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quarta-feira, 4 de março de 2015

O Brasil e as marchas de março



















Ouvi de um amigo agora pela manhã, falando sobre a marcha do dia 15, chamada pela direita brasileira: "Eu já não sei mais o que é esquerda, o que é direita". Eis aí um grande nó para a compreensão da realidade. Acreditar que não há mais diferenças na forma de pensar e agir sobre o mundo é cair numa armadilha de alienação. Sempre foram muito claros os conceitos de direita e esquerda. Ser de direita é apostar na conservação dos privilégios de poucos, é a postura da maioria dos mais ricos, por exemplo. Eles querem seguir controlando as riquezas do país, para delas tirarem proveito, querem dominar o espaço político, querem manter os mais pobres sob controle. Já ser de esquerda é lutar contra isso, garantindo participação para todos, direitos respeitados, o fim da opressão.

Pode parecer meio simplista explicar as coisas assim, mas de fato a coisa é mesmo simples. A sociedade está dividida em classes sociais. Uma, controla a produção e a outra vende seus serviços. Uma domina, outra é explorada. E é justamente sobre a exploração de uma classe que a outra garante seus lucros e sua vida boa. No meio desse processo as pessoas vivem uma sistemática batalha. Os que são explorados querem uma vida melhor, e os que exploram procuram não permitir que isso ocorra. Quando muito abrem mão de coisas pequenas, quando a luta se acirra, apenas para tentar acomodar as coisas. Mas, no fundo, segue apostando na manutenção dos privilégios.

A confusão sobre o que é ser esquerda e direita, em parte, foi provocada pelo próprio Partido dos Trabalhadores, hoje no poder político. Forjando toda a sua construção em pautas da esquerda, o partido chegou ao governo e passou a ceder passo aos velhos grupos da tradicional direita. Tudo isso dentro da chamada tentativa de governabilidade. Dilma, por exemplo, agora , nesse segundo mandato chegou ao cúmulo de entregar setores estratégicos como as finanças, a agricultura e a educação para figuras carimbadas da direita nacional. Difícil então não ficar confuso.

O fato é que esses malabarismo de governabilidade só alimentam o monstro. A elite brasileira é insaciável. Não lhe basta ter os setores estratégicos na mão. Ela quer tudo. Então, engordados pelo próprio governo, os velhos grupos de poder vão se fortalecendo, chegando ao ponto de pedirem o impedimento e a renúncia da presidente. As razões para isso - aparentemente - são as irregularidades na Petrobras. Argumentos bastante pueris e insustentáveis. Mas, apesar da fragilidade da consigna, esses grupos tem conseguido aglutinar pessoas que, mesmo no grupo dos explorados, por algum motivo "compram" a proposta da direita. Temos visto gente gritando pela volta do regime militar, argumentando que será só para tirar a Dilma, "depois eles entregam o país". Para quem? Ah, bom, isso não importa. Há uma completa falta de compreensão histórica. Os tenebrosos anos de regime militar, que tantos horrores causaram nos mais variados países latino-americanos parecem ter sido apagados da memória. Existe uma juventude que tampouco tem noção do que está dizendo quando chama a intervenção militar. É uma ingenuidade muito bem aproveitada pelos marqueteiros do golpe.

Agora, os movimentos sociais, cuja maioria estava adormecida e domesticada,começam, lentamente, a perceber que há uma grande batalha em curso. E procuram uma reação. Por isso estão chamando uma marcha para o dia 13, dois dias antes da marcha da direita. E, assim, o Brasil vai  realizar um exercício de manobras nas ruas, expressando claramente os interesses em jogo.

Na marcha do dia 13 estão os sindicatos de luta, os movimentos populares, as entidades de direitos humanos e civis. Estará a esquerda crítica e estarão também os que apoiam Dilma. Porque a pauta da marcha do dia 13 é uma pauta dos trabalhadores. As gentes marcharão em defesa da Petrobras, por reforma agrária, por demarcação de terras indígenas, pela democratização da mídia, pelo combate à corrupção. Será uma mobilização da esquerda, com propostas que visam a melhoria da vida de todos os brasileiros, especialmente dos empobrecidos e dos que têm apenas a sua força de trabalho para vender.

Já  a marcha do dia 15 é a marcha do golpe, da direita organizada e dos que, mesmo explorados, são seduzidos por um canto de sereia que promete mudanças. Mas, a mudança prometida é da manutenção dos privilégios e dos mesmos velhos grupos de poder. Sem matizes. Participar disso é apoiar o atraso.

