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sexta-feira, 14 de junho de 2013

MPL, tucanos e polícia — o PT tem de ser incomodado e incomodar


Por Davis Sena Filho — Blog Palavra Livre

O que mais chamou a atenção até agora nos protestos de estudantes liderados pelo Movimento Passe Livre (MPL) em várias capitais do País, notadamente em São Paulo, não foi a infiltração de grupos de extrema direita nas manifestações e muito menos a participação da esquerda que faz oposição ao governo trabalhista, por intermédio das siglas PSTU e PSOL, ao tempo em que compõe com os interesses da direita, como no caso do senador Randolfe Rodrigues (PSOL/AP) que foi pessoalmente dar apoio ao juiz Gilmar Mendes no episódio em que o magistrado, equivocadamente e ditatorialmente, impediu que o Congresso legislasse sobre o projeto de lei que trata das novas regras sobre criação de partidos políticos.
Randolfe Rodrigues e outros senadores, a exemplo de Cristóvam Buarque e Rodrigo Rollemberg, comportam-se como verdadeiros quinta colunas, e, por se conduzirem politicamente dessa forma, insurgiram-se, vergonhosamente, contra a instituição da qual são membros, o Senado, além de “rasgarem” a Constituição, que não deixa dúvida alguma quanto ao papel dos Três Poderes da República. Comportaram-se dessa maneira para atender os seus interesses e os da senhora Marina Silva, que precisa, urgentemente, regularizar o seu partido Rede Sustentabilidade, que é apenas mais uma agremiação conservadora, com verniz progressista, como o é o PSOL, que em Minas Gerais por pouco não ficou nas mãos da direita.
Contudo, o que me chamou a atenção realmente foi a PM paulista, conhecida historicamente por sua violência, pois tradicionalmente sempre se comportou como uma guarda pretoriana de defesa dos interesses de classe e do patrimônio da burguesia paulista. Juntamente com a Polícia Civil, a PM paulista se tornou emblemática no País, por sua atuação assassina na repressão a militantes de grupos de esquerda no decorrer de 21 anos de ditadura militar.
É sintomática a participação da PM no que tange à repressão exagerada tão a gosto dos políticos do PSDB, que, no poder, sempre se valeram das corporações policiais para reprimir os movimentos sociais e populares, tanto no campo quanto na cidade, a exemplo dos massacres de Pinheirinho e de Eldorado dos Carajás. Dois acontecimentos que são os símbolos maiores das inúmeras repressões promovidas por mandatários do PSDB, partido divorciado do povo brasileiro, porque simplesmente se distanciou dos interesses da população e hoje se conduz como agremiação política conservadora cujos políticos são vistos como testas de ferro do establishment.
Afirmo ainda que há uma certa estranheza no ar no que concerne aos líderes do MPL e das lideranças estudantis, muitos deles vinculados a partidos políticos, o que é legítimo e natural, recusarem-se a dialogar com a Prefeitura, conforme informou hoje o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, à “grande” imprensa. Haddad disse que o aumento de R$ 0,20 já era anunciado desde o ano passado e por isso não pegou ninguém de surpresa. O mandatário petista afirmou ainda que o aumento da tarifa de ônibus “é muito abaixo da inflação”, sendo que o menor dos últimos três anos. O prefeito disse também que a majoração da passagem em apenas R$ 0,20 somente foi possível porque a Prefeitura subsidiou a tarifa com recursos orçamentários da ordem de R$ 600 milhões, além de deixar claro que está aberto ao diálogo.
Entretanto, lembro ao leitor que o MPL questiona e realiza movimentos desde os tempos do prefeito Gilberto Kassab (PSD), político que foi aliado dos tucanos e que atualmente é importante aliado do governo trabalhista da presidenta petista Dilma Rousseff. Não esqueçamos, porém, que o PSD faz parte da base política e partidária do governo federal, além de ser a terceira maior bancada do Congresso, menor apenas que as do PT e do PMDB.
Mesmo a encerrar a parceria com os tucanos e ser considerado traidor pelos barões da imprensa e seus jornalistas porta-vozes de interesses patronais, Kassab nunca foi atacado com ênfase e agressividade como os áulicos da imprensa corporativa dedicam aos políticos do PT. Esse comportamento é devido à esperança de que algum dia Kassab retorne às hostes da direita, apesar de ser um político conservador. Por isto e por causa disto, a imprensa de negócios privados nunca atacou com violência exagerada o ex-prefeito e o “protegeu” ao esconder das principais manchetes de seus jornais o Movimento Passe Livre (MPL), o que, evidentemente, não ocorre na administração de Fernando Haddad, político do PT.
Essa realidade é visível e transparente como as águas do mar sem poluição. Somente não enxerga quem não quer, por motivos políticos e ideológicos ou por alienação. Todavia, asseguro que considero o MPL um movimento legítimo e que o protesto, a manifestação e as críticas são partes integrantes da democracia e, consequentemente, do estado democrático de direito, que permite a liberdade de expressão e a de reivindicar. Por seu turno, acho que o PT precisava de uma sacudida, a fim de perceber que as reformas econômicas e sociais têm de ser realizadas e concretizadas com mais rapidez, menos burocracia e maior vontade política para resolver as questões e os conflitos sociais.
