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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Assange: Google é mais poderoso do que Vaticano e religião jamais o foram

Assange durante coletiva de imprensa concedida na embaixada do Equador em agosto
Agência Efe

“Vigilância em massa funciona como religião. Há uma entidade que tudo vê, é invisível e influi em sua vida, à qual você não pode enganar”, afirmou


O gigante das buscas Google tem mais poder do que a Igreja jamais teve e exercerá um papel “muito importante” nas eleições de 2016 nos Estados Unidos. As declarações foram proferidas pelo fundador do Wikileaks, Julian Assange, em coletiva de imprensa concedida nesta semana para divulgar seu novo livro “Quando Google encontrou o Wikileaks”.
O também jornalista e ciberativista disse ainda que a empresa trabalha para o governo dos Estados Unidos, como uma agência de inteligência, concretamente para o Departamento de Estado, que dirige a política externa do país.
Assange estudou a trajetória e atividades dos executivos mais importantes do Google: Eric Schmidt, presidente da empresa, e Jared Cohen, diretor do Google Ideias. O resultado foi divulgado nesta quarta-feira durante a videoconferência concedida da embaixada do Equador em Londres, onde recebe asilo político há mais de dois anos. O livro estará disponível no Brasil em fevereiro de 2015.
Schmidt e Cohen tiveram uma longa conversa com Assange em junho de 2011, em sua casa de campo, na Inglaterra, onde cumpria prisão domiciliar. Os executivos foram acompanhados por Lisa Shields e Scott Malcomson, que depois revelaram ser assessores da diplomacia de Washington. “A delegação que me visitou era ¼ do Google e ¾ de representantes do Departamento de política exterior dos Estados Unidos”, disse.
Para expressar o poderio que a empresa possui atualmente, Assange a comparou com o Vaticano e a Igreja Católica. “A vigilância em massa funciona como uma religião: dizemos que há uma entidade que tudo vê e é invisível e influi em sua vida, à qual não pode enganar; o mesmo que tem sido dito pelos curas durante milhares de anos sobre um Deus onipresente e onipotente”, afirmou.

Mas, o domínio do Vaticano “se expressava através de franquias locais e não era fácil que o centro controlasse a periferia, tudo tinha que ser filtrado através de muitos indivíduos e interesses distintos. Não é assim com o Google, onde tudo passa pelo mesmo centro de controle. É como se só existisse um Vaticano com um confessionário direto”, afirmou.
De acordo com o escritor, o “Google é uma isca para atrair os usuários. Ele analisa o uso que os usuários fazem e gera perfis com os quais a NSA (agência de inteligência dos EUA) prevê comportamentos”. A coleta de dados não é feita somente para segmentar a publicidade, como também é vendida ao governo dos Estados Unidos, garantiu.
A serviço da inteligência dos EUA
“O Google será um fator muito importante nas eleições de 2016”. De acordo com Assange, “há uma relação muito estreita e contínua com Washington tanto em nível tecnológico, como ideológico”. E mencionou que muita gente que trabalha na empresa hoje trabalhou anteriormente na equipe da ex-secretária de Estado (2009-2013) e possível candidata pelo partido Democrata à presidência em 2016, Hillary Clinton.
Questionada a respeito das declarações de Assange pela reportagem de Opera Mundi, a assessoria do Google Brasil disse que "não tem nada a comentar" sobre o caso.
De acordo com Assange, o “Google permite que a NSA e o FBI leiam e-mails. Inclusive em uma maçante delegacia de polícia ou em um juizado, é possível ter acesso a esses e-mails sem ordem judicial”, afirmou.
Ele diz ainda que Schmidt não somente é um “gênio da engenharia”, como também é “presidente e fundador da New American Foundation, um think tank (centro de estudos) centrista, agressivo e liberal de Washington”. Cohen, por sua vez, viajou o mundo promovendo os interesses políticos e militares dos EUA.
Assange diz ainda que a conexão entre o Google e o governo dos Estados Unidos remonta ao “próprio nascimento do Google [em 1996], já que ele foi fundado com o dinheiro das bolsas do departamento de Defesa e desde então há uma relação mais ou menos contínua com o Departamento de Estado”.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Os escândalos que assombram a canonização de João Paulo II


