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quinta-feira, 2 de março de 2017

ESCOLA INTEGRAL X EDUCAÇÃO INTEGRAL


A Educação Pública apresenta, atualmente, deficiências e é comprovada em todos os mecanismos que auferem sua qualidade. Em muito se fala que a resolução dos problemas, da falta de qualidade da Educação Pública, seria resolvida se implantando Educação Integral em todas as escolas e quando ouço essas falas e vejo as propagandas, apresentações de seminários, as orientações pedagógicas e os poucos projetos de implantação dessas tão decantadas Escolas de Educação integral, eu sempre me lembro que alguns anos atrás se fazia uma propaganda massiva, com os seguintes dizeres: toda criança na escola.



No período desta campanha de “toda criança na escola”, eu sempre me perguntava: fazendo o quê? E por que sempre fazia essa pergunta? Neste período, se encheu as sala de aulas de crianças e só. Os resultados dessa campanha de se colocar as crianças na escola não se resolveu o problema da qualidade de ensino e não acabou com o analfabetismo. As salas de aulas ficaram repletas de crianças, mas a qualidade do ensino será a mesma e agora agravada pelo fato de se colocar um número de crianças maior que devia em sala de aulas, ou seja, a escola virou um depósito de crianças retiradas das ruas.

Em alguns municípios, já estão implantando o que seria (ou será!) a tão propalada Escola de Educação Integral. Os alunos ficam o dia todo na escola, com direito ao almoço e tudo mais. Observando-se algumas unidades escolares em funcionamento se fazem necessários alguns questionamentos:

Como é a estrutura dessas escolas onde os alunos ficam o dia todo (tempo integral)?

Se a estrutura administrativa, organizacional e física dessas escolas continuam as mesmas das chamadas escolas tradicional, os mesmos problemas existentes anteriormente irão permanecer!

A quantidade de alunos, por sala de aula, continua a mesma das escolas dita de ensino regular?

Se a quantidade de alunos por turmas forem as mesmas, os professores terão as mesmas dificuldades para controlar os alunos pelo excesso de quantidade. As poucas escolas que já implantaram esse novo modelo, certamente irão continuar com o mesmo número de alunos por turma. Tanto é que as unidades existentes são escolas que apenas foram adaptadas para esse novo modelo e visivelmente se percebe que não foram ampliados o número de salas de aulas.

Os professores tiveram capacitação e foram atualizados?


Se os professores continuarem desatualizados irão continuar lecionando com conteúdos e com as mesmas práticas anteriores. As poucas capacitações existentes são as mesmas que foram programadas para as escolas tradicionais e continuaram a serem aplicados para os atuais professores lotados nessas escolas com o novo regime.

Como foram preenchidos os horários extras que os alunos permanecem nestas escolas?

Se os horários extras para tornar as escolas com turno integral (manhã e tarde) forem preenchidos somente com atividades recreativas, os alunos apenas deixaram de se divertir em casa e na rua e passarão a se divertir nas escolas.
O mais interessante, é que se percebe que não terão atividades para uma Educação Intergral, olhando os mesmos itens da resposta anterior. Se não construíram mais salas de aulas, onde serão as novas atividades de cultura e lazer no novo modelo nestas novas escolas? Para se diminuir o número de alunos por turma e se colocar novas atividades, se faz necessárias contratações de mais professores e ampliação dos espaços, já existentes, nas escolas.

Essas escolas terão os equipamentos necessários (inclusive os da área de comunicação) ?

Os chamados “Laboratórios de Informática” foram implantados com os mesmos procedimentos dos laboratórios implantados anteriormente. Geralmente ficam obsoletos, são utilizados aleatoriamente (geralmente falta capacitação para o uso) e muitos ficam inutilizados por falta de manutenção. Esses laboratórios são mantidos, usados e organizados da mesma maneira das chamadas escolas tradicionais. As aulas nesses laboratórios tem de seguir um agendamento, devido a quantidade de computadores, serem desproporcionais a necessidade de uso por parte de alunos e professores.

