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segunda-feira, 6 de março de 2017

Comunismo: haverá uma “quarta onda”?

Sanguessugado do Cultura, Esporte e Política

Resultado de imagem para bandeiras do comunismo


David Priestland

Cem anos após a Revolução Russa, o mundo parece mais desigual e injusto que nunca. A velha fênix, que já viveu três vezes, poderá ressurgir das cinzas?

“Ura! Ura! Ura!” Lembro-me vivamente da parede de som que se formou quando soldados severos, em uniformes cinzentos responderam ao brado de seu comandante: “Saudações no 70º aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro!”

Estudante de intercâmbio em Moscou, em 1987, eu havia viajado à Rua Gorky naquela manhã trepidante de novembro, para assistir à parada militar a caminho da Praça Vermelha. Uma fileira de autoridades soviéticas e estrangeiras observava os jovens soldados prestar homenagem ao Mausoléu de Lênin. A cena impressionante deveria servir para demonstrar tanto a energia revolucionária duradoura do comunismo quanto seu alcance global.

O líder soviético, Mikhail Gorbachev, falou sobre um movimento revigorado pelos valores de 1917 a uma audiência de líderes de esquerda que incluía Oliver Tambo, do Congresso Nacional Africano, e Yasser Arafat, da Organização pela Libertação da Palestina. Cartazes ostentavam a proclamação do poeta Vladimir Mayakovsky: “Lênin viveu, Lênin vive, Lênin viverá para sempre!”

As palavras soavam ocas, pois os problemas econômicos da União Soviética eram evidentes para todos, especialmente para meus amigos estudantes, que dependiam de universidades mal abastecidas para comer. Ainda assim, o sistema ainda parecia tão sólido quando o mármore do mausoléu. Como a maioria dos observadores, eu não teria acreditado que em dois anos o comunismo  estaria desmoronando, e em quatro a própria União Soviética teria ruído.

Logo, a visão popular sobre 1917 mudou inteiramente. A desregulação dos mercados parecia natural e inevitável. O comunismo parecia ter sido sempre condenado à “lata de lixo da História” de Trotsky. Se houvesse desafios à ordem liberal globalizada, eles viriam do islamismo ou do capitalismo de Estado chinês, não mais de um marxismo desacreditado.

Agora, quando passaram-se cem anos da Revolução de Fevereiro – que precedeu à tomada do poder pelos bolcheviques de Lênin, em novembro – a História mudou de novo. A China e a Rússia exibem símbolos de sua herança comunista para fortalecer um nacionalismo antiliberal. No Ocidente, a confiança no capitalismo de livre mercado não se recuperou, desde o crash financeiro de 2008. Novas forças de extrema direita e de esquerda ativista disputam popularidade. A força inesperada do socialista independente Bernie Sanders, nos EUA; e as vitórias eleitorais do novo partido Podemos, liderado por um ex comunista, na Espanha, são sinais de um ressurgimento de base da esquerda. Na Grã-Bretanha, o “Manifesto Comunista”, obra clássica escrita por Marx e Engels em 1848, foi um best seller em 2015.

Terei testemunhado, naquele dia em Moscou, o último hurra do comunismo? Ou um comunismo remodelado para o século 21 estará lutando para nascer?

Há sinais de uma resposta nesta epopeia complexa e centenária, um arco narrativo cheio de falsos começos, quase mortes e reviveres imprevistos.

Observe a vida de Semyon Kanatchikov. Filho de um ex-servo, ele trocou a pobreza rural por um emprego de operário e a excitação da modernidade. Entusiasmado e sociável, Kanatchikov lutou para se aperfeiçoar tendo como guia “O Autodidata de Dança e das Boas Maneiras”. Em Moscou, uniu-se a um círculo de discussões socialista e mais tarde ao Partido Bolchevique.

A experiência de Kanatchikov tornou-o receptivo a ideias revolucionárias: uma atenção aguda ao abismo entre ricos e pobres, a sensação de que uma velha ordem bloqueava a emergência do novo e ódio ao poder arbitrário. Os comunistas ofereciam soluções claras e convincentes. Ao contrário dos liberais, defendiam a igualdade econômica; mas, diferente dos anarquistas, queriam a indústria moderna e o planejamento estatal; e, em oposição aos socialistas moderados, argumentavam que a mudança teria de vir por meio da luta de classes revolucionária.

Na prática, foi difícil combinar estes ideais. Um Estado muito poderoso tendeu a sufocar o crescimento, ao mesmo tempo em que criou novas elites. A violência da revolução trouxe consigo periódicas caças aos “inimigos”. Também Kanatchkov tornou-se vítima. Embora fosse levado a postos de prestígio após a revolução, seus laços com Trotsky, o arqui-rival de Stalin, provocaram seu rebaixamento, em 1926.

Àquela altura, as perspectivas do comunismo eram sombrias. As primeiras chamas da revolução na Europa Central, logo após a I Guerra Mundial, estavam extintas. A União Soviética viu-se isolada, e os Partidos Comunistas em outras partes do mundo eram pequenos e conflagrados. A modernidade forjada dos EUA dos flamejantes anos 1920 era despudoradamente consumista, não comunista.

Mas as fraquezas do laissez-faire logo vieram em socorro do comunismo. O crash de Wall Street em 1929 e a Depressão que se seguiu fizeram das ideias socialistas de igualdade e planejamento estatal uma alternativa poderosa à mão invisível do mercado. E a militância comunista emergiu como uma das forças preparadas a resistir à ameaça do fascismo.

Mesmo o terreno árido dos Estados Unidos, não congênito ao coletivismo e ao socialismo sem Deus, tornou-se fértil. Quando Moscou trocou, em 1935, sua doutrina sectária por uma política de apoio às “frentes populares”, os comunistas norte-americanos somaram-se a esquerdistas moderados contra o fascismo. Al Richmond, um jornalista novaiorquino no Daily Worker lembrava-se do otimismo renovado quando ele e seus colegas passavam noites num restaurante italiano fazendo brindes “à vida, àquela era, a seus presságios e esperanças, certos de nossas respostas ao ritmo deste tempo, porque nele sentíamos nossa pulsação”.

Tal otimismo, era partilhado por um grupo seleto. Vítima dos expurgos de Stalin, Semyon Kanatchikov morreu no Gulag, em 1940.

Muitos aceitavam esquecer do terror stalinista para preservar a unidade anti-fascista. Mas a segunda ascensão do comunismo no final dos anos 1930 e início dos 40 não sobreviveu à derrota do fascismo. Quando a Guerra Fria intensificou-se, a identificação do comunismo com o império soviético comprometeu sua tentativa de apresentar-se como libertador. Na Europa Ocidental, um capitalismo reformado e regulado, que os EUA incentivavam, ofereceu níveis de vida mais altos e o Estado do Bem-estar Social. As economias de comando, que faziam sentido no período de guerra, estavam menos aptas para a paz.

