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segunda-feira, 6 de abril de 2015

A história da propina e as cruzadas moralistas

Por Motta Araújo

Na história econômica a propina está presente em todos os grandes negócios, empreitadas e encomendas através dos séculos. Na história moderna há registros de propinas em larga escala nos EUA, Rússia, Império Otomano, na Ásia era e é a pratica corrente, no Oriente Médio nem sequer se considera crime. Na África a corrupção é profundamente arraigada desde que existem humanos no continente.

No Brasil a propina aparece na Alfândega de Dom João VI, no Segundo Império, vide as memórias do Embaixador Heitor Lira em dois volumes, Editora Universidade de Brasília. Os embaixadores brasileiros em Londres cobravam propina nos empréstimos que o Brasil contraía em Londres, e eram altas. Na República Velha, Nelson Werneck Sodré na HISTÓRIA MILITAR DO BRASIL fala nas "vastas algibeiras" de generais quando compravam alfafa para a Cavalaria.

Na Revolução de 30 aconteceu um fenômeno de moralismo. Os revolucionários atribuíam aos coronéis e políticos da República Velha um alto índice de corrupção, chamavam-nos de "os carcomidos". Vieram então os "tenentes" puros e salvadores e, a pretexto de eliminar a corrupção,  derrubaram os "carcomidos" nos Estados e fundaram novas dinastias corruptas, muitas das quais dominam as políticas de seus Estados até hoje. Os "jovens tenentes" eram honestos até então só porque não tinham a chave do cofre, com a mão no poder ficaram os "novos carcomidos" MAS sem perder a pose de honestos de carteira. A honestidade deles era uma questão de oportunidade.

Esta é uma constante no Brasil, líderes da moralidade só são até chegar ao poder, depois viram ladrões piores do que aqueles que derrubaram.

Dinastias que surgiram com a Revolução de 30, os Alves no Rio Grande do Norte, os Magalhães na Bahia, os Collor em Alagoas, os Távora no Ceará. Na Republica de 46 os Sarney no Maranhão, Argemiro de Figueiredo na Paraíba, onde todos os Senadores de hoje são seus parentes. A cultura política brasileira se imbrica no coronelismo, no nepotismo, em costumes políticos que já duram séculos.

Na República de 30 havia corrupção discreta que mais apareceu em favorecimentos e nomeações, na República de 46 a corrupção se manifestava nas licenças de importação da CEXIM. Mas a grande corrupção das empreiteiras nasceu com a construção de Brasília, a propina foi o lubrificante que permitiu Brasília ser construída em CINCO anos.

Nos governos estaduais da República de 46 fizeram fama Adhemar de Barros em São Paulo e Moyses Lupion no Paraná. Nos Governos do Rio poucos escaparam do mar de corrupção, Lacerda foi um deles.

Mas havia um CÓDIGO na velha corrupção.

1 - As comissões sobre obras públicas eram modestas, 1 a 3%, MAS se exigia a obra feita no custo e no prazo. Adhemar era um bom tocador de obras e deixou muitas e grandes, mesmo com os fracos orçamentos daquela época.

2 - Toda a imensa infraestrutura hidroelétrica, de estradas, pontes, refinarias construídas  na segunda metade do século XX teve a presença de propinas mas dentro de um código da corrupção, não era uma farra como ocorreu recentemente, os contratos de obras tinham exata relação com a obra, a corrupção eram embutida e discreta.

Jânio,  por exemplo, cobrava uma comissão mínima na assinatura do contrato MAS acabava ai, depois era implacável com a empreiteira, não ficava "parceiro" da obra, se quitava e dava quitação na assinatura do contrato, depois virava duro. Jânio também guardava parte das contribuições de campanha, deixou 13 milhões de dólares no Citibank de Genebra e 60 imóveis, geralmente casas e apartamentos de classe média.  Jânio fazia o folclore do moralista mas adorava dinheiro, não exibia, não gastava e não era generoso nem com a família. Convivi muito com ele e seu folclore de boas estórias daria um bom livro, fora do poder era um ótimo papo, um grande ator da política.

3 - Em torno da corrupção se formou um vasto folclore de fantasias. Dizia-se que Juscelino era um dos homens mais ricos do mundo, dona Sarah certa época precisou vender quadros para se manter, não havia fortuna alguma.

