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quinta-feira, 5 de março de 2015

Leonardo Boff O que se esconde atrás do ódio ao PT?




Certos grupos prolongam as velhas elites que da Colônia até hoje continuaram antinacionais, reacionárias e achando que o povo não têm direitos.


Há um fato espantoso mas analiticamente explicável: o aumento do ódio e da raiva contra o PT. Esse fato vem revelar o outro lado da “cordialidade” do brasileiro, proposta por Sérgio Buarque de Holanda: do mesmo coração que nasce a acolhida calorosa, vem também a rejeição mais violenta. Ambas são “cordiais”: as duas caras passionais do brasileiro.

Esse ódio é induzido pela midia conservadora e por aqueles que na eleição não respeitaram rito democrático: ou se ganha ou se perde. Quem perde reconhece elegantemene a derrota e quem ganha mostra magnanimidade face ao derrotado. Mas não foi esse comportamento civilizado que triunfou. Ao contrário: os derrotados procuram por todos os modos deslegitimar a vitória e garantir uma reviravolta política que atenda a seu projeto, rejeitado pela maioria dos eleitores.

Para entender, nada melhor que visitar o notório historiador, José Honório Rodrigues que em seu clássico Conciliação e Reforma no BrasilI (1965) diz com palavras que parecem atuais:

”Os liberais no império, derrotados nas urnas e afastados do poder, foram se tornando além de indignados, intolerantes; construíram uma concepção conspiratória da história que considerava indispensável a intervenção do ódio, da intriga, da impiedade, do ressentimento, da intolerância, da intransigência, da indignação para o sucesso inesperado e imprevisto de suas forças minoritárias” (p. 11).

Esses grupos prolongam as velhas elites que da Colônia até hoje nunca mudaram seu ethos. Nas palavras do referido autor: “a maioria foi sempre alienada, antinacional e não contemporânea; nunca se reconciliou com o povo; negou seus direitos, arrasou suas vidas e logo que o viu crescer lhe negou, pouco a pouco, a aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence”(p.14 e 15). Hoje as elites econômicas abominam o povo. Só o aceitam fantasiado no carnaval.

Lamentavelmente, não lhes passa pela cabeça que “as maiores construções são fruto popular: a mestiçagem racial, que criava um tipo adaptado ao país; a mestiçavel cultural que criava uma síntese nova; a tolerância racial que evitou o descaminho dos caminhos; a tolerância religiosa que impossibiltou ou dificultou as perseguições da Inquisição; a expansão territorial, obra de mamelucos, pois o próprio Domingos Jorge Velho, devassador e incorporador do Piaui, não falava português; a integração psico-social pelo desrespeito aos preconceitos e pela criação do sentimento de solidariedade nacional; a integridade territorial; a unidade de língua e finalmente a opulência e a riqueza do Brasil que são fruto do trabalho do povo. E o que fez a liderança colonial (e posterior)? Não deu ao povo sequer os beneficios da saúde e da educação”(p. 31-32).

A que vêm estas citações? Elas reforçam um fato histórico inegável: com o PT, esses que eram considerados carvão no processo produtivo (Darcy Ribeiro), o rebutalho social, conseguiram, numa penosa trajetória, se organizar como poder social que se transformou em poder político no PT e conquistar o Estado com seus aparelhos. Apearam do poder as classes dominantes; não ocorreu simplesmente uma alternância  de poder mas uma troca de classe social, base para um outro tipo de política. Tal saga equivale a uma autêntica revolução social.

Isso é intolerável pelas classes poderosas que se acostumaram a fazer do Estado o seu lugar natural e de se apropiar privadamente dos bens públicos pelo famoso patrimonialismo, denunciado por Raymundo Faoro.

Por todos os modos e artimanhas querem ainda hoje voltar a ocupar esse lugar que julgam de direito seu. Seguramente, começam a dar-se conta de que, talvez, nunca mais terão condições históricas de refazer seu projeto de dominação/conciliação. Outro tipo de história política dará, finalmente, um destino diferente ao Brasil.  

Para eles, o caminho das urnas se tornou inseguro pelo nível crítico alcançado por amplos estratos do povo que rejeitou seu projeto político de alinhamento neoliberal ao processo de globalização, como sócios dependentes e agregados. O caminho militar será hoje impossível dado o quadro mundial mudado. Cogitam com a esdrúxula possibilidade da judicialização da política, contando com aliados na Corte Suprema que nutrem semelhante ódio ao PT e sentem o mesmo desdém pelo povo. 

