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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Movimento populares: o que esperar de 2017?

Ativistas e dirigentes de organizações avaliaram o ano passado e fizeram projeções para o calendário deste ano

''Tomar às ruas'' contra a precarização dos direitos e pelas ''diretas'' devem ganhar novos adeptos para barrar retrocessos iminentes / Mídia Ninja
“Derrota dos campos progressistas”, “esgotamento da política de conciliação” ou “ perda institucional da esquerda”. O ano de 2016 foi definido de diferentes formas por ativistas e dirigentes de movimentos sociais, mas há consenso em um aspecto: no ano que passou, pouco se avançou em pautas importantes do movimento social — ao contrário, o período foi marcado por retiradas de direitos historicamente conquistados. 
No entanto, os acontecimentos do ano passado, como a proposta de Reforma da Previdência, podem pavimentar o terreno para um aumento da indignação das pessoas e alcançar parcelas da população que ainda não saíram às ruas em manifestações contra o governo não eleito de Michel Temer (PMDB). Ainda que grandes, os protestos estão restritos aos movimentos organizados e tradicionais da esquerda. 
Para saber quais são suas projeções para este ano, o Brasil de Fato ouviu cinco dirigentes e ativistas de movimento diversos — por direitos das mulheres, de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais (LGBTT), por moradia, do movimento negro e do campo. Veja a seguir suas análises e apostas para 2017.
Neon Cunha
Mulher transsexual e ativista independente
O ano que terminou com "um homem negro e pobre, conhecido como Índio, morrendo para salvar uma trans chamada Brasil, uma mulher" dentro de uma estação de metrô em São Paulo foi, para a publicitária, “nada e tudo”  para os movimentos que pautam os direitos da população LGBTT. “Nunca se falou tanto da pauta LGBTT, mas não conquistamos nada efetivo", disse.
Para ela, mesmo na escala municipal de São Paulo, em que se implantou com iniciativas voltadas à população transsexual, como o programa Transcidadania apresentado pelo ex-prefeito Fernando Haddad (PT), as políticas públicas na área não se sustentaram. "[O programa] cria um espaço e higieniza… Mas e quem não passa por lá? O Transcidadania não conseguiu fazer uma política de inclusão total", criticou.
Com um onda de retrocessos em toda a América Latina, ela pontua que o próximo ano deve ser ainda mais difícil para quem é a "exceção da exceção". "A gente sabe exatamente o tamanho do perigo. Mas, por outro lado, quantas de nossas pautas não foram também negociadas antes?", questionou ela.
Para Neon, a principal demanda dos movimentos populares e ativistas em 2017 deve ser a defesa das conquistas dos movimentos sociais e de direitos. "Seja [as organizações] de mulheres negras, seja de LGBTT ou da classe operária, vamos ter que urgentemente parar de olhar para especificidade e começar a trabalhar no coletivo, como foram as 'diretas já', quando realmente a nação foi para a rua", disse. Ela destacou ainda a defesa da liberdade como horizonte das pautas do próximo ano.
Gilmar Mauro
Membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
A avaliação de Gilmar Mauro é que Michel Temer não se sustentará na presidência já no primeiro semestre e, por isso, a principal pauta na agenda dos movimentos será as eleições diretas — que para ser bem sucedida, a pressão deve ocorrer por fora do Congresso Nacional.
A projeção do coordenador do MST é que a crise econômica se intensifique e, em decorrência, os índices de criminalidade, de fome e a saturação do sistema público podem aumentar no País. “O Brasil terá uma convulsão social muito grande em 2017. O que estamos querendo construir com outros membros dos movimentos populares é dar um rumo político para isso”, disse. 
Ele considera que os processos de mobilização não foram suficientes para barrar um conjunto de contra-reformas aprovadas, como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55, conhecida como PEC do Teto dos Gastos por congelar investimento públicos por 20 anos, pois não houve um envolvimento da classe trabalhadora em geral. Mas ele aposta que a continuidade da luta contra a Reforma da Previdência será ampliada e levará mais pessoas às ruas do que os protestos contra a PEC do Teto dos Gastos.
Segundo ele, o MST, em conjunto com outros movimentos do campo, deve realizar em abril uma caravana à Brasília (DF) e reunir milhares de trabalhadores do campo contra a Reforma da Previdência na capital. 
Além da antecipação das eleições, o destaque dos movimentos do campo continua sendo a luta por desapropriações de áreas para a reforma agrária. “Mas isso apenas não basta. É necessário pensar em um programa que aponte para saídas, tanto da crise econômica quanto dos problemas sociais”, disse. 
Juliana Gonçalves
Jornalista e ativista do Movimento de Mulheres Negras
A jornalista Juliana Gonçalves pondera a urgência de, em 2017, todo o movimento social e entidades progressistas pautarem, de forma prioritária, o processo de genocídio do povo negro. Por isso, a ativista afirma que a reforma do sistema prisional, da política antidrogas e da Segurança Pública têm que ser centrais no debate político.
Com uma organização institucional desfavorável à esquerda, do plano municipal ao federal, Gonçalves pontua ainda a necessidade dos movimentos populares saírem "para o embate" e ocupar as esferas participativas, como conselhos e ouvidorias. "Sei que não são [espaços] deliberativos e não têm força interna, mas vamos estar perto para entender o que eles estão propondo e tentar impedir ou minimamente organizar reação quando houver retrocesso. É apenas o que podemos esperar da esfera institucional. Por outro lado, é pressão, ir para rua e realmente tentar ganhar a sociedade", disse.
Ela considera que o movimento de mulheres não comemorou, em 2016, nenhuma conquista concreta e a luta ainda é pautada pela "sobrevivência", o que explicita o "recrudescimento do racismo, do machismo e conservadorismo".
No entanto, acredita que as mulheres negras conseguiram se organizar de uma maneira mais orgânica no ano passado. "Tomamos corpo de uma forma mais unitária, sem deixar de lado as nossas diferenças. Isso ainda é resultado das mobilizações recentes e da maior delas, a Marcha das Mulheres Negras que ocorreu no final de 2015. Assim, ficou um pouco mais fácil fazer frente a algumas ofensivas que a gente sempre sofreu", disse. 
Douglas Belchior
Militante da União de Núcleos de Educação Popular para Negros e Classe Trabalhadora (Uneafro)
Para Douglas Belchior, o grande desafio dos movimentos de esquerda será a construção de um projeto programático. “A luta não pode ser apenas reativa. Não vamos ser saída se não propormos uma saída, que aponte caminhos. Temos que defender um projeto novo. Uma esquerda que não oferece saída, não pode ser a saída”, declarou.
Ano que marcou o desfecho de uma atuação inaugurada em 2013, quando as manifestações de rua foram tomadas pela grande mídia e pela direita, o balanço do ano passado, para o ativista, é muito negativo pela espaços institucionais ocupados. “Isso já está custando a medida que a reocupação dos setores hegemônicos, mais tradicionais, oligárquicos e ultraconservadores, já estão promovendo o desmonte de direitos que foram com muito custo conquistados por nós”, disse. Para ele, o movimento negro perdeu junto com as demais pautas e não houve avanço, para além das reações pontuais. “No momento de grande crise política, institucional e social no Brasil, nós não conseguimos colocar para sociedade brasileira o tema do racismo como algo importante a ser debatido”, afirmou. 
Douglas pontua que, na medida que é o povo negro quem ocupa favelas e todos os espaços precarizados pela sociedade, “a pauta do movimento negro é a pauta da sociedade brasileira”. Por isso, o próximo período, as reformas estruturais que retiram direitos dos trabalhadores devem ser temas do movimento.
Natália Szermeta
Coordenadora estadual do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e da Frente Povo Sem Medo
Para a coordenadora do MTST e da Frente Povo Sem Medo, 2016 foi um marco na história política e dos sinais de esgotamento da política marcada pela conciliação. "O resultado das eleições municipais são reflexo deste esgotamento, reflexo da incapacidade da esquerda brasileira em apresentar um projeto que dialogue com a insatisfação, com o senso comum", disse.
Por isso, para ela, a esquerda que precisará apresentar propostas que vão além da disputa eleitoral de 2018, dialogando com a indignação popular e pautas como a corrupção. "Aqueles que não forem capazes de fazer autocrítica e de entender as mudanças que estão ocorrendo no país, insistindo em alianças fisiológicas ou tentando canalizar a saída para a via do acórdão institucional, estará cometendo um erro histórico",disse.
Com relação às pautas do movimento de moradia, ela pontua que o ano foi marcado pela estagnação, com a continuidade da paralisação do programa Minha Casa Minha Vida. "Conseguimos com luta evitar retrocessos importantes no programa, mas não avançou-se em nada".
Szermeta também aposta na Reforma da Previdência como uma mola propulsora de manifestações contra o governo. "Ela é um ataque no coração dos trabalhadores, flexibiliza direitos históricos e na prática inviabiliza a aposentadoria da maioria dos trabalhadores pobres", disse.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A dialética da conciliação de classe ou como destruir uma base de massas