Os escândalos que assombram a canonização de João Paulo II

João Paulo II, o papa que promoveu e encobriu pedófilos e violadores da Igreja, recebeu, ao mesmo tempo em que João XXIII, a canonização
Por Eduardo Febbro, na Carta Maior
Vítimas, que vítimas? – perguntou o cardeal Velasio de Paolis. E acrescentou: “Não são apenas estas vítimas”. Depois houve um silêncio de corpo e alma e o olhar um tanto perdido do superior geral dos Legionários de Cristo, nomeado em 2010 para esse cargo pelo então papa Joseph Ratzinger. À pergunta de de Paolis se seguiu uma resposta: as vítimas não eram só os milhares de menores que sofreram com os apetites sexuais das batinas hipócritas, mas também o próprio Vaticano. As vítimas não eram unicamente os menores ou adultos abusados e violentados pelo padre Marcial Maciel, o fundador dessa indústria dos atentados sexuais que foi, durante seu mandato, o grupo dos Legionários de Cristo. A vítima era a Santa Sé, que foi “enganada”.
João Paulo II, o papa que, entre outros horrores, promoveu e encobriu pedófilos e violadores da Igreja, recebeu, ao mesmo tempo em que João XXIII, a canonização. Para além do espetáculo obsceno montado para esta ocasião, dos milhares de fieis na Praça de São Pedro, dos três satélites suplementares para transmitir o ato, para além da fé de muita gente, a canonização do papa polonês é uma aberração e um ultraje para qualquer cristão do planeta. Declarar santo a Karol Wojtyla é se esquecer do escandaloso catálogo de pecados terrestres que pesam sobre este papa: amparo dos pedófilos, pactos e acordos com ditaduras assassinas, corrupção, suicídios jamais esclarecidos, associações com a máfia, montagem de um sistema bancário paralelo para financiar as obsessões políticas de João Paulo II – a luta contra o comunismo -, perseguição implacável das correntes progressistas da Igreja, em especial a da América Latina, ou seja, a frondosa e renovadora Teologia da Libertação.
O “vítimas, que vítimas?” pronunciado em Roma pelo cardeal Velasio de Paolis encobre toda a impunidade e a continuidade ainda arraigada no seio da Igreja. Jurista e especialista em Direito Canônico, De Paolis fazia parte da Congregação para a Doutrina da Fé na época em que – anos 80 – se acumulavam as denúncias contra Marcial Maciel. No entanto, foi ele quem firmou a segunda absolvição do sacerdote mexicano. O ex-padre mexicano Alberto Athié contou à Carta Maior como Maciel sabia distribuir dinheiro e favores para comprar o silêncio das hierarquias. Athié renunciou em 2000 ao sacerdócio e se dedicou à investigação e denúncia dos abusos sexuais cometidos por clérigos e organizações.
O destino de Maciel foi selado por Bento XVI a partir de 2005. Em 2004, antes da morte de Karol Wojtyla, Maciel foi honrado no Vaticano. Neste mesmo ano, Ratzinger reabriu as investigações contra os Legionários. O dossiê Maciel havia sido bloqueado em 1999 por João Paulo II e mantido invisível por outra das figuras mais soturnas da cúria romana, Angelo Sodano, o ex-secretário de Estado de Giovanni Paolo. Sodano é uma pérola digna de figurar em um curso de manobras sujas. Decano do Colégio de Cardeais, ele tinha negócios com os Legionários de Cristo. Um sobrinho dele foi um dos assessores nomeados por Maciel para construir a universidade que os legionários de Cristo têm em Roma, a Universidade Pontífica Regina Apostolorum.
Sodano, que foi o número dois de Juan Paulo II durante quase 15 anos, tinha um inimigo interno, Joseph Ratzinger, um clube de simpatias exteriores cujos dois membros mais eminentes eram o ditador Augusto Pinochet e o violador Marcial Maciel. Sodano e Ratzinger travaram uma batalha sem tréguas: o primeiro para proteger os pedófilos, o segundo para condená-los. Em 2004, Ratzinger obrigou Maciel a se demitir e a se retirar da vida pública. Dois anos depois, já como Bento XVI, o papa o suspendeu “a divinis”. As investigações reabertas por Ratzinger demonstraram que Maciel era um pederasta, tinha duas mulheres, três filhos, várias identidades diferentes e manejava fundos milionários.
As denúncias prévias nunca haviam passado o paredão levantado por Sodano e o hoje Santo João Paulo. A carreira de Sodano é uma síntese do Papado de Karol Wojtyla, onde se mesclam os interesses políticos, as visões ideológicas ultraconservadoras, a corrupção e as manipulações. Angelo Sodano foi Núncio no Chile durante a ditadura de Pinochet. Manteve uma relação amistosa com o ditador e isso permitiu que organizasse a visita que João Paulo II fez ao Chile em 1987. Seu irmão Alessandro foi condenado por corrupção após a operação Mãos Limpas. Seu sobrinho Andrea teve a mesma sorte nos Estados Unidos. O FBI descobriu que Andrea e um sócio se dedicavam a comprar – mediante informação privilegiada – por um punhado de dólares as propriedades imobiliárias das dioceses dos Estados Unidos que estavam em bancarrota devido aos escândalos de pedofilia.
Mas o mundo sucumbiu ao grito de “santo súbito” que reclamava a canonização de um homem que presidiu os destinos da Igreja em seu momento mais infame e corrupto. O papa “viajante”, o papa “amável”, o papa “dos jovens”, era um impostor ortodoxo que deixou desprotegidas as vítimas dos abusos sexuais e os próprios pastores da Igreja quando estes estiveram com suas vidas ameaçadas.
Sua visão e suas necessidades estratégicas sempre se opuseram às humanas. Na trama desta história também há muito sangue, e não só de banqueiros mafiosos como Roberto Calvi ou Michele Sindona, com quem João Paulo II se associou para alimentar com fundos secretos os cofres do IOR (Banco do Vaticano), fundos que serviram para financiar a luta contra o comunismo no leste europeu e contra  a Teologia da Libertação na América Latina.
João Paulo II deixou desprotegidos os padres que encarnavam, na América Latina, a opção pelos pobres frente às ditaduras criminosas e seus aliados das burguesias nacionais. Em 2011, cinquenta destacados teólogos da Alemanha assinaram uma carta contra a beatificação de João Paulo II por não ter apoiado o arcebispo salvadorenho Óscar Arnulfo Romero, assassinado em 24 de março de 1980 por um comando paramilitar da extrema-direita salvadorenha, enquanto celebrava uma missa. Romero sim que é e será um santo. O arcebispo enfrentou os militares para pedir-lhes que não assassinassem seu povo, percorreu bairros, zonas castigadas pela repressão e pela violência, defendeu os direitos humanos e os pobres. Em resumo, não esperou que Bergoglio chegasse a Roma para falar de “uma Igreja pobre para os pobres”. Não. Ele a encarnou em sua figura e pagou com sua vida, como tantos outros padres aos quais o Vaticano taxava de marxistas ou comunistas só porque se envolviam em causas sociais.
João Paulo II é um santo impostor que traiu a América Latina e aqueles que, a partir de uma igreja modesta, ousaram dizer não aos assassinos de seus povos. Se, no leste europeu, João Paulo II contribuiu para a queda do bloco comunista, na América Latina favoreceu a queda da democracia e a permanência nefasta de ditaduras e sua ideologia apocalíptica. Um detalhe atroz se soma à já incontável dívida que o Vaticano tem com a justiça e a verdade: o expediente de beatificação de Óscar Romero segue bloqueado nos meandros políticos da Santa Sé. João Paulo II beatificou Josemaría Escrivá, o polêmico fundador da Opus Dei e um de seus protegidos. Mas deixou Romero de fora, inclusive quando estava com sua vida ameaçada. “Cada vez mais sou um pastor de um país de cadáveres”, costumava dizer Romero.
João Paulo II foi eleito em 1978. No ano seguinte, Monsenhor Romero entregou a ele um informe sobre a espantosa violação dos Direitos Humanos em El Salvador. O papa ignorou o informe e recomendou a Romero que trabalhasse “mais estreitamente com o governo”. Como lembrou à Carta Maior Giacomo Galeazzi, vaticanista de La Stampa e autor de uma magistral investigação, “Wojtyla Secreto”, em “seus 25 anos de pontificado nenhum bispo latinoamericanao ligado à ação social ou à Teologia da Libertação foi nomeado cardeal por João Paulo II”. A resposta está em uma frase de outro dos mais dignos representantes da “Igreja dos Pobres”, o falecido arcebispo brasileiro Hélder Câmara. “Quando alimentei os pobres me chamaram de santo; mas quando perguntei por que há gente pobre me chamaram de comunista”.
O show universal da canonização já foi lançado. A imprensa branca da Europa tem a memória muito curta e sua cultura do outro é estreita como um corredor de hospital. Todos celebram o grande papa. Ela promoveu à categoria de santo um homem que tem as mãos sujas, que cometeu a infâmia de encobrir violadores de crianças, de beijar ditadores e legitimar com isso o rastro de mortos que deixavam pelo caminho, de negociar benefícios para a máfia, que sacrificou em nome dos interesses de uma parte da Europa a misericórdia e a justiça de outros, entre eles os da América Latina. Estão canonizando um trapaceiro. O cúmulo da esperteza, do erro imemorial.
Em que altar se ajoelharão as vítimas dos abusadores sexuais e das ditaduras? Podemos levantar todos juntos um lugar aprazível e justo na memória com as imagens do padre Múgica ou do Monsenhor Romero para nos reencontrarmos com a beatitude o sentido de quem, por um ideal de justiça e igualdade, enfrentou a morte sem pensar nunca em si mesmo, ou em baixas vantagens humanas.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
vi no, http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/04/os-escandalos-que-assombram-canonizacao-de-joao-paulo-ii/

