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sábado, 5 de novembro de 2016

EM 2018, OU VOTO FACULTATIVO OU NULO!


"a noite esfriou,
o dia não veio, 
o bonde não veio, 
o riso não veio, 
não veio a utopia 
e tudo acabou 
e tudo fugiu 
e tudo mofou, 
e agora, José?"
(Carlos Drummond
de Andrade)
Neste período pós resultados das eleições municipais destacam-se os novos prefeitos eleitos, os mesmos de outrora e, também, os especialistas em política, os mesmos de todos os tempos. 

Para estes últimos, quem ganha ou perde são os velhos caciques dos partidos e não os prefeitos eleitos. Partindo de tal  premissa, eles já definiram o candidato à Presidência da República em 2018 pelo Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB, cuja sigla nasceu de uma costela do Partido do Movimento Democrático Brasileiro  PMDB, mas ninguém se lembra mais disso.  A constatação óbvia da derrocada do Partido dos Trabalhadores – PT fecha o ciclo de análisespolíticas.

No afã de realçarem o candidato do PSDB, fazem ilações bizarras, para dizer o mínimo. Costumam atribuir a vitória de qualquer prefeito eleito, do Oiapoque ao Chui, ao apoio dado pelo governador de São Paulo. Qualquer coisa se transforma em fator decisivo, tipo “quando morou em São Paulo nos anos 60, o prefeito vencedor era amigo da amiga de uma cozinheira que trabalhava na casa da prima do governador”. 
Quem ainda lembra deste fracasso do Alckmin?

Simples assim. Com tão poderosa influência, o resultado só poderia ser a vitória certa do candidato.

Utilizam-se da mesma régua, em sentido oposto, para vaticinar a derrota do pretenso concorrente. Aqui um parêntese: só para reforçar que a única função de partidos políticos no Brasil é lançar candidatos. Além de se sustentarem à custa do suado dinheiro do contribuinte, que recebem por meio do Fundo Partidário.

Escolhido o candidato, passa-se à exposição de suas virtudes. Nunca se aponta ou comenta uma falha, algum projeto mal executado. 

O único vitorioso destas eleições, o governador de São Paulo, talvez seja quem exerceu o cargo de governador por mais tempo na história brasileira.

Já o partido dele governa o Estado há 22 anos. Completará 24 na época em que ele estiver em campanha presidencial, prometendo a solução da segurança para o país. 

Nenhum especialista começa a pesquisar se o número de assassinatos ultrapassou um milhão de pessoas no período em que o PSDB governou o estado. Simplesmente para que, quando o candidato deste partido estiver prometendo a solução para a segurança do país, tal número de assassinatos sirva para um confronto, possibilitando indagar ao dito candidato o que faria de diferente para garantir a segurança do País, se fracassou no próprio estado que governou. 

Ele e a segurança servem de exemplo apenas por já ter sido escolhido pela mídia. Mas, vale para qualquer pretenso candidato e para qualquer área, como educação, saúde, estradas, infraestrutura e todas as demais. 
E o abastecimento de água, até bem pouco tempo atrás?
A falta de segurança pode ser atestada por qualquer um, por experiência  própria. No meu caso, em agosto de 2016 minha filha foi assaltada, por um pedestre, ao meio-dia de um sábado, na frente do condomínio em que mora. No último dia 31 de outubro foi novamente assaltada, desta feita por dois homens numa motocicleta, no mesmo lugar. Ela vai continuar pagando um celular que não possui mais.

Este exemplo pessoal não é dirigido somente ao governador, mas também aos especialistas da área de segurança, que vivem defendendo pena branda para “crime de menor potencial ofensivo”. 

Um celular! Não é pelo objeto. Minha filha teve a sensação de morte, ao ficar encostada numa parede, de costas para eles. Itso é o que chamam de menor potencial ofensivo. Se fosse um avião... Mas, o que vale menos, um celular para minha filha ou um aviãozinho para o dono da Odebrecht?]

Obs.: há um blablablá danado sobre a necessária reforma política, na proporção inversa do silêncio sepulcral quanto ao voto facultativo. Em 2018, ou facultativo ou nulo! Lema lançado.

https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/11/em-2018-ou-voto-facultativo-ou-nulo.html

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

FREIXO: "MUITOS QUESTIONAMENTOS QUE SURGIRAM DURANTE AS MANIFESTAÇÕES DE 2013 PERMANECEM SEM RESPOSTA".