Um partido de origem popular e operária se consolida no Brasil nos anos 80. Esse partido, o Partido dos Trabalhadores, aposta na mobilização de massa (greves, passeatas, protestos, ocupações de órgãos públicos, etc.) como forma de tornar seu projeto o hegemônico no seio das classes exploradas e lograr ocupar o maior número possível de cargos no aparato do Estado acreditando ser possível democratizá-lo ao máximo até que ele seja um instrumento da transição socialista. 

Durante a trajetória política do PT, quando a institucionalidade passou a ser prioridade absoluta, o partido ostentava um diferencial que a maioria dos partidos burgueses não têm: uma adesão dos movimentos sociais, da classe trabalhadora organizada e das massas populares que representava seu diferencial na política. Enquanto o PSDB, PMDB ou DEM precisavam pagar pessoas como cabos-eleitorais na época da eleição o PT tinha milhares de seres humanos que se entregavam de corpo e alma àquele projeto sem precisar receber nada em troca. 

Quando o PT desistiu de revolucionar a sociedade, abandonou na prática a estratégia socialista (embora ainda mantenha formalmente em palavras) e passou a ter como principal objetivo tornar-se o partido da ordem dominante com um programa econômico socialdemocrata faz-se necessário conter, controlar e instrumentalizar ao máximo a mobilização de massas. Agora não é mais interessante, por exemplo, ter pressão na rua pela estatização dos transportes, pois modelos restritos de passe-livre, baixos aumentos (ou congelamentos parciais dos aumentos) e melhoras na frota já bastam. O PT passa a chamar o movimento de massas apenas em movimentos chaves, notadamente na eleição, e nos demais momentos procura paralisar ao máximo esse movimento; para lograr êxito nisso é indispensável um rebaixamento ideológico e programático sempre constante e avançando - primeiro o PT defendia o socialismo com democracia, depois fala mais de democracia que socialismo, depois fala de "revolução democrática" para depois vim o socialismo, depois não fala mais em socialismo e o mote é um crescimento econômico com desenvolvimento social e assim vai...

O ciclo do PT na presidência se notabilizou por não ter chamado UMA ÚNICA VEZ as massas populares para uma luta de rua para realizar o programa econômico que o partido defendeu nos anos 80 e parte dos anos 90. Diferentemente do bolivarianismo na Bolívia ou Venezuela, onde o governo é um pólo de aglutinação e fortalecimento dos movimentos sociais e da classe trabalhadora (com todos os limites e contradições), no Brasil os governos do PT não só procuram não promover a luta como freia-la cooptando lideranças para o aparelho do Estado e minando a radicalidade da própria base social do partido ("país de todos", "nova classe média", "ascensão pelo consumo", etc. foram estratégias ideológicas de rebaixamento da consciência de classe). O partido que tinha como diferencial sua base de massas vai progressivamente destruindo essa base de massas para ser gestor da burguesia oferecendo como principal qualidade sua capacidade de controlar os movimentos socais e a classe trabalhadora. Esse processo vai enfraquecendo a base de massas e reduzindo a margem de manobra do partido como operador da burguesia tornando-o um executor que modifica pouco o projeto da classe dominante; esse ciclo reduz progressivamente a já frágil base de massas que sofre com uma crise ideológica, ausência de novas lideranças, perda de adeptos, redução de apoio na sociedade, consolidação de práticas pelegas e cupulistas. 