João Paulo II versus João XXIII: por que a canonização do papa polonês é um erro


Eles
Francisco canonizou no Vaticano dois de seus antecessores, o Papa João XXIII e João Paulo II, em uma cerimônia histórica de ressonância mundial, não só pela relevância de ambas as figuras na história recente da Igreja Católica, mas também porque são dois personagens claramente opostos, representantes de dois modelos  opostos de igreja. A “santidade” de um deles, o papa polonês, deve ser julgada tendo como pano de fundo a história contemporânea, uma vez que sob seu pontificado ocorreu o maior número de casos de pedofilia clerical na história do catolicismo.

É preciso avisar os milhões de pessoas prontas a elogiar João Paulo II sobre a injustiça tremenda que envolve esta canonização apressada.

O que pode significar no século XXI esta canonização? Como o teólogo José María Castillo afirma, ao longo dos séculos do Cristianismo “os interesses da Igreja mudaram radicalmente a imagem de santidade”, de modo à canonização revelar as reais intenções e projetos da instituição e de seus líderes.

Quer dizer, por trás do interesse espiritual de colocar uma pessoa como modelo, a canonização envolve também política e interesses econômicos.

Este modelo de santidade é em grande parte o resultado do longo pontificado de João Paulo II, que em 1983 estabeleceu as regras desse processo que, entre outras coisas, reduziu a cinco anos o tempo mínimo de post-mortem para iniciar um processo de beatificação ou canonização. Foi o período com mais santos canonizados na história dos papas (quase mais do que todos os papas anteriores combinados), acentuando o modelo pré-Vaticano II do santo tradicional.

Na mesma cerimônia foi também elevado aos altares o Papa João XXIII, cuja simplicidade de vida e abertura eclesial marcou um “antes e depois” para a Igreja Católica do século XX. Por que exatamente se vão canonizar dois personagens que com vida e pensamento tão diferentes? Por que na mesma cerimônia? Isso também parece ser coisa do papa polonês, que tornou moda a canonização em massa. Mas também se entende essa dupla canonização como uma estratégia de Francisco para mitigar o fervor exacerbado a João Paulo II quando vêm à luz as sombras de seu pontificado.

É necessário deter a canonização de Karol Wojtyla. Vozes credenciadas provam isso. Não só as das vítimas de seu pontificado, mas de cardeais jesuítas eminentes como Carlo Maria Martini, que declarou abertamente que não era necessária a canonização de João Paulo II, “era suficiente considerar apenas a evidência histórica de seu sério compromisso com a Igreja e a serviço das almas”.

As razões por que a canonização de João Paulo II é um ato político e não religioso:
  1. Ele lutou contra a liberdade de pensamento e de ensino na Igreja, silenciando ou excomungando mais de 500 teólogos em todo o mundo durante o seu pontificado.
  2. Atacou, sem conhecer, a teologia da libertação através de um processo sistemático de desarticulação da Igreja dos pobres com a condenação dos seus principais representantes, do cancelamento de centros de ensino teológico e da aliança com o poder político conservador na América Latina.
  3. Seu silêncio perante as ditaduras militares da América Latina e do Caribe custou a vida de inúmeros cristãos em nosso continente, incluindo a do arcebispo Oscar Arnulfo Romero, que um ano antes de sua morte visitou Roma e não foi recebido pelo papa.
  4. Ele negou a dignidade das mulheres na igreja, não reconhecendo a participação feminina na tomada de decisões relacionadas aos líderes homens, enfatizando apenas seu papel de mães, esposas e virgens. (Mulieris dignitatem)
  5. Apoiou e protegeu até sua morte Marcial Maciel, sabendo da dor e do abuso infligido a inúmeras vítimas.
  6. Está em causa o seu papel no encobrimento de inúmeros padres pedófilos​(incluindo bispos e cardeais) ao mandar que eles mudassem de residência para se proteger da justiça e, assim, multiplicando os danos às crianças, suas famílias e à própria igreja. Pois, mesmo aceitando que o abuso sexual não é um comportamento generalizado na igreja católica e sim casos individuais (digamos, no mínimo, um sacerdote pederasta em cada uma das cerca de 3.000 dioceses católicas do mundo), estaríamos falando de centenas de milhares de vítimas.
Embora o Vaticano tenha lavado as mãos de João Paulo II, negando o tempo todo que ele sabia de casos de abuso de crianças, é pouco crível que os acobertamentos tenham acontecido sem o consentimento do papa. Um pecado de omissão que e teve e continua a ter consequências terríveis.

Do outro lado da moeda está um papa desconhecido para a maioria das pessoas, dada a distância que nos separa da primavera do Vaticano II. João XXIII, um homem simples, um pastor, alguém que não queria ser reconhecido ou reverenciado. Seu catolicismo abriu as janelas para deixar entrar ar fresco. Um revolucionário, um homem religioso que queria conhecer os anseios, sonhos, preocupações, tristezas, de milhões que nele confiaram. Um homem que proclamou a Igreja para os pobres, tornada realidade por milhões de latino-americanos.

Como podemos avaliar essa contradição? Como reflexo de da profunda crise da igreja, que se debate com lutas internas pelo poder.

