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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O QUE A ESQUERDA DEVERIA DIZER ÀS SUAS OVELHAS NEGRAS: FORA TUDO, FORA TODOS!!!".

O QUE A ESQUERDA DEVERIA DIZER ÀS SUAS OVELHAS NEGRAS, SEGUNDO O DALTON ROSADO: "FORA TUDO, FORA TODOS!".

O FACCIOSISMO COMO CRITÉRIO
 NEGATIVO DA CRÍTICA
.
"Às pessoas facciosas, depois de admoestá-las
severamente, evita-as, pois, senão, também
serás corrompido" (Bíblia, Livro de Tito)
.
Nestes dias nos quais se escancaram as provas da promiscuidade do todo o segmento político (só estão de fora os que ainda não tiveram força de acesso ao poder ou de interferência nele, mas logo, logo caminharão para tal comportamento, à medida que dele se aproximarem) com o empresariado, expressos pela grande mídia na cobertura da decretação da prisão do bilionário Eike Batista, nós podemos aferir quão facciosas e inconsequentes são as defesas dos corruptos de um lado e de outro. 

Globonews se apressa em demonstrar enfaticamente que os jatinhos do empresário Eike Batista serviram aos governantes petistas e seus aliados, omitindo o fato de que dito empresário, como sói acontecer, também servia aos políticos mais conservadores. Nisto não há nenhuma novidade.

O capital costuma corromper a todos os que exercem o poder político, o qual funciona como sua submissa linha reguladora auxiliar. Desta onda não escapa ninguém: os poucos que não se corrompem, perdem o jogo e são dele expulsos como um vírus estranho ao organismo. 
Aécio Neves, outro amigo desde criancinha do Eike Batista

Por seu turno, constato que os companheiros da esquerda, ao contestarem tal facciosismo midiático, verdadeiramente inaceitável, fazem-no no sentido de isentar de culpa os governantes que pertencem ao seu campo político.   

Aos revolucionários, que não compactuam com a promiscuidade, seja ela praticada por companheiros ou pelos corruptos históricos (os insensíveis, prepotentes e intolerantes governantes da direita), cabe a denúncia de todos os corruptos, indistintamente; e o apoio àqueles que, movidos por sentimento de neutralidade jurídica (difícil de ser mantida numa sociedade na qual predomina o poder do capital), norteiam a sua atuação jurisdicional para o combate à corrupção, provenha ela do agrupamento político que provier.. 

A eterna cantilena de que os membros do poder judiciário que combatem a corrupção estão a serviço das forças da direta ou do capital estrangeiro é inconsistente, ainda que eles estejam enquadrados por uma ordem jurídica opressora na sua essência. Mas nós precisamos distinguir as coisas, sob pena de condenarmos as boas ações, ainda que paliativas ou ingênuas. 

O combate, por parte do Judiciário, da corrupção derivada de práticas promíscuas do poder publico com o empresariado privado, equivale a enxugar gelo, na medida em que a grande corrupção sistêmica (aquela que subtrai do trabalhador parte do seu tempo de trabalho, não remunerando-o, via extração de mais-valia) é oficialmente permitida. 

Mas, isto não significa que a corrupção considerada oficialmente como criminosa não deva ser denunciada e combatida, com a punição de quem quer que a pratique, qualquer que seja o campo político do corrupto, e quaisquer que sejam as suas intenções. É o mínimo que se deve fazer. 

Admitir que a corrupção possa ser consentida desde que praticada por companheiros, supostamente servindo para alavancar boas causas, significa permitir o uso continuado de um mesmo cachimbo, acreditando que ele não vá entortar a boca. Tal concepção corresponde a um equívoco moral e a uma ética hipócrita, deturpada e facciosa, amoralista em sua essência.

