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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Agenda do ódio e os atos de domingo




Existem, basicamente, duas formas de analisar o impasse do momento político atual. A primeira leitura, mais otimista, parte da ideia de que asmanifestações contra as tarifas de ônibus em São Paulo destamparam, a partir de 2013, uma onda de insatisfação coletiva em relação ao valor e a qualidade do serviço público nas grandes cidades do País.

Essa mobilização colocou em outro patamar a pauta de reivindicações sociais e escancarou os limites de um ciclo de desenvolvimento econômico baseado na distribuição de renda e da inclusão social a partir do consumo. Esse período de expansão colocou geladeira, estofados, aparelhos de TV e celular em muitos lares brasileiros, mas as pessoas eram ainda tratadas como gado quando entravam no ônibus, nos hospitais e nas escolas ou quando circulavam a pé por cidades mal iluminadas e serpenteadas por muros, fortificações e cercas eletrificadas.

A nomeação do mal-estar passou pela associação entre a precariedade do serviço público, incapaz de atender as demandas de uma sociedade cada vez mais exigente, veloz e conectada, ao peso da estrutura política.

Pouco depois dos primeiros protestos daquele ano, em entrevista a CartaCapital, o cientista político Marco Aurélio Nogueira, autor de As Ruas e a Democracia, recorreu ao conceito de modernidade líquida do filósofo Zygmunt Bauman para fazer o seguinte diagnóstico:

“A sociedade no Brasil dos últimos 30 anos foi se tornando líquida, mais ágil, mais rápida, mais diferenciada, muito conectada – hoje somos pessoas de rede, rapidamente seremos 200 milhões de pessoas conectadas no Brasil, já temos mais aparelhos de celular do que gente. É a demonstração de que está tudo conectado. Isso tudo é vida liquida em sentido metafórico, mas a política ficou no plano sólido. Os governos, os partidos, a classe política não acompanharam as mudanças sociais. Não se ajustaram. Parte da nossa insatisfação com a Justiça, por exemplo, é que ela é lentíssima, e nós somos rapidíssimos”.

Desde a eclosão dos protestos, que logo ganharam outras bandeiras (menos corrupção, mais transparência, menos chicotadas da polícia), é possível dizer que esta inquietação se transformou em demanda política e sacudiu as bases do sistema de representação. O resultado mais visível desta sacudida foi a promulgação, pela presidenta Dilma Rousseff, da chamada Lei Anticorrupção, que abriu as comportas do sistema jurídico para a prisão e responsabilização de peixes graúdos do outro lado da história (os corruptores), e não apenas os lambaris das grandes empresas.

No limite, a Operação Lava Jato, que prendeu donos e presidentes das megaconstrutoras do País, recuperou milhões de reais desviados e apreendeu Ferraris e Lamborghinisenquanto investigava a cúpula e o submundo político, poderia (e pode) significar, pelo didatismo, um outro salto nas relações entre representantes e representados. Essa nova relação seria pautada pelas demandas por mais transparência, mais critério com os gastos públicos (a começar pelos bancos de fomento), mais interesse e participação nas decisões políticas.

No limite do limite, essa mudança poderia determinar se um governante daria ou não de ombros para a gritaria contra obras desnecessárias para a Copa do Mundo, caso dos elefantes brancos que um dia foram chamados de estádios e hoje ligam o nada a lugar-nenhum em metade das cidades-sede do Mundial. Quem quisesse se (re) eleger deveria ouvir com atenção os deles e delas de qualquer protesto de rua.

Dois anos depois dos primeiros protestos, entretanto, o que existe hoje é uma bifurcação entre esse salto e uma realidade menos passível ao otimismo. Eis o desafio de quem hoje protesta com as cores e a bandeira do Brasil (não necessariamente em ônibus menos sucateados): lidar com contradições evidentes do próprio movimento.

Antes de ir às ruas no domingo, o manifestante poderia se perguntar, por exemplo, em que momento as palavras de ordem de coros e cartazes exigem a abertura das fendas para a participação popular no processo político – o que opera nos dias úteis da semana. Ou de que maneira essa participação será ampliada caso o objetivo último dos manifestantes seja um dia atendido: a queda da presidenta Dilma Rousseff, reeleita pelo voto popular há menos de um ano. Ou como reforçar o discurso em defesa da democracia com slogans, em si, imperativos (“fora”, “vai pra Cuba”, “morte aos...”).