Do Observatório Eclesial
No DCM

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Vaticano ocupa 8º lugar global em lavagem de dinheiro


A pesquisa foi realizada pela rede de organizações sociais francesas Voltaire, com base em dados fornecidos por autoridades alemãs e suíças. No ano passado, o Instituto de Obras da Religião (IOR), nome oficial do Banco do Vaticano, epicentro do problema, teria lavado cerca de 33 bilhões de dólares.
O Vaticano ocupa o 8º lugar do mundo entre os países que lavam dinheiro sujo, oriundo da sonegação de impostos, da obtenção de lucros ilícitos, do tráfico de armas e de drogas, entre outras fontes criminosas. O Vaticano conseguiu deixar para trás, em matéria de lavagem de dinheiro, países como a Suíça, Bahamas, Liechtenstein, Nauru e as Ilhas Maurício. A pesquisa foi realizada pela rede de organizações sociais francesas Voltaire, com base em dados fornecidos por autoridades alemãs e suíças. No ano passado, o Instituto de Obras da Religião (IOR), nome oficial do Banco do Vaticano, epicentro do problema, teria lavado cerca de 33 bilhões de dólares. Esta informação tem um caráter aproximativo, porque ninguém (nem mesmo o papa) tem acesso ao balanço real da instituição bancária mais secreta do planeta.
Neste momento, está em atividade uma comissão formada por cardeais e outros assessores do papa Francisco cuja missão é precisamente a de investigar os bastidores do IOR e de apresentar ao pontífice propostas de mudanças radicais no banco. Não está excluída a possibilidade de fechamento do instituto e a sua transformação numa entidade que possa administrar os recursos financeiros da cúpula da Igreja Católica Romana.
O mais recente escândalo no banco foi a prisão do monsenhor Nunzio Scarano, ex-chefe de contabilidade do IOR que integrava a APSA, um organismo do IOR que gerencia o patrimônio da Santa Sé. É acusado de corrupção, calúnia e fraude pela polícia financeira italiana. O papa foi comunicado sobre a prisão de Scarano e ordenou à sala de imprensa do Vaticano que divulgasse uma nota, informando que o assessor já havia sido suspenso do seu cargo em maio deste ano. É acusado de transferir para o IOR um total de 20 milhões de euros, da Suíça para uma conta de armadores napolitanos. A Justiça italiana rejeitou, no sábado passado, o recurso do monsenhor Scarano. Ele continua preso domiciliarmente no Vaticano.
Antiga fama
A situação do IOR foi o tema de um dos debates mais acalorados pouco antes do conclave, na Capela Sistina, quando alguns cardeais de todos os continentes questionaram uns aos outros sobre a responsabilidade dos principais assessores do papa renunciante Bento XVI no andamento da corrupção no Banco do Vaticano. Alguns cardeais dos países menos desenvolvidos, mas também da América do Norte e da Europa, deixaram vazar essa informação. Considera-se que esse debate foi importante para que, em seguida, os cardeais tenham votado secretamente no argentino Jorge Bergoglio como novo papa.
A primeira atitude do novo pontífice foi a de nomear a comissão especial para a reforma do banco. Assessores de sua confiança mantiveram também contato com a União Europeia em busca de assessoria técnica, por meio do Moneyval, que é um organismo da UE que avalia e executa medidas contra lavagem de dinheiro e contra o terrorismo.
Em 1997, o Conselho da Europa criou a Comissão Especial de Peritos sobre a Avaliação de Medidas Antilavagem de Dinheiro, com a sigla PC-R-EV, como um subcomitê do Comitê Europeu para os Problemas Criminais (CDPC). Em 2002, o nome da comissão foi mudado para Comitê de Peritos sobre a Avaliação das Medidas de Combate à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo, com a abreviatura Moneyval, por entender que a sigla anterior não expressava com clareza os seus objetivos.
O IOR foi fundado em 27 de junho de 1942 pelo papa Pio XII. Seus estatutos foram redigidos de tal forma que nem o papa tem acesso direto à sua administração. Já nas primeiras décadas dos anos 40, foram levantadas suspeitas de que banco poderia guardar verbas produzidas pelo regime nazista e também por banqueiros judeus perseguidos. O caso Marcinkus tornou-se o escândalo mais conhecido envolvendo o IOR. O então arcebispo norte-americano foi responsabilizado, pelas autoridades italianas, de envolvimento com a Máfia, na falência do Banco Ambrosiano, que também envolveu a loja maçônica P-2 e vários banqueiros. O caso inspirou até mesmo a produção de filmes e de vários livros.
Dermi Azevedo 
No Carta Maior

segunda-feira, 18 de março de 2013

Papa deve respeitar 'opções diferenciadas das pessoas', diz Dilma



Foto: Roberto Stuckert Filho
Dilma desembarca em Roma
A presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, elogiou nesta segunda-feira a aproximação da Igreja Católica dos pobres defendida pelo papa Francisco, mas lembrou que "opções diferenciadas das pessoas" devem ser compreendidas.
"Eu acho que ele tem um papel a cumprir. (O discurso sobre a aproximação da Igreja aos pobres) É uma postura importante. É claro que o mundo pede, hoje, além disso, que as pessoas sejam compreendidas e que as opções diferenciadas das pessoas sejam compreendidas", disse ela, após ser cercada pela imprensa na Scuderia Del Quirinale, museu onde foi ver uma exposição dedicada ao pintor renascentista Ticiano.
A presidenta não deixou claro a que "opções diferenciadas" ela se referia.
Questionada pela BBC Brasil se a eleição de um papa latino-americano poderá ter impacto na discussão, no Brasil, de temas como a Lei do Aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ela respondeu que "não parece que (Francisco) seja um tipo de papa que vá defender esta posição".
Antes de ser papa, o cardeal Jorge Bergoglio tinha se manifestado contra o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo.
A presidenta se disse feliz pela eleição de um papa latino-americano, mas afirmou não saber qual será o impacto político de Francisco para a região.
"Em qualquer hipótese, um papa latino-americano é uma honra para a América Latina. Acho que é uma afirmação da região".
Dilma lembrou também que a Igreja brasileira foi "extremamente combativa contra a ditadura".
Ela recordou a atuação de padres dominicanos na defesa de direitos humanos no período em ela militou contra o regime militar no Brasil.
Amante das artes
Dilma saiu cedo nesta segunda-feira do hotel onde está hospedada em Roma por uma porta lateral, sem falar com a imprensa.
Depois de descobrir que ela tinha ido à exposição de Ticiano, os jornalistas entraram na mostra como visitantes e a abordaram no fim do passeio.
Dilma reclamou do assédio, mas ao fim falou com os jornalistas - e confirmou a ida para o Brasil da exposição do pintor renascentista Lorenzo Lotto.
A presidenta deve aproveitar a presença de chefes de Estado em Roma e manter contatos bilaterais com alguns governantes, embora não tenha citado nomes.
O encontro com o papa Francisco deverá ocorrer durante os cumprimentos após a missa de posse de novo pontífice, nesta terça-feira.
O papa Francisco deverá conversar com a presidenta sobre a Jornada Mundial da Juventude, em julho, no Rio de Janeiro.
Francisco já confirmou presença no evento; o Vaticano informou que o papa fala português.

