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sábado, 8 de novembro de 2014

Explicando o crescente risco de esgotamento de outras represas de São Paulo


Explicando o crescente risco de esgotamento de outras represas de São Paulo
Nesta semana, possivelmente como parte de um processo de redução de danos à imagem do Governo de São Paulo, algumas medidas foram anunciadas por Geraldo Alckmin como soluções para contornar a crise hídrica: 1) a interligação dos reservatórios, como solução para o caso de “a água acabar” (de acordo com entrevista dada pelo Governador); 2) a redução da dependência do Cantareira, de forma a fazer com que sua vazão média de saída corresponda à metade do que era antes de a crise ser declarada; 3) a construção de 29 reservatórios (responsáveis pela armazenagem local de água, não pelo aumento de sua produção); 4) a construção de 3 estações de tratamento de água de esgoto com vistas a seu consumo doméstico.
Embora, em tese, algumas dessas iniciativas possam ser vistas como interessantes para, de alguma forma, atuar por sobre a grave crise em questão, chamo-as de factoides por surgirem de forma intempestiva, e por virem a ser implementadas possivelmente após o momento em que a população afetada venha a ficar sem água para suas tarefas mais cotidianas. Vale dizer que a maioria dos reservatórios referentes ao item 3 só ficará pronta daqui a um ano, e as estações de tratamento de água de esgoto só passarão a funcionar em 2016. Poderá ser tarde.
Gostaria de explorar aqui as duas primeiras medidas, em especial a questão da “interligação entre os reservatórios”. A abordagem permitirá com que entendamos algumas dimensões subestimadas da crise, em especial o risco crescente de que todos os demais componentes do Sistema Adutor Metropolitano (para além da Cantareira e do Alto Tietê, integram-no as outras quatro maiores represas que fornecem água para toda a região metropolitana de São Paulo – Rio Grande, Rio Claro, Alto Cotia e Guarapiranga) venham, também, a passar por um processo crítico de esgotamento.
O primeiro elemento, a interligação dos reservatórios, é uma demanda bastante antiga. Trata-se de uma solução que é válida a todo tempo, mas teria sido muito mais adequada se tivesse sido implementada antes do agravamento da crise hídrica. É óbvio que a interligação não significa um aumento global da água disponível, mas ela é importante para tornar o processo de produção do líquido algo realmente sistêmico e integrado. Tivesse sido adotado no passado, hoje o Cantareira, possivelmente, não estaria, já, tendo retirado o seu segundo volume morto.Mas, o que é mais grave, é que a falta de planejamento em sua adoção pode fazer com que – em um contexto de extrema adversidade como o atual – o seu emprego em lugar de outras medidas pode levar ao esgotamento das represas que ajudam aquelas que estão em situação mais crítica.
E por que isso? O que é interessante, ao discutirmos essa medida, é o fato de que ela desnuda um problema subsidiário, pouco comentado pela mídia: nossas “caixas d’água” são pequenas para a demanda populacional. Na verdade, esse é um problema gêmeo a outro, que é a questão da produção de água propriamente dita. Ambas geram o problema do racionamento, e as duas impactam uma na outra com relação à gravidade da questão do desabastecimento. Explico.
A temática da produção de água diz respeito à equalização da demanda por água (pelos cidadãos, de modo geral; pelo comércio; pela agricultura; pela indústria, etc) com a oferta do líquido, quer dizer, o quanto se consegue produzir de água para se atender ao público. De modo geral, esse foi (e é) um dos principais problemas históricos de São Paulo. O que é curioso nele é que em tantas e tantas ocasiões, o racionamento foi decretado enquanto os reservatórios estavam razoavelmente cheios. Isso ocorria porque ou os reservatórios não tinham capacidade de enviar toda a água necessária para as adutoras, ou as adutoras não tinham a disponibilidade necessária para atender a toda uma região. Então os racionamentos eram adotados para que uma localidade fosse plenamente atendida em um momento, para que então outra viesse a sê-lo no dia seguinte, por exemplo.
Já a questão do tamanho da “caixa d’água” (adoto o nome por didatismo) diz respeito à capacidade efetiva de um reservatório. De modo amplo, um reservatório pode ser considerado grande ou pequeno a depender do quanto de água se tira dele, e do quanto de vazão natural ele dispõe (a água que entra a partir dos rios que o formam). Também em linhas gerais, podemos dizer que a segurança hídrica depende do superávit entre essas vazões de entrada e de saída (que podem ser controladas a partir de instrumentos como as curvas de aversão ao risco, que estipulam o quanto do líquido pode ser retirado a depender do nível do reservatório – uma forma de evitar o seu esgotamento).
Na região metropolitana de São Paulo, o racionamento de primeiro tipo foi equacionado como um problema por volta do ano 2000. Ainda assim, até antes da crise hídrica ser percebida, ainda eram comuns os casos de desabastecimento em alguns pontos específicos – i.e., a cobertura de abastecimento não alcançou os 100%, mesmo em São Paulo. Mas, é preciso ponderar que o Governo sempre correu atrás de atender ao crescimento da demanda, jamais conseguindo fazer com que a oferta conseguisse equacioná-la – muito menos abrir uma pequena “vantagem”.
O equilíbrio entre o tamanho da caixa d’água e a produção de água é afetado não só pelas estiagens, que diminuem as vazões de entrada: também um aumento da oferta sem o correspondente incremento das dimensões dos reservatórios também repercute em riscos de déficits. E, a partir desse desequilíbrio inicial, outros maiores podem começar a ocorrer, conforme os reservatórios esvaziam, perdem eficiência em seu processo de transferência de água (que, em geral, ocorre por gravidade) e, então, demandam a retirada de mais água de outros, que se esgotam mais rapidamente. É essa a situação que enfrentamos agora, por exemplo, no Alto Tietê (em especial nas represas de Paraitinga e Biritiba), e no Cantareira (no reservatório intermediário, de Cachoeira).
Por sinal, em 2005, por exemplo, houve a expansão do Alto Tietê, a partir da inauguração das duas represas mencionadas acima. Elas permitiram com que, em tese, a produção de água subisse em 5 m³/s (de forma a fazer com que a oferta quase alcançasse a demanda, que começava a superá-la naquele momento). Essa expansão, na prática, só começou a ocorrer em 2011, quando finalmente foi inaugurada o aumento da capacidade de tratamento da ETA Taiaçupeba. A questão é que essas duas represas, juntas, têm uma capacidade útil de 70 hm³. O sistema inteiro, quando produzia 10 m³/s, tinha aproximadamente 450 hm³. Ele teve a sua capacidade de produção aumentada em mais 50% (mais 5 m³/s), e o seu tamanho em mais apenas 16%. É óbvio, portanto, que esse novo contexto ampliou o seu risco de esvaziamento (especialmente se considerarmos que as vazões naturais não são elevadas o bastante para compensar esse cenário).
