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quinta-feira, 7 de julho de 2016

Dívida Ativa da União e Sonegação: tubarões, ratos, fantasmas, patos e as formigas


Até julho de 2015, 12.547 empresas brasileiras eram responsáveis por uma dívida tributária de R$723,38 bilhões1. Levando em conta que o país possui cerca de 13 milhões de empresas registradas2, menos de 0,1% delas responderiam por mais de 62% de todo estoque tributário da Dívida Ativa da União (DAU), que fechou o ano passado em R$1,162 trilhão.
Um observador menos atento, ou ingênuo, pode supor que os valores estratosféricos de créditos tributários inscritos na DAU, assim como a sonegação anual estimada em 10% do Produto Interno Bruto (PIB)3 que deve ultrapassar os R$500 bilhões em 2016, conforme indica o painel Sonegômetro, justificam-se pela autodefesa daqueles que dizem não aguentar mais pagar o pato.
Ora, ainda que pareça óbvio concluir quem acaba pagando a conta, vale conhecer, além dos patos, outros seres que compõem a fauna e o imaginário da injustiça fiscal Brasileira.
Tubarões – eles reinam absolutos no topo da cadeia alimentar/tributária, independente do cenário político-econômico. Uns são banqueiros, outros, grandes industriais, latifundiários e rentistas de fino trato. Alguns até se aventuram na política, mas a maioria apenas “investe” em políticos e bancadas de alta liquidez. Quando surgem nos noticiários econômicos, os tubarões costumam ser apresentados como “vítimas” de um sistema que pune a livre iniciativa dos predadores naturais na economia brasileira. Em prantos, denunciam que uma maré vermelha pode leva-los à extinção, e por isso sentem-se pressionados a investir sua insaciável voracidade empreendedora em outros mares. Mas, tão logo recebem benefícios fiscais e refinanciamentos tributários a perder de vista, voltam a proclamar sua paixão pelo Brasil das oportunidades infinitas para peixes grandes e capitalistas selvagens. A carga tributária sobre os rendimentos de um tubarão raramente ultrapassa os 10% ao ano 4, enquanto para um peixe pequeno, semelhante a qualquer cidadão comum, supera os 36% de sua renda anual.
Ratos – o que dizer de seres tão repugnantes, para quem o caos é o melhor dos mundos? Rato que se preze pratica a filosofia do quanto pior, melhor. Outro fato chocante é que, hoje em dia, mesmo os ratos mais asquerosos sequer fazem questão de se esconder. Aliás, a maioria deles anda muito bem vestida, de terno ou tailleur. Especialistas em sobrevivência, topam qualquer negócio para se dar bem, seja nos subterrâneos do crime ou nas altas rodas da política.
Fantasmas – especialistas em paranormalidade definem fantasmas como entidades desencarnadas, habitantes de uma dimensão paralela à nossa, mas que volta e meia nos visitam, deixando rastros enigmáticos que desafiam a percepção existencial dos mais incrédulos materialistas. Senão, como explicar pessoas físicas e jurídicas que ninguém vê, mas que ao mesmo tempo respondem por grandes fortunas, offshores, e até assinam por instituições que transformam a boa fé do povo em dinheiro, sem pagar um centavo de tributos por isso? Avessos a holofotes, fantasmas atravessam paredes e fronteiras com facilidade espantosa. Somente a uns poucos vivos, muito vivos por sinal, é dada a capacidade de interagir e fazer negócios com essas criaturas sinistras.
Patos – belas aves migratórias que às vezes admiramos em bando pelo céu ou em bucólicas lagoas públicas de grandes cidades. Porém, na mesa do brasileiro, o pato é iguaria para poucos. Mesmo no Pará, um pato ao tucupi e tacacá sai os olhos da cara. E nem vale falar no polêmico “foie gras”, que além do preparo cruel e do nó na língua na hora de pedir ao garçom, costuma vir acompanhado de uma conta bastante indigesta. Enfim, pato sai tão caro que até a elite empresarial do país faz campanha nacional gastando milhões, dizendo a plenos pulmões que “não vai pagar”, nem que seja um prosaico pato com laranja. Hum, laranja...
Formigas – ah, as incansáveis formiguinhas! Síntese do cidadão brasileiro, a formiga carrega nas costas o peso da irresponsabilidade fiscal de nossos governantes, da corrupção desenfreada e da sonegação dos ricos e poderosos. Por exemplo, uma formiga operária que ganha até 2 salários mínimos, chega a trabalhar quatro meses só para pagar impostos. Tudo bem que existem formigas com asas, que se acham diferentonas das demais operárias, só porque podem voar (algumas já foram vistas até na Disney). Mas, o ingrato destino pareceignorar a hierarquia do formigueiro. Mesmo as que consomem açúcar refinado, batem panelas e fazem coro com a elite em passeatas, por fim serão engolidas como suas irmãs trabalhadoras, seja por um tamanduá bandeira, por um reles pardal suburbano ou, acidentalmente pisoteadas por um pato desvalido. Francamente, não importa quantos bichos, insetos ou fantasmas surjam nesse enredo absurdo, pois nossa crua realidade supera qualquer fantasia. Por fim, como sempre na história desse país, são os mais pobres e a classe média, bem como a grande maioria de empresários que lutam diuturnamente para sobreviver dentro da legalidade, que pagam a conta da sonegação, da corrupção e da esquizofrenia fiscal no Brasil.
