“Por um partido lulista, burguês e reformista!”. O autor deste título admite que se trata de uma provocação. “Mas não no sentido negativo e sim no positivo de provocar o debate sobre nosso projeto político para o Brasil”, afirma Washington Siqueira Quaquá.
Na condição de presidente estadual do PT-RJ, é importante prestar atenção ao artigo.
O tom inicial do documento é de autocrítica. Diz, por exemplo, que o PT nunca assumiu “uma briga frontal contra os meios de comunicação antinacionais e antipopulares, em especial a Rede Globo”.
Afirma, ainda, que “nossa tática depois de 1989 e, em especial, no ano da vitória em 2002, foi a da conciliação de classe sem construção de retaguardas.”
Admite que, sob os governo petistas, “uma geração inteira” mais formou “burocratas longe da luta social, do que forjou militantes da transformação social”. Palmas!
Mas eis que o texto saúda a “vinda do Renan” em apoio a Lula como:
Um passo à frente diante da hegemonia golpista. É o primeiro peso-pesado do establishment político que se desloca para o nosso campo. Abre caminho pra outros e também daqui há pouco para setores da elite econômica.
Seria a este tipo de reformismo que se referia o título do artigo? Haja provocação!
Enquanto isso, em 22/08, a Folha publicou entrevista com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Perguntado sobre as eleições de 2018, o presidente do Banco Central dos dois governos Lula afirmou: “Se me perguntar quem vai ganhar, acredito que uma mensagem reformista deve ganhar".
Quaquá e Meirelles falam de reformismos diferentes. Mas se depender do primeiro, o segundo é que está certo.
Encerrando os comentários sobre “O mito da Aristocracia Operária”, de Charles Post, é importante destacar o que o autor considera ser o ponto de partida para a criação das condições materiais e ideológicas no enfrentamento do reformismo entre os explorados.
Trata-se da necessidade de promover a auto-organização dos trabalhadores e sua auto-atividade. Principalmente, nas lutas iniciadas nos locais de trabalho, mas não limitadas a eles. Uma atividade que deve incluir também o combate a valores conservadores como racismo, machismo, homofobia, xenofobia...
Além disso, é preciso superar os obstáculos criados pela burocracia sindicais, partidárias e de outras organizações populares. Ainda que utilizem um discurso combativo, a estes setores interessa a manutenção da ordem para a perpetuação de seus privilégios.
As maiores ameaças continuam a vir do institucionalismo paralisante. De um lado, pesadas estruturas que engessam a luta. De outro, a priorização da atuação eleitoral.
Estamos falando, claro, do bom e velho trabalho de base, de baixo para cima. Sempre acompanhado da disposição de estar presente em todas as frentes de luta contra a opressão e a exploração capitalistas. Não apenas nas lutas econômicas, mas em defesa dos direitos e da ampliação das liberdades para amplas maiorias.
Na verdade, foi essa combinação que permitiu que as grandes revoluções acontecessem, desde a Comuna de Paris até as jornadas revolucionárias mais recentes.
Tudo isso, porém, implica respeitar a capacidade crítica de que são capazes os setores explorados e oprimidos. Estes, quando se mobilizam, avançam para muito além do que podem nossas vãs teorias. Somente assim seremos capazes de tornar a luta por reformas um caminho sem volta pela revolução.
No artigo “A arte da política”, publicado no Blog Junho, em 03/08, Asad Haider pergunta: “Se oito anos de Bill Clinton nos legou George W. Bush e oito anos de Obama nos deixou Trump, o que oito anos de Hillary Clinton pode oferecer?”
Como sabemos, Hillary não teve a chance de nos deixar saber.
Mas Haider aborda principalmente outra eleição importante. A de Margaret Thatcher na Inglaterra, em 1979. Cita, especificamente, um estudo do intelectual britânico nascido na Jamaica, Stuart Hall.
Escrito nos anos 1980, o ensaio de Hall procurava entender porque governos de esquerda, como os dos trabalhistas britânicos, prepararam o terreno para a enorme ofensiva neoliberal com que Thatcher massacrou os trabalhadores ingleses no período seguinte.
Em uma de suas conclusões sobre o problema, Hall afirma que a esquerda que assume governos costuma ter uma visão do papel do Estado “como encarnação do interesse nacional acima da luta de classes”.
Acreditando nisso, esses setores procuraram expandir as políticas sociais públicas, sem apelar à mobilização popular, e usaram o “intervencionismo estatal” apenas para “administrar a crise capitalista” em favor do capital.
Mas quando retorna ao governo, a direita imediatamente destrói toda política pública que contrarie minimamente seus interesses. E diante de qualquer resistência, ainda conta com um aparato repressivo não apenas mantido intacto como fortalecido pela esquerda que governava.
Ou seja, resumindo tudo muito grosseiramente, quando está no governo, a esquerda morre de medo de incomodar a direita. Mas esta, voltando a governar, arrasa tudo rapidamente com algumas canetadas e muitas cacetadas.
Será assim enquanto a esquerda institucional governar a resistência anticapitalista.
