Uma onda de insânia, um tsunami moral e financeiro fizeram o Rio de Janeiro dar um tiro no próprio pé. Depois do sucesso indiscutível da Olimpíada (sucesso efêmero, mesmo assim grandioso), a cidade, que continua sendo a capital cultural do Brasil, cantada por gregos e troianos como a mais maravilhosa do mundo em sua parte panorâmica, está amargando os piores momentos da sua história, o inverno de nosso descontentamento [alusão ao livro de John Steinbeck, um clássico da literatura mundial] que já se transformou num inferno de nossa vergonha.
Não se trata de balas perdidas, guerra de traficantes do Complexo do Alemão e violência generalizada. Desta vez, o furo é mais em cima.
São autoridades eleitas pelo povo que se transformam em Al Caponessubdesenvolvidos, que sangram o dinheiro e a honra da cidade que já foi maravilhosa e hoje parece tenebrosa.
Entre os descalabros da semana que passou, o mais lamentável não foram as prisões de dois ex-governadores e outras autoridades estaduais.
O mais deplorável, e também o mais perigoso, foi a turma que invadiu a Câmara dos Deputados, em Brasília, clamando pela volta dos militares.
Até agora, pelo que se sabe, o Exército permanece em seu papel de grande mudo. Apesar do recente e truculento movimento de 1964 que se prolongou por 21 anos, o povo, em sua maioria de classe média, começa a pensar numa solução cruenta, que ponha fim à corrupção e à incompetência que tiveram no PT sua maior expressão.
Desta vez não podemos culpar o imperialismo e a gula de países interessados em nossas riquezas naturais. Infelizmente, os desmandos atuais fazem parte do DNA de um povo que amanheceu cantando e agora anoitece chorando. O mais deplorável é que não chegamos ainda ao fundo do poço.
Como dizia a letra do samba intitulado Plataforma, “não sou candidato a nada... mas o meu peito não se conforma”. Não tenho o perfil de ganhador de Prêmio Pulitzer, do Nobel de Literatura, e muito menos eu me habilito a vestir um fardão de qualquer academia de letras. De pessoas com fardão só aceito aqueles humildes atendentes de portarias de hotéis cinco estrelas que, quando tiram aquela ridícula fantasia de gala, pegam ônibus lotados para as suas humildes residências. É por não pretender galardão de qualquer espécie que tenho a pretensão (talvez vaidosa, pois existe a vaidade de não ter vaidade) de tentar botar o dedo na ferida com liberdade e isenção.
Vivemos um incrível período de ebulição dentro do chamado Estado de Direito, cujas causas e efeitos merecem análise acurada.
Os três poderes da República funcionam institucionalmente, os estados e municípios têm governantes eleitos. Só que:
- prendem-se políticos corruptos em processos judiciais como nunca antes se viu neste país (um ex-presidente da Câmara dos Deputados há um mês e dois ex-governadores do Rio de Janeiro em menos de 24 horas);
- a presidente eleita é afastada do cargo por diversos fatores, que vão da convivência com a corrupção até a manipulação contábil do Tesouro como forma de se encobrir o verdadeiro caos das contas públicas;
- o vice-presidente que dirigia o partido que dava sustentação política à presidente deposta termina se beneficiando do próprio caos que ajudou a criar (e da chapa eleitoral) e se torna presidente da República. Tudo constitucionalmente resolvido e continuado;
- nada funciona na economia. O PIB do Brasil permanece caindo;
- o desemprego, aumentando;
- a União apresenta um orçamento com déficit de bilhões;
- os estados e municípios, que não emitem moeda sem lastro (como disse o Pesão, governador do RJ, num arroubo de sinceridade que denuncia a prática comum aos governos federais, causadora de inflação num período de depressão econômica, tal é a gravidade da situação), estão falidos e com dificuldades até de pagar salários do funcionalismo e dos aposentados.
Não é de se admirar que numa situação destas, pre-anomia política, grupos das mais variadas tendências políticas se sintam compelidos a resolver tais problemas na marra.
Foi o que se viu quando um grupo de manifestantes interrompeu sessão da Câmara Federal agredindo pessoas e pedindo intervenção militar, como se os fardados tivessem o poder de resolver problemas econômicos que não dominam (ou que dominam tanto quanto a turba que os quer no poder).
QUESTÃO NODAL: A FALÊNCIA DO CAPITALISMO.