Da maneira que estão implantando essas escolas, com a chamada Educação Integral, estão apenas criando meios para manter os alunos o dia inteiro nas escolas, da mesma maneira que anteriormente se fazia a propaganda de toda criança na escola. É como se o único interesse é retirar as crianças e adolescentes da rua e manterem ocupadas dentro dos muros destas escolas. O que está ocorrendo é que a implantação de Escola de Educação Integral, o termo que melhor utilizado seria “Escola de Tempo Integral”, são semelhantes ao divulgado no Projeto “Toda Criança na Escola”, e os resultados, provavelmente, serão iguais aos que se exigia na propaganda do MEC (Ministério da Educação e Cultura), com a diferença de que o tempo, que as crianças e adolescentes irão permanecer na escola, será mais bem mais elástico.

Não é necessário ser nenhum gênio para se perceber que essas novas unidades escolares, que estão sendo implantadas, não irá funcionar como Escola de Educação Integral e sim Escola em Tempo Integral. Para se colocar educação integral, visando a qualidade de ensino, se faz necessário ampliação das atuais escolas (salas de aulas e áreas para lazer e esporte) e também do quadro de pessoal (professores e pessoal administrativo). Somente no item redução de alunos por turmas, o número das salas de aulas teria de ser ampliadas praticamente em dobro e ainda teria de se criar novas salas (além das quadras esportivas) para colocação das novas atividades culturais e de lazer. Um bom exemplo seria as aulas, de músicas, que exigirão novas salas e novos professores para esta disciplina.
Antônio Carlos Vieira (SEED-SE)
Licenciatura Plena - Geografia

Texto original: DEBATENDO A EDUCAÇÃO
via: http://www.carlosgeografia.com.br/2017/02/escola-integral-x-educacao-integral.html

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Qual a prioridade? O banqueiro bilionário ou a criança faminta?

Por que existem alguns poucos bilionários no Brasil enquanto muitas outras pessoas passam fome?


Esses bilionários trabalham mais que os demais? Ou são mais inteligentes? Eles merecem suas fortunas? É uma questão de sorte?

Por que existem pessoas que trabalham muito durante toda a sua vida, vários são até considerados bem inteligentes, e mesmo assim não chegam nem perto de se tornarem milionários?

Por que algumas dessas pessoas, mesmo trabalhando muito e sendo capacitadas, vivem em condições precárias de vida?

Por que mendigos morrem de frio em frente a prédios com dezenas de apartamentos desocupados?

Essas perguntas, a princípio, possuem respostas bastante complexas, certo?

Pois é, mas há alguns dias eu estava folheando a revista do CREA/RS, edição de maio/junho de 2016, e me deparei com o seguinte gráfico representativo dos gastos do orçamento público brasileiro:




Só olhando para ele salta aos olhos a maior parte de todas as respostas para as perguntas que fiz acima. É tão flagrante que chega a ser constrangedor.  

Suponha que você fosse eleito para administrar o orçamento público e recebesse a informação que estava faltando dinheiro para os serviços básicos. Suponha ainda que você não tenha nenhuma noção de administração e finanças, e te mostrassem esse gráfico acima. Por onde devemos começar a mexer para ajustar o orçamento? Qual item é o mais crítico?

Uma criança seria capaz de responder facilmente a pergunta, é tão lógico que chega a ser infantil. Mas então por que só ouvimos os nossos governantes e nossos jornais citarem o “rombo” da previdência, o gasto com saúde, educação, programas sociais e quase nunca ouvimos falar em auditoria e renegociação da dívida pública?

Em resumo, praticamente metade de todo o nosso orçamento está indo para as mãos de banqueiros e especuladores financeiros, limpo, “legalmente”, enquanto crianças não têm acesso à educação básica e enquanto cidadãos que trabalharam a vida inteira estão morrendo nas filas de hospitais públicos sem atendimento. Esse tipo de gráfico explica em grande parte porque 0,9% dos brasileiros detêm 60% da riqueza do país. Veja bem: 46% para a tal dívida, enquanto a menos de 4% vai para a saúde e educação e pouco mais de 20% vai para custear a tão “badalada” Previdência Social.

Embora houve várias políticas inclusivas nos últimos anos e houve uma ascensão na renda das classes mais baixas da pirâmide social, nem o Presidente FHC, nem o Presidente Lula e nem a Presidenta Dilma tomaram qualquer atitude ou protagonizaram qualquer política para mexer nos privilégios dos poucos e riquíssimos brasileiros que se beneficiam da dívida pública para enriquecer sem produzir um único pirulito sequer. Nenhum deles jamais pensou em auditar essa grotesca e injusta dívida ou em taxar grandes fortunas. O fato de todos eles terem tido suas campanhas financiadas por grandes bancos e agentes financeiros deve ser pura coincidência.