Toda essa explicação nos é útil para esclarecer a ideia de que nossas caixas d’água são pequenas para as demandas da população. Mais significativamente, elas são diminutas considerando-se que as expansões promovidas pelos governos tucanos foram pífias ao longo desses 20 anos. Do ponto de vista da expansão da produção, o que se conseguiu foram ou novas outorgas que permitissem retiradas maiores de água, ou melhorias e inovações tecnológicas que ampliassem a eficiência e a produtividade dos reservatórios já existentes.
Em outras palavras, a produção de água foi aumentada, mas a reservação, praticamente não. Nós tínhamos uma produção, em 1998, de algo como 58 m³/s, e agora, até o começo da crise, chegou a 70 m³/s. Esse incremento veio, conforme já comentado, a partir da expansão do Alto Tietê (5 m³/s), da renovação da outorga do Cantareira (mais 3 m³/s), da reversão do Taquacetuba (braço da Billings) para o Guarapiranga (mais 2 m³/s), da ampliação da retirada do Rio Grande (1 m³/s) e de outras pequenas melhorias operacionais.
Ou seja, ampliou-se, nesse anos, a capacidade de produção em cerca de 20,7%, mas e a capacidade de reservação? Em 1998, ela já era bastante similar à atual: apenas houve a enunciada expansão real do Alto Tietê, e de apenas 70 hm³. Se considerarmos os volumes operacionais de todos os reservatórios, ocorreu um incremento, então, de apenas 4,6% (de 1.526 hm³ para 1.596 hm³). O pequeno “pulo do gato”, aí, foi que a nova outorga do Cantareira permitiu a retirada de mais 209 hm³ do Jaguari-Jacareí (o qual, obviamente, não aumentou de tamanho, mas sim passou a ter parte daquilo que era considerado como volume morto em 2004 como volume útil). Considerando-se esse artifício, a “caixa d’água total” teve um aumento de 18,1% ao longo desse período. Trata-se, no entanto, de uma contagem equivocada, que dá uma falsa sensação de expansão, dados os motivos expostos acima.
Se a expansão da produção pode ser considerada, então, como insuficiente, o incremento real da capacidade de reservação não pode ser visto como nada menos do que desprezível. É por isso, então, que se no começo da crise a função da interligação das represas serviria para prolongar o período até o colapso do sistema, neste momento a adoção de tal medida terá ainda menos potencialidade de superar o problema. Pelo contrário, funcionará como uma espécie de “transferência da crise”, acelerando a escassez em outros reservatórios.
Por um lado, a interligação das represas poderia ser útil por permitir com que aquelas que estivessem situadas em regiões em que as médias de chuvas fossem maiores (como o Guarapiranga e o Rio Grande) transmitissem às demais o seu “excedente” de água. Por outro, tendo-se em vista que a situação do Cantareira e do Alto Tietê é absolutamente dramática, a necessidade de auxílio por parte dos demais reservatórios é imensa. E aqui, mais uma vez, voltamos à questão do tamanho das represas. Justamente os dois sistemas em condições mais adversas são os dois maiores: o Cantareira, com uma capacidade total (incluindo até a 3ª cota do volume morto) de 1.459 hm³; o Alto Tietê, com 527 hm³ (já contando com os 10 bilhões de litros do volume morto de Biritiba). Os dois, somados, correspondem a mais de 86% da capacidade total do chamado “Sistema Adutor Metropolitano”. E estão praticamente vazios.
Para piorar, os demais sistemas enfrentam, também, uma situação de escassez relativa – menos grave do que a vivida nesses dois acima, mas também já considerada relevante. Conforme são feitas obras para que os sistemas sejam interligados para salvar o Cantareira (e aqui cabe explicar que não se trata de uma interligação propriamente dita, como poderia ocorrer, mas sim da implantação de boosters e outros equipamentos capazes de enviar a água produzida por um manancial para “mais longe”, de forma a avançar por sobre o território atendido por outro manancial), mais água acaba sendo deles retirada. Em tese, as outorgas concedidas pelo DAEE à SABESP impediriam a extração de mais água do que o estabelecido no documento, mas não sabemos se isso está sendo respeitado nessa situação excepcional (já vimos que no caso do Cantareira os limites de retirada foram desrespeitados, e o mesmo elemento foi questionado, no caso do Alto Tietê, por uma Ação Civil Pública).
O aumento do ritmo das diminuições ocorridas em cada reservatório é um indício de que está, sim, ocorrendo uma saída de água ainda maior do que a existente em condições normais (ou, em hipótese, uma piora significativa das vazões de entrada, o que considero menos provável). A consequência disso é que o problema trágico vivido por Cantareira e Alto Tietê vai alcançando os outros mananciais – os quais são muito menores. A crise hídrica tem o potencial de se tornar, então, um evento cataclísmico ainda muito maior se Guarapiranga, Rio Claro e Rio Grande secarem – mais 7 milhões de habitantes serão afetados, de forma decisiva. E, até onde se sabe, eles não possuem volume morto. A recuperação desses mananciais, então, poderia ser tão lenta quanto a observada para o Cantareira – se ocorrer. Seria a hecatombe que comprovaria a tese, hoje ainda bizarra, de necessidade de evacuação populacional da região metropolitana – e isso em um intervalo de tempo menor do que 1 ano, se as médias de vazão de entrada forem similares às do verão 2013/2014.
Para que tenham uma ideia do cenário atual, em que a crise começa a se tornar clara para todo o sistema produtor – e suas 6 maiores represas – montei a tabela abaixo, a qual reúne uma série de dados relevantes. Explico a seguir.
Na primeira coluna, apresentamos a capacidade total aproximada de cada sistema/reservatório (incluindo, onde cabível – e cognoscível –, as “reservas técnicas”). É possível observar, conforme comentado, que Cantareira e Alto Tietê são muito maiores do que as demais. Na verdade, Alto Cotia e Rio Claro são, praticamente, tanques, já que suas barragens represam muito pouca água. A peculiaridade de Rio Claro é a de que parte considerável das suas vazões de saída advém de outras fontes: apenas 1 m³/s de seus 4 m³/s são oriundos da represa; os demais vêm de captações de rios, de piscinas naturais e até mesmo da interligação com a represa Ponte Nova (a maior do Alto Tietê).