Mais: será que o partido que elegeu a presidenta é de fato o partido que governa? Se sim, o que explica o acordão selado durante a semana entre a presidenta-alvo dos protestos e as lideranças do PMDB? Quem costurou o acordo, ela ou o vice Michel Temer? Ou: por que partidos igualmente investigados na Lava Jato, como o PP de Jair Bolsonaro, são preservados? Se a bandeira é o fim da corrupção, qual o sentido se estender os braços ou preservar dos discursos a figura de líderes como Eduardo Cunha, igualmente suspeito e investigado?

Para responder as perguntas é preciso, muitas vezes, invocar o óbvio, e este parece estar em desuso. José Celso Martinez Correa, também em entrevista a CartaCapital, chama a atenção para uma coincidência histórica hoje presente pelas ruas: se há algo em comum entre o momento atual e os movimentos fascistas do início do século passado é a aglutinação do ódio em torno de uma única figura.

Esta aglutinação não permite identificar nuances nem aprofundar soluções (por exemplo, em relação ao sistema de financiamento de campanha, mas não só). E confunde participação popular com vontade das maiorias, hoje unidas em torno de um mal maior incorporado por um partido e governo.

O resultado do reducionismo é a agressividade, e este já desemboca em outros campos:agressões contra imigrantes supostamente protegidos pelo governo para "roubar" empregos nativos, o atentado contra o Instituto Lula, as ameaças contra quem cobre as manifestações antigoverno, a agressão contra leitores de revistas que os contestam. Fala-se em eliminar o câncer para a construção de um país mais democrático, mas aos poucos as ações materializam uma linguagem permeada de mensagens violentas e naturalizadas.

Não por acaso, a expressão “pegar em armas” já começa a surgir em discursos de defesa e ataque (outra linguagem figurada), e fica difícil dizer quando perdemos a vergonha de expor nossa inclinação bélica. Pois basta ler os comentários de portais ou o discurso de lideranças mais desmioladas para encontrar o apelo à violência como solução (não, o ex-presidente Lula não ajuda em nada, pelo contrário, instiga o ódio, quando pega o microfone para falar em “nós contra eles”).

Recentemente um dos jovens que agora querem mudar o mundo já declarou, para quem quisesse ouvir, que só um tiro na cabeça do partido inimigo resolveria a questão. É sentido figurado, mas não para quem já sofre as consequências, na pele, de uma linguagem já suficientemente violenta.

A verdade é que estamos hoje mais agressivos. Mais impacientes. Mais passíveis a soluções autoritárias e aparentemente fáceis. É quando a razão começa a se dissipar.

Em vez de ampliar os canais de participação, transparência e cobranças, a gritaria hoje intensifica a tensão política, enfraquece os alvos escolhidos seletivamente e, diante da instabilidade, possibilita que setores mais organizados tomem conta da agenda pública para emplacar suas condições de governabilidade.

É o que acontece quando líderes do PMDB no Senado, muitos deles empresários ou representantes do empresariado, negociam a rendição do governo Dilma com um pacto em torno dos próprios interesses: avançar sobre terras indígenas, privatizar parte do sistema público de saúde, atropelar normas ambientais, regular a terceirização, extinguir o Mercosul, entre outros pontos.

A chamada agenda positiva para sair da crise, resultado de erros incontestáveis do(s) governo(s), mas também do oportunismo político da oposição e da base aliada/rebelada, é hoje um flerte com o retrocesso.

Enquanto parte da população vai às ruas convicta de que o mal tem fronteiras bem definidas e demarcadas, e que basta arrancá-lo para o país fluir, o sucateamento de direitos sociais torna-se barganha para tirar a crise da agenda e manter tudo como está, inclusive o sistema de financiamento de campanha e a super-representação, no Congresso, dos mesmos grupos econômicos.

O fortalecimento do sistema político e das instituições democráticas se faz com a ampliação de direitos, da transparência e da participação popular. O desafio é encontrar qualquer dessas bandeiras nos cartazes de domingo. Quando terceirizamos essas demandas a salvadores da pátria (todos os que não representam o que não toleramos), a única agenda viável é a do ódio. Já sabemos, ou deveríamos saber, para onde ele nos leva.