sábado, 16 de março de 2013

Complexo com maior sauna gay da Europa recebeu R$ 58 milhões do Vaticano

Vaticano é acusado de gastar R$ 58 milhões em apartamentos em complexo que abriga maior sauna gay da Europa. Local é conhecido por suas “noites de urso”

A apenas um dia antes do início do conclave no Vaticano, a notícia de que a Santa Sé teria gasto 23 milhões de euros (cerca de R$ 58,7 milhões) na compra de um complexo de apartamentos em Roma, que abrigaria também a maior sauna gay da Europa, irrompeu nos sites internacionais.
Vaticano é acusado de gastar R$ 58 mi em apartamentos em complexo que abriga maior sauna gay da Europa

O site inglês “The Independent” classifica a denúncia como um escândalo e relata que 18 apartamentos pertenceriam ao Vaticano, a maioria deles abriga padres.
Segundo a reportagem, o cardeal indiano Ivan Dias, 76, figura sênior do Vaticano que é chefe da Congregação para a Evangelização dos Povos, e também deve participar do conclave, é quem mais estaria preocupado com a repercussão da notícia.
Dias teria um apartamento de 12 quartos no primeiro andar do bloco, a poucos metros do local onde fica a suposta sauna.
A sauna é conhecida por suas “noites de urso”, anunciada em sua página na internet.
Leitores de sites gays italianos foram rápidos em fazer piadas sobre o tema.
“Se você não pode ir a uma sauna gay por medo de ser visto, o que você faz com milhões de euros roubados de italianos? Compra um bloco de apartamentos com a sauna dentro”, dizia um dos comentários do “Gay.it”.
A denúncia acontece em um momento delicado para a Igreja, que ainda se recupera de especulações a respeito da renúncia de Bento XVI. Chegou a ser dito que a saída do teólogo alemão ocorreu devido à presença de cardeais homossexuais dentro do Vaticano.

terça-feira, 12 de março de 2013

Jesus barrado no conclave dos Cardeais





“Cardeais da Igreja Católica vieram de todas as partes do mundo, cada qual carregando as angústicas e as esperanças de seus povos, alguns martirizados pela Aids e outros atormentados pela fome e pela guerra. Mas todos mostravam certo constrangimento e até vergonha pois vieram à luz os escândalos, alguns até criminosos, ocorridos em muitas dioceses do mundo, com os padres pedófilos; outros implicados na lavagem de dinheiro de mafiosos e super-ricos italianos que para escapar dos duros ajustes financeiros do governo italiano, usavam o bom nome do Banco Vaticano para enviar milhões de Euros para a Alemanha e para os USA. E havia ainda escândalos sexuais no interior da Cúria bem como intrigas internas e disputas de poder.

Face à gravidade da situação, o Papa reinante sentiu que lhe faltavam forças para enfrentar tão pesada crise e constatando o colapso de sua própria teologia e o fracasso  do modelo de Igreja, distanciado do Vaticano II, que, sem sucesso, tentou implementar na cristandade, acabou honestamente renunciando. Não era covardia de um pastor que abandona o rebanho mas a coragem de deixar o lugar para alguém mais apropriado para sanar o corpo ferido da Igreja-instituição.

Finalmente chegaram todos os Cardeais, alguns retardatários, à sede de São Pedro para elegerem um novo Papa. Fizeram várias reuniões prévias para ver como enfrentariam este fato inusitado da renúncia de um Papa e o que fariam com o volumoso relatório do estado degenerado da administração central da Igreja. Mas em fim decidiram que não podiam esperar mais e que em poucos dias deveriam realizar o Conclave.

Juntos rezaram e discutiram o estado da Terra e da Igreja, especialmente a crise moral e financeira que a todos preocupava e até escandalizava. Consideraram, à luz do Espírito de Deus, qual deles seria o mais apto para cumprir a dificil missão de “confirmar os irmãos e as irmãs na fé”, mandato que o Senhor conferira a Pedro e a seus sucessores e recuperar a moralidade perdida da instituição eclesiástica.

Enquanto lá estavam, fechados e isolados do mundo, eis que apareceu um senhor que pelo modo de vestir e pela cor de sua pele  parecia ser um semita. Veio à porta da Capela Sistina e disse a um dos Cardeais retardatários: ”posso entrar com o Senhor, pois todos os Cardeais são meus representantes e preciso urgentemente falar com eles”.

O Cardeal, pensando tratar-se de um louco, fez um gesto de irritação e disse-lhe benevolamente: “resolva seu problema com a guarda suiça”. E bateu a porta. Então, este estranho senhor, calmamente se dirigiu ao guarda suiço e lhe disse:”posso entrar para falar com os Cardeais, meus representantes”?
O guarda o olhou de cima para baixo e não acreditando no que ouvira, pediu, perplexo, que repetisse o que dissera. E ele o fez. O guarda com certo desdém lhe disse: “aqui entram somente cardeais e ninguém mais”.

Mas esta figura enigmática insistiu: “eu até falei com um dos Cardeais e todos eles são meus representantes, por isso, me permito  de estar com eles”.

O guarda, com razão, pensou estar diante de um paranóico destes que se apresentam como Cesar ou Napoleão. Chamou o chefe da guarda que tudo ouvira. Este o agarrou pelos ombros e lhe disse com voz alterada: ”Aqui não é um hospital psiquiátrico. Só um louco imagina que os Cardeais são seus representantes”.

Mandou que o  entregassem ao chefe de polícia de Roma. Lá, no prédio central, repetiu o mesmo pedido: “preciso falar urgentemente com meus representantes, os Cardeais”. O chefe de polícia nem se deu ao trabalho de ouvir direito. Com um simples gesto determinou que fosse retirado. Dois fortes policiais  o jogaram numa cela escura.

De lá de dentro continuava a gritar. Como ninguém o fizesse calar, deram-lhe murros na  boca e muitos socos. Mas ele, sangrando, continuava a gritar:”preciso falar com meus representantes, os Cardeais”. Até que irrompeu cela adentro um soldado enorme que começou a golpeá-lo sem parar até que caisse desmaiado.Depois amarrou-lhe os braços com um pano e o dependurou em dois suportes que havia na parede. Parecia um crucificado. E não se ouviu mais gritar:”preciso falar com meus representantes, os Cardeais”.

Ocorre que este misterioso personagem não era cardeal, nem patriarca, nem metropolita, nem arcebispo, nem bispo, nem padre, nem batizado, nem cristão, nem católico. Era um simples homem, um judeu da Galiléia. Tinha uma mensagem que poderia salvar a Igreja e toda a humanidade. Mas ninguém quis ouvi-lo. Seu nome é Jeshua.