A segunda coluna nos apresenta a quantidade de água disponível no conjunto das represas. Aqui, fui generoso e contabilizei toda a 3ª cota do volume morto do Cantareira como disponível. Observamos que, embora em situação mais do que crítica, Cantareira e Alto Tietê ainda possuem 67,25% de toda a água a ser distribuída para a população – mais um sinal de que a crise é ainda mais séria do que aparenta, e de que não podemos contar, seriamente, com a compensação de outras represas. Ou seja, nas atuais condições, dada a falta de investimentos, é um factoide imenso considerar, como fez o governador, a ideia de se reduzir a dependência do Cantareira (a segunda medida enunciada no começo deste texto).
Aqui cabe explorar um pouco essa questão, conforme prometido. Alckmin havia prometido, até “o início do inverno de 2015” (momento em que, de acordo com meus cálculos, ocorre o esgotamento total do Sistema, se persistirem as condições atuais), que haveria a redução da retirada de água do Cantareira em 50% quando comparado com o que era feito antes da crise – classificando o feito como “fantástico”. Ora, hoje já são retirados 22,5 m³/s (menos, até, nos últimos dias), e a outorga permitia a saída de até 36 m³/s. Ou seja, 62,5%. Até Junho de 2015, apenas mais 4,5 m³/s deixarão de ser captados, diariamente, do Sistema. E essa diminuição dependerá do aumento da produção de outros sistemas: está previsto, por exemplo, o aumento de ajuda do Guarapiranga: mais 1,5 m³/s a partir de Fevereiro de 2015. Parece claro, então, que nem a diminuição da retirada do Cantareira poderá ser suficiente para evitar seu esgotamento, nem as condições dos demais reservatórios permite uma segurança tal que viabilize transferências de vazões sem que suas condições sejam colocadas em risco.
A coluna do “tamanho da caixa d’água” explica em números o que dizia mais acima: nossos reservatórios são pequenos para o tamanho das demandas da população e para as ofertas de água realizadas pela SABESP. Vejam que o Cantareira, apesar de tudo, ainda é o reservatório que mais tem condições de aguentar uma estiagem. Notem como o Guarapiranga, o Alto Cotia e o Rio Claro possuem uma “autonomia” muito menor – ao mesmo tempo em que, por razões óbvias, são aqueles em que as precipitações mais influenciam, relativamente, no volume de água armazenado (área consideravelmente menor para que as chuvas caiam e produzam efeito).
Vale notar, então, quais são os reservatórios que estão “ajudando” o Cantareira: Alto Tietê e Guarapiranga (2,1 m³/s cada), Rio Grande (0,8 m³/s) e Rio Claro (0,7 m³/s). No caso do Alto Tietê, a ajuda começou ainda em Dezembro de 2013 (o que foi anunciado pela mídia apenas em Fevereiro, quando a crise foi publicizada), e depois foi ampliada em Julho. Depois, o Guarapiranga começou a ser utilizado (1,1 m³/s), sendo que agora em Novembro mais 1 m³/s passou a ser retirado – o que acelerará o nível do déficit desse reservatório. Rio Claro e Rio Grande passaram a colaborar em Julho e no final de Setembro, respectivamente. Por esses dados, vemos o quanto a “economia” trazida pelo bônus ainda é absolutamente irrisória: mesmo que consideremos que não haja mais nenhum fator que contribua para a redução da oferta de água (como as válvulas redutoras de pressão), a diminuição da produção de 70 m³/s para 64,4 m³/s significa que houve, apenas, 8% de redução no consumo, caso admitamos uma equivalência plena entre produção e demanda. Há muito o que percorrer na mudança de cultura de uso da água.
Essas retiradas a mais de água, então, impactam o nível global de perdas diárias. Se o Cantareira e o Alto Tietê continuam perdendo bastante de sua capacidade por dia (1,8 bilhão de litros no total, se somados), os demais contribuem com mais de 1,3 bilhão de litros de déficit. O desequilíbrio recente entre oferta e demanda é tão impressionante quanto negligenciado pelos meios de comunicação – são produzidos 64,4 m³/s, mas a demanda supera a oferta em 36,5 m³/s. Trata-se, inequivocamente, de uma situação insustentável, caso as condições permaneçam como as atuais.
E, se mesmo com a redução das vazões de saída do Cantareira é possível observar que seu esgotamento absoluto está próximo (230 dias, no cálculo grosseiro realizado na tabela – 21 de Julho, na estimativa que realizei no artigo que publiquei no começo da semana), o mesmo se torna evidente com relação aos demais reservatórios: em tese, à exceção do Rio Grande, todos podem se esgotar em menos de 100 dias, ceteris paribus. É óbvio que há a probabilidade concreta de que o desabastecimento possa durar mais do que isso, já que estamos entrando no período chuvoso. Mas a preocupação não deve estar no próximo mês, mas em 2015. É impossível não conjecturar sobre o quão severo deveria ser o abastecimento em Abril ou Maio mesmo na situação em que todos os reservatórios estejam, nesse momento, com exatamente o mesmo volume de água que possuem hoje – o que é, sim, uma realidade concreta.
Conforme os outros reservatórios são demandados para além da sua capacidade e começam a secar, será natural que deixem de ajudar uns aos outros, generalizando a situação de colapso, já que o fim do socorro pode significar a volta da radicalização do desabastecimento da represa “ajudada”, e um fôlego momentâneo para aquela que fornecia suporte. Corre-se o risco de se viver em uma contínua “sinuca de bico”, em um permanente xeque-mate da crise hídrica contra a falta de planejamento do Governo do Estado, até o ponto em que a insustentabilidade não possa mais ser camuflada. Se não vivenciarmos, a partir de agora, um contexto hidrológico e pluviométrico olimpicamente favorável, é para esse cenário aterrador para onde, inexoravelmente, caminharemos.
Se há alguma solução para a crise hídrica neste momento, para agora, ela está necessariamente no equacionamento drástico da oferta e da demanda por água. Todas as iniciativas de infraestrutura, mesmo que corretas, demorarão a ser implementadas. Não se pode correr o risco de, simplesmente, deixar a população sem água, esperando até que fiquem prontas. Será fundamental diminuir ao máximo o déficit atual entre entrada e saída de água. É preciso ser realista quanto a isso: se os níveis de todas as represas continuarem diminuindo, haverá uma tendência de que as vazões de entrada também diminuam, e de que as tão comentadas chuvas tenham uma eficácia muito menor do que a usual em aumentá-las neste verão. Não há o menor cabimento em termos um governo com um orçamento de quase 200 bilhões de reais cuja medida de curto prazo mais consistente é anunciar que a “chuva está cada vez mais próxima”. É preciso que tomemos ações que, se talvez já não sejam mais tempestivas, não possam ser vistas, daqui a alguns meses, como meramente cosméticas. Difícil dormir com esse barulho.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Como a Copa do Brasil deve virar a Copa da Banana. Tchau, Fuleco


