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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

AS CONTRADIÇÕES SE EXPLICITAM; A CRISE POLITICO-ECONÔMICA SE APROFUNDA.


"O nome disso é loucura. Haja arte e criatividade para curá-la."
(jornalista Arnaldo Bloch,  traçando um paralelo entre a cura da 
loucura política e as terapias alternativas da dra. Nise da Silveira)
.
Não é só aqui. Atualmente, no mundo todo, ocorrem mudanças políticas de gestores e choques de opiniões sobre conceitos político-econômico-institucionais, sem que se ataque o cerne do problema. 

Fatos inusitados começam a ocorrer. No Brasil podemos citar os da última 4ª feira (30/11):
  • um quebra-quebra praticado por cerca de 10 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios em Brasília, sem que a polícia em número bem inferior pudesse conter a avalanche de insatisfação;
  • políticos aprovam leis na calada da noite em causa própria e se cria uma explícita contradição entre o exercício dos poderes do Estado. 
Enquanto isto, o povo sofre com o desemprego, o empresariado sofre com a estagnação dos seus negócios e o Estado definha com a queda da arrecadação de impostos.

Serão tais acontecimentos apenas localizados, fruto da iniciativa pessoal de um magistrado federal de 1ª instância que tomou para si, juntamente com outros órgãos (Ministério Público e Polícia Federal), a iniciativa de puxar o fio do novelo da corrupção crônica? Ou se trata do resultado de uma decomposição sistêmica?
Até onde irá Sérgio Moro?

O fato é que as contradições inerentes à ilogia de um sistema fundado em bases incoerentes por sua própria essência constitutiva, mais cedo ou mais tarde tende a tornar explícitas tais contradições, como agora ocorre. As pessoas tendem a acreditar, ingenuamente, que é possível se combater a corrupção num sistema corrupto na sua essência constitutiva. Não é. A corrupção é da natureza funcional do sistema. 

A prova disto é que a explicitação feita pelas investigações da Operação Lava-Jato (no dizer de um membro do Ministério Público, "para cada pena que se extrai, aparece uma galinha inteira") já começa a entrar em choque com o Legislativo, um dos poderes do mesmo Estado a que pertencem a Polícia Federal, o Ministério Público e o próprio Poder Judiciário. Não é uma questão de algumas pessoas, mas da quase totalidade de uma instituição e do seu espírito e modus operandi funcional.    

No mundo todo o jogo político eleitoral encobre verdades inconfessáveis de manipulação econômica e da informação que molda a opinião pública. Nada é o que parece ser. Nem os democratas estadunidenses são tão humanistas quanto querem aparentar, nem os dirigentes e políticos republicanos acreditam nas benesses públicas que o propalado desenvolvimento econômico deveria proporcionar. A retórica que todos eles utilizam em discursos, pronunciamentos e entrevistas não passa de blablablá da boca pra fora. 

Só os muito ingênuos acreditam nas mensagens de campanhas eleitorais, que os marqueteiros preparam e os candidatos repetem como papagaios. Quando no governo, esquerda e direita tendem a ter comportamentos praticamente idênticos, vez que, tais quais surfistas, apenas se equilibram na onda da lógica econômica que lhes serve de conceito e de bússola. 
Legislativo se avacalha, Judiciário  ocupa espaços vazios