Portanto, nunca é demais refletir sobre as seguintes questões:
1 – O país vive em estagflação (recessão com inflação), com as contas da União deterioradas
2 – O governo que foi reeleito com a promessa de manter os avanços sociais, estranhamente optou por um ajuste fiscal baseado em corte dos já minguados e malfeitos investimentos públicos, no aumento da carga tributária sobre o consumo e na agiotagem institucionalizada, travestida de política monetária, com juros que só beneficiam bancos e rentistas. Nem assim conseguiu se manter. E nem vamos aqui discutir se houve ou não um golpe para o afastamento da presidenta.
3 – Um novo governo, provisório e improvisado, chegou trazendo um plano de salvação nacional denominado “Uma ponte para o futuro”. Até agora, esse projeto não passa de uma carta de intenções vagas, pois não há nenhum detalhamento técnico ou sequer indicações razoáveis de soluções efetivas para a recuperação econômica e o equilíbrio fiscal do país.
4 – Disputas políticas à parte, o fato é que se ao menos 10% dos tributos inscritos na DAU fossem recuperados, não seria necessário o malfadado ajuste fiscal, que na prática se traduz em aumento de impostos e retrocesso econômico.
5 – A reforma tributária, que inadiavelmente deve ser construída em conjunto com a reforma política, é o meio único para que o Brasil encontre seu caminho de nação com Justiça Fiscal. Isso implica em obediência ao princípio constitucional da Capacidade Contributiva, onde quem ganha mais pague mais e quem ganha menos pague menos. A aplicabilidade dessa regulação passa diretamente pela redução de impostos sobre o consumo, que penaliza os mais pobres e a classe média, e pode ser plenamente compensada numa distribuição de custos tributários que de fato alcancem quem deve e tem como pagar mais.
6 - A PGFN, órgão que tem por missão constitucional recuperar todos os créditos tributários e não-tributários inscritos na DAU e que somam mais de R$1,5 trilhão, encontra-se sucateada. E os Procuradores da Fazenda Nacional, advogados públicos concursados, que atuam nessas cobranças judiciais e extrajudiciais, trabalham em número insuficiente de pessoal, com sobrecarga de processos, sem carreira de apoio e utilizando mecanismos de informática ultrapassados.
7 - A despeito de todo esse descaso histórico dos governos, os Procuradores da Fazenda Nacional seguem desenvolvendo o trabalho sério e independente para o qual foram aprovados em concurso público, comprometidos com a recuperação do patrimônio que é do povo brasileiro. Somente nos últimos quatro anos, a ação eficiente dos PFNs resultou na recuperação direta superior a R$76 bi e evitou a perda de R$500 bilhões contra os cofres públicos. Incrível é saber que o próprio governo reconhece que para cada um real investido na PGFN há um retorno de R$800 reais5. Mas, ao que parece, é melhor não incomodar a doce vida dos que vivem no topo da cadeia alimentar tributária.
Enfim, vivemos o pesadelo de um país incapaz de se impor sobre os grandes grupos de poder, que efetivamente ditam os rumos da política e da economia. Se a indignação é o primeiro sinal de alerta para o cidadão, o segundo tem que ser o da informação qualificada, para que o passo seguinte seja uma ação de mudança, de exigir nas ruas, escolas, universidades e nas urnas uma atitude definitiva de reforma tributária e combate à sonegação.
A Campanha Nacional da Justiça Fiscal, criada pelo SINPROFAZ, tem por objetivo de contribuir para a construção de um sistema fiscal e tributário socialmente justo, que seja efetivamente republicano, simplificado, mas tecnicamente viável, que respeite o princípio constitucional da Capacidade Contributiva, combata a sonegação e os privilégios daqueles que sempre se locupletaram das benesses do poder.
Enquanto essa realidade não mudar, somente nós, as formigas, continuaremos pagando a conta de quem deve, não nega e faz questão de dizer que não paga, simplesmente porque não tem nada a temer.
1 Estimativa DAU 2015: http://goo.gl/HUU48j
2 Censo IBPT: https://goo.gl/QKTvYi
3 Estimativa do Desvio da Arrecadação: http://goo.gl/WM6Vlx
4 Carga leve para os ricos: http://goo.gl/wYtLbN