O empresário Eike Batista construiu a sua meteórica fortuna a partir de maracutaias com o poder, praticadas em todos os níveis deste mesmo poder e em conluio com as siglas partidárias, tudo na base do é dando que se recebe

A corrupção associada ao poder público sempre envolve esferas diferenciadas de controle; de tão variada, não pode ser atribuída apenas a uma ou outra corrente política. Trata-se de um agir entranhado na ordem institucional sistêmica, no qual todos os agentes públicos dirigentes e privados saem ganhando e a imensa maioria do povo, que é quem paga os impostos, sai sempre perdendo.         
À esquerda seria indispensável que abandonasse a defesa de seus pares corruptos, readquirindo credibilidade para combater os seus adversários ideológicos igualmente corruptos. 

Aos revolucionários somente cabe uma frase, cada vez mais necessária: FORA TUDO, FORA TODOS! (*)
                                                       (por Dalton Rosado)
* "Fora tudo, fora todos!" é o refrão da música Coquetel molotov, de autoria de Dalton Rosado, que você pode escutar aqui..
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/o-que-esquerda-deveria-dizer-as-suas.html

sábado, 28 de janeiro de 2017

O QUE A ESQUERDA DEVERIA DIZER ÀS SUAS OVELHAS NEGRAS, SEGUNDO O DALTON ROSADO: "FORA TUDO, FORA TODOS!".

O FACCIOSISMO COMO CRITÉRIO
 NEGATIVO DA CRÍTICA
.
"Às pessoas facciosas, depois de admoestá-las
severamente, evita-as, pois, senão, também
serás corrompido" (Bíblia, Livro de Tito)
.
Nestes dias nos quais se escancaram as provas da promiscuidade do todo o segmento político (só estão de fora os que ainda não tiveram força de acesso ao poder ou de interferência nele, mas logo, logo caminharão para tal comportamento, à medida que dele se aproximarem) com o empresariado, expressos pela grande mídia na cobertura da decretação da prisão do bilionário Eike Batista, nós podemos aferir quão facciosas e inconsequentes são as defesas dos corruptos de um lado e de outro. 

Globonews se apressa em demonstrar enfaticamente que os jatinhos do empresário Eike Batista serviram aos governantes petistas e seus aliados, omitindo o fato de que dito empresário, como sói acontecer, também servia aos políticos mais conservadores. Nisto não há nenhuma novidade.

O capital costuma corromper a todos os que exercem o poder político, o qual funciona como sua submissa linha reguladora auxiliar. Desta onda não escapa ninguém: os poucos que não se corrompem, perdem o jogo e são dele expulsos como um vírus estranho ao organismo. 
Aécio Neves, outro amigo desde criancinha do Eike Batista

Por seu turno, constato que os companheiros da esquerda, ao contestarem tal facciosismo midiático, verdadeiramente inaceitável, fazem-no no sentido de isentar de culpa os governantes que pertencem ao seu campo político.   

Aos revolucionários, que não compactuam com a promiscuidade, seja ela praticada por companheiros ou pelos corruptos históricos (os insensíveis, prepotentes e intolerantes governantes da direita), cabe a denúncia de todos os corruptos, indistintamente; e o apoio àqueles que, movidos por sentimento de neutralidade jurídica (difícil de ser mantida numa sociedade na qual predomina o poder do capital), norteiam a sua atuação jurisdicional para o combate à corrupção, provenha ela do agrupamento político que provier.. 

A eterna cantilena de que os membros do poder judiciário que combatem a corrupção estão a serviço das forças da direta ou do capital estrangeiro é inconsistente, ainda que eles estejam enquadrados por uma ordem jurídica opressora na sua essência. Mas nós precisamos distinguir as coisas, sob pena de condenarmos as boas ações, ainda que paliativas ou ingênuas. 

O combate, por parte do Judiciário, da corrupção derivada de práticas promíscuas do poder publico com o empresariado privado, equivale a enxugar gelo, na medida em que a grande corrupção sistêmica (aquela que subtrai do trabalhador parte do seu tempo de trabalho, não remunerando-o, via extração de mais-valia) é oficialmente permitida. 

