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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Delator do bem x delator do mal – maniqueísmo na era do cinismo


bemxmalEm uma época em que ocorre um crescimento exponencial do número de delações, instrumento que valoriza uma das piores facetas do ser humano, a imprensa de direita utiliza expedientes cada vez mais cínicos para defender seus aliados e atacar seus adversários.
Se empresas envolvidas com corrupção de servidores doaram para seus aliados, alegam se tratar de sentimento cívico e por achar que seriam bons gestores, já quando a doação é para adversários são triangulações de propinas.
Se situações semelhantes de pagamento de propina para servidores acontecem durante governo de seus adversários são chamadas de corrupção e há envolvimento de agentes políticos. Já quando ocorrem em governos de aliados é denominado cartel, e o estado é só um ingênuo enganado por tubarões.
O cinismo avança quando esses veículos apostam no tudo ou nada por não verem horizonte em um mundo onde governantes não são seus capachos para os salvarem economicamente de administrações desastrosas, onde empresas de comunicação abdicam por questões políticas daquele que pode ser considerado seu maior patrimônio: a credibilidade.
Em vez de apostar no profissionalismo e resgate de sua credibilidade, jogam tudo na radicalização da desinformação, crendo que apenas eliminando seus adversários e colocando aliados nos seus lugares podem manter o seu poder, mas não muda a realidade que sua credibilidade está se derretendo progressivamente.
Apostando no lacerdismo como mote, estimulam e forçam delações contra adversários, mas se deparam com um efeito colateral: seus aliados têm pés de barro e também são alvos de delatores. A solução foi criar as figuras do “delator do bem” e o “delator do mal”.
Se o delator atingir seus adversários é o “delator do bem”, este é endeusado a ponto de não admitir que possa ser contestado. Sua palavra não precisa estar acompanhada de provas e podem ser alçados à condição de heróis. Se o delator atinge seus aliados é o “delator do mal”, a postura é de descrédito, vira alvos de ataques, boatos de ligações com adversários são então criados para parecer que a delação foi por motivos políticos.
O “delator do bem” também tem o poder olímpico de “desmentir” os “delatores do mal”. Recentemente o advogado do doleiro Youssef, advogado que trabalhou para o PSDB do Paraná, foi convocado pela imprensa para negar pelo seu cliente, declarações de outros delatores (o policial Careca e o laranja da Labogen) que envolveram políticos tucanos. A sua palavra foi considerada decisiva para encerrar precocemente qualquer repercussão das declarações dos “delatores do mal”.
Se você se surpreende com o nível do cinismo nas figuras do “delator do bem” e “delator do mal”, o que diria ao saber que também foram criadas as figuras da “tortura do bem” e “tortura do mal”?
Advogados de presos da lava-jato denunciam o clima de Guantánamo nas detenções da Polícia Federal em Curitiba, com extensões de prisões temporárias e preventivas sem qualquer prova efetiva contra os réus para forçar delações nos moldes do que interessa aos condutores das investigações. A imprensa trata as reclamações com desdém alegando se tratar de chicana jurídica para atrapalhar investigações (que se resumem a forçar delações).
Confrontados com a investigação ocorrida na Venezuela, onde um delator ajudou nas investigações para abortar uma tentativa de golpe de estado, e como consideram o governo da Venezuela adversário da sua política editorial entreguista e pró-EUA, abraçaram automaticamente as teses dos advogados dos golpistas venezuelanos que são idênticas aos dos encarcerados da Lava-jato: Delação forçada por meio de tortura psicológica.
Estamos convencidos que para eles a Guantánamo do Juiz Moro e da PF do Paraná se pratica a “tortura do bem”, como no fundo acreditam que foi o que aconteceu no Doi-Codi e outros porões da ditadura, já a “Tumba” da SEBIN venezuelana seria um horror onde se pratica a “tortura do mal”, e qualquer delação só poderia ser fruto da degradação em que vivia, a ponto de entregar quem o governo queria.
Não há interesse ou disposição para se preocupar com dilemas éticos na era do cinismo.
No: http://pontoecontraponto.com.br/2015/02/delator-do-bem-x-delator-do-mal-maniqueismo-na-era-do-cinismo/