5 PGFN em Números: http://goo.gl/jSXOmV

fonte: http://www.quantocustaobrasil.com.br/artigos/divida-ativa-da-uniao-e-sonegacao-tubaroes-ratos-fantasmas-patos-e-as-formigas

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Sonegação, reforma tributária e a classe média burra

classe_media_juniao
Todo dinheiro que pago de imposto é roubado (no sentido popular da palavra).
Logo, vou aproveitar tudo que puder, legalmente ou não, para não pagar imposto.
Isso tem lado.
E não é o lado dos trabalhadores, que têm o imposto descontado em folha (IR), sem a mínima possibilidade de sonegar (não, ao menos, atualmente, quando o estado investe pesadamente em controles informatizados para vigiar os trabalhadores).
Do outro lado, temos quatro classes:
– os que são nomeados como um dos poderes da República – e seus apêndices, que cotidianamente inventam formas de burlar o imposto, criando os já famosos “penduricalhos”: parcelas que recebem sem desconto de impostos, que eles mesmos classificam como sendo “indenizatórias”;
– corporações de ofício (médicos, advogados, pedreiros, psi’s…), que conseguem estabelecer preços pelos serviços conforme querem;
– os que vivem do narcotráfico, contrabando de armas, “lobbies” políticos, e outras formas criminosas;
– os que vivem das rendas do capital.
Essas quatro classes sonegam.
Ponto.
Tirando a terceira classe, bandida por natureza, todas as demais alegam que seu imposto é roubado e que por isso sonegam.
Há, no entanto, uma outra classe, na verdade uma subdivisão da classe dos trabalhadores, que sonha ou ser um poder ou pertencer a uma corporação de ofício ou virar bandido ou, ainda, cair no conto do “empreendedorismo” e viver de rendas.
É a classe média burra.
Burra porque ainda não descobriu que só existem duas formas de ficar rico: herdando ou sonegando.(ganhar na mega sena sozinho não faz de ninguém um rico)
E burra porque defendem um sistema que quer privilegiar as quatro classes de sonegadores, pensando que com isso tenham chances de serem “admitidos” em uma delas.
E gastam o latim contra um governo que – apesar de tudo – ainda é prioritariamente a favor dos trabalhadores e daqueles que sequer renda possuem. Que dirá terem algo para sonegar.
O que precisamos é de uma reforma tributária que faça incidir sobre os potenciais sonegadores (as quatro classes – bem, ao menos três) instrumentos que não lhes permitam sonegar.
Não por outra razão a CPMF é tão combatida. E deveria ser o único imposto existente, com alíquota de 50% (a logística de implantação fica a cargo dos gênios acadêmicos de economia).
Mexeu em dinheiro? Paga! Foi no super? Paga! Teve lucro? Paga! Tirou o salário do bano para usar em espécie? Paga! Comprou insumos para fabricar produtos? Paga! Prestou serviço? Paga!
O imposto único atinge as cinco classes indiscriminadamente.
Inclusive a classe média burra!
no: http://www.escosteguy.net/?p=5013

