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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Um papa sem encanto




A renúncia de Bento XVI contem lições interessantes.

Paulo Moreira Leite, ÉPOCA

“Empossado com um programa que pretendia reconduzir a Igreja para um mundo fechado nela mesma, voltada exclusivamente para debates de natureza espiritual, longe das questões que afligem os homens e mulheres do mundo, Bento XVI deixou o trono da Igreja em ambiente de decepção e melancolia.

Um de seus admiradores afirma que, embora tenha sido um grande teólogo, Bento XVI fracassou como Papa.

Não é de surpreender. Não tenho a menor condição de debater teologia. Mas, ateu desde a infância, tenho capacidade de examinar os Papas como aquilo que são – chefes políticos da Igreja. E é nesta função que o fracasso de Bento XVI contém elementos didáticos.

Embora o conservadorismo católico tenha produzido vários representantes ao longo da História da Igreja, Bento XVI não era apenas um Papa fora do tempo – era um Papa contra seu tempo.

Num mundo onde a cultura tornou-se plural, as sociedades se mostram complexas, os cidadãos se recusam a abrir mão de sua autonomia, seus direitos e opções de vida, a proposta de Bento XVI era uma forma de clausura política e cultural.

Ele se recusava a dar respostas consistentes para a vida das pessoas do século XXI, fosse em relação a vida em família, aos direitos das mulheres, às angustias dos mais pobres.

Alguém acha viável ter audiência junto às mulheres sem falar sobre aborto?
   
Ou conversar com a juventude sem falar da liberdade sexual?  

Ou procurar audiência junto às grandes populações do planeta sem responder à pobreza, à desigualdade?

Basta assistir a uma missa num bairro popular de São Paulo – recomendo a Achiropita, no Bixiga – para se entender o que estou dizendo. É fácil perceber quando os fiéis prestam atenção, quando se empolgam, quando ficam entediados. 

Este conservadorismo radical  de Bento XVI queria transformar o isolamento social da Igreja em virtude.

Antecessor de Bento XVI, João Paulo II era um Papa conservador, que deu início a uma política de combate à Teologia da Libertação e mesmo perseguição ao clero comprometido com os interesses dos mais pobres e oprimidos, como aconteceu em São Paulo, com dom Paulo Evaristo Arns – cardeal que esteve longe de liderar alguma fração esquerdista da Igreja, mas jamais abandonou valores como o respeito pelos direitos humanos e a democracia.

Mas João Paulo II nunca deixou de dar respostas – à sua maneira – às questões da vida concreta. Sua pregação tinha elementos democráticos, sua mensagem procurava responder ao sofrimento de homens e mulheres comuns – e por isso ele atraía multidões por onde passava. As viagens de Bento XVI jamais tiveram a mesma vibração nem a mesma acolhida, num sinal de que seu papado acentuou uma tendência histórica da Igreja.

No início dos anos 80, o francês Marcel Gauchet escreveu um clássico sobre as religiões, “O Desencantamento do Mundo”. Ele explica a decadência universal do catolicismo pelas mudanças na vida em sociedade.

Para Gauchet, o apogeu da religião ocorreu em épocas históricas em que as pessoas acreditavam que viviam num mundo encantado. Simplificando uma teoria muito mais complexa: homens e mulheres acreditavam viver num mundo em que a religião era uma forma de magia. Atribuíam aos céus suas alegrias e tristezas, sucessos e desgraças. Pensavam que a colheita era obra divina, tinham certeza de que havia uma vida após a morte – e atribuíam cada passo da existência à decisão de Deus. Acreditavam em milagres.
Naquele mundo de encantamento, temia-se o pecado como uma ação terrível – e a punição divina como um castigo material.

Na medida em que a sociedade de modificou, os meios de subsistência evoluíram, a educação e o conhecimento se ampliaram inclusive para as populações muito pobres,  muitas conquistas científicas se mostraram indispensáveis para o bem-estar de todos, era preciso falar a outros homens e mulheres, outras angústias e preocupações. João XXIII e, em certa medida, Paulo VI fizeram esforços neste sentido. Ao contrário do que sugeriam seus inimigos, a Teologia da Libertação e correntes semelhantes ajudaram a prolongar a audiência da Igreja. Deram-lhe uma audiência que as correntes conservadoras jamais teriam alcançado.