"A esquerda brasileira vive agora o seu pior momento desde o fim da ditadura militar. É uma pena, mas pagamos o preço por tudo de ruim que aconteceu durante o ciclo do PT na Presidência da República, apesar de não termos feito parte daqueles governos. 

Na verdade, esta não é apenas uma questão carioca. Se olharmos os resultados das eleições municipais em todo o Brasil, veremos que a esquerda sofreu uma derrota nacional. 

É uma boa hora para refletirmos. Muitos questionamentos que surgiram durante as manifestações de 2013 ainda permanecem sem resposta e os eleitores se sentem distanciados do processo político."
(Marcelo Freixo, derrotado pela Igreja Univer$al e seus zumbis na eleição para prefeito da
cidade que um dia foi maravilhosa, mas agora se tornou bastião de obscurantistas 
tacanhos, obcecados em fazerem as rodas da História girarem para 
trás, levando-nos de volta para as trevas medievais)
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/11/freixo-muitos-questionamentos-que.html

terça-feira, 1 de novembro de 2016

BALANÇO FINAL: O NÃO-VOTO BOMBOU NAS CIDADES MAIS PRÓSPERAS DO PAÍS E A ESTRELA DO PT APAGOU.

Os pleitos municipais de 2016 revelaram um enorme desencanto do eleitorado com o Partido dos Trabalhadores em particular e com a política em geral, tanto que não-voto (abstenção, nulos e brancos) superou a votação dos prefeitos eleitos por cidades como São Paulo, o município brasileiro com maior PIB; Rio de Janeiro, o 2º da lista; Belo Horizonte, o 4º; e Porto Alegre, o 8º. Vale lembrar que em Brasília, o 3º, inexiste o cargo de prefeito.

Nas dez cidades restantes com maior peso político e econômico, o percentual dos que mandaram às urtigas a escolha do novo prefeito foi de:
  • 34,84% em São Paulo, totalizando 3.096.304 eleitores, enquanto o eleito, João Doria (PSDB), obteve 3.085.187 votos;
  • 41,53% no Rio de Janeiro, totalizando 2.034.352 eleitores, enquanto o eleito, Marcelo Crivella (PRB), obteve 1.700.030 votos;
  • 38,50% em Belo Horizonte, totalizando 742.050 eleitores, enquanto o eleito, Alexandre Kalil (PHS), obteve 628.050 votos;
  • 39,48% em Porto Alegre, totalizando 433.751 eleitores, enquanto o eleito, Nelson Marchezan Jr. (PSDB), obteve 402.165 votos;
  • 32,74% em Curitiba, totalizando 422.153 eleitores, enquanto o eleito, Rafael Greca (PMN), obteve 461.736 votos;
  • 31,86% em Salvador, totalizando 620.662 eleitores, enquanto o eleito, ACM Neto (DEM), obteve 982 246 votos;
  • 25,13% em Fortaleza, totalizando 425.414 eleitores, enquanto o eleito, Roberto Cláudio (PDT), obteve 678.847 votos;
  • 22,30% em Recife, totalizando 257.394 eleitores, enquanto o eleito, Geraldo Júlio (PSB), obteve 528.335 votos;
  • 17,30% em Manaus, totalizando 217.540 eleitores, enquanto o eleito, Artur Neto (PSDB), obteve 581.777 votos;
  • 39,28% em Campinas (SP), totalizando 322.875 eleitores, enquanto o eleito, Jonas Donizette (PSB), obteve 323.308 votos.
Ou seja, quem realmente venceu em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre foiNinguém, não aquele que sentará na cadeira de prefeito.

E os estados nordestinos continuam tardando em sintonizar-se com o sentimento predominante nas regiões economicamente mais desenvolvidas (aquelas que, segundo Karl Marx, apontam o rumo que as demais seguirão). Em 2014, salvaram Dilma Rousseff da derrota. Dois anos depois já estão rejeitando o PT, mas ainda não estenderam tal rejeição às demais forças da política oficial. Atingirão tal estágio em 2018?

Segundo o Congresso em Foco (vide aqui), o PT despencou de 24,2 milhões de votos obtidos nos dois turnos das eleições para prefeito de 2012 para 7,6 milhões agora, além de passar a comandar uma única capital brasileira (Rio Branco) e de sofrer dolorosa derrota no ABCD paulista, berço político de Lula.
Está pagando caro pela postura que começou a assumir já na década de 1980 e depois foi aprofundando cada vez mais: o abandono dos ideais revolucionários e consequente aposta na melhora das condições econômicas dos explorados sob o capitalismo.

