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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O autoritarismo e sua outra face ignorada: ensaio sobre liberdade e democracia interna numa organização político-partidária.



Escrever sobre liberdade e democracia interna na dinâmica de uma organização político-partidária é um tema difícil. As dificuldades, a meu ver, assentam-se, em especial, em dois elementos: a) a falta de qualificação das categorias usadas na discussão, como, por exemplo, o que é liberdade e democracia interna; b) a série de lugares-comuns e vulgatas que rondam o tema: como reduzir qualquer forma de disciplina interna a manifestação do “stalinismo” ou da burocratização da organização.

O objetivo desse texto é discutir sem qualquer pretensão de novidade temas como liberdade e democracia interna na organização político-partidária, contudo, teremos um foco de direcionamento na escrita: nosso debate terá como central a quebra da liberdade e da democracia interna através de práticas individualistas/personalistas e competitivas, considerando que essas práticas são bastante comuns, mas recebem menos atenção que o seu reverso-gêmeo: o autoritarismo e a ausência de debates democráticos.

Antes de entrarmos no debate propriamente dito sobre liberdade e democracia interna, faz-se necessário tecer algumas considerações sobre os modos de sociabilidade e subjetivação no capitalismo, como eles condicionam os militantes e como esses processos se objetivam nas organizações de esquerda.

A tese fundamental do materialismo é que não é a consciência dos seres humanos que determina o seu Ser, mas ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência.  “O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral” (Karl Marx). A sociabilidade capitalista é ontologicamente constituída pela concorrência e pelo individualismo; somos subjetivados – como diria os estudantes de psicologia – a nos percebermos como sujeitos autoconstituídas e que atuam livremente de acordo apenas como o imperativo de nossa consciência e interesses; e a desenvolver processos constantes e cada vez mais brutais de competitividade e disputa com o próximo.
              
           Todos os momentos de nossa vida são constituídos pela competitividade e o individualismo: escola, faculdade, emprego, relações amorosas etc. – pensem, por exemplo, no vestibular. Esses processos de socialização moldam nossa subjetividade e criam uma dificuldade enorme de trabalharmos conjuntamente de forma a colocar o interesse coletivo acima do individual e a realizar práticas de cooperação solidária, isto é, processos de interação não pautados na competitividade e na concorrência – foi por compreender isso que Ernesto “Che” Guevara dedicou tanta atenção à transformação das formas de consciência e da cultura no processo de transição socialista em Cuba, no esforço homérico de criar o “homem novo”.

As organizações de esquerda que se reivindicam socialistas ou comunista têm, portanto, uma difícil missão: forjar um novo mundo com as pessoas subjetivadas nas formas de consciência capitalista. Evidentemente que antes do início da construção socialista com a conquista do poder, temos um longo percurso de organização e luta, e as organizações de esquerda revolucionária procuram gerar espaços de socialização que já tentam criar uma nova cultura e práticas de interação social, combatendo os valores e práticas burguesas.

A conclusão que podemos tirar do exposto acima é que as organizações revolucionárias da esquerda têm uma missão permanente dentro da sociedade capitalista: lutar para que sua organização e seus militantes não reproduzam as piores práticas da sociabilidade burguesa, nesse caso em específico, o individualismo/personalismo e a competitividade.

No Brasil, em grandes linhas, temos dois modelos básicos de organização político-partidária: as regidas por centralismo-democrático (PCB, PCR, PSTU, etc.) e as organizadas por tendências (PT, PSOL, etc.). Com base numa leitura um tanto simplista da história do Partido Bolchevique da Rússia, crer-se que esse modelo organizativo impede o debate interno, a livre expressão de divergências, restringe a democracia interna e a liberdade e no limite acaba criando as condições para o surgimento de uma casta burocrática que se apodera do partido e destrói toda discussão política e criatividade.

Outra crítica bem comum é que o modelo do centralismo-democrático acaba facilitando o autoritarismo dos dirigentes e anula a individualidade dos membros da organização. Embora de forma um tanto caricatural, muitas dessas críticas, tem alguma razão de ser. Como tratamos acima, estamos inseridos num modo de subjetivação que reproduz como elementos inerentes a competitividade e o personalismo, e essas práticas sociais, se dominantes numa organização, propiciam que o partido deixe de ser um instrumento político de efetivação de um programa revolucionário coletivamente construído para tornar-se uma máquina burocrática de conceder privilégios (tanto materiais como simbólicos) e garantir o interesse individual ou grupistas dos seus dirigentes.