Com o Sr. Michel Temer e sua “ponte para o futuro” obviamente não preciso nem dizer que não há possibilidade nenhuma de avanço nesse sentido. Os primeiros discursos de seus ministros apontam como ações para resolver o problema do orçamento público a Reforma da Previdência (fazendo novamente o trabalhador assalariado pagar a conta, se possível trabalhando e “contribuindo” até o dia de sua morte) ou então a genial “desvinculação de gastos públicos”, que retira a obrigatoriedade de reservar uma parte do orçamento para um determinado fim, como saúde e educação. Na prática, acabará diminuindo ainda mais os recursos para essas áreas, sucateando ainda mais a saúde e educação públicas, como ilustra bem a reportagem da BBC no link a seguir:http://www.bbc.com/portuguese/brasil/2016/05/160517_desvinculacao_saude_ab.

O fato das grandes empresas de planos de saúde serem também grandes financiadores de campanhas, inclusive os maiores financiadores das últimas campanhas do novo Ministro da Saúde Ricardo Barros, também deve ser pura coincidência.

Mas e nossa imprensa, por que continuam dizendo que a Previdência Social é o grande vilão do orçamento? (Veja você mesmo como o site da Rede Globo trata a questão do que chamam de “rombo” da Previdência: http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/05/sem-mudar-fator-previdenciario-deficit-do-inss-ja-iria-r-7-tri-em-2060.html .

Por que as poucas família que controlam toda a nossa mídia (jornais, TVs, rádios e revistas) querem que os assalariados trabalhem até a morte e não discutem com clareza assuntos importantes como auditoria ou renegociação da dívida, ou ainda taxação de grandes fortunas? Por que os especuladores financeiros e donos de bancos continuam comprando seus helicópteros, lanchas e carros de luxo às custas do sangue da grande maioria da população e não há um Globo Repórter especial para denunciar esse escândalo?

Não vou responder a pergunta. Vou apenas citar alguns fatos abaixo e deixar que cada um chegue às próprias conclusões:

- Segundo a Revista Forbes, conforme publicação de 2014, a família Marinho, dona da Rede Globo, é a família mais rica do Brasil, com uma fortuna estimada em quase 30 bilhões de dólares:http://www.valor.com.br/empresas/3547766/familia-marinho-e-mais-rica-do-brasil-diz-forbes .

- Segundo reportagem da Revista Carta Capital, em 2015, mesmo com a crise financeira, o Grupo Globo aumentou seu lucro líquido, saltando para mais de 3 bilhões de reais, e grande parte desse lucro foi conseguido com o “mercado financeiro”, especialmente com a vulnerabilidade do câmbio e com a subida da taxa básica de juros. A reportagem é excelente e recomendo que tirem um tempo para leitura: http://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/em-meio-a-crise-economica-globo-tem-lucro-liquido-superior-a-r-3-bi .

- A TV Globo vendeu mais de 3 bilhões de reis em cotas comerciais para 2006. Entre os seus principais parceiros estão os Bancos Itaú, Santander e Bradesco:http://propmark.com.br/midia/globo-vende-mais-de-r-3-bilhoes-de-cotas-comerciais-para-2016 .

Enfim, como disse antes, são só fatos. Cada um pode ligá-los como achar mais adequado.

Mas vou terminar o texto exatamente como comecei, com algumas perguntas para reflexão:


Será que a regulação da mídia e o controle de propriedade dos meios de comunicação, evitando o monopólio e a acumulação de meios por uma mesma família, como existe em quase todos os países desenvolvidos do mundo, pode ser considerado censura ou ataque à liberdade de imprensa?

Será que uma mídia mais diversificada e plural, com espaços para organizações públicas e não governamentais, não seria muito bom para o desenvolvimento da nossa sociedade e para uma participação mais ampla da mesma em temas polêmicos e importantes?

Será que são os políticos os únicos culpados pela pobreza, miséria, fome e violência existentes na sociedade brasileira?