Ou seja, prometeu conduzir a classe operária ao paraíso pelo caminho tão fácil quanto ilusório das urnas; e, previsivelmente, não conseguiu cumprir a promessa. Daí estar agora sendo visto pela maioria dos brasileiros comofarinha do mesmo saco, não mais uma exceção à venalidade generalizada, mas tão somente a confirmação da regra de que o homem comum nada de bom deve esperar dos podres Poderes e de quem deles participa.

Isto porque o PT (e boa parte da esquerda não-petista) não levou em conta duas evoluções muito importantes do quadro político e econômico.
.
O CAPITALISMO AINDA RESISTE
MAS SUA AGONIA É IRREVERSÍVEL.
.
O capitalismo continua minado pela contradição fundamental de que, ao usurpar dos trabalhadores parte substancial dos valores que eles criam, não lhes dá condições de adquirir todos os frutos do seu labor. Tal descompasso, antigamente, levava às crises cíclicas, guerras e agudas depressões, formas extremas de tornar mais equilibradas a oferta e a procura. 

Os marcantes avanços científicos e tecnológicos das últimas décadas vêm reduzindo cada vez mais a componente de trabalho humano nos produtos, o que faz diminuir na mesma proporção o lucro que o capital pode extrair de cada item produzido. Como a expansão ininterrupta é condiçãosine qua non de sua vitalidade, o fato de cada vez mais chocar-se com limites intransponíveis debilita crescentemente o capitalismo, prenunciando seu colapso definitivo.

A crise devastadora para a qual marcha a economia globalizada só não eclode com força total porque a penúria e o apertar de cintos são transferidos de país para país, com a relativa prosperidade de uns tendo como contrapartida o inferno de outros; e também porque a concessão indiscriminada de crédito sem garantia e a emissão desmedida de moeda sem lastro permitem empurrar com a barriga o acerto de contas, adiando longamente (mas não indefinidamente) ojuízo final.

Mais dia, menos dia, o castelo de cartas desabará, impondo ao sistema capitalista como um todo uma depressão econômica tão profunda que fará a da década de 1930 parecer brincadeira de criança. 

Ao trocar a luta de classes pela conciliação de classes, o PT acreditou que bastaria se mostrar tão inofensivo e domesticado quanto um lulu de madame, resignando-se a não meter o bedelho nas decisões macroeconômicas, para os donos do Brasil o deixarem cuidar das miudezas administrativas em paz; e supôs que o bom desempenho que as commodities brasileiras vinham obtendo no comércio internacional durante a década passada duraria para sempre, permitindo-lhe satisfazer o apetite pantagruélico do grande empresariado e, ao mesmo tempo, colocar algumas migalhinhas a mais na mesa dos coitadezas.

O preço destas apostas equivocadas é sua degringola atual.
.
A POLÍTICA OFICIAL É SÓ FIGURAÇÃO, O
 PODER ECONÔMICO MANDA E DESMANDA.
.
Outro fenômeno que vem se acentuando cada vez mais é o avassalamento do poder político ao poder econômico. Não há mais sobrevivência possível fora do modelo capitalista de inspiração neoliberal, pelo menos enquanto ele for dominante em escala global; países ou blocos que tentam isoladamente confrontá-lo, têm até agora sucumbido. [A bola da vez é a Venezuela, símbolo maior do agonizante bolivarismo.]

A lógica da economia capitalista se impõe esmagadoramente sobre o Executivo e o Legislativo (bem como sobre as instâncias superiores do Judiciário), tornando inócuas as tentativas de colocar em xeque a exploração do homem pelo homem a partir das tribunas parlamentares e dos palácios do governo. Os mandatos eletivos servem para dar boa vida a maus representantes do povo, mas não para emancipar o povo.

Então, outra lição importante a tirarmos da ascensão e queda do PT é que a chamada via eleitoral caducou e hoje só serve para manter a esquerda patinando sem sair do lugar.

O que fazermos, então?

O primeiro passo, obviamente, será estancarmos a hemorragia e voltamos a acumular forças.

Resgatarmos nossa credibilidade, tão abalada por escândalos que jamais poderiam ter ocorrido no nosso campo.