Dizia-se do poderoso Ministro dos Transportes do Governo Militar, Mário Andreazza, que era a 7ª fortuna do mundo, quando morreu seu enterro foi custeado por uma lista passada entre amigos, a família sempre viveu digna e modestamente, já tratei deste assunto aqui e houve um comentário do neto dele aqui no blog com detalhes.

A propina ACOMPANHOU o desenvolvimento do Brasil sempre.

A coté, lado a lado com a corrupção vieram as CRUZADAS MORALISTAS. A primeira foi a de Carlos Lacerda contra Getúlio, entre 1951 e 1954, que acabou com a vida de Getúlio, que deixou de herança um apartamento de classe média e a fazenda de São Borja, que ele herdou do pai, era um homem probo, modesto, correto e honesto mas o mesmo não pode se dizer de seu governo.

A segunda cruzada veio da UDN contra Juscelino por causa de Brasília,  uma ala da UDN moralista , a "banda de música" tinha como líder o Deputado José Sarney. Na sequência Jânio se elegeu com uma cruzada moralista contra o grupo de JK, sua bandeira era a vassoura. A anticorrupção era, desde o inicio, seu "mote" eleitoral, sempre se elegeu com a ideia de ser o ANTICORRUPTO, o que não era, era apenas mais discreto. A mais nova foi a de Collor, que na campanha invocava os "marajás",  que rendeu-lhe muitos votos.

As CRUZADAS MORALISTAS são um mau negócio para o País, não extinguem a cultura da propina e causam tremores e instabilidades políticas. Nos EUA, no fim do Século XIX, havia mais corrupção que no Brasil. A Prefeitura de Nova York e o Governo do Estado de Nova York eram campeões de corrupção. A sede do governo do Estado, Tammany Hall era sinônimo de corrupção; Chicago era dominada (até hoje é) por uma família corrupta; Kansas City tinha o "boss" Tom Prendergast, que foi quem inventou Harry Truman como vice-presidente; a Lousiana tinha Huey Long, sinônimo de politico mafioso de altíssima corrupção. Os EUA foram mudando AOS POUCOS com lenta evolução de barreiras e filtros que foram fechando o cerco à corrupção política mas isso levou UM SÉCULO, não foi por cruzadas moralistas.

Na política o MORALISMO é apenas um instrumento para derrubar a velha corrupção e instalar uma nova, geralmente pior que a antiga, mais cruel mais voraz e mais impiedosa.

sugado do: http://caviaresquerda.blogspot.com.br/2015/04/a-historia-da-propina-e-as-cruzadas.html

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Lava Jato flerta com o caos


A tal operação Lava Jato atinge níveis alarmantes de imbecilidade.

Se até o momento já era visível uma série de irregularidades nas ações de delegados e do juiz Moro - os vazamentos seletivos com a intenção de criminalizar petistas e o próprio PT, a prisão de executivos para forçar a ignóbil delação premiada e a promessa de recompensas generosas aos alcaguetas são as mais evidentes -, a intenção do MP de proibir empresas envolvidas nos casos de corrupção nos negócios com a Petrobras de participar de licitações futuras é um atestado de maluquice.

Todos estão de acordo que bandidos devem ser punidos.

Ora, quem corrompe uma autoridade pública ou um diretor de uma empresa estatal, e quem se deixa corromper, merecem o mesmo tipo de punição, pois ambos são criminosos.

Mas imputar esses crimes às empresas é forçar demais a barra.


Pode até ser que elas tenham a cultura de subornar agentes públicos para vencer licitações.

Não se deve, porém, a partir da condenação de um executivo, achar que todos os funcionários dessa empresa, ou mesmo ela própria, com todo o seu patrimônio material e intelectual construído em sabe-se lá quantos anos, tem de sofrer igual punição.

Os bandidos da Petrobras, sejam delatores "premiados" ou não, merecem ir para a cadeia, assim como os executivos que os subornaram.

Feito isso, a roda tem de continuar a girar, os negócios têm de continuar a ser feitos, espera-se, de uma maneira muito mais ética do que antes.

Centenas de milhares de pessoas, que sustentam centenas de milhares de outros indivíduos, não podem ser responsabilizados por ações criminosas de algumas dezenas de meliantes.

Nem as importantes obras de infraestrutura que vêm sendo feitas no Brasil, ansiosamente aguardadas há décadas, devem ser paralisadas por causa das ações dessas ratazanas.

