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terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Os militares e a segurança pública no Brasil

 por Leonardo José Ostronoff e Felipe Ramos Garcia

31 de janeiro de 2022
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Por que recorrer aos militares, soldados treinados para guerra contra um inimigo externo, para lidar com seus próprios cidadãos dentro do estado de direito? A segurança pública seria um assunto da Defesa?

A segurança pública no Brasil ganhou uma expressão maior no debate público nos últimos anos, tornando-se um dos temas cruciais para nossa sociedade. Hoje é impossível ignorar tal tema, seja nos programas de governo, salas de aula, ou mesmo nas “conversas de bar”. Muitas vezes pautada pela direita, as políticas públicas de segurança são fundamentais para consolidação da democracia; por exemplo, é impossível pensar nossa sociedade contemporânea sem a existência da polícia, portanto, o tema é uma necessidade para os debates do campo da esquerda democrática. Uma ressalva fundamental, no presente artigo: a partir de agora, utilizaremos o termo “políticas públicas de segurança” em vez de “segurança pública”, pois o mesmo deve ser compreendido enquanto uma política pública integrada em outros temas como educação, assistência social, saúde, direitos humanos etc. Não se pode fazer política pública na área de segurança apartadas desses temas. A diminuição da violência somente tem eficácia dentro dessa prática de fazer e pensar de forma integrada as políticas.

Nesse sentido, é fundamental discutirmos a participação das Forças Armadas na política de segurança pública em nosso país, mais precisamente a utilização do mecanismo institucional da Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Apesar da regulação formal do mecanismo de intervenção militar por meio da GLO ter ocorrido apenas em 2001 – após a criação do Ministério da Defesa, em 1999 –, a atuação das Forças Armadas já fazia parte do repertório do Estado para administrar questões como greves de policiais, violência urbana e segurança de grande evento. As Forças Armadas têm sido empregadas desde, pelo menos, o início dos anos 1990, tendo como marco a Eco 92. Diversas GLOs foram realizadas nas últimas três décadas, destacando-se a Operação Arcanjo nos complexos do Alemão e Penha, bem como, a Intervenção Militar na Segurança Pública do Rio de Janeiro (Ostronoff, 2021). Luís Eduardo Soares (2000), ao relatar seus “quinhentos dias no front da segurança pública do Rio de Janeiro”, mostra a representatividade que os militares possuem no quadro interno dessa pasta institucional naquele estado. Segundo ele, ainda na Constituição de 1988, o Exército preservou um poder estratégico quando foi outorgado que as polícias militares devem responder a ele em última instância. A utilização das GLOs reforça esse poder, consolidando as políticas públicas de segurança não somente como caso de polícia, mas como assunto militar, por excelência. Essa associação tornou-se um senso comum que deve ser criticado com ênfase.

Ostronoff (2021) demonstra que até mesmo oficiais de alta patente do Exército brasileiro questionam a eficácia das GLOs, justamente porque as Forças Armadas são treinadas para combater o inimigo, não para lidar com cidadãos, função das forças de segurança pública, por sua vez. O mesmo autor, traz ainda relatos de oficiais que afirmam a incapacidade de se resolver o problema da violência urbana somente com a utilização da força, sendo necessário ações em educação, assistência social, saúde, moradia, ou seja, melhorar as condições de vida da população ofertando mais oportunidades e igualdade de condições sociais. Essa perspectiva pode parecer estranha se considerarmos o pensamento do grupo de oficiais que atualmente compõe o governo. Esse é um ponto importante, pois vai na contramão de todo pensamento bolsonarista, que tem como um dos pilares dessa “expressão política” justamente a ideia de um militarismo como o da ditadura militar de 1964, que preserva a ordem através das armas e da prática institucional de tortura, justificando combater um suposto inimigo interno: o comunismo em 1964 – ou os petistas hoje.

