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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Toda corrupção - dos outros - será castigada


Que o brasileiro é corrupto não é  novidade.

A corrupção, em todos os níveis, em todos os setores, em todas as formas, faz parte do cotidiano do país.

O brasileiro não vive sem a corrupção. 

Ela alivia os seus males, facilita a sua vida, torna-o mais bem humorado.

Constatado esse fato notório, até mesmo, recentemente, em pesquisa do Instituto Data Popular, há outro que fixa o caráter do brasileiro: a hipocrisia.

A corrupção intrínseca do brasileiro se completa com essa atitude típica do ser humano de demonstrar uma virtude que não tem.

Não por coincidência, a pesquisa do Data Popular mostrou que a corrupção é sempre dos outros, embora o pesquisado confesse que já saiu da linha umas tantas vezes.

Mas, ah, para ele, nada do que faz de errado se configura como corrupção...

Qualquer um que acompanhe minimamente o noticiário dos jornalões, revistões e programões de rádio e televisão, sabe que o Brasil vive hoje um momento especialíssimo, no qual se enfatiza o combate a essa desgraça que é a corrupção.


Esse trabalho é levado a cabo por uma força-tarefa composta por um juiz de primeira instância, promotores do Ministério Público, policiais e delegados da Polícia Federal, que resultou, entre outros frutos, num festival de "delações premiadas", prisões de executivos, empresários e dirigentes partidários - esses últimos, estranhamente, apenas de agremiações da base de sustentação do governo federal.

Também, numa queda estimada de 2 pontos porcentuais no Produto Interno Bruto, o PIB, que mede a riqueza da nação, no ano passado, ceifando milhares de empregos da cadeias petroquímica e da construção civil - novamente, de maneira estranha, os paladinos do combate à corrupção preferem punir as empresas em vez de punir aqueles que, nelas, foram os responsáveis pelos crimes. 

Vá entender...

Pois bem, com a cumplicidade dos jornalões, revistões e programões de rádio e televisão, que também denotam um imenso interesse em eliminar a corrupção dos outros, esses paladinos da moral e dos bons costumes praticamente se apropriaram daquilo que muitos chamam de Justiça - um termo impreciso, convenhamos, quando se refere ao que é praticado costumeira e secularmente no Brasil.

A corrupção passou, então, a ser assunto exclusivo desses homens de bem. 

Eles, praticamente, se tomaram conta de tudo o que abrange hipotéticos ou suspeitos atos ilícitos, mas com uma peculiaridade que os transformou em seres absolutamente únicos neste universo de iniquidades em que vivemos - esses cruzados hodiernos têm a incrível capacidade de distinguir, a priori, sem outros filtros que não seus dons extraordinários, quem é ou não corrupto.

E os corruptos são sempre os outros, nunca eles, nunca os do seu lado - sim, porque eles têm um lado, ideológico, político, partidário, classista e social.

E fica por isso mesmo, já que o Brasil está entregue à impotência de lideranças frouxas, esmaecidas, acomodadas a uma condição falsamente segura, já que, numa democracia débil ninguém está protegido de desmandos corporativos ou mesmo institucionais.

Os homens de bem com seus ternos de Miami, suas camisas negras, sua fala mansa, sua falsa fúria moralista, sua ignorância dos mais comezinhos procedimentos éticos ou jurídicos, sua violação aos mais banais códigos civilizatórios, e seu acumpliciamento com o que de mais retrógrado existe na sociedade, é bom dizer, se equivalem a qualquer brasileiro normal, esse que sonega o Imposto de Renda, suborna o policial rodoviário, paga "proteção" a PMs, estaciona em vagas de deficientes, fura filas e semáforos, ultrapassa carros pelo acostamento das estradas, comete, enfim, essas "pequenas" infrações do dia a dia.

A única diferença é que o grau de hipocrisia desses nossos caça-corruptos supera em muito o nível habitual e tolerável de hipocrisia do brasileiro.
no: http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2016/02/toda-corrupcao-dos-outros-sera-castigada.html

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A vocação do brasileiro para ser Terceiro-Mundo


Vamos esquecer por alguns instantes a degradante desigualdade social que envergonha o Brasil perante as outras nações e é um dos fatores determinantes para impedir o país de chegar ao Primeiro Mundo.

Vamos ficar apenas nas atitudes corriqueiras do povo, ações aparentemente sem consequências, que mostram o quanto somos subdesenvolvidos, por mais que muitos tenham frequentado escolas caras, viajado ao exterior - até Miami e a Disney entram nessa conta -, mantido contato com culturas diferentes, façam questão de se manter informados e coisa e tal.

É só dar uma voltinha pela cidade - qualquer cidade -, de carro, de ônibus, de metrô, ou a pé, para ver o quanto o brasileiro médio é deseducado, egoísta, incapaz de expressar as mais elementares noções de civilidade ou de cidadania. 


Poucos motoristas, por exemplo, respeitam as faixas de pedestres, os semáforos vermelhos, as vagas para idosos e deficientes.

Poucos se importam em trafegar na velocidade permitida ou em respeitar as mais comezinhas regras do trânsito.

O chão das praças e dos parques estão invariavelmente cheios de porcarias que as pessoas nele jogam.

