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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A repressão da PM e a criação da nova geração política



No Brasil, a farsa da história sempre se repete como farsa.

Em 31 de março de 1964, aos 13 anos, eu deveria ser o único estudante do GGN simpático ao Golpe. Neto de avô lacerdista, nas Semanas do Estudante desde os 11 anos me colocava contra a esquerda estudantil.

Um mês depois do golpe, mudei. As notícias das pancadarias em estudantes, o impacto de ver amigos nossos transformados em delatores e amigos nossos sendo delatados, me fez entender na hora a cara do novo regime.

Em São Paulo, a gestão truculenta de Geraldo Alckmin está produzindo efeito semelhante.

Confira-se o diálogo abaixo, entre a Cacá e a Beatriz.

Caca: A PM É ABSURDA                       
Beatriz : Pq cla?                       
Caca: Bibi vc não tem nocao                       
Caca: A gente chegou no largo da batata                       
Caca: Ninguém tinha feito nada                       
Caca: A manifestação tava LINDA e foi finalizada com três discursos                       
Caca: Linda                       
Caca: Ai todo mundo começou a vazar pelo metrô da fradique                       
Caca: E os PMs tavam controlando a entrada pra não ficar tanta gente                       
Caca: E eu tava nessa fila pra entrar                       
Caca: Aí do nada todo mundo começou a correr                       
Caca: Pq veio uma tropa de uns 40 PMs do outro lado da rua                       
Caca: E começaram a expulsar td mundo da frente do metro                       
Caca: Detalhe: ninguém tava forçando a entrada ninguém tava sendo agressivo tava todo mundo feliz que não tinha acontecido repressão e indo pra casa satisfeito                       
Caca: Ai do nada eles lançaram uma bomba no meio                       
Caca: Todo mundo correu                       
Caca: E aí comecou                       
Caca: Jogaram garrafa nos pms                       
Caca: Quebraram as coisas                       
Beatriz : O mat falou q a manifestação tava pacífica pq eles tavam no largo da batata esperando p jogar bomba e prender manifestante         
Caca: E eu fui com um grupo de meninos (que tavam me protegendo) descendo a rua                    
Caca: Com o carro do choque atrás da gente jogando gas e bomba e atirando em tudo                    
Caca: Sim                       
Caca: Eles já tavam lá esperando                       
Caca: Foi tudo arquitetado                       
Caca: Esperaram acabar                       
Caca: E começaram a atirar                       
Beatriz : Nossa cla que loucura pqp                       
Caca: Loucura                        
Caca: Ainda bem que as pessoas se ajudam lá no meio
Caca: Fui totalmente acolhida pelo grupo de meninos e ficamos ajudando as pessoas que respiraram o gas                       
Caca: União faz a força ainda bem

Por Luis Nassif, GGN -

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O brasileiro, esse crédulo



A ignorância do brasileiro médio faz com que ele seja, antes de tudo, um crédulo.

Ele acredita em qualquer lorota que ouve - basta que ela seja repetida intensamente para virar verdade.

A internet é campo fértil para disseminar boatos, notícias falsas, e até mesmo para interpretar a história como se ela fosse uma obra de ficção.

Há inúmeros sites criados justamente com essa finalidade de espalhar mentiras.

São peças da guerra ideológica promovida pela direita, que não tolera a democracia, para exterminar da vida política seus adversários, no caso, inimigos, ou seja, os partidos de esquerda, movimentos sociais, sindicatos, organizações populares e de classe. 

Muitos são sofisticados, que devem ser mantidos por equipes numerosas e bem pagas.

E outros canhestros, toscos, que dificilmente seriam considerados verazes não fosse a natural idiotia do brasileiro médio.

As mensagens, correntes e "notícias" que correm na rede beiram a insanidade.

Uma delas, para louvar a ditadura militar, diz que seus generais presidentes, de tão honestos que eram, morreram pobres, alguns deles necessitando até ajuda dos amigos para terem um funeral digno.

E existe quem acredita numa bobagem dessas!

Mas, enfim, o brasileiro médio leva a sério o que fala o pastor semianalfabeto que pede dinheiro para comprar uma estação de TV...

Tirar esse indivíduo da ignorância é quase impossível. 