Por Matheus Pichonelli, na revistaCartaCapital:
http://altamiroborges.blogspot.com.br/2015/08/agenda-do-odio-e-os-atos-de-domingo.html

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Revolta dos Coxinhas é movimento niilista, reacionário e antidemocrático


Anomia niilista
Por Wanderley Guilherme dos Santos
Valor Econômico



Milhões de pessoas foram projetadas a estações de consumo e lazer das quais nunca haviam tido sequer notícia. Passado o deslumbramento, expectativas ambiciosas cresceram em velocidade maior do que caíam taxas de juros e sinais inflacionários, levando a audacioso endividamento das famílias. Por fim, a ressaca veio sob forma de aguda ansiedade sobre o futuro imediato, tornando-as vulneráveis aos anúncios de que crescimento econômico em torno de 3,0% significará desastre, desemprego generalizado e uma queda livre, sem rede de proteção, dos trapézios sociais alcançados.


Rápidos deslocamentos ascendentes desenraízam as pessoas da matriz societária original, provocando crises de identidade e desorientação quanto a valores, estando por serem substituídos os anteriores, desaprendidos. Max Weber apontou a reserva de ebulição aí depositada, tanto quanto nas crises de despenhadeiro, quando enormes contingentes de trabalhadores são despejados na escala social com destino à miséria e desesperança. E, ambos, períodos de extensa anomia social, insegurança quanto a rumos e subversão de critérios de avaliação e escolha social. Atração fatal à anomia, o niilismo, o negativismo militante candidata-se a acompanhante emocional, pacificador da insegurança dos segmentos desorientados.

Sequência já conhecida de manifestação popular reprimida com violência próxima à selvageria propiciou as condições de uma mobilização de simpatias, solidariedades e protestos claramente motivados pelo episódio paulistano de repressão ao Movimento do Passe Livre. Eram os jovens universitários, seus pais e familiares, usuários de transportes públicos, o público de boa vontade, atingido em seu sentido de justiça e de equilíbrio, além das minorias insidiosas de sempre: um nazismo renascente, protofascistas, partidos autoritários como o PSTU ou dado a aventuras como o PSOL, mais os predadores da democracia. Rápido, bem-sucedido golpe de mão, juntando acaso e virtude, sequestrou a alma das ruas e infestou a evidente anomia com a inclinação niilista que a marcou desde então. Todas as palavras de ordem têm sido, a partir daí, pretexto para a desmoralização das instituições democráticas, assembleias, organizações sindicais, associações voluntárias específicas, partidos políticos, em nome de um alegado vanguardismo civilizatório.

O futurismo italiano foi um movimento revolucionário das artes gráficas no início do século XX. Dissolveu-se ideologicamente no fascismo gerado pela anomia decadentista da Itália dos anos 20, igualmente irmanado ao niilismo predatório. Assustados, os líderes institucionais do Brasil têm tomado a aparência pela verdade e multiplicado a tradução do que lhes parecem comunicar as vozes das ruas. Não existem, contudo, vozes das ruas, apenas alaridos. Não foram as cartolinas pintadas que levaram as primeiras multidões às passeatas, elas surgiram algum tempo depois das marchas em busca de um porquê das próprias marchas. A seco, melhoras genéricas da saúde pública ou da educação não estimulam o deslocamento de dezenas de milhares de manifestantes. Reforma política, então, nem em cartolina apareceu. Pesquisas de opinião durante ou logo depois do calor dos protestos são tecnicamente irrelevantes, não autorizam nenhum tipo de inferência confiável.

Do mar de gente em desfile pelos dias de junho já se ausentaram há muito os de boa-fé, os lúdicos, os solidários com as iniciais demandas sobre transporte, até mesmo sobre saúde e educação, bem como os movimentos tradicionais organizados. Participam hoje dos protestos, fora os incautos e ingênuos que sempre existem e lhes emprestam ar de legitimidade, grupos anômicos de jovens de algumas posses, grupos neonazistas e pré-fascistas, organizações niilistas nacionais e internacionais, além das gangues ordinárias de ladrões e assaltantes.

Os que agora se mobilizam e convocam sabem que são isso mesmo, portanto cúmplices entre si. Não há jovem do Leblon que ignore os saques e depredações que vão se seguir às suas intervenções ditas pacíficas. É a essa informal coalizão de celerados que se referem os acoelhados discursos pela modernidade, pelo avanço democrático em curso, pela radicalização da participação. Desde quando movimentos pela democracia difundem o medo e intimidam fisicamente os que divergem?

