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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O que está por trás do espancamento de Gilmar por seus antigos amigos na mídia e “nas ruas”


Manifestação do Vem Pra Rua em SP com 17 pessoas repetindo o que mandam
Gilmar Mendes.

Esse você conhece. A melhor definição dele é a do professor Dalmo Dallari: a degradação do Judiciário.

Você já sabia.

A novidade é que os amigos de Gilmar estão fingindo que não sabiam.

A Veja deu uma capa o chamando de “juiz que discorda do Brasil” e a Globo o critica dia sim, dia sim também. Dá pena ver Merval Pereira criticando o chegado.

No domingo, alguns poucos gatos pingados arregimentados pelo Vem Pra Rua (de onde ainda vem o dinheiro para carros de som, bandeiras etc?) estavam nas ruas com faixas xingando o ministro do STF e repetindo como papagaios o que leram e ouviram em sua dieta indigente de notícias.

Para resumir: Gilmar soltou os empresários Jacob Barata Filho e Lélis Marcos Teixeira. Gilmar é o inimigo número 1 da Lava Jato. Gilmar é o anti Sergio Moro e o anti Marcelo Bretas (o equivalente carioca ao savonarola de Curitiba).

Até ontem, GM era o herói dessa gente.

Tucano assumidíssimo, fiel protetor de Aécio, principal propagador do termo “cleptocracia” para definir o governo do PT, ele jogou a pá de cal em Dilma Rous­seff ao impedir a posse de Lula como ministro da Casa Civil.

O que aconteceu?

O motivo para a mudança de espírito é a mesma que o fizeram amado: Lula.

A própria Veja explica num parágrafo de sua reportagem de capa (o grifo é nosso):

A prisão em segunda instância, aliás, será o próximo embate para o qual Gilmar Mendes está se preparando. Em outubro de 2016, o Supremo entendeu que um réu sentenciado em segunda instância já podia começar a cumprir a pena, deixando de ser necessário que se esgotasse toda a sucessão de recursos que, antigamente, costumava chegar até o STF, retardando indefinidamente a prisão de condenados. A decisão virou uma espada de Dâmocles sobre a cabeça de muitos acusados, e boa parte deles, sentindo a amea­ça da lâmina, resolveu selar acordos de delação e contar tudo o que sabia. Em conversas reservadas, o ministro Edson Fachin, relator dos casos da Lava-­Jato no STF, já revelou seu receio de o plenário do tribunal voltar atrás na decisão de autorizar a execução da pena após sentença de segunda instância. Gilmar Mendes, que outrora defendia a antecipação da pena, está em campanha aberta para que a prisão só seja cumprida após o julgamento dos recursos no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que funciona como uma espécie de terceira instância. Os condenados ganhariam tempo, e a medida teria efeito suprapartidário. Lula, outro desafeto de Gilmar Mendes, seria o grande beneficiário da mudança.

Se o habeas corpus dos baratas no Rio vale para eles, vale para Lula e os outros. A Lava Jato não poderá prender Lula mesmo que a condenação seja confirmada pelo TRF-4 — o que é batata.

No Estadão de hoje, Sergio Moro faz uma nova queixa. “Não penso que as questões devem ser tratadas a nível pessoal, mas institucional”, diz. “Respeito o ministro Gilmar Mendes e espero que, ao final, ele, pensando na construção da rule of law, mantenha o precedente que ele mesmo ajudou a construir.”

Gilmar está amparado na Constituição: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.

Nós concordamos que Gilmar é tudo o que você pensa. Mas, nesse caso, ele tem razão. 

Vale acionar Brizola: “Quando vocês tiverem dúvidas quanto a que posição tomar diante de qualquer situação, atentem… se a Rede Globo for a favor, seja contra. Se for contra, seja a favor”.


A Globo está do mesmo lado desses artistas. A língua portuguesa, não



Kiko Nogueira
No DCM

Kiko Nogueira
No DCM

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Malafaia é gay? Um estudo sobre homofobia diz que essa é uma enorme possibilidade


Ele
A nova incursão de Silas Malafaia no terreno da picaretagem evangélica é um vídeo detonando um comercial do Boticário em que aparecem casais gays.

