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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Beijos


Queria ser um homem moderno mas tinha alguma dificuldade com o protocolo. Por exemplo: não sabia quem beijava. Quando via aproximar-se uma conhecida do casal, perguntava para a mulher, apreensivo, com o canto da boca: “Essa eu beijo? Essa eu beijo?” Nunca se lembrava.
Para simplificar, passou a beijar todas. Conhecidas ou não. Quando lhe apresentavam uma mulher, em vez de apertar sua mão, beijava-a. Dois beijos, um em cada face.
— Muito (muá) prazer (muá).
Outro problema era a quantidade de beijos. Já tinha dominado os dois beijos, estava confortável com dois beijos, quando a moda passou a ser três. Um dia a mulher comentou:
— Não sabia que você era tão amigo da Fulana (o nome verdadeiro não é este).
— Beijo todas.
— Quantas vezes?
— Quem está contando?..

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Crus e podres




Concentremo-nos nos crus e nos podres. São duas áreas da gastronomia que oferecem uma variedade surpreendente. Dos crus podemos escolher entre ostras frescas e outros mariscos, o carpaccio e as demais carnes cruas e fatiadas, a carne crua picada que os franceses chamam de "tartare" e os alemães de um nome provavelmente muito maior, os peixes crus dos japoneses e todos os vegetais e legumes que podem ser comidos "in natura", depois de um bom banho para tirar os tóxicos.
Sobre o "tartare". Aquele proverbial turista americano que pedia o seu "tartare" bem passado não pode mais ser ridicularizado. Os próprios franceses aderiram ao que eles chamam de "aller-retour", ida e volta, que consiste num "tartare" que vai ao fogo até ficar perigosamente perto de se transformar em hambúrguer.
Mas são os podres que fascinam. A podridão (tese) é a maneira que a comida tem de escapar do arbítrio do cozinheiro e determinar seu próprio ponto de consumo. É quando a comida se come! O charque e a carne de sol não são apenas carnes apodrecidas. São a carne como ela mesma se pretendia antes de ter seu processo de maturação rudemente interrompido por algum assador afoito. O peixe à escabeche é o peixe que saiu da água, passou incólume pela civilização e voltou à natureza. Já que a podridão é o caminho natural de todas as coisas...

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Influência das mães




Ainda não se deu a devida importância à influencia das mães e suas lições de higiene na história do mundo moderno.
Passamos a infância ouvindo que não havia nada mais sujo do que dinheiro. Depois de tocar uma nota que andara por mãos desconhecidas acumulando micróbios se deveria ir correndo lavar as nossas. Botar a mão na boca depois de tocar em dinheiro e antes de lavá-la era morte certa.
O resultado é que o dinheiro está em vias de extinção. Foi substituído pelo cartão de crédito, cuja principal vantagem é que, sendo de plástico e pessoal, circula menos pelo terrível mundo das bactérias e dos dedos que ninguém sabe onde andaram (grande terror das mães).
E estamos chegando ao ideal que nenhuma mãe previu, nem nos seus sonhos mais antissépticos: o dinheiro transformado em impulso eletrônico. O dinheiro que cruza o éter de computador a computador, sem jamais ser tocado pelo maior inimigo do homem, ou do filho, que é a mão dos outros.
Outra grande ameaça de contágio era corrimão de escada. Saíamos de casa com ordens expressas de não tocar em corrimão de escada. Entre rolar escada a baixo e segurar no corrimão devia-se optar pela queda. Fraturas pelo menos se viam enquanto os micróbios agiam em segredo. Resultado: inventaram a escada rolante. Outro triunfo das mães.
Mas terror mesmo, tema de histórias assustadoras com exemplos gráficos inesquecíveis do que podia acontecer, era tampa de privada.
A principio, devia-se evitar banheiros públicos. Se a necessidade de usá-los fosse inadiável, devia-se tomar precauções.
As meninas recebiam instruções minuciosas do que fazer no caso de não haver alternativa ao banheiro publico. Deviam forrar o assento da privada com papel ou, melhor ainda, equilibrar-se alguns centímetros acima da tampa, sem tocá-la, e confiar na pontaria. Sob pena de, nos casos mais graves, até ficarem grávidas.
Resultado: o travesti. O travesti foi a maneira que a Natureza encontrou de tranquilizar as mães, desenvolvendo a mulher que faz xixi de pé.
Luís Fernando Veríssimo
vi no Com textolivre

terça-feira, 12 de julho de 2011

Quem autorizou?