As críticas ao surgimento do autoritarismo e do burocratismo em partidos com base no centralismo-democrático, reais ou imaginárias, são bem conhecidas e não precisamos nos estender nelas. Queremos chamar atenção para o reverso da moeda: a quebra da democracia interna e da liberdade através do individualismo/personalismo e da competitividade entre os membros do partido. Para isso, contudo, vamos antes escrever poucas linhas sobre o que é um partido e conceituar minimamente o que entendemos por democracia interna e liberdade.

Um partido revolucionário é organização política formada por militantes que expressam um programa político de transformação global de toda sociedade e procura ser o dirigente político-ideológico das classes trabalhadoras e camadas médias. Esse partido se diferencia do movimento social por seu programa de transformação e sua ação política que abarca (ou tenta abarcar) todos os aspectos da vida social. Os militantes desse partido pactuam uma espécie de acordo entre si sobre como funcionará esse partido (estatuto e modelo organizativo) e qual será o programa político e sua estratégia e táticas de aplicação (resoluções congressuais e decisões conjunturais da direção).

A direção e a base não formam dois elementos hierarquicamente dissociados, mas são partes de um todo orgânico com funções diferentes: a direção é responsável por conduzir a operacionalização da política da organização de acordo com as deliberações congressuais e a forma regimental do estatuto; a base por aplicar a política que também emana das resoluções congressuais e dos documentos estatutários. Embora sempre deva existir certa flexibilidade tática entre os documentos do partido e sua aplicação na realidade concreta (notem que falei de flexibilidade tática e não estratégica), essa flexibilidade nunca pode significar uma adaptação sem critérios às conjunturas momentâneas ou a anulação das decisões coletivas – sendo o congresso a expressão máxima da decisão coletiva do partido.

Além de expressar esse acordo coletivo sobre forma organizativa e programa, o partido revolucionário deve manter, no seu cotidiano, formas de funcionamento que permitam uma forte democracia interna e controle das bases sobre as direções dentro das previsões regimentais da lógica de funcionamento. Mas o que é democracia interna? Democracia interna é a construção democrática e participativa dos acordos coletivos e consensuais que constituem o partido e a aplicação desses acordos mediante regras (regras que devem ser democráticas) previsíveis e claras em sua forma de administração como meio de operacionalizar a política coletivamente escolhida em congresso.

Então o que é liberdade dentro da organização político-partidária? A liberdade é a relação dialética da individualidade com coletividade, onde, nos espaços decisórios do partido, a individualidade de cada militante se expressa sem constrangimentos ou assimetrias institucionais e contribui para assumir um posicionamento político que é maior que cada militante tomado isolamento, embora seja uma síntese expressiva das diversas individualidades. Se no partido determinados indivíduos de uma corrente teórica “x” tem mais espaço institucional para propagar suas ideias do que indivíduos da corrente teórica “y”, esse partido tem déficits de liberdade.

Quando, portanto, numa organização política é tolerada qualquer ação individual, não importando o quanto isso fira as decisões coletivas, temos uma ausência de democracia interna e um déficit grave de liberdade. Vamos a um exemplo. Imagine que um deputado de um partido tem muito prestígio na militância e entre vastos segmentos dos movimentos sociais. Esse deputado, sabendo do seu prestígio, desrespeita sistematicamente o estatuto e as resoluções congressuais do partido, mas nada acontece com ele, pois seu prestígio é tão grande e os mecanismos institucionais de democracia interna são tão débeis, que é muito fácil uma personalidade de renome se sobrepor ao coletivo. O deputado cospe em cima de toda construção coletiva ao ponto de o partido ter que posicionar-se publicamente contra a postura do deputado, afirmando que ela não representa o conjunto do partido, contudo, ao mesmo tempo, se nada acontece com o deputado, se o congresso e o estatuto são letra morta, qual é mesmo a posição do partido?

O mais curioso é que nesses casos a postura individualista e personalista é justificada como defesa da liberdade contra o autoritarismo. Só uma consciência completamente dominada pela ideologia burguesa do individualismo para considerar “liberdade” uma ação personalista que fere propositalmente uma construção coletiva consensual.

