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terça-feira, 14 de julho de 2015

A verdadeira missão do Jornal Nacional


Hahaha
Provocou merecidas gargalhadas uma foto que circulou na internet. Nela, Bonner, num palco, aparece sob o que nos meio jornalísticos se chama de “missão” do Jornal Nacional.

Presume-se que Bonner estivesse falando a estagiários da Globo, ou algo do gênero.

O lado bom da imagem é que ela encheu de risos muitos brasileiros pelo completo ridículo de seu conteúdo.

Bem, ali está a palavra “isenção”.

O JN, segundo sua missão, se compromete a ser isento.

Em minha carreira, redigi muitas missões de revistas, e preciso fazer uma autocrítica. Foram provavelmente as piores coisas que escrevi.

A isenção do JN só aparece em sua missão.

Como seria escrita a missão do JN se o objetivo fosse retratar a realidade?

“Nossa missão é defender os interesses dos nossos patrões e de seus amigos e sócios.”

Pronto. Numa linha estaria tudo resolvido.

Nenhum jornalista do JN cometeria o pecado, por exemplo, de sugerir uma investigação que tivesse Aécio no centro.

Ou que falasse que sonegação é crime.

Ou mesmo que mostrasse o outro lado da discussão sobre a terceirização.

Declarações e princípios são realmente engraçados na mídia brasileira.

Entre no site da Veja e vá aos blogueiros. Ali, você vai encontrar as regras para fazer comentários.

Um deles me chama a atenção pela obtusidade profunda: você está proibido de escrever em caixa alta.

Quem inventou isso?

Mas o mais interessante é que a verdadeira regra que vigora não está escrita: você tem que concordar com o que os blogueiros escrevem, em qualquer circunstância.

Escreva polidamente como um diplomata, mas discorde da essência de um artigo: você não será publicado.

Tente, se quiser comprovar.

Algum tempo atrás, meu filho Pedro ficou incomodado com uma paulada gratuita que recebi de Reinaldo Azevedo por ter criticado Diogo Mainardi.

Inocente, garoto de bons propósitos, Pedro escreveu um email — educadíssimo — a Reinaldo Azevedo defendendo o pai.

Anos depois, Pedro está ainda esperando ser publicado.

Não é censura, naturalmente. Isto é para os outros. A direita quando censura não pratica censura. Lindo isso.

É assim que você vê centenas de comentários em RA com o milagre da unanimidade.

O dia a dia  das empresas jornalísticas, nos últimos tempos, também é frequentemente tão cômico quanto as missões.

Ao assumir a presidência da Abril, o executivo Alexandre Caldini reuniu as principais lideranças da casa e disse: “Quem não acredita em revista pode deixar esta sala agora.”

Se a verdade imperasse, nem Caldini ficaria na sala.

Acabo de ler que a edição impressa europeia da Newsweek — outrora, durante décadas, a segunda maior revista do mundo, com circulação de mais de 3 milhões de exemplares — vai fechar.

Já é uma notícia banal na mídia: a morte de revistas. A rigor, já nem é notícia.

Passados alguns meses da posse de Caldini, provavelmente quase nenhum dos alegadamente crentes em revistas daquela reunião sobreviveu à dura realidade.

E eis a vida como ela é.

De volta ao tema inicial, a missão do JN, a turma da redação, como tolas não são tolas, sabem o que devem entender daquilo que lhes foi apresentado por Boner.

Não vou entrar na cabeça de Boner, mas imagino que ele também saiba qual a verdadeira missão do JN.

Se não sabe, é aquilo que um dia ele disse que os espectadores são: um Simpson.

Paulo Nogueira
No DCM

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Como a “Grande Fome” da Irlanda (1845-1849) foi descrita pela mídia-empresa


"Sepultando a Criança"
(quadro de Lilian Lucy Davidson)


Por Cahir O'Doherty*, Irish Central


Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Desde que foi aberto ao público, em outubro de 2012, o Museu da Grande Fome, da Universidade Quinnipiac em Hamden, Connecticut, vem expondo a maior coleção de artes visuais, objetos e material impresso relacionados à Grande Fome e à emigração forçada dos irlandeses no século XIX.

Parte da missão do museu é explorar como a crise da Grande Fome foi noticiada para o resto do mundo, e em meses recentes o museu tem convidado autores irlandeses, artistas e professores para falarem sobre o desastre. Os resultados têm sido notáveis.