Até onde pode chegar a ganância e o egoísmo em um ser humano?

“Quanto vale a vida”?

Até quando usarão a tal “meritocracia” para explicar o inexplicável e para justificar injustiças flagrantes?

A quem interessa que sejamos tão divididos?
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Vi no: http://francamente1909.blogspot.com.br/2016/06/qual-prioridade-o-banqueiro-bilionario.html




segunda-feira, 15 de abril de 2013

Razões para NÃO reduzir a maioridade penal



Sempre que acontece um crime bárbaro cometido por um adolescente a sociedade levanta a voz para pedir a redução da maioridade penal. Quais seriam os reflexos dessa medida?
Sempre que acontece um crime bárbaro cometido por um adolescente a sociedade levanta a voz para pedir a redução da maioridade penal. Quais seriam os reflexos dessa medida?
Na última semana uma tragédia abalou todos os funcionários e alunos da Faculdade Cásper Líbero, onde estou terminando o curso de jornalismo. O aluno de Rádio e TV Victor Hugo Deppman, de 19 anos, foi morto por um assaltante na frente do prédio onde morava, na noite da terça-feira (9). O crime chocou não só pela banalização da vida – Victor Hugo entregou o celular ao criminoso e não reagiu –, mas também pela constatação de que a tragédia poderia ter acontecido com qualquer outro estudante da faculdade.
Esse novo capítulo da violência diária em São Paulo ganhou atenção especial da mídia por um detalhe: o criminoso estava a três dias de completar 18 anos. Ou seja, cometeu o latrocínio (roubo seguido de morte) enquanto adolescente e foi encaminhado à Fundação Casa.
Óbvio que a primeira reação é de indignação; acho válida toda a revolta da população, em especial da família do garoto, mas não podemos deixar que a emoção nos leve a atitudes irresponsáveis. Sempre que um adolescente se envolve em um crime bárbaro, boa parte da população levanta a voz para exigir a redução da maioridade penal. Alguns vão adiante e chegam a questionar se não seria hora do Estado se igualar ao criminoso e implantar a pena de morte no país. Foi o que fez de forma inconsequente o filósofo Renato Janine Ribeiro, em artigo na Folha de S. Paulo, por ocasião do assassinato brutal do menino João Hélio em 2007.
Além de obviamente não termos mais espaço para a Lei de Talião no século XXI, legislar com base na emoçãonada mais atende do que a um sentimento de vingança. Não resolve (nem ameniza) o problema da violência urbana.
O que chama a atenção é maneira como a grande mídia cobre essas tragédias. A maioria das matérias que vemos nos veículos tradicionais só reforçam uma característica do Brasil que eles mesmo criticam: somos o país do imediatismo. A cada crime brutal cometido por um adolescente, discutimos os efeitos da violência, mas não as suas causas. Discutimos como reprimir, não como prevenir. É uma tática populista que desvia o foco das reais causas do problema.
Abaixo exponho a lista de motivos pelos quais sou contra a redução da maioridade penal:

As leis não podem se basear na exceção

A maneira como a grande mídia cobre estes crimes bárbaros cometidos por adolescentes nos dá a (falsa) impressão de que eles estão entre os mais frequentes. É justamente o inverso. O relatório de 2007 da Unicef“Porque dizer não à redução da idade penal” mostra que crimes de homicídio são exceção:
“Dos crimes praticados por adolescentes, utilizando informações de um levantamento realizado pelo ILANUD [Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinquente] na capital de São Paulo durante os anos de 2000 a 2001, com 2100 adolescentes acusados da autoria de atos infracionais, observa-se que a maioria se caracteriza como crimes contra o patrimônio. Furtos, roubos e porte de arma totalizam 58,7% das acusações. Já o homicídio não chegou a representar nem 2% dos atos imputados aos adolescentes, o equivalente a 1,4 % dos casos conforme demonstra o gráfico abaixo.”
tipos-de-crimes
E para exibir dados atualizados, dentre os 9.016 internos da Fundação Casa, neste momento apenas 83 infratores cumprem medidas socioeducativas por terem cometido latrocínio (caso que reacendeu o debate sobre a maioridade penal na última semana). Ou seja, menos que 1%.