Ainda em nosso exemplo, usando um pouco mais de imaginação, esse deputado é membro de uma tendência que disputa o poder dentro do partido. Essa tendência usa o prestigio dos seus nomes famosos para manipular o regimento ao seu bel prazer e cria mecanismos institucionais que excluem os dissidentes ou minorias de aparecerem, por exemplo, no site, jornal, programa de TV etc. do partido. Esse partido mantém os déficits de liberdade em nome da liberdade: as tendências têm a “liberdade” de se organizar como quiserem, mas quem controla a máquina do partido cria uma arquitetura de funcionamento de maneira a reproduzir sempre o seu poder e a “liberdade” de organizar tendências tornar-se uma liberdade de ser a eterna minoria – pense, por exemplo, na história das tendências de esquerda do PT.

A disputa entre as tendências dentro do partido, além de ser a negação total da democracia interna e da liberdade partidária, expressa uma variante da competitividade burguesa. As tendências não colaboram entre si, não são expressões diversas de interesses particulares de um mesmo projeto universal, mas sim antagonistas numa concorrência pelo poder onde a destruição de uma significa a vitória da outra. Esse mecanismo de competitividade cria uma tendência curiosa: as tendências majoritárias manipulam a estrutura do partido no seu interesse e as tendências minoritárias defendem a aplicação das normas estatutárias e resoluções congressuais sistematicamente violadas, contudo, a majoritária não tem interesse nessa aplicação e a minoritária não tem poder para aplicar; o resultado é que o Congresso ao invés de expressar um consenso coletivo sobre o programa é uma concha de retalhos moldada através do poder diferencial de cada tendência e/ou personalidade e sua aplicação é sempre postergada ou parcialmente realizada.

Toda essa dinâmica expressa um brutal domínio do individualismo, personalismo e competitividade típicos da sociedade burguesa. Em grandes linhas essa é a dinâmica que rege a vida interna da organização que foi a maior força de esquerda por mais de duas décadas, o PT, e o seu principal candidato a sucessor, o PSOL. Contudo, diferentemente das críticas ao centralismo-democrático, esses problemas não ganham tanto destaque e raramente são considerados manifestações do autoritarismo. Por quê? Vamos arriscar uma tese.

A sociedade burguesa criou um conceito de liberdade ideológico que considera ausência de liberdade apenas as manifestações de opressão e controle do Estado sobre o indivíduo, e mesmo assim, não todas. O binômio “Estado-individuo” é o limite máximo da reflexão tradicional da ideologia burguesa sobre liberdade; portanto, qualquer condicionante estrutural que não for de ordem político-militar não é considerado atentado à liberdade. Um exemplo. Para um liberal o sujeito procura trabalho, assina um contrato e começa a ser explorado o faz por livre e espontânea vontade. O “pequeno fato” de que o trabalhador está destituído dos meios de produção e a dinâmica societária do capitalismo o obrigar a procurar um trabalho ou caso contrário ele morrerá de fome é um detalhe sem importância.

Logo, as pessoas influenciadas em níveis variadas por essa ideologia burguesa, têm uma dificuldade estrutural de compreender como autoritarismo o uso do prestígio pessoal para quebrar o acordo coletivo ou para manobrar o estatuto do partido, pois a ausência da figura do burocrata que dá ordens e mandar fazer (uma representação simbólica do Estado) dificulta a percepção do autoritarismo. O sujeito que “faz o que quer” pouco se importando para a construção coletiva é o reverso da moeda do que “manda de forma autoritária”: duas faces diferenciadas do mesmo problema.


Podemos concluir nosso texto afirmando que a frase fácil de ser ouvida nos meios de militância de que o partido de tendências mesmo com todos os problemas é “sempre melhor que o centralismo-democrático” porque garante “a liberdade de crítica e de iniciativa” esconde, na realidade, uma outra forma de autoritarismo e o cancelamento da democracia interna e da liberdade partidária; contudo esses problemas da organização “descentrada” ganham menos visibilidade política devido à ação da ideologia dominante. 

sábado, 2 de maio de 2015

Ciranda partidária em curso


"Outras fusões ocorrerão, além da do PSB com o PPS

Tereza Cruvinel, BlogTereza Cruvinel 

Com os 513 deputados distribuídos em 28 partidos, o funcionamento da Câmara tornou-se mais complicado do que nunca. Em busca de hegemonia e preparando-se para as mudanças que podem vir com a reforma política, o movimento de fusões está em curso. Ele pode ser benéfico, reduzindo o número de siglas com representação, mas pode também representar para o governo a necessidade de negociar com siglas mais fortes e mais exigentes.

