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domingo, 18 de outubro de 2015

Médicos, doutores e seres humanos


O Brasil mudou muito.

Em certas áreas, para pior.

A saúde, por exemplo - mas não a saúde pública, o SUS, esse excepcional instrumento de proteção à vida e à dignidade humanas.

Estou falando dos médicos, esses profissionais que atuam na defesa do nosso mais valioso patrimônio, o nosso corpo.

Nestes últimos dias, por causa de uma crise extremamente dolorosa de ciatalgia, fui a quatro profissionais diferentes: três, possivelmente, clínicos gerais, pois me atenderam num posto de pronto socorro da Unimed-Amparo, e um ortopedista.

Antes dessa experiência, ainda em São Paulo, por causa do mesmo problema, me consultei com dois outros ortopedistas, e, no ano passado, com outro clínico geral do Posto de Pronto Atendimento da Unimed-Amparo, e uma médica do pronto socorro do hospital de Serra Negra.

Então, vejamos: em um período de cinco anos, mais ou menos, passei por oito médicos diferentes por causa de uma ciatalgia.

O extraordinário é que nenhum desses oito profissionais, de idades, formação e, presumo, experiências variadas, sequer me fez perguntas sobre como é a minha vida, atividades rotineiras, sobre há quanto tempo tinha as dores, sobre os medicamentos que tomo, sobre meus outros problemas de saúde. 

Sequer mediram a minha pressão.

Sequer apertaram a minha mão.

Sequer fizeram um exame, superficial que fosse, nas minhas costas, na minha coluna, em qualquer parte de meu corpo.

As consultas, em média, duraram uns 5 minutos.

Agiram como se fossem autômatos, robôs, androides, seres sem alma ou emoções.

Numa das vezes, o médico parecia mais preocupado em criticar o governo do PT:

- Sonhou com a Dilma? - perguntou em tom de galhofa, ao ver a minha cara de sofrimento.

Desta última vez nenhum dos quatro médicos com os quais me consultei conseguiu aliviar a dor que sentia.

Creio, sinceramente, que ainda existam médicos neste país.

E quando digo médicos, não quero me referir a profissionais titulados, professores eméritos com cursos no exterior, que cobram R$ 1 mil a consulta, e a quem as pessoas recorrem na esperança de se livrar, como por milagre, de suas mazelas físicas ou psicológicas.

Quero simplesmente falar daqueles que olham seus pacientes como seres humanos fragilizados, mas esperançosos, gente que sairia do consultório muito mais feliz se sentisse que passou alguns minutos com alguém que se importa com o seu bem-estar do que com um pedido de exames na mão.

A esses médicos de verdade que ainda restam, as minhas sinceras saudações.

A esses outros, que se fantasiam de "doutores", desejo vida próspera e que nunca tenham de se consultar com alguém igual a eles.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/10/medicos-doutores-e-seres-humanos.html

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Associação mostra que aqui médico de plano ganha menos que cubanos. E ninguém vaia!


Fernando Brito, Tijolaço 

"Você lembram do episódio das vaias de um grupo de jovens médicos cearenses aos  cubanos que chegavam a Fortaleza, em 2013, para o “Mais Médicos”?

Por ironia, acabei hoje caindo numa página, não datada, da Associação Médica Cearenseque denunciava as condições aviltante com que os planos de saúde remuneravam seus médicos conveniados, escrito pelo  Dr. Antonio Celso Nunes Nassif.

Lá, como você pode conferir, o médico – com consultório particular e as despesas correspondentes a ele – recebia R$ 42  reais por consulta, segundo a tabela então vigente de Classificação Brasileira de Hierarquização de Procedimentos Médicos (CBHPM) e fazia o cálculo de quanto ele ganharia se tivesse 170 pacientes “novos” por mês – ” reconsulta no mesmo mês não remunera”, segundo o site da AMC – ninguém faltasse e não houvesse um horário vago, daria quatro horas de “expediente” no consultório. Sem férias, feriados, etc…


Com isso, o médico – depois das despesas de consultório, recepcionista, telefone, limpeza, etc – e antes do Imposto de Renda – ficava com uma renda de  R$ 2.220,77.