O mais grave disso tudo é a perigosa manipulação midiática da crise. Ouvi e vi, na cobertura em TV fechada de um canal pertencente a uma grande rede de televisão, uma multidão exultando com a prisão dos ex-governadores. Havia quem usasse lenços brancos na cabeça e estourasse champanhe, numa alusão a um triste evento num restaurante de luxo internacional patrocinado por um dos ex-governadores presos. Uma apresentadora afirmou ser "triste vermos que todo o sofrimento da população vem dessa corrupção com o dinheiro público”.
Qualquer espectador passivo e justificadamente indignado com a corrupção engole tal pílula midiática sem água e sem perceber a mensagem subliminar. Tentam convencer a todos e a si próprios que tudo é uma questão de gestão competente e honesta, e não de forma e conteúdo de uma relação social falida por seus próprios fundamentos, silenciando sobre a questão nodal: a falência do capitalismo!
O dano causado pela corrupção é grave. Além de retirar do povo recursos que deveriam ser utilizados em seu benefício ao invés de desperdiçado em espetáculos grotescos de mulheres de políticos recebendo joias e mimos de milhares de dólares em meio a uma celebração bizarra num hotel internacional suntuoso, demonstra a relação promiscua dos governantes que não se regem pela definição de prioridades num orçamento público sabidamente deficitário, mas sim pelo interesse econômico que dita o processo eleitoral e pelo desejo de enriquecimento fácil.
Mas apesar de tantos desvios de dinheiro e de conduta, este ainda não é ponto fulcral do problema, como quer fazer-nos crer o comentário da tal apresentadora, cujo subtexto é: “Se acabarmos com a corrupção, tudo se resolverá”.
Tal comentário, superficial mas muito bem elaborado, dentro dos limites aceitáveis para uma crítica jornalística chapa branca, incita a população revoltada contra um alvo equivocado, pelo menos para quem guarda um sentimento de credulidade sistêmica conservadora ou por quem se considera um mudancista (ainda que meramente reformista); ou ainda, se quisermos rotular os comportamentos (o que é sempre uma postura temerária e susceptível de equívocos), para a chamada direita e a chamada esquerda.
Há um silêncio midiático retumbante (se é que cabe tal figura de retórica) quanto a um ponto fundamental, sobre o qual nada se ouve e não se lê uma linha sequer: o fato de que o sistemanão tem mais uma conexão mínima com a capacidade de provimento das necessidades sociais. Este ponto fundamental silenciado se refere à ocorrência, às causas e às consequências da falência sistêmica econômica e política mundial (o segundo aspecto ligado ao primeiro) do capitalismo!
Por que a apresentadora e comentaristas da referida rede de televisão passam batidos pela questão da falência do sistema capitalista?
Por que não reconhecem a sua existência e não aprofundam as razões de sua ocorrência?
É porque a empresa para a qual trabalham faz parte de um sistema que é corrupto ontologicamente e antologicamente. Embora noticie o combate à corrupção, é do sistema corrupto que retira os seus lucros para remunerar os empregados jornalistas, deles extraindo mais-valia (uma das espécies de corrupção), ainda que os ditos cujos sejam excepcionalmente bem pagos na comparação com os demais trabalhadores jornalistas de mídias menos abrangentes.
A corrupção política é um cancro social abominável, que deve ser combatido com antibióticos jurídicos penais e civis em dosagens fortes, como agora ocorre graças a magistrados e promotores que se vestem com as roupas de paladinos da justiça. A corrupção sistêmica, contudo, é consentida por leis e inalcançável pela justiça, daí sua letalidade em termos sociais! (por Dalton Rosado)
Rio e São Paulo foram os epicentros das chamadas jornadas de junho de 2013. Tudo começou na capital paulista com a luta pela tarifa zero. Mas nenhuma cidade do país colocou tanta gente na rua, para protestar "contra tudo que está aí", como o Rio de Janeiro.
Um ano e pouco depois, fora a conquista da revogação do aumento das tarifas no auge das manifestações, o saldo do tão propalado avanço extraordinário da consciência política da população seria cômico se não fosse trágico.
Pezão e Garotinho são favoritos para a disputa do segundo turno no Rio, enquanto o governador tucano Geraldo Alckmin nada de braçada para vencer a eleição de São Paulo no primeiro turno, mesmo sendo o responsável pela crise de abastecimento de água que afeta a região metropolitana da maior cidade brasileira.
Como sempre estive na contracorrente das análises ufanistas sobre o fenômeno das manifestações, em nada me surpreende o quadro eleitoral nos dois estados. Mas estou curioso para saber o que pensam os entusiastas de junho diante das pesquisas eleitorais. Queria que eles me explicassem porque a gigantesca onda de civismo virou marolinha em tão pouco tempo.