Mas se o comunismo se esvaía no Norte global, no Sul ele tomava corpo. Lá, as promessas dos comunistas de modernização rápida, liderada pelo Estado, incendiaram a imaginação de muitos nacionalistas anticoloniais. Aqui, ergueu-se uma terceira onda vermelha, que irrompeu na Ásia Oriental nos anos 1940 e no Sul pós-colonial a partir do final dos 60.

Para Geng Chansuo, um chinês que visitou uma fazenda-modelo coletiva na Ucrânia, em 1952 – três anos depois que as guerrilhas comunistas entraram em Beijing –, o legado de 1917 continuava potente. Sóbrio líder camponês de Wugong, um vilarejo cerca de 200 km. ao sul de Beijing, ele foi transformado pela viagem. Ao voltar, tirou a barba e o bigode, vestiu roupas ocidentais e começou a pregar em favor da coletivização agrícola e do milagroso trator.

A China revolucionária fortaleceu a determinação de Washington em conter o comunismo. Mas enquanto os EUA travavam sua desastrosa guerra no Vietnã, uma nova geração de nacionalistas marxistas emergia no Sul, atacando o “neo-imperialismo” que, acreditavam, havia sido tolerado por seus antecessores, socialistas moderados. A Conferência Tricontinental de socialistas africanos, latino americanos e asiáticos, patrocinada por Cuba e realizada em 1966, abriu uma nova série de revoluções. Por volta de 1980, os Estados marxistas-leninistas estendiam-se do Afeganistão a Angola, ao Yêmen do Sul e à Somália.

O Ocidente também assistiu a um revival marxista nos 60, mas seus estudantes radicais tinham, ao fim, mais compromisso com autonomia individual, democracia na vida quotidiana e cosmopolitismo do que com disciplina leninista, luta de classes e poder de Estado. A trajetória do estudante alemão radical Joschka Fischer é um exemplo expressivo. Membro de um grupo denominado Luta Revolucionária, que tentou inspirar um levante comunista entre trabalhadores da indústria automobilística em 1971, ele tornou-se mais tarde líder do Partido Verde alemão.

A emergência, a partir do final dos anos 1970, de uma ordem americana dominada pelos mercados globais, seguida pela queda do comunismo soviético ao apagar dos 80, causou uma crise generalizada da esquerda radical. Fischer, como muitos outros estudantes dos 60, adaptou-se ao novo mundo. Como ministro do Exterior da Alemanha, ele apoiou os bombardeios dos EUA em Kosovo (contra as forças de Slobodan Milosevic, antigo líder comunista sérvio), e defendeu os cortes no Estado de Bem-estar Social da Alemanha, em 2003.

No Sul, o FMI forçou reformas de mercado em países pós-comunistas endividados, e algumas das antigas elites comunistas fizeram uma conversão ardente ao neoliberalismo. Resta agora só um punhado de Estados denominados comunistas: Coreia do Norte e Cuba, além de China, Vietnã e Laos, mais capitalistas.

Hoje, mais de um quarto de século após o colapso da União Soviética, seria possível uma quarta encarnação do comunismo?

Um grande obstáculo é a divisão pós-60 entre uma velha esquerda que prioriza a igualdade econômica e os herdeiros de Fischer, que ostentam valores cosmopolitas, políticas de gênero e multiculturalismo. Além disso, defender os interesses dos excluídos, em escala global, parece uma tarefa quase impossível. O crash de 2008 apenas intensificou os dilemas da esquerda, enquanto criou, para nacionalistas radicais como Donald Trump e Marine Le Pen, uma oportunidade de explorar a ira diante das desigualdades econômicas do Norte global.

Estamos apenas no início de um período de grandes mudanças econômicas e agitações sociais. À medida em que um tecno-capitalismo altamente desigual for incapaz de oferecer empregos decentes, os jovens poderão adotar uma agenda econômica mais radical. Uma nova esquerda poderia ser capaz de unir estes hoje derrotados — estejam na economia do material ou do imaterial – em favor de uma nova ordem econômica. Já surgem reivindicações de um Estado mais redistributivo. Ideias como a renda universal da cidadania, que a Holanda e Finlândia estão experimentando, aproximam-se, na concepção, à visão de Marx sobre a aptidão do comunismo para suprir os quereres de todos – “de cada um segundo sua capacidade para cada um segundo sua necessidade”.

Um longo caminho nos separa da Praça Vermelha de Moscou em 1987 – e ainda mais do Palácio de Inverno de Petrogrado em 1917. Não haverá volta ao comunismo dos planos quinquenais e  dos gulags. Mas se há algo que esta história turbulenta ensina é que os “últimos hurras” podem ser tão ilusórios quando o “fim da ideologia” previsto nos anos 1950 ou o “fim da História” de Fukuyama, em 1989.


Lênin já não vive e o velho comunismo pode estar morto, mas o senso de injustiça que os animou está vivíssimo…
http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2017/03/comunismo-havera-uma-quarta-onda.html

quinta-feira, 2 de março de 2017

Como A Noruega Desfaz O Mito De Setor Privado Versus Público

Via Evonomics

Um Estado capaz de construir uma infraestrutura sólida não é o bastante. Deve ser também um Estado inclusivo




David Sloan Wilson and Sigrun Aasland

Não é segredo que as nações escandinavas estejam fazendo algo correto. Em matéria de felicidade e qualidade de vida eles lideram consistentemente. O guru Francis Fukuyama chamou a procura da boa sociedade de “vá para a Dinamarca”. Até o The Economist mostrou um viking pateta em sua capa com a chamada “O próximo super modelo”.

Como as nações nórdicas obtém seu sucesso – e se elas podem ser copiadas por outros países – é uma outra questão. Bernie as enxerga como modelo. Hillary discorda. O inferno irá congelar antes que Ted e Donald dirijam seu olhar a tal direcionamento “socialista”.

Talvez uma nova maneira de pensar constante no Evonomics possa ajudar. Um certo olhar básico para tal é desfazer o mito disseminado nos EUA e perigosamente ineficiente em outros países de que o setor privado faz tudo bem feito e o setor público o faz de maneira pobre. A sociedade moderna requer uma infraestrutura extensa que não emerge de baixo para cima através de mercados desregulados. Este tem sido o caso, nos EUA e outros lugares como atesta minha recente entrevista para Daron Acemoglu. Uma das razões para o fato das nações nórdicas trabalharem bem é que elas não sucumbiram – ainda – ao canto da sereia do mercado livre fundamentalista.