Através deste expediente, poderiam lograr um impeachment da primeira mandatária da nação. É um caminho conflituoso pois a articulação nacional dos movimentos sociais tornaria arriscado este intento e talvez até inviabilizável.    

O ódio contra o PT é menos contra PT do que contra o povo pobre que por causa do PT e de suas políticas sociais de inclusão, foi tirado do inferno da pobreza e da fome e está ocupando os lugares antes reservados às elites abastadas. Estas pensam em apenas fazer caridade, doar coisas, mas nunca fazer justiça social.

Antecipo-me aos críticos e aos moralistas: mas o PT não se corrompeu? Veja o mensalão? Veja a Petrobrás? Não defendo corruptos. Reconheço, lamento e rejeito os malfeitos cometidos por um punhado de dirigentes. Traíram mais de um milhão de filiados e principalmente botaram a perder os ideais de ética e de transparência. Mas nas bases e nos municípios - posso testemunhá-lo - vive-se um outro modo de fazer política, com participação popular, mostrando que um sonho tão generoso não se mata assim tão facilmente: o de um Brasil menos malvado. As classes dirigentes, por 500 anos, no dizer rude de Capistrano de Abreu, “castraram e recastraram, caparam e recaparam” o povo brasileiro. Há maior corrupção histórica do que esta? Voltaremos ao tema.

http://cartamaior.com.br/?%2FColuna%2FO-que-se-esconde-atras-do-odio-ao-PT-%2F33000

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Rancor das elites contra Dilma e o PT é muito mais pelas suas virtudes do que por seus erros pontuais


Por Pedro Porfírio , em seu blog 
Outro dia, num aniversário de um engenheiro de uma estatal, ouvi de alguns convivas da mesma estirpe uma amarga declaração de voto: "estou contra a Dilma por que quero ver o PT pelas costas".
Não foi um, nem dois. Inúmeros convidados daquela bela festa repetiam o mesmo jargão. Alguns falavam com ódio e, como já tinham consumido uns bons vinhos, pronunciavam as sentenças de morte do PT com exacerbado rancor e sede de vingança.

Como não sou petista e, ao contrário, estive quase sempre em trincheiras opostas, sem perder o respeito ao adversário jamais, me senti à vontade para recorrer à metodologia racional a fim de entender por  que aquelas pessoas babavam de ódio da Dilma, do Lula, do PT e de todos os que ousavam admitir que votariam na reeleição da mineira, cuja biografia deveria merecer todos os preitos desses que hoje dizem o que lhes vêm na telha, o que não acontecia na época da ditadura insana que a torturou, como a mim, e que a tantos assassinou.

 
Vira e mexe, cheguei a uma conclusão provavelmente estapafúrdia: há toda uma motivação racista nesse ódio explicitado com prazer orgástico. Não o racismo sobre a cor da pele, mas um outro, muito mais abrangente e mais furioso, o ódio de classe e a obsessão pela intocabilidade da secular pirâmide social.

Entre aqueles interlocutores de acendrada rejeição a qualquer coisa que possa sugerir melhoria das condições sociais das camadas inferiores, alguns se jactavam de terem tido uma infância pobre (ou quase) e hoje estarem nas camadas superiores por esforço próprio. Ao mesmo tempo em que exibiam esse salto e se reconheciam exceções, não escondiam o desprezo pelos que dependem de qualquer socorro do Estado, como se ogoverno estivesse sacrificando suas noitadas com pesados impostos para matar a fome do lumpesinato que "não quer trabalhar".
A sensação mais viva que me ocorreu foi braba: de todos os escravagistas sociais o mais mesquinho  é o quase rico que já foi quase pobre.
Pelas diatribes daqueles personagens que faziam questão de exibir roupas de marcas caras, acabei viajando até o aeroporto e me lembrei de um desabafo um professora babaca  da PUC: isso aqui parece uma rodoviária.

Fui mais longe em minhas lembranças e deparei-me com o ódio midiático contra o Brizola por causa do seu projeto dos Centros Integrais de Educação Pública – os CIEPs, que, se não tivessem sido minados por gregos e troianos estariam levando às portas das  faculdades milhares de jovens pobres e bem preparados, em condições de acesso sem depender de cotas.