Mas, isto não significa que a corrupção considerada oficialmente como criminosa não deva ser denunciada e combatida, com a punição de quem quer que a pratique, qualquer que seja o campo político do corrupto, e quaisquer que sejam as suas intenções. É o mínimo que se deve fazer. 

Admitir que a corrupção possa ser consentida desde que praticada por companheiros, supostamente servindo para alavancar boas causas, significa permitir o uso continuado de um mesmo cachimbo, acreditando que ele não vá entortar a boca. Tal concepção corresponde a um equívoco moral e a uma ética hipócrita, deturpada e facciosa, amoralista em sua essência.

O empresário Eike Batista construiu a sua meteórica fortuna a partir de maracutaias com o poder, praticadas em todos os níveis deste mesmo poder e em conluio com as siglas partidárias, tudo na base do é dando que se recebe

A corrupção associada ao poder público sempre envolve esferas diferenciadas de controle; de tão variada, não pode ser atribuída apenas a uma ou outra corrente política. Trata-se de um agir entranhado na ordem institucional sistêmica, no qual todos os agentes públicos dirigentes e privados saem ganhando e a imensa maioria do povo, que é quem paga os impostos, sai sempre perdendo.         
À esquerda seria indispensável que abandonasse a defesa de seus pares corruptos, readquirindo credibilidade para combater os seus adversários ideológicos igualmente corruptos. 

Aos revolucionários somente cabe uma frase, cada vez mais necessária: FORA TUDO, FORA TODOS! (*)    
 (por Dalton Rosado) - https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/o-que-esquerda-deveria-dizer-as-suas.html

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A homossexualidade é contrária à Bíblia? Reflexões em vista do Sínodo

Davi e Jônatas: amor entre dois homens



Via UNISINOS

O mandamento do amor de Jesus é o critério da justiça das relações, com base no qual se deve discernir se uma relação entre seres humanos é agradável a Deus ou não. É sobre esse critério que devem ser medidas tanto as uniões homossexuais quanto o matrimônio entre homem e mulher, que não é, por si só, uma forma completa de vida comum.

A opinião é do pastor protestante alemão Stefan Scholz, em artigo publicado no sítio da revista Der Spiegel, 01-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.
Os homens amam as mulheres, e as mulheres amam os homens; o casamento é a forma correta que essa relação assume. Certamente, o casal humano nunca foi expressado de maneira tão simples, mas, desde que lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros etc. ampliaram a gama das possíveis formas de vida, também na percepção pública, a ruptura entre a moral sexual cristã clássica e a multiplicidade das vivências sociais é cada vez mais difícil de superar.
Limito-me aqui ao conflito entre as afirmações da Bíblia sobre a homossexualidade e as atuais relações entre pessoas do mesmo sexo que, obviamente, não existem apenas fora da Igreja.

Em comparação com os debates que são conduzidos de maneira aprofundada na Igreja e na teologia, na Bíblia, ao contrário, a homossexualidade é claramente uma questão marginal: faz-se referência ao assunto em menos de dez pontos. Basicamente, a situação é clara. As relações entre pessoas do mesmo sexo são coisas de pagãos e são consideradas incompatíveis com a fé em Javé ou com a vida em Cristo, e, portanto, são severamente rejeitadas. Mas é muito menos claro como isso deve ser compreendido e ordenado.

No Antigo Testamento, são enunciados sobretudo as três passagens seguintes: em primeiro lugar, o código de santidade que pretende regulamentar de maneira detalhada as formas de relações corporais permitidas e proibidas. Em dois pontos, é pedido de forma absoluta e inequívoca a pena de morte para as relações sexuais entre homens do sexo masculino, Levítico 18, 22 e Levítico 20, 13.

Mais controverso, em segundo lugar, é o relato da aniquilação de Sodoma e Gomorra, em Gênesis 19. Se a maldade dos homens dessas cidades pode realmente ser identificado com a violência homossexual e se é por causa disso que os lugares são destruídos, hoje, essa não é mais considerada a opinião da maioria dos estudiosos das ciências bíblicas. Deveria se tratar, ao contrário, da ofensa ao direito de hospitalidade e de outras formas de violação sexual.

