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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A besta-fera não tem filhos?


As imagens que circulam nas redes sociais são inacreditáveis: a molecada protestando contra o fechamento de escolas no Estado de São Paulo, mostrando, com isso, um alto grau de cidadania e exercendo um direito absolutamente garantido pela Constituição, e a Polícia Militar tratando-os como bandidos.

Esses estudantes covardemente agredidos pela PM são menores de idade, a maioria talvez na faixa dos 14 a 17 anos, que estão dando, em várias cidades paulistas, um exemplo de como um governo sem nenhuma preocupação com o social, deve ser combatido: nas ruas, com manifestações pacíficas, fazendo pressão, usando argumentos.


Contra esses atos que, em qualquer democracia mequetrefe deveriam ser encarados com total tranquilidade, aparece uma Polícia Militar sem nenhum preparo psicológico ou profissional, agindo como se estivesse combatendo o mais cruel dos inimigos, o mais sórdido bando de delinquentes e os criminosos mais sanguinários.

Não sei, mas desconfio, que grande parte desses policiais tem família, tem filhos que estudam em escolas públicas - talvez mesmo em algumas dessas que o governador Alckmin pretende fechar.

Também acredito que o secretário de Educação, aquele sujeito com cara de nazista do qual não lembro o nome, e até o próprio governador, foram, algum dia, adolescentes com sonhos de construir uma vida digna, de progredir interiormente, de passar esta existência num mundo em que as pessoas tenham oportunidade de ser felizes.

Mas é justamente essa convicção que me confunde e me faz refletir sobre o que leva um ser humano a ser tão cruel, tão insensível e tão inconsequente em seus atos.

Bater em professores, bater em estudantes adolescentes, bater em sindicalistas, bater em cidadãos comuns que nada mais fazem do que exercer o seu direito de protestar contra o que acham errado, humilhar e assassinar jovens negros da periferia porque eles são jovens, negros e pobres...

A Polícia Militar, pelo menos essa força descontrolada, acima das leis, que decide sobre quem deve viver ou morrer, essa besta-fera fascista que amedronta o mais pacato indivíduo, é o exemplo perfeito do que este país pode vir a ser se os bárbaros que tentam, por todos os meios, sequestrá-lo, vencerem esta guerra que iniciaram contra a civilização.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Por quê o Estado ataca a população?

“É preciso desnudar a estrutura da sociedade, perceber a forma como ela é construída, a toda hora se levantam pontas do véu, há sinais em toda parte, é preciso disposição pra enxergar a realidade.”  (Edu Marinho)                                                                                                                                            

 "Por quê o senhor atirou em mim?" Essa é a pergunta de milhares, todos os anos. E de milhões, ao longo do tempo, nas metrópoles brasileiras, nas periferias onde estão os que constróem a sociedade em todos os seus detalhes, os que põem o asfalto e o cimento no chão, que carregam os tijolos nas costas pros prédios, escolas, hospitais, casas, tudo o que se tem à vista, os postes, luzes, canos, fios, os que plantam a comida, os que colhem, os que preparam, os que limpam e tiram o lixo, os que ligam os motores, que transportam, carregam, produzem tudo o quanto se usa, roupas, sapatos, bolsas, chapéus, enfeites, os que abastecem, entregam, buscam... a imensa maioria sabotada em instrução, em informação, em respeito, em cidadania. Sabotada por um Estado sequestrado, onde a vida vale menos que o patrimônio, onde as coletividades pobres são tratadas como lixo quando há interesses econômicos, onde se morre na porta do hospital por motivos menores. Onde se toma um tiro na nuca enquanto se morde um cachorro quente.

As instituições públicas, inclusive as de segurança, estão a serviço, em primeiro lugar, do patrimônio da minoria mais rica, que comprou/sequestrou o aparato público, de muitas maneiras além do poder econômico direto. 


Os serviços públicos são sistematicamente sabotados, impedidos de cumprir plenamente suas funções, criando situações de barbárie e sofrimento generalizado. Teme-se a "saúde pública", teme-se o "ensino público", teme-se qualquer instituição pública - a maioria instrumento de tortura cotidiana, dos usuários e dos funcionários. As forças de segurança estimulam a violência desenfreada, o ataque covarde indiscriminado, tenho visto cenas que dão vontade de chorar, ataques desmedidos e sem razão, truculências e abusos contra quem protesta pelas pancadas recebidas sem motivação além de ordens dadas de algum gabinete macabro e luxuoso. 