O resultado final do processo é que quando a burguesia não precisa mais do ex-partido operário e popular e através de outras expressões políticas - os partidos de oposição - resolve tentar derrubar o PT, o partido não tendo mais com recorrer a uma base de massas que entrega corações e mentes ao projeto precisa desesperadamente fazer um acordo com o principal operador do Impedimento: Eduardo Cunha. Notem, quando Lula foi eleito tivemos uma das maiores expressões de massa da história recente do Brasil em sua posse. Na possível queda de Dilma não temos a classe trabalhadora nas ruas para defender seu mandato e mesmo os movimentos sociais ainda ligados ao governo, como o MST, não se sentem à vontade para essa missão. A dialética da conciliação de classe é implacável. Rosa Luxemburgo em seu clássico texto O Oportunismo e a Arte do Possível tinha alertado que: “as se nós começamos a perseguir o que é ‘possível’ de acordo com os princípios do oportunismo, sem nos preocupar com nossos próprios princípios, e por meios de troca como fazem os estadistas, então nós iremos logo nos encontrar na mesma situação que o caçador que não só falhou em matar o veado, mas também perdeu sua arma no processo.” Sim, o PT perdeu sua principal arma!

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Chomsky: A história não segue uma linha reta

Via Esquerda.net

Numa entrevista conduzida pelo jornalista italiano Tommaso Segantini, Noam Chomsky fala sobre Bernie Sanders, Jeremy Corbyn, e o potencial de cidadãos comuns para protagonizarem mudanças radicais.
Ao longo da sua ilustre carreira, uma das principais preocupações de Noam Chomsky tem sido questionar - e exortar-nos a questionar - os pressupostos e as normas que regem a nossa sociedade.
Na sequência de uma palestra sobre poder, ideologia e política externa dos EUA, que teve lugar no fim-de-semana passado na New School, em Nova Iorque, o jornalista italiano freelancerTommaso Segantini sentou-se com o octogenário para discutir alguns desses mesmos temas, incluindo a forma como eles se relacionam com processos de transformação social.
Para os radicais, o progresso exige perfurar a bolha da inevitabilidade: a austeridade, por exemplo, "é uma decisão política assumida pelos seus autores para os seus próprios fins". Não é implementada, diz Chomsky, "devido a quaisquer leis económicas". O capitalismo americano também beneficia do obscurecimento ideológico: apesar da sua associação aos livres mercados livres, o capitalismo está repleto de subsídios para alguns dos mais poderosos atores privados. Também é preciso estourar esta bolha.
Além de discutir as perspectivas de uma transformação radical, Chomsky comenta a crise da zona euro, se o Syriza poderia ter evitado submeter-se aos credores da Grécia, bem como a importância de Jeremy CorbynBernie Sanders.
E permanece moderadamente optimista: "Ao longo do tempo há uma espécie de trajetória geral no sentido de uma sociedade mais justa, com retrocessos e revezes, como é óbvio".
Numa entrevista há alguns anos atrás, disse que o movimento Occupy Wall Street tinha criado um sentimento raro de solidariedade nos EUA. A 17 de setembro celebrou-se o quarto aniversário do movimento OWS. Qual é a sua avaliação dos movimentos sociais, como o OWS, ao longo dos últimos vinte anos? Têm sido eficazes a promover a mudança? Como poderiam melhorar?
Eles tiveram um impacto; não se fundiram em movimentos persistentes e contínuos. É uma sociedade muito atomizada. Há muito poucas organizações com atividade contínua que têm memória institucional, que sabem como passar para a próxima etapa e assim por diante.
Esta realidade deve-se em parte à destruição do movimento operário, que costumava oferecer uma espécie de base fixa para muitas atividades; atualmente, praticamente as únicas instituições persistentes são as igrejas. Muitas coisas estão ligadas à igreja.
É difícil para um movimento vingar. Existem vários movimentos de jovens, que tendem a ser transitórios; por outro lado, há um efeito cumulativo, e nunca sabemos quando algo vai despoletar um movimento de grandes dimensões. Isto já aconteceu inúmeras vezes: movimento dos direitos civis, movimento de mulheres. Por isso, continuem a tentar até que algo ganhe uma dimensão considerável.
A crise de 2008 mostrou claramente as falhas da doutrina económica neoliberal. No entanto, o neoliberalismo ainda parece persistir e os seus princípios ainda são aplicados em muitos países. Por que, mesmo com os trágicos efeitos da crise de 2008, a doutrina neoliberal parece ser tão resistente? Por que ainda não surgiu uma resposta forte como após a Grande Depressão?
Em primeiro lugar, as respostas europeias têm sido muito piores do que as respostas dos EUA, o que é bastante surpreendente. Nos EUA, existiam esforços moderados no que respeita ao estímulo, flexibilização quantitativa e assim por diante, o que lentamente permitiu a recuperação da economia.
Na verdade, a recuperação da Grande Depressão foi realmente mais rápida em muitos países do que é hoje, por uma série de razões. No caso da Europa, uma das principais razões é que a criação de uma moeda única foi um desastre, como muitas pessoas apontaram. A UE não dispõe de mecanismos para responder à crise: a Grécia, por exemplo, não pode desvalorizar a sua moeda.
A integração da Europa teve uma evolução muito positiva em alguns aspectos e foi prejudicial noutros, especialmente quando se está sob o controlo de potências económicas extremamente reacionárias, que impõem políticas economicamente destrutivas e que são basicamente uma forma de guerra de classes.
Por que não há reação? Bem, os países mais fracos não estão a receber apoio de outros. Se a Grécia tivesse tido o apoio de Espanha, Portugal, Itália e outros países talvez tivessem sido capazes de resistir às forças eurocratas. Estes são uma espécie de casos especiais que têm a ver com desenvolvimentos contemporâneos. Na década de 1930, lembre-se que as respostas não eram particularmente atraentes: um delas era o nazismo.
Há vários meses, Alexis Tsipras, líder do Syriza, foi eleito como primeiro-ministro da Grécia. No final, no entanto, teve de fazer muitos compromissos devido à pressão que lhe foi imposta por potências financeiras, e foi forçado a implementar duras medidas de austeridade.
Considera que, em geral, é possível uma verdadeira mudança quando um líder esquerdista radical como Tsipras chega ao poder, ou os Estados-nação perderam a sua soberania e são muito dependentes de instituições financeiras que podem discipliná-los se não quiserem seguir as regras do mercado livre?
Como já afirmei, no caso da Grécia, se o país tivesse usufruído do apoio popular de outras partes da Europa, poderia ter sido capaz de resistir ao ataque da aliança da banca eurocrata. Mas a Grécia estava sozinha - não tinha muitas opções.