Um Estado forte capaz de construir a infraestrutura não é suficiente. Deve ser também um Estado inclusivo que trabalha em benefício de todos, oposto a um Estado extrativista que trabalha somente em benefício de uma elite reduzida, assim como minha entrevista para Acemoglu também deixa claro. Talvez as nações nórdicas também trabalhem bem por isto – Estados sólidos trabalhando em colaboração com um forte setor privado, fortes sindicatos, e um forte, bem informado e confiável eleitorado.

Mesmo isto é necessário mas não suficiente. Uma economia nacional que funciona bem é um complexo sistema de adaptação, assim como um automóvel com partes interdependentes. Mesmo um Estado forte e inclusivo não funcionará bem se não puser as partes de sua economia juntas para trabalharem da maneira correta, o que não é matéria simples para qualquer sistema complexo. Nem planejamento centralizado nem mercado desregulado irão funcionar. Alguma coisa no meio termo se requer, que David Collander chama de “laissez faire ativista” no extrato de seu livro com Roland Kupers intitulado A Complexidade e a Arte da Política Pública”.

Durante os últimos três anos o Evolution Institute tem feito um estudo especial sobre a Noruega como exemplo de uma evolução cultural em direção da alta qualidade de vida. Temos, no momento, uma extensa rede de associados que nos auxiliam para combinar seu detalhado conhecimento da sociedade norueguesa e sua economia com nossa distinta perspectiva teórica – incluindo Sigrun Aasland, diretor de análise da AGENDA, um laboratório de ideias focado nas políticas domésticas e assuntos internacionais das Noruega. Minha entrevista com Aasland provê um olhar para o complexo sistema ajustável que opera sob a superfície da economia norueguesa.

DSW: Saudações, Sigrun, e bem vindo ao Evonomics

AS: Obrigado David. Estou realmente entusiasmado em fazer parte desta discussão.

DSW: Para começar, fale-nos a respeito de sua própria experiência. Sei, através de conversações prévias, que parte de seu treinamento econômico se deu nos EUA, logo vc, pessoalmente, experimentou as filosofias econômicas muito diferentes dos dois países.

AS: Sim! Eu tive sorte o bastante para obter meu mestrado na escola de estudos internacionais avançados (SAIS) da Universidade Johns Hopkins em Washington, DC. Também trabalhei no Banco Mundial durante 5 anos após minha graduação. A SAIS é um grande programa – o que pode ser mais perfeito para maníacos em política do que estudar no coração da elaboração política global? E ela tem também um corpo discente verdadeiramente internacional – e assim você aprende economia e política junto com gente da China, Japão, Suécia, Polônia, Equador, Canadá, Marrocos e EUA

Dizem ser bom, de vez em quando, desafiar nossas concepções globais. Eu cresci na Noruega e o Estado de bem estar sempre foi auto evidente. No SAIS nem tanto. Me lembro de que alguém escreveu no banheiro do porão: “de quantos escandinavos uma escola de política direitista, de fato, precisa? Tornou-se ser um número razoável, em parte porque tínhamos nossos estudos cobertos por nosso próprio estado de bem estar social e podíamos estudar numa escola de graduação cara simplesmente por ela ter as graduações para tal.

DSW: Bem, aí há um benefício de um estado de bem estar social!

SA: Na classe de Economia do Trabalho da SAIS não discutíamos sobre o nível e formato das políticas sociais, mas bastante sobre o Estado Social como conceito. O contraste era significativo com relação à tradição norte americana, mas também os estudantes do leste europeu eram bastante libertários – tendo crescido logo depois da queda do comunismo. Você aprende bastante vendo de fora o seu próprio sistema. Ao menos eu aprendi.

DSW: Agora conte-nos um pouco sobre a AGENDA e seu papel como diretor de Análise. Onde está alocada a AGENDA no espectro político norueguês e onde está alocado o espectro inteiro com relação ao espectro norte americano?

SA: AGENDA é um laboratório de pensamento e a centro esquerda da política norueguesa. O conceito de laboratórios de pensamento é relativamente novo na Noruega. Nós temos tido partidos políticos e institutos de pesquisa, e, gradualmente, penso que tenha ficado cada vez mais claro que há uma brecha entre os dois. Políticas tendem a se orientar para o conflito e há sempre uma luta pela atenção, bem como de tempo e espaço. Na outra ponta do espectro pesquisadores hesitam em se engajar no debate político por serem mal interpretados ou tidos como simplistas. Nosso trabalho é abrir um debate político de mente aberta. E explicitamente não fazemos juízo de valor. Não somos afiliados a qualquer partido. Porém nossa filosofia é de que a liberdade só é possível quando as oportunidades são, de fato, iguais. Hoje em dia vemos que não são. Capital e recursos se acumulam, a desigualdade é crescente, e suas possibilidades dependem, fundamentalmente, da situação econômica de seus pais. O estudo de Robert Putnam, entre outros, demonstra isto claramente. Nós convidamos pesquisadores – incluindo Putnam para contribuir e procuramos criar tanto pensamentos mais profundos quanto uma ponte entre pesquisa e política. Também produzimos nossa própria análise sobre fatos políticos, incluindo política econômica e do Trabalho, o futuro do Estado de Bem Estar, políticas energéticas e climáticas, migração e desenvolvimento.

DSW: Obrigado por essas informações preliminares – foram de muita ajuda. Agora mergulhemos! Eu o conheci, primeiramente, numa conferência que dei no BI, a maior escola de administração da Noruega. Minha conferência foi sobre “A vantagem competitiva da colaboração” e você esteve presente como comentarista. Fiquei impressionado como descreveu a economia norueguesa como um sistema de adaptação com partes interligadas. Você poderia, por favor, repetir aquela sucinta descrição?

SA: Adoraria! Meu ponto principal – bem ilustrado no Economist e outros é que o modelo nórdico faz sentido economicamente. Não é simplesmente sobre Justiça e Igualdade. É também – e mais importante ainda – sobre usar todo o talento, toda a tecnologia possível e em constantes mudanças. Isto significa alta produtividade.

O assim chamado modelo norueguês pode ser ilustrado como um triângulo consistindo de três fatores interligados. Primeiro: um Estado de bem estar forte financiado por impostos fornecendo redes de Educação, Saúde e segurança social. Segundo: uma economia de livre mercado com políticas fiscais e monetárias ativas afim de assegurar a estabilidade, distribuição e pleno emprego. E terceiro, uma forte colaboração em um mercado de trabalho organizado com formação de salários coordenados e colaboração a nível empresarial.

No momento este modelo tem demonstrado a habilidade de combinar impostos relativamente altos com alta produtividade. O crescimento da produtividade tem caído menos na Noruega do que em muitos outros países. Há algumas razões para isto. Uma estrutura de salários coletivamente negociada e comprimida significa que o trabalho pouco qualificado é relativamente caro enquanto que o trabalho mais qualificado é barato. Do momento em que o trabalho altamente qualificado complementa a tecnologia enquanto o de baixa tecnologia a substitui, três coisas acontecem. Primeiro, os empregadores investem em tecnologia de modo a substituir os trabalhadores menos qualificados já que o diferencial de custo é pequeno. Segundo: caso não sejam altamente produtivos, os mesmos empregadores não conseguirão manter os empregados e terão de dispensá-los. Isto assegura adaptabilidade nas companhias mas também entre elas. Adaptar ou morrer.