E reerguermos a esquerda, como uma alternativa à política oficial e não como parte do seu sistema.

O tempo das bravatas e dos projetos mirabolantes passou. Temos de, humildemente, voltar a participar das lutas justas da sociedade, dando nossos melhores esforços para que elas frutifiquem, ao mesmo tempo em que estivermos alertando os explorados, humilhados e ofendidos, no sentido de que suas conquistas só serão definitivas com a superação do capitalismo. Até lá, continuaremos assistindo a retrocessos como o empobrecimento, nos últimos anos, danova classe média que os petistas se ufanavam de haver gerado.

Quanto aos voos maiores, são algo para pensarmos quando a correlação de forças não estiver tão desequilibrada em nosso desfavor como está agora; e também quando as crises econômica e ambiental do capitalismo se agravarem ainda mais, provavelmente interagindo entre si. Tudo leva a crer que, nas próximas décadas, a humanidade enfrentará seu maior desafio em todos os tempos.

Como em 1917 na Rússia e em 1949 na China, é bem provável que então se abram janelas revolucionárias, com os homens redescobrindo a solidariedade na luta que terão de travar por sua sobrevivência ameaçada. Pode ser o ponto de partida para uma reorganização da sociedade em bases bem diferentes, passando a priorizar a colaboração fraterna dos homens em prol do bem comum. 
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/10/depois-do-vendaval.html

"GUINADA PARA A CENTRO-DIREITA PARECE SER MAIS CIRCUNSTANCIAL DO QUE IDEOLÓGICA".


TICO E TECO
A exemplo da economia, a ciência política não é muito confiável na hora de fazer previsões acuradas sobre o futuro. Não é raro que os caprichos da conjuntura se somem às inconstâncias do eleitor para sabotar os mais belos modelos elaborados pelos especialistas. Ainda assim, exatamente como ocorre com a economia, existem alguns princípios muito gerais que atuam na grande maioria dos pleitos.

O algoritmo mais básico usado pelo eleitor é: se a situação está boa, mantenha o governante e seu partido; se está ruim, puna-os. Isso significa que, sempre que houver uma mudança brusca na economia, deve-se esperar um movimento correspondente na política.

Foi exatamente o que verificamos nestas eleições municipais. Dada a ruína econômica do último biênio, o PT viu o número de prefeituras que controla despencar de 644 para 254 (queda de 61%) e a população que governa ser reduzida de 38 milhões para 5,9 milhões (-84%). 

Para tornar a punição mais dolorida, boa parte dos eleitores escolheu votar no partido que mais rivalizava com o PT, que é o PSDB. Os tucanos viram a população sob suas prefeituras passar de 25,8 milhões para 48,7 milhões, salto de 89%. 

Curiosamente, os petistas contribuíram bastante para a vitória do oponente, ao ter pintado insistentemente os tucanos como antípodas do PT ao longo dos últimos 13 anos.

Outro algoritmo muito usado por eleitores é: se você estiver insatisfeito com o sistema, flerte com alternativas. Vimos um pouco disso tanto no aumento da fragmentação partidária quanto no discurso de candidatos vitoriosos que se descreveram como não políticos, o que certamente tem a ver com as revelações da Lava Jato.

As interações entre os dois algoritmos —que podemos chamar de Tico e Teco— sugerem que o ambiente político seguirá ainda bastante instável e que a guinada do eleitor para a centro-direita parece ser mais circunstancial do que ideológica.
Por Hélio Schwartsman

no:  https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/11/helio-schwartsman-guinada-para-centro.html

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

DEPOIS DO VENDAVAL

Os pleitos municipais de 2016 revelaram um enorme desencanto do eleitorado brasileiro com a política em geral e com o Partido dos Trabalhadores em particular.

