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domingo, 15 de dezembro de 2019

UM INVENTÁRIO DAS TRAGÉDIAS E DOS DESATINOS NOSSOS DE CADA DIA


Quando ligamos a TV para assistir ao noticiário (cada vez mais policialesco), desabam sobre nós as tragédias humanas mundo afora. 

O que está na base de tantos desatinos, justamente num momento em que a humanidade atinge um elevado grau de conhecimentos nos vários ramos das ciências (que vão desde a Inteligência artificial dos robôs até a clonagem de seres vivos, passando pelos fenômenos da computação e comunicação instantânea via satélite)?

Por que, apesar de tantos avanços tecnológicos, aumentam a fome no mundo, a violência urbana e a violência das guerras, ocorrem sérias alterações climáticas que incomodam generalizadamente (sem a seletividade social e territorial da exploração econômica) os habitantes deste sofrido planeta, inquietando inclusive a população dos habitantes dos países economicamente desenvolvidos, que pressiona seus governos impotentes para a resolução dos agudos problemas?

Constatemos, inicialmente, apenas os fatos, como numa fotografia que os retrata, sem sobre eles nos pronunciar, deixando as conclusões para o final:
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A morte de pessoas nos hospitais do RJ devido à greve dos profissionais da saúde por falta de pagamento dos salários – tanto o prefeito Marcelo Crivella como o governador Wilson Witzel foram eleitos com base na estupefação dos eleitores ao constatarem a falência do município e do estado do Rio de Janeiro, que vivem ambos às voltas com a corrupção, a precariedade das demandas públicas, as dificuldades de pagamento dos salários de servidores e pensionistas e tantas outras mazelas decorrentes de atual situação falimentar das contas públicas. 

As suas eleições devem-se ao falacioso discurso conservador e fundamentalista religioso segundo o qual, sob as bênçãos de um Deus por eles imaginado e corporificado, e eliminando-se a corrupção com o dinheiro público e matando os bandidos, tudo estaria resolvido.
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A saída do Reino Unido da União Europeia – num processo eletivo parecido com aquele dos EUA, no qual nem sempre vence quem tem a maioria de votos, os britânicos elegeram uma maioria de parlamentares conservadores que apoiam Boris Johnson, decretando a vitória do Brexit. 

Fizeram-no por estarem cansados da paralisia que acometeu o reino nos últimos anos, enquanto se debatiam as conveniências e prejuízos econômicos implícitos no desligamento das franquias estabelecidas pelo mercado comum europeu.
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A posição do Brasil e dos governos mundo afora sobre as questões climáticas -  após rejeitar ser sede da COP25, a conferência do clima que está sendo realizada em Madri, o presidente Jair Bolsonaro agride a estrela do evento, Greta Thunberg, chamando-a de pirralha, horas antes de ir às bancas a revista Time que a traz na capa e anuncia sua escolha como personalidade do ano de 2019.

O Brasil, que até há bem pouco tempo era reconhecidos como um país engajado na luta pela preservação do meio ambiente, agora está sendo tratado mundialmente como vilão ecológico. 

A COP25 se vê diante de impasses por causa da priorização mundial da produção de bens de consumo (da qual os Estados retiram os impostos) e da prevalência de uma forma de vida urbana que emite os gases poluentes causadores do efeito-estufa (responsável pelo aquecimento global que pode causar danos graves à produção de alimentos no curto prazo, e exterminar a vida animal e vegetal do Planeta em médio prazo).

Danos aos mares, rios e solos aí acrescidos. 
Os Estados Unidos e a China esboçam acordos bilaterais sobre o protecionismo de mercado – como todos querem vender mais do que compram e por valores diferenciados (produtos manufaturados e tecnológicos com preços superiores aos produtos primários), estabelece-se a impasse comercial e economicamente irresolúvel. 

O chamado comércio de mão única, no qual quem tem maior nível de produtividade e/ou baixos salários ganha a guerra concorrencial de mercado e se afirma perante os perdedores como economicamente superior, provoca essa disputa de impossível conciliação pacífica, prenunciando a morte dos contendores e dos que ficam à margem desse processo autofágico (tido hipocritamente como saudável).
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A previdência social na Europa, França e Bahia... – comemora-se com euforia a redução das pensões previdenciárias como forma de reequilibrar as contas públicas, que marchavam para um descontrole inadministrável.

Às pessoas comuns tal procedimento é apresentado como saudável para a retomada do crescimento econômico que poderia proporcionar o ajuste fiscal e resolver a mais grave de todos os problemas sociais da atualidade: o desemprego estrutural.

Na França, uma greve contra a reforma previdenciária paralisa o país há dias, algo parecido com a greve geral de maio de 1968. 

A classe média dos países que se desenvolveram industrialmente vendendo seus produtos para o mundo, como é o caso da França, agora está perdendo poder de compra em razão do deslocamento da produção globalizada de mercadorias que se instala nos países de mão-de-obra barata (trabalho abstrato), que reduz empregos locais, salários, contribuições previdenciárias e impostos.

A diferença agora é que as populações cultas europeias e sem perspectivas de ganhos (principalmente a juventude) tem poder de pressão social e não aceitam ficar caladas diante dessa realidade de debacle no seu poder de consumo.  