DSW: Evolução cultural em progresso

SA: Esta última é importante e me leva ao próximo ponto. Apenas como ilustração – durante os últimos dois anos aproximadamente 30 000 pessoas perderam seus empregos em petróleo e gás como consequência dos preços de petróleo declinantes e em consequência de uma demora em investimento no crescimento da produtividade do setor. Na primeira onda tratava-se de trabalhadores convidados mas, eventualmente, de staff norueguês. Enquanto dramático a nível pessoal para aqueles que perderam seus empregos, isto aconteceu sem crise ou desconforto social. Tal é administrável pelo fato de trabalhadores noruegueses terem segurança social e não segurança no emprego. É assegurada pelo Estado uma certa rede de segurança para os demitidos.

A terceira coisa que ocorre é uma boa colaboração no ambiente de trabalho. A vida norueguesa no trabalho é caracterizada por uma hierarquia limitada e de pouca distância até o topo. Isto significa que ideias podem ser trazidas e decisões tomadas na linha de produção por empregados confiáveis e qualificados. Aliás, a pesquisa demonstra que firmas com alto nível de trabalho organizado são mais capazes de se reorganizarem e reestruturarem.

DSW: Isto irá surpreender muitos leitores americanos.

SA: Bem, eles não estão sozinhos. Eu diria que há um mito bem estabelecido de que trabalho organizado atrapalha a inovação e reestruturação. Mas, no microcosmo, a maioria das pessoas concordariam que o bom diálogo promove melhores soluções para todo mundo. Vc sabe que não é do interesse dos trabalhadores verem as empresas naufragarem. Em um nível macro a forte tripartite colaboração entre sindicatos, empregadores e Estado também tem interesse em assegurar a formação responsável de salários. E juntas elas podem abraçar as vastas e difíceis reformas onde uma perspectiva de longo prazo é necessária. Dois exemplos: na negociação anual de salários a indústria de exportação sempre negocia primeiro e estabelece o cenário para as demais, assegurando assim que o crescimento de salários não excederá aquilo com que os exportadores possam lidar. A nível político, em 2008 os três parceiros negociaram o início de grande reforma da aposentadoria que dará menos às pessoas mas será necessária para assegurar o suprimento de trabalho e orçamentos públicos numa população que está envelhecendo.

Tudo isto, no caso, não é para dizer que não hajam desafios pela frente. Um deles é que o mercado de trabalho sofre mudanças. Com mais trabalhadores em Serviços, com mais conhecimento e com ( não ainda) mais free lancers estamos vendo um declínio do trabalho organizado ( membros de sindicatos). Atualmente está em 50% da força de trabalho e, em algum ponto, poderá deixar de ser representativo para uma melhor negociação coletiva e um papel político forte. Segundo, através da imigração aparece uma percentagem maior de trabalhadores de qualificação mais baixa do que a população norueguesa típica. Já estamos tendo problemas com os próprios noruegueses menos qualificados num mercado de trabalho altamente produtivo. Permitir salários menores minaria os princípios acima e poderia mesmo tornar os benefícios sociais mais atraentes do que os salários para alguns. Logo não é uma boa solução. Construindo competências e integrando mais imigrantes ao mercado de trabalho nos seus próprios termos parece mais sensível, mas é naturalmente mais fácil de dizer do que de fazer, ao menos para a primeira geração de imigrantes ( de fato a segunda geração de imigrantes consegue ir bastante bem)

DSW: Mesmo um sistema de adaptação complexo pode ser destruído por forças externas. Vamos falar mais sobre inovação. A Noruega, às vezes é mostrada como tendo falta de inovação mas sua análise parece sugerir o contrário.

SA: Há uma discussão interessante acerca dos modelos que, de fato, trazem inovação. Na minha compreensão Daron Acemoglu e outros argumentam que sociedades igualitárias com Estado forte e redes de segurança consideráveis são bons lugares para se viver, mas são dependentes de outros ( como os EUA) para buscar inovação pois o principal mecanismo de inovação é a possibilidade de ir à frente numa sociedade, de outro modo, desigual. Outros pesquisadores tem questionado esta análise, questionando inter alia como esta inovação é mensurada. Tais pesquisadores mostram que tanto em patentes e pesquisadores per capita – os países nórdicos tem se apresentado bem melhor que os EUA. Joseph Stiglitz também oferece teorias alternativas argumentando que altos níveis de confiança e uma forte rede de seguridade promovem, de fato, a inovação pois o risco de fracasso é percebido como muito menor. E assim como outro laureado do Prêmio Nobel, Daniel Khanemann, ilustrou – as pessoas tendem a escolher risco zero sobre o possível ganho.

A estrada para a inovação e o sucesso é pavimentada com tentativas fracassadas. Assim sendo se concentra em duas questões básicas: Primeiro – que tipo de relacionamento traz nova maneira de pensar? E segundo: as pessoas pensam de forma inovadora se elas tem muito a ganhar, pessoalmente – ou se o fracasso em tentar traz baixo risco?

DSW: Sua análise do que está por “debaixo dos panos” da Economia norueguesa ilustram bem o três fatores que listei na minha introdução a esta entrevista; 1) um Estado forte 2) um Estado inclusivo; e 3) um Estado adaptável a um sistema complexo. Eu gostaria de ouvir mais a respeito do terceiro fator. Como a Noruega conseguiu, por um lado, evitar os riscos de um planejamento central, de um lado, e de um mercado desregulado de outro? Como ela consegue lidar com o fato que qualquer política de intervenção terá efeitos em cascata através de um complexo sistema social e econômico?

SA: Bem, esta é uma grande pergunta. E não estou aqui para atestar que a Noruega já tem tudo resolvido. Mas os blocos de construção estão no lugar. E eu gostaria de voltar a uma questão a que você também se referiu na sua introdução: esta não é uma economia de planejamento. De fato meu principal ponto é que não é só o Estado que promove o modelo nórdico. É um consenso complexo e estável que envolve empregadores e empregados – precisamente para assegurar o setor privado e as exportações. A Economia não é centralmente planejada. A parcela do PIB ocupada pelo setor público é alta porque os serviços de bem estar e bens coletivos são publicamente administrados ou financiados. Mas a economia, em geral, se mostrou altamente adaptável.

