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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O patético fim da carreira de Eduardo Cunha, o usufrutuário


Quis tudo, vai terminar sem nada
Tinha mesmo que terminar em comédia a trágica tentativa de Eduardo Cunha de virar presidente da República.

A posteridade haverá de rir, tanto mais porque terá sido poupada da angústia de ver Cunha controlar a Câmara dos Deputados com seus métodos sujos.

É de Cunha a palavra do ano: usufrutuário. Bem a seu estilo tosco, ele errou ao pronunciá-la. Disse “usufrutário”.

Ele afirmou não ser dono do dinheiro das contas suíças, mas usufrutuário em vida.

Nas redes sociais, a palavra prontamente viralizou. Tornou-se sinônimo de ladrão.

A carne moída com a qual Cunha diz ter ganhado na mocidade o dinheiro das contas também se tornou um clássico imediato das piadas.

Zé Simão afirmou, com razão, que era mais fácil Cunha ter alegado que o dinheiro foi presente do Papai Noel.

Um colunista da Folha disse que a carne moída de Cunha serviu, exportada, para combater a fome na África.

Também entra na lista das piadas a declaração pateticamente tardia de Aécio contra Cunha.

Quer dizer: só agora Aécio descobriu que as provas são escandalosas, e que Cunha contamina e desmoraliza o Congresso.

É apenas uma coincidência que Aécio abandone Cunha quando morreram as esperanças de impeachment depositadas em Cunha.

Com a carne moída e com a condição de usufrutuário de Cunha falece a ilusão do impeachment para golpistas como Aécio.

Mais de um ano depois de perder mesmo com o apoio desvairado da imprensa, da Lava Jato e da Polícia Federal com seus vazamentos sórdidos, Aécio deve agora sossegar e fazer o que não fez este tempo todo: trabalhar. Honrar o dinheiro que o contribuinte lhe dá como senador.

Quanto a Cunha, em meio a gargalhadas gerais da nação, ele sai da história para entrar na comédia e desta, rapidamente, para a tornozeleira.

Ele é exatamente o modelo de político rechaçado, numa declaração famosa, por Mujica.

Mujica disse que política é para quem não está atrás de dinheiro. Quem quer dinheiro, completou, deve montar seu negócio e virar empresário.

Cunha entrou na política para ficar rico.

Se fosse menos ambicioso, e mais esperto, teria verdadeiramente se dedicado ao comércio de carne moída.

Paulo Nogueira
No DCM






sexta-feira, 25 de setembro de 2015

12 frases sobre o jornalismo brasileiro

Por Paulo Nogueira

1)  O pior analfabeto é o que lê a Veja.

2) A Globo não resolve nem o problema da novela das 9 e acha que tem a fórmula para resolver o problema do país.

3)  O surdo irremediável é o que ouve a Jovem Pan.

4)  Não dá para confiar mais nem na exatidão do dia que aparece na Folha.

5)  Fé obtusa é acreditar não nos pastores evangélicos, mas nos editores do Jornal Nacional.

6) Os barões da imprensa merecerão respeito no dia em que aprenderem a fazer uma legenda.

7)  Numa redação, você tem inteira liberdade para dizer sim, sim ou mesmo sim.

8)   Jornais e revistas exigem toda sorte de corte de gastos do governo, excetuada a publicidade que é colocada neles.

9) O mundo fica subitamente melhor quando você não abre um jornal.

10)  Não há uma pastilha na sede das Organizações Globo que não tenha sido fruto de  dinheiro público.

11) Um macaco teria feito a Globo ser o que é, tantas as mamatas que Roberto Marinho recebeu dos governos.

12)  Nenhum dono de jornal  passaria num bafômetro que medisse a parcialidade.

no: http://caviaresquerda.blogspot.com.br/2015/09/12-frases-sobre-o-jornalismo-brasileiro.html

terça-feira, 14 de julho de 2015

A verdadeira missão do Jornal Nacional


Hahaha
Provocou merecidas gargalhadas uma foto que circulou na internet. Nela, Bonner, num palco, aparece sob o que nos meio jornalísticos se chama de “missão” do Jornal Nacional.