E as instituições terminam por atrair uma quantidade de possessos compulsivos, pessoas que precisariam de tratamento psicológico, espancadores, torturadores, sádicos de toda ordem, corruptos de todos os tipos, pra conviver com as pessoas que sinceramente pensam em fazer um bom trabalho pela segurança e pela paz na coletividade - estes andam acuados na estrutura atual, reféns de bandos armados capazes de qualquer crime amparados pelo Estado. Os sinceros não estão inertes e há quantidades enormes de prisões e investigações de elementos das forças de segurança, embora insuficiente pra conter a sanha agressiva de grandes parcelas destas forças. Crimes como o de Amarildo se contam aos milhares, acidentes como o de Douglas existem a qualquer momento, na abordagem agressiva que se faz nas periferias e favelas. 

É preciso desnudar a estrutura da sociedade, perceber a forma como ela é construída, a toda hora se levantam pontas do véu, há sinais em toda parte, é preciso disposição pra enxergar a realidade.

Por quê o Estado ataca a população? Por quê tanta sacanagem cotidiana com a grande maioria da população, espalhadas nas periferias e favelas, embora aglomeradas nesses lugares, como nos transportes, como na vida. 

Por quê o povo é sabotado em educação? Por quê é enganado pela mídia esmagadora? Por quê é reprimido, maltratado, contido, suspeito, hostilizado? Por quê o Estado ataca o povo? Por quê o senhor atirou em mim?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dogmas moralistas que atrasam o Brasil e intimidam políticos