O cientista político Paulo Ribeiro da Cunha (2020), que pesquisa militares há mais de duas décadas, defende pensá-los não de forma homogênea ou como um bloco monolítico, mas como uma instituição que possui diferentes grupos e correntes internas que buscam assegurar seus interesses e suas pautas enquanto corporação. Evidentemente que existe uma série de similaridades envolvendo o grupo, principalmente no que diz respeito ao “ser militar” e ao “ser civil”, uma visão de mundo corporificada no “espírito militar”, como brilhantemente expõe o antropólogo Celso Castro (1990). Aliás essa é uma tese partilhada por vários pesquisadores e pesquisadoras que mais recentemente têm ganhado destaque no debate público. Neste artigo partilhamos dessa concepção, afinal, nas Ciências Sociais aprendemos que nada é lá muito homogêneo na sociedade, não sendo diferente com as instituições militares. Pensando com Foucault, diante das relações de poder, compreendemos a existência de diferentes sujeitos e posições que estão em disputa continuamente no interior das Forças Armadas. É um equívoco tratar militares como um todo uníssono, é preciso perceber as brechas e diferentes matizes que apresentam, isto é uma contribuição fundamental do pensamento sociológico para esse tema. Também, em termos políticos, não se pode ignorar que o Ministério da Defesa esteve sob treze anos de governo do PT, o que certamente teve uma influência nas Forças Armadas, principalmente se pensarmos nos investimentos federais feitos nesse período no campo militar. Aqui cabe uma crítica aos governos tanto de esquerda, como os de direita ou centro, que, apesar de corroborarem com o controle civil dos militares por meio da criação do Ministério da Defesa e a manutenção de civis como ministros, nunca ousaram repensar os currículos das escolas de formação de oficiais, mantendo a antiga noção presente na corporação de que as Forças Armadas, mas principalmente o Exército, seriam bastiões da democracia e do estado de direito – noção que tem sido replicada por alguns oficiais da ativa e da reserva e propagada por políticos e simpatizantes bolsonaristas. Esse nó ainda não desatinado contribui para reforçar a associação de senso comum dos militares com a manutenção e garantia da ordem em operações de segurança pública.

Helicópteros das três Forças Armadas (Marinha, Exército e Força Aérea) realizam manobras no Navio-Aeródromo Multipropósito Atlântico em movimento durante a Operação Poseidon 2021, coordenada pelo Ministério da Defesa. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Neste ponto, abre-se um questionamento interessante em termos institucionais: onde está alocada a secretaria nacional de segurança pública? Está no Ministério da Justiça, não no da Defesa. Portanto, em termos institucionais, o Estado brasileiro associa segurança pública a uma área civil e não militarizada. É possível então entender as GLOs como um reconhecimento, por parte federal, da incapacidade de certos estados, em determinados momentos, darem conta da segurança pública? No caso da intervenção militar no Rio de Janeiro em 2018, pode-se afirmar isso. Segundo Ostronoff (2021), tal ação militar não visou combater o crime organizado como GLOs anteriores, mas reorganizar institucionalmente a área de segurança pública daquele estado em termos financeiros e estruturais, em crise devido aos problemas de corrupção do governo Sergio Cabral. A intervenção tornou possível repassar altos montantes de verbas federais para o estado do Rio de Janeiro, o que pelo menos pagou salários do funcionalismo da área de segurança, que estavam atrasados na época. De fato, tal situação abria um precedente perigoso, tornando as forças de segurança do estado quase inoperantes, o que seria uma verdadeira crise institucional (Ostronoff, 2021). Mas por que recorrer aos militares, soldados treinados para guerra contra um inimigo externo, para lidar com seus próprios cidadãos dentro do estado de direito? Então a segurança pública é um assunto da Defesa? Discordamos veementemente dessa posição e afirmamos a necessidade da participação civil nos assuntos de segurança pública e defesa.

Entretanto, cabe ressaltar aqui que, apesar das críticas à participação dos militares das Forças Armadas em operações de segurança pública por meio do mecanismo da GLO, essas atuações ocorrem sempre a pedido do chefe de Estado. A Presidência da República tem a prerrogativa de acionar os militares para atuar nessas operações, seja por iniciativa própria, seja por pedido de governadores. Nesse sentido, é importante reforçar que essa relação simbiótica dos militares com a segurança pública não é apenas de responsabilidade dos oficiais. Embora existam alguns casos em que eles capitalizam politicamente sua atuação em operações via GLO,[1] de modo geral a atuação ocorre por conta de uma dificuldade crônica do Estado brasileiro em gerir a segurança pública, que está relacionada com outros problemas que fazem parte da gênese da formação do Brasil: racismo, desigualdade e autoritarismo.