Na verdade, a hegemonia da atual semântica política é niilista, reacionária, antidemocrática. Mesmo as manifestações em favor de teses populares adquirem conotação truculenta. Com todo o narcisismo de que são portadores, movimentos e personalidades de grande notoriedade não conseguem desfazer a impressão de que perderam o controle sobre o emocional da população. A conjuntura é fascistoide. A pauta trabalhista das centrais sindicais era a aparência para esconder uma real tentativa de retomar a alma das ruas. Foi uma manifestação chinfrim, o dia nacional de lutas, e não recuperou a hegemonia. Ficou apenas a impressão de que reclamava do governo a extinção do fator previdenciário e a realização de uma reforma política, entre outras bandeiras costumeiras, sem consequência significativa.

Há quem acredite no fundo da alma que alguma mazela nacional será resolvida por reformas nas instituições políticas. Essa é uma crença sem fundamento e, às vezes, como no momento, sujeita a exasperações histéricas. Só por circunstancial ausência de normalidade argumentativa se pode entender declarações de inegável natureza controversa como se obviedades democráticas fossem. Em recente declaração em vídeo, ao fim de um debate em um centro paulista, uma professora da USP, petista orgânica, afirmou que a estrutura partidária e eleitoral vigente, consagrada na Constituição de 88, foi elaborada em 1965 por Golbery do Couto e Silva, homem da ditadura. Sem dúvida, uma retificação histórica e tanto.

Em texto na revista "Carta Capital" no dia 17, um jornalista e paladino da democracia menciona um sonho em que assistia à convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva, integrada pelas melhores cabeças do país. Não ficou esclarecido, contudo, qual colégio eleitoral substituiria os 140 milhões de eleitores brasileiros na escolha de suas melhores cabeças. Pior ainda, figuras profundamente reacionárias em matéria social e econômica, como as lideradas por Marina Silva, reeditam o discurso de que a maldade da política se encontra na existência de mediações entre o público e o privado, cujas fronteiras deviam ser abolidas. É o discurso totalitário em estado puro. Buscando o aplauso de míticas vozes das ruas, muitos não mais escutam a própria voz.

É incompreensível a ênfase do governo e do Partido dos Trabalhadores na realização de um plebiscito por uma reforma política cuja formulação é, no mínimo, divisionista, castradora de avanços e omissa quanto à superação de resquícios da ditadura - por exemplo, garantindo elegibilidade aos analfabetos, tema sem nenhuma audiência entre nossos democratas radicais e digitais. Incompreensível, sobretudo, quando a pauta vital do país, no momento, está sendo disputada taxa de retorno nas licitações por vir nos setores ferroviário, aeroviário, rodoviário e portuário, além dos leilões do petróleo. Disso dependem renda, emprego, crescimento, políticas sociais e progresso tecnológico.

Sujeito a um cerco infernal de pressões, lobbies e, quiçá, seu tanto de sabotagem por parte de alguns empresários e investidores, o governo substitui essa pauta por um prato diversionista, com o bônus de propiciar aos adesistas a esfarrapada desculpa de que o Estado, o modelo de crescimento (denominação presunçosa), os instrumentos de administração estão esgotados. Baboseiras de quem está costeando o alambrado do conservadorismo.

As forças sociais estão anômicas. Difícil saber em que medida a epiderme niilista reflete o sentimento majoritário da população (pesquisas, no momento, são inúteis para extrapolações), submetida a uma avalanche de informações sem fonte de credibilidade assegurada. As respostas oficiais, exceto em parte a dos parlamentares, acentuo, exceto em parte a dos parlamentares, têm contribuído para ratificar a ilusão de um aprofundamento da democracia que, de fato, em sua versão expressiva e comportamental, consiste em seu oposto, na intolerância, na destruição e no ódio que contamina as mensagens das ativas redes sociais. Quanto mais cedo se mobilizar a resistência democrática ao niilismo anômico, melhor.

Wanderley Guilherme dos Santos é cientista político, titular (aposentado) de teoria política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

terça-feira, 9 de julho de 2013

A erosão do sentido da vida e as manifestações de rua


As manifestações nas ruas do Brasil e do mundo fermentam algo mais profundo, diria quase inconsciente, mas não menos real: o sentimento de uma ruptura generalizada, de frustração, de erosão do sentido da vida, de angústia e medo face a uma tragédia ecológico-social que se anuncia por toda a parte e que pode pôr em risco o futuro comum da humanidade.