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Milhão de corrupto é manchete que esconde Bilhão de sonegador


POR FERNANDO BRITO

Pouquíssimo destaque teve na mídia e muita distorção no que foi noticiado sobre a divulgação dos maiores devedores de impostos federais, ontem, um gesto do Ministro da Fazenda, tantas vezes criticado aqui, que merece aplausos entusiasmados.
Na Folha, nada no impresso e agora à tarde, uma materinha. No Estadão, outra matéria mixuruca. No Valor, uma restrita aos assinantes.
Os débitos inscritos na dívida ativa – isto é, apenas os que já passaram por todas as fases de contestação administrativa, e não incluem as centenas de bilhões de reais discutidas nos Carf, os conselhos administrativos colocados sob suspeita na Operação Zelotes – e não confessados e parcelados , suspensos judicialmente ou cobertos por garantias legais, somam R$ 228.978.531.085,02. R$ 229 bilhões de reais, para falar em um número que possamos entender, embora, meros mortais, nem sejamos capazes de imaginar o que seja.
Repito, sem contar o que se parcelou e sem os R$ 60 bilhões suspensos na Justiça ou com garantias dadas. Ou dívidas gigantes, como os famosos R 18,6 bilhões do Itaú, que ainda não tiveram vencidos os recursos administrativos.
Isso representa 4,5% do Produto Interno Bruto brasileiro e, se pago em oito anos, mesmo sem juros, seriam capazes de, sozinhos, assegurarem mais do que 0,5% de superávit primário, até o ano de 2024.
Como o superávit primário é o grande e maior valor proclamado pelos nossos homens do capital e seus porta-vozes midiáticos, exigir o pagamento desta bolada deveria ser uma causa daquelas capaz de deixar a Lava-Jato com estatura de recolhimento de trocados.
Mas não é.
Ao contrário, estabelecem uma confusão entre quem deve e se recusa a pagar e aqueles que aceitaram a cobrança e a estão pagando. O que é, afinal, o que se deseja.
Assim, os jornais dão destaque às dividas da Vale (R$ 42 bilhões) e da Petrobras (R$ 15,6 bilhões).
A Vale tem parte da dívida (R$ 32 bi)sendo discutida judicialmente – o que é seu direito – e o restante parcelado ou com bens e receitas dados em garantia. A Petrobras parcelou integralmente seus débitos e os vem pagando.
Misturar tudo num saco só é proteger quem sequer reconhece seus débitos ou – como deve fazer quem acha que não deve – os contesta na Justiça.
Mas é muito curioso que boa parte das grandes empresas listadas como devedores – por exemplo, o Bradesco, com débitos não contestados de R$ 3,43 bilhões – publiquem, a cada trimestre, lucros equivalentes ao que negam ao Fisco.
É preciso urgentemente mudar a estutrura de funcionamento da Receita e dos ritos de cobrança dos impostos, que não podem ficar para as calendas gregas, como não ficam para os microcontribuintes como eu ou você.
Há um mês, mostrou-se aqui a reação dos grandes devedores à divulgação, como é dever do serviço público, da condição de devedores.
E o absurdo que é manter uma máquina fiscal caríssima para recolher migalhas fiscais, enquanto o grosso escapa na eternização das cobranças.
[Em 2014] R$ 144 bilhões lançados [em autuações] sobre 14.298 pessoas jurídicas. E R$ 7 bilhões lançados sobre 351.534 pessoas físicas. E olhem que destes R$ 7 bilhões, quase um terço (R$ 2,1 bi) foram sobre proprietários ou dirigentes de empresas, que deixaram de pagar sobre, principalmente, venda ou permuta de ações ou cotas de participação societária.
A sonegação – repito, a que é detectada e objeto de autuação fiscal – atinge estes valores monstruosos, mas não chama a atenção de nossa imprensa, que sai em defesa do “contribuinte”, usando a multidão de pessoas que, por erro ou desencontro numa despesa médica irrisória cai na “malha fina” como colchão para a grossa fuga de impostos que não está, de forma alguma, no pequeno contribuinte.
Quem quiser entender porque fazem tamanha onda com a CPMF, que não dá, por ano, 10% do que se sonega, tem aí uma boa pista para compreender.
http://analisedeconjuntura.blogspot.com.br/2015/10/milhao-de-corrupto-e-manchete-que.html