Afinal, o PT é um partido reformista, e, seguramente, não é revolucionário, como muitos de seus integrantes o são, mas que, no momento, não têm voz ativa e cargos importantes para que se pudesse agilizar e, quiçá, efetivar as reformas tão necessárias para o desenvolvimento do povo brasileiro, a exemplo das reformas agrária, tributária e política. Esses processos são, historicamente, combatidos, por aqueles que controlam os meios de produção, e que têm ainda muita força e influência no Congresso, no STF, na PGR, nos Ministérios Públicos, nas confederações e federações empresariais rurais e urbanas e no próprio Palácio do Planalto, que forma um governo de coalizão.
Somente os lorpas e os pascácios, como diria o conservador e genial Nelson Rodrigues, confundem o programa de governo e o projeto de Pais dos governos trabalhistas do PT com as alianças sacramentadas que tem o propósito de viabilizar a governabilidade, o que seria impossível em um País como o Brasil, de tamanho continental, e características e interesses políticos regionais e estaduais. A verdade é que essas pessoas não conhecem os bastidores e se comportam como amadores, no sentido de não perceberem que as alianças são necessárias para governar, sem que, obviamente, o partido e o governante que conquistou o poder não rasgue o programa de governo apresentado à população, bem como não esqueça do seu passado, como aconteceu com o ex-presidente tucano, Fernando Henrique Cardoso, conhecido também como o Neoliberal I.
Por isso que pessoas como Marina Silva, Cristóvam Buarque, Rodrigo Rollemberg, Eduado Campos, Heloísa Helena, Alfredo Sirkis, Fernando Gabeira, Randolfe Rodrigues, Pedro Simon, além de Pedro Taques e Álvaro Dias, os dois últimos políticos midiáticos e replicadores contumazes das manchetes oposicionistas e golpistas da imprensa burguesa e alienígena, não têm credibilidade perante o povo, e, por conseguinte, suas figuras ficam restritas ao mundo da classe média tradicional, como já afirmei mais de mil vezes, conservadora, reacionária, preconceituosa e portadora dos valores e dos princípios dos ricos, que estão cansados de usá-la para seus interesses políticos e de consumo, bem como igualmente cansados de barrar tal classe despolitizada na porta de seus bailes à black tie e regados à champanhe.
Para finalizar, digo que o PT e o governo petista liderado pela presidenta Dilma Rousseff abram os olhos, caminhem nas ruas e voltem a fazer o que sempre fizeram: apertar a mão do povo e ver de perto a sua realidade. O PT e o governo trabalhista de Dilma Rousseff não deve jamais titubear, vacilar e muito menos perder a disposição quando se trata de distribuir renda e riqueza para que o povo brasileiro possa se emancipar e nunca mais ficar á mercê dos herdeiros da casa grande, que escravizaram seres humanos no decorrer de quatro séculos ou mais. O PT é reformador, apesar de ter, volto a repetir, em seus quadros e em seus diversos grupos políticos militantes revolucionários.
Abrir mão das reformas para compor com as “elites” nababescas, perdulárias, colonizadas e entreguistas e dessa forma evitar ser alvo de ataques e campanhas negativas são erros políticos e estratégicos graves. Quem conquista o poder tem de ser incomodado, mas também tem o dever de incomodar os que sempre puderam mais e que estão a controlar os meios de produção e as terras improdutivas rurais e urbanas. O Brasil tem muito dinheiro e pode melhorar a vida dos brasileiros. As desigualdades envergonham o povo brasileiro, que é o maior grupo social, o mais importante, o melhor, o que trabalha e o que quer mudanças e reformas para se livrar da miséria, da pobreza, e, por sua vez, da violência.
O MPL tem razão, mas deve dialogar e não ficar à mercê de grupelhos fascistas, como ocorreu nas manifestações. O PT é um partido orgânico, inserido nos principais segmentos e setores da sociedade. O governo do PT e dos seus aliados efetivam há 11 anos uma política econômica e social de distribuição de renda e de riqueza, que é combatida diuturnamente e ferozmente pelo patronato brasileiro, pelos partidos que os representam (PSDB, DEM, PPS e PSOL) e fundamentalmente pela imprensa golpista.
Os barões midiáticos que desde 1930, quando o trabalhista e estadista Getúlio Vargas assumiu o poder, boicotam, sabotam e se acumpliciam até com as forças estrangeiras para derrubar os políticos do campo do trabalhismo e do socialismo, realidade esta que aconteceu em 1964 quando deram um golpe de estado e derrubaram o trabalhista João Goulart — o Jango. O PT tem de cumprir totalmente o seu programa de governo e para isso precisa agilizar as reformas. A presidenta Dilma Rousseff tem força para política para aprová-las. Se a imprensa mercadológica e os grupos reacionários querem realmente criticar e fazer oposição sistemática ao governo trabalhista, que eles pelo menos tenham uma razão concreta e palpável. O PT tem de pisar no acelerador e deixar para o PSDB o perfume da massa cheirosa. Esses tucanos leram sobre revoluções, mas não compreendem o que é revolução. É isso aí.   
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segunda-feira, 18 de março de 2013