Assim, nas dez cidades brasileiras com maior peso político e econômico em que se realizaram eleições para prefeito –Brasília fica fora da relação porque lá inexiste tal cargo–, o não-voto(abstenções, nulos e brancos) atingiu o percentual de:
  • 34,84% em São Paulo, totalizando 3.096.304 eleitores inscritos, enquanto o eleito, João Doria (PSDB), obteve 3.085.187 votos;
  • 41,53% no Rio de Janeiro, totalizando 2.034.352 eleitores inscritos, enquanto o eleito, Marcelo Crivella (PRB), obteve 1.700.030 votos;
  • 38,50% em Belo Horizonte, totalizando 742.050 eleitores inscritos, enquanto o eleito, Alexandre Kalil (PHS), obteve 628.050 votos;
  • 39,48% em Porto Alegre, totalizando 433.751 eleitores inscritos, enquanto o eleito, Nelson Marchezan Jr. (PSDB), obteve 402.165 votos;
  • 32,74% em Curitiba, totalizando 422.153 eleitores inscritos, enquanto o eleito, Rafael Greca (PMN), obteve 461.736 votos;
  • 31,86% em Salvador, totalizando 620.662 eleitores inscritos, enquanto o eleito, ACM Neto (DEM), obteve 982 246 votos;
  • 25,13% em Fortaleza, totalizando 425.414 eleitores inscritos, enquanto o eleito, Roberto Cláudio (PDT), obteve 678.847 votos;
  • 22,30% em Recife, totalizando 257.394 eleitores inscritos, enquanto o eleito, Geraldo Júlio (PSB), obteve 528.335 votos;
  • 17,30% em Manaus, totalizando 217.540 eleitores inscritos, enquanto o eleito, Artur Neto (PSDB), obteve 581.777 votos;
  • 39,28% em Campinas (SP), totalizando 322.875 eleitores inscritos, enquanto o eleito, Jonas Donizette (PSB), obteve 323.308 votos.
Ou seja, quem realmente venceu em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre foiNinguém, não aquele que sentará na cadeira de prefeito.

E os estados nordestinos continuam tardando em sintonizar-se com o sentimento predominante nas regiões economicamente mais desenvolvidas (aquelas que, segundo Karl Marx, apontam o rumo que as demais seguirão). Em 2014, salvaram Dilma Rousseff da derrota. Dois anos depois já estão rejeitando o PT, mas ainda não estenderam tal rejeição às demais forças da política oficial. Atingirão tal estágio em 2018?

Segundo o Congresso em Foco (vide aqui), o PT despencou de 24,2 milhões de votos obtidos nos dois turnos das eleições para prefeito de 2012 para 7,6 milhões agora, além de passar a comandar uma única capital brasileira (Rio Branco) e de sofrer dolorosa derrota no ABCD paulista, berço político de Lula.
Está pagando caro pela postura que começou a assumir já na década de 1980 e depois foi aprofundando cada vez mais: o abandono dos ideais revolucionários e consequente aposta na melhora das condições econômicas dos explorados sob o capitalismo.

Ou seja, prometeu conduzir a classe operária ao paraíso pelo caminho tão fácil quanto ilusório das urnas; e, previsivelmente, não conseguiu cumprir a promessa. Daí estar agora sendo visto pela maioria dos brasileiros comofarinha do mesmo saco, não mais uma exceção à venalidade generalizada, mas tão somente a confirmação da regra de que o homem comum nada de bom deve esperar dos podres Poderes e de quem deles participa.

Isto porque o PT (e boa parte da esquerda não-petista) não levou em conta duas evoluções muito importantes do quadro político e econômico.
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O CAPITALISMO AINDA RESISTE
MAS SUA AGONIA É IRREVERSÍVEL.
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O capitalismo continua minado pela contradição fundamental de que, ao usurpar dos trabalhadores parte substancial dos valores que eles criam, não lhes dá condições de adquirir todos os frutos do seu labor. Tal descompasso, antigamente, levava às crises cíclicas, guerras e agudas depressões, formas extremas de tornar mais equilibradas a oferta e a procura. 

Os marcantes avanços científicos e tecnológicos das últimas décadas vêm reduzindo cada vez mais a componente de trabalho humano nos produtos, o que faz diminuir na mesma proporção o lucro que o capital pode extrair de cada item produzido. Como a expansão ininterrupta é condiçãosine qua non de sua vitalidade, o fato de cada vez mais chocar-se com limites intransponíveis debilita crescentemente o capitalismo, prenunciando seu colapso definitivo.

A crise devastadora para a qual marcha a economia globalizada só não eclode com força total porque a penúria e o apertar de cintos são transferidos de país para país, com a relativa prosperidade de uns tendo como contrapartida o inferno de outros; e também porque a concessão indiscriminada de crédito sem garantia e a emissão desmedida de moeda sem lastro permitem empurrar com a barriga o acerto de contas, adiando longamente (mas não indefinidamente) ojuízo final.