Em “The Tombs of a Departed Race – Illustrations of Ireland's Great Hunger”, a professora Niamh O'Sullivan produziu um dos relatos mais lúcidos do contexto, da escala e do impacto da Grande Fome, que jamais encontrei.

Niamh O'Sullivan no lançamento de seu ensaio
(foto: James Higgins)

Nas sessenta e uma (61) páginas de seu ensaio, O'Sullivan – professora que escreve sobre o século XIX irlandês e sobre arte e cultura popular irlandesa-americana – examina o modo como jornais impressos e revistas ilustradas daquele século pela primeira vez modelaram nossa compreensão da tragédia que estava em curso no mundo.

Mas as imagens e relatos jornalísticos que O'Sullivan recolheu fazem mais que simplesmente oferecer um relato da calamidade. Também comentam as atitudes sociais e políticas dominantes – e os preconceitos – dos artistas e dos jornalistas ingleses que estavam narrando as condições em campo.

O'Sullivan nos recorda que a Fome não foi resultado de apenas um ano de colheitas ruins, ou de falta de alguns itens da alimentação. Ela escreve:

A Grande Fome tem de ser compreendida como evento que se estende por um século, não apenas por alguns anos – efeito de negligência continuada dos governos e do estado.

Décadas de miséria, salários muito baixos, aluguéis caros e os camponeses irlandeses em perpétuo estado de dependência, subnutridos e sempre à beira da fome. Sem as terras que lhes foram roubadas durante a Conquista, escreve O'Sullivan, “os proprietários e camponeses irlandeses católicos foram empurrados para os charcos [orig. bogs] e declives de montanhas, especialmente no oeste”, onde podiam cultivar a colheita de subsistência que ainda os mantinha vivos: a batata, que nasce abundantemente mesmo em solos pedregosos.

Expulsos para as piores terras e roubados de qualquer possibilidade de prosperarem, os irlandeses foram então culpados pela própria estarrecedora miséria, que muitos colonizadores declaravam “castigo de Deus” e condenação de toda a “raça”. Abundam teorias reconhecidas como científicas para racionalizar o sofrimento daqueles mais pobres, como sintoma e signo de grave inferioridade religiosa e biológica.

 Escultura em Dublin, homenagem aos mortos na Grande Fome

À altura de 1845, 85% da população de 8,7 milhões de irlandeses viviam em mínimas porções de terra, em extrema miséria. Havia, sim, muito de inevitável na tragédia que logo aconteceria, tanto mais chocante quanto permanentemente mal noticiada, amplamente mascarada e ignorada na sua extensão catastrófica.

A seleção do material que O'Sullivan reuniu dá ideia da vastíssima escala do horror e expõe relatos como o seguinte, de 1847:

Transbordamos de desespero; fomos esmagados pelos impostos; sofremos de fome e a pestilência nos cerca. Nossas prisões estão cheias; nossas pobres casas, em ruínas; nossos prédios públicos convertidos em depósitos de doentes (orig. lazar houses, locais onde só as doenças infecciosas prosperam); nossas cidades são campos de mendicância; nossas ruas, necrotérios; os átrios das igrejas, campos de carnificina.

Nosso comércio normal acabou; nosso povo sente-se total ou quase totalmente desmoralizado. A sociedade cai aos pedaços; o egoísmo reina: classe despreza classe; até os mais simples laços de cortesia ou amizade mais próxima jazem rebentados. Pai e filho, proprietário e meeiro, todos se repudiam, ninguém mais coopera. Terror e fome, doença e morte nos afligem, sofrimento horrível, indescritível penúria.

O'Sullivan selecionou cuidadosamente as imagens que ilustram o colapso quase total de todos os laços sociais e familiares, quando a crise afinal – a maior catástrofe demográfica do século XIX na Europa – se instalou.

Bridget O'Donnell e suas duas crianças em 1849 (Grande Fome)

Mas as imagens, como a professora nos lembra, não são relato objetivo. Cada imagem da Grande Fome, escreve ela;

(...) contém componentes que implícita ou explicitamente deixam ver as ideologias quase sempre em confronto dos principais atores.