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O Sonegômetro e o Clube do Trilhão

O Brasil solidificou ao longo de décadas uma política fiscal insana, onde os mais pobres pagam a conta da sonegação, da corrupção e da ineficiência administrativa. Pior ainda é saber que os responsáveis por uma das maiores dívidas tributárias do mundo são exatamente os que menos temem ser cobrados. São os afortunados sócios do Clube do Trilhão.
O amargo ajuste fiscal, propagado como único remédio para tirar o Brasil da crise, tem uma lógica tão simples quanto perversa: 1- aumentar impostos sobre o consumo, fazendo os pobres e a classe média gastarem mais e consumirem menos; 2 – subir a taxa de juros para controlar a inflação, multiplicando ainda mais o lucro de bancos e rentistas; 3 – cortar o orçamento de políticas públicas essenciais: saúde, educação, segurança, infraestrutura... A velha receita tecnocrata, sem o menor compromisso com o bem-estar social.
No entanto, os oráculos que defendem a tese da pimenta no olho do povo sequer mencionam a importância do combate à sonegação e muito menos cogitam sobre a execução fiscal de grandes devedores inscritos na Dívida Ativa da União (DAU) como essenciais para a recuperação econômica do país.
No caso da sonegação, denunciada pelo painel Sonegômetro, estamos falando de mais de 10% do Produto Interno Bruto brasileiro que vai pelo ralo, sendo que 80% desse valor passa por sofisticados sistemas de lavagem de dinheiro.
Não bastasse a tunga estratosférica dos sonegadores, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional consolidou no mês de julho mais de R$1,162 trilhão em débitos tributários inscritos na DAU. Você não leu errado, caro leitor. Isso representa mais de 8 mil vezes o prejuízo do Mensalão1, mais 580 vezes o que foi revelado pela operação Lava Jato e mais de 60 vezes o que se descobriu da operação Zelotes2.
Entre os membros desse verdadeiro Clube do Trilhão destacam-se 12.547 empresas que atuam nos mais influentes segmentos da economia: indústria, comércio, finanças, agronegócio, construção, entre outros. Elas representam menos de 1% das empresas do país, mas devem atualmente R$723,38 bilhões em tributos, equivalente a 62% de todo estoque tributário da Dívida Ativa da União. Cabe aqui ressaltar que não foram incluídos nesta conta os débitos previdenciários e do FGTS. Além disso, a estimativa é que a DAU ultrapasse 1,5 trilhão até o final do ano4.
Muitas são as razões que podem levar uma pessoa física ou jurídica à inadimplência tributária. E é muito importante distinguir o inadimplente do sonegador. No entanto, principalmente entre as organizações mais poderosas, é comum a irônica prática de se declarar o tributo sem a menor intenção de pagá-lo. As empresas que assim o fazem, ganham um tempo precioso até para decidirem se vão ou não pagar os impostos declarados. E, quando pagam, o fazem quase sempre em condições bastante favoráveis.
Não é de hoje que o país se transformou num paraíso para quem sonega, registra empresas de fachada, lava dinheiro e comete toda espécie de crimes contra o sistema tributário. Anualmente, cerca de 10% do PIB são sonegados e o governo parece não se importar nem um pouco em fortalecer os instrumentos de combate à sonegação.Afinal, o que são os mais de R$500 bi que o Sonegômetro registrou em 2014?5 Com toda certeza, se a vida não fosse tão fácil para os sonegadores no Brasil, não seria tão difícil para os demais brasileiros.
Conheça os maiores devedores de tributos por segmento econômico
Veja abaixo os débitos tributários inscritos na Dívida Ativa da União, consolidados até julho, divididos por segmento produtivo, através da CNAE (Classificação Nacional das Atividades Econômicas):
Ano/Mês da Extração - 07/2015
Valor Consolidado da Inscrição
CNAE SeçãoGrande DevedorNão Grande DevedorTotal Geral
Indústrias de transformação236.562.585.558,9079.151.533.651,19315.714.119.210,09
Comércio; reparação de veículos automotores e motocicletas163.587.790.229,58115.250.011.358,47278.837.801.588,05
Não se aplica*35.322.330.385,1171.970.192.757,15107.292.523.142,26
Atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados89.397.306.058,587.335.137.739,7196.732.443.798,29