Presume-se que Bonner estivesse falando a estagiários da Globo, ou algo do gênero.

O lado bom da imagem é que ela encheu de risos muitos brasileiros pelo completo ridículo de seu conteúdo.

Bem, ali está a palavra “isenção”.

O JN, segundo sua missão, se compromete a ser isento.

Em minha carreira, redigi muitas missões de revistas, e preciso fazer uma autocrítica. Foram provavelmente as piores coisas que escrevi.

A isenção do JN só aparece em sua missão.

Como seria escrita a missão do JN se o objetivo fosse retratar a realidade?

“Nossa missão é defender os interesses dos nossos patrões e de seus amigos e sócios.”

Pronto. Numa linha estaria tudo resolvido.

Nenhum jornalista do JN cometeria o pecado, por exemplo, de sugerir uma investigação que tivesse Aécio no centro.

Ou que falasse que sonegação é crime.

Ou mesmo que mostrasse o outro lado da discussão sobre a terceirização.

Declarações e princípios são realmente engraçados na mídia brasileira.

Entre no site da Veja e vá aos blogueiros. Ali, você vai encontrar as regras para fazer comentários.

Um deles me chama a atenção pela obtusidade profunda: você está proibido de escrever em caixa alta.

Quem inventou isso?

Mas o mais interessante é que a verdadeira regra que vigora não está escrita: você tem que concordar com o que os blogueiros escrevem, em qualquer circunstância.

Escreva polidamente como um diplomata, mas discorde da essência de um artigo: você não será publicado.

Tente, se quiser comprovar.

Algum tempo atrás, meu filho Pedro ficou incomodado com uma paulada gratuita que recebi de Reinaldo Azevedo por ter criticado Diogo Mainardi.

Inocente, garoto de bons propósitos, Pedro escreveu um email — educadíssimo — a Reinaldo Azevedo defendendo o pai.

Anos depois, Pedro está ainda esperando ser publicado.

Não é censura, naturalmente. Isto é para os outros. A direita quando censura não pratica censura. Lindo isso.

É assim que você vê centenas de comentários em RA com o milagre da unanimidade.

O dia a dia  das empresas jornalísticas, nos últimos tempos, também é frequentemente tão cômico quanto as missões.

Ao assumir a presidência da Abril, o executivo Alexandre Caldini reuniu as principais lideranças da casa e disse: “Quem não acredita em revista pode deixar esta sala agora.”

Se a verdade imperasse, nem Caldini ficaria na sala.

Acabo de ler que a edição impressa europeia da Newsweek — outrora, durante décadas, a segunda maior revista do mundo, com circulação de mais de 3 milhões de exemplares — vai fechar.

Já é uma notícia banal na mídia: a morte de revistas. A rigor, já nem é notícia.

Passados alguns meses da posse de Caldini, provavelmente quase nenhum dos alegadamente crentes em revistas daquela reunião sobreviveu à dura realidade.

E eis a vida como ela é.

De volta ao tema inicial, a missão do JN, a turma da redação, como tolas não são tolas, sabem o que devem entender daquilo que lhes foi apresentado por Boner.

Não vou entrar na cabeça de Boner, mas imagino que ele também saiba qual a verdadeira missão do JN.

Se não sabe, é aquilo que um dia ele disse que os espectadores são: um Simpson.

Paulo Nogueira
No DCM

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Para que servem e por que existem os sites progressistas?


O Helicoca não foi assunto para a mídia tradicional
Para que servem os sites progressistas? Por que existem?

A sociedade sabe as respostas para ambas as questões, mas a mídia tradicional insiste em tentar manipular as pessoas.

Os sites progressistas servem, fundamentalmente, para dar pluralidade ao mercado de notícias e opiniões.

E existem por causa disso: porque há uma expressiva parcela de brasileiros que não se satisfazem com o que lhes é oferecido, ou impingido, pela Globo, pela Veja, pela Folha e por aí vai.

É, no fundo, uma questão de mercado.