sábado, 24 de janeiro de 2015

A grande empulhação dos colunistas econômicos



Grande parte dos colunistas de economia da imprensa comercial brasileira, autodenominada “grande imprensa”, comete uma fraude contra os cidadãos que acompanham as notícias no dia a dia. Eles têm uma verdadeira obsessão quando tratam de assuntos da sua área: a obsessão de acreditar que falam ou escrevem sem ideologia nenhuma, que seus comentários são isentos, práticos e objetivos, e que só mesmo a cegueira política não é capaz de enxergá-los como grandes pensadores críticos do país. Ora, ter uma visão ideológica e não assumi-la é a pior forma de cinismo e de empulhação. Essa gente não fez nem TCC no ensino médio para saber que qualquer coisa que se diga, se fala desde um lugar, desde uma teoria de interpretação sobre a realidade que se vê. E acreditar nos pilares do liberalismo sem freio, na aposta que a mão invisível do mercado pode tudo, forma um conceito tão atrasado quanto aquela regra do futebol que permitia ao goleiro segurar a bola com a mão por quanto tempo quisesse.

Pois bem. Um dos esportes prediletos desses colunistas de uma só forma de ver a economia é criticar os governos ditos bolivarianos como a Venezuela, o Equador, a Bolívia e a Argentina, não faltando tremendos esforços para incluir o Brasil na lista. A tese vale para todos: são governos gastões, populistas, anti-iniciativa privada, inimigos dos Estados Unidos e por aí vai. Dizem os guardiões do pensamento do mercado que a situação nesses países vai de mal a pior por obra e culpa dos governantes de plantão, casualmente todos eles de esquerda.

Não é que as previsões para os demais países latino-americanos também não são nada animadoras para 2015? Vamos pegar o exemplo de nações governadas pela direita para que a análise não seja entorpecida. O México terá um de seus piores anos. Indústrias norte-americanas instaladas em território mexicano estão demitindo e fechando suas portas. As chamadas “fábricas maquiladoras”, eixo central da integração do Nafta, estão indo se instalar em outras freguesias. O petróleo, principal receita do país, está com a produção em baixa e preços achatados no mercado internacional. Como entrou de sócio menor no acordo comercial com Estados Unidos e Canadá, os mexicanos correm o risco de voltar a níveis produtivos anteriores a 1980. O PIB deste ano está previsto para 1,0%. A pobreza e a violência só crescem.

A Colômbia, outra menina dos olhos dos colunistas econômicos brasileiros, teve forte queda de produção e mal ultrapassou o 1% do PIB em 2014. As previsões para esse ano são ainda mais sombrias. Aberto desde sempre ao capital estrangeiro especulativo, o país começa a assistir a saída desses capitais numa escala sem precedente. Pesa ainda a desvantagem de não ter muito para onde correr, já que a produção agrícola do país depende de commodities, cujos preços estão em baixa no mercado internacional, sem falar do problema da violência política, ainda sem solução definitiva.

O Peru, depois de três anos seguidos de crescimento, viu uma marcha à ré em 2014. Sua principal riqueza, as jazidas de minério, perdeu espaço para novos centros de produção na África e Ásia. Sem uma indústria forte, pouco terá a oferecer para garantir emprego e renda aos seus cidadãos.

Vamos colocar o Chile no rol dos países mais abertos economicamente, embora tenha um governo de inspiração esquerdista moderada. O cobre, de longe a grande cartada do país, está com preços em queda. Os investimentos externos estão caindo para os piores níveis da história e, o que é pior, iniciam um movimento de fuga, o que levou a presidente Michelle Bachelet a decretar apressadamente uma nova lei de “inversiones extranjeras”, mais liberal e sem grandes contrapartidas como a anterior.