Seriam necessários investimentos bilionários em educação, junto com o uso dos meios de comunicação de acordo com os princípios constitucionais: 

Art. 221 - A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:

I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;

II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;

III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;

IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

E como a gente sabe que isso nunca vai existir neste Brasil Novo governado por um bando de saqueadores e entreguistas, resta quase nada a fazer - para os que têm fé, rezar, talvez, à espera de um milagre; para os outros, a justa e muda indignação.(Carlos Motta) http://segundocliche.blogspot.com.br/2016/07/o-brasileiro-esse-credulo.html

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Coisas que tenho aprendido sobre o tempo


(As mãos de Rachel de Queiroz por Eder Chiodetto)
Por Cynara Menezes, Socialista Morena -

A primeira coisa que eu descobri é que o tempo é igual ao joelho. Com sorte, você não vai se lembrar dele até os 40 anos, mais ou menos. Durante a infância e a juventude, o tempo e o joelho são indolores. Como o joelho, a gente só sente o tempo quando começa a doer.

Tenho 49 anos e nunca tinha me preocupado com a passagem do tempo antes. Quando a gente é criança ou adolescente não fica olhando para trás, né? A gente vive, simplesmente, às vezes ligado no futuro, mas totalmente desligado do passado – a não ser por traumas, raramente por nostalgia. Depois dos 40 é que o tempo passa a ser uma questão.

Dentro da gente, o tempo do tempo é outro e cada um tem o seu. Tanto é que é mais fácil enxergar que o tempo passou no outro do que na gente mesmo. Por dentro, é possível ter 20 anos para sempre ou ser sexagenário aos 17. O tempo de fora só encontra com o de dentro quando morre alguém que a gente ama.

A saudade é diretamente proporcional ao tempo: quanto mais tempo a gente vive, mais saudade a gente sente. Viver mais é superar o desafio de conviver diariamente com a ausência dos seres queridos.

Mesmo que, por dentro, o tempo só passe se a gente quiser, inevitavelmente a infância fica cada vez mais longínqua. Não temo as rugas, os cabelos brancos algum dia assumirei, mas pensar que poderei, no final dos dias, não recordar minha infância me apavora.

O tempo, ao contrário da crença geral, não faz todo mundo ficar mais sábio e sim mais verdadeiro consigo mesmo. Acho que a “sabedoria” surge justamente daí, de se dar o direito de ser o mais verdadeiro consigo mesmo possível.

A juventude passa lentamente e a idade madura passa rápido. Mas quando a gente chega à idade madura tem a sensação de que tudo passou rápido, e rápido demais. Aquela sensação de “parece que foi ontem” é constante.

O tempo é muito relativo e pessoal. Tem gente que pensa em envelhecer para se aposentar. E tem gente que só enxerga a velhice trabalhando. Eu sou assim.
Num mundo ideal, a aposentadoria não deveria ser por idade, mas de acordo com o pique de cada um. Eu, por exemplo, gostaria de ter estado “aposentada” até os 30 e ter começado a trabalhar a partir daí. Agora estou a mil e não penso em parar tão cedo. Sinto que, em movimento, o tempo faz o cérebro da gente ficar mais e mais afiado. E que, parado, ele perde o fio.

O bom do tempo é quando ele é sinônimo de aprendizado, e isso não tem tempo para acabar.

Por Cynara Menezes, Socialista Morena -

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A inusitada história de como João se tornou um maldito


João acordou na segunda-feira na hora de sempre. Enquanto tomava o café da manhã, ligou a televisão para assistir ao jornal matinal. Minutos depois, derramou a xícara na toalha branca da mesa da cozinha: ele era a estrela do noticiário.

Uma estrela amaldiçoada.

Com a voz flexionada no modo alegria, o apresentador anunciava que uma enorme operação policial cercava, naquele momento, o condomínio onde João morava, e que os agentes da lei e da ordem carregavam uma ordem judicial para vasculhar o seu apartamento, apreender o que supusessem provas de seu inominável crime, e, por fim, o prendessem.


A sorte, se é que, numa situação dessas a sorte dá as caras, é que João, naquele fim de semana, tinha ido visitar os seus pais - e, portanto, não estava em seu apartamento.

João, depois de ver e ouvir a notícia de que era um criminoso procurado, tentou obter mais informações sobre esse fato absolutamente extraordinário, e ligou o notebook que carregava em toda viagem que fazia.

Era tudo verdade, lá estava ele em todos os sites noticiosos, fotos antigas e mais novas, manchetes escandalosas, declarações contundentes de pessoas que conhecia e desconhecia sobre falcatruas que nunca supôs que fosse capaz de praticar. 

Naquele momento João percebeu que, fosse ou não preso, a sua vida, pelo menos a vida que conhecia até então, havia acabado, para ele e sua família. 