Fernando Brito, Tijolaço

"As grandes ideias são assim.

Ficam dias, meses, anos brotando, despercebidas dentro da cabeça e, uma hora, saem parecendo – e sendo – um improviso.

O lateral Daniel Alves comer a banana ofensiva que lhe atiraram foi uma destas, genial porque não premeditada.

E deu margem a transformar em fato o que muita gente não percebe.
Que a Copa no Brasil é a oportunidade de nosso país servir de símbolo para algo muito além de ser o “país do futebol”.

Para ser o país da miscigenação, para cá e para o mundo.

Daniel Alves percebeu isso melhor do que ninguém, na hora e depois.

Reclamou da punição ao torcedor que arremessou a banana, que foi desligado do quadro social do clube Villarreal.

Nada disso, disse ele.

Disse que achava melhor publicarem a voto e fazê-lo passar a vergonha diária por seu ato.

“Pudesse pegaria a foto e colocaria publica só para envergonhar, banir não é solução. Estaria pagando mal com mal, tem de educar as pessoas e não tentar banir ele do futebol”.

Alves mostrou-se mais consciente que grande parte da pseudamente letrada elite brasileira, que continua achando que os estrangeiros nos são superiores.

“11 anos sofrendo a mesma coisa, primeira vez que jogaram a banana. Sem dúvida nenhuma, eles vendem (a Espanha) como país de primeiro mundo e bastante evoluído, mas evoluídos em um certo tipo de coisa, em outros estão atrasado. Preconceito ou é com estrangeiro ou com cor. Aconteceu com outros companheiros que pensaram em abandonar jogo. Preocupação deles é mais com quem vem de fora do que com uma cor. Acho que não deveria acontecer, até porque o brilho, algo que amam tanto, o futebol quem dá a maioria das vezes são estrangeiros. Deveriam estar agradecidos de nos ter aqui”

Se o Brasil quiser fazer algo de bom, é aposentar o tal Fuleco e trocar o mascote da Copa por um macaco devidamente embananado.

Afinal, para desespero da elite branca fundamentalista, que crê ter sido gerada num laboratório celestial superior e nega até mesmo a evolução de Darwin,#somostodosmacacos.

Já usaram o “marketing” para tanta porcaria, porque não usar para uma coisa boa, a ridicularização do que é ridículo: a discriminação de seres humanos?

Quem sabe a Presidenta Dilma, que enxergou com muita sabedoria o significado do gesto de Alves e disse que o Brasil “levanta a bandeira do combate à discriminação racial” mande esta turma de marqueteiros meia-boca agarrarem este episódio e transformar esta Copa, de fato, na Copa das Copas, fazendo o que o negro Jesse Owen fez nas Olimpíadas de 1936, vencendo prova após prova diante de um Hitler furibundo?

Quem sabe a gente faça um Castro Alves tropicalérrimo?

Porque se achamos que a Copa é um momento de fraternidade , de igualdade, de encontro entre os povos do mundo, o que de melhor ela pode deixar como legado do que ajudar a abolir a praga do racismo, que faz mais de cem anos que a gente vem tentando eliminar?"

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O Barbosismo, o PT e o pós-julgamento



A prisão de lideranças petistas, cercada de ilegalidade e manipulação, não marca apenas um divisor no partido. Ela coincide com uma transição de ciclo econômico

Saul LeblonCarta Maior

O conservadorismo brasileiro construiu uma narrativa e a cercou de um cão de guarda.

Era forçoso que tivesse a pegada  agressiva das mandíbulas que travam e não soltam para dar conta das  cores  extremadas do enredo.

O intento foi bem sucedido  mas o epílogo, inconcluso, está longe de entregar tudo o que prometeu.

Joaquim Barbosa foi o homem certo, no lugar certo, na hora certa quando se tratou de tanger a AP 470  na direção das manchetes que a conceberam.

O que se concebeu,  a partir de um crime eleitoral de caixa 2 , foi consumar aquilo que as urnas sonegavam: aleijar moralmente o campo progressista brasileiro; sepultar algumas de suas principais lideranças.

Na verdade, o intercurso entre campanha política  e financiamento privado já havia punido o êxito progressista nos seus próprios termos.

Subtraindo-lhe práticas, projetos e um horizonte ideológico, de cuja regeneração depende agora o seu futuro e a capacidade de liderar o passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.