Transporte, armazenagem e correio36.470.363.192,5920.345.218.888,3456.815.582.080,93
Atividades administrativas e serviços complementares28.757.039.708,1722.666.744.489,3551.423.784.197,52
Construção21.493.157.945,1827.548.963.152,2049.042.121.097,38
Indústrias extrativas44.140.827.578,961.646.213.870,6245.787.041.449,58
Atividades profissionais, científicas e técnicas16.728.281.546,9812.414.085.499,0929.142.367.046,07
Agricultura, pecuária, prod. florestal, pesca e aqüicultura13.689.815.412,525.628.119.096,3219.317.934.508,84
Informação e comunicação10.854.523.735,097.134.569.353,8317.989.093.088,92
Atividades imobiliárias12.721.871.772,893.114.688.865,3015.836.560.638,19
Sem informação9.380.115.763,145.014.626.931,7514.394.742.694,89
Educação10.502.817.081,313.742.528.959,1114.245.346.040,42
Saúde humana e serviços sociais4.131.430.233,116.424.377.490,6510.555.807.723,76
Eletricidade e gás8.273.684.590,84373.610.696,188.647.295.287,02
Outras atividades de serviços4.036.356.047,763.857.841.695,127.894.197.742,88
Alojamento e alimentação2.218.214.581,005.323.452.838,037.541.667.419,03
Artes, cultura, esporte e recreação3.353.417.004,511.991.111.063,195.344.528.067,70
Administração pública, defesa e seguridade social3.689.165.767,641.475.134.659,585.164.300.427,22
Água, esgoto, ativ. de gestão de resíduos e descontaminação3.396.981.133,431.034.397.641,274.431.378.774,70
Organismos internac. e outras instituições extraterritoriais18.439.805,6318.439.805,63
Serviços domésticos14.537.600,0114.537.600,01
Total Geral758.708.075.327,29403.475.538.102,091.162.183.613.429,38
*Pessoa Física
Fonte: PGFN
Veja a classificação dos devedores por Unidade da Federação
A divisão geográfica do gigantesco bolo dos débitos tributários inscritos na Dívida Ativa da União também pode ser observada na tabela abaixo:
Ano/Mês da Extração - 07/2015
Sigla UFGrande DevedorNão Grande DevedorTotal Geral
SP339.919.152.528,89144.785.723.854,86484.704.876.383,75
RJ158.760.202.070,9438.959.150.653,46197.719.352.724,40
MG34.631.033.084,2630.849.302.390,5665.480.335.474,82
RS26.455.696.689,1427.753.860.683,6754.209.557.372,81
PR27.361.537.598,1823.839.281.660,4251.200.819.258,60
BA20.095.375.010,3317.500.031.168,5737.595.406.178,90
PE21.440.674.255,1312.929.679.591,0034.370.353.846,13
SC15.525.110.701,3215.264.296.035,6630.789.406.736,98
GO15.484.428.275,3311.461.754.734,6226.946.183.009,95
ES15.593.986.153,136.760.962.715,7622.354.948.868,89
CE11.901.930.777,579.871.348.267,7521.773.279.045,32
PA12.086.482.142,638.683.013.828,7720.769.495.971,40
DF12.397.721.349,577.664.799.642,2320.062.520.991,80
MT9.081.441.453,596.665.679.484,3615.747.120.937,95
AM9.555.782.995,365.052.689.644,2114.608.472.639,57
MS3.454.976.537,145.798.870.408,669.253.846.945,80
MA4.112.562.443,534.433.312.633,318.545.875.076,84
AL4.617.456.094,293.666.712.341,258.284.168.435,54
PB2.797.691.912,374.445.185.987,337.242.877.899,70
RN2.840.641.139,064.122.749.690,946.963.390.830,00
RO2.526.866.003,443.009.586.640,545.536.452.643,98
PI1.976.983.098,152.424.749.163,284.401.732.261,43
SE1.776.682.323,472.604.361.601,724.381.043.925,19
TO2.165.105.643,331.972.915.050,644.138.020.693,97
AP725.026.315,721.186.676.336,721.911.702.652,44
RR569.012.798,081.068.910.381,471.637.923.179,55
AC854.515.933,34699.933.510,331.554.449.443,67
Total Geral758.708.075.327,29403.475.538.102,091.162.183.613.429,38
Fonte: PGFN
As condições especiais oferecidas aos que atrasam ou se negam a pagar impostos no Brasil são exemplo de que a indulgência do governo não tem limites. Em vez de investir na eficiência da execução fiscal, o Estado brasileiro premia seus devedores com pacotes de refinanciamentos, perdões de multas, de juros e, não raramente, com a extinção total dos débitos em decorrência da prescrição dos prazos processuais. Agora o governo acena com mais uma promoção imperdível para quem possui dinheiro no exterior “não declarado” e deseja trazê-lo de volta ao Brasil: basta pagar 35% de impostos para se livrar de qualquer multa ou processos6. É a verdadeira lavagem de dinheiro institucionalizada, travestida de mal menor.