Os banheiros públicos são como pocilgas.

O jovem que dá seu lugar, no transporte coletivo, a algum idoso, é uma exceção - raríssima.

No âmbito das relações pessoas, quantos amigos, colegas de trabalho ou parentes não se orgulham de fraudar o Imposto de Renda?

E quantos comerciantes fazem de conta que a nota fiscal não existe?

A internet, com as redes sociais, tem se mostrado eficiente instrumento para medir o grau de incivilidade do brasileiro médio.

Os comentários postados abusam dos palavrões mais grosseiros, passam pelo racismo explícito e desembarcam no ódio mais profundo contra minorias, ideologias, cor da pele, condição social, origem geográfica - é como se reunisse num só lugar toda a maldade humana.

A imprensa e os meios de comunicação, poderosas arma para educação em massa, seguem a lógica do capitalismo mais primitivo, de lucrar a qualquer custo.

Pior, se tornaram panfletos partidários da oligarquia que não aceita o trabalhismo - na verdade, a social-democracia - à frente do Poder Executivo. 

O Judiciário é ineficiente, a serviço dos plutocratas, distante da realidade social, preocupado apenas em manter o status quo.

O Legislativo ... bem, resumindo, é um balcão de negócios - negócios muito lucrativos.

O cenário é desolador.

Talvez, se as medidas de inclusão social continuarem, se forem investidos bilhões para melhorar a educação pública, se os meios de comunicação ganharem um marco regulador - se tantas coisas necessárias forem feitas -, em algumas décadas o Brasil poderia deixar de ser apenas uma potência econômica para se tornar uma nação também desenvolvida socialmente, uma democracia madura, que respeitasse as leis - ao menos isso.

Como, porém, nada se pode prever neste momento em que forças poderosas puxam o país de volta ao passado, só nos resta a esperança.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/09/a-vocacao-brasileira-para-ser-terceiro.html

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O brasileiro e a corrupção, um caso de amor

A corrupção está em moda.

Só se fala dela.

Todo mundo jura que a odeia, que a abomina.

E vaticina que, se ela não for exterminada, liquidada e esquartejada, o Brasil não sairá deste seu status miserável de paiseco de quinta categoria.

(Antigamente falavam isso da saúva - "ou acabamos com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil". A saúva continua aí, firme e forte...)

Quem, como eu, porém, já viveu mais de meio século, sabe, infelizmente, que o fim da corrupção é um objetivo tão distante quanto o homem, com a tecnologia de que dispõe, colonizar qualquer outro planeta do sistema solar, ou mesmo a pequenina Lua.


A corrupção é um câncer que se incrustou tão profundamente na sociedade brasileira que é impossível extirpá-lo.

Cá entre nós, não existe nação no mundo onde a corrupção não esteja presente no dia a dia dos negócios, dos afazeres dos cidadãos ou na administração pública. 

Onde houver dois homens haverá corrupção.


O governo brasileiro bem que tenta fazer a sua parte, criou há alguns anos a Controladoria-Geral da União, que pôs na rua milhares de servidores públicos corruptos, e tem aperfeiçoado sistemas, em vários escalões, para acabar com a prática.

Na verdade, nunca se combateu tanto a corrupção no país.

Nunca a Polícia Federal fez tantas ações anticorrupção.

Nunca tantas pessoas foram processadas.

Mas o que se vê hoje no Brasil, esse espetáculo midiático proporcionado pelo juiz curitibano e sua turma, não tem nada de combate à corrupção. 

Trata-se, tão somente, de mascarar uma tentativa desesperada de atingir o poder central, os trabalhistas que governam o Brasil desde 2003.

Os procedimentos adotados pelo Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal, ignoram os mais elementares preceitos da Justiça, que tem de ser mover pela apresentação de provas robustas, não simples indícios ou meras delações - que, sem serem comprovadas, são apenas fofocas ou boatos.

Combater dessa forma a corrupção é, simplesmente, outra forma de corrupção.

Parte da população tem aplaudido esse justiçamento ideológico, da mesma forma que se satisfaz com os programas policiais dos Datenas da vida, em frente aos aparelhos de televisão.

Trocam o "bandido bom é bandido morto" por "todo político é ladrão", ou "é preciso acabar com o PT" e coisas desse nível.

São essas mesmas pessoas, entretanto, que contribuem, com suas pequenas e constantes infrações à lei para perpetuar a corrupção no Brasil.

Comerciantes fraudam a Receita ao não darem notas fiscais.

Grandes empresários contratam escritórios de advocacia com a mesma finalidade de driblar o Fisco.

Policiais aceitam de bom grado um "cafezinho" para fazer de conta que o motorista não estava a 150 km/h.

Quem entre nós, pobres cidadãos esmagados por uma burocracia infernal, sujeitos a todo tipo de humilhação em nossa vidinha diária, nunca cedeu à tentação de praticar uma corrupçãozinha?

O fato, inegável, é que o brasileiro adora a corrupção, não sobrevive sem ela, da mesma forma que não consegue passar incólume a esse outro esporte das multidões que é a hipocrisia.  

http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/07/o-brasileiro-e-corrupcao-um-caso-de-amor.html