É interessante observar que a visão triunfalista das manifestações foi compartilhada por acadêmicos de esquerda, artistas, dirigentes sindicais e dos movimentos sociais, além de um boa parte dos militantes e dirigentes dos partidos do campo popular e democrático. Não vou aqui perder tempo detalhando a utilização política das manifestações por parte do monopólio midiático para atingir Dilma e o PT, pois seria chover no molhado. O meu ponto é tentar entender por que diabos tanto lutador social, tanta gente boa e bem intencionada conseguiu enxergar ímpeto revolucionário em mobilizações profundamente despolitizadas e, em boa medida, alienadas.
Nada foi capaz de conter o ufanismo em torno das manifestações. Ganharam contornos revolucionários até mesmo arruaceiros e vândalos mascarados responsáveis pela destruição indiscriminada do patrimônio público e privado em todas as manifestações, culminando com a morte do cinegrafista da Bandeirantes. Os que davam verniz intelectual às manifestações também não se incomodavam com a negação reacionária da política levada às ruas, com a falta absoluta de eixos, prioridades, bandeiras políticas concretas, reivindicações exequíveis e de táticas e estratégias de negociação.
A oposição ao governo da presidenta Dilma, à esquerda e à direita, mal cabia em si de tanta satisfação. Afinal, os índices de aprovação do governo caíram de forma significativa. Pouco importa se o mesmo tenha ocorrido com praticamente todos os governadores e prefeitos do país.
A direita e os fascistas se aproveitaram e deram um grande passo adiante. Se há um produto palpável das jornadas de junho é o fato de que a direita mais raivosa e antidemocrática perdeu a vergonha de assumir tal condição. Hoje marca forte presença nas redes socais e arrisca até atos de rua em defesa de suas teses obscurantistas.
No Rio de Janeiro, a popularidade do governador Sérgio Cabral se erodiu em 30 dias e foi a quase zero. Sua casa foi cercada por um acampamento durante 45 dias e sua rejeição passou dos 80% em todas as pesquisas. Mas agora seu candidato, o Pezão, lidera as intenções de voto, na certa com apoio de uma fatia desses "revolucionários". Garotinho era visto até há pouco tempo, não sem razão, como exemplo de político com p minúsculo. Mas está em segundo nas pesquisas, impulsionado pela adesão de muitos que marcharam para "mudar o país."
Moral da história : junho de 2013 não fez avançar o nível de consciência política das pessoas coisa nenhuma. Sindicatos, partidos e movimentos organizados da sociedade, que para os manifestantes deviam ser atirados à lata do lixo, sempre serão peças fundamentais numa democracia. E fora da política só existe a ditadura e a barbárie. Se o desenrolar dos fatos mostra que o "gigante não acordou', os que nunca dormiram, pois há muito lutam todos os dias, caminham para mais uma vitória com a reeleição da presidenta Dilma.
Em gravações da Polícia Federal, político incentiva o cabo do Corpo de Bombeiros Benevenuto Daciolo, preso ontem, e seus pares a entrar em greve no Estado
A Polícia Federal passou a monitorar os líderes dos movimentos grevistas no Rio de Janeiro e na Bahia por escutas telefônicas com autorização judicial. Nas conversas, flagraram Marco Prisco, presidente da Associação dos Policiais, Bombeiros e dos seus Familiares da Bahia, e Benevenuto Daciolo, cabo do Corpo de Bombeiros e líder do movimento no Rio de Janeiro, combinando ações dos próximos dias. Uma matéria do Jornal Nacional revelou ainda acertos para realização de ações de vandalismo na cidade. As gravações mostram ainda as articulações para que a paralisação se estenda ao Rio de Janeiro, a São Paulo e outros estados com o objetivo de inviabilizar a realização do Carnaval nas cidades e pressionar o governo federal a aprovar o segundo turno de votação da PEC 300, emenda que garantiria um piso salarial único para bombeiros e policiais de todo o Brasil.
As gravações telefônicas, no entanto, não se restringem aos grevistas. Políticos de vários partidos foram flagrados em conversas com os militares. Em uma delas, que já está nas mãos da cúpula da segurança pública da Bahia, aparece Anthony Garotinho incentivando Daciolo e seus pares a entrar em greve no Rio de Janeiro. Noutra, a deputada estadual Janira Rocha (PSOL) faz a mesma pregação com Daciolo.