Em terceiro lugar, são apresentados, eventualmente, apenas alusões eróticas na descrição da amizade de Davi e Jônatas em 1Samuel 18, 1-4.

Também no Novo Testamento são três as passagens principais que são citadas a esse respeito: correlacionadas entre si, acima de tudo, estão dois catálogos de vícios, 1Coríntios 6, 9 e 1Timóteo 1, 10. Aqui, são listados os mais diversos males e horrores. Para aqueles que os cometem estão trancadas as portas do céu. Em ambos os casos, ao lado dos mentirosos, assassinos e sacrílegos, também são listados os homens que cometem atos sexuais de homens com homens.

Particularmente iluminador é finalmente Romanos 1, 26-27. Esse é o único ponto onde é considerada também a sexualidade entre duas mulheres. Aqui, o desejo homossexual não é visto como algo que envolve uma específica sanção como a pena de morte ou a exclusão da salvação.
Ao contrário, aqui é justamente o desejo de relação com pessoas do mesmo sexo que é entendido como uma atormentante tortura, uma aberração e uma falsa crença.
Essas são as citações, poucas e claras, que encontramos na Bíblia, sobre as quais se levanta uma série de difíceis perguntas complementares. Concentro-me sobre dois pontos centrais: aquilo que aqui é muito naturalmente condenado pode ser comparado com as atuais relações homossexuais?
O ponto de vista e o modo de entender a homossexualidade mudaram várias vezes no passado. Se até a idade moderna as relações homossexuais eram consideradas pecados graves e blasfêmias contra a vontade do Criador, às quais se podia opor apenas com a reta fé e, se necessário, também com o fogo, no percurso triunfal da medicina no século XIX, a tendência homossexual era interpretada principalmente como doença, perversão e distúrbio psíquico.
A estratégia para ajudar as pessoas afetadas era a cura. A Organização Mundial da Saúde (OMS) só apagou a homossexualidade da sua lista de doenças em 1992. Hoje, a maioria dos e das pesquisadoras consideram a homossexualidade como uma variante na evolução. Ela existe tanto entre os animais quanto entre os homens, as causas permanecem indefinidas, não foi possível estabelecer nem que exista um gênero gay, nem que exista uma clara relação entre educação e homossexualidade. É absolutamente absurdo, na atual visão daqueles que aprofundaram o assunto, conectar a homossexualidade com um comportamento moralmente incorreto.

Se, a partir daqui, deslocamo-nos agora para as épocas da Bíblia, que absolutamente não devem ser consideradas como uma unidade fechada, tornam-se evidentes mais mudanças no modo de entender a sexualidade e a homossexualidade.

A plena humanidade, em conformidade com a "semelhança de Deus", segundo Gênesis 1, 27, só podia ser concebida na unidade de homem e mulher. O objetivo da sexualidade era claramente visto na reprodução, a tal ponto que um homem podia ter até mais mulheres, veja-se Gênesis 1, 16Paulo descreveu o matrimônio entre homem e mulher em 1Coríntios 7 apenas como uma concessão à pulsão sexual, mas, para ele, era melhor uma vida continente.

Um comportamento homossexual era globalmente considerado como não judeu e, mais tarde, também como não cristão. Os escritores bíblicos, especialmente no período neotestamentário, a esse respeito, podiam ter diante de seus olhos o que se segue: na antiga Grécia e em Roma, havia um comportamento homossexual, especialmente uma relação sexual entre um homem adulto e um jovem com idade dos 12 aos 18 anos, em casos excepcionais talvez até os 28 anos. O mais velho devia ser ativo, o mais jovem, passivo – todo outro comportamento diferente era considerado desonroso e muitas vezes fornecia matéria para escárnios, intrigas e chantagens.