A fusão PPS-PSB já foi aprovada e dará mais musculatura a uma sigla de oposição alternativa ao PSDB. O novo partido vai se chamar PSB e manterá o número 40. Na prática, uma incorporação da sigla de Roberto Freire pelo partido órfão de Eduardo Campos, que vem tendo dificuldades para se encontrar sem seu líder maior.

O movimento mais ousado, porém, ainda não começou. O DEM vai se fundir com o PTB. A nova sigla se chamará PTB e será presidida pela filha de Roberto Jefferson, deputada Cristiane Brasil, que preside os petebistas. O número será o 25, do atual DEM. Isso fortalecerá a sigla de oposição derivada do antigo PDS.

Mas, num segundo momento, haveria a fusão deste novo PTB com o PMDB, resultando num partido que teria 150 deputados. Esta sim seria a maior força partidária na Câmara desde a Constituinte, quando o PMDB, sozinho, elegeu 201 deputados. E se Dilma já enfrenta dificuldades com a sigla de Renan e Eduardo Cunha, mais trabalho teria para negociar com este “partidão”.

Em outra frente, prospera a fusão do PSD com o recriado PL, que pode fortalecer a sigla do ministro Gilberto Kassab. E o PROS também busca um casamento, agora que os irmãos Gomes estão praticamente excluídos do comando da sigla. E, por fim, Marina Silva segue batalhando pela Rede, que agregará deputados hoje no PV e no PSB. Miro Teixeira, do PROS, por exemplo, já trabalha para viabilizar a Rede e a ela se filiará.

Para que tudo isso aconteça, o Congresso terá que derrubar um veto parcial da presidente Dilma a um dispositivo legal que impede a filiação de deputados sem incorrer em punição por infidelidade a siglas decorrentes de fusões partidárias. Mas mesmo sem a derrubada do veto, os “criadores” de siglas acreditam que podem se basear em regulamentação do próprio TSE para prosseguir com a ciranda partidária."

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Lá vem de novo o "novo"



PCB, PPS, PPSB; ARENA, PDS, PP; ARENA, PFL, DEM. Eis aí como funciona a dança das letras com o claro intuito de ludibriar o povo, apresentado o requentado como novo.

Chama a atenção que duas siglas fizeram isso para tentar desligar seu presente do passado golpista de vassalos políticos da ditadura militar/empresarial de 1964; após viverem a glória de ter ser o mais numeroso partido do ocidente e hoje experimentam a decadência rumo à extinção adiada circunstancialmente por não passarem de linha auxiliar de governos, quaisquer governos que os aceitem como serviçais.

Curiosa é a situação daquela sigla que teima em intitular-se de esquerda e até coloca sempre à frente do rótulo o adjetivo 'nova', uma artimanha que não se explica propositadamente na medida em que esse vagar ideológico permite desfiar os mais reacionários argumentos, usados aqui e alhures pela velha direitona, agora tomados como se fosse formulação vanguardista. Empulhação que não encontra similar em qualquer outra parte do planeta e só expõe a falta de caráter de quem comanda essa vigarice.

Dizem por aí que a fusão com o PSB trará efeitos benéficos, como o abandono da tese golpista do impeachment. Pode ser. No entanto, o histórico recente demonstra que essa promessa é igual a de um recém saído de clínica de recuperação de drogados, que jura nunca mais recorrer ao vício, mas à primeira oportunidade que tem, volta e ele põe tudo a perder.

É sabido por todo mundo, que o eterno presidente da sigla citada saiu do Nordeste como um retirante político fugido da "seca" de votos e hoje vive das migalhas da gigantesca máquina eleitoreira dos tucanos de São Paulo, fato que o coloca como bóia-fria dessa máquina. Então, caso seja absolutamente estratégico aos interesses dos que o sustentam, claro que haverá recaída e consequentemente a apologia do golpismo, tudo, porém, enfeitado como se fosse uma nova forma de enxergar a política. Credo!
http://nailharga.blogspot.com.br/2015/04/la-vem-de-novo-o-novo.html