Esquizofrenia Fiscal

O que garante essa doce vida para os sonegadores? O sucateamento da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional – PGFN e o descaso com a carreira de Procurador da Fazenda Nacional, que têm por missão Constitucional recuperar judicialmente os tributos devidos e não pagos por pessoas físicas e jurídicas.
Ora, estamos diante de uma situação no mínimo incoerente, para não dizer esquizofrênica. De um lado, vemos o Poder Executivo alardear que precisa cortar R$ 80 bilhões do orçamento7, aumentar impostos8 e ainda pedalar para cumprir um superávit primário (economia para o pagamento de juros da dívida pública) de R$ 8,7 bi, ou 0,15 % do PIB (Produto Interno Bruto)9. Por outro lado, esse mesmo governo sabe muito bem quem são os maiores devedores de tributos, tem os instrumentos legais (e justos) para acionar judicialmente esses maus pagadores, mas estranhamente mantem sucateada sua estrutura de cobrança judicial.
E já que estamos falando em justiça, devemos reconhecer que essa postura complacente, principalmente quando o devedor de impostos pertence à elite, tem sido uma triste regra em toda a história do Brasil, desde os tempos imperiais. Mas, nem por isso devemos nos acomodar e deixar de responsabilizar os que agora ocupam o poder. É preciso mudar.
Fato é que nunca teremos um sistema tributário justo, nunca veremos uma administração pública voltada efetivamente para os interesses da nação, enquanto houver sonegadores e corruptos blindados por esquemas de corrupção, apadrinhamento político, sem falar na rasa mediocridade de gestores públicos acomodados e incompetentes. Afinal, não é por mera coincidência que endinheirados devedores de impostos estejam entre os maiores doadores de campanhas políticas.
É verdade que o Brasil não tem a maior carga tributária do mundo. Mas, com certeza, tem uma das mais injustas, pois sobretaxa excessivamente o consumo em detrimento da renda, fazendo com que os mais pobres sintam muito mais o peso dos impostos no dia a dia.
O setor produtivo, em sua grande maioria formado por empreendedores sérios, que lutam para manter seus negócios de pé, também sofre, e muito. Não é nada fácil para qualquer empresa competir contra um concorrente que compra e vede sem nota, ou que simplesmente declara mas não paga impostos.
Do lado governamental, o mínimo que se espera de qualquer administração pública é a responsabilidade fiscal de uma gestão. Não há democracia sem respeito às leis, sem controle de gastos de acordo com a receita, sem segurança jurídica de contratos, transparência na aplicação dos recursos arrecadados e, por fim, sem compromisso com o bem público. Portanto, não há democracia que sobreviva sem combater exemplarmente a corrupção e a sonegação.