Redução da maioridade penal não diminui a violência. O debate está focado nos efeitos, não nas causas da violência

Como já foi dito, a primeira reação de alguns setores da sociedade sempre que um adolescente comete um crime grave é gritar pela redução da maioridade penal. Ou quase isso: dificilmente vemos a mesma reação quando a vítima mora na periferia (nesses casos, a notícia vira apenas uma notinha nas páginas policiais). Mas vamos evitar leituras ideológicas do problema.
A redução da maioridade penal não resolve nem ameniza o problema da violência. “Toda a teoria científica está a demonstrar que ela [a redução] não representa benefícios em termos de segurança para a população”,afirmou em fevereiro Marcos Vinícius Furtado, presidente da OAB. A discussão em torno na maioridade penal só desvia o foco das verdadeiras causas da violência.
Instituto Não Violência é bem enfático quanto a isso: “As pesquisas realizadas nas áreas social e educacional apontam que no Brasil a violência está profundamente ligada a questões como: desigualdade social (diferente de pobreza!), exclusão socialimpunidade (as leis existentes não são cumpridas, independentemente de serem “leves” ou “pesadas”), falhas na educação familiar e/ou escolarprincipalmente no que diz respeito à chamada educação em valores ou comportamento ético, e, finalmente, certos processos culturais exacerbados em nossa sociedade como individualismo, consumismo e cultura do prazer.
No site da Fundação Casa temos acesso a uma pesquisa que revela o perfil dos internos (2006):
maioridade_penal_fundacao_casa
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Em linhas gerais, o adolescente infrator é de baixa renda, tem muitos irmãos e os pais dificilmente conseguem sustentar e dar a educação ideal a todos (longe disso). Isso sem contar quando o jovem é abandonado pelos pais, quando um deles ou ambos faleceram, quando a criança nem chega a conhecer o pai, entre outras complicações.
Claro que é bom evitar uma posição determinista, a pobreza e a carência afetiva por si só não produzem criminosos. Mas a falta de estrutura familiar, de educação, a exposição maior à violência nas periferias e a falta de políticas públicas para esses jovens os tornam muito mais suscetíveis a cometer pequenos crimes.
Especialistas afirmam que os adolescentes começam com delitos leves, como furtos, e depois vão subindo “degraus” na escada do crime. De acordo com Ariel de Castro Alves, ex secretário-geral do Conselho Estadual da Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), muitos dos adolescentes que chegam ao latrocínio têm dívidas com traficantes e estão ameaçados de morte, e isso os estimula a roubar.
Vale aqui lembrar a falência da Fundação Casa, que em vez de recuperar os jovens, acaba incentivando os internos a subir esses degraus do crime. Para entender melhor sua realidade, recomendo a leitura da matéria“De Febem a Fundação Casa” da Revista Fórum. Nela temos o relato do pedagogo Carlos (nome fictício), que sofreu ameaças frequentes por contestar os atos abusivos da direção: “A Fundação Casa nasceu para dar errado. Eles saem de lá com mais ódio, achando que as pessoas são todas ruins e que não há como mudar isso. São desrespeitados como seres humanos, são tratados como lixo. E isso faz com que eles pensem que não podem mudar.”
Atuante na Fundação há onze anos, Carlos conta que os atos de violência contra os adolescentes são cotidianos e descarados, apoiados inclusive pelo diretor, que também “bate na cara dos meninos”. Essa bola de neve de violência só poderia resultar em crimes cada vez mais graves cometidos pelos garotos.

A redução da maioridade penal tornaria mais caótico o já falido sistema carcerário brasileiro e aumentaria o número de reincidentes