A prisão de lideranças petistas, cercada da ilegalidade e da manipulação sabidas, não marca apenas um divisor no partido.

Ela coincide com uma transição de ciclo econômico mundial que impõe um novo repertório de escolhas estratégicas ao país e ao PT.

Os limites assimilados na chegada ao poder talvez não sejam mais suficientes para se manter à frente dele nessa travessia.

Em postagem em seu blog, antes da prisão, o ex-ministro José Dirceu resumiu o paradoxo ao criticar aqueles que hoje  –a exemplo do que se fez até 2008-- endossam a panaceia ortodoxa do choque de juros e de cortes orçamentários.

“Para fazer isso não precisam  de nós’, advertiu o ex-chefe da Casa Civil de Lula.

Quem –e o quê--  ditará  a agenda brasileira no pós-julgamento da AP 470  não é uma inquietação exclusiva do lado que ficou no banco dos réus.

A emissão conservadora sabe que saturou um capítulo da disputa com a prisão algo decepcionante dos alvos mais graúdos.

Parte do conservadorismo, porém, fica com água na boca.

E sonha alto quando vê Joaquim Barbosa ladrar como se a teoria do domínio do fato, agora, significasse um dote imanente para atropelar réus, juízes e cardiopatas com a mesma truculência  biliosa exibida durante o julgamento.

Delirantes enxergam um Carlos Lacerda negro nos palanques de 2014.

Finalmente,  o elo perdido, a ponte capaz  de suprir o vazio de carisma à direita e de injetar paixão ao discurso  antipetista: o barbosismo.

O engano conservador pode custar mais caro ao país do que custaria ao PT  ter o algoz como rival.

Joaquim Barbosa tem de Lacerda apenas uma rudimentar mimetização de incontinência colérica.

Tribuno privilegiado, o original  catalisou a oposição a Vargas. Ainda assim, o talentonão foi suficiente para evitar os desdobramentos que se seguiram ao suicídio de 1954.

Os desdobramentos foram de tal ordem que adiaram por uma década o golpe esmagado por Getúlio com um único tiro.

É verdade que Lacerda , a exemplo de Barbosa hoje, foi também uma construção midiática.

Ancorado nessa alicerce,  construiu um carisma  que insuflou a classe média contra a corrupção,  os sindicatos, os inimigos do capital estrangeiro e o desgoverno populista.

Contra Vargas, sua voz ecoava simultaneamente na Rádio Globo, dos Marinhos e na Mayrink Veiga; a presença inflamada do udenista sacudia  também a  audiência da TV Tupi, de Assis Chateaubriant, a TV Rio  e a TV Record, da família Machado de Carvalho.

Dispunha ainda do jornal Tribuna da Imprensa, criado em 1949, com o dinheiro do anti-getulismo local e estrangeiro.

A voz de Lacerda era o que hoje é o Jornal Nacional, da Globo: a narrativa da direita endereçada a todo o Brasil.

Por trás da retórica vulcânica, todavia, existia um substrato de aparente pertinência que sustentava o belicismo das suas inserções.

Ao confronto internacional marcado pela consolidação comunista na China e a construção do Muro de Berlim, superpunha-se a emergência da Revolução cubana.

Seja pela maior proximidade, seja pelos laços culturais, as transformações em Cuba  granjeariam  enorme receptividade na luta latino-americana contra o subdesenvolvimento e o apetite leonino do capital estrangeiro.

Hoje,  ao contrário, a exacerbação conservadora só se sustenta pela instabilidade que o colapso do seu próprio ideário  –ainda sem resposta à altura--  acarreta urbi et orbi.

E esse é o ponto fundamental da disputa no pós-AP 470.

Colérico-dependente, Joaquim Barbosa  está muito distante das credenciais para se apresentar como a personificação do  salvador da pátria, diante dos desafios que se avizinham.

O maneirismo é a única relação que existe entre o barbosismo  e o  lacerdismo.
Ou o janismo.

Maneirismo é a simulação afetada do original.

Quanto mais se esmera em exacerbar as referências do que não é, maior o artificialismo que  exala.

Mas isso só ficará definitivamente claro se o foco do debate for deslocado a partir de agora para o que é principal – e o que é principal requer do campo progressista algo mais do que a busca inercial do voto em 2014.”

domingo, 6 de outubro de 2013

O 2º turno já começou



O ingresso de Marina Silva no PSB tem implicações sobre o conjunto da campanha presidencial para 2014. Na prática, o segundo turno já começou.

Paulo Moreira Leite, ISTOÉ

Vamos entender o que aconteceu. Ao oferecer o PSB para Marina Silva, Eduardo Campos trouxe, para dentro de sua legenda, a candidata que é segunda nas pesquisas de intenção de voto. O próprio Eduardo Campos está em quarto lugar,  não sái do chão e acaba de sofrer uma derrota interna importante. O governador do Ceará, Cid Gomes, deixou o PSB. Em matéria de dissidência, seria equivalente, no PSDB, a Geraldo Alckmin romper com Aécio Neves e abandonar o partido, levando embora os votos de São Paulo.  

Acabo de ouvir um líder importante do PSB. Ele me garante que Campos e Marina vão formar uma chapa e que o governador de Pernambuco será o titular, deixando para a nova aliada o cargo de vice. Por mais respeito que tenha por este cidadão, sei que os segredos fazem parte da política. Duvido e dou risada. Não acho que Marina foi ao PSB para ser vice de um candidato que tem 20% de suas intenções de voto. Se fosse para isso seria melhor ficar em casa em nome dos princípios de que era Rede de Sustentabilidade e pronto.

Essa composição resolve muitos problemas para as partes. Assegura uma legenda a candidatura de Marina. E pode abrir uma saída para seu novo parceiro.  Enfraquecido e seu perspectivas de crescimento na eleição presidencial,  Eduardo Campos fica liberado para disputar uma eleição que pode vencer, para senador, em vez de correr o risco de ficar sem um único mandato para chamar de seu depois de 2014.

Mas não é só isso. Se Marina era a única candidata da oposição que não fazia água, um eventual crescimento de sua candidatura nos próximos meses pode provocar outra mudança. Estou falando de Aécio Neves.