Em um momento de recrudescimento da crise econômica internacional o Brasil experimenta uma virtual imunidade a ela. Fica até estranho, pois, dizer que este país também está em crise. A crise brasileira, no entanto, não atinge só o bolso do povo, mas a sua razão, levando-o a comportamentos irracionais ou virtualmente autodestrutivos.
A economia viceja, os empregos se reproduzem, o salário do trabalhador aumenta acima de uma taxa de inflação sob estrito controle, mas não está tudo bem.
Greves de policiais militares, milhares de famílias sendo atiradas na miséria em benefício de  ricaços picaretas, cidadãos sendo espancados e até assassinados por sua natureza íntima, ruas infestadas de crianças que se drogam, prostituem-se e roubam, sistemas de Educação e Saúde falidos…
Pode parecer estranho, inicialmente, mas tudo isso faz parte de uma mesma equação.
O Brasil é um país socialmente conflagrado. Os números de mortes violentas que produz equiparam-se ou superam até os de países em guerra. E o mais impressionante é que essa tragédia social se desenrola justamente em um momento em que esse país mais está distribuindo renda e oportunidades em toda a sua história.
Todavia, ainda é insuficiente. Este pais é superpovoado onde não tem espaço e subpovoado onde tem. Mas é na superpopulação nos centros urbanos que reside problema que nos esgota os recursos e que produz tensões sociais como as supracitadas.
Recentemente, em serviço voluntário prestado no rescaldo da tragédia humanitária em São José dos Campos que entrou para a história como O Massacre do Pinheirinho, o blogueiro depara com uma jovem mulher de menos de trinta anos em um dos abrigos visitados.
Ao começar a entrevistá-la para lhe tomar queixa que seria encaminhada à Defensoria Pública, crianças começam a acorrer para junto de si – uma escadinha etária de 8, 6, 5, 3 e 2 anos. Eram todos seus filhos.
A mulher se destaca de outras que se amontoam com os filhos naqueles depósitos de seres humanos que a prefeitura de São José dos Campos diz “abrigos”. É loira de olhos claros em meio a congêneres de desgraça em maioria negras ou mestiças. Como a quase totalidade das outras, não tem profissão e quase nenhuma instrução. Mas, à semelhança da maioria, tem religião.
Descobre-se que é paranaense, do interior do Estado, e que fugiu de casa quando engravidou pela primeira vez, antes dos 18 anos.
Mesmo com a forte queda de sua taxa de natalidade, o Brasil ainda sofre os efeitos da gravidez precoce e irresponsável. As mulheres de estratos sociais mais altos têm cada vez menos filhos, mas as dos estratos mais baixos entre os mais baixos continuam gerando proles enormes – imagine você, de classe média, tendo que sustentar CINCO filhos.
Se a reflexão for puramente racional, não se consegue entender essa loucura social que faz um país não oferecer a mulheres pobres e sem qualquer instrução um meio seguro de interromper gravidezes que lhes destruirão as vidas e as daqueles que irão pôr no mundo, se forem levadas a termo.
A sociedade brasileira praticamente obriga pessoas sem qualquer condição de procriação a gerarem legiões de crianças que irão crescer largadas ao léu, sem educação, sem saúde, sem orientação de qualquer espécie. Crianças para as quais a criminalidade acaba sendo o caminho mais fácil e atraente.
Não é à toa que temos presídios para crianças e adolescentes abarrotados daqueles que dogmas moralistas fizeram vir ao mundo, mas que após sua chegada se esqueceram deles.
Essa maioria esmagadora dos brasileiros que é contra a política de saúde pública adotada por praticamente todos os países de melhor qualidade de vida e desenvolvimento, o aborto, acha que interromper uma gestação quando a mulher tem dentro de si uma semente do tamanho de uma ervilha, se tanto, seria “crime contra a vida”, mas não dá a mínima para o que irá se tornar aquela criança.
Para controlar uma população que produz muito mais gente do que os sistemas de Educação, de Saúde e até o mercado de trabalho podem absorver, há que constituir um exercito, pois são pessoas que nascem e crescem sem qualquer estrutura familiar e que em parte significativa acabam caindo na marginalidade.
Chega-se, pois, a outro elemento da equação: até a criminalidade convencional seria insuficiente para abrigar a tantos que a maternidade irresponsável produz se não fosse outro dogma moralista. Só a proibição do consumo de drogas oferece “mercado” para tantos “trabalhadores” do crime.
Nenhuma outra atividade ilegal é tão difícil de combater e requer tanta “mão-de-obra” quanto o tráfico. Se, no limite, legalizássemos as drogas, centenas de milhares de pequenos criminosos não teriam mais serventia para organizações criminosas que exploram o mercado que o proibicionismo gera.
A suspensão da criminalização do uso de drogas e o tratamento clínico – em vez de policial – ao usuário vêm fazendo várias sociedades reduzirem custos com efeitos do tráfico e do consumo, o que lhes deixa recursos para investir na formação de sua juventude e na segurança pública.
Sem um mercado inesgotável para criminosos como é o tráfico de drogas e sem uma superpopulação forjada na obrigatoriedade de jovens imberbes e miseráveis levarem gravidezes até o fim, um país pode ter menos policiais, o que lhe permite pagar a eles melhores salários e lhes dar melhor formação.
Sem superpopulação e com educação de qualidade seria possível evitar que a população acalentasse tantos preconceitos. Estudos recentes mostram que o baixo nível de instrução é fator determinante da homofobia e do racismo, por exemplo.
Os que governam sabem de tudo isso. Pouco importa se são de direita ou de esquerda. No Brasil, quem vence eleições são políticos que sabem que é preciso legalizar o aborto e descriminalizar as drogas, mas ou se aproveitam da ignorância popular e exploram o preconceito ou ao menos não têm coragem de ficar publicamente do lado certo.
Não há dúvida de que um político que saísse em defesa do aborto ou da descriminalização das drogas jamais conseguiria se eleger para cargos no Poder Executivo que, para serem alcançados, requerem apoio da maioria de um eleitorado conservador nessas questões.
Por trás de tudo isso, as religiões. Só se sustentam com absoluto controle não só das mentes, mas dos corações e da própria alma dos “fiéis”. Manipular conceitos e valores intrínsecos permite às igrejas influírem em decisões eleitorais e, assim, tornam-se beneficiárias de uma bajulação de políticos que se traduz em isenções fiscais, financiamentos e favores análogos.
O grande dilema de um país como o Brasil, portanto, é descobrir como combater os dogmas moralistas que o atrasam. A falta dessa descoberta impõe obstáculos econômicos e sociais que acabam sendo intransponíveis. Chega a ser assustadora a descoberta de que a sociedade brasileira cria os seus próprios problemas.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Polícia abre inquérito para apurar estupro no BBB ´@rede_globo