João, que dias antes soubera, por meio de um colega de trabalho, que algumas pessoas desconhecidas haviam perguntado sobre seus hábitos ("ele sai cedo do trabalho, que caminho faz até sua casa, usa carro, ônibus ou bicicleta?"), suas preferências ("ele bebe, é vegetariano, come carne vermelha, dá gorjeta ao garçom?"), até mesmo sobre sua família ("tem filhos pequenos, estudam onde, sua mulher trabalha?"), sentiu seu coração disparar e uma onda de calor tomar conta de sua cabeça.

Foi quando, num choro convulso que deixou seus pais, testemunhas mudas de sua aflição, perplexos, sem fala, sem ação, que João compreendeu o que se passava com ele.

Refeito do abalo nervoso, chamou seus pais para perto de si, e numa voz baixa, quase infantil, disse apenas uma frase, antes de se despedir:

- Eles descobriram que eu existo.

E foi embora, passos lentos, cabeça baixa, como se estivesse conformado em fazer, agora, parte dos malditos.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2016/02/a-inusitada-historia-de-como-joao-se.html

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O diabo e a garrafa




Em pleno processo de impeachment, e de julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), das ações envolvendo a chapa vitoriosa nas últimas eleições, a situação da República tem sido marcada pela espetacularização de um permanente “pega para capar” jurídico-policial, a ascensão da “antipolítica”, o aprofundamento da radicalização e a fascistização do país.
Políticos e empresários têm sido presos – muitos por ilações frágeis ou exagerado rigor cautelar –, enquanto outros homens públicos e bandidos e delatores premiados apanhados com milhões de dólares na Suíça circulam livremente ou estão em prisão domiciliar.
Milhares de brasileiros acreditam piamente que o Brasil é um país quebrado e destruído, quando temos as sextas maiores reservas internacionais do mundo e somos o terceiro maior credor individual externo dos Estados Unidos.
Que um perigoso “bolivarianismo” pretende implementar uma ditadura de esquerda na América Latina, quando, seguindo os ritos democráticos normais, e sob amplo acompanhamento de observadores internacionais, a oposição liberal acaba de ganhar, pelo voto, as eleições na Venezuela e na Argentina.
Que o Brasil é um país comunista quando pagamos juros altíssimos, e somos, historicamente, dominados, na economia e na política, por um dos mais poderosos sistemas financeiros do mundo, pelo agronegócio e o latifúndio, por bancos e empresas multinacionais.
Discutindo na mesa de pôquer da sala de jogos do Titanic, envolvidos por suas disputas, e por uma rápida sucessão de fatos e acontecimentos, que têm cada vez mais dificuldade em digerir e acompanhar, os homens públicos brasileiros ainda não entenderam que a criminalização da política, criada por eles mesmos, como parte de uma encarniçada e deletéria disputa pelo poder, há muito extrapolou o meio político tradicional, espalhando-se, como o diabo que escapa da garrafa, como uma peste pela sociedade brasileira, na forma de uma profunda ojeriza, preconceito e desqualificação do sistema político, e daqueles que disputam e detêm o voto popular.
Se não se convocar a razão e o bom senso, para reagir ao que está acontecendo, e se estabelecer um patamar mínimo de normalidade político-institucional, tudo o que restará será o confronto, o arbítrio e o caos.
Está muito enganado quem acha que o mero impedimento de Dilma Rousseff resolverá a questão.
No final da década de 20, os judeus conservadores comemoravam, da varanda de suas mansões, na Alemanha, o espancamento, nas ruas, de esquerdistas e socialistas, pelos guardas de grupos paramilitares nazistas como as SS e as SA, e se regozijavam, em seu íntimo, por eles os estarem livrando da ameaça bolchevista.
Depois também viram passivamente – achando que estariam resguardados por suas fortunas – passar sob suas janelas, as filas de operários e pequenos comerciantes judeus a caminho dos campos de concentração – até chegar a sua vez de ocupar, como sardinhas em uma lata, o seu lugar nas câmaras de gás.
Poucas vezes, na história, o efeito bumerangue costuma poupar aqueles que, como aprendizes de feiticeiro, se atrevem a cutucar o que está dentro da caixa de Pandora.
Depois de Dilma e do PT, seria a vez de Temer, e depois de Temer virão os outros – todos os partidos e lideranças que tenham alguma possibilidade de alcançar o poder, por via normal.
Parafraseando Milton Nascimento, na política brasileira “nada será como antes amanhã”.
O Brasil que se seguirá à batalha sem quartel e sem piedade, levada a cabo pela oposição nos últimos anos e meses tendo como fim a destruição e total aniquilamento do PT – cujas principais vítimas não serão esse partido, mas o Estado de Direito, o presidencialismo de coalizão, a governabilidade e a própria Democracia – não terá a cara do Brasil do PSDB de Serra, de Aécio, ou de FHC, mas, sim, a de Moro e a de Bolsonaro.
A do messianismo, da vaidade, da onipotência e do imponderável, e a do oportunismo e do fascismo – e aqui não nos referimos ao velho fascio italiano – em seu estado mais puro, ensandecido e visceral.
http://www.alanterna.com/2016/01/o-diabo-e-garrafa.html#more