Como proposta para segurança pública, trazemos a participação da sociedade civil através de conselhos e fóruns institucionais como fundamental. Um exemplo é o conselho nacional de juventude no governo Dilma Rousseff, que mostrou como tais espaços institucionais são eficazes, podendo ser referência para o campo das políticas públicas de segurança. Não podemos nos acomodar ao senso comum de que esse tema é caso exclusivo de polícia, muito menos de militares. Certamente que eles terão participação, mas é preciso ampliar o debate para além dos muros das bases e quartéis. A consolidação da democracia brasileira passa por uma outra concepção da segurança pública, ou seja, desmilitarizada, participativa e embasada pelos direitos humanos. Do contrário, continuaremos assistindo espetáculos militares através das GLOs, mas sem efetividade na transformação da situação social.

 

Leonardo José Ostronoff é sociólogo. Doutor em sociologia pela USP, possui pós-doutorado pela mesma universidade. Autor do livro Não existe almoço grátis (2021).

Felipe Ramos Garcia é sociólogo e doutorando em sociologia pela USP.

 

Referências

Castro, Celso. O Espírito Militar: um antropólogo na caserna. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.

Cunha, Paulo Ribeiro. Militares e militância: uma relação dialeticamente conflituosa. São Paulo: Editora Unesp, 2020.

Ostronoff, Leonardo José. Não existe almoço grátis – 1.ed. – Curitiba: Brazil Publishing, 2021. 268p.: il.; 21 cm. ISBN 978-65-5861-599-6.

Soares, Luís Eduardo. Meu casaco de general: 500 dias no front da segurança pública no Rio de Janeiro- São Paulo: Companhia das Letras, 2000. ISBN 85-359-0079-9.

[1] É o caso do general Braga Netto, que atuou na intervenção do Rio de Janeiro, foi ministro-chefe da Casa Civil e atualmente é ministro da Defesa.


https://diplomatique.org.br/os-militares-e-a-seguranca-publica-no-brasil/

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Pílulas antigas: a ascensão da extrema-direita




Abaixo, algumas pílulas sobre a ascensão da extrema-direita, publicadas no período em que sofremos uma de nossas maiores derrotas.

 

Por uma obscenidade de esquerda 

 

Lições sobre os erros do antifascismo europeu 

 

Quem são os porteiros do fascismo 

 

Os generais de Bolsonaro 

 

#EleNão X #PTnuncamais 

 

#FHsim 

 

Lula e o mais desastroso dos erros possíveis 

 

Nossa “Escala F” anda bem alta 

 

Duas máquinas de matar fascistas 

 

Aos que circulam em suas nuvenzinhas de inferno 

 

O que o inimigo nos tem a ensinar 

 

Atualizando a República de Weimar 

 

A esquerda do “porque sim” 

 

Desesperadamente otimistas 

 

Sobre a ascensão do fascismo na Itália de Mussolini 

 

No canto mais escuro do medo, uma luz 

 

Os genes recessivos do fascismo 

 

Quando a barbárie governa 

 

Pinóquios psicopatas no poder 

 

As famílias como hospedeiras de fake news 

 

Sob as patas de Bolsonaro 

 

A grande transformação e a grande escolha 

 

O Facebook apoia um candidato a Hitler nas Filipinas 

 

Do menos pior ao muito ruim, rumo a mais derrotas

DESCONSTRUÇÃO DO BRASIL A GALOPE: MENOS MÉDICOS, MENOS EMPREGOS, MENOS CASAS, MAIS MISERÁVEIS



Jair Bolsonaro está cumprindo o que prometeu: a desconstrução do Brasil segue em ritmo desembestado.

Parece que o país foi invadido por um exército de extermínio para não deixar pedra sobre pedra.

Num dos seus primeiros gestos de insanidade, o capitão alucinado expulsou do país os médicos cubanos porque eram comunistas (de direita ou de esquerda?).

Manchete da Folha desta quinta-feira conta o que aconteceu depois da invasão dos vândalos em Brasília:

"Em três meses, Mais Médicos tem 1.052 desistências após saída de cubanos".