Prisão superlotada em São Paulo
Prisão superlotada em São Paulo
Dados objetivos: Temos no Brasil mais de 527 mil presos e um déficit de pelo menos 181 mil vagas. Não precisamos nos aprofundar sobre a superlotação e as condições desumanas das cadeias brasileiras, é óbvio que um sistema desses é incapaz de recuperar alguém.
A inclusão de adolescentes infratores nesse sistema não só tornaria mais caótico o sistema carcerário como tende a aumentar o número de reincidentes. Para o advogado Walter  Cenevivacolunista da Folha, a medida pode tornar os jovens criminosos ainda mais perigosos: “Colocar menores infracionais na prisão será uma forma de aumentar o número de criminosos reincidentes, com prejuízo para a sociedade. A redução da maioridade penal é um erro.”
A Unicef também destaca os problemas que os EUA enfrentam por colocar adolescentes e adultos nos mesmos presídios. “Conforme publicado este ano [2007] no Jornal New York Times, a experiência de aplicação das penas previstas para adultos para adolescentes nos Estados Unidos foi mal sucedida resultando em agravamento da violência. Foi demonstrado que os adolescentes que cumpriram penas em penitenciárias, voltaram a delinqüir e de forma ainda mais violenta, inclusive se comparados com aqueles que foram submetidos à Justiça Especial da Infância e Juventude.”
O texto em questão foi publicado no New York Times em 11 de maio de 2007 e está disponível na íntegra na página 34 deste PDF da Unicef.

Ao contrário do que é veiculado, reduzir a maioridade penal não é a tendência do movimento internacional

Tenho visto muitos textos afirmando que o Brasil é um dos raros países que estipulou a maioridade penal em 18 anos. Tulio Kahn, doutor em ciência política pela USP, contesta esses dados. “O argumento da universalidade da punição legal aos menores de 18 anos, além de precário como justificativa, é empiricamente falso. Dados da ONU, que realiza a cada quatro anos a pesquisa Crime Trends(Tendências do Crime), revelam que são minoria os países que definem o adulto como pessoa menor de 18 anos e que a maior parte destes é composta por países que não asseguram os direitos básicos da cidadania aos seus jovens.”
Ainda segundo a Unicef “de 53 países, sem contar o Brasil, temos que 42 deles (79%) adotam a maioridade penal aos 18 anos ou mais. Esta fixação majoritária decorre das recomendações internacionais que sugerem a existência de um sistema de justiça especializado para julgar, processar e responsabilizar autores de delitos abaixo dos 18 anos. Em outras palavras, no mundo todo a tendência é a implantação de legislações e justiças especializadas para os menores de 18 anos, como é o caso brasileiro.”
O que pode estar acontecendo na grande mídia é uma confusão conceitual pelo fato de muitos países usarem a expressão penal para tratar da responsabilidade especial que incide sobre os adolescentes até os 18 anos. “Países como Alemanha, Espanha e França possuem idades de inicio da responsabilidade penal juvenil aos 14, 12 e 13 anos. No caso brasileiro tem inicio a mesma responsabilidade aos 12 anos de idade. A diferença é que no Direito Brasileiro, nem a Constituição Federal nem o ECA mencionam a expressão penal para designar a responsabilidade que se atribui aos adolescentes a partir dos 12 anos de idade”.
Confiram aqui a tabela comparativa entre diferentes países ao redor do mundo. Alguns países vêm seguido o caminho contrário do que a grande mídia divulga e aumentado a maioridade penal. “A Alemanha restabeleceu a maioridade para 18 anos e o Japão aumentou para 20 anos. A tendência é combater com medidas socioeducativas. Estudos apontam que os crimes praticados por crianças e adolescentes, no Brasil, não passariam de 15%. Há uma falsa impressão de que esses jovens ficam impunes, o que não é verdade, pois eles respondem ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)”, argumenta Márcio Widal, secretário da Comissão dos Advogados Criminalistas da OAB.
Também não vejo os grandes jornais divulgarem que muitos estados americanos estão aumentando a maioridade penal.
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Há ainda diversos argumentos contra a redução da maioridade penal, mas o texto já se estendeu muito e vamos focar em mais dois. A medida é inconstitucional; a questão da maioridade faz parte das cláusulas pétreas da Constituição de 1988, que não podem ser modificadas pelo Congresso Nacional (saiba mais sobre as cláusulas pétreas da CF aqui). Seria necessária uma nova Assembleia Constituinte para alterar a questão.
“São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial” (Artigo 228 da Constituição Federal). Ou seja, todas as pessoas abaixo dos 18 anos devem ser julgadas, processadas e responsabilizadas com base em uma legislação especial, diferenciada dos adultos.
Há ainda o clássico argumento de que o crime organizado utiliza os menores de idade para “puxar o gatilho” e pegar penas reduzidas. Se aprovada a redução da maioridade penal, os jovens seriam recrutados cada vez mais cedo. Se baixarmos para 16 anos, quem vai disparar a arma é o jovem de 15. Se baixarmos para 14, quem vai matar será o garoto de 13. Estaríamos produzindo assassinos cada vez mais jovens. Além disso, “o que inibe o criminoso não é o tamanho da pena e sim a certeza de punição”, diz o advogado Ariel de Castro Neves.  “No Brasil existe a certeza de impunidade já que apenas 8% dos homicídios são esclarecidos. Precisamos de reestruturação das polícias brasileiras e melhoria na atuação e estruturação do Judiciário.”
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Concluindo…