Se ainda havia dúvidas quanto ao fato de o Partido dos Trabalhadores ter-se descredenciado para o papel de força hegemônica da esquerda brasileira, as últimas eleições municipais as dissiparam. A derrota acachapante provou que a narrativa do golpe não convenceu a opinião pública nem levou o eleitorado a absolver o PT. Pelo contrário, a condenação foi inequívoca.
Emblematicamente, um dos agrupamentos que se propõem a ocupar o vazio deixado pelo PT marcou para este sábado (8) encontros municipais que pretende realizar em várias cidades: aNova Esquerda.
No final de julho, já fora fundado o Mais - Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista(vide aqui). Iniciativas semelhantes pipocam pelo País.
Sentindo-me um pouco como pai dessas crianças, encaro com simpatia todas as tentativas de recolocar a esquerda nos trilhos.
Foi no terceiro trimestre de 2014 que me dei conta, simultaneamente, da iminência de uma grave crise econômica e do esgotamento do papel positivo do PT, que já não era capaz de formular propostas que empolgassem os explorados, apontando-lhes objetivos e direcionando suas lutas. Em desespero de causa, tentava sobreviver à custa da satanização dos adversários e do mais primário e falacioso alarmismo, já não mais pretendendo ser o melhor partido, mas sim martelando que "os outros são piores".
A Nova Esquerda inicia sua trajetória
Percebi que a decadência do PT era irreversível e que a recessão vindoura criaria um caldo de cultura muito perigoso, pois poderia até propiciar um golpe como o de 1964, mergulhando o país numa nova ditadura.
Hoje admito ter superestimado a força que ainda restava ao partido.
Conseguiu reeleger Dilma Rousseff na bacia das almas, à custa do pior estelionato eleitoral até hoje cometido num pleito presidencial em nosso país, mas foi praticamente destruído pela insistência em tentar corrigir os erros até então cometidos na condução da política econômica rendendo-se incondicionalmente ao inimigo em 2015.
Como eu também alertara, caiu na mesma armadilha de João Goulart: governo de esquerda que encampa o receituário econômico da direita acaba não conquistando a confiança do grande capital nem convencendo suas próprias hostes, que passam a alvejá-lo com um desmoralizantefogo amigo. Resultado: bastou um piparote do Congresso para encerrar o segundo mandato de Dilma. Caiu de podre.
O QUE FAZER?
Agora, só nos resta juntarmos os cacos, começando de novo a empurrar a pedra para o topo da montanha.
Após o fiasco no pleito municipal, salta aos olhos que não adianta continuarmos questionando a legalidade do Governo Temer, pois ele já se consolidou.
Nem combatermos furiosamente suas propostas, antes mesmo de implantadas, pois é o outro lado que detém o poder de mídia e nos apresentará como inimigos do Brasil, sabotadores da recuperação do país (a ditadura militar utilizou amplamente tal lengalenga e a maioria da população engoliu a patranha, pelo menos até omilagre econômico começar a fazer água).
Em vez de darmos murros em ponta de faca numa conjuntura que nos é desfavorável, temos mais é de limparmos e reformarmos nossa casa, reagrupando-nos, fazendo rigorosa autocrítica dos erros cometidos, discutindo o que deve ser mudado, atualizando estratégias e táticas, depurando nossas fileiras (quem utilizou a causa para obter benefícios pessoais de forma ilícita não pode nelas permanecer, caso contrário o povo jamais voltará a acreditar em nós), criando novas forças, dando oportunidade à afirmação de outras lideranças, etc.
Não será num passe de mágica que vão surgir movimentos com propostas totalmente satisfatórias e incontroversas, há um caminho a percorrermos até tal estágio ser atingido. Até lá, convém sermos tolerantes com algumas inconsistências e impropriedades, na esperança de que sejam corrigidas adiante (vale, contudo, criticá-las francamente, como fez o Dalton Rosado, pois este é o momento em que tudo deve ser colocado em xeque, questionado e discutido).
Quanto às linhas mestras para nossa atuação neste novo momento das lutas sociais, a minha visão é de que:
ruíram as ilusões reformistas, não fazendo mais sentido acreditarmos que o capitalismo possa ser maquilado ouhumanizado (ou seja, contentarmo-nos em dele arrancar pequenas concessões, que acabam sendo esvaziadas num momento posterior, como hoje ocorre com a volta da nova classe de remediados à velha pindaíba);
ruíram as ilusões eleitorais, não compensando mais coonestarmos uma democracia flagrantemente a serviço da classe dominante mediante nossa participação no Executivo e Legislativo, pois o poder político hoje não passa de um patético fantoche do poder econômico;
o foco principal de nossa atuação tem de voltar a ser a sociedade, com empenho total em recuperarmos as ruas, pois a praça que é do povo como o céu e do condor (Castro Alves) não tem nada a ver com a Praça dos Três Poderes;
temos de travar de novo as lutas do povo ao lado do povo, pois é assim que acumularemos força para voos maiores, evitando a violência que só dará pretextos para nossa criminalização e deixando sempre claro que todas as vitórias obtidas sob o capitalismo são transitórias e a solução definitiva só virá quando o primado da competição canibalesca e da ganância desenfreada der lugar à livre cooperação dos homens em prol do bem comum.