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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Revolução é tudo ao mesmo tempo agora


Elio Gaspari publicou o seguinte em sua coluna de 03/01/2018, no Globo:

A descriminalização da maconha é um tema da agenda do século 21. Já o direito das mulheres ao aborto foi tema do 20, ainda divide a sociedade americana e prevaleceu em dezenas de países. E os temas do 19? Estão diante dos olhos de todos os brasileiros quando leem ou ouvem que a polícia subiu um morro e matou "dois suspeitos".

(...)

Há um Brasil que é pouco ouvido e mal-entendido, mas que está aí, não poderá se mudar para Miami, e em outubro irá às urnas. 53% dos entrevistados com renda superior a dez salários mínimos defendem a legalização da maconha e 70% querem a descriminalização do aborto. Na turma que anda de ônibus (até dois salários mínimos), o quadro inverte-se e só 26% concordam com as duas propostas. Moralista, essa faixa da população é a mais afetada pelo que resta da agenda do 19.

São contradições como essas que podem ajudar a entender o que está por trás das divergências entre a esquerda “tradicional” e os movimentos ditos “identitários”. Um choque entre pautas de lutas que deveriam convergir.

Mas nada disso é necessariamente novo ou localizado. Trotsky, por exemplo, trabalhou o conceito de “desenvolvimento desigual e combinado”, segundo o qual relações e estruturas ultramodernas não apenas convivem como dependem da permanência do que há de mais arcaico.

Foi com base nessa compreensão do desenvolvimento capitalista que Trotsky e seus camaradas encontraram suas saídas. Fizeram uma revolução num país que era a quinta economia da época, com mais de 90% de analfabetismo.
http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2018/01/revolucao-e-tudo-ao-mesmo-tempo-agora.html

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A vodca como força política


Em seu livro “O Ano I da Revolução Soviética”, Victor Serge dá destaque à questão do alcoolismo no início do período revolucionário.

Por um curto período, a contrarrevolução certamente imaginou que havia descoberto sua arma mais letal sob a forma do alcoolismo. O plano assustador, concebido em círculos clandestinos e que pretendia afogar a revolução na bebida antes de afogá-la em sangue transformando-a num tumulto de multidões bêbadas, chegou a ser executado seriamente. Em Petrogrado havia adegas fartamente abastecidas com vinho e lojas repletas de licores finos. A idéia de saqueá-las logo surgiria na multidão – mais exatamente, foi incentivada. Grupos frenéticos passaram a invadir as adegas de palácios, restaurantes e hotéis. Era uma loucura contagiosa. Tropas de guardas vermelhos, marinheiros e revolucionários foram destacadas especialmente para combater este perigo.

Em 2 de dezembro, foi preciso criar, em Petrogrado, uma Comissão Extraordinária Especial com plenos poderes para combater a praga. Foram impostas medidas draconianas: saqueadores de depósitos de vinho foram fuzilados sem vacilação. Em um discurso no soviete, Trotsky observou:

“A vodca é uma força política tanto quanto a palavra. É a palavra revolucionária que leva os homens a lutar contra seus opressores. Se não conseguirmos barrar o caminho que leva aos excessos na bebida, tudo o que restará para nossa defesa serão carros blindados sem tripulantes. Lembrem-se: cada dia de embriaguez aproxima o outro lado da vitória e da velha escravidão”.

“Em uma semana, o mal estaria sob controle”, diz Serge. Mas o alcoolismo jamais deixou de ser epidêmico na Rússia, antes, durante e após o período soviético. Talvez, nem sempre tenha sido tão contrarrevolucionário.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Socialismo seria igual a sovietes mais inteligência artificial?


Em “A Revolução Traída”, Trotsky lembra que Lênin definiu o socialismo como “o poder dos sovietes mais eletrificação”:

Esta definição em forma de epigrama, cuja estreiteza respondia a fins de propaganda, supunha em todo o caso, como ponto de partida mínimo, o nível capitalista da eletrificação.

Realmente, naquele momento, ao lado do petróleo, a eletricidade era o que havia de mais avançado. Apropriar-se de tais tecnologias era fundamental para Lênin. Mas desde que sob controle do poder democrático dos trabalhadores através de seus conselhos, os sovietes.

Agora, troquemos a grande novidade tecnológica daquela época pela maior inovação de nossos dias. Não se trata da robotização, que faz parte da vida produtiva há décadas, mas da robotização inteligente.

O principal insumo da inteligência artificial é o “big data”. Sem este imenso conjunto de informações não haveria como dotar as máquinas de comportamento inteligente.

Além disso, o gerenciamento adequado dessa imensidão de dados pode revelar informações detalhadas e valiosas sobre praticamente qualquer esfera da atual vida humana.