(Conheça e apoie o projeto Jornalistas pela Democracia)

O programa Mais Médicos do governo de Lula agora virou o Menos Médicos de Bolsonaro, que está implantando também o Menos Empregos, Menos Casas, Menos Radares, Menos Comida e Menos Vergonha na Cara.

Sem nenhum plano de governo ao tomar posse, a não ser acabar com a Previdência pública, o comandante do bolsonarismo em marcha resolveu detonar todos os programas sociais dos governos petistas, um a um.
As obras do Minha Casa Minha Vida estão todas sendo paralisadas por falta de pagamento, e multidões de miseráveis dormem nas calçadas das cidades.
A violência grassa por toda parte dentro do programa Mais Mortes, com as polícias liberadas para matar. E o plano Moro ainda nem entrou em vigor.

Sem radares e lombadas, que o capitão mandou tirar das estradas, muito mais gente vai morrer, mas estamos livres das multas.

(Conheça e apoie o projeto Jornalistas pela Democracia)

Se algum guarda multar, será demitido, como aconteceu com o fiscal do Ibama que pegou Bolsonaro em flagrante pescando onde era proibido.

Só quem está com o emprego garantido é aquele inacreditável ministro da Educação, o colombiano que não sabe falar português, mas vai mudar os livros didáticos, para defender o Golpe de 64.

Para onde se olha, é só terra arrasada.

Em nome da "nova política", Bolsonaro vai receber hoje os presidentes dos partidos que ele detonou na campanha: Jucá, Kassab, Alckmin e companhia bela.

Assim segue o baile de mascarados, ao som dos latidos nas redes sociais, que agora querem comprar briga com o Hamas e expulsar russos e chineses da Venezuela.

Com o Itamaraty em chamas e o chanceler caçando inimigos por toda parte, o próximo alvo é o IBGE dominado por comunistas que não entendem de estatísticas.

Daqui a pouco, vai faltar general para controlar tudo, de acordo com os gostos do capitão afastado do Exército aos 33 anos, por indisciplina e problemas de saúde mental.

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Quem está se divertindo muito em Brasília é só o velho Centrão de Eduardo Cunha, assistindo de camarote ao massacre de Paulo Guedes e as trombadas dos indigentes "articuladores políticos" do governo, comandados por majores, coronéis, generais e delegados, e um sujeito muito esquisito chamado Onyx Lorenzoni.

Mercado, mídia, bancadas do boi, da bíblia e da bala, e todas as guildas que bancaram e levaram Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto, já estão todos perdendo a paciência.

Assim também já é demais!, devem estar todos pensando, depois que a nova ordem decretou que o nazismo é invenção da esquerda e a terra é plana.

Só falta o chanceler acusar o Papa Francisco de ser ateu, além de comunista, é claro.

E ainda nem chegamos aos 100 dias da lua de mel, até aqui uma eternidade de pesadelos.

Como tenho escrito, isso tem tudo para não acabar bem.

De que forma e quando vai acabar, ninguém sabe.

Façam suas apostas.

Vida que segue.

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sábado, 1 de dezembro de 2018

Sobre a onda obscurantista que varre o país. Relincha Brasil, a república dos jumentos.

por Pepe Damasco


Merece atenção uma mensagem publicada pelo juiz Rubens Casara em seu twitter:

“O empobrecimento subjetivo, que também leva à regressão do Eu, faz com que o brasileiro busque identificação com políticos, artistas, pastores, padres, comediantes e outras figuras públicas a partir daquilo que os une: a ignorância. Perdeu-se a vergonha de ser ignorante ou burro.”

Casara acertou na mosca: a onda obscurantista que varre o país pode ser comparada a uma espécie de epidemia galopante de burrice. Até há pouco tempo, era comum numa roda de amigos ouvir expressões do tipo “sou apolítico” ou “nada entendo de política, por isso não vou opinar” ou ainda a frase-síntese da alienação: “política, religião e futebol não se discutem.”