DSW: Muito obrigado pela sua visão de insider da economia norueguesa que penso será reveladora para muito leitores norte americanos. Melhor ainda, eu e meus colegas da Evolution Institute esperamos trabalhar com você e seus associados da AGENDA de modo a – como eu coloco – nos tornarmos administradores sagazes do processo evolucionário.

SA: Obrigado!


Tradução: Maneco

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Aldir Blanc: Golpes de ódio

 Sanguessugado do Cultura, Esporte e Política

Aldir Blanc
Recebi um telefonema do João Bosco. Triste, João falou sobre o ódio alucinado que grassa no país:
— Clamam por sangue, querem enforcar, pedem a volta da ditadura, só um lado é preso. E há um ódio em tudo...
Sinto a mesma coisa. Dias depois dessa conversa, Verissimo escreveu sobre a perplexidade de um brasilianista no futuro: “Por que haveria escândalos que davam manchetes e escândalos que só saíam nas páginas internas dos jornais, quando saíam? Escândalos que acabavam em cadeia ou escândalos que acabavam na gaveta de um procurador camarada? (...) Como explicar o ódio desses dias?”
Pois é. Uma empresa de palhaços rebaixou o Brasil, a Petrobras, o banheiro da Central... No dia seguinte, saiu, muito menor, a notícia de que a m(*) avaliadora já pagou um bilhão e quatrocentos milhões de dólares em multas, por mascarar seus pareceres de risco. Por que esses farsantes merecem credibilidade? Qual a razão da dança de machadinhas ao redor da fogueira, com o Brasil queimando no poste? Depois de tanto sofrimento para termos de volta a democracia, como explicar a ânsia de rasgar a Constituição? Joaquim Levy alertou para o “afã de outras agências”. Elas existem só para nos ferrar e os bobos da corte aplaudirem? O Complexo de Vira-latas está de volta. Vira-latas, caniches de madames, gorduchinhas da Pomerânia...
Voltando a bater na tecla: Mamaluf virou réu. Será preso? Vão apreender joias, obras de arte, vinhos raros? Cucunha foi delatado mais uma vez. Resultado: expandiram seu prazo de defesa. Gilmar Mente Pacas desacatou a OAB e, no dia seguinte, foi a pagode de quem o colocou no cargo, um convescote de agronegociantes.
Nossa polícia é a que mais mata no mundo. Sudão, Somália, Afeganistão, Congo, Indonésia, vocês não são de nada. Também desmatamos território equivalente à África do Sul, campos de futebol devastados a cada leitura de um simples abaixo-assinado. Um parlamentável do PCdoB, talvez por sua rigidez albanesa, chamou nossos índios de “viadinhos”. Reconheceu, com a experiência de entendido-no-armário, “dois índios baitolas, com certeza”. Incrível como um esquerdista burro se parece com pastores homofóbicos à direita de Hitler...
Um gaiato disse na telinha que as coisas funcionam em Noviórqui porque o sistema lá é o capitalismo, e que os mercados se autorregulam. Uma frase de Martin Wolf procê, trouxa: “Lembre-se da sexta-feira, 14 de março de 2008: foi o dia em que o sonho do capitalismo de livre mercado morreu”.
Enquanto isso, Paulo Skaf Edeusse, da Fiesp, faz propaganda contra o ajuste fiscal, posição parecida com a do senadô Randolfe Scott. Os dois não são fofos.
Ainda sobre o ódio: dia virá em que inaugurarão monumento a terrorista assassino do exército. Sugiro que seja um busto, já que não sobrou quase nada embaixo.
Fechando o bloco, os fascistas húngaros e o resto da direita ocidental não precisam se preocupar com refugiados. É só mandar todos eles à Meca.

sábado, 18 de julho de 2015

A crise Grega demonstra que a alternativa ao sistema capitalista passa pela Revolução