No Brasil, o clima é de júbilo pela reforma previdenciária, á qual deve seguir-se a reforma administrativa e outras maravilhosos medidas restritivas de direitos que devem salvar o que muitos consideram como maravilhoso: o capitalismo e seu Estado, agora tido como incorruptível... 
A aprovação de medidas anti-crime no Brasil  o Congresso Nacional acaba de aprovar um pacote de medidas penais punitivas que representam maior rigor no combate ao crime, seja o do colarinho branco ou o dos pés-de-chinelo.

Já temos um sistema presidiário que não suporta tantos criminosos produzidos por uma sociedade violenta e em constante tensão e o que se prevê é um aumento dos insuportáveis gastos com a manutenção de presos (pretos e pobres em sua maioria).

Não é por menos que o atual governo quis aprovar o instituto do excludente de ilicitude para policiais em serviço (também conhecido como licença para matar), o qual iria açular ainda mais o espírito perverso e psicótico de alguns policiais sádicos que, ao invés de cumprirem a missão de proteger a sociedade, extravasam seus instintos de dominação e poder. 

Todas as proposições governamentais são justificadas como medidas de combate ao crime, à corrupção com o dinheiro público, e justificadas como necessárias à pacificação da sociedade.
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A explosão social chilena  o Chile, que até outro dia era a exceção que confirma a regra, ou seja, era o patinho bonito da América do Sul, com seus indicadores econômicos globais positivos que mascaravam a realidade do povo, explodiu numa revolta social na qual dezenas de pessoas morreram e muitas outras foram irremediavelmente mutiladas (cegueira total e deformidades físicas por agressão à bala) graças à ação do governo democrático de Sebastian Piñera. 

O liberalismo ortodoxo da escola de Chicago demonstrou a sua verdadeira face: concentração de renda; ajuste fiscal às custas do sacrifício de pensionistas; atendimento restrito das demandas sociais, e por aí vai...

O Brasil que se espelhava no Chile, com economistas da mesma escola de pensamento econômico, deve botar as barbas de molho?
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Sobre a inversão de valores nos costumes no Brasil – o guru astrológico Olavo de Carvalho, que grava filmes com um portentoso cachimbo nos lábios (demonstrando quão benéfica é a ingestão da nicotina para a população), se propõe reescrever a história ao seu modo. Algo mais ou menos assim:
— Zumbi dos Palmares se torna feitor de escravos; 
— Tiradentes deve virar um espião da Coroa portuguesa; 
— Silvério dos Reis merece ser condecorado pela Polícia Federal como delator de corrupção; 
— o Barão do Rio Branco queria vender a Amazônia aos comunistas; 
— Garrincha combinou com os russos para ganhar a Copa do Mundo de 1958; 
— Carmem Miranda era uma quinta coluna brasileira na 2ª Guerra Mundial e nunca cantou nada; e
— Tom Jobim e Vinicius de Morais, na peça Orfeu da Conceição, faziam apologia da escravidão, a qual, segundo a seita olavista, teria benéfica para os negros do Brasil;
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Vamos ficar por aqui neste inventário de terror, apesar de existirem muitos outros retratos sociais que poderíamos expor, para concluirmos sobre a causa comum dessa tragédia mundial sob a forma de algumas indagações:
— por que há um mutismo em relação à possibilidade de um novo modo de produção social, que não seja permeado pela competição fratricida da guerra concorrencial de mercado?
— por que, ao invés de combatermos infrutiferamente a tradicional corrupção com o dinheiro público, não discutimos uma organização social horizontalizada, sem poder estatal e cobrança de impostos?
— por que temos de aceitar o ruim para evitarmos o pior, como é o caso da restrição de direitos e ganhos civilizatórios em curso?

Todos os fatos acima narrados, de diferentes matizes, têm um ponto em comum: uma relação social fetichista, reificada, na qual coisas inanimadas (as mercadorias) ganham vida e comandam as nossas vidas.

Somente com a superação da forma-valor, relação social mediada pelo dinheiro e mercadorias cuja forma está em flagrante contradição com o conteúdo, poderemos salvar as nossas vidas e a vida do planeta que nos abriga. (por Dalton Rosado)  



terça-feira, 12 de novembro de 2019

TIMING DE TCHUTCHUCA: GUEDES ESCOLHEU UM MOMENTO EM QUE O MUNDO PEGA FOGO PARA JOGAR GASOLINA NA NOSSA FOGUEIRA


TIMING DE TCHUTCHUCA: GUEDES ESCOLHEU UM MOMENTO EM QUE O MUNDO PEGA FOGO PARA JOGAR GASOLINA NA NOSSA FOGUEIRA

"No frigir dos ovos, Evo foi o grande inimigo de si mesmo"
O golpe de Estado contra Evo Morales é o desfecho de um processo de instabilidade política propiciada pelo atingimento doa limites da expansão capitalista na Bolívia. 

Limite não muito bem expresso em número de PIB, mas perceptível nos indicadores econômicos do dia a dia do povo boliviano. 