Uma das mais famosas transgressões à regra seguramente foi referida contra Júlio César, porque teria imposto ao derrotado rei de Bitínia o papel de parceiro sexual passivo. O comportamento assimétrico não era evidenciado apenas na diferença de idade: na Grécia, muitas vezes, tratava-se de relações mestre-discípulo, enquanto em Roma, ao contrário, era os escravos que deviam assumir o papel passivo.
Havia também a prostituição masculina exercida como profissão. A homossexualidade feminina também existia na antiguidade, mas é muito menos documentada e era considerada de maneira extremamente suspeita. Porque, de fato, as mulheres só podiam ter um único tipo de comportamento sexual: ou seja, deviam estar a serviço do homem e ser passivas.
A partir desses poucos traços, podemos ter uma ideia do que estava conectado com a homossexualidade no âmbito cultural da Bíblia e pelo que estavam inequivocamente delimitados os textos do Antigo e do Novo Testamento.
A diferença daquilo que é aqui entendido como comportamento homossexual, mas também sexualidade em geral, leva a uma profunda reflexão em relação ao significado das afirmações bíblicas nesse contexto.
Que valor a Bíblia tem para as interrogações éticas no âmbito sexual hoje? Uma condenação das práticas homossexuais como simples aplicação das afirmações bíblicas sobre o assunto não leva em conta nem os atuais conhecimentos das ciências humanas sobre as identidades sexuais, nem as pesquisas histórico-críticas sobre os antigos conceitos sexuais. Ora, a homossexualidade é contrária à Bíblia?
Se nos referirmos àquilo que naquela época se podia imaginar e àquilo era praticado, certamente sim. As uniões homossexuais atuais, com ou sem filhos, que se encarregam da responsabilidade recíproca entre os parceiros, no entanto, são algo completamente diferente. Portanto, seria irresponsável e difamatório contestar-lhes a legitimação cristã do seu conceito de vida.
Igreja Evangélica já propôs, a esse respeito, outro caminho, embora acompanhado de violentas controvérsias, o que não surpreende, dado o assunto. No seu documento de orientação "Zwischen Autonomie und Angewiesenheit" (Entre autonomia e dependência) de 2013, ela renuncia conscientemente a aceitação literal das regras e das proibições bíblicas.

Em vez disso, tira do mandamento do amor de Jesus o critério da justiça das relações, com base no qual se deve discernir se uma relação entre seres humanos é agradável a Deus ou não.

Sobre esse critério, devem ser medidas tanto as uniões homossexuais quanto o matrimônio entre homem e mulher, que não é, por si só, uma forma completa de vida comum. Desse modo, a Bíblia continua tendo a sua força orientativa, é entendida como livro com o qual se pode aprender, mas que não substitui a reflexão crítica de cada um, mas a enriquece.

Igreja Católica encontra-se diante da necessidade de enfrentar obstáculos maiores. O clássico modo de entender o matrimônio como sacramento oferece menos espaço de manobra para um efetivo reconhecimento das formas de vida homossexuais e dos posteriores laços familiares para além da comunidade matrimonial.

O alto valor atribuído à tradição impede um diálogo aberto com os mundos em transformação. A liberdade aparece aqui mais fortemente vinculada. Portanto, não deveríamos esperar muito do Sínodo sobre a família no fim do ano. Mas, certamente, há muito para se ter esperança.
Vi no: http://blogdoitarcio.blogspot.com.br/2015/06/a-homossexualidade-e-contraria-biblia.html

domingo, 1 de março de 2015

5 mitos sobre a 'Bíblia manipulada'


Imagem do imperador Constantino, que convocou
o Concílio de Niceia
(Crédito: Reprodução)
É impressionante a quantidade de lendas urbanas, preconceito e desinformação que grassa por aí quando o assunto é a maneira como a Bíblia foi escrita, editada e transformada num cânone, ou seja, num conjunto (mais ou menos) fechado de livros adotado por muitas religiões como algo dotado de autoridade religiosa. Mas nada tema, mui gentil leitor — este post abordará (e desmontará) cinco grandes mitos sobre o tema e, espero, trará alguma luz ao debate. Vamos a eles?

