicos', que busca mitigar o atendimento onde ele inexiste. A sublevação branca incluiria táticas ardilosas: uma rede de inscrições falsas estaria em operação para inibir o concurso de profissionais estrangeiros, sobre os quais os nacionais tem precedência.Consumada a barragem, uma desistência em massa implodiria o plano federal no último dia de inscrição.

O cinismo conservador é useiro em evocar a defesa do interesse nacional e social enquanto procede à demolição virulenta de projetos e governos assim engajados.  Encara-se o privilégio de classe  como o perímetro da Nação. Aquela que conta. O resto é o vazio.