Nos países em que as eleições são sempre plebiscitárias vota-se em tudo, até em normas para se recolher o cocô do cachorro nas calçadas.
Li, certa vez, que num desses países — acho que era a Noruega — não era incomum um eleitor ficar até meia hora na cabine eleitoral, marcando numa célula tamanho ofício suas opções, não só entre candidatos para representá-lo mas entre grandes e pequenas questões da vida comunitária, como usinas nucleares, sim ou não? Ou: cocô na calçada, quem é o responsável?
Pensei nesse eleitor e no seu poder de escolha lendo as notícias sobre as lambanças no nosso Ministério dos Transportes. Não podemos querer imitar os escandinavos e trocar nossas maquininhas de votar ligeiro por plebiscitos demorados, certo.
Mas quando foi que nos perguntaram se concordávamos que o Ministério do Transportes fosse doado ao PR? Quem autorizou o feudo com seu voto?
Quem, entre os eleitores, sabia da cláusula de exclusividade do acordo com o PR, quem aprovou a troca de um ministério, e um ministério cheio de dinheiro, por votos no Congresso? E logo com o PR, um partido que — pelo que se sabe — não representa nada a não ser sua própria gana?
Claro, ao apertar os botões da maquininha de votar o eleitor está dando aos candidatos da sua escolha o direito de fazer o que for necessário para governar, inclusive barganhas — ou alianças, que fica mais bonito. Está votando implicitamente em tudo que imagina que os candidatos pensem e pretendem.
Quem votou em Dilma ou no PT na maquininha fez, de certa forma, todas as opções que encontraria numa cédula plebiscitária, inclusive sobre como dispor do cocô de cachorro, para insistir na metáfora nojenta.
O acordo com o PR foi feito pelo Lula, decepcionando quem esperava que esse tipo de aliança o PT nunca fizesse. Mas a Dilma presidente também foi feita pelo Lula, que certamente sabia das suas implicâncias e da sua determinação. Dilma, desfazendo o acordo, estará redimindo Lula e o PT dos seus pecados por associação.
Luíz Fernando Veríssimo