O resultado foi a erosão da base de apoio de Evo, levando à fragilização de sua liderança, fato já visível na derrota sofrida por ele no plebiscito sobre seu quarto mandato. 

Político hábil ao estilo lulista, Evo acabou tendo forçar uma situação impraticável e, com isto, deu munição à direita boliviana, de matriz racista, que tenta há anos apear o presidente do poder e reverter os avanços políticos e sociais lá registrados. No frigir dos ovos, Evo foi o grande inimigo de si mesmo. 

Mas, não é possível considerar a situação boliviana em separado do quadro maior internacional. No mundo inteiro, insurreições, revoltas ou impasses políticos assolam o sistema planetário de produção de valor. 

No centro do capitalismo, o impeachment de Trump avança, tornando-se, cada vez mais, uma luta aberta entre a Presidência da República e o Congresso.  
"Luta aberta entre a Presidência da República e o Congresso"

Numa situação jamais vista na história dos Estados Unidos, o presidente recusa-se terminantemente a colaborar com o Legislativo, faz ameaças aos congressistas e se queixa abertamente de que estariam tentando dar um golpe de estado contra ele.

Na Europa, o drama do Brexit leva o Reino Unido a mais uma eleição e ameaça seriamente o futuro da unidade do país. Escoceses querem novo plebiscito sobre independência e os norte-irlandeses não admitem o fechamento de suas fronteiras com a República da Irlanda. 

Na França, Macron se sustenta a duras penas, após a crise dos coletes amarelos, a qual foi postergada, mas nem de longe solucionada. 

Na Espanha, uma crise política paralisa o país há pelo menos três anos, impossibilitando a formação de um governo, pois nenhum partido consegue alcançar a maioria. O separatismo catalão aguça ainda mais os problemas, levando igualmente a dúvidas sobre o futuro da unidade nacional. 

Podemos considerar a crise planetária como estando ainda em limites civilizados no centro do capitalismo. A paralisia das instituições e a possível dissolução de estados nacionais ainda é uma forma relativamente branda de manifestação da enfermidade que assola o dito cujo neste início de século. 
"A crise dos coletes amarelos nem de longe foi solucionada"
Até quando a fervura ficará neste nível por lá é algo complicado de se prever, mas caso se realizem as previsões econômicas de aprofundamento da crise atual, o centro também pode entrar em erupção completa. 

Se formos para a periferia, a coisa fica pior, com o nível de violência muito mais intenso e com os poderes abertamente saindo de seus esquadros. 

Chile e Haiti vivem levantes populares há semanas, já com mortes na casa das dezenas. O Equador era palco até outro dia de massivos protestos que quase levaram à queda do presidente. 

Na Ásia, o Iraque passa por imensos levantes populares há pelo menos uma semana. Hong Kong sofre há meses com confrontos nas ruas entre manifestantes e policiais, enquanto a Indonésia é varrida por manifestações estudantis. 

Onde não há levantes populares, há paralisia política e bateção de cabeça entre as forças institucionais, resultado do colapso econômico processado no mundo desde a grande crise dos anos 2008-2009. 

O empobrecimento generalizado, o desaparecimento da classe média, o alto custo de vida e a estagnação econômica geram inconformidade global. 
Na 6ª feira passada, o povo chileno novamente foi às ruas exigir a renúncia de Piñera


O impacto é maior e mais doloroso na periferia, onde o baixo poder financeiro das populações torna a situação mais dramática. 

Neste quadro, as elites dirigentes mais realistas já se deram conta da impossibilidade de simplesmente seguirem adiante com suas antigas receitas de austeridade fiscal e arrocho sobre o povo. 

Até bilionários estadunidenses já admitem a necessidade da taxação de suas pornográficas fortunas, além da criação de mecanismos de proteção social mínimos. E o próprio FMI mudou seu clássico discurso neoliberal e hoje pensa de modo menos ortodoxo. 

Por isso, fica mais chocante a política seguida por Paulo Guedes e aplaudida pela plutocracia nacional. Com atraso de décadas, Guedes tenta implantar no Brasil o que já não é seguido em quase lugar nenhum do mundo. 
"O medíocre Guedes acenderá o estopim da revolução brasileira?"

Mais, tenta aplicar um modelo que comprovadamente conduziu a toda essa condição crítica hoje vivenciada e que faz explodir as ruas, os parlamentos e os palácios governamentais. 

Guedes e sua trupe, alheios à realidade, pretendem jogar gasolina no fogo ainda brando que se aproxima do barril de pólvora brasileiro. Só conseguirão com isto acelerar a explosão. 

No entanto, talvez esta seja a forma da história se acelerar e efetivar suas rupturas, com as classes dominantes apertando o parafuso e involuntariamente empurrando os subalternos para a ruptura. 

Foi assim na Inglaterra e na França quando, diante da penúria social, os aristocratas resolveram impor mais impostos ao povo, daí resultando a eclosão das revoluções que acabaram levando tais insensatos a perderem tudo, de cavalos aos pescoços. 

Será, então, o medíocre e lunático Guedes quem acenderá o estopim da revolução brasileira? Só o tempo dirá. (por David Emanuel de Souza Coelho)