Pará-las significa parar o Brasil, jogar no lixo valores incontáveis, desempregar uma quantidade enorme de profissionais, levar desespero a tantas outras famílias, desestabilizar de vez a economia.

Um desastre.

Esse pessoal que vive, neste momento, dias de glória debaixo dos holofotes da mídia partidária, se tivesse, como diz o povo, ao menos dois neurônios que se comunicassem, nem sequer cogitaria em ousar pensar nessas idiotices.

Mas pelo jeito, nem o Tico, nem o Teco, quis morar em cérebros tão diminutos.
No: http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/02/lava-jato-agora-flerta-com-o-caos.html

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Na “lista da propina”, falta dinheiro, ou faltam políticos ou falta verdade


Fernando Brito, Tijolaço  

"Muito estranha a lista dos beneficiários de dinheiro de empreiteiras que trabalhavam para a Petrobras, divulgada hoje pelo Estadão.

Dois valores citados, chega-se á conclusão que os maiores foram para políticos de oposição, em valores que, de forma alguma, poderia ser confundidos com doações eleitorais: Eduardo Campos (R$ 20 milhões) e Sérgio Guerra (R$ 10 milhões).

Supõe-se que, embora hoje ambos estejam mortos, Costa tem os meios de demonstrar como e por que meios foram feitos os repasses.

Aliás, o mesmo deve se aplicar àqueles que, diz o jornal, “segundo o ex-diretor de Abastecimento, recebiam repasses com frequência ou valores que chegaram a superar R$ 1 milhão”.

Mas, estranhamente, a reportagem afirma que “sobre vários políticos, o ex-diretor da estatal apenas mencionou o nome. Não revelou valores que teriam sido distribuídos a eles ou a suas agremiações”.

Muito pouco para quem quem está “enojado”, “arrependido” e disposto a “entregar tudo”.

E para quem vai sair livre depois de ter roubado – com todo este “nojo” alegado – R$ 23 milhões de dólares, com a ajuda da família, também perdoada.

Não tenho a menor simpatia por nenhum dos citados – muito ao contrário, na maioria dos casos – mas é preciso discernir entre o que é pedir para conseguir doações e negociar contratos para receber propina.

Porque se pedir doações eleitorais de empresas for crime, dos 513 deputados e 81 senadores sobraria uma dúzia, se tanto.

Nenhuma empresa doará se não se lhe pedir, não é?

Goste-se ou não (viu, Ministro Gilmar Mendes?) é assim que funcional eleições com financiamento privado de campanhas.

É algo completamente diferente, senão do ponto de vista moral, do ponto de vista jurídico.

O tráfico de influência, juridicamente, liga o pedido à promessa de uma vantagem.

Dizem as metáforas jurídicas que teria vindo de  um certo Vetronio Turino, que vendia supostos favores do imperador romano Alessandro Severo e que foi executado com fumaça, pois fumaça vendia.

Não duvido que os demais políticos citados tenham pedido a Paulo Roberto Costa que conseguisse doações de empreiteiras para suas campanhas.

Centenas de  candidatos a deputado, a senador, a governador, a vereador pediram diretamente ou solicitaram a alguém que pedisse dinheiro a empreiteiras. No mínimo, aceitaram que alguém pedisse em seu nome.
Será que as empreiteiras, as  citadas na Lava Jato  e outras, foram bater na porta de Aécio Neves e dizer “queremos te doar R$ 50 milhões”?

Será que a Odebrecht (diretamente ou através de sua controlada Foz do Jaceaba) doou mais de R$ 7 milhões a Aécio, sem contar os R$ 4 milhões da Braskem, da qual é sócia?

Será que os candidatos mandam pedir ao contínuo das empresas?

Se esta lista for tratada sem hipocrisia, ela é muito pequena.

Se for olhada frente à realidade política que faz as campanhas mergulharem na tenebrosa promiscuidade  pode incluir quem não fez nada além de pedir que pedisse, sem prometer ou acenar com vantagem.

E se for olhada pelo ângulo do dinheiro, está faltando, se chegou à casa dos bilhões que se diz ter chegado.

Tem contra-sensos evidentes, como dar 20 milhões de reais à campanha de um governador e, supostamente, um décimo disso a uma campanha presidencial. Aliás, a Odebrecht deu o mesmo valor às campanhas de Dilma e de José Serra, naquele ano…

Ou será que foi Costa que prometeu conseguir doações para construir uma teia de simpatias para que ele próprio pudesse, “enojadamente”, roubar a Petrobras?