Até março de 2014 será preciso definir, oficialmente, quem concorre a qual posto eleitoral. Imagine se, até lá, Aécio estiver no mesmo lugar de hoje, em terceiro, mas a uma boa distancia do segundo lugar. Estará diante do mesmo cenário de Eduardo Campos: sofrer uma derrota e ficar sem mandato.

O apoio a Marina, em nome do conhecido discurso de “unidade das oposições”, pode ser uma excelente oportunidade para Aécio mudar o rumo de sua campanha. Teria a benção de boa parte dos empresários e, com certeza, dos meios de comunicação.

Basta olhar para a disputa pelo governo de Minas, onde o PT apresenta-se com um ministro e um dos maiores empresários do Estado, para constatar que, pela primeira vez em sua história, o PSDB encontra-se sob o risco real de uma derrota por falta de candidato a altura. Se ficar sem chance na luta presidencial, Aécio poderia ser levado a salvar os móveis do PSDB na disputa estadual. Essa possibilidade, que parece muito remota agora, explica a permanência do eterno candidato a presidente José Serra no PSDB.

Por trás de tantas mudanças, encontra-se uma situação real, que é o temor da oposição, que pode sofrer uma quarta derrota consecutiva para o condomínio Lula-Dilma desde 2002. Com 38% das intenções de voto, contra 32% para a soma dos adversários, Dilma ameaça os concorrentes com uma possível vitória no primeiro turno. É essa musica adversa que provoca tantos movimentos, rápidos e surpreendentes pela coreografia,  entre seus adversários.”

segunda-feira, 11 de março de 2013

Populismo é invenção da direita para pegar trouxa



Eduardo Guimarães, Blog da Cidadania

“O conceito “populismo” sempre foi elástico e subjetivo. Contudo, em alguns momentos da história chegou a fazer sentido. No século passado, porém, não era usado apenas para caracterizar a forma de governar de políticos de esquerda como hoje. O caudilho, que por definição governa de forma populista, poderia ser partidário de qualquer ideologia.

Em resumo, caudilho seria um chefe político que governa acima dos partidos e que adota medidas populistas (demagógicas) que agradam aos governados independentemente de serem viáveis, o que, por essa teoria, no médio e no longoprazos terminariam por causar mais malefícios do que benefícios.

No Brasil, o “caudilho populista” mais famoso é Getúlio Vargas, ainda que outros políticos trabalhistas como Leonel Brizola tenham sido associados a essa pecha.

A história do “populismo”, no entanto, importa menos do que o uso contemporâneo desse conceito, tal como vem sendo empregado na América Latina e, mais precisamente, na América do Sul ao longo do século XXI, período em que líderes de esquerda ascenderam ao poder por toda a região e a revolucionaram econômica e socialmente.”
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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Mídia, corrupção e opinião pública


Venício A. de Lima, Observatório da Imprensa
“A cobertura homogênea que a grande mídia vem fazendo do julgamento da Ação Penal nº 470 – paralelo ao período de campanha eleitoral – e os resultados das eleições municipais de 2012 recolocam a questão da formação da opinião pública, da percepção que ela tem sobre a corrupção e das consequências políticas dessa percepção, em particular na decisão do voto.

Em artigo anterior, neste Observatório, (“Poder da mídia, contradições e (in)certezas“) – reproduzi resultado e comentário do Ibope sobre pesquisa comparada que registrou as “preocupações dominantes” dos brasileiros nos anos de 1989 e 2010. Diz o comentário:

“Apesar das constantes notícias sobre o assunto, o combate à corrupção também preocupa menos o brasileiro: de 20% passou a ser citada por 15% dos entrevistados.”
Perguntava, então: qual a relação da queda da preocupação do brasileiro com a corrupção e as “constantes notícias” – uma verdadeira campanha de moralidade seletiva e criminalização da política – veiculadas na grande mídia desde 2005?
Ao contrário do que o artigo possa ter sugerido, não há resposta simples para essa questão.

Pesquisas sobre corrupção
O livro Corrupção e Sistema Político no Brasil,organizado pelos professores Leonardo Avritzer e Fernando Filgueiras, do Centro de Referência do Interesse Público (CRIP) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lançado recentemente pela editora Civilização Brasileira, é uma coletânea de análises de resultados de pesquisas nacionais – realizadas em 2006, 2008 e 2009 – que investigam o tema da corrupção em variadas dimensões.
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sábado, 27 de outubro de 2012

As eleições e suas conseqüências


Marcos Coimbra, CartaCapital

Quando, na noite do domingo 28, conhecermos o resultado final das eleições municipais deste ano, o PT e o governo terão muito que celebrar. E algumas razões para olhar com preocupação o futuro próximo.

A se considerar o que aconteceu no primeiro turno e os prognósticos disponíveis para as disputas de segundo turno, o PT termina as eleições de 2012 como o principal vitorioso. De qualquer ângulo que se olhe, são as melhores eleições municipais da história do partido.

Os indicadores são muitos. Entre os cinco partidos que melhor se saíram nas eleições anteriores, foi o único que cresceu. Enquanto PMDB, PSDB, DEM e PP reduziram, o PT ampliou o número de municípios governados por prefeitos filiados à legenda. Com isso, manteve sua tendência de crescimento, sem interrupção, desde a fundação. Quando se levam em conta apenas as três últimas eleições, foi de 410 prefeituras em 2004 a 628 neste ano (sem incluir as 10 ou mais que deve ganhar no segundo turno).