Mito 1: a Bíblia que temos hoje foi “inventada” no Concílio de Niceia

Nananinão, dileto leitor. O Primeiro Concílio de Niceia, realizado no ano 325 d.C. na cidade romana de mesmo nome (localizada na atual Turquia), foi uma grande reunião de bispos (cerca de 300) convocada pelo imperador Constantino. Seu principal tema foi a cristologia, ou seja, debates sobre a exata natureza de Jesus Cristo e sua relação com Deus Pai. O concílio deu o passo decisivo para definir que Jesus compartilhava da mesma natureza de Deus e existia desde o princípio dos tempos, não tendo sido “criado” em qualquer sentido ordinário. A agenda do concílio incluía várias questões menores, como a data correta da celebração da Páscoa cristã. Mas em NENHUM momento incluiu discussões sobre os livros que deveriam ou não ser incluídos na Bíblia. Repito: esse tema simplesmente NÃO foi debatido em Niceia.

Mito puro, portanto.

Mas, se é mito, quando diabos o cânone foi fixado, afinal? Bem, depende. De maneira geral, pode-se dizer que, no fim do século 4º d.C., uns 50 anos depois de Niceia, a maioria das igrejas cristãs aceitava mais ou menos os textos ainda aceitos hoje. Mas alguma variação continuou ocorrendo, e nenhum grande pronunciamento oficial e definitivo aconteceu ao longo do milênio seguinte. No Ocidente, foi só no século 16 que católicos e protestantes cristalizaram seus cânones ligeiramente diferentes, com alguns livros a mais ou a menos no Antigo Testamento, como veremos a seguir.

Mito 2: ao longo dos séculos, a Bíblia foi constantemente manipulada e alterada. Não fazemos a menor ideia de quais eram os textos originais

Esse mito é mais complicado porque contém alguns elementos de verdade. Vamos examinar a questão, pensando primeiro no cânone judaico (o nosso Antigo Testamento) e depois no cânone cristão.

Primeiro, o fato é que a tradição de manuscritos do Antigo Testamento é muito antiga e bastante bem documentada. Os famosos Manuscritos do Mar Morto, achados na Cisjordânia nos anos 1940 e 1950, remontam até o século 2º a.C., em alguns casos, e vão até o século 1º da Era Cristã, ou seja, têm cerca de 2.000 anos de idade. A maior parte desses manuscritos corresponde a trechos de quase todos os livros da Bíblia hebraica, ou Tanakh, como também é conhecida — só não há na coleção trechos do livro de Ester.

Rolo do livro do profeta Isaías achado perto do mar Morto (Crédito: Museu de Israel)
Rolo do livro do profeta Isaías achado perto do mar Morto
(Crédito: Museu de Israel)
Tem variação quando comparamos os textos bíblicos dos Manuscritos do Mar Morto com os textos hebraicos preservados pela comunidade judaica, os chamados textos massoréticos, que datam do século 9º d.C.? Tem variação sim, e considerável – trechinhos a mais ou a menos, trocas de letras, confusões de significado etc. Isso é especialmente verdade em textos de natureza poética, que possuem vocabulário mais complexo e de difícil interpretação. Mas há relativamente pouca coisa que tenha algum significado teológico ou histórico muito importante nessa variação. Algumas versões dos Salmos dos Manuscritos do Mar Morto, por exemplo, parecem dar a entender a existência de outros deuses além do Deus bíblico, Yahweh (nome geralmente traduzido como “o Senhor”). Mas essa inferência também pode ser feita com base nos manuscritos mais conhecidos da Bíblia, por exemplo. Não é nada propriamente bombástico.