Se essa autoexclusão das pessoas do debate político revelava um preocupante déficit de consciência cidadã e participação democrática, hoje observamos um fenômeno inverso. Todos têm opinião pronta e acabada sobre política, mesmo que jamais tenham lido uma linha a respeito, mesmo sem terem visto um filme sequer capaz de lhes fazer saltar a veia crítica, mesmo que sistematicamente seus ouvidos estejam bloqueados para ideias e argumentos fora da mediocridade do senso comum.
É inescapável a constatação de que só um país profundamente ignorante e doente de ódio pode eleger um boçal do calibre de um Bolsonaro. E que fique claro: não me refiro à educação e cultura formais e eruditas. Lula, o melhor presidente da história do país, não tem curso superior, mas sempre demonstrou capacidade para discutir qualquer tema com os doutores que dão as cartas na política há mais de 500 anos. De Inteligência acima da média, Lula, além de um comunicador inigualável, tem sua genialidade política reconhecida até por adversários.

O meu ponto principal é o analfabetismo político que assola inclusive boa parte das classes média e alta, gente que teve acesso à universidade, mas segue iletrada e incapaz de deixar de raciocinar de forma simplista e binária.

Não há como fazê-la entender que seu ódio aos pobres só alimenta uma sociedade vergonhosamente desigual e excludente, cujos índices de criminalidade  crescentes se voltam contra a própria elite.

Enquanto os bem-nascidos se limitam a repetir os chavões e mantras reacionários do oligopólio da mídia, na parte de baixo da pirâmide os pastores charlatães, apresentadores de programas populares de televisão e o patrão antipetista até a raiz dos cabelos cuidam de fazer a cabeça do povão, naturalizando a violência contra pobres e negros. Pronto, está criado o terreno fértil onde vicejam levas e levas de políticos canalhas, que se elegem com o voto popular para depois colocarem seus mandatos a serviço dos ricos e do roubo dos direitos da maioria.

E neste oceano de estupidez muitos perderam qualquer constrangimento de expressar falta de conhecimentos básicos sobre o que estão falando ou escrevendo nas redes sociais. 

Babam contra a Lei Rouanet, mas se perguntados sobre o que ela significa emudecem; veem comunismo na própria sombra, mas desconhecem os fundamentos  mais elementares dessa ideologia; confundem bandeira de partido com bandeira nacional; tacham a Venezuela de ditadura, mas ignoram que é o país da América Latina que mais realizou eleições na última década; esconjuram Cuba, mas não têm  a menor noção dos avanços sociais extraordinários da ilha revolucionária. Ah, e o supra sumo da ignorância da história : eles estão convencidos de que o nazismo foi de esquerda.

Esse quadro ajuda a entender porque na campanha  eleitoral os “fake news bolsonaristas” mais  absurdos e grotescos influenciaram tantos eleitores. Afinal, só um completo imbecil  pode dar crédito ao  “kit gay” ou às mamadeiras simulando a genitália masculina.

*Nota(s) do blog Frasista:
1 – O original encontra-se em blogdobepe.com.br,
2 – Imagens ilustrativas editadas/inseridas pelo blog Frasista,
3 – E o resultado de tudo isso aí acima, graças aos ‘intéresses de expertos’ aliados a ignorância de estúpidos eleitores que votaram e elegeram uma fraude à presidência da república é explicitado na frase abaixo do juiz Casara e é hoje, uma sinistra realidade.

http://frasistaneofito.blogspot.com/

A GRANDE VERGONHA NACIONAL NÃO É A CORRUPÇÃO



O Brasil é a 8ª maior economia do mundo. Segundo reportagem do El País, cairemos uma posição no ano que vem e ficaremos com o 9º maior PIB do planeta Terra. Grandes potências e países desenvolvidos disputam posições conosco no ranking das maiores economias: Itália, Canadá, Reino Unido, Rússia.
Maravilha, não?
Agora vamos à nossa vergonha.
No ranking dos países mais desiguais do mundo, “subimos” uma posição e ocupamos o 9º lugar. Se atingirmos mesmo, no ano que vem, a 9ª colocação na lista das maiores economias, estará realizada a macabra ironia histórica.
O Brasil, um país tão rico em recursos naturais, população e PIB, será a 9ª maior economia do planeta, mas também o 9º país mais desigual do mundo.
Nesta lista da vergonha temos a companhia, à nossa frente, de oito países africanos, impiedosamente explorados e violentados por países que ostentam boas colocações no ranking da riqueza.