De qualquer forma, a registrar que o “vazamento seletivo”, antes circunscrito aos Ministério Público Federal do Paraná, chegou à Procuradoria Geral da República.

A ver como reagirá o Procurador-Geral Rodrigo Janot a isto.
Porque, se ele mantém estes depoimentos a sete chaves, deve saber quem deles poderia “catar” nomes.

Ou se quem os enviou a ele está fazendo isso, traindo seu dever funcional."

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sem o fim do financiamento privado de campanhas todo combate à corrupção vai fracassar

Costa na CPI: ninguém é santo

Por Paulo Nogueira, via DCM

Você quer combater de verdade a corrupção?

Então leve a sério a frase do delator Costa pronunciada hoje na CPI da Petrobras.“Isso aconteceu em todos os governos. Todos!”
“Isso” são os sistemas de propinas utilizados para irrigar políticos e partidos.
Você quer fingir que combate a sonegação?
Então faça o seguinte: finja que tudo de ruim aconteceu depois da chegada do PT ao poder.
Na primeira opção, você estará combatendo o bom combate. Na segunda, estará fazendo demagogia barata.
É isso, demagogia barata, que vem fazendo figuras como FHC, Aécio e Gilmar Mendes.
Eles não contribuem em nada para o avanço do país.
É o oposto disso que vêm fazendo figuras como Luciana Genro e Ivan Valente ao se bater pelo fim do financiamento de campanhas por empresas privadas.
Porque é aí que está a raiz da corrupção. É quando, para usar uma expressão recente do Nobel de Economia Paul Krugman, a plutocracia toma de assalto a democracia.
Ninguém dá dinheiro de graça. Seja para Aécio, seja para Dilma, seja para o Pastor Everaldo, seja para quem for.
É uma troca: eu dou dinheiro e depois você, caso ganhe, me retribui.
Dilma voltou a falar que é contra o financiamento privado de campanhas. Falta passar à ação, e o primeiro passo para isso é deixar isso claro de forma categórica em algo como um pronunciamento em rede nacional.
Mas que ninguém se iluda.
Está claro que reformas que conduzam ao avanço da sociedade só serão alcançadas com mobilizações nas ruas, como as Jornadas de Junho.
Se você deixar por conta dos Aécios, dos Eduardos Cunhas, dos Serras e dos Gilmares, passarão o céu e a terra — mas não passará o dinheiro bilionário que as grandes empresas dão a políticos para que atendam aos interesses delas, delas e ainda delas.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O FRUTO AMARGO DA CORRUPÇÃO E O ENCONTRO MARCADO COM A VERDADE !


Encontro marcado com a História

Quando eclodiu a Operação Lava-Jato, no calor do desfecho das eleições presidenciais, os políticos da oposição caíram matando. E ajudaram a difundir a ideia de que as empreiteiras flagradas cometendo crimes destinaram dinheiro mal havido, e fruto de corrupção, para financiar os partidos do governo, o PT e o PMDB. Tomados pela frustração da derrota criminalizaram as doações eleitorais para os partidos governistas.

Teria sido mais prudente se o principal partido de oposição, o PSDB, fizesse discurso diferenciando o que é roubo do que são contribuições eleitorais. Mas não fizeram isso. Preferiram surfar na denúncia. Não ficaram atentos ao fato de que as empresas de construção civil estão entre as principais financiadoras eleitorais. E que as doações são ecumênicas e se destinam a todos os partidos. Afinal, elas executam obras em todos os estados da Federação.

Foi nesse contexto que o proprietário da UTC, Ricardo Pessoa, revelou em depoimento, para a Polícia Federal, que tinha feito doações para as campanhas do PT, da presidente Dilma, e do PSDB, do senador Aécio Neves. Pessoa tratou de doações com o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, que já está crucificado e criminalizado; e, com Sérgio da Silva Freitas, arrecadador do PSDB, e que tenta ser tratado como inocente alegando que não pegou nenhum dinheiro na própria mão. O réu Fernando Baiano faz negócios escusos desde "2001" e Pedro Barusco desde "1996". 