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Praga

Um índio, que até então nem sabia que era índio, estendeu a mão e ofereceu a Cristóvão Colombo um tomate.
- Um pomo d’oro! - exclamou o almirante, confundindo o fruto que brilhava ao sol da nova América com uma maçã selvagem. Depois examinou o fruto mais de perto e perguntou:
- Para o que serve?
- Saladas - respondeu o índio. - Refogados. Molhos.
- Para o espaguete! - exclamou Colombo, compreendendo por que o destino o trouxera até ali. Lembrando que seu nono, em Gênova, vivia elogiando Marco Polo por ter trazido o espaguete do Oriente e sua nona vivia dizendo que sim, o espaguete era bom, mas faltava alguma coisa. Sua missão estava revelada: numa só viagem, superara o Marco Polo do nono e descobrira o que faltava na macarronada da nona. Ficou com o tomate.
- O que você me dá em troca? - quis saber o índio.
Não se sabe que língua falavam. A linguagem mágica dos grandes encontros. Não interessa.
- Dou em troca um dos produtos supremos de nossa civilização. Uma preciosidade. Um dos frutos da indústria que breve chegará aqui e transformará este mato em outra Europa.
E Colombo deu uma miçanga ao índio.
Colombo perguntou que outra novidade o índio tinha para lhe dar. E o índio ofereceu uma batata.
- O que faremos com isto? - perguntou Colombo, olhando a feia batata com pouco entusiasmo.
O índio descreveu o futuro da batata, desde a sua importância na alimentação dos camponeses europeus em fomes ainda por vir até a “noisette” e as fritas. E Colombo botou a batata na algibeira e deu em troca uma moedinha de valor tão baixo, que em vez da cara mostra o joelho do rei.
- O que mais o índio tinha para lhe dar?
O fruto do cacaueiro, de onde sairia o chocolate. O índio descreveu o significado do chocolate para a história do mundo, especialmente da Suíça e da Bahia, e como seriam os bombons, e as barras recheadas com avelãs, e suspeita-se que tenha mencionado até a mousse. E Colombo trocou o cacau por um espelhinho. -
- Que mais?
- Fumo!
Em breve, todos estariam experimentando as delícias do tabaco e o novo hábito dominaria o mundo. E para quem quisesse um barato ainda maior, o índio incluía a planta da coca junto com a planta do fumo em troca das contas que Colombo lhe oferecia.
- Que mais?
- Milho. Aipim. Um papagaio.
- E isso que você tem no nariz? - perguntou Colombo, apontando para a argola de ouro.
- O que você me dá em troca?
Colombo ofereceu mais miçangas, que o índio não quis. Outra moedinha. Comprimidos. Vale transporte. Finalmente apontou sua pistola para a cabeça do índio e disse “Isto”. E disparou. Depois deu ordens a seus homens para recolher todo o ouro à vista, mesmo que tivessem que trazer os narizes juntos.
Do chão, antes de morrer, o índio amaldiçoou Colombo e praguejou.
- Que a batata tornasse a sua raça obesa, que o chocolate enchesse as suas artérias de colesterol, que o fumo lhe desse câncer, que a cocaína o enlouquecesse e que o ouro destruísse a sua alma. E que o tomate - pediu o índio aos céus, com seu último suspiro - se transformasse em ketchup e molho enlatado sem graça que estragasse o espaguete para todo o sempre.
E assim aconteceu.
Luís Fernando Veríssimo

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Desabafo de um bom marido


Minha esposa e eu sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras.
Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica.
Então ela disse: 'Nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar'.
Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.
Eu me casei com a 'Senhora Certa'. Só não sabia que o primeiro nome dela era 'Sempre'.
Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la.
Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha.
Ela perguntou: 'O que tem na TV?' E eu disse 'Poeira'.
No começo Deus criou o mundo e descansou.
Então, Ele criou o homem e descansou.
Depois, criou a mulher. Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o mundo tiveram mais descanso.
Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo. Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes, o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim. Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer.
Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura. Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em casa.
Em alguns minutos eu voltei com uma escova de dente e lhe entreguei.
'-Quando você terminar de cortar a grama, ' eu disse, 'você pode também varrer a calçada. '
Depois disso não me lembro de mais nada. Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida'.
'O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido... '
Luís Fernando Veríssimo. No Com textolivre

domingo, 24 de abril de 2011

A Páscoa

- Papai, o que é Páscoa?
- Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!
- Igual ao Natal?
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressureição.
- Ressurreição?
- É, ressurreição. Marta, vem cá!
- Sim?
- Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.
- Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?
- Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?
- O que é isso menino?
Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!
- Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?
- É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
- O Espírito Santo também é Deus?
- É sim.
- E Minas Gerais?
- Sacrilégio!!!
- É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?
- Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!
- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
- Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos...
- Coelho bota ovo?
- Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!
-  Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era... era melhor, sim.. . ou então urubu.
- Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né?
- Que dia ele morreu?
- Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.
- Que dia e que mês?
-  (???)
Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressucitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.
- Um dia depois!
- Não três dias depois.
- Então morreu na Quarta-feira.
- Não, morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde!
Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como? Pergunte à sua professora de catecismo!
- Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?
- É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
- O Judas traiu Jesus no Sábado?
- Claro que não! Se Jesus morreu na Sexta!!!
- Então por que eles não malham o Judas no dia certo?
- Ui...
- Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.
- Só?
- Que eu saiba sim, por quê?
- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?
- Ai coitada!
- Coitada de quem?
- Da sua professora de catecismo!
Luís Fernando Veríssimo

domingo, 5 de dezembro de 2010

Fora, povo!