O conservadorismo monolítico das grandes empresas jornalísticas — já não tão grandes assim na Era Digital, aliás — abriu espaço para sites com outra visão de mundo.

Chamar os sites progressistas de governistas é uma mistura de mentira e obtusidade.

Sob qualquer governo, eles seriam o que são. O mesmo já não se pode dizer da grande imprensa: ela protege administrações conservadoras e fustiga administrações populares. Com isso, defende não os interesses da sociedade, mas os seus próprios.

Que o mercado pedia isso — outras vozes — está claro. É só ver os números.

DCM, por exemplo.

Tivemos, em junho, 3,4 milhões de visitantes únicos. É o melhor termômetro de audiência: você conta apenas uma vez pessoas que entram diversas ocasiões no site.

Os acessos são algumas vezes aquilo: no ápice da campanha presidencial, o DCM bateu em 20 milhões de visualizações.

Importante: isto tudo foi conseguido num espaço de dois anos e meio. Em janeiro de 2013, quando tomamos a forma atual de um espaço de análises e informações, tivemos 200 mil acessos e 100 mil visitantes únicos.

Sites progressistas acolhem e propagam ideias que não existem nas empresas jornalísticas.

Um exemplo notável: a desigualdade, o câncer nacional.

Jamais o combate à desigualdade esteve na pauta da mídia tradicional. Seus donos sempre se beneficiaram dela, aliás: basta ver sua colocação nas listas das maiores fortunas do país.

A imprensa sempre preferiu, por demagogia, fazer campanhas contra a corrupção, por saber que num certo tipo de leitor menos qualificado esse discurso hipnotiza.

Vital: não contra toda corrupção, mas contra aquela — real, imaginária ou brutalmente ampliada — associada a governos populares.

Não é notícia nada que diga respeito ao PSDB. A roubalheira no Metrô de São Paulo nunca foi assunto. A compra de votos para a reeleição de FHC, idem. O aeroporto particular de Aécio também.

Um delator diz que um ex-presidente tucano recebeu 10 milhões de reais para melar uma CPI da Petrobras. Ninguém, na grande mídia, dá a menor bola, porque este tipo de notícia mina a tese de que a corrupção está sempre ligada a governos populares, de Getúlio a Jango, de Lula a Dilma.

Neste e em tantos outros assuntos, os sites progressistas jogam luzes onde as corporações de jornalismo projetam sombras. (Fizemos,aqui, levantamentos sobre assuntos tabus na imprensa, como o “Helicoca” e a sonegação da Globo.)

Pessoas que são ignoradas pela mídia tradicional aparecem nos sites progressistas, e enriquecem os debates.

No DCM, para ficar num caso, Jean Wyllys é figura frequente. Vá ao arquivo da Veja e tente encontrá-lo.

pauta dos sites progressistas é outra. São outros os personagens, são outras as visões, são outros os princípios e valores.

São outros também os leitores. Veja os comentários do blogue de Reinaldo Azevedo: são o primado do ódio, do preconceito, da homofobia.

Agora compare com os comentários dos sites progressistas. São mundos diferentes.

Os anunciantes podem escolher o público que desejam atingir. Não fossem os sites progressistas, esta escolha não existiria.

Como seria o debate no Brasil de 2015 se não houvesse o contraponto digital?

Você pode imaginar.

O cidadão iria para o trabalho ouvindo a CBN ou a Jovem Pan. Leria a Folha e a Veja. Veria à noite o Jornal Nacional e a Globonews.

É sempre a mesma mensagem. A isso se dá o nome de monopólio de opinião.

Os sites progressistas surgiram e cresceram como resposta, exatamente, a esse monopólio.

É para isso que servem. É por isso que existem.

Paulo Nogueira
No DCM, via : http://www.contextolivre.com.br/2015/07/para-que-servem-e-por-que-existem-os.html

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A única coisa que se salvou no programa do PSDB foi a ausência de Serra

Fanfarrão
Eu não estava esperando nada do programa de tevê do PSDB, mas.

Bem, mas mesmo assim ele conseguiu ser pior do que minhas mais baixas expectativas.

A única coisa decente foi a ausência de Serra.