Como a Dilma brizolista de então, fiz parte daquele sonho, como secretário de Desenvolvimento Social da Prefeitura do Rio e pela proximidade com Brizola. Fiquei chocado ao saber que o todo poderoso Roberto Marinho, com quem o caudilho almoçara algumas vezes, só tinha uma exigência de momento: reduzir a duas ou três escolas a ideia do ensino integral. 
O dono da Rede Globo, refletindo o pensamento das elites, não queria nem ouvir falar da inflação de meninos de escolas públicas às portas das Universidades oficiais, que eram, como ainda são, santuários privativos da burguesia dominante.
Dilma tem o dom de misturar o sangue quente do caudilho, seu primeiro mestre com quem conviveu por 20 anos, ao jogo de cintura do Lula, que vinha de uma militância patrulhada pela ditadura e emergira graças à sua sagacidade e inegável inteligência.

Pode-se dizer que a direita empedernida não contava com sua vitória em 2010. Se não o anátema de ex-guerrilheira iria fazer o sangue das elites dominantes subir à cabeça. E não contava também com seu estilo firme de governar, sua coragem de enfrentar os fantasmas assassinos, que se consideram intocáveis por tratos pretéritos.

Por isso, essa campanha de 2014 salienta diferenças mais nítidas e leva a uma exposição mais ostensiva do racismo social.  Para desbancar Dilma, vale qualquer um, inclusive aquela que foi cria do PT e que só pulou fora pela vaidade ferida com a indicação da colega para o cargo que almejava, embora não tivesse o indispensável perfil de estadista.

O racismo social é mais odiento devido à determinação dos beneficiários dos programas – sejam do bolsa-família, do Prouni ou do Pronatec, sejam dos que tiveram uma valorização real do salário mínimo, de constituírem uma sólida base eleitoral de quem abriu caminhos em suas vidas.

As elites e os emergentes adjacentes fecham as caras ao se depararem nos aeroportos com mulatos e nordestinos que, ao contrário de Lula, já não precisam penduram-se nos paus-de-arara em estradas poeirentas na aventura pelo pão que lhes faltava na terra natal.

É essa síndrome racista que move os ricos e quase ricos contra a estrela vermelha estigmatizada mais pelas suas virtudes do que pelos seus deslizes.  


E que sonha desesperadamente com retorno da chibata social, em que cada um "tem de reconhecer o seu lugar". E só seus filhos possam almejar o canudo de papel de uma universidade paga com o meu, o seu e o suor desses mesmos excluídos, que as elites querem trabalhando de sol a sol para comer o pão que o diabo amassou.
http://blogdoitarcio.blogspot.com.br/2014/09/rancor-das-elites-contra-dilma-e-o-pt-e.html

domingo, 21 de setembro de 2014

Por que o ódio ao PT?


Mais uma vez surge, nesta eleição presidencial, como fator determinante da escolha de uma porção da sociedade

Por Mauricio Dias 

O ódio ao PT e aos petistas em geral é um eixo importante sobre o qual também gira a campanha presidencial de 2014.

Esse sentimento antigo, manifestado abertamente por adversários de influência forte no eleitorado de oposição, permanece em estado latente e se manifesta mais claramente nas “guerras” presidenciais. Em tempos de “paz” é cochichado pelos cantos do Congresso e, igualmente, em reuniões sociais onde não há preocupação em expor preconceitos.

Nesses salões mais elegantes, os petistas são tratados de corja.

Recentemente, o asco jorrou surpreendentemente da boca do senador Aécio Neves, um mineiro até então pacato com os adversários políticos. A competição acirrada fez o candidato a presidente pelos tucanos sair dos seus cuidados.

“Sei que não vou ganhar. Minha luta é contra o continuísmo dessa gente. É contra isso que vou lutar”, confidenciou a Jorge Bastos Moreno, de O Globo. Isso, ainda no início de campanha, revelou o jornalista.

Reação incomum a do mineiro Aécio Neves, neto de Tancredo.

A tradicional cordialidade na sociedade mineira, por exemplo, aproximou o tucano Aécio do petista Fernando Pimentel. Em 2008, firmaram a aliança, com resistências no PT, para eleger o prefeito de Belo Horizonte. Acordo repudiado pelos petistas mineiros.

Na política, excetuadas as exceções, os adversários não são tratados como inimigos. Sabem que amanhã será outro dia e poderão estar no mesmo palanque.

O ódio embutido na frase de Aécio Neves tem explicação e antecedentes. Alguns bem mais explosivos e de maior violência verbal.