Em seu estudo, O'Sullivan contextualiza a situação limítrofe em que viviam os pobres irlandeses e que levou à Grande Fome; e examina as atitudes predominantes entre os proprietários de terras e o governo, fazendo-nos ver que cada relato pictórico, cada imagem da Grande Fome, não é retrato fidedigno, mas sempre e só um único ponto de vista, quase sempre ponto de vista bem distanciado, ou tentativa de impor toda a culpa pela miséria sobre os ombros dos mesmos que tinham a vida e futuro ameaçados ali, diante dos próprios olhos.
____________________________________________________

[*] Cahir O'Doherty é Editor de Artes e articulista das revistas The Irish Voice e Irish America e do sítio IrishCentral.com. Escreve matérias sobre cultura, política e o patrimônio cultural da América irlandesa já a mais de uma década. O'Doherty é formado pela Yale University e pela University of Ulster.uma década. O'Doherty é formado pela Yale University e pela University of Ulster.

sábado, 16 de março de 2013

O PAPA FRANCISCO E O JORNAL NACIONAL



JN esquece do jornalismo e presta enorme serviço à igreja católica
A exemplo de quarta-feira, 13, quando foi eleito o novo papa, o Jornal Nacional de ontem também foi quase todo dedicado ao assunto. Com a íntegra em mãos, planejava contar quantas vezes, em 33 minutos de noticiário, determinadas palavras apareceriam. Desisti após o primeiro bloco, quando já se somavam 23 “papas”, sete “Jesus Cristo”, seis “missa” e uma pilha de “cardeais”, “igreja”, “basílica”, “deus”, “cúria”, “senhor” etc. Montei então o roteiro de frases abaixo, todas ditas pelos apresentadores William Bonner (nos estúdios da Globo no Rio) e Patrícia Poeta (no Vaticano) e pelos repórteres da Globo que fizeram a cobertura por lá, na Argentina e em Jerusalém. Lembro que todo material abaixo vinha acompanhado da entonação certa, trilha “emocionante”, edição cuidadosa, sorrisos etc. As frases estão colocadas em ordem de aparição:
“O primeiro dia do novo papa, a primeira missa”
“Como o papa se tornou conhecido pela simplicidade”
“Um papa matutino”
“Começou impondo um estilo novo ao papado e recusou o carro oficial”
“´Também sou um peregrino´, disse”
“Comportou-se como um padre, quase um pai de família. Nem usou o trono para a homília”
“Tem a simplicidade evangélica de João 23 e o sorriso paterno de João Paulo I”
“O papa Francisco começa a conquistar um certo fascínio que já existia entre os cardeais”
“O colégio, num grande e inteligente gesto, em poucas horas mudou o rosto da igreja”
Aí entra ao vivo Don Odilo Scherer, que respondeu a 4 perguntas rápidas. Terminou a última, sobre a “torcida brasileira” a seu favor, dizendo que “os cardeais deveriam escolher aquele que deus indicasse”. Ao que Patrícia Poeta emenda, emocionada: “Que assim seja”.
Vem então uma reportagem sobre beatificação de João Paulo 2: “O papa peregrino, João Paulo 2º, pregou com gestos a humildade … tinha sorriso sereno e cativante … enorme carisma de se comunciar com as multidões… apenas 6 anos depois de sua morte, a igreja concluiu a beatificação, último passo, antes de torná-lo santo … O clamor começou logo após sua morte, em abril de 2005. Depois, veio a descoberta do primeiro milagre. A cura de uma freira francesa, que sofria de mal de parkinson”.
[O milagre entrou dessa forma, como uma notícia banal, sem a palavra “suposto” ou “segundo a igreja”]. E termina assim a matéria de João Paulo 2º: “A imagem de um dos papas mais adorados da história recente é o reflexo também do que a igreja busca com a escolha de agora: a força de um líder carismático e amado”.