Qualquer semelhança com Jesus de Nazaré, de quem os Cardeais se dizem representantes, não é mera coincidência mas a  pura verdade.
“Veio para os seus, e os seus não o receberam” observou mais tarde e  tristemente um seu evangelista.”

segunda-feira, 11 de março de 2013

As aparentes sonecas divinas




Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação

“Preconceito e privilégio são palavras que caminham lado a lado, nessa ainda longa estrada que o Homem tem que percorrer para poder afirmar-se como efetivamente civilizado. Drummond escreveu um poema , “Science Fiction”, em que, paradoxalmente, imagina um ET que foge do convívio com o ser humano por temer a desumanidade que existe no Homem, visto pelo extraterrestre como “um ser que no existir põe tamanha anulação de existência”.

Essas considerações vêm a propósito dos constantes episódios de discriminações e posturas egocêntricas que cercam os noticiários com os mais diversos tons , que vão do inocente , folclórico ou ridículo ao comprometedor, vergonhoso e trágico.

No lado trágico da coisa, estão aí excrescências como a recente indicação e eleição, por falsos representantes do povo, de um deputado de posturas homofóbicas, que responde por estelionato , um pastor evangélico de posições altamente preconceituosas, para presidir uma comissão intitulada como dos “direitos humanos”. Alguém capaz de proferir frases absurdas que povoam o noticiário, com expressões que vão desde “a podridão que envolve os sentimentos dos homofóbicos” , passando por “africanos descendem de ancestral amaldiçoado” e chegando a afirmações de que Deus não concederá milagre a determinado fiel se ele não fornecer a senha do cartão de crédito. Pensando nos problemas por que passa uma outra religião, mas partindo do pressuposto (para quem acredita) de que Deus é um só, deve ser por algo similar que o Papa renunciante falou sobre momentos em que Deus parece estar dormindo...

Para abrandar um pouco este fato político abjeto, vamos ao campo do ridículo. Uma nota do colunista Anselmo Góis do dia 04.03 dá conta de que estaria em curso uma movimentação das elites no sentido da construção de um cemitério para os ricos, na Barra. Não pesquisei depois para conhecer detalhes da verdade atrás do noticiário. Talvez fosse descobrir que a ideia surgiu num dos momentos da soneca divina. Verdadeiro ou falso, o propósito é mesmo típico de pessoas que “não querem se misturar”. E essa busca da distinção póstuma vem existindo desde que o homem é homem , bastando comparar os suntuosos mausoléus que se espalham pelo mundo com os milhões de covas rasas que abrigam os desvalidos

Confesso que cheguei pensar em me divertir um pouco com o tema, escrevendo um artigo inteiro no qual a imaginação construiria um cemitério elitista, concebido com uma mescla dos valores dos ricos e novos ricos de plantão. Será que se exigiriam porteiros e coveiros academicamente sarados , com visual apresentável, a antiga “boa aparência”, para compensar a ideia da futura decomposição dos corpos dos enterrados? Empregadas e babás só poderiam entrar uniformizadas (de preto) e com crachás ostentando no peito o nome... das patroas? Haveria uma sala VIP, com farta mesa de canapés e salgadinhos, champanhe ou cerveja à vontade, onde se poderiam debater problemas mais imediatos, como herança, inventário e coisas do gênero ? Haveria tapetes vermelhos, ternos Armani e vestidos de marca na caminhada rumo ao túmulo? Será que existiriam “caixões auxiliares” para acompanhar o do morto, que levaria consigo as riquezas amealhadas em vida?
Paro por aqui, até porque essa última hipótese – riquezas levadas para o túmulo - por razões óbvias, ligadas às tais heranças e inventários, estaria fora de cogitações...

Felizmente, a ironia é do mundo dos vivos e tudo isso é apenas uma brincadeira com uma ideia elitista dos que, não satisfeitos com os injustos privilégios da vida, aproveitando-se de um mero cochilo de Deus, os imaginam também depois de mortos. Certamente não ouviram nunca a “Banca do Distinto”, do Billy Blanco, com versos antológicos que refletem a sabedoria popular: “Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco; afinal, todo mundo é igual quando o tombo termina, com terra por cima, e na horizontal”.

Voltando ao vergonhoso fato político do Congresso, com o qual não dá para brincar, precisamos aderir à turma de combate ao golpe nos direitos humanos, participando dos movimentos que estão surgindo na rede. O deputado “eleito” já começa a pôr as primeiras manguinhas de fora, dizendo ao que veio, ao imaginar ressuscitar nos colégios as malfadadas aulas de Moral e Cívica que nos remetem ao tempo da ditadura e implantar nas escolas a obrigatoriedade do ensino religioso, o que contraria a vocação leiga da educação e só pode estimular estéreis querelas fundamentalistas que não cabem no espaço escolar.

Reverter o quadro que infelizmente colocou um defensor de valores desumanos e/ou retrógrados na presidência da Comissão é uma exigência da democracia, da cidadania, da dignidade da pessoa humana. Depois, ou ao mesmo tempo, já que falamos em reminiscências da ditadura, temos que cuidar do Marin...”

sábado, 9 de março de 2013

Até Jesus renunciaria




“Nunca é tarde para se tomar
uma atitude revolucionária.
Papas pensarão duas vezes
antes de carregar a cruz até o
fim da vida”, diz o
filósofo Gianni Vattimo

Gianni Carta, CartaCapital

“Professor da Universidade de Turim, onde ensina Filosofia Teórica e Hermenêutica, Gianni Vattimo foi eleito deputado europeu várias vezes e integra a legenda Italia dei Valori. Ávido leitor de Nietzsche e Gramsci, o filósofo diz que, diante dos fatos, até Jesus Cristo renunciaria e afirma sobre a renúncia de Ratzinger: “Nunca é tarde para um homem tomar uma atitude revolucionária”.

CartaCapital: O senhor considera a renúncia do papa um affair italiano. Por quê?
Gianni Vattimo: Várias questões com algum impacto na decisão da renúncia do papa são italianas. Os vazamentos de documentos papais, o caso conhecido como VatiLeaks, a envolver temas como a opacidade do IOR (Instituto para as Obras de Religião, o Banco do Vaticano) têm raízes em Roma. Ademais, o affair ocorreu na Itália.