de Luis Fernando Veríssimo
Pesquisa recente concluiu que a elite brasileira é mais moderna, ética, tolerante e inteligente que o resto da população. Nossa elite, tão atacada através dos tempos, pode se sentir desagravada com o resultado do estudo, embora este tenha sido até modesto nas suas conclusões. Faltou dizer que, além das suas outras virtudes, a elite brasileira é mais bem vestida do que as classes inferiores, tem melhor gosto e melhor educação, é melhor companhia em acontecimentos sociais e é incomparavelmente mais saudável. E que dentes!
A pesquisa reforça uma tese que defendo há anos, segundo a qual o Brasil, para dar certo, precisa trocar de povo. Esse que está aí é de péssima qualidade. Não sei qual seria a solução. Talvez alguma forma de terceirização, substituindo-se o que existe por algo mais escandinavo. As campanhas assistencialistas que tentam melhorar a qualidade do povo atual só a pioram, pois, se por um lado não ajudam muito, pelo outro o encorajam a continuar existindo. E pior, se multiplicando. Do que adianta botar comida no prato do povo e não ensinar a correta colocação dos talheres, ou a escolha de tópicos interessantes para comentar durante a refeição? Tente levar o povo a um restaurante da moda e prepare-se para um vexame. O povo brasileiro só envergonha a sua elite.
Se não tivéssemos um povo tão inferior, nossos índices sociais e de desenvolvimento seriam outros. Estaríamos no Primeiro Mundo em vez de empatados com Botsuana. São, sabidamente, as estatísticas de subemprego, subabitação e outros maus hábitos do povo que nos fazem passar vergonha.
Que contraste com a elite. Jamais se verá alguém da elite brigando e fazendo um papelão numa fila do SUS como o povo, por exemplo. Mas o que fazer? Elegância e discrição não se ensina. Classe você tem ou não tem. Mas o contraste é chocante, mesmo assim. Esse povo, decididamente, não serve.
Se ao menos as bolsas-família fossem Vuitton…

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Luiz Fernando Veríssimo

Salvos

A rainha Elizabeth acordou num sobressalto. Havia alguém no seu quarto! Acendeu a luz e viu que era o príncipe Philip.
— Philip! O que você faz aqui? Há 30 anos que você não vem ao meu quarto!
— Calma, Beth. Não consegui dormir, pensando no casamento do William, nosso neto. Essa Kate... Não será uma nova Diana, que vem infernizar nossas vidas?
— Philip, como sempre você não entendeu nada. Esse casamento é a melhor coisa que poderia ter nos acontecido. Para começar, reforça a ideia que o William seja meu herdeiro, o que pouparia o Reino Unido de ter o Charles como rei e aquela Camilla como rainha. Você sabe que eu só não morri ainda para evitar que isso aconteça. Em segundo lugar, o casamento estimulará a economia, atrairá turistas e, o mais importante, salvará a monarquia. Eu sei que você só lê o noticiário do turfe mas deve ter ouvido falar que estamos numa recessão, e que o novo governo está impondo medidas drásticas de contenção de despesas. Não demoraria muito e aumentaria a discussão sobre os custos da monarquia. Cedo ou tarde alguém perguntaria se os cortes nos gastos sociais não deveriam incluir o que você gasta com conhaque, Philip. A movimentação em torno do casamento e o entusiasmo das pessoas com o casal acabarão com essa discussão. A Kate é um pouco magrinha demais para o meu gosto, mas é ela que garantirá nossa mesada por mais alguns anos.
— Você acha?
— Acho, Philip. Agora volte para o seu quarto.
O FASCÍNIO
As monarquias sobrevivem do seu fascínio, mesmo quando só fornecem uma teatralização do poder. O fascínio aumenta quando o teatro envolve um jovem príncipe e uma bela moça, mas até um rei sem graça pode contar com a benevolência dos plebeus
Todo mundo gostou quando, naquele recente encontro de países ibero-descendentes, o rei Juan Carlos da Espanha mandou o Hugo Chávez calar a boca. O Hugo Chávez precisa que o mandem calar-se de vez em quando, mas ninguém se perguntou o que um rei fazia numa reunião em que a maioria era de repúblicas nascidas de rebeliões contra reis. Ele não estava representando a Espanha; o primeiro-ministro Zapatero fazia isso. Talvez representasse a dinastia dos Bourbons. E quem sabe um pouco de história sabe que os Bourbons têm um prontuário de crimes que vem de longe, inclusive na América Latina.
O Juan Carlos é simpático, foi importante na redemocratização da Espanha e não pode ser cobrado pela sua ascendência, mas poderiam ao menos ter cobrado sua presença anacrônica na reunião. Ou não. Afinal, ninguém espera que se vá evocar o passado também manchado da Casa de Windsor ao comentar o casamento de William e Kate. O fascínio absolve tudo.
Luiz Fernando Veríssimo