Leonardo Boff, Carta Maior

Está lentamente ficando claro que as massivas manifestações de rua ocorridas nos últimos tempos no Brasil, e também pelo mundo afora, expressam mais que reivindicações pontuais, como uma melhor qualidade do transporte urbano, melhor saúde, educação, saneamento, trabalho, segurança e uma repulsa à corrupção e à democracia das alianças sustentada por negociatas. Fermenta algo mais profundo, diria quase inconsciente, mas não menos real: o sentimento de uma ruptura generalizada, de frustração, de decepção, de erosão do sentido da vida, de angústia e medo face a uma tragédia ecológico-social que se anuncia por toda a parte e que pode pôr em risco o futuro comum da humanidade. Podemos ser uma das últimas gerações a habitar este planeta.

Não é sem razão que 77% dos manifestantes tenham curso superior, quer dizer, gente capaz de sentir este mal-estar do mundo e expressá-lo como recusa a tudo o que está aí.

Primeiro, é um mal-estar face ao mundo globalizado. O que vemos nos envergo-nha, porque significa a racionalização do irracional: o império norte-americano, decadente, para se manter precisa vigiar grande parte da humanidade, usar da violência direta contra quem se opõe, mentir descaradamente como na motivação da guerra contra o Iraque, desrespeitar acintosamente qualquer direito e norma internacional como o sequestro do presidente Evo Morales, da Bolívia, feita pelos europeus mas forçados pelos corpos de segurança norte-americanos. Negam os valores humanitários e democráticos de sua história e que inspiravam outros países.

Segundo, a situação de nosso Brasil. Não obstante as políticas sociais do governo do PT que aliviaram a vida de milhões de pobres, há um oceano de sofrimento, produzido pela favelização das cidades, pelos baixos salários e pela ganância da máquina produtivista de cariz capitalista que, devido à crise sistêmica e à con-corrência cada vez mais feroz, superexplora a força de trabalho. Só para dar um exemplo: pesquisa feita na Universidade de Brasília apurou que entre 1996 e 2005 a cada 20 dias um bancário se suicidava, por causa das pressões por metas, ex-cesso de tarefas e pavor do desemprego. Nem falemos da farsa que representa nossa democracia. Valho-me das palavras do cientista social Pedro Demo, professor da UNB, em sua ‘Introdução à sociologia’ (2002): ”Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis bonitas mas feitas sempre, em última instância, pela elite dominante para que sirva a ela do começo até o fim. Político é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco, fazer negociatas, empregar parentes e apaniguados, enriquecer-se às custas dos cofres públicos e entrar no mercado por cima… Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação” (págs. 330-333). Agora, entendemos por que a rua pede uma reforma política profunda e outro tipo de democracia em que o povo quer codecidir os caminhos do país.

Terceiro, a degradação das instâncias do sagrado. A Igreja Católica ofereceu-nos os principais escândalos que desafiaram a fé dos cristãos: pedofilia de padres, de bispos e até de cardeais. Escândalos sexuais dentro da própria Cúria romana, o órgão de confiança do papa. Manipulação de milhões de euros dentro do Banco do Vaticano (IOR), onde altos eclesiásticos se aliaram a mafiosos e a corruptos milionários italianos para lavar dinheiro. Igrejas neopentecostais atraem em seus pro-gramas televisivos milhares de fiéis, usando a lógica do mercado e transformando a religiosidade popular num negócio infame. Deus e a Bíblia são colocados a ser-viço da disputa mercadológica para ver quem atrai mais telespectadores. Setores da Igreja Católica não escapam desta lógica com a espetacularização de showmissas e dos padres-cantores com sua autoajuda fácil e canções melífluas.

Por fim, não escapa ao mal-estar generalizado a situação dramática do planeta Terra. Todos estão se dando conta de que o projeto de crescimento material está destruindo as bases que sustentam a vida, devastando as florestas, dizimando a biodiversidade e provocando eventos cada vez mais extremos. A reação da Mãe Terra se dá pelo aquecimento global, que não para de subir; se chegar nos próximos decênios a 46 graus Celsius pelo aquecimento abrupto, este pode dizimar a vida que conhecemos e impossibilitar a sobrevivência de nossa espécie, com o desaparecimento de nossa civilização.