CC: De que forma a política do Vaticano influenciou a atual crise italiana?
GV: A ingerência vaticana na política italiana corrompeu a atuação da Democracia Cristã (DC), legenda que chegou ao poder após a Segunda Guerra Mundial. Era então límpida, liderada por homens que haviam lutado contra o fascismo, também em nome de valores cristãos. E havia o Partido Comunista, fortíssimo. O PCI ficou fora do poder por motivos políticos, mas também devido a motivações religiosas, por ser um partido ateu. A Igreja Católica, força de direita, evitou a possibilidade da chegada ou permanência de agremiações de esquerda no poder. Para manter essa estrutura capitalista, o cristianismo contribui para corromper a política italiana. Antes você não podia ser cristão sem ser democrata-cristão, hoje não se pode ser progressista sem ser anticlerical. Na Itália, você só pode ser cristão se for anticristão.

CC: A abdicação de Bento XVI teria sido um ato revolucionário, se ele, como diz o senhor, “o fez de forma consciente”?
GV: Ratzinger disse que o fez de forma consciente. Um papa pode se demitir com sua consciência, mas, certamente, toma a decisão com base naquilo que se espera dele como titular de sua função. Em muitos sentidos, demitir-se é hoje uma das melhores coisas que um papa da Igreja Católica pode fazer. Se Jesus Cristo estivesse vivo, ele provavelmente se demitiria. É quase impossível transformar a Igreja Católica em algo que se aproxime do cristianismo. Veja, eu não esperava esse gesto de um papa com quem não simpatizava por causa de seu conservadorismo. Ele fez, porém, algo extraordinário.

CC: Um papa conservador, responsável, entre outros, pelo fim da Teologia da Libertação na América Latina, pode se tornar revolucionário?
GV: Uma das razões pelas quais eu não simpatizava com Ratzinger era justamente essa, mesmo se o verdadeiro destruidor da Teologia da Libertação tenha sido João Paulo II. Mas nunca é demasiado tarde para um homem tomar uma atitude revolucionária. Papas pensarão duas vezes antes de carregar a cruz até o fim de suas vidas.


CC: Os cardeais estrangeiros querem saber mais detalhes sobre o conteúdo do dossiê preparado para o papa. Haverá mais transparência por parte da Igreja?
GV: O conteúdo do dossiê reduz-se a dois fatos principais: sexo e dinheiro. Sem o Banco do Vaticano, o celibato eclesiástico e o tabu contra a homossexualidade, entre outros, a Igreja Católica seria pura e santa. 
Outro absurdo: a proibição do sacerdócio feminino em um momento em que há cada vez menos padres.”

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

“A homossexualidade é uma bomba relógio na igreja”

visão de um ex-frei dominicano, abertamente gay, sobre a crise no Vaticano que levou à renúncia do papa.

Mark Dowd, ex-dominicano, ativista gay
Mark Dowd, ex-dominicano, hoje ativista e jornalista
Um ex-frei dominicano deu uma entrevista à veterana jornalista Christane Amanpour, da CNN. Disse ele que a homossexualidade é uma bomba relógio na igreja. Seu nome é Mark Dowd.
Dowd é gay assumido. Expulso de sua congregação, trabalha como jornalista free lancer e documentarista. Tem uma coluna no jornal inglês The Guardian. Segundo ele, os homossexuais são “amplamente representados na igreja. Cerca de metade das pessoas que entram em seminários são gays”.
Dowd falou depois que, na segunda-feira, o Vaticano anunciou a renúncia do arcebispo da Escócia, Keith O’Obrien, na esteira de denúncias de que ele havia tido relacionamentos impróprios com outros colegas. Jornais italianos vem dando matérias sobre uma rede de chantagens envolvendo uma certa “cabala gay”. Ela é um dos itens citados nos Vati-leaks, os documentos que mostram corrupção, disputas entre cardeais, transações financeiras mal explicadas e o diabo. Seria uma das causas de Bento XVI ter saído. Em seu último pronunciamento na Praça São Pedro, Ratzinger declarou que enfrentou “águas agitadas e vento contrário”, mas que tem fé que Deus não vai deixar “a igreja afundar”.
É claro que a história não contada da aposentadoria do papa envolve muito mais do que uma grande conspiração homossexual. Mas, numa instituição que vive do segredo e da culpa, segundo Dowd, você tem as condições ideais para o crescimento da extorsão e da manipulação.
O papa em seus dias de glória: "Metade dos seminaristas é homossexual", diz Dowd
O papa em seus dias de glória: “Metade dos seminaristas é homossexual”, diz Dowd
A igreja tem uma expectativa absurda dos padres no que tange ao sexo. O celibato foi sacramentado no Quarto Concílio de Latrão, de 1215 e no Concílio de Trento, entre 1545 e 1563 (antes disso, conta-se que no Concílio de Constança, em 1418, 700 prostitutas atenderam os clérigos que debatiam o assunto). Alguns conseguem lidar com ele. Um bom pedaço – como se tem visto – não consegue.
Dowd é um militante da causa. Fez um documentário, Queer and Catholic, em que entrevistou dois sacerdotes que se apaixonaram e tentaram levar adiante essa questão com seus superiores. Foram rechaçados sumariamente. Um deles revelou que seus chefes mais homofóbicos eram os mesmos que procuravam parceiros no Monte Capitolino, famoso parque em Roma. (O cardeal O’Brien, antes de dar o fora, afirmou que o casamento entre pessoas do mesmo sexo era “uma tentativa de agradar um pequeno grupo de ativistas em detrimento de toda a sociedade. Eliminaria a ideia básica de que toda criança precisa de um pai e de uma mãe”.)
A homofobia não é exclusividade do Vaticano (vide, para ficar num exemplo recente, o nosso querido pastor Malafaia). Agora, a pressão para que seus líderes finjam ignorar sua sexualidade é injusta, sem sentido – e tem consequências. Como a igreja católica é medieval e pequenas e eventuais mudanças ocorrem a cada 500 anos, é altamente improvável que algo vá acontecer. Enquanto isso, os seminários continuarão cheios. Como diria Libaninho, o beato de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, com as mãos na cabeça: “Nossa Senhora das Dores, que até pode cair um raio!”.
Kiko Nogueira
No Diário do Centro do Mundo

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

As finanças secretas e caóticas da Igreja Católica




A investigação por lavagem de dinheiro do Banco do Vaticano, as indenizações pelos escândalos sexuais e o número decrescente de fieis e doações são alguns dos problemas que o próximo pontífice herdará. Em entrevista à Carta Maior, o jornalista Jason Berry, fala sobre as finanças secretas da Igreja Católica, tema que foi objeto de sua investigação nos últimos 25 anos. Essa história, segundo ele, remonta à guerra fria e à massiva injeção de dinheiro da CIA no Vaticano para neutralizar a ameaça do Partido Comunista Italiano. A reportagem é de Marcelo Justo.