Reforçando, tudo o que foi discutido até aqui foi para mostrar o problema de tratar essa questão com imediatismo, impulsividade. Os debates estão sendo feitos quase sempre em cima dos efeitos da violência, não de suas causas, desviando o foco das reais origens do problema.
Que tal nos mobilizarmos para cobrar uma profunda reforma na Fundação Casa, de forma que ela cumpra minimamente seus objetivos? Ou para cobrar outra profunda reforma no sistema carcerário brasileiro, que possui 40% de presos provisórios? Será que todos deviam estar lá mesmo?
E melhor ainda: que tal nos mobilizarmos para que o Governo invista pesado na prevenção da criminalidade, como escolas de tempo integral, atividades de lazer e cultura? Estudos mostram que quanto mais as crianças são inseridas nessas políticas públicas, menores as chances de serem recrutadas pelo mundo das drogas e pelo crime organizado.
“Quando o Estado exclui, o crime inclui”, afirma Castro Alves. “Se o jovem procura trabalho no comércio e não consegue, vaga na escola ou num curso profissionalizante e não consegue, na boca de fumo ele vai ser incluído.”
Na teoria o ECA é uma ótima ferramenta para prevenir a criminalidade. Mas há um abismo entre a teoria e a prática do ECA: a falta de políticas públicas para a juventude, a falta de estrutura e os abusos na Fundação Casa acabam produzindo o efeito contrário do desejado. Mesmo assim, a reincidência no sistema de internação dos adolescentes é de aproximadamente 30%. No sistema prisional comum é de 60%, segundo o Ministério da Justiça.
No fim das contas, suspeito que boa parte da sociedade não quer recuperar os jovens infratores. Muitos gostariam mesmo é de fazer justiça com as próprias mãos ou que o Estado aplicasse a pena de morte, como sugeriu o filósofo Janine Ribeiro no calor da emoção. Mas já que isso não é possível, então “que apodreça na cadeia junto com os adultos”.
Por causa de fatos isolados, como a tragédia do menino João Hélio e do estudante Victor Hugo, cobram do governo a redução da maioridade penal, uma atitude impulsiva e irresponsável que iria piorar ainda mais a questão da violência no Brasil. A questão é tentar reduzir a violência ou atender a um desejo coletivo de vingança?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Como funciona a mídia

O excesso de informação não permite reflexão

Um homem passeava tranquilamente no Central Park em Nova York quando, de repente, vê um cachorro raivoso prestes a atacar menina indefesa de sete anos de idade. Os curiosos olham, de longe, mas, atemorizados, nada fazem para defender a criança.

O homem não pensou duas vezes e lançou-se sobre o pescoço do cachorro , tomando-lhe a garganta e após muita luta, matou o raivoso animal e salvou a vida da menina. 

Um policial que acompanhou tudo, maravilhado, aproximou-se e disse:
– O Senhor é um herói. Amanhã todos poderão ler na primeira página dos jornais a seguinte manchete:
“Um valente nova-iorquino salva a vida de uma menina”.

O homem respondeu:
– Obrigado pelo elogio, mas eu não sou de Nova York.
– Bom, disse o policial, então a manchete será:
“Um valente americano salva a vida de uma menina”.

– Mas é que eu tampouco sou americano, insiste o homem.
– Bom, isso é o de menos. E de onde o senhor é então?
-Sou palestino, respondeu o valente homem.
No dia seguinte, os jornais publicam a notícia com a seguinte manchete:

“Terrorista árabe massacra de maneira impiedosa um cachorro americano de raça diante de uma menina de sete anos que chorava aterrorizada”.

