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segunda-feira, 25 de maio de 2020

BOZO VAI CAINDO COM LENTIDÃO EXASPERANTE, MAS NÃO SE ILUDAM: ELE JÁ É UM EX-PRESIDENTE USANDO A FAIXA

 

vinícius mota
DEVAGAR, A DEMOCRACIA
 EXTRAI O TUMOR AUTORITÁRIO
Diante da pornografia em que se converteu o exercício do poder presidencial sob Jair Bolsonaro, o que na pandemia custa vidas e empregos, dá para entender a ansiedade de quem preza a democracia e o bom governo pela solução rápida do impasse. Mas ela dificilmente virá.

Não deve vir porque uma das características das democracias é a prevalência da forma sobre a vontade.

Esse mecanismo é o mesmo que dificulta a intromissão do presidente da República nos órgãos policiais do Estado, impede a ministra rompedora dos Direitos Humanos de prender governadores e prefeitos e evita que o desmatador do Meio Ambiente vá passando a boiada por cima das regulamentações antimotosserra.

A pauta de fato da reunião de 22 de abril na sede da Presidência era imprecar contra esse sistema. Ali uma súcia de sádicos reprimidos sonhou acordada com adversários esmagados, sujos de excrementos e acometidos de dores lancinantes. O que as instituições vedam ao grupo foi por ele verbalizado no drama psicótico.
Autoritários são assim. Odeiam o que embota os seus desejos imediatos. Tomam atalhos para contornar a norma e jamais dispensam a força em benefício próprio. Que morra depressa quem tiver de morrer com o vírus para eu tocar o barco da economia. Que vão para a cadeia os juízes que me importunam. Que se evaporem o delegado que investiga minha família e o fiscal que me multou.

Democratas são feitos de outro tecido. Não admitem fulminar a cartilagem que os protege do despotismo nem quando ela também contribui, no presente, para postergar a depuração do regime das liberdades. Formam o partido da paciência cívica.

Daí vem a nota otimista destes dias. Quem cabeceia na fossa obscura dos apetites e das alucinações perdeu a perspectiva do tempo. Trava uma batalha de vida ou morte a cada minuto. Comemora não ter sido atingido pela bala de prata, mas não enxerga que afundou mais um pouco nem que a derrocada continua.

A democracia, com vagar sacramental, empurra o tumor para fora. (por Vinicius Mota)


segunda-feira, 6 de março de 2017

GRITAR "FORA, TEMER" GARANTE APLAUSOS, MAS A APOSTA REALISTA É "DENTRO, TEMER"

Por Vinícius Mota

GOVERNO TEMER É GERINGONÇA DIFÍCIL DE DERRUBAR
A ansiedade que antecede a divulgação da nova lista de investigados ilustres do procurador Janot agita a República. A torcida ao redor dos defenestrados pelo impeachment aproveita a oportunidade e amplia o coro Fora, Temer.

Os profissionais da política, contudo, já entenderam a natureza do jogo. A Lava Jato tem baixa probabilidade de dissolver, até o pleito de outubro do ano que vem, o amálgama deste governo de transição.

O foro privilegiado garante uma longa sobrevida aos implicados. Em março de 2015, a primeira lista de Janot foi divulgada pelo Supremo com dezenas de investigados. Dois anos depois, nada de notável aconteceu na corte, a não ser a abertura de processo contra Eduardo Cunha.
Qual o nome deste quadro? "A fantasia guiando os ingênuos"?

Apenas uma feitiçaria do STF, difícil de acontecer, poderia remeter muitos desses inquéritos para a primeira instância federal, que tem se mostrado mais célere.

Resta o julgamento das contas da chapa Dilma-Temer pelo tribunal eleitoral. Prazos regimentais, nomeações de novos juízes pelo presidente da República e o leque de recursos da defesa, que pode fazer o caso chegar até o Supremo, alongam no horizonte a definição desse litígio.

A solução da Carta na hipótese de cassação de Temer, um pleito indireto para mandato tampão, torna-se tanto mais insólita quanto mais se aproxima a eleição direta regular. Os juízes levarão isso em conta ao decidir o processo eleitoral.

A tecnologia para lidar com impactos políticos da Lava Jato está desenvolvida. O Congresso e sua maioria de centro-direita governam através de Temer. Um ministro que cai é logo trocado por outro indicado pelo Legislativo. Se a geringonça funcionar, o vencedor em 18 não precisará adotar medidas tão duras na economia.
Por isso presidenciáveis profissionais, como Lula, não contam com a queda de Temer. Tampouco desgostam de que ele carregue o peso das reformas ingratas.

Obs.: enquanto a esquerda desperdiça tempo precioso num desabafo que não levará a lugar nenhum, deixa de fazer a lição de casa, qual seja a apuração dos erros crassos que conduziram à vexatória derrota de 2016, a rigorosa autocrítica dos responsáveis (seguida, possivelmente, do seu afastamento) e a definição de novas estratégias e táticas, para substituírem as que fracassaram tão rotundamente na prática. 

Nós continuamos patinando sem sair do lugar, mas os fascistas, não. Eles se articulam e suas fileiras crescem a cada dia. É cada vez maior a possibilidade de uma vitória dos Bolsonaros e Caiados na eleição de 2018. E, com essa esquerda que está aí, nem de longe conseguiremos fazer frente a um fascismo com embasamento social, como o que se prenuncia. Ou acordamos depressa de nossa letargia ou seremos futuramente engolidos. A contagem regressiva está em curso. 
(Celso Lungaretti) 
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/03/gritar-fora-temer-garante-aplausos-mas.html