Mais dia, menos dia, o castelo de cartas desabará, impondo ao sistema capitalista como um todo uma depressão econômica tão profunda que fará a da década de 1930 parecer brincadeira de criança. 

Ao trocar a luta de classes pela conciliação de classes, o PT acreditou que bastaria se mostrar tão inofensivo e domesticado quanto um lulu de madame, resignando-se a não meter o bedelho nas decisões macroeconômicas, para os donos do Brasil o deixarem cuidar das miudezas administrativas em paz; e supôs que o bom desempenho que as commodities brasileiras vinham obtendo no comércio internacional durante a década passada duraria para sempre, permitindo-lhe satisfazer o apetite pantagruélico do grande empresariado e, ao mesmo tempo, colocar algumas migalhinhas a mais na mesa dos coitadezas.

O preço destas apostas equivocadas é sua degringola atual.
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A POLÍTICA OFICIAL É SÓ FIGURAÇÃO, O
 PODER ECONÔMICO MANDA E DESMANDA.
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Outro fenômeno que vem se acentuando cada vez mais é o avassalamento do poder político ao poder econômico. Não há mais sobrevivência possível fora do modelo capitalista de inspiração neoliberal, pelo menos enquanto ele for dominante em escala global; países ou blocos que tentam isoladamente confrontá-lo, têm até agora sucumbido. [A bola da vez é a Venezuela, símbolo maior do agonizante bolivarismo.]

A lógica da economia capitalista se impõe esmagadoramente sobre o Executivo e o Legislativo (bem como sobre as instâncias superiores do Judiciário), tornando inócuas as tentativas de colocar em xeque a exploração do homem pelo homem a partir das tribunas parlamentares e dos palácios do governo. Os mandatos eletivos servem para dar boa vida a maus representantes do povo, mas não para emancipar o povo.

Então, outra lição importante a tirarmos da ascensão e queda do PT é que a chamada via eleitoral caducou e hoje só serve para manter a esquerda patinando sem sair do lugar.

O que fazermos, então?

O primeiro passo, obviamente, será estancarmos a hemorragia e voltamos a acumular forças.

Resgatarmos nossa credibilidade, tão abalada por escândalos que jamais poderiam ter ocorrido no nosso campo.

E reerguermos a esquerda, como uma alternativa à política oficial e não como parte do seu sistema.

O tempo das bravatas e dos projetos mirabolantes passou. Temos de, humildemente, voltar a participar das lutas justas da sociedade, dando nossos melhores esforços para que elas frutifiquem, ao mesmo tempo em que estivermos alertando os explorados, humilhados e ofendidos, no sentido de que suas conquistas só serão definitivas com a superação do capitalismo. Até lá, continuaremos assistindo a retrocessos como o empobrecimento, nos últimos anos, danova classe média que os petistas se ufanavam de haver gerado.

Quanto aos voos maiores, são algo para pensarmos quando a correlação de forças não estiver tão desequilibrada em nosso desfavor como está agora; e também quando as crises econômica e ambiental do capitalismo se agravarem ainda mais, provavelmente interagindo entre si. Tudo leva a crer que, nas próximas décadas, a humanidade enfrentará seu maior desafio em todos os tempos.

Como em 1917 na Rússia e em 1949 na China, é bem provável que então se abram janelas revolucionárias, com os homens redescobrindo a solidariedade na luta que terão de travar por sua sobrevivência ameaçada. Pode ser o ponto de partida para uma reorganização da sociedade em bases bem diferentes, passando a priorizar a colaboração fraterna dos homens em prol do bem comum. 
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/10/depois-do-vendaval.html

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

QUER SABER QUEM É MARCELO CRIVELLA (AQUELE QUE TORNARÁ HORROROSA A CIDADE MARAVILHOSA)?


CRÔNICA DE UM EPISÓDIO CANALHA

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Junho de 2008. 

O senador Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, apostou numa reciclagem dos barracos das favelas como trampolim para a Prefeitura do Rio de Janeiro – à qual pretendia chegar com o apoio do vice-presidente José Alencar (são ambos do PRB) e a benção do Governo Federal.

Cimento Social foi um projeto maldito desde o início.

Primeiramente por ser superfaturado, conforme então denunciou o veterano analista político Zuenir Ventura: "o custo para reformar uma casa [R$ 22 mil] é mais da metade do preço de construí-la por inteiro [R$ 32 mil]”.