Rede Globo cada vez no lamaçal da vergonha. O BBB é um cabaré virtual. Um caso de polícia. Tô fora!
O delegado Antonio Ricardo, titular da 32ª DP (Taquara), instaurou inquérito para apurar se houve estupro dentro da casa do Big Brother Brasil 12 na madrugada de domingo. Apesar de a Rede Globo ter retirado de seu site as cenas de Monique e Daniel embaixo do edredom, a polícia já tem um vídeo de sete minutos de duração que mostra a loura, aparentemente desacordada após uma noite de bebedeira, sendo bolinada pelo modelo. “Precisamos ter tudo em mãos para analisar as imagens e tentar entender o que de fato aconteceu”, afirmou o delegado ao site de VEJA.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Um minuto da sua indignação, por favor!

Parem tudo. Não quero falar da Copa de 2014, do escândalo do Ministério dos Transportes, da fusão dos supermercados, da política miúda, do namoro entre Dilma e FHC ou dos problemas mentais de Jair Bolsonaro. Quero falar de decência com o leitor desta página. Peço a você, leitor, que tenha a decência de se indignar, já que esta sociedade parece anestesiada e insensível ao impensável.
Peço indignação da imprensa, da classe política, do Executivo, do Legislativo, do Judiciário, da OAB, do Ministério Público, mas, antes de qualquer coisa, peço a sua indignação, leitor, porque é dela que nascerá alguma providência e o sentimento de um povo de que qualquer um de nós que for aviltado da forma como relatarei representará a todos, pois todos devemos nos sentir atingidos como se, não uma família pobre, mas cada um de nós tivesse sido vitimado
Na grande imprensa, só notas lacônicas relatando um crime de lesa-humanidade que não ganhou manchetes principais, não fez a ultra-esquerda e a direita aliadas pedirem CPIs, não gerou manifestação na avenida Paulista, não mereceu pronunciamento de prefeitos, governadores ou da presidente, mas que simboliza a vergonha maior para um povo.
O fato:......

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O enigma da maconha

A decisão unanime do STF autorizando atos públicos em defesa da legalização da maconha não apenas mostra como foram inconstitucionais as decisões judiciais de instâncias inferiores nos Estados que proibiram a realização de tais atos, mas exige o destaque do enigma que envolve a proibição de uma droga que está longe de ser a mais nociva.
A irracionalidade em relação à mais leve das drogas é tanta que a polícia paulista cometeu o desatino de reprimir com violência jovens cujo “crime” fora apenas o de exercer o direito constitucional de reunião, manifestação e de liberdade de opinião.....

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Um Larry Rother para Aécio Neves

Um dos fatores que furtaram da grande mídia o poder de influir na decisão de voto dos brasileiros fica evidente no recente caso envolvendo o ex-governador de Minas Gerais e atual senador tucano por esse Estado, Aécio Neves, flagrado dirigindo bêbado pelas ruas do Rio de Janeiro.
O mais interessante é que essa grande mídia, infestada por colunistas que cheiram mais do que bebem e que transformou em “fato”  invenções jamais comprovadas de que o ex-presidente Lula seria alcoólatra, por Aécio ser tucano não diz um A sobre suas bebedeiras públicas, sem falar nos boatos sobre uso de cocaína.....

domingo, 5 de dezembro de 2010

Capital e Crime

No momento em que todas as atenções estão voltadas à operação contra traficantes no Rio de Janeiro, é bom lembrar, que ainda há muito a fazer em relação ao tráfico de drogas, como aponta o jurista Wálter Maierovitc em artigo de Weissheimer na Carta Maior:

Os verdadeiros chefes do narcotráfico no Rio de Janeiro são ligados à rede do crime organizado transnacional que movimenta no sistema bancário internacional cerca de 400 bilhões de dólares por ano. Esses são os grandes responsáveis pela violência e pelo tráfico de drogas e armas em todo o mundo.