Continuam as frases do JN:
“O moderado e humilde Jorge Bergoglio”
“Antes mesmo de se tornar papa, Jorge Bergoglio já era conhecido por cultivar hábitos simples”
“Nos primeiros gestos, nas primeiras palavras, já um jeito próximo, natural. ‘Irmãos, irmãs, boa noite’. Ali estava não mais o Jorge, mas o Francisco”
“O nome já era um recado, mas era necessário mais. E para esse papa, o mais era o menos. Despojado, sem joias, apenas a batina branca”
“Repare no crucifixo, é de aço, nem mesmo é de prata”
“[Deixou que] vários cardeais se apertassem no elevador com ele”
“O papa preferiu ir de ônibus com os cardeais, deixando o carro especial do pontífice seguir vazio”
“De onde vem essa inspiração, esse sentimento de humildade? Até agora, o próprio papa não falou nada sobre isso”
“Francisco parece já ter definido como prioridade do seu papado a solidariedade para os que mais precisam”
“Ontem ao se despedir do publico, dizendo ´boa noite, bom repouso´, parecia um pai que vela pelos filhos. Sua santidade. Santa simplicidade”
Começa um bloco sobre a vida de Jorge Bergoglio na Argentina. O JN lembrou rapidamente das críticas mais fortes que pesam sobre o novo papa, seu suposto apoio à ditadura no país vizinho:“Durante a década de 1970, na ditadura argentina, Bergoglio era a principal autoridade eclesiástica do país. Um jornalista o acusou num livro de ter dado informações que levaram à prisão de 2 padres jesuítas, que supostamente teriam ligações com grupos de esquerda. Em sua defesa, Bergoglio disse que há um documento que prova o contrário, ele pediu a renovação dos vistos de permanência no país de um deles. Já um biógrafio do papa diz que ele agiu secretamente para ajudar a retirar perseguidos politicos da Argentina”. Esse pedaço “crítico” do noticiário, que durou pouco mais de um minuto, termina assim: “Papa Francisco tem posição semelhante a de Bento XVI: é contra o uso de preservativos”.
Voltam as frases:
“Na terra santa, as pessoas rezaram e se disseram contentes com a escolha de um papa humilde, de nome Francisco”
“Por todo oriente médio foi assim: atenções voltadas para o homem de fala suave e olhar sereno”
“Já que estamos falando de carisma, o que chamou a atenção hoje aqui nas ruas do Vaticano foi o número de fieis tirando fotos, entrando nas lojas e perguntando se tinha um santinho, um terço, uma lambrança do novo papa. Isso horas depois dele ter sido eleito. E quem procurou muito, acabou encontrando. Eu achei, nós procuramos bastante e achamos, tá aqui: “Habemus Papam Franciscum [e mostra um santinho com a cara do argentino]. Tá aqui Bonner, tô mostrando pra vocês”
No bloco final, a ameaça de um pouco de jornalismo: “Apesar de tanto segredo, a imprensa daqui começa a publicar alguns detalhes do conclave que elegeu o novo papa. De acordo com o que um respeitado vaticanista declarou a um jornal italiano, a primeira votação apresentou o italiano Ângelo Scola, o canadense Mark Ouellet e Jorge Bergoglio com mais votos”. Patrícia Poeta, contudo, desconversa: “Mas isso não importa mais”. E volta ao normal:
“Em mais uma demonstração do bom humor que estamos começando a conhecer, o papa brindou com os cadeais que o escolheram”
Por fim, recebe os cumprimentos do parceiro de mesa e editor do JN, William Bonner, que encerra assim o jornal:
“Missão cumprida, Patrícia. Para você e para toda nossa equipe que fizeram esse trabalho belíssimo aí no Vaticano, parabéns”.