Do lado das oposições, o panorama, ao contrário, se complicou, o que significa outra vitória para Lula e o PT. O total de prefeitos eleitos pelo PSDB, o DEM e o PPS caiu, nos últimos oito anos, de 1.973 para 1.088 (sem considerar o resultado do segundo turno, que não deve, no entanto, alterar muito o quadro). Em outras palavras, os três partidos ficaram com pouco mais da metade das prefeituras que tinham.
Quanto ao número de vereadores eleitos, o cenário é parecido. De novo, o PT foi o único dos grandes que cresceu de 2008 para cá: ganhou cerca de mil novos vereadores, ao passar de 4.168 para 5.182. Enquanto isso, os três principais partidos oposicionistas elegeram 2.473 a menos. Entre 2004 e 2012, os representantes petistas nas câmaras municipais aumentaram em quase 40%.”
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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A última eleição sob a tutela da Globo


Saul Leblon, Carta Maior / Blog das Frases
"A sólida dianteira de Haddad em SP, reafirmada pelo Ibope e o Datafolha desta 5ª feira, deixa ao conservadorismo pouca margem para reverter uma vitória histórica do PT; talvez a derradeira derrota política do seu eterno delfim, José Serra. Ainda assim há riscos. Não são pequenos. Eles advém menos da vontade aparentemente definida do eleitor, do que da disposição midiática para manipulá-la, nas poucas horas que antecedem o pleito de domingo.

Há alguma coisa de profundamente errado com a liberdade de expressão num país quando, a cada escrutínio eleitoral, a maior preocupação de uma parte da opinião pública e dos partidos, nos estertores de uma campanha como agora, não se concentra propriamente no embate final de idéias, mas em prevenir-se contra a 'emboscada da véspera''.

Não se argui se ela virá; apenas como e quando a maior emissora de televisão agirá na tentativa de raptar o discernimento soberano da população, sobrepondo-lhe seus critérios, preferências e interditos.

Tornou-se uma aflita tradição nacional acompanhar a contagem regressiva dessa fatalidade.

A colisão entre a festa democrática e a usurpação da vontade das urnas por um interdito que se pronuncia de véspera, desgraçadamente instalou-se no calendário eleitoral. E o corrói por dentro, como uma doença maligna que pode invalidar a democracia e desfibrar a sociedade.

A evidencia mais grave dessa anomalia infecciosa é que todos sabem de que país se fala; qual o nome do poder midiádico retratado e que interesses ele dissemina.

Nem é preciso nominá-los. E isso é pouco menos que a tragédia na vida de uma Nação.

De novo, a maleita de pontualidade afiada rodeia o ambiente eleitoral no estreito espaço que nos separa das urnas deste 28 de outubro.
Em qualquer sociedade democrática uma vantagem de 15 pontos como a de Haddad seria suficiente para configurar um pleito sereno e definido.

Mas não quando uma única empresa possui 26 canais de televisão, dezenas de rádios, jornal impresso, editora, produção de cinema, vídeo, internet e distribuição de sinal e dados.

Tudo isso regado por uma hegemônica participação no mercado publicitário, inclusive de verbas públicas: a TV Globo, sozinha, receberá este ano mais de 50% da verba publicitária de televisão do governo Dilma.”
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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ideologia da nova ordem


Nesses últimos anos tem havido uma intensificação de opiniões, manifestações e de repulsa à atividade política em escala mundial, uma tendência agressiva, virulenta mesmo, com o objetivo de afastar o cidadão comum do engajamento nas causas transformadoras da realidade em que ele vive.
Eduardo Bomfim, Vermelho

Um discurso falso - a política sempre determinou os rumos das sociedades em todas as épocas, doloso porque está associado aos interesses de impedir a participação popular através de restrições democráticas, consolidando mais ainda o monopólio político, ideológico, nas mãos de reduzidos, poderosos grupos com capacidade decisória de abrangência global.

A perda relativa de autonomia dos Estados Nacionais submetidos às regras de organismos internacionais, antes razoavelmente representativas do equilíbrio internacional entre os Países, age como complemento a essa hegemonia e tem o mesmo fim, ou seja, a extraordinária concentração, centralização do capital financeiro a nível internacional.

Esse monopólio do poder, intimidação, dissuasão e intervenção, encontra-se associado à maior máquina de guerra que a humanidade já conheceu, coordenada pelos Estados Unidos da América, além de um fabuloso aparato midiático que controla a informação mundial, dissemina comportamentos, criminaliza opositores.”
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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Relações entre política e igreja voltam à tona com eleições municipais


É sob "a proteção de Deus" que os
vereadores de São Paulo trabalham

Entre o direito ao credo e a violação do conceito de um Estado laico, caso do brasileiro, uma linha tênue que muitas vezes é rompida em prol de interesses pessoais

Eduardo Maretti, Rede Brasil Atual

Na campanha eleitoral de 2012 em São Paulo, o candidato líder nas pesquisas de intenção de voto até o momento, Celso Russomanno (PRB), é conhecido por sua estreita ligação com o todo poderoso bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus. 

Em busca de votos, José Serra e Valdemiro Santiago, fundador e líder da Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD), celebraram um acordo, executado pelo prefeito Gilberto Kassab, suspendendo um projeto urbano (o prolongamento de uma rua em Santo Amaro, zona sul de São Paulo) para não atrapalhar a construção de um templo. Para tanto, o prefeito enviou um projeto de lei que a Câmara Municipal aprovou em primeira votação. O segundo turno, marcado para ontem (5), foi adiado pelo Legislativo municipal após forte pressão em torno do tema. 

A interferência da religião na política, como mostram esses e outros exemplos, envolve todas as vertentes ideológicas, da direita à esquerda. Em sua campanha para vereador, o petista Arselino Tatto espalha panfletos pela cidade identificando-se como “um candidato cristão católico”. Em 2010, bispos financiaram a impressão de panfletos contra a candidatura de Dilma Rousseff (PT) por conta de uma falsa polêmica em torno do aborto.”
Foto: Mozart Gomes. CMSP
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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Como os Estados Unidos perderam o rumo



“Ao investigar impotência de Obama diante de Wall Street e guinada ultraconservadora dos republicanos, Krugman dispara: país entrou em crise com a democracia

Paul Krugman e Robin Wells,  New York Review of Books  / Revista Forum 

Na primavera de 2012, a campanha de Obama decidiu ir atrás da história de seu oponente, Mitt Romney, na Bain Capital, uma firma de administração de fundos privados [private equity] que se especializou em assumir o controle de empresas e multiplicar o capital de seus investidores – às vezes, promovendo seu crescimento, mas frequentemente às custas dos seus trabalhadores. Na verdade, houve vários casos em que a Bain conseguiu lucrar mesmo quando as empresas adquiridas foram à falência.