O que se observa agora, com a tentativa de eliminação pelo Legislativo das franquias constitucionais do Judiciário (inamovibilidade, vitaliciedade, irredutibilidade de vencimentos, imunidade de formação de juízo de valor) é a explicitação da inconciliável oposição entre o melhor senso de aplicação da justiça e um sistema que faz da injustiça a sua razão de ser, via funcionamento da lógica das relações sociais mercantis, subtrativa da riqueza coletiva produzida. Vejamos três pontos:
1) o processo eleitoral, determinado pelo poder econômico e midiático (empresas jornalísticas que pertencem ao mundo econômico), é viciado por tal condição e, portanto, os seus membros, majoritariamente, pertencem a este universo de relações e são por ele sustentados. É contrário ao interesse popular. Assim, como querer que defendam a elaboração de leis justas e de realização da justiça?
2) o poder Judiciário trabalha com leis formatadas por esse poder Legislativo e dentro da lógica do capital: trata-se de um direito legiferado, que é a negação do direito natural. Depois de muitas filigranas de interpretação jurídica e aculturação secular positivando tais cânones jurídicos é que a legislação de cada país capitalista se constitui em diplomas jurídicos que proclamam e buscam a realização do ideal de justiça. Como tudo nas relações mercantis, a verdade é o momento do falso(Guy Debord); 
3) a guerra da concorrência mercantil, na qual as grandes empresas nacionais e internacionais disputam fatias de mercado cada vez mais exíguas, exige comportamentos inconfessados, que a legislação vigente não pode ratificar explicitamente. Mas, os ditos cujos são praticados à farta nas tenebrosas transações que têm lugar no submundo dos gabinetes dos importantes dirigentes empresariais e governamentais. 
O poder Judiciário, quando resolve coibir tais transações, entra em choque com a natureza funcional do sistema, provocando um efeito contrário ao pretendido; ou seja, ao invés de estimular os negócios, provoca maior estagnação econômica localizada, num cenário de estagnação global, daí as tentativas de de coibir sua atuação, como ocorre agora.       
É NA BASE DA CRISE POLITICO-INSTITUCIONAL QUE
 ESTÁ A CRISE ECONÔMICA, E NÃO O CONTRÁRIO. 

Nos tempos de ascensão capitalista, ainda que o quadro geral seja sempre de pobreza, acredita-se, equivocadamente, que as coisas estejam melhorando e seguindo um curso de prosperidade futura geral. Aceitam-se os sofrimentos como dores do parto das benesses vindouras (como agora se crê na cantilena da austeridade para a retomada do desenvolvimento). 

Nestes momentos, o poder Executivo, fortalecido e convivendo com a sensação de satisfação geral, inibe qualquer iniciativa de contestação às instituições, sendo tudo abafado como pecadilho pontual em nome do interesse sistêmico maior.

Quando chega a debacle econômica, procuram-se culpados pontuais sobre os quais se possa jogar a culpa da crise. 
O capitalismo, hoje: um cobertor curto.
A alternância de cenários econômicos está por trás da eterna alternância de governantes no poder, cada um com seu discurso de salvação e competência, sem que nenhum chegue à raiz de problema, que é a necessidade imperiosa de superação do próprio sistema, pois se tornou impossível o seu aperfeiçoamento. 

A vez agora é do discurso do nacionalismo xenófobo que contraria as últimas bolhas de oxigênio do capitalismo. As contradições se tornam cada vez mais explícitas. 

A crise, ademais, fortalece na opinião pública a crença de que é suficiente a meritória (mas ingênua) cruzada de alguns integrantes do poder Judiciário que tentam consertar o inconsertável. A corrupção com o dinheiro público, contudo, está longe de ser a causa de todos os males; é apenas um deles.
  
Passamos pela mais grave e demorada crise econômica desde a depressão iniciada em 1929 e que se prolongou pela década de 1930 adentro, pois agora, diferentemente dos mecanismos de controle estatal econômico ainda existentes naquele momento, as contradições atuais são insuperáveis, porque generalizadamente decorrentes da crise profunda dos fundamentos econômicos no estágio do limite de expansão interna do capital; e têm proporções gigantescas, com as labaredas do incêndio se propagando sem que haja bombeiros em número suficiente para as debelarem. 

Por que não se pensa em formas alternativas de superação de crise, insistindo-se na busca de soluções que são imanentes à causa dos problemas? 

Porque os mecanismos de controle sistêmico, guiados por uma lógica funcional preexistente (não é uma questão de pessoas pensando, mas de pessoas que agem sem pensar, obedientes a tal lógica da qual se tornaram dependentes), não consegue se desapear de sua programação, tal qual os bonecos de teatros de marionetes, cujos movimentos são manipulados de fora.