“Sou contra e estou aqui pra dizer que a família é milenar, homem, mulher e sua prole. Tenho o direito de preservar macho e fêmea porque essa é a história da civilização humana”, avisa.

Sugere um boicote por fazer parte de uma “maioria”, acusa a propaganda de ser uma tentativa de “querer ensinar a crianças e jovens o homossexualismo”. Etc etc.

O que incomoda tanto o homem? O que lhe dói tanto?

O comportamento obsessivo e histérico do maior pé frio na história recente da política brasileira pode ser explicado pela ciência. Um estudo sobre homofobia, publicado em 2012 no respeitado Journal of Personality and Social Psychology — publicação especializada mensal que circula desde 1965 — ajuda a entender o ódio e o medo que ele e seus compadres sentem.

Durante meses, 784 universitários dos EUA e da Alemanha foram convidados, primeiro, a avaliar sua orientação sexual de 1 (altamente gay) a 10 (muito hétero).

Na sequencia, se submeteram a um teste. Imagens e palavras associadas à sexualidade lhes foram mostradas. Eles foram então instados a classificá-las de acordo com a categoria apropriada (gay ou hétero) o mais rapidamente possível.

Houve um elemento crítico adicional, como explicou o professor Richard Ryan, idealizador da coisa: “Antes de cada palavra e imagem, a palavra ‘eu’ ou ‘outro’ aparecia na tela do computador por 35 milésimos de segundo — tempo suficiente para os estudantes processarem subliminarmente o dado, mas curto o suficiente para que eles não pudessem vê-lo conscientemente”, escreveu num artigo no New York Times.

“A teoria, conhecida como associação semântica, é que quando ‘eu’ precede palavras ou imagens que refletem sua orientação sexual (por exemplo, imagens heterossexuais para um heterossexual), você as classifica na categoria correta mais velozmente do que quando ‘eu’ vem antes de palavras ou imagens que são incongruentes com a orientação sexual (por exemplo, imagens homossexuais para um heterossexual). Essa técnica distingue de forma confiável indivíduos que se identificam como heterossexuais dos que se definem como gays, lésbicas ou bissexuais.”

Entre o grupo que se disse “altamente hétero”, surgiu uma subseção de cerca de 20% deles que indicaram uma atração pelo mesmo sexo. Esse mesmo pessoal era “significativamente mais propenso ​​a favorecer as políticas anti-gays e a atribuir punições mais severas para autores de pequenos crimes se o autor fosse presumivelmente homossexual”.

Para o doutor Ryan, “nem todos aqueles que fazem campanha contra gays e lésbicas sentem desejo por pessoas do mesmo sexo. Mas ao menos parte deles estão lutando contra si mesmos, tendo sido eles mesmo vítimas de opressão e incompreensão”.

O caso de Malafaia embute ainda a possibilidade de o pastor ser apenas um completo idiota oportunista. Mas isso é óbvio, não necessita de prova científica — e não explica, sozinho, esse grau de indigência mental.



Kiko Nogueira
No DCM, via http://www.contextolivre.com.br/2015/06/malafaia-e-gay-um-estudo-sobre.html

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

E se o Estado Islâmico quisesse patrocinar uma escola de samba?



Há um certo movimento entre pessoas que se recusaram a assistir o Carnaval no Rio de Janeiro neste ano. A razão principal para o boicote: o financiamento do enredo da Beija Flor pelo ditador africano Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial (como se o fato dos bicheiros mandarem na festa há décadas fosse um detalhe).

A maneira como a Globo, que tem os direitos de transmissão, cobre o evento é sintomático e surreal. Na TV, a verborragia sem sentido sobre harmonia, evolução etc ganha um toque extra de loucura. Como um jornalista pode narrar o desfile da Beija Flor sem mencionar que o patrocinador é responsável, por exemplo, pelo genocídio de uma etnia e espalhar a fama de ser canibal?