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Partidos

partidos-politicos
Um partido não se faz com oportunistas e sequer com críticos de última hora. Também não se faz com adesão cega ao personalismo. Menos ainda com pessoas acima do bem e do mal.
Partidos são coletivos e, portanto, deveriam ser o resultado político e ideológico desse coletivo. Deveriam, eu disse. Mas não é, infelizmente, o que acontece com os partidos no Brasil.
Nas eleições de 2014 contávamos com 141.824.607 eleitores, dos quais 15.320.151 eram filiados aos partidos (dados do TSE). Isso significa apenas 10,8%.
Quais as razões de tão pequena filiação?
Das tantas, ressalto uma, já comentada acima: os partidos não representam mais seus coletivos. Tornaram-se expressões de personalismos e quem idolatra pessoas não precisa de partidos para isso.
Marina Silva, infelizmente, é um bom exemplo disso. PT, PV, Rede, PSB e sabe-se lá o que ainda está por vir. PSDB, PMDB, PT e até os ditos “nanicos” sofrem do mesmo mal.
Dilma é outro exemplo. Dilma foi eleita, o PT não. Sequer a esquerda foi eleita, basta ver o Congresso, as Assembleias e Câmaras Brasil afora.
E não será uma reforma política que resolverá essa questão. Precisamos é de uma reforma na cidadania, uma reforma que realmente aproxime os partidos das pessoas, filiadas ou não.
do: http://escosteguy.net/?p=3833

sexta-feira, 3 de maio de 2013

GLOBO E A FARRA PARTIDÁRIA: DECISÃO DE GILMAR ESTIMULA CRIAÇÃO DE 38 PARTIDOS




Além das atuais 27 legendas partidárias, quase 40 novas agremiações podem ser criadas na esteira da barração do projeto de lei que desincentiva o surgimento de partidos; cada um deles terá direito a tempo na televisão e recursos públicos do fundo partidário; para grupelhos como PEC, PN, PSPB, PMN e até Arena promete ser uma farra; liminar de Gilmar Mendes, a prevalecer, influi diretamente na eleição de 2014, facilitando um segundo turno de negociações pesadas desde a primeira volta; ter 65 partidos é bom para a democracia brasileira?

Ministro, está nas suas mãos, com esta decisão, o destino da eleição de 2014.
Entre as muitas conversas com políticos que costuma e gosta de ter em Brasília, o juiz Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal, ouviu o alerta acima de um interlocutor vinte e quatro horas antes de conceder liminar solicitada pelo senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF). Com a decisão, o magistrado provocou a suspensão da tramitação, no Congresso, do projeto de lei que, na prática, desincentiva a criação de novos partidos políticos.
A prevalecer no plenário do STF, onde poderá ser ratificada, a decisão de Gilmar Mendes abriu a porteira para que o Brasil passe a ter, em breve, não mais os 27 partidos de atualmente – mas 65!
Cada um deles com tempo proporcional ao número de deputados filiados para efeito de ocupação de redes de televisão e rádio. Cada um deles com direito a recursos do fundo partidário, formado com o  dinheiro público. Cada um deles apto a transacionar suas legendas no mercado de alianças e coligações aberto a cada eleição.
Além dos velhos conhecidos PT, PSDB, PMDB, DEM, PDT, PC do B, PR e mais outros 20 partidos, poderão vir a público o Rede Sustentabilidade, liderado por Marina Silva, o Mobilização Democrática, do deputado Roberto Freire, o Solidariedade, capitaneado pelo sindicalista Paulo Pereira da Silva e uma série de outras siglas. Juntas, elas fariam mais rica qualquer sopa de letrinhas: PLB, o Partido Liberal Brasileiro que já pediu registro no Tribunal Superior Eleitoral, e os embrionários, entre outros, PSPB (Partido dos Servidores Públicos e da Iniciativa Privada), PMB (Partido dos Militares do Brasil), PMB-II (Partido das Mulheres do Brasil), PEC (Partido Ecológico Cristão), PN (Partido Novo) e até a carcomida base de sustentação do regime militar querendo voltar à tona, sim, a Arena (Aliança Renovadora Nacional).
No total, o Brasil poderá ter, repita-se, 65 partidos nos próximos meses.
Os presidentes da Câmara, Henrique Alves, e do Senado, Renan Calheiros, explicaram ao ministro Gilmar, em conversa institucional, na semana passada, o estrago que a liminar, a prevalecer no plenário do Supremo, poderá causar para a democracia brasileira. Ao lado de partidos com algum corte ideológico, dezenas de outros surgiriam com objetivos inconfessáveis de negociação política rasteira.
Alves e Renan insistiram no ponto, segundo apurou 247, de que o carregamento do tempo de televisão para os novos partidos, pelo critério de quantidade de deputados federais arregimentados, acabaria de vez com o sempre abalado conceito da fidelidade partidária. A partir da liminar, sempre que um parlamentar se mover de partido, pode arrastar para seu novo endereço o tempo de televisão proporcional ao seu mandato. Fica tudo como está hoje, como foi sempre. Uma fórmula que criou a salada partidária brasileira.
- O tempo de televisão, sem um projeto de lei que mude isso, na prática não mais dos partidos, mas se tornou propriedade individual de cada um dos parlamentares, explica um assessor da cúpula do Congresso.
O projeto de lei do deputado Edinho Araújo (PMDB-SP), cuja tramitação foi barrada pela liminar concedida por Gilmar, tem a intenção, segundo o autor, de colocar um ponto final nessa farra. À medida em que prejudicou interesses de peixes graúdos da política, como Marina, Freire, Paulinho e, também, o ex-governador José Serra, porém, obteve contra si a má vontade da mídia tradicional. Limitar a criação de partidos que são verdadeiras legendas de aluguel, no entanto, sempre foi quase um consenso na sociedade brasileira.
O que não ficou claro, na defesa que se fez da liminar de Gilmar e dos ataques sofridos pelo projeto de Edinho, é que, após a passagem dos maiorais, os bagrinhos também irão entrar para o que promete ser uma verdadeira festa de negociações políticas com vistas às eleições de 2014 imprópria para inocentes. Isso é mesmo o que a democracia brasileira precisa neste momento?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ataque à raiz da corrupção