Nunca nos foi tão urgente adquirirmos consciência do que deve e pode ser feito.
 (por Dalton Rosado)
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/12/as-contradicoes-se-explicitam-crise.html

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A ECONOMIA MUNDIAL EM RITMO DE CONSTANTE BLACK FRIDAY


"A teoria revolucionária é, agora, inimiga de toda ideologia
revolucionária, e sabe que o é (...). No mundo realmente
invertido, o verdadeiro é o momento do falso"
(Guy Debord, A sociedade do espetáculo)
.
A chamada Black Friday, evento com o qual o comércio tenta se livrar dos estoques encalhados, pode ter, em termos mais amplos, um significado (e leitura) oposto: a dessubstancialização do valor das mercadorias, ou seja, a deflação mundial do valor e dos preços.

Isto porque, conforme explicou Marx, o capital é uma contradição em processo. Então, a mecânica da mediação social pela forma-valor (relação social indutora do capitalismo) não pode ter vida perene e seu desfecho será catastrófico, o que já se faz sentir pelos sintomas que ora nos afligem, com intensidade cada vez maior.

A dessubstancialização do valor das mercadorias é o fenômeno da economia política que mais evidencia o seu aspecto contraditório e, portanto, prenunciador de uma situação falimentar futura e do colapso social sob suas bases, caso não seja superada em tempo. Daí a crítica à sua perenidade se comprovar como consistente ao longo do tempo.   

Tudo se resume à compreensão de que máquina não produz valor, embora aumente circunstancial e episodicamente o lucro localizado do capital industrial que a introduz na produção industrial de mercadorias.

Quando um único operador é suficiente para controlar a produção de uma máquina (ou até do conjunto de máquinas de uma seção), há uma exacerbação da extração de mais-valia.  
TESTE: encontre gente nesta linha de produção.

O dito cujo pode receber um salário bem maior que a média individual de sua profissão no passado, mas foi substancialmente reduzido o número dos explorados a fornecerem mais-valia para o capitalista. Portanto, isto provoca uma queda da massa global de valor e de mais-valia.

Os leigos (e os economistas burgueses também) geralmente consideram que a redução do preço das mercadorias no mercado, decorrente da queda do valor das mesmas na produção, proporciona aos trabalhadores assalariados um maior poder de compra e consequente melhora das suas condições de vida. Henry Ford, há 110 anos, via nisto uma grande virtude do capitalismo. Mas quem sempre esteve certo é o velho Marx, ao afirmar o contrário nosGrundrisse, quase meio século antes.  

Trocando em miúdos: a queda do valor na produção de mercadorias proporcionado pela introdução da tecnologia que dispensa esforço humano (leia-se trabalha abstrato, assalariado), quando atinge uma proporção maior do que a criação de novos empregos, esbarra no limite de sua indispensável expansão e entra em colapso. É o que ocorre hoje, em escala mundial.

Aí, ao contrário da compreensão equivocada, o aumento do lucro localizado não provoca mais riqueza abstrata global e correspondente aumento da massa global de valor e de mais valia. Isto porque a queda dos custos de produção reduz o valor global das mercadorias e, consequentemente, trava uma expansão da produção que compensasse tal queda. Assim, definha todo o organismo econômico por falta de renovação aumentada e vital do seu sangue: o valor.  

Por outro lado, o aumento da capacidade de compra dos poucos trabalhadores agora incumbidos da referida manipulação das máquinas na produção não compensa a massa de salários dispensada (quanto mais qualificada é a mão-de-obra, mais se agrava o problema, diferentemente do que se ouve diariamente da boca dos políticos demagogos). 
Tal fenômeno acarreta o desemprego estrutural que atinge hoje grande parte da população e reduz a zero a capacidade de compra desse contingente, provocando um fenômeno inverso àquele afirmado por Henry Ford e seus adeptos.

Ademais, definha a necessária irrigação de outros setores da economia em razão da falta do tal sangue monetário (valor válido, advindo da produção de mercadorias) graças à redução da massa global de valor, prenunciando:
a) a falência do Estado, que vê reduzida a arrecadação dos impostos extraídos da própria economia; e
b) a falência do sistema financeiro, que aufere juros da venda da mercadoria dinheiro (
capital fictício, Marx) para a chamada economia real em depressão, e vê o capital emprestado virar fumaça graças ao aumento insuportável do nível geral de inadimplência. 
A redução do valor e do preço das mercadorias, duas coisas distintas que se correlacionam, não beneficia os assalariados de baixa renda, posto que a concorrência de mercado exige permanentemente uma diminuição dos salários reais, que se dá por meio da inflação (nos últimos 50 anos o dólar estadunidense, moeda internacional, desvalorizou 600%); pela demissão e admissão de novos trabalhadores para as mesmas funções, com salários menores; ou pela transferência da produção para regiões de baixos salários substitutivos, como a China, Índia, Indonésia, Brasil, etc.