Miguel Urbano Rodrigues
A evolução da crise grega manifesta traços do poder do imperialismo que talvez em nenhuma situação anterior se evidenciassem de forma tão flagrante. O Syriza, força social-democrata, nada põe em causa do capitalismo. Mas a enorme distância entre as suas promessas eleitorais e as imposições da troika obrigaram-no a tentar obter alguma margem de negociação. Acontece que, nos dias de hoje é suficiente que um político no poder ouse contestar mesmo timidamente a ditadura do capital para ser encarado como inimigo do sistema. O imperialismo não negoceia, exige capitulação total. A alternativa dos povos só existe com a perspectiva do socialismo.
A evolução da crise grega encerra lições muito importantes para as forças progressistas que em dezenas de países lutam em contextos muito diferentes contra o imperialismo.
A principal delas confirmou a impossibilidade daquilo que sectores da social-democracia chamam «a reforma humanizada do capitalismo».
A vitória do Syriza nas eleições gregas semeou ilusões. Os discursos de Tsipras durante a campanha, recheados de promessas, contribuíram para que os partidos social-democratas, na Europa e na América Latina, definissem o Syriza como um partido de «esquerda radical», vocacionado para introduzir grandes transformações na sociedade helénica. O governo Syriza-Anel recebeu inclusive o apoio de alguns partidos comunistas europeus.
Mas logo após iniciar negociações com as instituições europeias (nova designação para a troika) ficou transparente que Tsipras concordava com a maioria das exigências de Bruxelas.
Durante uma visita de duas semanas à Grécia apercebi-me de que o seu governo se propunha a dar continuidade à política de submissão ao imperialismo desenvolvida pela coligação da Nova Democracia com o Pasok, introduzindo-lhe apenas mudanças cosméticas.
As suas continuas cedências às propostas dos parceiros de Bruxelas não impediram que estes adiassem sucessivamente o acordo que permitiria ao governo de Atenas receber 7200 mil milhões de euros (a ultima tranche do segundo plano de «ajuda»), evitando o default iminente.
Dias antes do final do prazo para pagamento ao FMI de 1,5 mil milhões de euros, Tsipras, numa pirueta, anunciou a convocação de um referendo. O povo tinha que responder se concordava ou rejeitava as ultima propostas apresentadas pelo Eurogrupo. E num discurso dramático no Parlamento pediu aos eleitores que votassem NÃO!
O eleitorado atendeu ao seu apelo. O NÃO obteve 61% dos votos emitidos. O governo interpretou-o como uma aprovação do Memorando do Syriza.
O referendo, repudiado pelo Partido Comunista, foi uma manobra teatral de Tsipras. É significativo que no dia seguinte ao referendo o Syriza, o Pasok e o Potami publicaram um comunicado conjunto, num consenso expressivo da política de classe do governo.
Ao retomar as negociações em Bruxelas, o primeiro-ministro grego traiu a confiança dos eleitores, pediu um novo resgate de 53 000 milhões de euros e apresentou ao Eurogrupo propostas piores do que as ultimas que havia recusado.
Recusaram a austeridade, mas dias depois propuseram uma austeridade reforçada.
Ao contrário do que muitos esperavam, a assinatura do Acordo esbarrou com a oposição tenaz da Alemanha, da Holanda, da Finlândia e outros países. Não é já o conteúdo das propostas de Atenas que está em causa. O governo de Tsipras capitulou totalmente, confirmando as previsões do KKE (ver odiario.info de 30.06.15).
O impasse pantanoso das negociações de Bruxelas resulta das contradições que separam os membros do Eurogrupo, nomeadamente a Alemanha e a França. O governo de Merkel pretende excluir a Grécia do Euro.
CHILE, VENEZUELA, GRÉCIA
A consciência de que o capitalismo não encontra soluções para a crise estrutural que o atinge contribuiu para um aumento da agressividade imperialista (J.P.Gascão, odiario.3.7.15)
Essa opção é transparente na estratégia dos EUA, dispostos a recorrer à violência contra os povos cujos governos não se submetem incondicionalmente ao seu projeto de dominação planetária.
O bloqueio a Cuba, as guerras de agressão contra o Iraque, o Afeganistão e a Líbia, a ajuda militar e politica às organizações terroristas sírias, o apoio às agressões do estado fascista de Israel e as ameaças ao Irão expressam com muita clareza essa política.
Nunca a solidariedade das grandes potências imperialistas em defesa da Ordem do Capital foi tão transparente.
A evolução da crise grega confere atualidade às lições do Chile. A resposta à opção socialista da Unidade Popular de Allende quando no poder participavam um partido socialista então marxista e o partido comunista foi um sanguinário golpe militar.
Transcorridos mais de 40 anos, desaparecida a URSS, o mundo, hegemonizado pelo capitalismo, é muito diferente.
Hoje é suficiente que um político no poder ouse contestar mesmo timidamente a ditadura do capital para ser encarado como inimigo do sistema.
Nas Honduras, Manuel Zelaya, o presidente constitucional, foi afastado por um golpe militar organizado na embaixada EUA. No Paraguai foi deposto um presidente que defendia tímidas reformas que desagradaram a Washington.
No Equador, Obama desejaria substituir Rafael Correa, um reformista neokeynesiano, por um oligarca neoliberal, submisso à Casa Branca. Os EUA aliás têm apoiado as tentativas golpistas contra o presidente Correa.
Na Venezuela, Bush e Obama montaram e financiaram, sem êxito, sucessivas conspirações para derrubar Hugo Chávez não obstante as estruturas do capitalismo permanecerem no país quase intactas. Falecido Chávez, uma campanha mediática massacrante satanizou o inofensivo «Socialismo do SeculoXXI» e o presidente Obama afirmou identificar no governo de Maduro uma intolerável «ameaça à segurança dos EUA».
E na Bolívia, os tímidos matizes socializantes do Governo de Evo Morales incomodaram tanto Washington que o embaixador norte-americano organizou uma conspiração falhada cujo desfecho foi a sua expulsão de La Paz.
A ALTERNATIVA É A REVOLUÇÃO.
Na confusão ideológica atual, estimulada por um sistema mediático manipulador, a submissão total da Grécia aos sacerdotes do capital veio confirmar insisto – a impossibilidade da transformação profunda de sociedades capitalistas no âmbito do sistema, isto é, pela via institucional.
Mas, porventura se dissiparam as ilusões semeadas pelo Syriza e os demagogos populistas Tsipras e Varoufakis?
Não. Na Europa, forças políticas progressistas e alguns partidos comunistas, nomeadamente os do Partido da Esquerda Europeia, não obstante fixarem o socialismo como objetivo final, atuam no sistema como se algum dia fosse possível chegarem ao governo pela via eleitoral.
Obviamente no atual contexto europeu a conquista do poder através de uma revolução é uma impossibilidade a curto prazo. Existem em alguns países da União Europeia condições objetivas para ruturas revolucionárias. Mas faltam condições subjetivas.
Nem por isso são realistas os programas, por vezes muito ambiciosos, concebidos para uma transição no quadro de uma revolução democrática e nacional.
Em condições muito mais favoráveis do que as hoje vigentes, a revolução democrática e nacional portuguesa, inspirada nos valores de Abril, foi brutalmente interrompida por um golpe militar promovido pela burguesia com o apoio do imperialismo.
Alias, hoje, desaparecida União Soviética, as grandes potências da União Europeia recorreriam à violência se necessário, contra qualquer país membro que ousasse por em causa a ordem capitalista, no âmbito de uma revolução democrática e nacional.
Que fazer então?
As revoluções não são pré-datadas.
Ocorreram quase sempre em situações inesperadas, contra a própria lógica da História. Isso aconteceu com a Francesa de l789,com as Russas de l917, com a Chinesa, com a Cubana.
O Partido Comunista Grego oferece-nos o exemplo de uma organização revolucionaria que embora consciente de que não vai em tempo previsível tomar o poder no seu país, aliado a outras forças progressistas, luta com firmeza e coragem pela destruição do sistema capitalista no seu país. Pode discordar- se pontualmente do seu discurso, mas a sua coerência e tenacidade no combate inspiram em todo o mundo respeito e admiração aos comunistas.
As revoluções – repito - não têm data no calendário.
É minha convicção inabalável de que o capitalismo não tem soluções para a sua crise estrutural. Entrou numa lenta agonia que pode durar muitos anos.
O polo hegemónico do sistema, os EUA, mantem com os seus aliados, uma enorme capacidade de desencadear guerras imperialistas. São manifestações de desespero. São guerras monstruosas que esbarram com uma resistência crescente dos povos vítimas desse terrorismo de estado.
A simultaneidade e a convergência dessas lutas e da luta de massas em muitos países podem ser decisivas para a desagregação do sistema, minado por contradições internas, podem provocar a sua derrota final. Nesse combate vejo como insubstituível a participação dos partidos comunistas revolucionários.
A alternativa será a construção do socialismo apos uma fase de transição dolorosa, prolongada, diferente em cada país.
Uma certeza: a via institucional para o socialismo é uma impossibilidade histórica.
Gerês, 12 de Julho de 2015
no: http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2015/07/a-crise-grega-demonstra-que-alternativa.html

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Do capitalismo para o socialismo, um processo de transição



Se quereis fundar uma Republica tirai ao povo a menor parte possível de poder e fazei com que ele exerça as funções de que é capaz.
Louis-Antoine de Saint-Just