Na última segunda-feira (26), a ONG Oxfam divulgou relatório o qual aponta que a desigualdade de renda parou de cair no Brasil, após 15 anos de queda (leia aqui).
E o que aconteceu entre 2016 e 2017, quando estagnamos no combate à desigualdade?
O governo eleito em 2014 foi derrubado por um golpe midiático, judicial e parlamentar e, no seu lugar, assumiu um governo cujas “soluções” para a crise foram basicamente duas: privatizar patrimônio público e aprovar a Emenda Constitucional do teto dos gastos.
Com esta EC, congelou-se os gastos com educação, infraestrutura, saúde e etc., ou seja, os gastos que podem contribuir para aumentar a renda média da população e a sua qualidade de vida. Segundo a Oxfam, o volume de gastos sociais do Brasil retrocedeu ao patamar de 2001 e gastamos miseráveis 5% do nosso orçamento com educação.
Enquanto isso, gastamos algo próximo da metade do nosso orçamento com o pagamento de uma dívida que nunca foi auditada. É uma caixa preta que suga algo em torno de 50% do nosso orçamento todo ano! É claro que esses gastos com a dívida pública, que vão direto para os bancos e especuladores, não entraram na EC do teto dos gastos. No dinheiro que é sugado da população e vai direto para os super ricos, ninguém toca.
A tendência, com Bolsonaro, é tal quadro desesperador aprofundar-se ainda mais.
Procure alguma declaração do presidente eleito sobre desigualdade social. Em uma pesquisa rápida, achei apenas uma de abril, em que ele fala em militarizar escolas. Só.
Seu programa econômico, ou o de Paulo Guedes, vai na linha do governo Temer, mas muito mais radical. Vender ainda mais patrimônio público e cortar ainda mais gastos sociais.
Ora, isso obviamente não vai funcionar. Vai aumentar ainda mais a pobreza e a miséria. A morte de brasileiros e brasileiras.
A direita sabe disso, mas evidentemente não pode dizer. Resta mudar de assunto e ficar gritando que o problema é a corrupção dos políticos ou que prendemos e matamos poucos bandidos.
A corrupção dos políticos deve ser combatida sim, mas a nossa grande vergonha, a chaga que impede que tenhamos soluções duradouras para os nossos problemas, é a desigualdade social. Vivemos em um mundo capitalista, em que todos têm acesso à propaganda do sistema e recebem a mensagem: para ter valor na nossa sociedade, para ter algum status, é necessário possuir bens materiais caros e “de marca” – roupas, celulares, acessórios, carros, etc.
Todos são inoculados dia e noite com a propaganda capitalista, mas poucos têm acesso aos bens de consumo que conferem respeitabilidade social. É evidente que no 9º país mais desigual do planeta a criminalidade só pode explodir. Venda a ideia de que é preciso ter bens materiais para ser alguém e não permita que a maioria da população tenha acesso a esses bens, e pronto: temos a receita para a criação de um exército de criminosos.
O que é ótimo para o sistema. Os Datenas da vida podem colocar a culpa nos assaltantes de celular, transformando-os em inimigos do país; Bolsonaros da vida podem dizer que a solução é sair prendendo e matando todos eles; e a Justiça pode fazer o serviço sujo e ainda garantir o gordo aumento dos ministros do STF e juízes. Mesmo assim, a fábrica de criminosos pé-rapados não terá fim.
A pobreza e a miséria descomunais que atingem a 8ª maior economia do planeta garantem que continuaremos a produzir os bodes expiatórios para que os verdadeiros criminosos assaltem o orçamento do país. E aí não se trata de vender uma buchinha de cocaína na praça ou roubar um par de tênis, mas tirar bilhões de dinheiro público que poderiam ser investidos na melhora da qualidade de vida da população e revertidos em aumento na renda para colocar em poucas e gordas – figurativamente – mãos.
Enquanto isso, o futuro ministro da Educação diz que é “bobagem pensar na democratização da universidade”, porque nem todo mundo gosta ou quer fazer uma faculdade. “O segundo grau teria como finalidade mostrar ao aluno que ele pode colocar em prática os conhecimentos e ganhar dinheiro com isso. Como os youtubers, ganham dinheiro sem enfrentar uma universidade”, disse o inacreditável ministro.
Quem não gosta de universidade para todos é o conluio de espoliadores que quer dar apenas duas opções para a maioria da população brasileira: ou trabalhar duro e ganhar uma miséria ou ir para a criminalidade.
Não, senhor ministro, virar youtuber não é uma opção válida. É apenas uma sugestão estúpida e cruel da sua parte.
Como é estúpido e cruel o projeto da direita para o país.