É, portanto, ilusória a ideia de que a queda dos preços melhora a vida da maioria dos trabalhadores. Em Detroit, berço da indústria automobilística estadunidense, os bisnetos dos fundadores da Ford Co. estão desempregados, desesperados e votando no Trump, desejosos da volta a um passado que o vento levou. Querem apagar o fogo com gasolina.  

O motivo, claro, é que o capital necessita de constante margem de diferença entre o trabalho necessário (pago ao trabalhador) e o trabalho excedente (não pago ao trabalhador na sua faina diária); daí retira o lucro necessário à sua acumulação permanente, sem a qual ele morre. Como há uma redução do valor e preço das mercadorias, opera-se uma forçosa redução dos salários como forma de manutenção da atividade produtiva. Um jogo matemático corrupto cuja lógica aponta para o colapso.

Este é um dos entraves que está ocorrendo na produção de mercadorias, de vez que nem sempre tal equação (redução de salários necessários e manutenção do trabalho excedente) se viabiliza no mercado. 

A produção trava quando não há viabilidade econômica da produção, fato que é cada vez mais constante e que causa depressão econômica. Somente se produz o que tem viabilidade econômica de mercado, não interessando ao patronato se isto provoca fome e desespero social. Assim é o capitalismo.

Tudo conspira contra a estabilidade das relações mercantis.    

O limite interno de expansão do capital foi previsto por Marx, quando vaticinou que a redução do trabalho abstrato a uma base miserável em quantidade (desemprego estrutural) equalidade (capacidade do poder de compra em valor), devido à sua substituição preponderante pela máquina, faria voar pelos ares todo o sistema produtor de mercadorias. E tal limite foi atingido agora.
Por Dalton Rosado

Vivemos o momento de uma Sexta-feira Negra mundial diária, a qual, longe de auspiciosa, é sintoma de deflação sistêmica do valor e sinal dos últimos suspiros da sociedade mercantil capitalista, apesar desse moribundo demandar tempo para descer à sepultura (e de querer nos arrastar juntos para a tumba!).

https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/11/a-economia-mundial-em-ritmo-de.html

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Valoriza-se mais o Ter que o Ser

A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social levou, na definição de toda a realização humana, a uma evidente degradação do ser em ter. A fase presente da ocupação total da vida social em busca da acumulação de resultados económicos conduz a uma busca generalizada do ter e do parecer, de forma que todo o «ter» efectivo perde o seu prestígio imediato e a sua função última. Assim, toda a realidade individual tornou-se social e directamente dependente do poderio social obtido. 

(...) O espectáculo é o herdeiro de toda a fraqueza do projecto filosófico ocidental, que foi uma compreensão da actividade dominada pelas categorias do ver; assim como se baseia no incessante alargamento da racionalidade técnica precisa, proveniente deste pensamento. Ele não realiza a filosofia, ele filosofa a realidade. É a vida concreta de todos que se degradou em universo especulativo.

A filosofia, enquanto poder do pensamento separado, e pensamento do poder separado, nunca pode por si própria superar a teologia. O espectáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa. A técnica espectacular não dissipou as nuvens religiosas onde os homens tinham colocado os seus próprios poderes desligados de si: ela ligou-os somente a uma base terrestre. Assim, é a mais terrestre das vidas que se torna opaca e irrespirável. Ela já não reenvia para o céu, mas alberga em si a sua recusa absoluta, o seu falaccioso paraíso. O espectáculo é a realização técnica do exílio dos poderes humanos num além; a cisão acabada no interior do homem. 

Guy Debord, in 'A Sociedade do Espectáculo'
By: Poiétiko