Se ao menos tivéssemos tido tempo!   Mas o povo não dispõe senão de uma hora.   Que infelicidade se nessa hora não estiver completamente equipado e pronto para a luta.
Bertholt Brecht,   Os dias da Comuna
Cartoon do capitalismo.1 – A SUPERIORIDADE DO SOCIALISMO 
Mais cedo do que muitos pensam, mais tarde do que muitos desejaríamos a transição para o socialismo colocar-se-á na prática. Assim, como Einstein considerava, a discussão dos temas do socialismo é um serviço público importante. [1]Além disto, no período eleitoral que se aproxima o tema não pode deixar de estar na ordem do dia sob pena das críticas ao neoliberalismo e à política de direita não passarem de uma espécie de neokeynesianismo liberal e não uma alternativa anticapitalista. 
O capitalismo chegou a uma situação em que a grande maioria das pessoas, os 99%, estão cada vez mais pobres e inseguros, com menos direitos, enquanto uma minoria de 1% detém 50% da riqueza mundial, controla a economia, as finanças, a opinião pública, o poder político, segundo os seus interesses, num regime que apesar da fachada democrática, não passa de um indisfarçável totalitarismo. O capitalismo tornou-se incompatível com o crescimento económico, com o desenvolvimento, com a própria democracia.
Em Portugal a política de direita conduzida nos últimos quatro anos pelos fundamentalistas de extrema-direita do PSD e CDS, arrastou o país para uma verdadeira tragédia económica e social que se traduz no subdesenvolvimento político, económico, cultural e ideológico.
Para o marxismo, o modo de produção dominante determina a base do regime económico e social. A história do desenvolvimento das sociedades é antes de tudo a história dos modos de produção que se substituem uns aos outros. Tal como o feudalismo sucedeu ao esclavagismo e o capitalismo ao feudalismo, o socialismo sucede ao capitalismo como modo de produção mais avançado. A superioridade do socialismo consiste em que a sociedade se organiza para satisfazer as necessidades sociais de todos os membros da sociedade.
Se, de acordo com o marxismo, a passagem do capitalismo para o socialismo representa uma fase mais avançada do progresso da humanidade, então na passagem de experiências socialistas para o capitalismo deveremos verificar retrocessos sociais. Ora foi justamente isto que se verificou.
Após o fim da URSS, no final dos anos 90 o número de pessoas a viver na pobreza tinha atingido mais de 150 milhões. A economia foi dominada por grupos do crime organizado e por estrangeiros, regredindo o PIB para metade da década anterior. Milhões de crianças sofriam de desnutrição. A esperança de vida dos homens caiu para 60 anos, praticamente a mesma que cem anos antes.
A regressão civilizacional nos países socialistas foi evidente: traduzindo-se no continuado aumento da pobreza, dependência económica, instabilidade social, tornando-se presas do crime organizado, com todos os seus dramas, e peões das estratégias de guerra do imperialismo, intimamente ligado à extrema-direita.
Mas não foi só nestes países que a passagem para o capitalismo representou uma regressão civilizacional. Países que procuravam vias socialistas, democráticas e populares e exerciam o seu direito à autodeterminação, na América Latina, África, Ásia, foram alvos de golpes de Estado patrocinados pelo imperialismo com o apoio expresso ou tácito da social-democracia. Este retrocesso produziu catástrofes que se medem por milhões de vítimas
Golpes de estado, agressões externas, chantagens descritas por John Perkins, ex-dirigente da empresa CGAST Main Inc. no seu livro "Confessions of an economic hitman" [2] , deram lugar a governos e sistemas corruptos em violação sistemática dos direitos humanos, mesmo sanguinários, mas apoiados pelo FMI e BM, praticamente ignorados por ONG de "direitos humanos", especializadas nos ataques aos países de orientação socialista ou socializante e popular.
O fim da URSS e do socialismo nos países do leste europeu deu lugar ao aumento da pobreza e da desigualdade a nível mundial. Atualmente o neoliberalismo representa uma acentuada regressão civilizacional empenhando-se na destruição de todas as conquistas do proletariado e da democracia nas décadas anteriores à dissolução da URSS. Como diz Paul Roberts, "a exploração de muitos para poucos é a marca registrada do Ocidente, uma entidade caduca, corrupta e em colapso. [3]
O papel da social-democracia/socialismo reformista tem sido o de associar-se ao neoliberalismo, desmobilizando as camadas populares, fazendo coro na propaganda antissocialismo e cedendo aos interesses das camadas monopolistas.
2 – OS PRECONCEITOS E O "MODELO SOVIÉTICO"
O prestígio da União Soviética, obrigou as forças do capital a cedências. As forças pró-capitalistas empenharam-se e empenham-se em denegrir as experiências socialistas. O capitalismo é apresentado como liberdade e "direitos humanos" e o socialismo "ditadura de esquerda". Procede-se assim ao branqueamento dos crimes do capitalismo. Deixemos os próprios falar por si.
Em Maio de 1996, depois de cinco anos de sanções e bombardeamentos contra o Iraque, no programa "CBS 60 minutos" foi feita a seguinte pergunta à embaixadora dos EUA na ONU, Madeline Albright: "Ouvimos dizer que meio milhão de crianças morreu (em consequência da política americana contra o Iraque). Valeu a pena pagar esse preço?" Resposta: "Nós pensamos que valeu a pena." (vídeo disponível em http://www.informationclearinghouse.info/ ). O "trabalhista" Tony Blair disse algo semelhante no parlamento inglês.
Declarou Wayne Smith ex-chefe da secção em Havana dos interesses dos EUA sob a administração de Reagan: "Democracia e direitos humanos interessam-nos muito pouco. Utilizamos essas palavras para esconder os nossos verdadeiros motivos. Se a democracia e os direitos humanos nos importassem, nossos inimigos seriam a Indonésia, a Turquia, o Peru ou a Colômbia, por exemplo. Porque a situação em Cuba, em comparação com esses países e a maioria dos países do mundo, é paradisíaca." [4]
Nos EUA há 2,3 milhões de pessoas presas e mais 4,3 milhões em liberdade condicional totalizando cerca de 6,6 milhões de pessoas condenadas. De longe o líder mundial em colocar o seu povo na cadeia. Acresce que o número de pessoas mortas pela polícia este ano já superou as 500. [5]
Apesar disto, os preconceitos e mentiras antissocialistas fazem uso do alibi do "comunismo" e "estalinismo". O chamado "modelo soviético" serve para desviar a discussão sobre o socialismo e suas formas de transição. É claro que nunca existiu "comunismo", mas sim países socialistas dirigidos por partidos comunistas ou afins. tyem som
Com o socialismo alcançou-se um nível inédito de igualdade, segurança, serviços de saúde, habitação, educação, emprego e cultura para todos os cidadãos. A produção industrial na Rússia representava em 1913 cerca de 4% da produção mundial. Em meados dos anos 70 este indicador elevava-se a 20% na URSS. Um quarto dos cientistas do mundo trabalhava na URSS. Nenhuma sociedade tinha até então conseguido em tão curto espaço de tempo níveis de vida, consumo e segurança para toda a população e sem conhecer crises económicas. [6] Como afirma a "Oposição de Esquerda" ucraniana: a era Soviética, foi uma era de progresso económico, científico e espiritual.