O futuro de Dilma, em 3 movimentos




Rodrigo Vianna, Escrevinhador

“Muita gente se mostra (ou se finge?) surpresa com os movimentos recentes na política brasileira, que indicam um quadro muito mais complexo e multipolar do que nas eleições de 2002, 2006 e 2010.

Podemos listar três movimentos simultâneos:

- Eduardo Campos acelera a articulação de uma terceira força, reunindo dissidentes do lulismo e do tucanato;

- José Serra ameaça sair do PSDB, para dar o troco em Aécio Neves (o mineiro, em 2010, não fez campanha pra valer para o paulista);

- Gilberto Kassab avisa que o PSD não entrará no governo Dilma, deixando a porta aberta para um acordo com Eduardo e o PSB.

A decisão de Kassab, diz a mídia velha, teria “surpreendido” Dilma e o PT. Mentira. Kassab, ao criar o novo (?!) partido, tinha já alinhavado com Eduardo a possibilidade de uma aliança e até de uma fusão com o PSB.

Os outros dois movimentos tampouco são surpreeendentes. E indicam o que? Dificuldades para Dilma e o PT? Sem dúvida. Mas muito mais que isso: indicam que a velha oposição PSDB/DEM perde a condição de alternativa única ao petismo.”

Sobre isso, eu já havia escrito aqui, em outubro de 2012:
 “Hoje, os tucanos precisam mais de Eduardo Campos do que o contrário. Com o PSB, Aécio ficaria realmente forte. Não é à toa que FHC lança hoje na “Folha de S. Paulo” (espécie de diário oficial do tucanato) um pedido, quase uma súplica ao líder socialista, ao falar de aliança com o PSB: “se houver, será forte e salutar, Mas depende do desempenho do governo federal e das alianças da presidente Dilma para ver se o Eduardo se arrisca a romper.”
Difícil imaginar que Eduardo Campos vire linha auxiliar do tucanato paulista. Ele não precisa disso. Pode esperar até 2018, costurando até lá uma ponte com o Sudeste via Aécio e PSD de Kassab. Nesse caso, parte da velha oposição (embutida no “novo” partido kassabista) é que viraria linha auxiliar do PSB.”
Paralelamente a esse triplo movimento, há uma ausência. Essa, sim, surpreendente. Dilma não se mexe. Perde o “timing” na política. Ricardo Kotscho escreveu sobre isso, aqui. Concentrada na busca de um novo modelo econômico (juros mais baixos, energia mais barata, isenção de impostos para cesta básica), Dilma se omite na política. A iniciativa está com a oposição. Dilma erra à esquerda e à direita.
Ao olhar para a direita, age de forma frouxa, terceirizando a política “miúda” para o PMDB. Quem articula para Dilma? Renan, Temer?
Os problemas não são apenas no Congresso. Parte da elite empresarial está insatisfeita com a falta de interlocutores no Planalto. Eduardo Campos come pelas beiradas. Já se tornou interlocutor de empresários paulistas que não confiam em Aécio, e preferem (como alternativa eventual a Dilma) alguém que venha de “dentro” do lulismo. Sobre a inação e a falta de diálogo do governo Dilma,recomendo o ótimo artigo de Renato Rovai, aqui.