O problema maior está na essência da mensagem.

As pessoas são instadas a achar que a maior tragédia nacional é a corrupção, e não a desigualdade.

E especificamente a corrupção depois dos anos FHC.

A partir dessa base cínica, errada e demagógica não há conteúdo que resista.

E então fomos obrigados a ver FHC dar lição de moral, ele que comprou a emenda da reeleição.

Ao agir assim, FHC trata o brasileiro como um idiota.

Onde está o sociólogo? Desapareceu para dar lugar ao demagogo?

Compare.

Poucas semanas atrás, o sociólogo italiano Domenico de Mais traçou um retrato do Brasil que faz FHC parecer um aprendiz desorientado.

Com propriedade, Domenico disse que o mal maior do Brasil é a desigualdade social. A corrupção — que deve ser combatida, e está sendo, aliás — é uma migalha comparada à iniquidade.

Acabe com a corrupção. Se você não acabar também com a desigualdade nada vai mudar. Continuaremos a ter os extremos de opulência e miséria tão condenados por Rousseau.

Acabe com a desigualdade. O resto vem, e rápido. Sociedades igualitárias são muito menos corruptas que as demais, como bem mostra a Escandinávia.

E mesmo assim você não encontra um líder tucano que não fale em corrupção.

Até nisso o PSDB deveria se atualizar. Os tucanos usam, sem sucesso, a mesma arma desonesta que a direita empregou nos anos 1950 e 1960 para derrubar Getúlio e Jango.

Lacerda falava no “mar de lama”, e até essa expressão foi copiada por Aécio em sua fracassada campanha.

É uma estratégia velha — e despudorada.

Todos sabem que o presidente do PSDB anterior a Aécio recebeu 10 milhões de reais para não levar adiante uma CPI da Petrobras.

Todos sabem também do aeroporto privativo que Aécio mandou construir em Cláudio, em terras da família.

E mesmo assim os tucanos falam malandramente em corrupção como se fossem carmelitas.

Só quem leva a sério é aquele público que foi acertadamente caracterizado como “midiotas” — os analfabetos políticos que, sob o estímulo imbecilizador da imprensa, gostam de bater panelas e se enrolar em bandeiras para protestar na Paulista.

Fica a impressão de que FHC não tem ideia do mal que faz à imagem que o futuro guardará dele como político e intelectual ao falar tanto em corrupção.

Como presidente, ainda será julgado pela posteridade. A estabilização foi uma vitória, mas um olhar mais profundo sobre o programa de privatizações à Thatcher pode ser fatal para sua reputação póstuma.

Como sociólogo, dada sua monomania — a corrupção —, FHC já foi para a lata do lixo faz muito tempo.

Paulo Nogueira
No DCM, via http://www.contextolivre.com.br/2015/05/a-unica-coisa-que-se-salvou-no-programa.html

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A maior lição que se extrai da Operação Zelotes


Os brasileiros ignoravam a existência do CARF
A verdade, a dura verdade é a seguinte.

O Brasil não teria que promover uma revolução tributária que — finalmente — fizesse os ricos darem sua justa contribuição.

Bastaria cobrar o devido.

É talvez a maior lição que se extrai da Operação Zelotes.

Não pode ser tão fácil sonegar. Isso destrói qualquer economia, mesmo as mais sólidas. Foi a grande mensagem do governo alemão quando pegou um cidadão tido como exemplar — então presidente do Bayern — com uma conta secreta de cerca de 20 milhões de euros na Suíça.

Isso ocorreu há cerca de dois anos, e o sonegador, publicamente arrependido aliás, já está na cadeia, numa sentença de cinco anos.

É uma questão cultural e, também, policial. Cultural porque a sociedade tem que ter clareza sobre a importância vital dos impostos. Policial porque os sonegadores, especialmente os grandes, têm que ser severamente punidos.

Sonegar no Brasil virtualmente não traz riscos — e isso tem que acabar se quisermos nos tornar uma sociedade avançada.