Há muito bons economistas como Joseph Stiglitz que pensam que a Grécia deveria apenas ter saído da zona euro. É um passo muito arriscado. A Grécia é uma economia muito pequena, não é propriamente uma economia de exportação, e seria muito fraca para resistir a pressões externas.
Há pessoas que criticam as táticas do Syriza e a posição que tomou, mas eu acho que é difícil ver quais as opções que tinha mediante a falta de apoio externo.
Vamos imaginar, por exemplo, que Bernie Sanders ganhou as eleições presidenciais de 2016. O que acha que aconteceria? Ele poderia causar uma mudança radical nas estruturas de poder do sistema capitalista?
Suponhamos que Sanders ganha, o que é bastante improvável num sistema de eleições compradas. Ele estaria sozinho: não tem representantes no Congresso, não tem governadores, não tem apoio na burocracia, não tem deputados; e, estando sozinho neste sistema, não podia fazer muito. Uma alternativa política real é transversal, e não apenas uma personalidade na Casa Branca.
Teria de ser um movimento político amplo. Na verdade, penso que é importante que na campanha de Sanders estejam a ser levantadas questões, se pressione os principais democratas um pouco num sentido progressista, e que estejam a ser mobilizadas várias forças populares, e o resultado mais positivo seria elas permanecerem após a eleição.
É um erro grave focarmo-nos apenas na extravagância eleitoral quadrienal e, em seguida, ir para casa. Não é assim que as mudanças acontecem. A mobilização pode levar a uma organização popular contínua, o que poderia ter efeitos a longo prazo.
Qual é a sua opinião sobre a emergência de figuras como Jeremy Corbyn, no Reino Unido, Pablo Iglesias em Espanha, ou Bernie Sanders nos EUA? É um novo movimento de esquerda em ascensão, ou são apenas respostas esporádicas à crise económica?
Depende da reação popular. Vejamos Corbyn na Inglaterra: ele está sob ataque feroz, e não apenas a partir do establishment conservador, mas inclusive a partir do establishment dos trabalhistas. Oxalá Corbyn seja capaz de resistir a este tipo de ataque; o que depende do apoio popular. Se o público está disposto a apoiá-lo face à difamação e táticas destrutivas, então ele pode ter um impacto. O mesmo acontece com o Podemos em Espanha.
Como é possível mobilizar um grande número de pessoas num contexto tão complexo?
Não é assim tão complexo. A tarefa dos organizadores e ativistas é ajudar as pessoas a entenderem e a fazê-las reconhecer que têm poder, que não são impotentes. As pessoas sentem-se impotentes, mas isso tem de ser superado. É disso que se trata a organização e o ativismo.
Às vezes funciona, às vezes não, mas não há nenhum segredo. É um processo de longo prazo – sempre foi assim. E teve sucessos. Ao longo do tempo há uma espécie de trajetória geral no sentido de uma sociedade mais justa, com retrocessos e revezes, como é óbvio.
Então diria que, durante a sua vida, a humanidade progrediu na construção de uma sociedade um pouco mais justa?
Houve enormes mudanças. Basta olhar aqui para o MIT. Dê um passeio pelo corredor e olhe para a comunidade estudantil: metade são mulheres, um terceiro minorias, informalmente vestidos, estabeleceram-se relações casuais entre as pessoas e assim por diante. Quando cheguei aqui em 1955, se tivesse atravessado o mesmo corredor, veria machos brancos, de casaco e gravata, muito educados, obedientes, sem levantarem muitas perguntas. É uma mudança enorme.
E não é só aqui - é em todos os lugares. Nós não teríamos este aspeto, e, de facto, você provavelmente não estaria aqui. Essas são algumas das mudanças culturais e sociais que tiveram lugar graças ao ativismo comprometido e dedicado.
Noutros setores não se produziram essas mesmas mudanças, como no movimento sindical, que tem estado sob forte ataque ao longo de toda a história americana e particularmente desde o início dos anos 1950. Ele foi seriamente enfraquecido: no setor privado é marginal, e está agora a ser atacado no setor público. Isso é um retrocesso.
As políticas neoliberais são, certamente, um retrocesso. Para a maioria da população nos EUA, tem existido essencialmente estagnação e declínio na última geração. E não por causa de quaisquer leis económicas. Estas são políticas. Assim como a austeridade na Europa não é uma necessidade económica - na verdade, é um disparate económico. Mas é uma decisão política assumida pelos seus autores para os seus próprios fins. Creio que, basicamente, é uma espécie de guerra de classes, e é possível resistir, mas não é fácil. A história não segue uma linha reta.
Como irá o sistema capitalista sobreviver, tendo em conta a sua dependência dos combustíveis fósseis e o seu impacto sobre o meio ambiente?
O que é chamado de sistema capitalista está muito longe de qualquer modelo de capitalismo ou mercado. Veja as indústrias de combustíveis fósseis: umestudo recente do FMI tentou estimar o subsídio que as empresas de energia recebem dos governos. O total foi colossal. Creio que foi de cerca de 5 biliões de dólares anuais. Isso não tem nada a ver com mercados e capitalismo.
E o mesmo se aplica a outros componentes do chamado sistema capitalista. Até agora, nos EUA e noutros países ocidentais, tem-se registado, durante o período neoliberal, um aumento acentuado da financeirização da economia. As instituições financeiras nos EUA tinham cerca de 40 por cento dos lucros corporativos na véspera do colapso de 2008, do qual tinham uma grande parcela de responsabilidade.
Há um outro estudo do FMI que investigou os lucros dos bancos norte-americanos, e descobriu que estes estavam quase inteiramente dependentes de subvenções públicas implícitas. Há uma espécie de garantia - não é no papel, mas é uma garantia implícita - de que se estiverem em apuros vão ser socorridos. A isso chama-se grandes demais para falirem.
E as agências de rating sabem-no, têm isso em conta, e com um rating elevado, as instituições financeiras têm acesso privilegiado a crédito mais barato, recebem subsídios caso as coisas corram mal e muitos outros incentivos, o que efetivamente talvez equivalha ao seu lucro total. A imprensa de negócios tentou fazer uma estimativa desse número e chegou a cerca de US 80 mil milhões de dólares ao ano. Isso não tem nada a ver com o capitalismo.
Acontece o mesmo em muitos outros sectores da economia. Portanto, a verdadeira questão é: irá este sistema de capitalismo de Estado, que é o que é, sobreviver à utilização contínua de combustíveis fósseis? E a resposta para isso é claro que não.
Até agora, há um consenso muito forte entre os cientistas que dizem que uma grande maioria dos combustíveis fósseis restantes, talvez 80 por cento, tem de ser deixada no solo, se queremos evitar um aumento da temperatura que seria muito letal. E isso não está a acontecer. Os seres humanos podem estar a destruir as suas hipóteses de sobrevivência decente. Não mataria todas as pessoas, mas mudaria o mundo de forma dramática.
Publicado em Jacobin

Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Protesto contra onda conservadora e ajuste fiscal reúne milhares em São Paulo


Retirada de direitos sociais, terceirização no trabalho e redução da maioridade penal são alguns dos pontos atacados
Rodrigo Gomes
SIGMAPRESS/FOLHAPRESS
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Participantes também reivindicam reforma política com participação popular e sem financiamento privado das campanhas
São Paulo – Milhares de trabalhadores ligados a movimentos sociais e sindicatos realizam na tarde de hoje (25) manifestação contra o avanço da pauta conservadora e a retirada de direitos sociais da população, por meio dos projetos de terceirização, da redução da maioridade penal e do ajuste fiscal, entre outros. Os participantes, a maioria ligada ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), também reivindicam a realização de uma reforma política com participação popular e sem financiamento privado das campanhas e pelo lançamento do programa Minha Casa Minha Vida 3.
Os manifestantes saíram em marcha em direção à região de Pinheiros. No caminho, vão passar pelo que consideram “símbolos” do atual momento de enfrentamento de forças políticas, como a Secretaria-Geral da Presidência da República, bancos e sedes de veículos de imprensa.
O coordenador nacional do MTST, Guilherme Boulos, disse que o Congresso não tem legitimidade para discutir terceirização, maioridade penal e o que chamou de outros projetos danosos à população. O ativista enfatizou que a redução da maioridade não vai valer para os filhos dos ricos, mas para "atacar o filho dos pobres". Enfatizou que o movimento não vai "aceitar a entrega do pré-sal" e o financiamento privado de campanhas eleitorais. "Aqueles sem-vergonhas do (Eduardo) Cunha (presidente da Câmara dos Deputados) e do (Renan) Calheiros, (presidente do Senado), não vão contra a vontade popular", disse.
Boulos não poupou críticas ao governo federal, que, segundo ele, está indo contra os trabalhadores com sua proposta de ajuste fiscal. "Não vamos aceitar que joguem a conta da crise no colo dos trabalhadores, que joguem no colo dos ricos". O MTST cobra o lançamento "imediato" da terceira etapa do programa Minha Casa Minha Vida. "Nós não viemos pedir porque direito não se pede", afirmou Boulos.
O Ministério das Cidades emitiu nota informando que o programa será lançado em agosto, pois está realizando diálogos com todas as partes envolvidas. Para Boulos, a posição é lamentável, pois o lançamento já foi adiado várias vezes. "Não se pode usar diálogo como desculpa para ficar postergando", afirmou.
Ele disse que é preciso ser feita uma grande rede de mobilizações em todo o país e que isso vai fazer a diferença para segurar a onda conservadora.
O ativista garantiu que serão feitas novas ocupações se o governo não lançar o Minha Casa Minha Vida 3. Nos últimos dois meses, eles fizeram quatro. "Estamos prontos para parar a cidade e o país", avisou Boulos. Em frente ao prédio da Secretaria-Geral da Presidência da República, na avenida Paulista, Boulos avisou: "Se não liberarem o Minha Casa, Minha Vida nós vamos morar no escritório da presidência. Hoje nós viemos só avisar, porque estamos sem colchão, sem lona, mas na próxima vez a gente vai ocupar o escritório. Presidenta Dilma, ouça e atenda às nossas reivindicações senão a gente vai ocupar terra, a gente vai ocupar escritório, rodovias e vamos parar o Brasil".
A coordenadora estadual do MTST, Jussara Basso, também ressaltou que os movimentos não vão deixar as ruas enquanto não cessarem os ataques aos direitos sociais. “Estamos nas ruas contra todos os ataques que estamos sofrendo aos nossos direitos. E vamos continuar até que o Congresso e o governo federal atendam às nossas reivindicações”, afirmou.
Para os movimentos, o ajuste fiscal representa corte de verbas para moradia popular, educação saúde, ataque ao seguro-desemprego e as pensões, auxílio-doença, aos direitos previdenciários. “Afeta principalmente os trabalhadores pobres”, salientou Jussara. Ao mesmo tempo, defendem os movimentos, o lucro dos mais ricos é intensificado, com aumento das taxas de juros, pagamento da dívida pública, isenções de impostos e facilidade governamentais.
No caso do programa Minha Casa, Minha Vida 3, o MTST tem realizado ocupação em diversas cidades, reivindicando a nova fase. “Enquanto não for lançado não existe programa habitacional no Brasil. Essa situação afeta principalmente a construção de moradias populares. Está tudo parado. Desde o ano passado vem sendo prometido o lançamento. A gente não quer mais promessa”, disse Jussara.
Para os movimentos, a reforma política em discussão no Congresso Nacional, liderada pelo presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), está em total desacordo com os anseios da população, aprovando medidas que significam a legalização da corrupção, como o financiamento privado de campanhas.
Os movimentos também reivindicam que a imprensa deixe de dar cobertura somente a uma parte dos atuais escândalos de corrupção, envolvendo sonegação e grandes empresas. O escândalo do HSBC, que envolve empresários de todos os ramos, inclusive empresários da grande mídia, é responsável por cerca de R$ 19 bilhões em evasão de divisas. Já a Operação Zelotes denuncia que os grandes bancos sonegaram mais de R$ 19,5 bilhões. Porém, segundo os ativistas, somente a Operação Lava Jato ganha destaque.
Em frente a sede da Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN), em Pinheiros, Boulos foi incisivo. "Aqui estão os maiores ladrões do país. Enquanto não tem dinheiro para moradia, saúde, habitação, eles seguem ganhando muito com a dívida pública e financiando campanhas eleitorais para garantir que tudo fique como está", afirmou.
O vice-presidente da CUT estadual São Paulo, Douglas Izzo, disse que esta foi mais uma noite em defesa da democracia. Disse que é preciso defender a Petrobras. "Temos um senador eleito por São Paulo, financiada pelo grande capital, querendo entregar a Petrobras", disse em referência ao tucano José Serra.
Para Izzo, se o Senado pôr em pauta a terceirização, a CUT vai convocar uma greve geral, "porque esse projeto representa acabar com os direitos dos trabalhadores e rasgar a CLT".
O secretário-geral da Intersindical, Edson Carneiro, conhecido como Índio, avisou que as entidades sindicais não vão aceitar uma política econômica "que vai levar o país para a recessão e o desemprego. Para ele, uma proposta de derrubada do governo, no entanto, é "inaceitável, que só interessa para a direita". "Ao povo cabe dizer a Dilma, vete a terceirização, libere o Minha Casa, Minha Vida e onere os ricos."
Para o secretário estadual do Psol, Miguel Carvalho, "é um absurdo que o governo diga que não tem dinheiro para os pobres, mas tem dinheiro para pagar banqueiros, para continuar pagando a dívida pública".
Os estudantes também não vão aceitar o ajuste e os cortes na educação, segundoRarikan Heven, diretor da UNE. "Nós vamos ocupar as ruas o quanto for preciso. Dilma, se de uma lado a direita te pressiona, saiba que aqui tem o povo, que é muito mais forte", disse, convocando todos a ocupar o Congresso no dia 30 contra a redução da maioridade penal, que estará em votação, "que representa a legitimação do extermínio da juventude".