Fonte:  Conversa Afiada

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Mídia conservadora tenta desestabilizar a sociedade brasileira com discurso extremista




Gilberto de Souza, Correio do Brasil 

“O ano de 2013 tende a ser uma prova de fogo para a democracia brasileira. O governo da presidenta Dilma Rousseff, que ensaia reformas de base como o fim da miséria no país em plena crise na estrutura do sistema capitalista mundial; o Legislativo, no qual os partidos de esquerda vêem as legendas conservadoras submergir em uma série de derrotas históricas nas últimas eleições municipais; e o crescimento da mídia alternativa aos diários conservadores que, dia após dia, perdem mais leitores, assinantes e se debatem com a falta de apoio publicitário dos tradicionais parceiros, ligados a um capital internacional em via falimentar, são fatores que tensionam e tendem a radicalizar o processo político brasileiro.

Ao perceber a aceitação do discurso voltado à justiça social, ao fim da concentração de renda no país e ao abandono sistemático das fórmulas econômicas ortodoxas, os brasileiros têm mostrado, nas urnas, que o fio condutor da economia brasileira mudou e a transformação foi aprovada. No Estado de São Paulo, de longe o mais conservador do país, a proposta das esquerdas foi consagrada na eleição do ex-ministro Fernando Haddad, após uma costura de bastidores entre legendas de tendências que vão do comunismo ao obscurantismo religioso. Mas todos voltados para a derrota do então líder da legião conservadora, José Serra, ora de partida para o ostracismo. O pragmatismo político do novo centro de poder da capital paulista assegurou mais um passo na direção da realidade pretendida pelo governo da presidenta Dilma.
No Supremo Tribunal Federal (STF), um processo no qual escutas transcritas pela Justiça lançam graves suspeitas sobre os principais líderes da direita no país, entre eles o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, seu então ministro da Saúde, José Serra, o ex-governador do Estado de Minas Gerais, Aécio Neves, senadores e líderes da direita mais extremada, é o próximo na fila de julgamentos e, na nova configuração da Corte, tende a cruzar os meses do segundo semestre de 2013 até meados do ano eleitoral. A Ação Penal (AP) 536 tende a abraçar, ainda, as denúncias contidas no best seller do jornalista Amaury Ribeiro Jr., A Privataria Tucana, que esmiúça o processo de privatização realizado no governo de FHC, sobre o qual pesa uma avalanche de ações na Justiça.”


Percebe-se, assim, o gradual distanciamento da maioria do eleitorado brasileiro das velhas estruturas oligárquicas que, até hoje, mantêm-se aferroadas à máquina estatal como forma de garantir os interesses das grandes corporações na economia brasileira, apesar dos esforços cada vez maiores da mídia conservadora para minar a credibilidade da proposta vitoriosa nas urnas. O nível de convencimento do eleitorado permanece em queda para os principais líderes de audiência, entre eles o Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, flagrado em um movimento escancarado de apoio ao candidato derrotado em São Paulo, durante o período do último horário eleitoral gratuito. O caso gerou uma representação contra a emissora, subscrita por Eduardo Guimarães, coordenador do Movimento dos Sem-Mídia, que segue seu curso na Justiça paulista.
Empurrados para o corner da sociedade, os velhos defensores do Estado autocrático, da mídia que apoiou a ditadura militar, da manutenção dos privilégios às castas mais ricas do país em detrimento à distribuição da riqueza nacional, estes se voltam cada vez mais raivosos contra os defensores do Estado justo, social e economicamente, em curso no Brasil desde a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Diante das transformações inexoráveis, a mobilização dos líderes da direita em defesa de seus interesses também aumenta. Os canais de TV, os principais jornais e revistas impressos do país, as concessões de rádio que estes grupos empresariais detêm passam a transmitir mensagens cada vez mais claras aos seus aliados para que se levantem contra uma outra espécie de ‘perigo vermelho’, a exemplo do que ocorreu no golpe de 1964.