Apliquei os índices atuais da CBHPM, recém-atualizada, que fixa a consulta simples (código 10101012) em um valor de R$ 63, o que muitas das operadoras de planos não pagam ainda, aliás. Em 2012,  um diretor do Sindicato dos Médicos da rica São Paulo dizia que “”tem planos que pagam R$ 12 por consulta”.

Mas vamos pela melhor hipótese e apliquemos o aumento de 50% no valor da CBHPM.

Aplicando este fator de reajuste para receitas e despesas, a renda daquele médico  – nos mesmos critérios do Dr. Nassif –  será R$ 3.331,15.

Mas o médico cubano não foi chamado de “escravo” com um salário de R$ 3.000, mais alimentação, moradia, férias, passagens e ainda mantendo seu salário que recebia em seu país?

É, de fato, muito pouco, mas é, na prática, mais que o pago médico brasileiro descrito pelo Dr. Nassif em seu artigo, do qual não tenho porque duvidar.
Tanto não duvido que é cada vez mais difícil encontrar médicos que atendam em consultório pelos planos de saúde, sobretudo os mais modestos e a qualidade do atendimento aos segurados esteja caindo vertiginosamente.

Mas os médicos mais jovens, que não tem grande clientela formada, têm que aderir aos planos para ter pacientes ou se submeterem a clímicas que não lhes pagam mais que estes valores.

Mas, curiosamente, não há uma grita generalizada da mídia contra isso.
Muito menos se faz manifestações para chamá-los de “escravos”.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

31 julho 2013 “Pobre estudar medicina é afronta para a elite”, diz médico formado em Cuba



Estudo do Ministério da Educação (MEC) aponta que 88% dos matriculados em universidades públicas de medicina estudaram em escolas particulares no ensino fundamental e médio. Para Andréia Campigotto, médica brasileira formada em Cuba, as universidades brasileiras precisam formar médicos com "um novo perfil, realmente voltados para atender o povo, para se fixar nos locais de difícil acesso, não só nos grandes centros como hoje."

José Coutinho Júnior, da página do MST / Carta Maior


A elitização do ensino de medicina no Brasil é um obstáculo para jovens de baixa renda entrarem nas universidade e se formarem. Já os problemas nas provas de revalidação do diploma dificultam o exercício da profissão em território nacional pelos brasileiros que conseguiram se formar no exterior.

“Quem estuda medicina no nosso país são os filhos das elites, em sua maioria. É uma afronta para a elite um negro, um pobre, um trabalhador rural, filho de Sem Terra estudar medicina na faculdade, principalmente pelo status conferido por essa profissão”, afirma Augusto César, médico brasileiro formado em Cuba e militante do MST.

Estudo do Ministério da Educação (MEC) aponta que 88% dos matriculados em universidades públicas de medicina estudaram em escolas particulares no ensino fundamental e médio. Os programas do governo de acesso à universidade, como o Programa Universidade para Todos (ProUni), ampliaram o acesso, mas ainda não conseguiram universalizar e democratizar a educação.

“A maioria das pessoas que entram na universidade pública para cursar medicina tem dinheiro para fazer um bom cursinho ou estudou o tempo todo numa escola particular. Claro que há exceções, mas o ensino de medicina do nosso país é altamente elitizado”, acredita Augusto.

“A maior parte das pessoas que tem acesso às escolas de medicina são de classe média e classe média alta. Um pobre numa universidade particular não consegue se sustentar pelo alto preço das mensalidades. Sem contar que hoje temos mais universidades privadas do que públicas na área da saúde, dificultando ainda mais o acesso”, diz a médica formada em Cuba Andréia Campigotto, que também é militante do MST.

Revalidação

A necessidade dos médicos brasileiros formados no exterior e estrangeiros passarem por uma prova para verificar se estão capacitados a exercer a profissão é um tema frequentemente pautado pela comunidade médica brasileira.

Independentemente do curso, todos os estudantes brasileiros que realizam um curso fora do país precisam passar por uma revalidação do diploma. No entanto, há falhas nesse processo no caso da medicina.

Um dos principais problemas é que não existe um padrão para o conteúdo dessas provas. Cada universidade federal pode abrir sua prova de reconhecimento de títulos no exterior. Com isso, o conteúdo não é uniforme.

Além disso, o custo dessas avaliações é alto. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) cobra uma taxa de inscrição de R$1.172,20. Outras universidades pelo país têm preços similares.