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Os movimentos sociais estão se preparando para sair às ruas contra a falta d’água



Se havia uma lacuna entre movimentos sociais e “crise hídrica”, ela não existe mais. O Coletivo de Luta pela Água está em formação e já conta com diversas entidades como Central de Movimentos Populares, União dos Movimentos de Moradia, Federação das Associações Comunitárias do Estado de São Paulo, Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental, Fórum Paulista de Participação Popular, Movimento dos Atingidos por Barragens, Rede Nossa São Paulo, Central Única dos Trabalhadores e Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo.

Não é uma iniciativa relâmpago. As entidades estavam desde o ano passado lutando isoladamente por soluções e o objetivo de agora é o de unificar e ampliar ações que pressionem o Governo do Estado a tomar as medidas urgentes que a questão demanda. Não de maneira unilateral, obviamente. As entidades querem participar das resoluções. O manifesto explicita ser “necessário que o Governo do Estado aja com total transparência e mobilize órgãos como Cetesb, Secretaria do Meio Ambiente, Defesa Civil, Secretaria da Saúde e Educação para atuar de forma conjunta e garanta a participação da sociedade e prefeituras em todo o processo de debate para enfrentamento da crise”.

É justo. A deixar do jeito que está, já se sabe de quem o sacrifício maior será cobrado e o governador Alckmin conta com habilidade e apoio para terceirizar a responsabilidade da crise sendo que ela é fruto muito mais da falta de obras e ao modelo da gestão privada do que da falta de chuvas. Na verdade, não há uma “crise hídrica”, o que há é um modelo ganancioso (e suicida) de exploração desse recurso.

Ponto fundamental defendido pelos movimentos é a necessidade da decretação imediata do estado de calamidade pública para que medidas emergenciais como a priorização para abastecimento humano e dessedentação de animais, plano de atendimento ininterrupto para serviços públicos como escolas, hospitais, creches, aeroportos e imóveis em que residam populações internadas ou vulneráveis, sejam tomadas.

Além disso, exigências como administrar com equidade a falta d’água (seja por racionamento ou redução de pressão) de modo a não penalizar a população de periferia que passa dias seguidos à seco e preparar medidas jurídicas que possibilitem a requisição de poços artesianos e todas as fontes disponíveis de água para direcioná-las ao uso prioritário estão no manifesto.

“Estamos pedindo uma audiência também com o prefeito Fernando Haddad para reiterar a carta que foi enviada a ele pelo Conselho Municipal das Cidades, subscrita por mais de uma dezena de entidades, que reforça a necessidade da prefeitura ter um papel mais proativo nessa crise.

A Sabesp opera em 366 cidades no estado de São Paulo. A capital sozinha é responsável por 52% do faturamento que a empresa tem e ela tem obrigações a cumprir com a cidade por meio de contrato. A prefeitura precisa ser mais incisiva”, disse Edson Aparecido da Silva, da Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental.

A campanha midiática de Alckmin/Sabesp, tanto a publicitária por vir quanto a já vigente através do jornalismo da grande mídia, responsabiliza o consumidor e estimula uma guerra entre vizinhos que se vigiam e denunciam-se mutuamente. Por que não vigiar os vazamentos da Sabesp que desperdiçam quase um terço da água em seus encanamentos? Por que não se divulga para a sociedade os contratos para os grandes consumidores e qual a quantidade de água potável fornecida a eles?

“O que precisamos fazer é o pedido de interrupção, na Sabesp, de todas as medidas que não priorizem o abastecimento para a população. A questão dos contratos que a Sabesp tem com empresas como shopping centers, por exemplo. Se não for para abastecer a população, pediremos a suspensão desses instrumentos”, declarou Adi Lima, presidente da CUT.

A grande mídia mais uma vez executa à perfeição a disciplina de desinformar e entorpecer com meias verdades o cidadão. Cabe agora um imenso engajamento popular pela questão da água. E não apenas no sentido de economizar mas também no de cobrar a responsabilidade dos verdadeiros culpados. São Pedro não está entre eles. O descaso irresponsável lá de trás terá consequências sérias em termos de emprego, saúde e habitação ali na frente.

O primeiro grande ato está marcado para o dia 20 de março (ainda sem horário e local definidos) quando se promoverá o Tribunal Popular da Água, que julgará a responsabilidade do governador.

Mauro Donato
No DCM, via http://www.contextolivre.com.br/2015/02/os-movimentos-sociais-estao-se.html

quinta-feira, 8 de março de 2012

SE OS HOMENS MENSTRUASSEM .