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Corrida de dez dias

De hoje à data da eleição teremos dez dias de manchetes nos jornais e duas edições da "Veja". Não sei até quando podem ser publicadas as pesquisas sobre intenção de voto, mas até a última publicação — aquela que, segundo os céticos, é a mais confiável, pois é a que garante a credibilidade e o futuro dos pesquisadores — veremos uma corrida emocionante: o noticiário perseguindo os índices da Dilma para tentar derrubá-los antes da chegada, no dia 3.
O prêmio, se conseguirem, será um segundo turno. Se não conseguirem, a única duvida que restará será: se diz a presidente ou a presidenta?
Até agora as notícias de corrupção na Casa Civil não afetaram os índices da Dilma. Estou escrevendo na terça, talvez as últimas pesquisas mostrem um efeito retardado. Mas ainda faltam dez dias de manchetes e duas edições da "Veja", quem sabe o que virá por aí?
O governo Lula tem um bom retrospecto na sua competição com o noticiário. A popularidade do Lula não só resistiu a tudo, inclusive as mancadas e os impropérios do próprio Lula, como cresceu com os oito anos de denúncias e noticiário negativo.
Desde UDN x Getúlio nenhum presidente brasileiro foi tão atacado e denunciado quanto Lula. Desde sempre, nenhum presidente brasileiro acabou seu mandato tão bem cotado.
Acrescente-se ao paradoxo o fato de que o eleitorado brasileiro é tradicionalmente, às vezes simplisticamente, moralista. Elegeu Janio para varrer a sujeira do governo Juscelino, elegeu Collor para acabar com os marajás, aplaudiu a queda do Collor por corrupção presumida e houve até quem pedisse o impedimento do Itamar por proximidade temerária com calcinha transparente.
Mas o moralismo tornou-se politicamente irrelevante com Lula e, por tabela, para os índices da Dilma . É improvável que volte a ser decisivo em dez dias. Mas nunca se sabe. O que talvez precise ser revisado, depois dos oito anos do Lula e depois destas eleições, quando a poeira baixar, seja o conceito da imprensa como formadora de opiniões.
Mas a corrida dos dez dias começa hoje e seu resultado ninguém pode prever com certeza. Virá alguma bomba de fragmentação de última hora ou tudo que poderia explodir já explodiu? O que prevalecerá no final, os índices inalterados da Dilma ou o noticiário? Faça a sua aposta.
Luis Fernando Veríssimo