É presumível que novos fatos, semelhantes, sejam colocados à luz do dia. Mas, se o discurso foi o de que o dinheiro de meu adversário era mal havido, como se pode pretender que a doação para a minha campanha tinha origem honesta? Como se fosse possível com duas cédulas na mão alguém dizer: essa aqui, na minha mão direita, que foi doada para a minha campanha, foi ganha honestamente; agora, essa, na mão esquerda, que foi para a campanha de meu adversário, é fruto de roubo.

Ainda é cedo para saber onde essa investigação vai parar e antecipar qual a disposição do juiz Sérgio Moro. Será que desta vez a Justiça será justa e punirá todos os corruptos? Ou o STF punirá os políticos e os demais tribunais abandonarão seus processos no escaninho do compadrio? O STJ e os tribunais estaduais tratarão esse caso como prioridade, como o STF fez com o mensalão, ou os tratarão comodamente como um caso menor? Está na hora do Poder Judiciário ser cobrado com mais rigor pela impunidade reinante!

O PT merece os ataques que vem recebendo, a exemplo do que ocorreu no mensalão. O berro udenista sempre foi seu instrumento para atacar os adversários. Reclamar, porque? E do que? O PT cresceu dizendo que seus adversários eram todos ladrões, que se serviam do poder ao invés de servir ao povo. Não podem agora achar injusto quando seus adversários fazem o mesmo. Não fazem isso de graça, mas quando pegam petistas pisando na bola.

Mas aqueles que olham tudo isso de fora não devem se impressionar com os fatos. Eles não representam nenhuma novidade nem essa prática foi inaugurada pelos plantonistas no poder. Nem há quem possa se declarar imune. Essa prática é uma chaga nacional. Faz parte dos usos e costumes. Se servir da coisa pública em benefício próprio, e para atrapalhar a vida e a iniciativa alheia, é uma prática ancestral nesse país. E, se alguém tiver alguma dúvida, basta ler o livro "Mauá - O Empresário do Império", do jornalista Jorge Caldeira, para saber de onde, e desde quando, tudo isso vem.

Encontro marcado com a História
ILIMAR FRANCO - 24.11.2014 
Site de O Globo
via: http://007bondeblog.blogspot.com.br/2014/11/o-fruto-amargo-da-corrupcao-e-o.html

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Mãos limpas; e depois, Berlusconi?

Arquivo

Por Saul Leblon, via Carta Maior

Aplausos: o combate à corrupção no Brasil finalmente alcançou a esfera dos corruptores.

A operação da PF desfechada nesta sexta-feira para desbaratar o esquema de propinas na Petrobrás incluiu 25 prisões de graúdos personagens do mundo   empresarial.

Entre eles, presidentes, diretores e altos funcionários de grupos como a Camargo Corrêa, OAS, Queiroz Galvão, ademais de um ex-diretor da Petrobras, demitido pela presidenta Dilma Rousseff juntamente com Paulo Roberto Costa, em 2012.

O que se assiste com certo ar de incredulidade ainda, é um primeiro passo daquilo que qualquer país disposto a atacar de frente a corrupção tem que transformar em rotina.

Ou seja, atravessar a porta que separa o sabido do nunca escancarado.

Lá dentro guardada a sete chaves está a contabilidade paralela do capital privado, origem e destino dos malfeitos em torno dos quais orbitam personagens de um sistema eleitoral degenerado, e burocracias públicas carcomidas.

Que tenha vindo para ficar, são os votos.

Sem ilusões, porém.

O combate policial embora seja um passo importante é insuficiente.

Corrupção não é uma singularidade capitalista.

Ou esquerdista.

Ela é endêmica em sociedades dissociadas da transparência que só um salto na democracia participativa   –que atinja organicamente os centros de decisão do Estado, da vida das empresas e da mecânica eleitoral— pode realmente propiciar.

Caso contrário, a história se repete.

Não raro, como tragédia, na forma de um desencanto político que frequentemente  instala no poder versões extremadas  daquilo que se pretendia extinguir

É oportuno lembrar.

A ‘Operação Mãos Limpas’ realizada na Itália, em 1992, figura como uma das  principais referências no combate à endogamia entre o dinheiro privado e a política.

Lá como cá o núcleo dos ilícitos começava nas distorções de financiamento do sistema eleitoral.

E terminava sabe-se onde.