O financiamento público de campanha torna mais fácil a fiscalização e, se não acaba com legendas de aluguel, complica sua existência


Pesquisa recente da agência APPM dá a medida de como se realiza a discussão sobre campanhas eleitorais no Brasil. Oitenta e quatro por cento dos consultados dizem que as doações de empresas aumentam as chances de corrupção, mas 81% são contra o financiamento público....

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Os interesses e os partidos

Dizia Tancredo que Fernando Lyra tem narinas de cheirar os ventos da política. O pernambucano foi cáustico, mas não lhe faltaram argúcia e coragem, para dizer que não há partidos políticos no Brasil. Poupou, devido a razões aceitáveis, o PSB, hoje liderado, entre outras personalidades, pelo governador de seu estado. É também certo que o PSB teve origem ideológica, tendo nascido da famosa Esquerda Democrática da UDN, que surgiu em Minas, com o Manifesto dos Mineiros. Fundado por João Mangabeira, que não pensava exatamente como seu irmão, o partido era liderado por homens de convicção, como os intelectuais Domingos Velasco e Hermes Lima. Mesmo com essa origem, o PSB sofreu sucessivas crises de identidade, servindo de garupa para notórios oportunistas, como é o caso exemplar do locutor de rádio Garotinho e de sua mulher.
No processo de transição constitucional de 1945-46, contrapôs-se à UDN o PSD (Partido Social Democrático) também fundado em Minas, por iniciativa de Benedito Valadares. O terceiro partido, em ordem de grandeza, o PTB, já nasceu nacional, por ter sido criado por Getúlio Vargas. Por isso mesmo, no Brasil, foram os líderes que fizeram e desfizeram os partidos – e sempre de acordo com as circunstâncias regionais.
O PSDB nasceu de uma ruptura do PMDB, nos dois estados em que o partido de oposição à ditadura era mais forte, em São Paulo e em Minas. Alguns dirigentes, sem apetite para a luta interna, insurgiram-se contra o governador Orestes Quércia, em São Paulo, e Newton Cardoso, em Minas. Não tiveram paciência, essa indispensável virtude política – e sob o pretexto da ética, promoveram a cisão. Enquanto os dissidentes se limitaram ao comando de Minas e de São Paulo, as coisas caminharam. Mas, quando o mineiro Itamar Franco levou Fernando Henrique à presidência da República, os tucanos paulistas se sentiram em condições de transformar sua hegemonia econômica sobre o Brasil em ditadura política sobre o partido nos estados, e, em conseqüência, por intermédio do governo federal. No fundo se trata de uma velha disputa entre as elites de São Paulo, de visão favorável à internacionalização da economia, e os outros brasileiros, de sentimentos nacionalistas, que são mais nítidos em Minas, como se revelou na ruptura de Itamar com Fernando Henrique, na defesa da Cemig e de Furnas. Essa situação se torna mais complicada hoje, quando a presidência da República está ocupada pela mineira Dilma Roussef. Assim como ninguém nasce impunemente em São Paulo, ninguém nasce sem Weltanschauung nacionalista em Minas. Quinta-feira, em Ouro Preto, não só ao evocar Tiradentes, mas ao solidarizar-se com o povo de Ouro Preto que, pela palavra do prefeito Ângelo Oswaldo, denunciou o saqueio de Minas pelas empresas mineradoras, ela reafirmou o seu DNA político montanhês. E não era para menos: na paisagem da região, aos buracos das lavras de ouro se acrescentam as paisagens amputadas e áridas, pela desmedida ânsia de lucro, fácil e rápido, das mineradoras de hoje.
Na base do raciocínio político, há apenas dois partidos: os conservadores e os progressistas. Na confusão semântica de nosso tempo, os conservadores se identificam como liberais, e os liberais políticos do passado se encontram hoje na esquerda.
Como bem apontou Lyra, o PT tampouco chega a ser um partido. Sendo uma federação de tendências, não foi capaz de impor um candidato seu à sucessão de Lula que, para não fragmentar a agremiação, foi buscar Dilma, um quadro recente, vinda do PDT de Brizola, para vencer o pleito presidencial.
A crise do PSDB de São Paulo é o início de nova reconfiguração do quadro político, com o surgimento de novas legendas, sempre chochas de idéias, mas, como de costume, infladas de interesses.
E é com esse leviano simulacro de organizações partidárias que querem instituir o sistema de listas fechadas.
Mauro Santayana
By: Gilson Sampaio, via Com textolivre