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Leis e normas

A tal lei que proíbe avacalhar candidatos em época de eleição e que provocou uma manifestação de humoristas no domingo passado no Rio existe desde 1997. Quer dizer, é um exemplo daquelas leis brasileiras que, como vacina ou mudinha, pegam ou não pegam. Esta não pegou, tanto que não me lembro de vê-la discutida assim em outras eleições.
Isto não significa que ela não deva ser execrada e o seu autor sofrer um ataque de cócegas sempre que aparecer em público, para aprender. Significa que a punição por avacalhar candidatos não deve preocupar muito, nem humoristas nem ninguém. Inclusive porque será difícil caracterizar o crime.
— Pô, cara. A gozação que fizeram com você na TV, ontem, passou dos limites. Apareceu um imitador com a sua cara, dizendo uma porção de bobagens... Eu, se fosse você, processava.
— Não era imitação, era eu!
— Desculpe.
Uma questão maior é a dos limites da opinião, avacalhadora ou não, de quem tem o privilégio de um espaço na imprensa. Limites que independem da lei pegar ou não pegar porque fazem parte das nossas normas, e das nossas hipocrisias, jornalísticas.
Na Europa e nos Estados Unidos é comum colunistas abrirem o seu voto e os próprios jornais declararem suas preferências eleitorais. No começo de cada campanha presidencial americana, por exemplo, o "New York Times" anuncia para quem vai torcer — o que não é um anúncio de que vai destorcer a favor do escolhido.
Aqui a norma é da objetividade, mesmo fingida. Sempre achei estranho que um cronista de jornal, que é pago para ser subjetivo ao máximo, se veja obrigado a sonegar seu gosto político, que deveria ser tão naturalmente exposto quanto seu gosto em filmes, livros, mulheres e pastéis. Já outros sustentam que o voto aberto do cronista é um abuso do poder da imprensa. É uma discussão antiga, essa com a dona norma.
"Avacalhar", se não me falha o etimológico, vem de vaca mesmo. Reduzir alguém a vaca — pobre vaca, esse símbolo de resignação fatalista, sem falha de caráter conhecida — é desmoralizá-lo.
O mais triste é que não funciona. Historicamente, nem os mais avacalhados dos nossos políticos sofreram, politicamente, com a avacalhação. Temos uma cultura política à prova do ridículo. O que, claro, só torna a tal lei ainda mais ridícula.
Luis Fernando Veríssimo
com textolivre

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Um gosto pela ironia

História é uma velha senhora com um gosto às vezes cruel pela ironia.Por exemplo.O populismo de direita cresce na Europa Central, ou nos antigos satélites da União Soviética, em parte porque lá não houve nada parecido com a revolução cultural que sacudiu o conservadorismo político e social dos anos 50 na Europa Ocidental. E não houve nada parecido com 1968 na Europa Central porque os tanques soviéticos não deixaram.
O resultado da intervenção soviética, principalmente na Hungria e na Tchecoslováquia, foi que o modelo dominante de revolta para os jovens ficou sendo o nacionalismo à antiga, pré-Segunda Guerra Mundial, e não o modelo libertário do pós-guerra na França e em outros países. Portanto, nas origens do fascismo que volta na Europa Central com todos os seus maus costumes — antissemitismo, perseguição a ciganos e outras minorias etc. —, está o mesmo exército que resistiu heroicamente à máquina de guerra nazista e ajudou a derrotá-la.
Os milhões de russos mortos na luta contra o fascismo não estão achando muita graça.
Outra da História: a reforma agrária no Japão, que desmantelou uma estrutura feudal de séculos e serviu de exemplo para outras reformas parecidas, não foi obra de nenhuma esquerda, mas do general americano que mais se assemelhava a um senhor feudal, Douglas McArthur, imperador de fato do Japão durante a ocupação depois da Segunda Guerra.
Outra: se o capitalismo praticado na Alemanha atual e seus arredores econômicos — leia-se a União Europeia — é mais democrático do que o americano, com maior participação de empregados no controle de empresas, isto também se deve à derrota do fascismo e a questões geopolíticas decorrentes da Segundona.
Ainda vivemos todos num post-scriptum de 1945. Assim como McArthur quis acabar com o poder de uma aristocracia que instigava os sonhos imperiais do Japão, os americanos encorajaram os alemães a desenvolver um mercado socialmente responsável, distributivista, se é que existe a palavra, completamente diferente do seu próprio complexo industrial-militar, para descentralizar a economia e impedir a volta do poder a grandes industrialistas como os que tinham apoiado Hitler.
Aquela frase sobre escrever direito por linhas tortas, ou escrever torto por linhas bem intencionadas, diz respeito a Deus, mas também se aplica à História. No fim, são dois gaiatos.
Luis Fernando Veríssimo