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domingo, 3 de março de 2019

A guerra de guerrilhas do clã Bolsonaro


Logo após demiti-lo, Bolsonaro divulgou um vídeo elogioso a Gustavo Bebianno. Mas o pronunciamento não apareceu nas redes virtuais dos bolsonaristas mais fiéis.

Ao contrário, reportagem de Daniela Lima, publicada na Folha em 20/02/2019, relata que filhos e pessoas próximas a Bolsonaro retrataram Bebianno como traidor, agente infiltrado, quinta coluna, conspirador aliado à “grande mídia”...

A conduta corresponde ao que diz Pedro Dória em artigo publicado no Globo, em 24/01/2019. Segundo ele, a estratégia digital do clã Bolsonaro busca alcançar objetivos muito claros. Um deles é:

...agir sobre as conversas, interromper o diálogo. Qualquer um que critique o presidente é imediatamente inundado de respostas, em geral ataques duros e com poucas palavras até para padrões do Twitter. E a enchente de respostas torna impossível filtrar no meio quais os comentários interessantes, quem de fato buscava o diálogo. Ataques sistematizados assim, nos quais a turba é orientada a apontar para uma pessoa e bombardear, correspondem a uma das formas modernas de censura. Cala-se não proibindo a fala, mas fazendo com que ela desapareça no ruído.

Mas o mais importante nisso tudo é “municiar de argumentos sua própria militância quando precisa lidar com críticas”. E, com isso, mantê-la “em constante estado de alerta”.

Ou seja, trata-se de manter um grupo de fanáticos em constante mobilização para travar uma espécie de guerra de guerrilhas. Tendo entre seus principais alvos não apenas a oposição, mas a grande mídia e outros setores da burguesia não totalmente alinhados ao governo.

Não temos nada a aprender com o fanatismo e as mentiras bolsonaristas. Mas alguma coisa sobre guerras de guerrilhas pelas redes, talvez.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

No Facebook, a sincera amizade da intolerância


Dizem que amigo verdadeiro é o que fala mal de você pela frente. Por esse critério, o Facebook estaria cheio de amizades genuínas. Mas vejamos o que diz Siva Vaidhyanathan sobre o tema no livro “Mídia antissocial: como o Facebook nos desconecta e enfraquece a democracia”.

Na “Ética a Nicômaco”, diz ele, Aristóteles descreve três formas de amizade. A primeira é baseada na utilidade mútua. Pode ser facilmente desfeita ou mesmo esquecida. É uma amizade de conveniência e comércio. A segunda é baseada no prazer. Fica em algum lugar entre o erótico e o tribalismo. Um vínculo forjado por experiências ou condições em comum. Ambas podem desaparecer à medida que as condições da vida mudam.

Já a terceira e mais significativa forma de amizade é baseada no reconhecimento da bondade em outra pessoa. É o “amor fraternal ”, uma das mais elevadas formas de amor. Contudo, ela, certamente, não surge de um clique e alguns comentários no Facebook. Pouco frequente, exige esforço, paciência e sabedoria.

Concorde-se ou não com essa classificação, Aristóteles acerta ao dizer que nós nos relacionamos com diferentes amigos de maneiras diferentes, em termos diferentes. Além disso, o pensador grego também dizia que toda amizade é política. A pólis teria sido forjada e apoiada por uma rede formada pelos três tipos de amizade descritas por ele.

Se Zuckerberg tivesse considerado a limitação do foco de Aristóteles na pólis local (e não global), talvez compreendesse que o Facebook é incapaz de enriquecer um sentimento de amizade ou criar uma cidadania global, conclui o autor.

E que ódio e intolerância jamais passariam por ser amizade.