terça-feira, 15 de março de 2011

Direita ideológica some do quadro partidário brasileiro

Partidos explicitamente da direita ideológica tornaram-se produto raro no mercado político brasileiro. As legendas "liberais" praticamente desapareceram: das oito siglas com esse nome criadas após a redemocratização do país, só resta uma.
A remanescente é o PSL, que agrega o nome "social" ao "liberal" e tem um deputado federal. Os demais representantes do liberalismo decidiram trocar de nome após o fiasco eleitoral de 2006.
O PL fundiu-se com o Prona no PR (Partido da República) no final daquele ano, e o PFL passou a se chamar Democratas no início de 2007.
A mudança fez bem ao PR. O partido elegeu 40 deputados no ano passado, contra 23 em 2006 e 26 em 2002. Já o DEM mantém rota declinante: 105 deputados federais eleitos em 1998, 84 em 2002, 65 em 2006 e 43 em 2010.
Sem boas perspectivas, grande parte dos ex-liberais planeja seguir o prefeito paulistano Gilberto Kassab num processo de conversão maciça ao "socialismo" do PSB.
ALTERNATIVAS
A situação inusitada faz com que pessoas de direita não encontrem representatividade nos atuais partidos.
É o caso dos membros do Movimento Endireita Brasil. Filiados ao DEM, reclamam da falta de receptividade do partido "às ideias de direita, liberais"
Raciocínio similar guia o capitão da PM Augusto Rosa, de Ourinhos. Ele quer fundar o Partido Militar Brasileiro, de centro-direita - posição que "ninguém representa".
Para o cientista político Fernando Abrucio, da FGV, o quase sumiço das legendas liberais resulta do "consenso social-democrata que se consolidou no país após os governos FHC e Lula".
Segundo Abrucio, "hoje é praticamente inviável eleitoralmente defender abertamente bandeiras liberais, sobretudo se isso implicar cortes em gastos sociais".
HISTÓRIA
A marca "liberal" (nome de um grande partido da era imperial) ressurgiu em 1984, quando dissidentes do regime militar decidiram apoiar a candidatura de Tancredo Neves (PMDB) à Presidência.
O uso desse nome visava dissociar o grupo da ditadura militar e realçar sua adesão aos valores liberais (defesa da liberdade individual e crítica à ingerência do Estado).
Essa escolha foi reforçada pelas vitórias de políticos neoliberais no Reino Unido (Thatcher) e EUA (Reagan).
Em 1985, a Frente Liberal se transformou em partido. No mesmo ano, Alvaro Valle, outro dissidente da ditadura, fundou o Partido Liberal.
No ano seguinte, os "liberais" elegeram 124 deputados federais, contra 57 dos partidos de orientação "trabalhista".
A queda do Muro de Berlim, em 1989, fortaleceu o liberalismo em todo o mundo. Francis Fukuyama, autor de "O Fim da História", anunciou a sua vitória definitiva.
Na avaliação do economista Roberto Campos, o liberalismo tinha vencido não apenas como doutrina intelectual, mas "como práxis política".
A partir de 1990, os governos Collor (1990-1992), Itamar (1992-1994) e FHC (1995-2002) adotaram medidas liberalizantes, privatizando estatais e desregulamentando as relações trabalhistas.
No plano da "práxis política", porém, a história teve curso mais complicado. Os resultados eleitorais dos "liberais" se revelaram piores que os dos "trabalhistas".
As poucas legendas que adotaram o termo "liberal" logo sumiram, e PFL e PL desistiram da marca após 2006.
Uirá Machado
Mauricio Puls
Da Folha Ditabranda, via Comtextolivre