A devassa ocupou dois anos e expediu 2.993 mandados de prisão; 6.059 figurões tiveram as contas e patrimônios dissecados  --entre eles, 872 empresários  e 438 parlamentares, incluindo-se  quatro  ex- primeiros-ministros.

Não terminou em pizza.

Cerca de  1.300  réus foram condenados; apenas 150 absolvidos.

Não faltaram suicídios, assassinatos, fugas e humilhações.

O furacão jurídico destruiu a Primeira República Italiana.

Cinco grandes partidos, incluindo-se a Democracia Cristã, o Partido Socialista e o Partido Comunista, o maior e mais estruturado do ocidente, viraram poeira da história.

Desapareceram.

O espaço que se abriu, porém,   não encontrou forças mobilizadas, tampouco projetos organizados e nem propostas críveis  para catalisar a revolta e a desilusão da sociedade.

O passo seguinte não foi o surgimento de uma república emancipadora e revigorada.

As causas do anticlímax   remetem a décadas antes.

O sistema partidário italiano, condenado na tomografia da corrupção, na verdade já se descolara da representação da sociedade há muito tempo.

No campo da esquerda, o caso do PCI é o mais dramático pela importância e a influência que exerceu em toda a luta progressista mundial.

As raízes da deriva remetiam a uma discutível interpretação de Gramsci.

Não um erro teórico.

Não uma questão acadêmica.  Uma leitura política seletiva, conveniente à orientação caudatária da Rússia aos PCs da Europa então.

Qual seja?  Não afrontar o poder de classe no território da economia e da luta política de massa.

Optou o PCI, então, com raro talento, diga-se, pela construção de uma hegemonia fortemente vincada em pilares intelectuais e culturais provedores de prestígio e influência.

Uma hegemonia, mas pela metade: 50% de Gramsci; 50% de rendição histórica ao capital.

Uma hegemonia invertebrada do ponto de vista da organização para o exercício efetivo do poder.

Aos poucos, abriu-se um fosso.

De um lado, reinava a indiscutível qualidade intelectual e artística da esquerda comunista italiana, respeitada em todo o mundo.

De outro, transformações objetivas em curso.

Uma classe trabalhadora muito distinta daquela iluminada nos filmes do neo realismo de Rosselini e De Sica era modelada nos rigores de um capitalismo em transformação, para pior.

Quando a ‘Mãos Limpas’ atingiu os partidos, Tatcher  já atingira letalmente os pisos salariais  e os direitos sociais na Europa, a social democracia já flertava com os albores neoliberais  e o Muro de Berlim caíra três anos antes. 

Esmagada pela compressão salarial interna e externa, a classe trabalhadora italiana tornara-se, ao mesmo tempo, refém da massificação do consumo e da dissolução das referências históricas.

O distanciamento intelectual entre a hegemonia cultural do PCI e aquilo que as redes de comunicação, sobretudo a andrajosa qualidade da televisão italiana, expeliam diuturnamente cavou um fosso regressivo.

Deu-se então o que se sabe.

 O que emergiu no rastro do Mãos Limpas não foi uma república virtuoso e sim o horror na forma de uma liderança bufa, que substituiu a hegemonia de Gramsci pela indigência de sua rede de televisão.

Tragicamente, o que se pretendia combater, ganhou impulso avassalador.

A independência entre o poder político e o poder econômico desapareceu.

Um país desprovido de partidos fortes, desiludido de suas lideranças virou refém de Il Cavaliere, um capo  despudoramente reresentativo do vazio chocado em uma sociedade atomizada, feita de estilhaços humanos fatiados pelo consumo e por um sistema de comunicação excretor de valores afins.

Não foi um espasmo ou um ponto fora da curva.

 Silvio Berlusconi e sua fortuna de US$ 6 bilhões ficaram nove anos no poder, em três mandatos subsequentes,   entre 1994 e 2011.

Foi o primeiro ministro  que mais tempo ficou no poder da Itália no pós-guerra.

Sua rede de televisão substituiu o PCI, o PSI, a DC e construiu a hegemonia sobre as massas italianas da qual os comunistas se descuidaram.

A tragédia encerra lições à esquerda mundial.

Mas de forma dilacerante a do Brasil.

A toda a esquerda; ao PT em especial.

A ação policial contra a corrupção é importante; deve ser ininterrupta; não pode ser seletiva.

Menos ainda míope a ponto de excluir de seu foco –  reiteradamente— certos episódios exclamativos.