Já falamos dos textos do mar Morto e dos massoréticos, ambos em hebraico, que parecem concordar em muita coisa, ainda que não em tudo. Há ainda duas outras tradições importantes de textos do Antigo Testamento. A mais “estranha”, do nosso ponto de vista, é a dos samaritanos, o grupo de adoradores do Deus bíblico que vive ao norte de Jerusalém e era considerado herético pelos judeus. Os samaritanos possuem sua própria Torá, ou seja, o conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia, o Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). De novo, no geral, os textos batem, embora a Torá samaritana “puxe a brasa para a sardinha” de seus copistas, dizendo por exemplo que o local correto de adoração a Deus é o monte Gerizim, na atual Cisjordânia, e não Jerusalém, como defendem os judeus. Mas não passa muito disso — não é que a Torá deles diga “chutai a canela do seu pai e da sua mãe” em vez de “honrai pai e mãe”. Mais uma vez, trata-se de uma versão em hebraico.

Finalmente, há ainda a antiga tradução da Bíblia hebraica para o grego, a chamada Septuaginta, ou versão dos Setenta (assim chamada porque teria sido feita por setenta sábios judeus que viviam no Egito por volta do ano 200 a.C., segundo a tradição). De novo: há variantes significativas entre o texto da Septuaginta e os textos em hebraico? Tem bastante, de fato, o que indica que provavelmente os tradutores usaram um texto-base diferente da versão massorética. Mas, outra vez, é preciso ressaltar que essas diferenças não costumam ser radicais do ponto de vista semântico e teológico. Um dos problemas importantes da Septuaginta talvez seja a passagem na qual a palavra hebraica “almah”, que designa uma jovem do sexo feminino que ainda não teve filhos, foi traduzida como “parthenos”, que normalmente (mas nem sempre) significa “virgem” em grego. Foi essa passagem, do livro do profeta Isaías, que serviu de base para a ideia de que a concepção virginal de Maria nos Evangelhos cumpre a profecia de Isaías.

O primeiro capítulo do Evangelho de Mateus no Códex Vaticano (Crédito: Reprodução)
O primeiro capítulo do Evangelho de Mateus no Códex Vaticano
(Crédito: Reprodução)
Esse detalhe é teologicamente importante, sem dúvida, mas é um dos poucos exemplos de diferenças de peso. Resumindo: no caso do Antigo Testamento, apesar das muitas variantes, estamos falando de uma tradição de manuscritos que manteve considerável estabilidade ao longo de muitos séculos. Não há sinal de nenhuma conspiração para manipular em larga escala o conteúdo desses textos. No geral, os antigos judeus (e samaritanos) parecem ter respeitado o conteúdo tradicional de tais textos.

E no caso do Novo Testamento? Bem, os mais antigos fragmentos em grego desses livros que chegaram até nós são do começo do século 2º d.C. — cerca de um século, portanto, depois da morte de Jesus. Mas textos maiores só aparecem no século 3º d.C. O consenso entre os historiadores, no entanto, é que a maior parte do Novo Testamento foi escrita bem antes, entre 65 d.C. e 100 d.C. Mais uma vez, existem variantes? Sim, centenas de milhares, mas a grande maioria delas não tem grande significado. Num post anterior já falei de uma das mais importantes, a do “final alternativo” do Evangelho de Marcos. Outros trechos que podem ter sido alterados por causa de disputas teológicas envolvem interpretações adocionistas, ou seja, a ideia de que Jesus teria sido apenas adotado por Deus, e não seria seu Filho desde sempre. No geral, porém, vale o mesmo que dizemos sobre o Antigo Testamento: quando comparamos todos os manuscritos que chegaram até nós, não há sinais de manipulações de larga escala dos textos.

O importante aqui, eu acho, é pensar no contexto e na maneira como funcionavam as tradições religiosas na Antiguidade. Os textos que acabaram compondo o cânone da Bíblia já circulavam e eram venerados havia séculos quando o cristianismo se consolidou. Eram lidos, comentados, estudados e muito bem conhecidos. Alterá-los totalmente provocaria muitas brigas e não serviria a grandes propósitos. O mais lógico era aceitá-los mais ou menos como eram e investir em interpretações que casassem bem com a teologia cristã nascente.

Mito 3: os Manuscritos do Mar Morto contêm evangelhos apócrifos que revelam verdades chocantes sobre Jesus

Esse mito é fácil de derrubar, em contraposição ao anterior. Não há NENHUM texto cristão em meio a esses manuscritos, gente. A única relevância deles para o estudo do Jesus histórico é o fato de que eles nos ajudam a entender como era o judaísmo na época em que Cristo viveu. Fora isso, nada.