O projeto de Bento XVI era fazer o caminho de volta. Chegava a dizer que preferia uma Igreja menor e menos influente, mas composta por fiéis convictos e irredutíveis, do que uma comunidade ampla e pouco consistente.

Foi esta sua aposta política.

Um engano, que o crescimento das igrejas pentecostais demonstram pelo avesso: conseguem combinar a angustia material dos mais pobres com a promessa de milagres aqui e agora.
Falando a um mundo em que poucos creem, Bento XVI desencantou-se.”     

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Se não está fácil para o papa…



Foto: ©AFP / Vincenzo Pinto
Matheus Pichonelli, CartaCapital

“Vamos combinar: não deve ser fácil ser papa hoje em dia. Quando foi escolhido para comandar a Santa Sé, em 2005, as ferramentas que mudariam os canais de interlocução entre o público e as autoridades eram ainda uma novidade. Havia internet, havia uma cobertura intensa do conclave, havia todo tipo de análise de todos os calibres sobre o futuro da Igreja Católica.

Quase oito anos depois, Bento 16, sem o carisma do antecessor João Paulo II, tinha nas costas não apenas a missão de estancar a hemorragia de fiéis num tempo de convicções seculares, mas também a de atrair um público jovem cada vez mais conectado, cada vez mais ativo, cada vez menos interessado em verdades inabaláveis. Não foi por outro motivo que o papa aderiu ao Twitter, um púlpito bem diferente daquele a que todos os antecessores, a começar por São Pedro apóstolo, haviam reinado.

Oficialmente, a renúncia de Joseph Ratzinger é explicada pela saúde debilitada. Há relatos sobre ordens médicas para que evitasse grandes deslocamentos para se poupar. Em livro de memórias, ele já havia manifestado o desejo de deixar o pontificado caso a saúde limitasse sua missão. É uma explicação plausível, dada a idade avançada do sumo pontífice (ele tem 85 anos). Mas há também de se levar em conta a discrepância entre a missão herdada e a capacidade de Bento 16 conduzi-la.

Os canais de interlocução que ora eram anunciados como pontes entre a Igreja e os novos tempos são as mesmas a expor as fraturas expostas de uma instituição combalida. Os inúmeros, incontáveis escândalos sexuais e outros desvios protagonizados por quem detém, supostamente, o monopólio da fé, da bondade e da caridade hoje não permanecem mais de dois minutos debaixo do tapete. As reações também.

O resultado é que, embora  conectados a ferramentas atualizadas de comunicação, o papa e sua Igreja seguiram com um velho discurso construído em dogmas e tabus pouco atualizados do século primeiro até aqui. Num mundo que pede igualdade de oportunidades, direitos e deveres, o papa discorria sobre os “perigos” do casamento gay e condenava os avanços que tornaram a humanidademelhor, mais humana e mais livre em relação a tempos remotos (como a camisinha, a pílula e o desapego às instituições familiares e patriarcais). Não que este anacronismo estivesse ausente em postulados recentes; é que, antes, as tecnologias não permitiam tal assimilação. Como o papa relutante de Nanni Moretti, que em seu Habemus Papam parecia ter previsto uma fábula sóbrio o vácuo de liderança do mundo atual, Bento 16 pode ter se dado conta de que sua posição não o tornou imune ao escrutínio humano. Num passado recente, a aura em torno de uma autoridade e seu circulo de asseclas eram barreira protetora diante das demandas e manifestações populares. O exercício de poder é um exercício, portanto, de autoilusão, até que alguém da rua grite que o rei está nu.

Hoje esta distância praticamente inexiste: os canais de interlocução criam reações automáticas, assustadoramente rápidas até para nativos digitais. Em outras palavras: aqui se paga o que se fala, o que se escreve. E nunca foi tão fácil descobrir o quanto um líder é amado ou odiado.

Se em algum momento o papa Bento 16 se perguntou “que rei sou eu”, a internet e outros canais não o deixaram sem respostas, estas que faltam na Bíblia e sobram nas ruas.”