E como é muito mais difícil e complexo desbaratar o crime organizado na sua origem, vale a pena reler parte de artigo de Maria Orlana Pinassi, já publicado no blog AQUI, em que a autora, acertadamente, relaciona o capitalismo com o crime:


A hierarquia classista e trágica do crime

Aqui chego ao ponto que me fez refletir sobre a essencialidade do crime para a sociedade burguesa e aperspectiva de classe tão fielmente reproduzida em sua hierarquia. Sim, porque é no interior de toda essa discussão que se deve tratar a realidade da explosiva população carcerária que, apesar de confinada, vem apavorando com as notícias sobre as rebeliões que organiza e as ações que efetivamente lidera nas ruas. Essa perspectiva, portanto, é muito diferente do senso comum que analisa o problema a partir dele próprio,como se a sua existência fosse algo em si ou, quando muito, um problema de má gerência do Estado, reflexo da corrupção que emana da representação política (no Brasil e mundo), um problema de educação, enfim.

À essa altura da discussão realizada, uma questão fundamental é saber: quem são os indivíduos amotinados e organizados em torno do PCC? São bandidos? Quanto a isso parece não haver muita dúvida. Todos eles, de algum modo, violaram, muitas vezes violentamente, regras essenciais e necessárias à sociabilidade humana, mesmo quando submetidas à lógica do capital.

Aqueles indivíduos, amontoados em celas como animais no abatedouro, sujeitos às piores humilhações e violência física, um dia roubaram, traficaram, mataram, realizaram, em muitos dos casos, o trabalho sujo reservado à “escória” de uma estrutura social, seja ela legal ou ilegal.

Assim, tanto quanto Sherlock ou Hercule Poirot o fariam, eu pergunto: qual o motivo do crime cometido por eles? Pois bem, aqui reside toda a diferença entre os bandidos-que-vão-para-a-cadeia e os bandidos-que-não-vão-para-a-cadeia, entre os bandidos visíveis e os bandidos invisíveis, estes em geral assentados nos setores mais importantes, e até mesmo insuspeitos, da sociedade capitalista (5). Em princípio, portanto, parece que para aqueles que não-vão-para-a-cadeia, o crime é a oportunidade de acumular e fortalecer ainda mais a condição de burguês, a fim de conquistar todos os benefícios materiais e imateriais que correspondem a esse status quo, cujo pré-requisito é a propriedade privada, independentemente dos critérios de moral e de princípios éticos, hipocritamente constituídos para a sociedade de classes. Para os que vão-para-a-cadeia, o trabalho desenvolvido no interior da atividade criminosa constitui um meio de reproduzir as condições de sua vida de bandidos que, conscientemente, vão-sempre-voltar-para-a-cadeia.
O bandido visível nasce em bairro de pobres, é subnutrido, aplaca a fome com cola, com crack, não estuda, apanha e é submetido a sevícias em casa, na rua, na Febem, mais tarde, nas delegacias de polícia.

Aprende a empunhar a arma desde cedo, único meio de afirmação da sua existência e da sua reduzida auto-estima. A violência sempre foi a mediação mais familiar que o liga à vida e no seu mundo, tão óbvio quanto manejar uma arma, não há lugar para a fantasia, para o glamour, nem para o romance; toda perspectiva é imediata, sem rodeios, inclusive a necessidade premente de recorrer ao crime.

Mas isso está muito longe de ser uma espécie útil de darwinismo social, como nos faz supor a imprensa que trata de modo tão leviano a questão. Paira, então, a dúvida: antes de serem simplesmente os bandidos que realizam o trabalho sujo do mundo em que vivemos, de onde eles vêm? Evidente que sua árvore genealógica não pactua consangüinidade com as elites. Como regra, o passado é rude e proletário, condição progressivamente negada pelo capital legal em sua fase de decadência histórica. Assim, durante a crise estrutural o capital os expulsa pela porta da frente para readmiti-los pela porta dos fundos, sob as piores e mais precarizadas condições possíveis. Para eles, inexistem leis a regulamentar limite de idade, jornada de trabalho, insalubridade. A situação, enfim, remete aos piores dias vividos pela classe trabalhadora nos primórdios da revolução industrial. E sobre isso, vale ainda pensar nas campanhas que visam coibir o trabalho infantil, enquanto a própria sociedade condena os “aviõezinhos” do tráfico.

Esses homens e mulheres inexistem para a sociedade, a não ser quando saem dos morros, favelas, presídios para ameaçá-la. É nestas ocasiões que os “pacatos cidadãos de bem” despertam sua ira para ressuscitar a pena de morte, o discurso da autoridade, da repressão (6).
 Dialógico