Preconceito

“As provas são injustas, porque têm um nível de médicos especialistas, e não de 'generalistas', que é o que somos após nos graduar. Isso causa uma desaprovação considerável dos estudantes que vem de fora”, acredita Andréia.

“O que a categoria médica não divulga é que 50% dos estudantes da USP reprovaram na prova feita pelo Conselho de Medicina de São Paulo. Foi uma prova para médico generalista, muito mais fácil que a de revalidação”, revela.

Para Andréia, há um “grande preconceito” por parte dos profissionais brasileiros em relação aos médicos formados em outros países, o que cria um entrave para a revalidação dos diplomas.

“Seria justo se os profissionais que se formam no Brasil fizessem as mesmas provas que nós, para ver se realmente se comprova uma suposta má formação de nossa parte, bem como discursa a categoria médica brasileira”, observa.

Os dois médicos defendem a realização de uma avaliação dos conhecimentos dos profissionais graduados no exterior, mas destacam que as provas atuais não cumprem esse papel, porque não são aplicados testes adequados para auferir o conhecimento.

“As provas teóricas e práticas atuais não levam em conta as complexidades. Seria muito melhor colocar esse médico para trabalhar sob um tutor e, a partir daí, se instaurar uma avaliação rigorosa e permanente. Mas isso não tem sido pensado”, pontua Augusto.

Formação

A concepção de medicina ensinada nas universidades impede também que os estudantes vejam a luta pela saúde além do tratamento de doenças.

“Nas universidades de medicina, só se vê doença. Não se fala em saúde. Como você pode lutar pela saúde se só vê doenças? Também é saúde lutar pelo direito à cidade e por um sistema público de saúde de qualidade”, destaca Augusto.

De acordo com o militante, a concepção de saúde deve ultrapassar uma formação técnica. “O médico deve exercer a medicina a favor da construção de um país mais saudável, sem esperar que as pessoas ou uma comunidade adoeça para depois intervir sobre ela, pois é o modo de vida que vivemos que gera as doenças do país”, defende.

Andréia quer se tornar professora de medicina para colaborar para a mudança da forma de ensinar das universidades. Ela se classificou na primeira fase do concurso para lecionar na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

Segundo ela, o campo da educação deve ser ocupado por aqueles que querem democratizar a educação. “Precisamos formar profissionais com um novo perfil, realmente voltados para atender o povo, para se fixar nos locais de difícil acesso, não só nos grandes centros como hoje. É um campo interessante de atuação”.

sábado, 13 de julho de 2013

O médico e sua ética



Mauro Santayana, JB online

“Em 1956, conheci, na cidade do Serro, em Minas, o médico Antonio Tolentino, que era o profissional mais idoso ainda em atividade no Brasil. Ele chamava a atenção por dois motivos: coubera-lhe assistir ao parto de Juscelino, em 1902, e não alterara o valor da consulta, que equivalia,  então, a cinco cruzeiros. Entrevistei-o, então, para a Revista Alterosa, editada em Minas e já desaparecida.
Em razão da matéria, o deputado federal Vasconcelos Costa obteve, da Câmara, uma pensão vitalícia da União para o médico, que morreu logo depois. Ele tinha, na época, 94 anos – e setenta de atividade. Seus descendentes criaram um museu, em sua casa e consultório. Uma das peças é o anúncio que fez, logo no início da carreira: “aos pobres, não cobramos a consulta”.