Nesse triste momento de crise política e econômica, de corte em investimentos, aumento juros, desemprego e redução do poder de compra do brasileiro, fica a pergunta: será esse o ajuste fiscal que o país precisa?
Mesmo diante dessa realidade insustentável, o próprio governo reconhece, de acordo com o relatório PGFN em Números, que somente em 2014 os PFNs conseguiram impedir a perda de R$500 bi aos cofres públicos do país, evitando uma sangria tributária que poderia ser bem maior. E mais: “Quando se acrescem à arrecadação da Dívida Ativa da União os valores das vitórias judiciais e extrajudiciais da PGFN, que refletem a manutenção do fluxo de arrecadação a União, observa-se que a atuação da PGFN resultou em um retorno de mais de R$800,00 para cada R$1,00 (1 real) de despesa realizada em razão de suas atividades”.10
Nunca é demais esclarecer, quando uma empresa é autuada pela fiscalização da Receita, ou quando um bandido travestido de empresário é preso pela Polícia Federal, o dinheiro desviado, sonegado, lavado, que pode estar no Brasil ou em bancos de paraísos fiscais somente será recuperado aos cofres públicos pela ação judicial de um Procurador da Fazenda Nacional (PFN), cuja carreira encontra-se sabotada pelo próprio governo. A troco de quê?

Quem são os PFNs

Os Procuradores da Fazenda Nacional (PFNs) são advogados públicos, concursados, especialistas em direito tributário. Têm por missão constitucional garantir a isonomia entre o devedor e o cidadão que paga seus tributos, através da cobrança dos créditos da União, sempre em defesa do patrimônio da sociedade, não de governos ou governantes.
A carreira, no entanto, encontra-se sucateada e sobrecarregada, com sistemas informatizados inoperantes, acúmulo de processos, quadro insuficiente de procuradores, sem carreira de apoio e com remuneração defasada em comparação com da Defensoria, Judiciário e Ministério Público.
Sempre que o Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional - SINPROFAZ - tem a possibilidade de levar o painel Sonegômetro às ruas, leva também toda uma campanha de educação fiscal e de conscientização tributária, sem nenhuma conotação político-partidária. Enfim, para além do protesto, ressalta-se o debate pela simplificação do sistema tributário e o fortalecimento das estruturas de combate à sonegação e à corrupção. Por um Brasil com Justiça Fiscal.
1 Mensalão: http://zip.net/bnrJ3d
2 Lava Jato e Zelotes: http://zip.net/bsq2HB
3 Censo IBPT: https://goo.gl/QKTvYi
4 Estimativa DAU 2015: http://goo.gl/HUU48j
5 Sonegação em 2014: http://goo.gl/WM6Vlx
6 Projeto para repatriar dinheiro ilegal: http://goo.gl/03g8xF
7 Corte de 80 bi: http://goo.gl/hNeZfs
8 Aumento de impostos: http://goo.gl/hTWmoS
9 Superávit: http://goo.gl/hijLJl
10 PGFN em Números: http://goo.gl/jSXOmV