Depois, porque os fornecedores escolhidos foram, obviamente, empresários ligados à IURD. Aqueles que pagam vultosos dízimos.

E, ainda, por ser um pacote escandalosamente eleitoreiro: a equipe de Crivella fez o projeto e elaborou o cadastro dos beneficiados, de forma a colher todos os dividendos políticos. Quanto à conta de R$ 16 milhões, ficou para a viúva pagar, claro.

Por último, poupou-se o custo de seguranças para a execução do projeto no Morro da Providência, delegando a função ao Exército, que sabia ser uma roubada, mas acabou engolindo o sapo.
Pitorescas fotos antigas do Crivella, que estão na capa da revista veja.

José Sarney naquele tempo falava grosso, pois ainda não devia a sobrevivência política a Lula. Então, disse que o Exército não honrara suas tradições ao aceitar tal empreitada, contrariamente ao que fazia quando se recusava a caçar escravos fugidos por considerar que era tarefa de capitães-do-mato e não de militares.

Quando a substância fedeu, José Alencar tirou o corpo fora, negando ter sido ele quem aconselhara Lula a dar esse péssimo passo:
"Nosso partido, o PRB, não tem esse poder de convencimento, de uma força militar fazer algo que não queira. Isso tudo passou pelo presidente Lula".
A comédia de erros terminou em tragédia. Agindo com a truculência que lhes-é habitual quando atuam junto a comunidades carentes, os militares mataram ou provocaram a morte de três jovens que voltavam de uma balada.

Uma patrulha suspeitou deles e os submeteu a uma revista cujo resultado foi nulo: não portavam armas nem drogas.
As vítimas da jogada eleitoreira do Crivella

Houve bate-boca. O tenente que comandava a patrulha os deteve por desacato. Seu superior (capitão) ordenou que fossem soltos. O tenente, inconformado, desatendeu a ordem. Acabaram barbaramente torturados e executados a sangue-frio (um deles recebeu 26 tiros).

A versão oficial é a de que o tenente os entregou a traficantes rivais de outro morro. A versão alternativa, sustentada por Jânio de Freitas e por mim, foi a de que algum deles sucumbiu às torturas no quartel (como acontecia freqüentemente na ditadura de 1964/85) e os militares decidiram assassinar os outros dois, montando uma farsa para atenuar suas responsabilidades.

Ambas deixavam a imagem do Exército em frangalhos. Além dos detalhes escabrosos, havia os fatos de que um tenente ignorou olimpicamente a decisão de um capitão; um capitão não teve a mínima curiosidade em verificar se sua ordem havia sido cumprida; e o comandante militar do Leste, diante de um acontecimento de tal gravidade, preferiu continuar em férias na Europa do que vir descascar o abacaxi.

O assassinato, as circunstâncias chocantes que o cercaram e o alegado conluio entre militares e traficantes foram prato cheio para a imprensa. O castelo de areia desabou.

A Justiça Eleitoral embargou as obras do Cimento Social após a mídia noticiar que Crivella estava destacando esse projeto em folhetos e outras peças de campanha.

O ministro da Defesa ordenou a retirada das tropas.
O resultado da demagogia

E, o melhor de tudo: o episódio desmoralizou tanto Crivella que ele perdeu a vaga, dada como certa, no 2º turno. O azarão Fernando Gabeira arrancou na reta final.

Mais que cimento, foi uma pá de cal nas chances eleitorais do citado elemento (o jargão policial cai como uma luva neste contexto...).

Quanto aos militares, 11 foram acusados na 7ª Vara Criminal da Justiça Federal no RJ, que acaba de absolver e libertar os nove subalternos; estes safaram-se em definitivo.

O tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade e o sargento Leandro Bueno ainda irão a júri, provavelmente no mês que vem. Não vai dar em nada, claro.

A Justiça Militar também julgou o tenente, condenando-o a um ano de prisão por recusa de obediência.

Ou seja, ter desacatado a ordem do capitão, que mandara libertar os coitados, é o único crime que ele cometeu, na ótica do Exército.

Seria cômico se não fosse trágico.
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(post publicado em maio de 2010 neste blogue, evocando um 
episódio que ocorrera três meses antes de sua entrada no 
ar, mas que fora, à época, dissecado neste artigo.)
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https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/10/quer-saber-quem-e-marcelo-crivella.html