Com a perestroika foi posto em prática um projeto para destruir o socialismo e a URSS. Iakovlev, um dos principais colaboradores de Gorbatchov, declarou: "enfrentámos a tarefa histórica decisiva de desmantelar todo um sistema social e económico com todas as raízes ideológicas económicas e políticas". Na realidade, eram social-democratas, gente seduzida pelo imperialismo, ansiosa por se lhe juntar e partilhar as riquezas e o fausto das oligarquias ocidentais e seus serventuários.
Apesar da intensa propaganda para denegrir o socialismo e a URSS e elogiar os países capitalistas, "o ocidente", apenas 18% dos cidadãos era favorável a que se fomentasse a propriedade privada. Em 1991, num referendo, a esmagadora maioria da população soviética desejava manter a União. Entre a votação mais baixa na Ucrânia com 70,3% e as repúblicas da Ásia Central com 90%, a Rússia pronunciava-se com 71,4%. Tiveram o cuidado de não o considerar vinculativo… Face á resistência do Parlamento russo às políticas pró-capitalistas, Ieltsin ordenou o seu bombardeamento matando e prendendo centenas de deputados e cidadãos. Nos países capitalistas foi erigido aos píncaros como um herói da democracia.
Segundo o marxismo, o socialismo não é ainda a sociedade perfeita permanecem contradições, embora não antagónicas. Mas foram sociedades (e são) sujeitas à agressão, sabotagem, conspirações. Os erros e desvios à legalidade e à democracia existiram e não são escamoteados, porém as forças do capitalismo deformaram a sua natureza, ampliaram números da ordem de 1 para 10. Quando os arquivos foram estudados – por anti-soviéticos – os números reais foram escamoteados. [7]
3 – O SOCIALISMO COMO PROCESSO DE TRANSIÇÃO
A passagem do capitalismo ao socialismo corresponde a um processo de transição. A sua evolução, como em qualquer sistema complexo, depende não apenas das intervenções efetuadas, mas das condições iniciais. Assim, os processos de transição são complexos quanto a ritmos, estratégias, prioridades e forma de lidar com as contradições existentes, dado que as leis económicas que objetivamente persistem na sociedade são as leis do capitalismo.
As leis económicas objetivas não podem ser alteradas por vontade humana. Segundo o marxismo apenas podem ser alteradas as condições em que vigoram, melhorando a correspondência entre as relações de produção e o desenvolvimento das forças produtivas, permitindo que novas leis surjam, Nisto consiste, ou deve consistir, basicamente o processo de transição.
Sabemos que esta evolução não é linear, mas um processo que se estende por largos períodos históricos com avanços e recuos em que nas fases de transição elementos do modo de produção anterior permanecem, mesmo quando este já não é o dominante.
O esquerdismo, as tendências anarquizantes, não o entendem, assumem um radicalismo de fachada que os defensores da política de direita usam em seu proveito, muitas vezes como seu próprio disfarce para impedir o processo de transição. Se o referimos é porque em Portugal, como em muitos outros países, o voluntarismo, a irresponsabilidade, foram mascarados com uma retórica inflamada, colaborando na destruição do processo de transformações revolucionárias com suas provocações e excessos pseudo-revolucionários, que alienaram parte da população, facilitando o caminho para os golpes da direita.
A via socialista pôs-se com evidência em Portugal nas fases sequentes ao 25 de ABRIL, como a forma mais adequada de desenvolvimento económico e social, entendida pela esmagadora maioria da população e consagrada na Constituição. Embora só o CDS tenha votado contra, o PS e PPD (PSD), trataram desde logo de a combater e alterar. [8]
Apesar da crise capitalista de então, o salário mínimo nacional foi implementado, o abono de família foi aumentado e passou a abranger mais crianças, os valores das pensões sociais foram aumentados; foi implantada a licença de parto; alargado o período de férias pagas para 30 dias, institui-se o subsídio de Natal; foi reduzido o horário de trabalho; foram tomadas medidas de ajuda aos desempregados; foi criado o embrião do Serviço Nacional de Saúde, etc.
Um relatório da missão da OCDE que se deslocou a Portugal em dezembro de 1975, viu-se obrigado a dizer: "Portugal goza, inesperadamente, de boa saúde económica, em comparação com outros países da OCDE, a experiência portuguesa não parece muito pior que a média". Não, a experiência portuguesa era até bem melhor, mas isso era insuportável para a direita aliada ao PS, ou vice-versa. Compare-se com os resultados obtidos com a austeridade das troikas interna e externa e a destruição das estruturas produtivas provocada pelas políticas de direita.
"Pensamos que um outro capitalismo "de rosto humano" não é possível. Este sistema tornou-se essencialmente destrutivo para a humanidade e está condenado. Mas não cairá sem o impulso das lutas de massas, progressistas, anti sistémicas e convergentes. Este processo obriga a considerar alternativas de transformação social pós-capitalistas começando por parar a máquina infernal acionada pela Alta Finança que regula o mundo por meio da guerra e instaurar um controlo público e democrático dos oligopólios bancários e financeiros, a fim de responder às necessidades dos povos. A referência a Marx parece então incontornável." [9]
Em Portugal, o único partido de massas que inscreve o socialismo como objetivo estratégico é o PCP. Defende uma política patriótica e de esquerda, de que destacamos recuperar soberania económica, monetária e jurídica, colocar sob controlo público os sectores estratégicos (designadamente a banca, energia, indústrias extrativa e de primeira transformação) a defesa dos direitos sociais, dos sectores produtivos e serviços públicos.
Uma política patriótica de esquerda, não é o socialismo, não é sequer (ainda) o fim do capitalismo, mas é sem dúvida o princípio do fim do capitalismo monopolista e do neoliberalismo, isto é, a possibilidade de transição para o socialismo. Assim, como disse Marx, "se encerra a pré-história da sociedade humana".
NOTAS
[1] Porquê o Socialismo? , Albert Einstein,
[2] John Perkins, Confessions of an economic hitman, A Plum Book, Penguin Group, 2006.   O livro pode ser obtido em Livros para descarregamento .
[3] Paul Craig Roberts, Ukrainians Dispossessed, Americans are next
[4] Wayne Smith, www.ciponline.org/programs/latin-america-rights-security
[5] US Debt Clock e Tom Hall e Andre Damon, US Police Killed Over 500 People This Year ,
[6] Dados e referências sobre URSS e Rússia em "O socialismo traído", Roger Keeran e Thomas Kenny, Ed. Avante, 2008
[7] Domenico Losurdo, Um outro olhar sobre Staline ,
[8] Quem são os amigos do povo , Vaz de Carvalho,
[9] La maladie degenerative de l'economie: le neo-clacissisme , Remy Herrera, Ed. Delga, 2015, 215 p. 

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