O caso Zelotes traz muitas reflexões. Como se atribui tanto poder econômico a um grupo de pessoas — o Carf, tribunal que pode anular dívidas bilionárias com a Receita — sem uma fiscalização intensa?

Isso não existe.

É um lugar comum dizer que a transparência é o melhor detergente, e na Zelotes isto é chocantemente real.

Os brasileiros desconhecíamos, até a semana passada, a mera existência do Carf.

O Carf tem que ser conhecido. Seus dirigentes também. Suas grandes decisões, mais ainda.

Transparência, transparência e ainda transparência.

image

A Receita Federal é a negação disso. Ninguém sabe como funciona. O que se depreende, dados os fatos, é que a plutocracia encontrou maneiras de controlá-la.

Me perguntei sempre, no caso da sonegação da Globo, como a Receita simplesmente não se manifestava. Na internet, o assunto pegava fogo. Nas manifestações de junho de 2013, também.

Nunca a Receita se pronunciou sobre um caso tão expressivo. Era como se o interesse da Globo se sobrepusesse ao do país.

O escândalo do Carf me fez entender. Um mistério enfim se encerrou em minha mente.

A Receita vem operando, estes anos todos, na sombra, quando a luz do sol é imperiosa para que a sociedade veja suas ações.

Dentro desse quadro, coisas simplesmente inaceitáveis se tornam aceitas, ou toleradas.

Algumas vezes escrevi que não conseguia entender como, com o Bradesco tão flagrantemente metido em estratégias de evasão de impostos, Dilma pudesse ter convidado o presidente do banco para ser seu principal ministro.

Com a recusa, ela foi buscar um segundo nome no mesmo Bradesco, Levy.

Qual a mensagem para a sociedade? Sonegue, se puder.

Fazia pouco tempo, na época do duplo convite, que o Bradesco aparecera num caso de sonegação num paraíso fiscal.

Não chega a ser surpresa que o banco de Levy figure, também, na Zelotes.

O pior veio hoje, quando se soube, pelo Estadão, que Levy se empenhou para nomear uma advogada do Bradesco para a vice-presidência do Carf.

É mais que um conflito de interesses: é uma guerra nuclear.

Desprezível, como sempre, é a reação da mídia. Como o Bradesco é um grande anunciante, ninguém repercute o assunto.

Entre a sociedade e um grande anunciante, a opção das companhias jornalísticas é óbvia.

O PT colocou os pobres na agenda nacional, o que não é pouco. Mas, nestes doze anos, não fez mudanças estruturais.

Na Receita Federal, isso ficou patente.

Repito: não era — não é — necessário sequer criar taxas para grandes fortunas.

Basta cobrar o que determina a legislação, e punir quem sonegar.

Paulo Nogueira
No DCM

terça-feira, 10 de março de 2015

Por que todo mundo quer crucificar Dilma?


Estão de marcação cerrada
Lennon disse numa música, e Dilma poderia repetir: “Do jeito que as coisas estão, vão acabar me crucificando.”

Está na moda crucificar Dilma.

A direita bate nela. A esquerda bate nela. E é curioso: poucos meses atrás, ela foi reeleita com 54 milhões de votos.

Em meio a uma campanha sanguinolenta da mídia, ela se reelegeu. Os eleitores entenderam que ela merecia um novo mandato.

Na educação, excluídos chegaram em número inédito às universidades. Na saúde, o programa Mais Médicos levou assistência a dezenas, centenas de milhares de brasileiros que jamais viram um consultório.

Na economia, o Brasil manteve-se firme, com índices baixíssimos de desemprego, enquanto uma crise furiosa abalava potências como Estados Unidos e Alemanha.

Na área social, milhões de brasileiros saíram da miséria graças a programas de assistência.

Como tudo pode ter mudado tão rápido?

É difícil entender à luz da racionalidade. No discurso de ontem, por exemplo, que vem sendo atacado por todo mundo, de Caiado a Luciana Genro: o que ela disse de errado?

Serra escreveu que, com a fala, Dilma convocou as pessoas para o protesto de 15 de março.

Mas o que justifica essa visão de Serra?

Dilma, no pronunciamento, situou a crise do Brasil como algo que se insere num universo em turbulência.