Manuscrito do Evangelho de Tomé, texto apócrifo (Crédito: Reprodução)
Manuscrito do Evangelho de Tomé, texto apócrifo
(Crédito: Reprodução)
Mito 4: os evangelhos apócrifos são uma fonte mais confiável sobre a figura histórica de Jesus do que os que foram incluídos na Bíblia.

Outro mito que vai ao chão com relativa facilidade. Hoje, quase todos os historiadores concordam que é preciso ler com muito cuidado os Evangelhos canônicos — Mateus, Marcos, Lucas e João — se a ideia é buscar informações historicamente confiáveis, porque o interesse dos evangelistas era fazer teologia, e não história no sentido moderno. Mas, e esse é um grande mas, a maioria dos historiadores também concorda que, se esses textos têm problemas do ponto de vista histórico, os evangelhos apócrifos, ou seja, não incluídos na Bíblia, são ainda mais problemáticos, em geral.

Isso porque tais textos foram, em geral, escritos bem depois dos Evangelhos canônicos e estão cheios de material lendário e especulações teológicas ainda mais ousadas do que os textos presentes na Bíblia. São quase “fan-fic” — aqueles textos escritos por fãs de um livro ou de um filme usando personagens criados por outra pessoa em suas próprias histórias.

Há uma possível exceção importante nesse caso, porém. Trata-se do Evangelho de Tomé, encontrado no Egito e feito quase que só de frases impactantes de Jesus, ou de parábolas contadas por ele. Alguns estudiosos importantes acreditam que Tomé preserva algumas versões das falas de Jesus que se aproximam mais do que ele teria realmente falado em vida. Mas muita gente discorda deles.

Mito 5: as Bíblias católicas e ortodoxas incluem textos apócrifos que não fazem parte do cânone “correto” do Antigo Testamento 

Esse é outro mito com nuances, como o mito 2. De fato, o que a Bíblia das igrejas protestantes inclui em seu Antigo Testamento é um conjunto de livros exclusivamente traduzidos do hebraico para as línguas modernas. São os mesmos livros incluídos pelos judeus atuais em seu Tanakh desde mais ou menos o ano 100 d.C. As Bíblias católicas e ortodoxas incluem ainda outros livros, como Judite, Sabedoria e Eclesiástico, que foram traduzidos do grego e a respeito dos quais se acreditava que tinham sido escritos originalmente em grego e/ou nunca teriam feito parte do cânone de qualquer grupo judaico.

Acontece, porém, que na época de Jesus o cânone judaico ainda estava “semiaberto”, e ao menos alguns grupos de judeus parecem, sim, ter considerado que tais livros eram canônicos. Trechos do Eclesiástico, por exemplo, foram achados entre os Manuscritos do Mar Morto, e em hebraico. A mesma coisa vale para o livro de Tobias – trechos em hebraico e aramaico também constam da “coleção” do mar Morto.

Isso significa que esses livros “devem” fazer parte do cânone? Depende. É claro que, no fundo, essa é uma discussão cultural e teológica. Mas o que claramente não funciona muito é dizer que o judaísmo nunca aceitou esses livros como parte das Escrituras — em alguns casos, essa informação parece não proceder.

Ah, e pros leitores que às vezes pedem minhas fontes, alguns livros ótimos para entender melhor os temas a seguir:

– Série “Um Judeu Marginal”, de John P. Meier, editora Imago;

– “The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings”, de Bart D. Ehrman, Oxford University Press;

– “Uma História Cultural de Israel”, de Júlio Paulo Tavares Zabatiero, editora Paulus.

E dois excelentes cursos gratuitos online.

Sobre Antigo Testamento:


E sobre Novo Testamento:


Ambas da Universidade Yale, nos EUA.

Reinaldo José Lopes
No Darwin e Deus