Nesse cenário, o Banco Mundial destaca que a América Latina cresceu 1,0% em 2014, a média mais baixa dos últimos 12 anos. A projeção de crescimento do PIB é de 2,4% para este ano, um verdadeiro risco para a continuidade dos programas sociais que diminuíram em 24% a pobreza no continente. Nenhum país latino-americano ou caribenho crescerá vigorosamente, com a única exceção da Bolívia, que ainda colhe os frutos da nacionalização do setor de gás e energia. Então, onde está escrito que os únicos países que estão em difícil situação econômica são aqueles cujos governos tem ideias de esquerda? Em qual manual ficou provado que a melhor maneira de levar a economia de uma nação é abrindo todos os flancos para o investimento estrangeiro e para a total privatização dos setores estratégicos? Quem disse que desenvolvimento não combina com justiça social?

Sem dúvida, falta muito para que famosos colunistas econômicos tenham a humildade de reconhecer que, sim, falam em nome de uma ideologia a qual devotam crença inabalável e que prestam um desserviço aos consumidores de notícia quando emitem opiniões baseados em só um lado da moeda. A América Latina vive uma crise econômica que é resultado da queda brutal das commodities de matérias primas, do rearranjo do poder econômico mundial baseado na financeirização dos ativos, da precarização de seu parque industrial, da histórica falta de investimento em inovação e tecnologia e do profundo ódio que os donos locais do dinheiro nutrem contra qualquer coisa que sinalize uma pequena mudança em seu status quo.

Por isso, debater a regulação econômica da mídia é mais do que necessário; é urgente, é “pra ontem”. Somente assim poderemos almejar uma sociedade com mais pluralismo e mais democracia, com cidadãos que poderão olhar criticamente uma notícia sob variados pontos de vista e não apenas a partir da “verdade única” dos colunistas, desses endeusadores do oráculo do mercado.

Marco Piva, jornalista. 
No Carta Maior, via http://www.contextolivre.com.br/2015/01/a-grande-empulhacao-dos-colunistas.html

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Os ingênuos e os cínicos


De fato, há ingenuidade na revolta de pessoas da esquerda com os convites a Kátia Abreu e Joaquim Levy para o novo ministério. Mas há cinismo naqueles que as condenam.

Os eleitores de Marina Silva que acreditam que ela, com alianças e nervos frágeis, conseguiria criar uma "nova política" e "governar com os melhores" são ingênuos. Os que tripudiam de quem pede que Dilma Rousseff se afaste da velha política e escolha nomes menos conservadores são cínicos.

Os eleitores de Aécio Neves que asseguram que ele faria uma faxina ética e montaria um ministério técnico são ingênuos. Os que torcem para que a situação econômica do país piore são cínicos.

Não se governa sem doses de cinismo --ou pragmatismo, se soar mais elegante. Quem não percebe isso é ingênuo. Mas mudanças sociais significativas não ocorrem sem cargas de ingenuidade --ou esperança. Quem ri disso é cínico.

Há governantes que melhoram a vida das pessoas sem perder a ingenuidade (José Mujica). Há outros que levam milhares à morte com seu cinismo (George W. Bush). Crer que em política existam nítidos o bom e o mau é ingenuidade. Apregoar que todos moram na mesma lama é cinismo.

Parte da população pode ter votado em Dilma para defender as conquistas dos últimos anos, não por achá-la brilhante ou seu governo incorruptível. Ingenuidade? Talvez. Mas há muito de cinismo na rejeição aos programas voltados para os mais pobres e no mal disfarçado racismo dos que são contra o acesso mais democrático às universidades.

Em contraponto aos cínicos que se fingem de ingênuos e ocultam preconceitos sob a justa bandeira do basta à corrupção, merecem respeito os ingênuos que expressam em público seu horror ao cinismo das tenebrosas transações.
do: http://caviaresquerda.blogspot.com.br/2014/11/os-ingenuos-e-os-cinicos.html