Não dá mais para nos iludirmos, cobrindo a feridas da Terra com esparadrapo. Ou mudamos de curso, preservando as condições de vitalidade da Terra, ou o abismo já nos espera.

Como insiste a Carta da Terra: ”Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados”; é esta interligação real mas, em par-te inconsciente, que leva milhares às ruas querendo outro mundo possível e agora necessário. Ou aproveitamos a chance para as mudanças ou não haverá futuro para ninguém. O inconsciente coletivo pressente este drama e daí o clamor das ruas por mudanças. Sem atender às demandas, poderemos protelar a tragédia mas não a evitaremos. Agora é ouvir e agir.”

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Protestos seguem um roteiro: quem são os autores?



Caminhoneiros protestaram na Castello Branco (SP) por 15 horas /
Foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo

Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho

‘Com o esvaziamento das manifestações nas ruas e praças das cidades, os protestos tomaram o rumo das estradas e caminhoneiros bloquearam ontem 22 rodovias em nove Estados, fechando inclusive o acesso ao porto de Santos, que só foi liberado na manhã desta terça-feira.

Desde o dia 6 de junho, quando dois mil manifestantes do Movimento Passe Livre protestaram na avenida Paulista, em São Paulo, contra o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus, os protestos se espalharam por todo o pais e foram multiplicando sua pauta de reivindicações, que foi da PEC 37 ao combate à corrupção, dos gastos com a Copa à melhoria nos serviços públicos, atacando todos os governos, políticos e partidos.

Depois de três semanas, os protestos urbanos perderam o folego e foram para as estradas. O Movimento Brasil Caminheiros, liderado há 14 anos pelo empresário Nélio Botelho, que em 1999 fechou as principais rodovias do país e provocou até desabastecimento em algumas cidades, apresenta agora as mesmas reivindicações daquele tempo: redução do preço dos pedágios e do óleo diesel, entre outras benfeitorias para a categoria.

Mesmo depois que o governo de São Paulo suspendeu a cobrança de pedágio para caminhões sem carga, razão primeira do protesto, o movimento decidiu que continuará nas estradas até quinta-feira, infernizando a vida de quem precisa viajar.

É no mínimo estranho que os caminhoneiros de Nélio Botelho voltem aos bloqueios justamente agora que a situação estava começando a se normalizar nas cidades, depois que a maior parte das reivindicações do povo nas ruas foi atendida rapidamente pelos três poderes.

Na mesma hora em que as estradas eram fechadas, apenas 100 gatos pingados apareceram ontem no mesmo Largo da Batata, em São Paulo, que reuniu 65 mil pessoas do Movimento Passe Livre no último dia 17 de junho, desta vez para protestar contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-SP).

No início da noite, 40 pessoas saíram às ruas de Florianópolis para pedir mais ética na politica; 200 manifestantes pediram o fim da corrupção em Manaus; mais 200 saíram em Maceió contra a contratação de médicos estrangeiros; outros 80 fecharam a PR-116 em Fortaleza, pedindo sinalização e uma passarela; com pedidos variados, 60 protestaram em Foz do Iguaçu, o mesmo número que saiu às ruas em Santos para pedir a integração das tarifas de balsas e ônibus; só em Vitória o número chegou a 1.000 para pedir o fim da cobrança de pedágio.

Geradas nas redes sociais e amplificadas pela cobertura generosa da grande mídia, inclusive durante transmissões esportivas e em programas de auditório, as manifestações de protesto parecem seguir um roteiro para que não parem nunca mais, encadeando uma pauta na outra. Certamente não se trata da obra de um único e criativo pauteiro. Pode ser tudo uma grande coincidência, mas não custa perguntar quem podem ser seus autores e quais seriam seus reais objetivos, já que até hoje tudo nos é apresentado como algo espontâneo, que brota de uma difusa insatisfação popular não registrada pelas pesquisas nem pelos agentes da Abin.

Em seu artigo de hoje no "Observatório da Imprensa", sob o título "A história ainda não foi contada, falta o narrador", Alberto Dines deixa uma pergunta no ar:
"No sábado, 6 de julho, o vulcão completará um mês de atividade ininterrupta. Hora de perguntar: alguém já contou esta história _ como começou, mudou e o que ainda vai acontecer?".