Por Gloria Steinem noCLOACANEWS
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Morar na Índia me fez compreender que a minoria branca do mundo passou séculos nos enganando para que acreditássemos que a pele branca faz uma pessoa superior a outra. Mas na verdade a pele branca só é mais suscetível aos raios ultravioleta e propensa a rugas.
Ler Freud me deixou igualmente cética quanto à inveja do pênis. O poder de dar à luz faz a “inveja do útero” mais lógica e um órgão tão externo e desprotegido como o pênis deixa os homens extremamente vulneráveis. Mas ao ouvir recentemente uma mulher descrever a chegada inesperada de sua menstruação (uma mancha vermelha se espalhara em seu vestido enquanto ela discutia, inflamada, num palco) eu ainda ranjo os dentes de constrangimento. Isto é, até ela explicar que quando foi informada aos sussurros deste acontecimento óbvio, ela dissera a uma platéia 100% masculina: “Vocês deveriam estar orgulhosos de ter uma mulher menstruada em seu palco. É provavelmente a primeira coisa real que acontece com vocês em muitos anos!”
Risos. Alívio. Ela transformara o negativo em positivo. E de alguma forma sua história se misturou à Índia e a Freud para me fazer compreender finalmente o poder do pensamento positivo. Tudo o que for característico de um grupo “superior” será sempre usado como justificativa para sua superioridade e tudo o que for característico de um grupo “inferior” será usado para justificar suas provações. Homens negros eram recrutados para empregos mal pagos por serem, segundo diziam, mais fortes do que os brancos, enquanto as mulheres eram relegadas a empregos mal pagos por serem mais “fracas’. Como disse o garotinho quando lhe perguntaram se ele gostaria de ser advogado quando crescesse, como a mãe, “Que nada, isso é trabalho de mulher.” A lógica nada tem a ver com a opressão.
Então, o que aconteceria se, de repente, como num passe de mágica, os homens menstruassem e as mulheres não? Claramente, a menstruação se tornaria motivo de inveja, de gabações, um evento tipicamente masculino.
Os homens se gabariam da duração e do volume. Os rapazes se refeririam a ela como o invejadíssimo marco do início da masculinidade. Presentes, cerimônias religiosas, jantares familiares e festinhas de rapazes marcariam o dia. Para evitar uma perda mensal de produtividade entre os poderosos, o Congresso fundaria o Instituto Nacional da Dismenorréia. Os médicos pesquisariam muito pouco a respeito dos males do coração, contra os quais os homens estariam, hormonalmente, protegidos e muito a respeito das cólicas menstruais. Absorventes íntimos seriam subsidiados pelo governo federal e teriam sua distribuição gratuita. E, é claro, muitos homens pagariam mais caro pelo prestígio de marcas como Tampões Paul Newman, Absorventes Mohammad Ali, John Wayne Absorventes Super e Miniabsorventes e Suportes Atléticos Joe Namath — “Para aqueles dias de fluxo leve”.
As estatísticas mostrariam que o desempenho masculino nos esportes melhora durante a menstruação, período no qual conquistam um maior numero de medalhas olímpicas. Generais, direitistas, políticos e fundamentalistas religiosos citariam a menstruação (”men-struação”, de homem em inglês) como prova de que só mesmo os homens poderiam servir a Deus e à nação nos campos de batalha (”Você precisa dar seu sangue para tirar sangue”), ocupariam os mais altos cargos (”Como é que as mulheres podem ser ferozes o bastante sem um ciclo mensal regido pelo planeta Marte?”), ser padres, pastores, o Próprio Deus (”Ele nos deu este sangue pelos nossos pecados”), ou rabinos (”Como não possuem uma purgação mensal para as suas impurezas, as mulheres não são limpas”).
Liberais do sexo masculino insistiriam em que as mulheres são seres iguais, apenas diferentes. Diriam também que qualquer mulher poderia se juntar à sua luta, contanto que reconhecesse a supremacia dos direitos menstruais (”O resto não passa de uma questão”) ou então teria de ferir-se seriamente uma vez por mês (”Você precisa dar seu sangue pela revolução”). O povo da malandragem inventaria novas gírias (”Aquele ali é de usar três absorventes de cada vez”) e se cumprimentariam, com toda a malandragem, pelas esquinas dizendo coisas tais como:
— Cara, tu tá bonito pacas!
— É, cara, tô de chico!
Programas de televisão discutiriam abertamente o assunto. (No seriado Happy Days: Richie e Potsie tentam convencer Fonzie de que ele ainda é “The Fonz”, embora tenha pulado duas menstruações seguidas. Hill Street Blues: o distrito policial inteiro entra no mesmo ciclo.) Assim como os jornais, (TERROR DO VERÃO: TUBARÕES AMEAÇAM HOMENS MENSTRUADOS. JUIZ CITA MENSTRUAÇÃO EM PERDÃO A ESTUPRADOR.) E os filmes fariam o mesmo (Newman e Redford em Irmãos de Sangue).
Os homens convenceriam as mulheres de que o sexo é mais prazeroso “naqueles dias”. Diriam que as lésbicas têm medo de sangue e, portanto, da própria vida, embora elas precisassem mesmo era de um bom homem menstruado. As faculdades de medicina limitariam o ingresso de mulheres (”elas podem desmaiar ao verem sangue”). É claro que os intelectuais criariam os argumentos mais morais e mais lógicos. Sem aquele dom biológico para medir os ciclos da lua e dos planetas, como pode uma mulher dominar qualquer disciplina que exigisse uma maior noção de tempo, de espaço e da matemática, ou mesmo a habilidade de medir o que quer que fosse? Na filosofia e na religião, como pode uma mulher compensar o fato de estar desconectada do ritmo do universo? Ou mesmo, como pode compensar a falta de uma morte simbólica e da ressurreição todo mês?
A menopausa seria celebrada como um acontecimento positivo, o símbolo de que os homens já haviam acumulado uma quantidade suficiente de sabedoria cíclica para não precisar mais da menstruação. Os liberais do sexo masculino de todas as áreas seriam gentis com as mulheres. O fato “desses seres” não possuírem o dom de medir a vida, os liberais explicariam, já é em si castigo bastante.
E como será que as mulheres seriam treinadas para reagir? Podemos imaginar uma mulher da direita concordando com todos os argumentos com um masoquismo valente e sorridente. (’A Emenda de Igualdade de Direitos forçaria as donas de casa a se ferirem todos os meses : Phyllis Schlafy. “O sangue de seu marido é tão sagrado quanto o de Jesus e, portanto, sexy também!”: Marabel Morgan.) Reformistas e Abelhas Rainhas ajustariam suas vidas em torno dos homens que as rodeariam. As feministas explicariam incansavelmente que os homens também precisam ser libertados da falsa impressão da agressividade marciana, assim como as mulheres teriam de escapar às amarras da “inveja menstrual”. As feministas radicais diriam ainda que a opressão das que não menstruam é o padrão para todas as outras opressões. (”Os vampiros foram os primeiros a lutar pela nossa liberdade!”) As feministas culturais exaltariam as imagens femininas, sem sangue, na arte e na literatura. As feministas socialistas insistiriam em que, uma vez que o capitalismo e o imperialismo fossem derrubados, as mulheres também mens-truariam. (”Se as mulheres não menstruam hoje, na Rússia”, explicariam, “é apenas porque o verdadeiro socialismo não pode existir rodeado pelo capitalismo.”)
Em suma, nós descobriríamos, como já deveríamos ter adivinhado, que a lógica está nos olhos do lógico. (Por exemplo, aqui está uma idéia para os teóricos e lógicos: se é verdade que as mulheres se tornam menos racionais e mais emocionais no início do ciclo menstrual, quando o nível de hormônios femininos está mais baixo do que nunca, então por que não seria lógico afirmar que em tais dias as mulheres comportam-se mais como os homens se portam o mês inteiro? Eu deixo outros improvisos a seu cargo.*
A verdade é que, se os homens menstruassem, as justificativas do poder simplesmente se estenderiam, sem parar.
Se permitíssemos.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quais os fundamentos dessa lógica que considera mais importante salvar o mercado que vidas humanas?