Georges Bourdoukan, em seu blog

terça-feira, 12 de abril de 2011

Criança, entre livros e TV


Frei Betto, Adital

“Foi o psicanalista José Ângelo Gaiarsa, um dos mestres de meu irmão Léo, também terapeuta, que me despertou para as obras de Glenn e Janet Doman, do Instituto de Desenvolvimento Humano de Filadélfia. O casal é especialista no aprimoramento do cérebro humano.

Os bichos homem e mulher nascem com cérebros incompletos. Graças ao aleitamento, em três meses as proteínas dão acabamento a este órgão que controla os nossos mínimos movimentos e faz o nosso organismo secretar substâncias químicas que asseguram o nosso bem-estar. Ele é a base de nossa mente e dele emana a nossa consciência. Todo o nosso conhecimento, consciente e inconsciente, fica arquivado no cérebro.

Ao nascer, nossa malha cerebral é tecida por cerca de 100 bilhões de neurônios. Aos seis anos, metade desses neurônios desaparecem como folhas que, no outono, se desprendem dos galhos. Por isso, a fase entre zero e 6 anos é chamada de "idade do gênio”. Não há exagero na expressão, basta constatar que 90% de tudo que sabemos de importante à nossa condição humana foram aprendidos até os 6 anos: andar, falar, discernir relações de parentesco, distância e proporção; intuir situações de conforto ou risco, distinguir sabores etc.

Ninguém precisa insistir para que seu bebê se torne um novo  Mozart que, aos 5 anos, já compunha. Mas é bom saber que a inteligência de uma pessoa pode ser ampliada desde a vida intrauterina. Alimentos que a mãe ingere ou rejeita na fase da gestação tendem a influir, mais tarde, na preferência nutricional do filho. O mais importante, contudo, é suscitar as sinapses cerebrais. E um excelente recurso chama-se leitura.

Ler para o bebê acelera seu desenvolvimento cognitivo, ainda que se tenha a sensação de perda de tempo. Mas é importante fazê-lo interagindo com a criança: deixar que manipule o livro, desenhe e colora as figuras, complete a história e responda a indagações. Uma criança familiarizada desde cedo com livros terá, sem dúvida, linguagem mais enriquecida, mais facilidade de alfabetização e melhor desempenho escolar.”
Matéria Completa, ::Aqui::

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Por que a paz é difícil?

Israel continua fazendo da morte um espetáculo.
Que o digam as crianças palestinas, que nem em seu dia conseguiram escapar.
Enquanto as forças armadas de Israel matam crianças palestinas, o governo daquele Estado apregoa mundo afora, e com a cumplicidade da mídia, que quer a paz.
Fala em paz mas continua ocupando terras palestinas.
Matar crianças palestinas e ocupar terras deve ser o resultado do tal de “efeito colateral”.
Em comemoração ao Dia da Criança palestina, as ONGs Save the Children e a YMCA apelaram ao governo de Israel para por para um fim à violência e a violação dos direitos da criança.
As ONGs denunciam que a cada ano cerca de 700 crianças palestinas da Cisjordânia são julgadas em tribunais militares israelitas.
A média de idade dessas crianças gira em torno dos 15 anos.
Há cerca de 800.000 crianças em Gaza, a maioria delas nunca puderam sair dali.
O Muro da Vergonha que divide Cisjordânia e Jerusalém, nega a milhares de crianças palestinas o direito de ir à cidade, à sua terra e ao acesso aos serviços essenciais.
Uma pergunta se faz necessária: como explicar o fato de os governantes de Israel terem assinado acordos de paz com a Alemanha, em menos de 5 anos depois da guerra e recusam-se a assinar qualquer acordo de paz com os palestinos em mais de 60 anos de ocupação?
By: Blog do Bourdoukan, via Com textolivre

sábado, 20 de novembro de 2010

domingo, 1 de agosto de 2010

Da palmada à tortura e a outros tipos de violência



Não casualmente, o atual projeto de lei do Executivo que penaliza pais que batem em seus filhos gerou amplas controvérsias. As reações vieram de toda parte, principalmente das famílias conservadoras de todo gênero e classe social que acreditam, ainda, na lógica da violência como estratégia de educar seus rebentos. A maioria destas vêm usando de mil e um subterfúgios para legitimar a velha prática brasileira de maltratar seus filhos em nome da ‘boa educação’.