A imprensa disse que ela “culpou” a crise internacional, mas isto é uma falácia. Dilma colocou o Brasil no mundo, simplesmente.

Numa economia globalizada, quem prospera quando há uma crise generalizada?

Ninguém. A China vai crescer metade do que vinha crescendo nos últimos anos. A Rússia vai decrescer 5%, sem que ninguém atribua a Putin o retrocesso e fique batendo em panelas.

Qual o ponto aí, então?

A rigor, Dilma jogou mais luzes, no assunto, do que a imprensa porque esta, ou por inépcia ou por desonestidade, parece desconsiderar que as coisas estejam complicadas em toda parte.

Em relação ao ajuste, Dilma fez uma analogia que o DCM, meses atrás, já fizera.

Quando você está gastando acima de suas possibilidades, uma hora você tem que se ajustar nas despesas.

Acontece numa família, acontece numa empresa, acontece num país.

Agora: é importante notar que cada ajuste é diferente do outro. Na Abril, onde participei de vários ajustes como diretor de revistas e de unidades de negócios.

Eu evitei sempre cortar no conteúdo e nas pessoas. Campanhas de marketing podiam ser postergadas. Pesquisas caras podiam ficar para adiante, quando as coisas melhorassem.

Isso quer dizer o seguinte: você tem como administrar ajustes.

Ah, mas o Levy é um ortodoxo. E daí? Levy, sob Aécio, cortaria determinadas coisas. Programas sociais, provavelmente.

Sob Dilma, ele tem que se adequar às prioridades dela. Dilma reafirmou, no discurso, seu compromisso com os menos favorecidos.

Até aqui, não há dado nenhum que sustente a ideia de que esteja sacrificando quem menos pode.

Ela atentaria contra sua própria história e contra o futuro de seu partido. Como o PT poderia pensar em ganhar em 2018 se os eleitores que fizeram a diferença agora se sentissem enganados por Dilma?

O que existe, aparentemente, é uma imensa neurastenia, pela esquerda, e uma monstruosa mobilização golpista, pela direita.

No meio disso tudo, está Dilma.

O jogo nem começou, e já a tratam, absurdamente, como uma derrotada.

Mesmo os que, cinicamente, falam na corrupção. Quando se combateu a corrupção como agora?

Antes, a direita, malandramente, dava foco total em corrupção quando um governo popular se instalava no poder.

Escândalos reais e sobretudo imaginários tomavam o noticiário para sabotar administrações inimigas. Foi assim com Getúlio, Jango, Lula e Dilma.

Depois, como que por milagre, a corrupção desaparecia da imprensa. Pesquise a corrupção no regime militar noticiada pela Globo.

Agora, com a lista de Janot, você tem na rede acusados não apenas de um partido, o que é um avanço espetacular.

Porque significa o fim da hipocrisia, um passo essencial para coibir corruptos e demagogos que sempre se tiveram na conta de inalcançáveis.

Onde, então, as razões de tanto desagrado com Dilma?

Minha suspeita é que a cobertura matadora que a imprensa dá a Dilma tenha, paradoxalmente, intoxicado a esquerda que abomina essa imprensa.

Espremida entre os dois lados, Dilma, como Lennon na canção, tem que lutar para não ser crucificada.

Paulo Nogueira
No DCM

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O festival de asneiras em torno dos 88 bilhões de reais da Petrobras


Uma empresa muito falada e pouco entendida
Raras vezes tantas tolices foram publicadas e compartilhadas em cima de um número malcompreendido.

Entre no Twitter e digite Petrobras 88 bilhões, e você encontrará uma enxurrada daquilo que de mais imbecil a mente humana pode conceber.

A cifra de 88 bilhões de reais representaria aquilo que foi desviado por corrupção na Petrobras.

Para quem tem o mínimo de familiaridade com números, é um caso parecido com o do homem de oito metros.

Mas poucos tem, e a Folha, origem dos disparates, não está entre estes raros.

Foi a Folha que deu a “informação”. Ela estaria no balanço divulgado pela Petrobras.