sábado, 5 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Os avanços na política brasileira

A política brasileira entra definitivamente na era da modernidade, da civilização.

Da redemocratização para cá, foi uma sucessão infindável de crises e uma oposição batalhando permanentemente para desestabilizar o governo eleito. Foi assim com Fernando Collor, com a oposição petista a Fernando Henrique Cardoso e, depois, com a oposição tucana-midiática a Lula.
Para muitos cientistas políticos, o Brasil balançava entre dois modelos políticos: o alemão, estável, com dois partidos disputando as eleições mas sem fugir muito do centro; ou o italiano, com caos político atrapalhando o desenvolvimento econômico e social.
***
As eleições de 2006 foram realizadas nesse clima de guerra, insuflado pelo episódio do "mensalão" e, especialmente, pela liderança de FHC, estimulando a guerra em todos os níveis.
Eleitos os novos governadores, havia o prenúncio de um período de amadurecimento político. Em alguns estados-chave foram eleitos e reeleitos governadores capazes de definir uma oposição articulada, não deletéria. Esperava-se o nascimento de novos estadistas se contrapondo ao poder beligerante de senadores e deputados.
Esse movimento acabou abortado pela ascensão de José Serra, como candidato a candidato favorito pelo PSDB, para as eleições presidenciais seguintes e pela incrível mudança no seu perfil político.
Serra passou a comandar uma oposição deletéria, denuncista, culminando com a campanha de Internet, na qual sua adversária Dilma Rousseff era acusada de ter assassinado pessoas, matado criancinhas, ser contra a religião etc.
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Agora, tem-se o seguinte quadro. No período Lula houve uma inflexão radical no conceito de políticas públicas.
Periodicamente, a opinião pública tende a enfatizar determinados temas em detrimento de outros. Nos anos 90 até alguns anos atrás, os únicos valores percebidos eram os privatização, abertura econômica e responsabilidade fiscal – relevantes, mas insuficientes para compor uma política pública. Era uma reação ao período anterior, de desequilíbrios fiscais e economia fechada.
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Essa fase acabou com a crise de 2008, deixando consolidados alguns desses valores, mas introduzindo novos valores no jogo
Agora há novos valores em jogo, praticados não apenas em nível federal mas nos novos governadores que assumem o comando da oposição.
Em São Paulo, Geraldo Alckmin anuncia conjunto de metas sociais – o Prouni estadual, nova concepção para habitação popular, mudança no sistema educacional -, uma pacificação nas relações com sindicatos e movimentos sociais, na ênfase à parceria com o governo federal.
Em Minas ocorre o mesmo com Antonio Anastasia. Esta semana foi celebrado um acordo pelo qual o governo federal vai montar um escritório de representação no Estado, a fim de estreitas as relações entre os dois governos.
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Gradativamente vai sendo extirpado do mapa político as cenas dantescas da última campanha eleitoral, na qual o ódio e o preconceito foram elementos-chave. Passada a catarse, o país demonstra ter avançado muito mais do que a cabeça de algumas velhas lideranças.
por luis nassif

quinta-feira, 15 de julho de 2010

F. H. Cardoso, o profeta?!

O profeta Isaías teria sido morto serrado ao meio. FHC serrou ao meio os seus livros quando resolveu se bandear para a direita.

Maneando alguns livros empoeirados, reencontrei a obra Por que Marx, livro organizado por Eurico de Lima Figueiredo, Gilásio Cerqueira Filho e Leandro Konder (Edições Graal, 1983).