sábado, 21 de novembro de 2015

Caráter é aquilo que você é quando ninguém está olhando


Lara Brenner, Revista Bula

Aviso: este texto não é um manual, mas um conjunto de devaneios sobre como essa sequência de desastres pode estar intimamente ligada à vida de cada um de nós. Sinta-se livre para discordar, todavia, caso o faça, não seja agressivo. Apenas um debate amigável pode promover o crescimento.

A sensação que dá é a de que o apocalipse chegou mesmo para ficar. Profecias concretizam-se umas após outras e passagens bíblicas de desastres se fazem presentes a todo instante. Debates são fomentados e repensados nas redes sociais, desde os mais frutíferos até os mais improdutivos.

A quem se deve prestar mais solidariedade? Às vítimas do Bataclan na França? Aos 224 mortos do ataque contra o avião russo no Egito? Às famílias que perderam tudo no desastre de Mariana? Aos imigrantes famintos e humilhados que carregam nas costas o fardo produzido por um grupo de loucos e radicais?

Aos 2 bilhões de miseráveis espalhados pelo mundo, que parecem ter sido incorporados à paisagem e para quem a grande mídia sequer reserva mais fatias de seu nobre horário?

Afinal de contas, solidarizar-se com alguma dessas tragédias seria ignorar as outras? Faz algum sentido tentar medir o imensurável — a dor e a desgraça — em um momento como este?

Cada um absorve e vive a vida de uma forma particular, mas, por alguma razão muito bizarra, é comum que se vejam indivíduos usando as próprias réguas para medir os outros. Posts e mais posts de brigas virtualmente homéricas tentam mensurar que dor é maior e quem merece mais atenção. Uma bobagem sem fim, que renderá tanto fruto quanto discutir sexo de anjo.

O curioso é que a grande maioria dos que esbravejam contra tudo e todos parece se contentar com seus discursos despropositados. Param por aí. Criticam o governo, as empresas privadas, os cidadãos que não sabem votar, os partidos, a corrupção e qualquer desavisado que ouse cruzar-lhes os caminhos.
Agir, que é bom mesmo, nada.

O mesmo cara que profere moralidade e baba regra na internet costuma não perceber que a única possibilidade de fazer com que a esse cenário tenha alguma chance de melhorar é olhar para dentro.

De que adianta comprar mil brigas na internet e depois pegar o carro, dirigir pelo acostamento, destratar o porteiro, jogar lixo na rua, ou não devolver o troco que veio errado?

De que adianta criticar a corrupção nas licitações e depois vender sentença, atestado médico, monografias, carteiras de estudante ou comprar peças furtadas de carro?

E o que isso tem a ver com Mariana? Bem, Mariana é um misto de corrupção, negligência, imperícia e descaso. A mesma corrupção do advogado que compra sentença; a mesma negligência do perito que recebe honorários para preencher mecanicamente uma planilha padrão, sem se importar com as consequências; a mesma imperícia de um clínico geral que se mete a fazer uma delicada cirurgia cardíaca; o mesmo descaso do pai que vê o filho se tornar um pequeno delinquente e culpa apenas a escola.

Os indivíduos que chegam ao poder, seja na esfera pública ou privada, só o fazem porque são afiançados a cada passo sujo que dão. Um grande corrupto é, antes de tudo, um pequeno corrupto. Em maior grau, são ambos espelho de quem os rodeia.

Quer ajudar Mariana e as demais cidades afetadas? Aja. Recolha mantimentos, programe a logística, procure saber quem está por trás do desabamento e ajude a disseminar consciência, informação, reflexão, e não discursos aparentemente moralistas e sem sentido.

Deseja um mundo melhor? A não ser que queira devotar sua vida a combater frontalmente o Estado Islâmico, as milícias, as quadrilhas de tráfico e toda essa barbárie organizada, o jeito é agir no microcosmo individual, procurando ser bom, honesto, íntegro, propagador de consciência e educação.

Que de tanta tragédia e horror possam surgir reflexões profundas, sinceras e transformadoras.

*Título tomado de empréstimo de Epicuro.