Mas, para muitos, a marcha do dia 15 é unicamente o libelo contra a Dilma. Ora, eu também estou contra as políticas implementadas pelo governo Dilma. Mas isso não significa que, por conta disso, vou me aliar ao que há de mais nefasto nesse país. Como bem diz o professor Nildo Ouriques, o projeto petista esgotou. O que igualmente não significa que no seu lugar tenha que ser colocado o outro velho projeto - da direita - que também esgotou. Ou será que as pessoas não se lembram do que FHC causou ao país nos seus dois mandatos? Se hoje, o governo petista se assemelha àquele, qual é a saída? Constituir o novo! Rearticular as forças, combinar projetos de transformação, avançar, ir para frente.

Assim que não é necessário viver em confusão. Os clássicos elementos que diferenciam a direita e esquerda seguem vigentes. Pode-se dar outro nome para isso que alguns insistem em negar, mas o fato é que tudo é muito simples. Ou estamos caminhando junto com os trabalhadores, os explorados, os empobrecidos, ou estamos de mãos dadas com os poderosos, os exploradores, os que sangram a maioria em nome de seus interesses pessoais. Simples assim.

Por isso que nessas horas de acirramento da luta de classes não há espaço para vacilação. Temos de estar com os trabalhadores, ainda que alguns deles sigam tendo ilusões com o governo petista.   
No: http://eteia.blogspot.com.br/2015/03/o-brasil-e-as-marchas-de-marco.html

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O mantra global sobre descontrole da inflação para derrubar Dilma



A inflação tornou-se recorrente no discurso dos presidenciáveis Marina e Aécio. Não é porque a inflação esteja fora de controle. É porque está sob o controle de um governo do PT. A Rede Globo acha isso intolerável. Como consequência, se a inflação sobe 0,0001% no mês, haverá sempre um Sardenberg, um William Waak, um Bonner ou uma Patrícia Poeta - esta tão bonitinha, sempre pronta a citar “economistas” que não identifica -, para dizer com cara feia uma besteira qualquer anunciando aos quatro ventos a explosão inflacionária.

Claro, candidatos a Presidente querem ganhar as eleições, e para ganhar eleições é importante se entender com a mídia. Assim, em lugar de eles fixarem a agenda da campanha com o risco de pouca repercussão na televisão, eles seguem a agenda da televisão, confiando que isso rende exposição na mídia, sendo que essa exposição, supõe-se, rende votos. Simples assim. Tanto Marina quanto Aécio decidiram acabar com a inflação no Brasil. Não dizem como. A receita está provavelmente guardada a sete chaves nos cofres dos irmãos Marinho!

O estranho nisso tudo é que Marina e Aécio vão acabar com a inflação usando o mesmo receituário neoliberal de políticas monetária e fiscal do atual Governo. Esse receituário está sintetizado na fórmula metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário. Marina elogiou repetidamente o que chama de “tripé macroeconômico”. Pode-se perdoá-la porque na sua cara estão os sinais de quem não está entendendo nada do que está falando. Aécio é menos explícito, mas também não perde oportunidade de se alinhar à ideologia da Globo para ter patrocínio midiático.

Evidentemente que a Globo não ataca a inflação por razões acadêmicas. Nem por genuíno interesse público. O ataque está firmemente ancorado em razões fiscais, não significando isso propriamente a política fiscal do Governo, mas as tramoias fiscais da própria Globo e sua criatividade em tentar burlar as leis tributárias. Do ponto de vista técnico, em nenhum momento nos últimos meses e anos houve qualquer risco de a inflação ficar descontrolada. A Globo assumiu o discurso da inflação alta com o fim único de derrubar o Governo do PT, tendo cooptado para isso os dois candidatos principais da oposição.

Para os que têm memória curta é bom lembrar que o verdadeiro descontrole inflacionário mais recente no Brasil ocorreu no último ano do Governo Fernando Henrique. Foi algo como 14%, mais do dobro do patamar atual da inflação. Isso elimina qualquer credibilidade que o tucano Aécio possa ter ao anunciar sua “tolerância zero” para a inflação. Quanto a Marina, coitada, é difícil saber o que tem na cabeça como proposta realista nessa área, exceto os conselhos dos neoliberais militantes que voaram como mariposas em torno do PSDB e que decidiram migrar para ela.

J. Carlos de Assis - Economista, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional na UEPB.
do: http://contrapontopig.blogspot.com.br/2014/08/contraponto-14603-o-mantra-global-sobre.html