Desta vez, porém, tanto fatores externos quanto internos formam um caldo de cultura completamente toxico às quarteladas do século passado ou aos golpes patrocinados por setores ínfimos, e riquíssimos, da sociedade brasileira, com apoio de uns Estados Unidos de outrora que, hoje, lutam para se manter acima da linha d’água no panorama geopolítico mundial. O capitalismo em crise, por sua vez, também deixa a ver navios os segmentos mais reacionários em atividade no Brasil, como o da mídia, embora instituições como o Instituto Millennium, destinadas à sobrevivência do ideário capitalista a qualquer preço, monitorem as reações ao surgimento de um novo modelo social no Brasil e na América Latina, onde países como Argentina, Bolívia, Equador, Peru, Uruguai e Venezuela caminham a passos largos na direção do socialismo.
Tais reações, espelhadas nas páginas dos meios conservadores de comunicação ou nas telas das redes de TV ligadas aos setores mais retrógrados do pensamento brasileiro, no entanto, têm o poder de esticar a corda da paciência de cada cidadão, a ponto de levar a sérias rupturas nos meios familiares e mesmo em certas relações de trabalho ou de amizade. O radicalismo da mídia conservadora se exacerba, por exemplo, em um dos programas do canal fechado de jornalismoGlobonews, no qual o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega explica porque é importante pagar uma conta de luz mais cara e de que forma uma medida de alto impacto econômico, como a redução no preço da energia elétrica, seria quase um ato terrorista praticado pela presidenta do país.
Em certas circunstâncias, a agenda da direita brasileira volta-se muito mais à queda do modelo social em curso do que para o fim de uma gestão, em certos aspectos, simpática ao empresariado, como é o caso da atual. Assim, o discurso pseudo-moralista que vigora nas principais colunas dos diários ou nos programas da TV ligados aos conservadores espraia-se para a sociedade de forma a provocar reações cada vez mais extremadas. É o próprio Eduardo Guimarães que relata, a seguir, ser vítima de ameaças por conta de suas posições políticas de apoio ao presidente Lula e à presidenta Dilma.
Segundo Guimarães, há um processo que se materializa no país e que ele já viu “ocorrer em países sul-americanos (…) com destaque para a Venezuela”.
“Não foi uma só vez em que fui ameaçado de espancamento ou de morte tanto via comentários aqui no Blog (da Cidadania) quanto no Twitter”, relata Guimarães.
“Nunca dei maior importância a esses psicopatas. Apesar de achar que só fazem tais bravatas por trás de um computador, um deles foi munido de cartazes me caluniando ao encontro de blogueiros em Brasília, em 2010, e, em dado momento, fez menção de me agredir. O mais grave é que um maluco é uma coisa, mas, naquela oportunidade, o pirado estava com um irmão tão pirado quanto ele. Ou seja, se eram doentes, a doença atingiu a ambos. Claro que, tanto quanto as outras ameaças que recebi, esta também será enviada às autoridades devido à gravidade, pois o indivíduo, obviamente que oculto sob um pseudônimo, ameaçou me matar a tiros”, afirma.
Em uma das ameaças, devidamente comunicada à polícia, o leitor identificado apenas como Galeão Cumbica, em comentário a um de seus artigos, promete atirar no redator
“Só de pensar que esse tipo de animal com nome de gente, Eduardo Guimarães, financiado com dinheiro publico escreve um lixo desse calibre, dá vontade de encontrar o sujeito e meter-lhe um balaço no meio da cara!!! (…)”, afirma o comentarista. Para Guimarães, a afirmativa não passa de “uma bravata”.
“Nem acho que quis me intimidar. Apenas externou seu ódio, um ódio que não nasceu em si, mas que foi instilado pela mídia, pelos Reinaldos Azevedos, Augustos Nunes, Elianes Cantanhêdes e congêneres. O problema, portanto, não sou eu ou esse pirado – nem os outros tantos que há por aí. O problema é que a direita midiática está desencadeando, no Brasil, um processo que vi, recentemente, em países vizinhos. Até alguns poucos anos atrás eu viajava bastante à Venezuela e, lá, vi várias cenas de batalha campal. Certa vez, chavistas e antichavistas quebraram uma lanchonete em que eu estava. Cheguei a levar um murro no estômago ao tentar proteger uma moça empurrada por um dos brigões. Vi essas coisas acontecerem, também, na Bolívia e no Equador. No Brasil, tudo tem se resumido, salvo exceções, à internet, com os valentões bem escondidinhos por trás do computador, inclusive usando codinomes”, escreveu Guimarães.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