Marcelo Justo, Carta Maior

O Papa Bento XVI abandona o barco em meio a sérios problemas financeiros. A investigação por lavagem de dinheiro do Banco do Vaticano, as indenizações pelos escândalos sexuais e o número decrescente de fieis e doações são alguns dos problemas que o próximo pontífice herdará. Ninguém sabe exatamente quanto gasta a Igreja Católica em nível mundial, mas segundo uma investigação da revista inglesa The Economist, publicada no ano passado com base em dados de 2010, a cifra rondaria os 170 bilhões de dólares. Em um livro sobre as finanças secretas da Igreja Católica, o jornalista Jason Berry, que investigou o tema nos últimos 25 anos, afirma que a estrutura financeira da igreja é “caótica” e “opaca”.

Em entrevista à Carta Maior, Berry falou das dificuldades econômicas do Vaticano que, para ele, remetem à guerra fria e à massiva injeção de dinheiro da CIA no Vaticano para neutralizar a ameaça do Partido Comunista Italiano, então o mais poderoso da Europa ocidental.

Carta Maior: Como é a estrutura financeira da Igreja Católica em nível mundial?

Jason Berry: A Igreja Católica é muito hierárquica, monárquica eu diria, com o Papa como líder e dioceses dirigidas por arcebispos e bispos em todo o globo. Mas, em virtude de seu próprio tamanho, é internamente caótica e ingovernável. Cada bispo trabalha em sua diocese como se estivesse comandando um principado.

CM: O que sabemos de concreto sobre a riqueza do Vaticano?

JB: Há uma absoluta opacidade nas contas. Quando o vaticano declara suas rendas e gastos anuais não inclui o Instituto para as Obras de Religião, o IOR, mais popularmente conhecido como o Banco do Vaticano, cujos fundos são estimados em cerca de 2 bilhões de dólares. O IOR tem sido administrado em um clima de absoluta falta de transparência, o que o converteu em um veículo perfeito para o trânsito de todo tipo de fundos. Mas agora, com a investigação do Banco Central da Itália sobre lavagem de dinheiro, isso está mudando.



CM: Segundo algumas informações, o Vaticano tem interesses em uma empresa de espaguete, no setor financeiro, aviação, propriedades e uma companhia cinematográfica. Diz-se, inclusive, que controla entre 7 e 10% da economia italiana. Mas, dada a opacidade de suas contas, até onde é possível confirmar essas informações?

JB: Há informação disponível a instituições que nos permite saber onde está o dinheiro do Vaticano. Na Itália, o Vaticano investiu muito no Banco de Roma, que foi fundamental na reconstrução da Itália depois do “Risorgimento” no século XIX. Também tem negócios na área dos transportes públicos. A isso deve-se somar propriedades na própria Itália, na Europa e nos Estados Unidos. O Vaticano chegou a ser um dos proprietários do edifício Watergate, do famoso escândalo que provocou a renúncia de Richard Nixon. O grande tema hoje em dia é averiguar até onde prestou serviços a clientes que o utilizam como um banco “off shore”.

CM: Que impacto econômico os escândalos sexuais tiveram nas finanças da igreja?

JB: Nos Estados Unidos esse impacto foi muito forte. As dioceses e ordens religiosas pagaram mais de dois bilhões de dólares. Em muitas cidades tiveram que fechar igrejas. Los Angeles, Chicago e Boston, três das mais importantes arquidioceses, tiveram um rombo médio de 90 milhões de dólares em seus fundos de pensão.

CM: Em seu livro “Vows of Silence” você fala do fundador dos Legionários de Cristo, o mexicano Marcial Maciel que chegou a controlar um império de 650 milhões de dólares e contou com a proteção do Papa João Paulo II, apesar das denúncias de abusos sexuais. Maciel teve fortes vínculos com o governo de Pinochet no Chile e com os governos da América Central. Há alguma figura equivalente na igreja de hoje?

JB: Maciel foi o mais bem sucedido coletor que a igreja teve. Começou no final dos anos 40 buscando apoio de milionários católicos no México, Venezuela e Espanha durante a perseguição dos padres no México e pouco depois da guerra civil espanhola. Com este dinheiro, Maciel formou sua própria base de poder em Roma e se converteu no porta-voz do setor mais conservador e militante da igreja. Assim como fez com Franco, se vinculou muito com Pinochet no Chile. Nos Estados Unidos o próprio diretor da CIA durante os anos Reagan, William Casey, fez uma doação de centenas de milhares de dólares aos legionários. Maciel comportava-se como um político que viajava pelo mundo arrecadando fundos para fazer avançar a causa do catolicismo conservador e a agenda política conservadora. Mas a verdade era que toda sua ideologia encobria um delinquente sexual com poderosos contatos.

Apesar de ter sido acusado de abusar de seminaristas, o Vaticano não o investigou até 2004, a pedido do cardeal Ratzinger, quando João Paulo II estava morrendo. Graças a isso sabemos que teve filhos com duas mulheres no México e que manteve ambos os lares com dinheiro da Legião de Cristo. O escândalo é que o Vaticano demorou tanto para investigá-lo e deixou que ele se transformasse em um Frankenstein. Não há hoje uma figura equivalente no que diz respeito à arrecadação de fundos.

CM: Há uma longa história de escândalos nas finanças do Vaticano. Nos anos 80 houve o escândalo do Banco Ambrosiano e seu presidente, Roberto Calvi, que apareceu enforcado debaixo da ponte de Blackfriars em Londres. Calvi tinha fortes vínculos com o então presidente do Banco do Vaticano, o arcebispo estadunidense Paul Marcinkus. Há uma continuidade entre esses escândalos e os atuais problemas do banco?

JB: Creio que na realidade é preciso retroagir à Segunda Guerra Mundial quando a CIA começou a transferir grandes somas para o Banco do Vaticano. Em 1948, foi a primeira eleição na qual o Partido Comunista italiano, convertido no mais importante da Europa, buscava o poder. Neste momento houve uma grande campanha nos Estados Unidos, patrocinada pelo governo, da qual participou Frank Sinatra, para financiar a democracia cristã. Este foi o começo da história do dinheiro que círculos dos serviços de inteligência estadunidenses para o Vaticano. Uma geração depois, com Roberto Calvi e Marcinkus, o banco havia se convertido em uma via muito lucrativa para a passagem de dinheiro. No final dos anos 80, o banco teve que pagar uma multa de 250 milhões de dólares. Já ali o banco funcionava como uma “off shore” para seus clientes privilegiados. Mas ainda falta muito por documentar sobre essa história.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer


Fotos: Divulgação/http://www.jasonberryauthor.com