Em busca de respostas, Dines constata: "Estamos observando os escombros, identificando vítimas, avaliando efeitos, conscientes da dimensão do ocorrido, testemunhas mais ou menos informadas. Poucos, no entanto, sabem com exatidão por que a cratera adormecida, de repente, começou a cuspir fogo".
Talvez só os historiadores do futuro, daqui a muitos anos, nos contem como foi construído e desenvolvido este roteiro.”

domingo, 30 de junho de 2013

É um vale-tudo, Dilma, vale tudo, então



Com tudo o que o país vem passando nestes últimos dias, esse terremoto que a turma do contra vem promovendo com a inestimável ajuda dos leais companheiros da "extrema esquerda" e, é claro, da prestimosa imprensa, um chefe do Executivo ainda contar com a aprovação de um terço do eleitorado, como diz essa pesquisa Datafolha, até que não é mau resultado.
A gente tem de lembrar que a pior parte da sova que a presidenta Dilma Rousseff levou, tudo indica, ficou para trás. 
Agora, no intervalo dessa luta na qual quase é nocauteada, ela se encontra no seu córner, onde recebe instruções para sobreviver e, quem sabe, virar o combate nos próximos rounds, e é ajudada pelos segundos - e terceiros - que tentam estancar o sangue de seus ferimentos.

Dilma, porém, não é nenhuma neófita nos ringues da vida, principalmente os da política, que ela frequenta com notável intimidade desde muito tempo, desde quando neste país quem ditava as regras do jogo eram os mais destacados representantes da violência, da força bruta e do vale-tudo, não este de hoje, cheio de regras, mas aquele em que, literalmente, qualquer golpe estava liberado para derrotar o inimigo - não o adversário.
Todos sabem que a condução da crise institucional - não só governamental - nos próximos dias poderá determinar o futuro do governo trabalhista que, apesar de tudo, fez o Brasil mover-se para adiante nesses últimos dez anos, com inegáveis conquistas sociais e econômicas.
Não vai ser uma briga fácil esta que a presidente terá de enfrentar assim que soar o gongo para o próximo round.
É bem provável que ela volte com a visão ainda abalada pela saraivada de golpes que recebeu, e, como tantos outros lutadores, ainda confunda a sombra do rival a desafiando à sua frente com a realidade de seu poderoso corpo, uma máquina de destruição que soma a massa bruta de músculos e ossos a um planejamento estudado desde a sua última derrota, no longínquo 2002.
A plateia, certamente, verá um combate de tirar o fôlego.
Não foram poucas as vezes em que a astúcia, a habilidade, a técnica refinada,  e, principalmente, a coragem e a determinação, venceram o brutamontes que confiava demais na potência de seus punhos.
Da mesma forma que as recentes manifestações nas ruas foram conduzidas por uma minoria, que deveria estar se preparando há muito tempo para este momento, os 30% da assistência que se arriscaram a aplaudir e não a vaiar a lutadora Dilma podem, no decorrer do combate, contagiar aqueles que, no calor do momento, torcem para o favorito.
Mas para que o alarido da turma do contra seja abafado pelo clamor de mudanças verdadeiras é preciso que Dilma não só se esquive dos murros da besta-fera. 
Ela deve contra-atacar fortemente, com precisão, e se lembrar que, para ganhar um vale-tudo, vale tudo, até infringir regras que os árbitros veem ou não, à sua conveniência, à conveniência de seus interesses.
cronicasdomotta

O Sentido das Manifestações


A manifestação foi organizada via rede social com a criação dos grupos
Marcos Coimbra, CartaCapital
 

“Enquanto perdem fôlego e amainam as manifestações de protesto que afetaram o País nas últimas semanas, está na hora de procurar entender seu significado.

Uma das maiores dificuldades para compreendê-las é que não tiveram sentido único. Salvo, talvez, nos primórdios, quando usuários de transportes públicos foram às ruas em São Paulo para reclamar do aumento no preço das passagens. Lá, ainda tínhamos o cenário que explica as mobilizações sociais mais características: causa concreta, pessoas afetadas concretamente, reivindicações concretas.

Muito se diz que as manifestações seguintes foram novas. Diferentes, por exemplo, das que a direita fez pela deposição de João Goulart ou das que empurraram o governo Collor para a crise final.
Mas, será que a “horizontalidade” e a “difusão” das atuais as tornam mesmo originais?