PEDRO BREIER

Pedro Breier, colunista d'O Cafezinho, é formado em direito mas gosta mesmo é de jornalismo. Nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo.

FAZ SENTIDO TORCER PARA O GOVERNO BOLSONARO “DAR CERTO”?



Um fenômeno interessante ocorreu após a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais.
Muitos eleitores do futuro presidente ficaram espantados com o fato de tanta gente se declarar resistência e começar, logo após a divulgação do resultado, a fazer oposição ao novo governo.
As postagens nas redes sociais são na linha do “O cara nem assumiu ainda e vocês já estão torcendo contra?” ou “Vamos esperar, tem que dar um tempo para saber se vai dar certo!”.
Esse tipo de postura indica um desconhecimento de como funciona o processo político. Mas não se preocupem, este artigo vai esclarecer para vocês como funciona a coisa.
A disputa política institucional é, em essência, uma disputa de projetos para o país, o estado ou a cidade.
Na atual quadra histórica em que nos encontramos, podemos dizer, em um resumo extremamente simplista, que a esquerda acredita que o Estado tem papel central na indução do desenvolvimento do país e na melhora da qualidade de vida das pessoas, enquanto a direita pensa que o Estado mais atrapalha do que ajuda e o livre mercado, praticamente sozinho, é capaz de prover as necessidades da população.
São projetos antagônicos, como se vê.
Não faz sentido algum, para alguém de esquerda, “torcer para dar certo” um governo cujo programa é uma espécie de projeto Temer turbinado: mais venda de patrimônio público, mais corte de investimentos e mais retirada de direitos.
Isso simplesmente não tem como dar certo.
Se você, ainda assim, quiser esperar para ver, sugiro uma reflexão sobre as patacoadas que Bolsonaro está produzindo ainda antes de ser empossado.
O alinhamento canino a Trump, por exemplo.
Eduardo Bolsonaro posou com o boné do presidente dos EUA, como se vê na foto que ilustra este post. É uma atitude positivamente idiota, visto que em 2020 haverá eleição por lá e, caso Trump seja derrotado, teremos dado uma demonstração gratuita de hostilidade ao possível presidente democrata.
Tem como “torcer para dar certo” um movimento tão evidentemente estúpido?
Eduardo anunciou, usando o famigerado boné, que é certa a mudança da embaixada do Brasil em Israel. Não há um mísero benefício nessa atitude – a não ser que você considere que bajular Trump é bom para o nosso país. O potencial de prejuízos, por sua vez, é altíssimo: danos à imagem diplomática do Brasil (apenas a Guatemala seguiu os EUA nessa verdadeira provocação de Trump aos países árabes), danos às exportações do Brasil para os países árabes (sobre isso, Eduardo tranquilizou a nação: “temos que ter alguma maneira de tentar suprir caso venha a ocorrer esse tipo de retaliação”; ufa!) e a hipótese, há pouquíssimo tempo atrás impensável, de colocar o Brasil na rota do terrorismo internacional.
Repito: tem como “torcer para dar certo” um movimento tão evidentemente estúpido?
É claro que uma oposição inteligente também presta atenção nas contradições internas do futuro governo.
O ministro de Minas e Energia anunciado por Bolsonaro, por exemplo, é apontado como de viés nacionalista em algumas questões importantes, como a construção do submarino nuclear brasileiro.
Sinal de que, muito embora a porção entreguista do futuro governo seja patentemente mais forte, pode haver uma disputa de rumos com o nacionalismo estratégico que remanesce entre os militares. E isso é bom.
O negócio, portanto, é torcer e, muito mais importante, lutar para que o governo Bolsonaro não leve à cabo o projeto excludente e emtreguista que está anunciado.

PEDRO BREIER

Pedro Breier, colunista d'O Cafezinho, é formado em direito mas gosta mesmo é de jornalismo. Nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O futebol entre o tribalismo e o nacionalismo


Em artigo na Folha de 10/06/2018, o historiador Hilário Franco Júnior lembra que o futebol surgiu antes da consolidação dos estados nacionais. Teria, assim, uma vocação “tribalista”. Daí, diz ele, não faz sentido querer “transformar o tribalismo em nacionalismo.”