TV manipula notícia sobre criação de empregos



Na quarta-feira (19/12), no Jornal Nacional, o gráfico atrás da apresentadora Patrícia Poeta mostrava a criação de 1,77 milhão de empregos até agora, em 2012. Considerada a pindaíba econômica do mundo ocidental, qualquer cidadão de outro país olharia com inveja para cá. Mas na Globo não é assim: toda notícia que venha do governo tem que ser “negativada”.
Foi o que fizeram. Este foi o texto lido pela apresentadora:
“A criação de empregos com carteira assinada, este ano, foi 23% menor do que em 2011. É o pior resultado desde 2009. Mas, isoladamente, os números de novembro mostram um aumento de quase 8% no emprego formal.”
Quem estivesse jantando nessa hora sem olhar para a TV não veria o gráfico e faria juízo sobre a informação apenas com o que estivesse ouvindo. Desta vez mudaram a técnica: deram a notícia positiva de forma negativa, e no fim veio o “mas” positivando parcialmente os fatos. Isso é democracia, liberdade de expressão e tudo o mais que eles dizem quando se quer acabar com o oligopólio da mídia? O nome disso é partidarismo de mídia através de manipulação da notícia.
Paranoia? Perseguição à Globo? Coisa de esquerdista, de petista, de lulista, brizolista? Confira aqui mais essa vergonha. Agora veja a notícia por outro ângulo: “Brasil cria 1,77 milhão de empregos com carteira assinada em 2012”.
Os dados do Caged
De janeiro a novembro deste ano, foram abertos 1.771.576 postos de trabalho com carteira assinada no Brasil, o que representa uma expansão de 4,67% no nível de emprego comparado com o final de 2011, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado na quarta-feira (19/12) pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Os dados de novembro, segundo o MTE, mostram continuidade à tendência de crescimento do emprego no Brasil, que registrou pela terceira vez em 2012 um saldo superior ao do ano anterior. Foram declaradas 1.624.306 admissões e 1.578.211 desligamentos no referido mês. Como resultado, o saldo do mês foi de 46.095 novos empregos com carteira assinada no Brasil, correspondentes ao crescimento de 0,12% em relação ao registrado no mês anterior.
Segundo o Caged, apresentaram desempenho positivo no mês o comércio, com 109.617 postos (1,27%), sendo o terceiro melhor saldo para o período; e serviços, com 41.538 postos (0,26%). Por outro lado, alguns setores apresentaram desempenhos negativos. A construção civil teve baixa de 41.567 postos (-1,34%), decorrente de atividades relacionadas à construção de edifícios (-15.577 postos) e construção de rodovias e ferrovias (-8.803 postos), associados a términos de contratos e a condições climáticas.
Complexo sucroalcooleiro puxa emprego para baixo
Na agricultura, houve retração de 32.733 postos (-1,98%), devido à presença de fatores sazonais negativos. A indústria de transformação teve perda de 26.110 postos (-0,31%), proveniente dos ajustes da demanda das festas do fim do ano, queda menor que a ocorrida em novembro de 2011 (-54.306 postos ou -0,65%).
O emprego cresceu em três das cinco grandes regiões, sendo a Sul, com 29.562 postos (0,41%); Sudeste, com 17.946 vagas (0,08%), e Nordeste, com 17.067 empregos (0,28%). As exceções ficaram por conta da região Centro-Oeste (-14.820 postos ou -0,50%), cuja redução deu-se ao desempenho negativo da agricultura (-9.130 postos); da construção civil (-6.393 postos) e da indústria de transformação (-5.929 postos); e da região Norte (- 3.660 postos ou -0,21%), onde a construção civil (-3.371 postos) e a indústria e transformação (-2.084 postos) foram os principais setores responsáveis pela queda no mês.
Por unidade da federação, dezesseis tiveram expansão do emprego. Os destaques foram Rio Grande do Sul (+15.759 postos ou 0,61%); Rio de Janeiro (+13.233 postos ou 0,36%); Santa Catarina: (+8.046 postos ou 0,42%); São Paulo (+7.203 postos ou 0,06%); Paraná (+5.757 postos ou 0,22%) e Bahia (+5.695 postos ou 0,34%). Os estados que demonstraram as maiores quedas no nível de emprego foram: Goiás (-8.649 postos ou -0,75%), devido, principalmente, às atividades relacionadas ao complexo sucroalcooleiro, e Mato Grosso (-5.910 postos ou -0,97%), por causa do desempenho negativo do setor agrícola (-4.798 postos) [ver aqui].
Fernando Branquinho, jornalista, Brasília, DF
No Observatório da Imprensa

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Jornal Nacional: Santoro, Cachoeira e o interrogatório da madrugada

A partir do post Quem armou para arrancar Zé Dirceu do governo Lula?, uma leitora conseguiu, por meio de uma empresa de clipping, a edição de 30 de março do Jornal Nacional. Prestem atenção nos personagens envolvidos e em como essa história dos grampos que desencadearam na crise política de 2005 ainda tem muito a revelar.
Jornal Nacional do dia 20 de março, que revela depoimento de Cachoeira ao subprocurador da República José Roberto Santoro, antes de o caso se tornar um escândalo


No Blog do Rovai

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Muito além da bancada do JN


Eliakim Araujo, Direto da Redação
 
“Na Globo, nem sempre as coisas são como parecem. Quem conhece as entranhas do Jardim Botânico tem fortes razões para desconfiar que há outra motivação por trás da troca de apresentadoras na bancada do Jornal Nacional.  Razões profissionais e  políticas.