* Frei Betto

O melhor Papai Noel do mundo mereceu 523 instituições financeiras europeias quatro dias antes do Natal: 489 bilhões de euros (o equivalente a R$ 1,23 trilhão), emprestados pelo Banco Central Europeu (BCE) a juros de 1% ao ano!    

Curiosa a lógica que rege o sistema capitalista: nunca há recursos para salvar vidas, erradicar a fome, reduzir a degradação ambiental, produzir medicamentos e distribuí-los gratuitamente. Em se tratando da saúde dos bancos, o dinheiro aparece num passe de mágica!    

Há, contudo, um aspecto preocupante em tamanha generosidade: se tantas instituições financeiras entraram na fila do bolsa-BCE, é sinal de que não andam bem das pernas…    
Quais os fundamentos dessa lógica que considera mais importante salvar o mercado que vidas humanas? Um deles é este mito de nossa cultura: o sacrifício de Isaac por Abraão (Gênesis 22, 1-19). 
   
No relato bíblico, Abraão deve provar a sua fé sacrificando a Javé seu único filho, Isaac. No exato momento em que, no alto da montanha, prepara a faca para matar o filho, o anjo intervém e impede Abraão de consumar o ato. A prova de fé fora dada pela disposição de matar. Em recompensa, Javé cobre Abraão de bênçãos e multiplica-lhe a descendência como as estrelas do céu e as areias do mar.   
 
Essa leitura, pela ótica do poder, aponta a morte como caminho para a vida. Toda grande causa – como a fé em Javé – exige pequenos sacrifícios que acentuem a magnitude dos ideais abraçados. Assim, a morte provocada, fruto do desinteresse do mercado por vidas humanas, passa a integrar a lógica do poder, como o sacrifício “necessário” do filho Isaac pelo pai Abraão, em obediência à vontade soberana de Deus.     

Abraão era o intermediário entre o filho e Deus, assim como o FMI e o BCE fazem a ponte entre os bancos e os ideais de prosperidade capitalista dos governos europeus – que, para escapar da crise, devem promover sacrifícios.       

Essa mesma lógica informa o inconsciente do patrão que sonega o salário de seus empregados sob pretexto de capitalizar e multiplicar a prosperidade geral, e criar mais empregos. Também leva o governo a acusar as greves de responsáveis pelo caos econômico, mesmo sabendo que resultam dos baixos salários pagos aos que tanto trabalham sem ao menos a recompensa de uma vida digna.  

O deus da razão do mercado merece, como prova de fidelidade, o sacrifício de todo um povo. Todos os ideais estão prenhes de promessas de vida: a prosperidade dos bancos credores, a capitalização das empresas ou o ajuste fiscal do governo. Salva-se o abstrato em detrimento do concreto, a vida humana.   

O espantoso dessa lógica é admitir, como mediação, a morte anunciada. Mata-se cruelmente através do corte de subsídios a programas sociais; da desregulamentação das relações trabalhistas; do incentivo ao desemprego; dos ajustes fiscais draconianos; da recusa de conceder aos aposentados a qualidade de uma velhice decente. A lógica cotidiana do assassinato é sutil e esmerada.  

Aqueles que têm admitem como natural a despossessão dos que não têm. Qualquer ameaça à lógica cumulativa do sistema é uma ofensa ao deus da liberdade ocidental ou da livre iniciativa. Exige-se o sacrifício como prova de fidelidade. Não importa que Isaac seja filho único. Abraão deve provar sua fidelidade a Javé. E não há maior prova do que a disposição de matar a vida mais querida.   

A lógica da vida encara o relato bíblico pelos olhos de Isaac. Este não sabia que seria assassinado, tanto que indagou ao pai onde se encontrava o cordeiro destinado ao sacrifício. Abraão cumpriu todas as condições para matar o filho. Subjugou-o, amarrou-o, colocou-o sobre a lenha preparada para a fogueira e empunhou a faca para degolá-lo.    

No entanto, inspirado pelo anjo, Abraão recuou. Não aceitou a lógica da morte. Subverteu o preceito que obrigava os pais a sacrificarem seus primogênitos. Rejeitou as razões do poder. À lei que exigia a morte, Abraão respondeu com a vida e pôs em risco a sua própria, o que o forçou a mudar de território.    

Se não mudarmos de território – sobretudo no modo de encarar a realidade –, como Abraão, continuaremos a prestar culto e adoração a Mamom. Continuaremos empenhados em salvar o capital, não vidas, e muito menos a saúde do planeta.  

Texto publicado no Brasil de Fato.
 
* Frei Betto é escritor, militante de movimentos pastorais e sociais, esteve preso na ditadura militar em 1964, assessorou vários governos socialistas e coordenou a Mobilização Social do programa Fome Zero.