Confesso o meu constrangimento. Estou em  idade em que dependo, e a cada dia mais, de médicos, e de bons médicos, é claro. Tenho, entre eles, bons e velhos amigos. O que me consola é que os meus amigos estão mais próximos da filosofia de vida do médico Antonio Tolentino, do que dos que saíram em passeata, em nome de seus direitos, digamos, humanos. 
Mais do que outros profissionais, os médicos lidam com o único e absoluto bem dos seres, que é a vida. Os enfermos a eles levam as suas dores e a sua esperança. É da razão comum que eles estejam onde se encontram os pacientes – e não que eles tenham que viver onde os  médicos prefiram estar. 
De todos os que trataram do assunto, a opinião que me pareceu mais justa foi a de Adib Jatene. Um dos profissionais mais respeitados do Brasil, Jatene acresce à sua autoridade o fato de ter sido, por duas vezes, Ministro da Saúde. Ele está preocupado, acima de tudo, com a qualidade do ensino médico no Brasil. Se houvesse para os médicos exames de avaliação, como o dos bacharéis em direito, exigido pela OAB para o exercício profissional, o resultado seria catastrófico. 
Jatene recomenda a formação de bons clínicos e, só a partir disso, a especialização médica. Os médicos de hoje estão dependentes, e a cada dia mais, dos instrumentos tecnológicos sofisticados de diagnóstico, e  cada vez menos de seu próprio saber. O vínculo humano entre médico e paciente – salvo onde a medicina é estatizada – é a cada dia menor. Assim, Jatene defende o sistema do médico de família. Esse sistema permite o acompanhamento dos mesmos pacientes ao longo do tempo, e a prática de medidas preventivas, o que traz mais benefícios para todos.
Entre outras distorções da visão humanística do Ocidente, provocadas pela avassaladora influência do capitalismo norte-americano, está a de certo exercício da medicina e da terapêutica. A indústria farmacêutica passou a ditar a ciência médica, a escolher as patologias em que concentrar as pesquisas e a produção de medicamentos. A orientação do capitalismo, baseada no maior lucro, é a de que se deve investir em produtos de grande procura, ou, seja, para o tratamento de doenças que atinjam o maior número de compradores. Dentro desse espírito, a medicina, em grande parte,  passou a ser especulação estatística e probabilística.
Os médicos protestam contra a contratação de profissionais estrangeiros, pelo prazo de três anos, para servir em cidades do interior, onde há carência absoluta de profissionais. Não seriam necessários, se os médicos brasileiros fossem bem distribuídos no território nacional, mesmo considerando a má preparação dos formados em escolas privadas de péssima qualidade, que funcionam em todo o país. 
Ora, o governo oferece condições excepcionais para os que queiram trabalhar no interior. O salário é elevado, de dez mil reais, mais moradia para a família, e alimentação. É muitíssimo mais elevado do que o salário oferecido aos engenheiros e outros profissionais no início de carreira. Ainda assim, não os atraem. E quando o governo acrescenta ao currículo dois anos de prática no SUS, no interior e na periferia das grandes cidades, vem a grita geral.
Formar-se em uma universidade é, ainda hoje, um privilégio de poucos. Os ricos são privilegiados pelo nascimento; os pais podem oferecer-lhe os melhores colégios e os cursos privados de excelência, mas quase sempre vão para as melhores universidades públicas,  bem preparados que se encontram para vencer a seleção dos vestibulares. Os pobres, com a ilusão do crescimento pessoal, sacrificam os pais e pagam caro a fim de obter um diploma universitário que pouco lhes serve na dura competição do mercado de trabalho.
Um médico sugeriu que a profissão se tornasse uma “carreira de estado”, como o Ministério Público e o Poder Judiciário. Não é má a idéia, mas só exeqüível com a total estatização da medicina. Estariam todos os seus colegas de acordo? Nesse caso não poderiam recusar-se a servir onde fossem necessários. 
Temos, no Brasil, o serviço civil alternativo que substitui o serviço militar obrigatório, e é prestado pelos que se negam a portar armas. Embora a objeção possa ser respeitada em tempos de paz, ela não deve ser aceita na eventualidade da guerra: a defesa da nação deve prevalecer. Mas seria justo que não só os pacifistas fossem obrigados, pela lei,depois de formados pelos esforços da sociedade como um todo, a dar um ou dois anos de seu trabalho à comunidade nacional, ali e onde sejam necessários. Nós tivemos uma boa experiência, com o Projeto Rondon, que deveria ser mais extenso e permanente como instituição no Brasil.
As manifestações recentes mostram que todos, em seus conjuntos de interesses, querem mais do Estado em seu favor. Não seria o caso de oferecerem alguma coisa de si mesmos à sociedade nacional? Dois anos dos jovens médicos trabalhando no SUS – remunerados modestamente e com os gastos pagos pelo Erário – seriam um bom começo para esse costume. E a oportunidade de aprenderem, com os desafios de cada hora, a arte e o humanismo que as más escolas de medicina lhes negaram.”

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A medicina é branca


No último dia 19 de setembro, senadores, militantes e especialistas debateram os dez anos de existência do sistema de cotas raciais nas universidades. A conclusão dos participantes dessa Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) foi unânime: ...