Em 2006, o senador Jorge Bornhausen (PFL-DEM) lançou uma provocação violenta contra a reeleição de Lula: “Vamos acabar com essa raça. Vamos nos livrar dessa raça por, pelo menos, 30 anos”. Falhou na previsão, como se sabe. Essas são algumas das raízes que fazem o ódio aflorar no processo eleitoral deste ano de forma mais transparente. O sentimento espalhou-se por uma parte considerável do eleitorado. De alto a baixo.

Para derrotar Dilma, um grande contingente de eleitores tucanos trocou de camisa. Optou por Marina. Aécio em poucos dias foi desidratado. Ele chegou a ter 23% das intenções de voto. Mas empacou. Dilma aproximou-se muito da possibilidade de vencer no primeiro turno. Aproximadamente, 30% dos eleitores formavam o grupo dos indecisos ou mostravam a intenção de votar em branco ou nulo.

O imprevisto jogou Marina na disputa. Ela rapidamente superou Aécio, que caiu para 15% das intenções de voto. Voltou a subir a 19% segundo o Ibope.

Trocar Aécio por Marina não é, efetivamente, resultado político adequado pelos critérios políticos mais tradicionais. A troca de candidato, no entanto, é fruto do medo de uma nova vitória do PT, cujo compromisso social assusta parte da sociedade com dificuldade de conviver com pobres.

Essa porção de privilegiados assusta-se com um pouco mais de igualdade. Da fonte do medo também brota o ódio.
http://esquerdopata.blogspot.com.br/2014/09/por-que-o-odio-ao-pt.html

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Com ódio e com medo

Juca Kfouri
Sem ódio e sem medo foi o mote da campanha vitoriosa para o Senado do pernambucano Marcos Freire, pelo velho MDB, em 1974, em plena ditadura.

Havia, então, motivos de sobra para odiar e temer.

Hoje, quando não há, um perigoso clima de violência verbal toma conta do debate e qualquer coisa, seja um jantar com a presidenta ou a Copa do Mundo, viram motivos para destilar ódio.

O ano da desgraça de 1964 está suficientemente próximo para que as lições não sejam esquecidas e sempre é bom lembrar que muita gente boa foi no embalo da histeria que culminou no golpe midiático, civil e militar. Quando se constatou que João Goulart não iria comer as criancinhas brasileiras, e que os militares tinham apoio das oligarquias de sempre, já era tarde –e só restou protestar por mais de duas décadas.

"Jantou com a Dilma? Petralha sem vergonha, você nunca me enganou. Vendeu-se por uma boca livre", escreveu um cretino fundamental ao escriba, enquanto outro não menos dizia que "colunista tucano chama Dilma de pop". Ao menos não usou outro termo da moda, tucanalha...

Entre os neoesquerdistas e a velha direita criou-se um fosso que transformou a discussão política, e até a esportiva, em permanente Fla-Flu, como se estivéssemos na Venezuela, embora por aqui não tenha havido nem sequer uma tentativa de democracia direta, haja emprego e os protestos contra a Copa do Mundo tenham também o sentido de "quero mais", absolutamente compreensível e justificável.

É preciso ter clareza para identificar que se a violência da fome, ou da morte na fila de hospital, é ainda pior que a dos black blocs, a dos que propagam o ódio ou a justiça pelas próprias mãos também é –principalmente porque parte de pessoas tidas como letradas.

Esta coluna chamou a presidenta de pop porque gostou mais dela do que de seu governo e viu nela a intenção de fazer algo para tirar o futebol do atoleiro. Se fará ou não, veremos e cobraremos, como com FHC e Lula.

Fato é que o primeiro compromisso que assumiu já cumprirá na segunda-feira que vem, ao se encontrar com o Bom Senso F.C..

Mas a "pop", a avó, o bom humor dela aqui descritos, tiveram mais a ver com a preocupação em não demonizar quem está longe de ser a capeta e de tentar trazer para um campo mais ameno, civilizado, carinhoso até, um embate que deve terminar nas urnas e não em sangue.

Porque é de se estranhar que nem Sarney, nem mesmo Collor, tenham despertado tamanho ódio.

Terá sido porque Dilma é repudiada pela elite branca como diria o insuspeito Cláudio Lembo, ou será ele também um agente do petismo?

Será pela ascensão dos excluídos?

Ou será porque ela é mulher –e como Lennon cantou, a mulher é o negro do mundo?
sugado do: http://esquerdopata.blogspot.com.br/2014/05/com-odio-e-com-medo.html