Não terá existido, nas manifestações deste mês de junho, um segmento que desempenhou papel definidor análogo ao dos anticomunistas e dos conservadores católicos nas marchas de 1964? Dentre os muitos tipos de gente que foi às ruas, não houve um que forneceu personalidade ao “movimento”?   

Para identificar o sentido das que aconteceram agora, temos o perfil mais típico dos participantes, suas bandeiras mais características e as reações mais comuns que suscitaram.

Nada ilustra melhor a mudança do perfil socioeconômico dos manifestantes que a imagemveiculada pela TV Globo nos primeiros jogos do Brasil na Copa das Confederações: madames vestidas a caráter e cheias de balangandãs, brandindo cartazes sobre o “fim da corrupção” e fazendo propaganda de um endereço no Twitter. Os jovens que, no YouTube, se tornaram astros dos “insatisfeitos”, parecem seus filhos ou irmãos.

No conteúdo, o elemento central da “ideologia das ruas” foi a crítica à representação política e às instituições, particularmente os partidos políticos. Os manifestantes gritaram País afora que não se sentiam representados por ninguém, que estavam na rua para denunciar os “políticos” e “fazer política com as próprias mãos”. As vagas perorações em favor de “mais verbas para a educação e a saúde” ou contra os “gastos exagerados na Copa do Mundo” nada mais foram que pretextos para externar sua aversão ao sistema político e ao governo.     

Quem monitorou as redes sociais durante esses dias percebeu que os defensores mais entusiastas das passeatas foram os antipetistas radicais. Esses é que se sentiram em íntima comunhão com os participantes e torceram para que as manifestações escalassem, enfraquecendo o governo e prejudicando as chances de reeleição da presidenta.

Para dizer o óbvio, quem deu o sentido das manifestações foi a classe média antipetista, predominantemente de direita. Nem sempre, nem todos os participantes, mas em seu núcleo característico.

Ou seja: embora tenham participado do movimento desde punks neonazistas a adolescentes apenas curiosos (e mesmo gente genuinamente progressista), seu rosto é nítido.   

A classe média antipetista tem motivos reais para estar insatisfeita com a representação que tem. Ao contrário do cidadão que simpatiza com o PT e outros partidos de esquerda, e que majoritariamente aprova o governo, ela se sente mal representada.   

Faz tempo que Fernando Henrique Cardoso lhe dá razão. Em texto de 2011, em que tentava explicar a vitória de Dilma e definia novos caminhos para a oposição, propunha ao PSDB que deixasse o “povão” para o PT e fosse procurar a classe média: “É a essa que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente”. Dizia que  o partido precisava “mergulhar na vida cotidiana” e encontrar “ligações orgânicas com grupos que expressem as dificuldades e anseios do homem comum” (leia-se, de classe média).

Lembrava que havia “toda uma gama de classes médias”, empresários jovens, profissionais, “novas classes possuidoras”, que estariam “ausentes do jogo político-partidário, mas não desconectadas das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter, etc.”. Considerando seu “pragmatismo”, o discurso para atraí-las não deveria ser “institucional”, mas centrado em temas como a corrupção, o trânsito, os problemas urbanos, os serviços públicos.

FHC queria uma oposição que “suscitasse o interesse” da classe média e lhe “oferecesse alternativas”. Se não conseguisse ser “uma alternativa viável de poder, um caminho preparado por lideranças nas quais confie”, sequer adiantaria “se a fagulha da insatisfação produzisse um curto-circuito”.

Falou, mas não fez. Nessa, como em outras oportunidades, as oposições brasileiras mostraram-se mais competentes na conversa que na ação. Perceberam os desafios, mas não lhes deram resposta.

Foram de Serra, quando precisavam renovar-se. Apresentam Aécio como prosseguidor da “herança de FHC”. Nada fizeram para “organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas”, como sugeria o ex-presidente.  

Presas de seus paradoxos, as oposições criaram a crise de representação dos setores da sociedade a quem pretendiam (e deveriam) expressar. Talvez principalmente, foi a impaciência das classes médias antipetistas com a oposição que as levou às ruas.

Depois, é claro, de um ano de ataque da mídia conservadora ao governo. Seus estrategistas acharam que conseguiriam, através de incursões cirúrgicas, eliminar somente as lideranças do PT. O que fizeram foi ferir valores fundamentais da democracia."