Depois, a Folha corrigiu o erro, mas era tarde demais: a asneira já fora transmitida e incorporada por dezenas, centenas, milhares de analfabetos políticos que incluem suspeitos de sempre como Lobão e Danilo Gentilli.

Os 88 bilhões são um cálculo aproximado de ativos supervalorizados.

Imagine que, em vez da Petrobras, se tratasse da Abril. Suponha que a Veja, o principal ativo da casa, tivesse sido avaliada num balanço em 1 bilhão de reais.

Depois, se verificaria que o valor estava inflado em 50%, digamos. No ano seguinte, o balanço corrigiria o excesso, e a Veja surgiria com o valor de 500 milhões de reais.

É mais ou menos isso.

Dentro dos 88 bilhões, existe uma parcela associada aos desvios. Mas ninguém sabe quanto é.

Na reunião de diretoria que aprovou o balanço, chegou-se a cogitar — ou chutar — uma soma de 4 bilhões em desvios, com base nos 3% de taxa de propina de que falou o ex-diretor Paulo Roberto Costa.

Os 88 bilhões não fizeram a festa apenas de internautas sem noção de grandeza de números.

Numa rápida pesquisa no Twitter, encontrei o link de uma entrevista da CBN com um economista para falar dos “88 bilhões em desvios”.

Mesmo confessando não ter condição de analisar o balanço, ele concedeu uma entrevista de mais de seis minutos.

Pobres ouvintes da CBN. Uma rádio competente jogaria luzes onde há sombras. Mas a CBN cobre áreas cinzentas com ainda mais sombras.

Mas não se pode desprezar a contribuição da Petrobras para a confusão.

Tente entender o que a empresa quis dizer na sentença abaixo, que consta do balanço e é assinada por Graça Foster. Um determinado método foi descartado, e a explicação foi a seguinte:

“O amadurecimento adquirido no desenvolvimento do trabalho tornou evidente que essa metodologia não se apresentou como uma substituta ‘proxy’ adequada para mensuração dos potenciais pagamentos indevidos, pois o ajuste seria composto de diversas parcelas de naturezas diferentes, impossível de serem quantificadas individualmente, quais sejam, mudanças nas variáveis econômicas e financeiras (taxa de câmbio, taxa de desconto, indicadores de risco e custo de capital), mudanças nas projeções de preços e margens dos insumos, mudanças nas projeções de preços, margens e demanda dos produtos comercializados, mudanças nos preços de equipamentos, insumos, salários e outros custos correlatos, bem como deficiências no planejamento do projeto (engenharia e suprimento).”

Proust podia escrever parágrafos intermináveis, pelo talento excepcional em juntar palavras, mas nenhum redator de balanços pode fazer o mesmo.

Frases curtas, simples, fáceis de entender: eis o que um balanço deve conter, para ser compreendido para além dos números.

E então você tem o cruzamento de um jornal que admite o homem de oito metros com um balanço escrito numa linguagem não identificada — parecida, apenas, com o português.

Estava tudo pronto para um festival de asneiras nas redes sociais. Falsos gênios chegaram a fazer contas: com 88 bilhões de reais você compra x Fuscas e coisas do gênero.

Claro que o PSDB não poderia faltar.

Em sua conta no Twitter, o PSDB postou um quadro que dizia que “o prejuízo da Petrobras com corrupção pode chegar a 88 bilhões de reais.”

Neste caso, não é apenas erro. É má fé. É manipulação. É cinismo.

E uma tremenda duma mentira. O presidente do PSDB, Aécio, acaba de gravar um vídeo em que diz que Dilma mente.

Antes de ser julgada, a Petrobras tem que ser compreendida.

O barulho em torno dos 88 bilhões de reais mostra que a Petrobras, embora tão falada, é uma ilustre desconhecida para muitos brasileiros. Por isso, é fácil usá-la com propósitos canalhas por quem quer tudo — menos, efetivamente, contribuir para o bem dela.

Paulo Nogueira
No DCM, via http://www.contextolivre.com.br/2015/01/o-festival-de-asneiras-em-torno-dos-88.html