Na Globonews, o massacre carnavalesco do exército de repórteres inclui cascatas como uma matéria repercutindo uma pesquisa segundo a qual “ritmos imprevisíveis (!?) fazem bem à saúde”.

O Carnaval é o momento em que a máfia do jogo do bicho mostra sua opulência e sua invenciblidade para milhões. Por causa do entrelaçamento de interesses com o poder público e a mídia, aquela salada corrupta vira apenas “o maior espetáculo da Terra”.

Bicheiros são “patronos”, apropriação de verbas públicas é “investimento em turismo”. Escolas de samba não prestam contas porque, afinal, estão prestando um serviço à comunidade.

A folia de Momo é o momento em que o pobre pode brilhar, dizem. Na quarta feira de cinzas ele ou ela voltam à favela — enquanto a agremiação está com alguns milhões no caixa, grana distribuída entre os mesmos de sempre.

É fanfarronice e corrupção brilhando na tela, esfuziante. A televisão torna-se uma praça pública em que telespectadores assistem embevecidos um show bancado com dinheiro do crime, dormem e acordam indignadas pedindo impeachment.

No ano que vem, o Estado Islâmico vai pagar pelo enredo da Unidos do Vupabuçú. Deve haver uma ou outra decapitação num carro alegórico, mas, ei, isso é fundamental no quesito “alegorias e adereços”. Sem “apoio cultural e artístico” — de acordo com a nota da Beija Flor sobre a grana de Obiang —, não sai nada. A má notícia é que Claudia Raia foi confirmada como madrinha da bateria.

Kiko Nogueira
No DCM, via http://www.contextolivre.com.br/2015/02/e-se-o-estado-islamico-quisesse.html

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Marina Silva e a ética do coitadismo


Ela

No pacote de mistificações de Marina Silva, inclui-se o fenômeno do coitadismo. Marina é uma injustiçada eterna.

Quando chamada a responder pelo que disse em 2008 e desdisse em 2014, é perseguição. Quando lhe são cobradas explicações sobre o avião de Campos ou as palestras, estão “fazendo CPIs paralelas, informais”.

Não é fácil ter a vida devassada, é evidente, mas é inevitável para qualquer candidato, especialmente os postulantes à presidência.

Numa entrevista à CBN, Marina reclamou que a questão das palestras era um “factoide” — segundo a Folha, entre março de 2011 e junho de 2014 ela recebeu R$ 1,6 milhão falando para empresas cujos nomes, aliás, não foram revelados.

Não esclareceu. Ao invés disso, seus adversários, por serem “tão grandes e poderosos, conseguem ocupar todos os espaços para dizer inverdades. Eu não tenho a mesma estrutura que eles têm. A presidente Dilma tem 11 minutos de programa de televisão, o governador Aécio tem quase cinco. Eu tenho apenas dois minutos”.

No Twitter, escreveu o seguinte: “Eu estou me sentindo injustiçada. É uma indústria de boatos e mentiras que estão sendo lançadas na internet, de todas as formas”.

Mais: “Os partidos da polarização, PT e PSDB, não estão acostumados que as eleições sejam um processo político. Estão acostumados com plebiscito”. Lembrando que plebiscitos são, eventualmente, legítimos e Marina os propõe até para escolher entre açúcar e adoçante no café.

Não há novidade na estratégia de vitimização de Marina. Muitos outros já se utilizaram disso.

É uma forma de desqualificar o interlocutor. Dilma e Aécio apanham a torto e a direito. É do jogo. No caso de Marina, não se pode falar de sua de suas contradições, de sua falta de clareza, de seu passado, presente ou futuro – isso é boataria.

A indignação de Eduardo Gianneti e de Demétrio Magnolli com as pessoas que estranham ou se preocupam com o fundamentalismo religioso de MS é sintomática. Por que não se pode discutir isso? É proibido? Quais são os assuntos autorizados pela tropa de choque?

Criticar Marina é crime. A não ser quando ela, Marina Silva, fala dos demais candidatos. Aí, sim, estamos mais uma vez na presença exuberante da nova política.