Havia razões política claras para tal atitude. O próprio senador Ted Keneddy havia suscitado, com sucesso, a história dos trabalhadores arruinados pela Bain, em sua campanha contra Ronney em Massachussetes, em 1994. Além disso, o único discurso possível para Romney, na atual disputa pela presidência, é sua afirmação de que pode, como um homem de negócios bem- sucedido, consertar a economia. Fazia todo o sentido apontar as muitas sombras que pairam sobre a história de negócios de Romney – e fisar que o que é bom para a Bain, definitivamente não serve aos Estados Unidos.

No entanto, enquanto escrevíamos este artigo, dois políticos destacados do Partido Democrata minaram a estratégia. Primeiro, Cory Booker, o prefeito de Newark, descreveu os ataques ao private equity como “repugnantes”. Depois, ninguém menos do que Bill Clinton apressou-se a descrever a história de Romney como “legítima”, acrescentando: “Não acho que devemos ficar na posição em que dizer: ‘este é um trabalho ruim’, ou ‘este é um bom trabalho’”. (Mais tarde, ele apareceu ao lado de Obama e disse que uma presidência de Romney seria “calamitosa”).

O está acontecendo? A resposta atinge o centro das decepções — políticas e econômicas – com o governo Obama.

Quando o presidente foi eleito, em 2008, muitos progressistas esperavam uma repetição do New Deal. A situação econômica era, afinal, muito semelhante. Como em 1930, um sistema financeiro descontrolado levou primeiro a excesso de endividamento privado; e, em seguida, a uma crise financeira. A contração econômica que se seguiu (e persiste até hoje), embora não tão severa quanto a Grande Depressão, mantém uma semelhança óbvia com a do século passado. Por que as políticas deveriam seguir um script semelhante?

Mas, embora a economia de hoje mantenha forte semelhança com a dos anos 1930, o cenário político não a acompanha — pois nem os democratas, nem os republicanos são o que eram outrora. Ao chegar à presidência com Obama, boa parte do Partido Democrata foi quase capturada pelos interesses financeiros que levaram à crise. Como mostraram os incidentes com Booker e Clinton, parte do partido permanece nesta condição. Enquanto isso, os republicanos tornaram-se extremistas a um ponto que nunca se imaginou, três gerações atrás. A oposição radical que Obama tem enfrentado em questões econômicas contrasta com o fato de que a maioria dos republicanos no Congresso votou a favor, e não contra, a principal conquista de Roosevelt: a lei instituiu a Seguridade Social nos EUA, em 1935.

Essas mudanças nos partidos políticos dos EUA explicam o motivo de não ter havido um segundo New Deal; e por que a resposta política à crise econômica prolongada tem sido tão inadequada. A captura parcial do Partido Democrata por Wall Street e o efeito de distorção que ela produziu na política são os temas centrais do livro de Noam Scheiber, The Escape Artists: How Obama’s Team Fumbled the Recovery [algo como “Os Escapistas: Como a equipe de Obama se atrapalhou na recuperação”], uma visão, a partir de dentro, das ações da equipe econômica de Obama, desde os primeiros dias transição presidencial até o final de 2011.
Scheiber começa tratando da influência que Wall Street exerceu sobre o conjunto da equipe econômica. Em suas primeiras páginas, ele conta como a campanha de Obama apoiava-se nos conselhos políticos de “acadêmicos obscuros, radicais sem muitos vínculos e burocratas ultrapassados” – a exemplo de Austan Goolsbee, um jovem professor de economia da Universidade de Chicago, e Paul Volcker, o octogenário embora ainda vigoroso ex-presidente do Federal Reserve [o equivalente americano do Banco Central – Nota da tradução]. Porém, em setembro de 2008, um outro grupo havia se formado e começou a disputar influência. Era composto por endinheirados de dentro do mercado. A maioria deles tinha trabalhado para o ex-secretário do Tesouro [equivalente ao ministro da Fazenda no Brasil – nota da tradução] de Clinton, Robert Rubin — que foi sócio da Goldman Sachs antes de integrar o governo de Bill Clinton e, após sair, tornou-se diretor, conselheiro e depois presidente do Citigroup. Eram os rubinistas.”

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terça-feira, 3 de julho de 2012

O Paraguai, o PSDB e o dilema do Senado





Mauro Santayana, Blog: MauroSantayana

“O novo governo paraguaio pode ficar tranqüilo: o senador Álvaro Dias garantiu ao presidente Franco o apoio incondicional do PSDB à nova ordem estabelecida em Assunção. Com essa solidariedade, o chefe de governo do país vizinho está apto a reverter a situação de repúdio continental, vencer a parada no MERCOSUL e roncar grosso – como, aliás, está começando a fazer – contra o Brasil, a Argentina e o Uruguai.

O problema todo é que o bravíssimo senador Álvaro Dias, companheiro de dueto, até há poucas semanas, do senador Demóstenes Torres nas objurgatórias morais contra o governo, não combinou esse apoio com o povo paraguaio, que irá às urnas em abril e, provavelmente, nelas, dirá o que pensa da “parlamentada” de Assunção. E, mais ainda: não será ouvido nos foros internacionais que estão tratando do tema.

Nesses centros de decisão, quem estará decidindo serão os chefes de estado e os chanceleres dos países do continente. Por enquanto, estando na Oposição, os tucanos não podem falar em nome do Brasil.

A posição brasileira, prudente e moderada, está sendo assumida em consultas com os países vizinhos e com as organizações regionais. Nenhum desses países, por mais veementes tenham sido os protestos, violou um milímetro sequer da soberania do Paraguai – embora, na destituição de Lugo, o soberano real, que é o povo paraguaio, não tenha sido ouvido.

O Brasil já anunciou que nada fará que possa prejudicar diretamente o povo paraguaio. Mas as suas elites devem estar advertidas de que a decisão de construir regimes democráticos sólidos, com o respeito absoluto à vontade popular, manifestada em eleições limpas e livres, é irrevogável na América do Sul.”