À esquerda, Dilma age com arrogância. Talvez desconheça o papel que a militância de esquerda cumpriu naquelas duas primeiras semanas do segundo turno de 2010, quando Serra chegou a estar apenas 4 pontos atrás da petista nas pesquisas. Diante da onda de boatos insuflada pelo serrismo, não foram Temer ou Renan nem os omeletes na Ana Maria Braga que “salvaram” Dilma. Foi a militância – nas ruas e na internet.
Dilma parece agir como se essa turma já estivesse com ela mesmo – pra que agradar? Nada. Nenhum sinal de avanço na Reforma Agrária, nas Comunicações, na Cultura. O governo Dilma é um deserto de idéias e inovação em áreas simbólicas para a esquerda.
O que isso tudo significa? Que a eleição de 2014 será mais complicada para o petismo. Mesmo que a economia cresça um pouco mais em 2013.
Sobre isso, escrevi aqui, ano passado, muito antes dos movimentos explícitos de Eduardo, Serra e Kassab:
“Imaginem um quadro com Dilma (PT/PMDB), Aécio (PSDB/DEM/PPS), Eduardo Campos (PSB/PSD) e a incógnita de Marina Silva…
Eduardo tiraria parte do eleitorado petista do Nordeste. Com boas alianças com PSD e lideranças desgarradas, conquistaria (pequenos) nacos do Sul/Sudeste. Candidatura para 15% ou 20% dos votos.
Aécio tiraria (boa) parte do eleitorado mineiro do PT, sairia forte de São Paulo com apoio de Alckmin (que travará batalha de vida ou morte com PT) e conquistaria pedaços do Norte/Nordeste (com lideranças sobreviventes do DEM/PSDB). É candidatura para 20% ou 25% dos votos no primeiro turno.
Dilma teria uma votação espalhada pelo país. Poderia chegar a 40% ou 45%. Dificilmente venceria no primeiro turno.
O melhor para Aécio e Eduardo não seria uma aliança no primeiro turno. Mas candidaturas separadas, com possibilidade de apoio num segundo turno, a depender da conjuntura.
Eduardo teria peso (e coragem) para confrontar a “candidata do Lula” em 2014? Hoje, acho pouco provável. Mas não é um cenário de todo improvável.”
Há frestas e fissuras por onde a oposição vai avançar. Mais que isso. Atualizando o quadro político para 2013, parece possível que Eduardo Campos amplie sua aliança para além de PSB/PSD, incorporando o PPS de BobFreire (vitaminado por serristas e outros descontentes tucanos) e o PTB de Bob Jefferson. Feitas as contas, o pernambucano pode ter uma aliança com tanto tempo na TV quanto Aécio (PSDB/DEM).
O neto de Tancredo tem sua fortaleza em Minas. E provavelmente terá Alckmin numa batalha de vida ou morte contra o petismo. Eduardo terá pedaços do Nordeste e dissidentes do demo-tucanato no Sudeste (via PSD e PPS). Marina (mesmo sem tempo de TV) pode conquistar o eleitorado de classe média de grandes centros como Rio, Brasilia, Belo Horizonte, Porto Alegre (ainda que o mais provável é que ela – sem o “empurrão” da mão tucana e evangélica recebido em 2010 – tenha menos votos do que na última eleição).
Seja como for, é eleição disputada, fragmentada. Dilma pagará o preço pela arrogância e a inação política. É a favorita. Mas não terá caminho fácil. O líder do PSB parece a essa altura o mais forte entre os três postulantes da oposição. E não adianta dizer que Eduardo Campos é “traidor”.  Eduardo é apenas o sintoma das contradições internas de uma aliança ampla demais. É também o resultado de um governo que acerta na Economia, mas erra na Política.