É o conjunto da sociedade que produz esses dados gratuitamente. Principalmente, por redes virtuais, consumo, uso de serviços, etc. Manipular o big data, porém, exige recursos que estão ao alcance de apenas alguns gigantes econômicos.

O proletariado russo só conseguiu dominar as fontes de energia elétrica após tomar o poder. E quanto a nós, podemos esperar pela tomada do poder para conquistar políticas que coloquem, por exemplo, o big data a serviço de nossas lutas e objetivos?

A resposta mais provável é não. Se não lutarmos por controles democráticos desse tipo de recurso desde já, a tomada do poder jamais virá.

http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2017/10/socialismo-e-igual-sovietes-mais.html



terça-feira, 1 de setembro de 2015

Por que a Revolução Francesa foi o episódio mais importante da história da humanidade

Napoleão cruzando os Alpes, pelo grande pintor David

Por Paulo Nogueira, via DCM
e houvesse uma data apenas para a humanidade, ela seria 14 de julho. É a data oficial da Revolução Francesa. Foi quando, em 1789, caiu a Bastilha, a prisão que uma multidão de franceses tomou em busca da munição guardada nela. Batidos os guardas que cuidavam da Bastilha, os presos políticos foram libertados. Surgia um mundo novo, sob os gritos de liberdade, fraternidade e igualdade.
A Revolução Francesa percorreu todos os caminhos típicos das grandes revoluções. Foi-se moldando sob a opressão a injustiça de um regime em que nobres e religiosos eram absurdamente favorecidos em detrimento do povo. Começou relativamente branda, sem que estivesse ainda claro o papel do rei Luís XVI e da rainha Maria Antonieta. Aos poucos virou uma revolução como tem que ser. Para isso, foi preciso que radicais jacobinos como Robespierre, Danton e Marat tomassem o poder e fizessem cair cabeças sob guilhotinas — destinadas, como notou o historiador Jules Michelet, a abreviar o suplício dos condenados. (Os revolucionários franceses não repetiram o horror das execuções da Igreja Católica na Inquisição.) O casal real não podia escapar e não escapou. Revoluções como a Francesa não são feitas com tapinhas nas costas. Uma ordem estabelecida só cede a uma nova ordem pela força.
É uma das leis imutáveis da humanidade.
Feito o trabalho duro e sob certos aspectos sujo, os radicais tinham que ser liquidados para que a França voltasse a respirar e seguisse adiante. Robespierre, o “Incorruptível”, advogado de uma cidadezinha chamada Arras e símbolo do Terror jacobino, tinha que cair e caiu. A guilhotina que ele impusera para tantos, incluído Danton, acabou por alcançá-lo.
Radicais no poder servem para extrair o máximo de uma revolução, mas depois se tornam um obstáculo à retomada da normalidade. Foi assim que Robespierre e comandados chegaram ao fim na França, em 1794, na célebre Reação Termidoriana (uma alusão a “termidor”, o mês do calendário revolucionário em que a Convenção se voltou contra Robespierre). Cortada a cabeça do Incorruptível, estava tudo pronto para a burguesia administrar a França e o mundo. A sociedade tal como a conhecemos dava ali seus primeiros passos.
A Revolução Francesa fascinou, inspirou e assombrou todos os revolucionários que vieram depois dela. Os bolcheviques russos estudavam ansiosamente o que acontecera na França em busca de luzes para seus atos. A família do czar Nicolau II foi liquidada em 1917 porque Luís XVI e Maria Antonieta tinham sido antes. A lógica foi copiada: não deixar símbolos capazes de galvanizar os contra-revolucionários. A campanha de Stálin contra Trotsky recebeu o reforço milionário da história francesa. Contra Trotsky, que comandada o Exército Vermelho da guerra da Revolução Russa, pesou até o se desterro a sombra de Napoleão e seu golpe de 18 Brumário. Stálin foi hábil em alimentar a suspeita de que Trotsky, seu rival na sucessão de Lênin, tinha pretensões bonapartistas. Termidor foi também sempre uma sombra para os bolcheviques, e pretexto para o extermínio de dissidentes em nome da revolução.
Napoleão, o maior filho da Revolução, tinha ideias ambíguas sobre ela. Uma vez, comentou com um amigo que era melhor que Rousseau, o filósofo que ajudou a semear um espírito revolucionário entre os franceses, não tivesse nascido. “Ele ajudou a criar a Revolução”, disse Napoleão. “Mas sem Rousseau”, ponderou seu interlocutor, “você não teria feito o que fez.” “Também não está claro ainda se foi bom para a França que eu tivesse nascido”, respondeu o grande Napoleão.