Tão exclamativos que chamaram a atenção da justiça  na Suíça, mas nunca aguçaram a perspicácia da  PF brasileira ou dos combativos  ‘moros’ de plantão.

Caso do propinoduto no metrô do PSDB em São Paulo, por exemplo.

Para citar apenas um caso, em uma dúzia.

Investigue-se.

Tudo.

Mas o passar a limpo não vai  criar um sistema político regenerado, nem impedir que ele continue a regredir em direção a coisa pior.

Sem partidos fortes, com  desassombro programático para catalisar a sociedade e resgatar a luta pelo desenvolvimento,  a anomia que favorece as excrescências aguarda o país na  esquina.

Berlusconis, bolsonaros, lobões, terceiras vias diversas, oportunistas de bico longo e outras versões de morbidez histórica estão à espreita.

Formam padrões recorrentes na borra da dissolução, quando o velho ainda não morreu e o novo não tem força para emergir.

A história, de qualquer forma, aperta o passo no Brasil.

E não por aceleração da iniciativa progressista.

Tampouco porque o novo está prestes a emergir.   

Mas há uma certeza, cada dia mais evidente: a esquerda não tem mais o direito de perguntar que horas são.

A pergunta não é quanto falta, mas quanto tempo ainda resta.

Quanto tempo resta para as lideranças progressistas tomarem consciência de que precisam sentar, conversar, limar sectarismos e  firmar uma agenda de rua, para sustentar e influenciar o governo eleito democraticamente no longínquo 26 de outubro de 2014.

Antes que seja tarde.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Corruptos, corruptores e a hipocrisia da "gente de bem"


Combater a corrupção é fundamental para que o Brasil seja ainda melhor do que é.
Mas o combate tem de ser de verdade, não esse de mentirinha que os nossos prezados tucanos apregoam.
Aécio teve o cinismo de dizer, nesse último debate televisivo, que para acabar com a corrupção era só tirar o PT do poder!
Como um político que quer ser levado a sério diz uma imbecilidade dessas?
Ora, a corrupção existe no Brasil desde os tempos de Cabral.
É uma das práticas favoritas não só de políticos, mas de empresários - não existe corrupto sem corruptor, não é? - e dos cidadãos comuns, esses mesmos que escrevem essa besteirada toda nas redes sociais de que estão fartos da corrupção do PT.
Um monte de "gente de bem" vive de carteiradas, de pequenos golpes que aplicam no dia a dia, de expedientes e jeitinhos.

Você dá uma volta na sua cidade e em 10 minutos observa não sei quantas infrações no trânsito.
Vai ao supermercado e vê a vaga de estacionamento de idosos e deficientes físicos tomada por carrões dirigidos por peruas loiras e rapagões sarados.
Conheço gente que se orgulha de fazer "gato" do sinal da NET e de ter sonegado o Imposto de Renda.
E os nossos queridos médicos, dentistas, advogados, que nunca emitiram uma nota fiscal na vida toda?
E os comerciantes, então, que só dão a nota se a gente implorar?
Ora, quem são essas pessoas para cobrar o fim da "corrupção do PT"?
Que exemplos eles dão aos seus filhos, infringindo as mais elementares leis?
O combate à corrupção deve ser sistemático, sem trégua.
Lembro a todos que foi no governo Lula que se criou a Controladoria-Geral da União, que tem feito um trabalho incessante contra a corrupção.
Lembro ainda que foi Fernando Haddad que criou órgão semelhante na Prefeitura de São Paulo.
Esses são bons exemplos institucionais de como combater a corrupção.
O trabalho da Polícia Federal é outro.
Seu desempenho sob os governos petistas é prova que o país evoluiu muito nesse quesito.
Agora, o cidadão comum também tem de colaborar - e não ficar só nesse discurso babaca de que o PT é culpado de tudo, de que os políticos são corruptos, isentando todos os outros atores, inclusive ele próprio, do crime.
No fundo, o que eu acho é que as pessoas não conseguiriam sobreviver sem aquela corrupçãozinha do dia a dia e morrem de medo que tenham, eventualmente, de pagar pelo que fazem com a maior naturalidade do mundo.
Só para terminar: será que esse pessoal "anticorrupção" toparia endurecer a lei, como querem covardemente fazer com os menores de idade?
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2014/10/corruptos-corruptores-e-hipocrisia-da.html#more