Para começar, a pergunta que não foi feita por nenhum dos jornalistas presentes à coletiva que comunicou a mudança:  “o que leva uma apresentadora a deixar espontaneamente uma posição de prestígio, como é a bancada do principal – apesar de tudo – telejornal da televisão brasileira em troca da promessa de um programa que só vai entrar no ar depois da metade de 2012?”.   Se tudo ocorrer como, dizem,  está planejado.

Não é estranho?  A gente sabe que  “novos projetos”  muitas vezes não saem do papel e, quando saem, podem redundar em fracasso e, em consequência, retirados rapidamente da grade de programação.  Já vimos esse filme várias vezes.   E se isso acontecer, qual será o destino de Fátima Bernardes?  Certamente um longo período  sabático, como aconteceu com Gloria Maria quando foi despachada da apresentação do Fantástico.

Estranho também que Fátima, que já foi a musa da Copa (ou de várias Copas),  abandone a cadeira ao lado do maridão  para entregá-la de mão beijada à concorrente,  mais jovem e, talvez, mais bonita.
Por isso mesmo, quando vi hoje um video em que Fátima leva Patricia para conhecer o estúdio do JN, tudo me pareceu falso e parte de uma grande encenação para que todo mundo saia bem na foto.   A posição de cada câmera no estúdio é algo que qualquer apresentador com o mínimo de experiência sabe como funciona. Câmera 1 no apresentador,  câmera 2 na apresentadora e câmera 3 em plano aberto, com os dois apresentadores na tela. Isso é primário, Patricia deve estar careca de saber disso.  É assim que funciona também no Fantástico, que ela apresentou vários anos, e no mundo inteiro.  E o pior é que a reportagem foi apresentada como “o JN fazendo história”. Imagine, desde quando a troca de apresentadoras em um telejornal é fazer história? Fazer história seria um "mea culpa" do telejornal pedindo desculpas aos telespectadores pelas inúmeras vezes em que os noticiários globais distorceram fatos em benefício próprio ou de seus apadrinhados políticos. 

A ”matéria” foi visivelmente enganosa e serviu apenas para levar o telespectador mais ingênuo a acreditar num falso entendimento entre as duas, com Fátima fazendo o papel da simpática professorinha que ensina as primeiras letras a uma aluna neófita, que nunca viu um estúdio de TV.
A verdade é que o JN vem despencando nas pesquisas e não é de hoje.  A derrocada da audiência nos últimos anos – não pelo crescimento dos concorrentes, mas pelo surgimento de novas mídias e outros interesses dos telespectadores - acendeu a luz vermelha na direção do jornalismo global.  Alguma coisa precisava ser feita para tentar resgatar os pontos perdidos no Ibope.  Alguém precisava ser sacrificado e a vítima foi Fátima Bernardes, visivelmente cansada no video e abafada pela personalidade do marido William Bonner.”
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sábado, 3 de dezembro de 2011

Jornal Nacional: a influência continua?

Jornal Nacional: a influência continua?

Foto: FABIO MOTTA/AGÊNCIA ESTADO

A SUBSTITUIÇÃO DE FÁTIMA BERNARDES POR PATRÍCIA POETA NA BANCADA APONTA PARA UMA REDEFINIÇÃO DO PRINCIPAL TELEJORNAL BRASILEIRO; A APRESENTADORA DO FANTÁSTICO LEVA BELEZA PARA OS TELESPECTADORES, NA TENTATIVA DE REVERTER UM DOS PIORES ÍNDICES DE AUDIÊNCIA DO JN, QUE TINHA MAIS DE 50 PONTOS NO IBOPE COM CID MOREIRA E SÉRGIO CHAPELIN; MAS PATRÍCIA TEM CREDIBILIDADE?
Brasil 247 – A escolha da apresentadora do Fantástico para substituir Fátima Bernardes na bancada do Jornal Nacional acena para uma mudança no perfil do principal telejornal brasileiro. A chegada de Patrícia Poeta indica que o JN vai ter um caráter mais revistado, como o programa dominical, com jeito descontraído e até mais glamour. A decisão de levar para o lugar de Fátima a jornalista consagrada como “garota do tempo” pode ser uma manobra da TV Globo para alavancar a audiência do Jornal Nacional. Enquanto nos tempos áureos de Cid Moreira e Sérgio Chapelin, o JN registava mais de 50 pontos no Ibope, hoje a média é de 30 pontos (segundo a Record, 29)....