No último mundial de clubes, por exemplo, dizer que "o Grêmio é Brasil" despreza importantes “rivalidades tribais”. Tanto os torcedores do Internacional como os de todos os outros times vencedores daquela competição ficaram contra o tricolor gaúcho. Os sentimentos tribais teriam ficado acima de um “hipotético sentimento nacional no qual não se viam representados”.

O fenômeno não é exclusividade de nosso futebol. O historiador lembra a recente final da Liga Europa entre Atlético de Madrid e Olympique de Marseille. Nos respectivos países, as torcidas rivais de cada time queriam a derrota de seus conterrâneos. “Tratava-se de assunto tribal, não nacional”.

Para Franco Jr.:

...paixões violentas podem surgir tanto de sentimentos tribais como de sentimentos nacionais, mas estes últimos são mais difíceis de serem controlados devido ao seu alto grau de institucionalização e seus amplos recursos materiais e humanos.

A livre circulação dos atletas fez surgirem “verdadeiras seleções internacionais agregadas sob bandeiras tribais”. Desse modo, já “não é necessário esperar quatro anos para ver os nomes mais talentosos atuando lado a lado; basta acompanhar os principais campeonatos nacionais europeus e suas competições continentais”.

Por isso, não se pode esperar que a Copa do Mundo seja “instrumento de pacificação entre países de boa vontade”, como queria seu criador, Jules Rimet. “Basta que seja uma disputa esportiva limpa dentro e fora do campo”.

E mesmo isso já é pedir muito!

https://pilulas-diarias.blogspot.com/2018/06/o-futebol-entre-o-tribalismo-e-o.html

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Temer diz cumprir lei, mas poderia valorizar salário mínimo se quisesse

O valor passou de R$ 937 para R$ 954 reais – o menor aumento dos últimos 24 anos

Brasil de Fato | Brasília (DF)
,
Ouça a matéria:
Segundo cálculos do Dieese, o salário mínimo ideal para sustentar uma família de quatro pessoas seria de mais de R$ 3,7 mil / Tânia Rego/ABr
Este ano o salário mínimo aumentou apenas 17 reais. O valor passou de R$ 937 para R$ 954 – o menor aumento dos últimos 24 anos, diga-se de passagem. Um belo presente de Ano-Novo, hein?!
O presidente golpista Michel Temer justifica que cumpriu a legislação, mas o que ele não diz é que poderia dar um aumento maior se quisesse. É que o espírito da lei é justamente a valorização do salário mínimo.
O Congresso Nacional havia aprovado o orçamento com um valor um pouquinho maior. Mas o governo Temer resolveu baixar ainda mais. Vejam só: num contexto em que os bens de consumo se tornam cada dia mais caros e inacessíveis especialmente para a população de baixa renda, o governo impõe ao trabalhador um aumento que mal faz diferença.
Para se ter uma ideia, segundo os cálculos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo ideal para sustentar uma família de quatro pessoas seria de mais de R$ 3,7 mil. Um valor bem distante da realidade que o trabalhador brasileiro tem que enfrentar mês a mês.
Temer diz – e a grande mídia reforça o sermão – que o país estaria sem dinheiro e precisando reduzir custos, mas, ao mesmo tempo, o governo continua patrocinando barganhas para negociar votos no Congresso e aprovar medidas que retiram mais direitos dos trabalhadores. Ou seja, o que falta para promover um aumento real e mais justo no salário mínimo é vontade política.
Vale reforçar que o valor do salário mínimo é algo que diz respeito à dignidade do trabalhador e também à economia do país, porque é ele que tem a capacidade de gerar – ou não – um círculo virtuoso de consumo e de renda. No final das contas, a situação atual é esta: o gás de cozinha está mais caro, a conta de luz também, mas o bolso continua sem dar conta das nossas necessidades.
Edição: Camila Maciel
https://www.brasildefato.com.br/2018/01/04/analise-or-temer-diz-cumprir-lei-mas-poderia-valorizar-salario-minimo-se-quisesse/