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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

55 motivos para se arrepender de 2015

Edival Lourenço, Revista Bula

2015 está sendo um ano particularmente penoso. A política ruim interferindo na economia e a economia atrapalhada interferindo na política. E tudo isso interferindo na vida da gente de forma esmagadora. Muitas dessas coisas estão em nosso foco de preocupação, mas fora de nossa área de atuação. Se pudéssemos ter feito alguma coisa teria sido muito pouco. Mesmo assim sobra uma porção coisas para se arrepender. Para facilitar suas escolhas de arrependido, aí vai uma lista de possíveis arrependimentos e começar um ano novo mais leve:

1 — Deveria ter sonegado mais, assim a quadrilha oficial teria roubado menos;
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2 — deveria ter acordado mais cedo, assim teria ficado mais tempo à toa;
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3 — deveria ter feito menos check-ups, assim teria evitado tantos remédios inúteis ou até prejudiciais;
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4 — deveria ter caminhado menos, assim teria poupado minhas articulações;
5 — deveria ter bebido mais, assim teria aborrecido menos;
6 — deveria ter acendido mais velas, não as bentas para o santo, mas as de citronela para o mosquito do chikungunha, assim teria sofrido menos;
 .
7 — deveria ter cantado mais e amado mais e não entrar 2016 com déficit no PIB (Participação Individual na Bimbada);
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8 — deveria ter gastado mais, agora poderia justificar minha bancarrota com a quebra do País;
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9 — poderia ter lido menos jornais, assim poderia ter enganado menos;
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10 — poderia ter te conhecido antes e ter chegado em 2015 já te esquecendo;
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11 — deveria ter olhado menos para a tela do smartphone e mais para apaisagem ao redor;
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12 — deveria ter ligado menos o wi fi e mais a transcendência;
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13 — deveria ter usado mais meu instinto de direção e menos o GPS;
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14 — deveria ter usado mais a tecnologia para me ampliar e menos para me substituir;
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15 — deveria ter chorado menos por desgraças que não aconteceram;
 .
16 — deveria não ter levando em conta fatos que pareciam inevitáveis;
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17 — deveria ter votado nulo, assim teria menos sentimento de culpa pela desgraceira geral;
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18 — deveria ter mudado de país, assim teria lembranças de um país menos ruim;
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19 — deveria ser mais ignorante, assim me acharia menos babaca;
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20 — deveria ter ficado mais perto de minha mãe, assim ela teria me dado uns trocadinhos a mais (de carinho);
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21 — deveria ter corrido mais, assim teria apanhado menos;
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22 — deveria ter atrasado mais para os encontros de responsabilidades, assim teria comprometido menos;
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23 — deveria ter sorrido mais das desgraças dos outros, porque das minhas estão sorrindo até agora;
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24 — deveria ter ficado mais indeciso, até os problemas se resolverem, só aí tomar a posição mais cômoda;
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25 — deveria ter depilado mais, assim teria me enrolado menos nos cabelos das pernas;
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26 — deveria ter firmado mais na hora de aplicar golpe;
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27 — deveria ter guardado mais para os momentos de folgança;
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28 — deveria ter duvidado mais da certeza e acreditado mais na dúvida;
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29 — deveria ter distraído mais e não ter visto a Seleção Canarinho ser surrada de 7 X 1 pela Alemanha;
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30 — deveria ter acreditado que se ficar o bicho come, se correr o bicho pega… e come;
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31 — deveria ter importado menos com as coisas grandes, porque a vida é pequena e as coisas pequenas já são o bastante;
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32 — deveria ter casado menos e namorado mais;
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33 — deveria ter lido mais livros e visto menos televisão;
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34 — deveria ter calado mais e falado menos inconveniências;
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35 — deveria ter levitado mais e tido menos os pés no chão;
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36 — deveria ter viajado mais e ter morado menos;
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37 — deveria ter plantado menos, colhido menos e desperdiçado menos;
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38 — deveria ter desmatado mais as idéias que querem uma árvore a menos;
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39 — deveria ter enterrado o corpo no espírito do tempo;
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40 — deveria ter magoado menos com o espírito de porco que habita meu corpo (corpo & porco, mais que um anagrama, é maldição e bênção);
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41 — deveria ter realizado menos e sonhado mais;
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42 — deveria ter voado mais e caminhado menos;
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43 — deveria ter brindado mais e escrito menos reclamações ao PROCON;
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44 — deveria ter ido mais ao pesque — pague com meu neto e menos a Nova York com meu sócio;
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45 — deveria ter raciocinado menos e curtido mais;
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46 — poderia ter preocupado menos com o topete e ocupado mais com a saúde mental;
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47 — deveria ter lido mais o Alcorão e menos a Bíblia, assim teria tido a chance de alguma ideia nova;
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48 — deveria ter lido menos manual de instalação e mais literatura ficcional;
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49 — deveria ter murchado a barriga e inflado o cérebro, para compreender a nova estação que vem vindo;
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50 — deveria ter tido mais compaixão e menos arrogância;
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51 — não deveria ter confundido lado oposto com apostolado;
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52 — deveria ter entendido que “tudo que é sólido desmancha no ar”;
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53 — deveria ter entendido que o que é já foi e que será já era;
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54 — deveria ter estocado mais vento para tomar impulso e saltar diretamente para 2017;
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55 — deveria ter visto mais o sol se pôr, a lua passear no céu e o sol nascer, assim teria escrito menos bobagens.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O pior dos mundos


A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do fim da gratuidade obrigatória nos cursos de pos-graduação das instituições estatais representa a mais grave ameaça, até hoje, a uma universidade pública gratuita, autônoma e republicana.

Constitui, assim, mais um exemplo cabal do grau de ameaça a conquistas sociais de longa data que a crise do petismo no poder ora suscita, com uma presidente enfraquecida e acuada, disposta a tudo ceder para não ser destituída.

As pós-graduações federais já haviam sofrido um duro golpe com o corte de 75% das bolsas de estudo, que se seguiu ao anúncio das medidas fiscalistas da política econômica de Dilma, a cargo do tesoureiro Levy. Corte que, em efeito cascata, serve agora de pretexto para Alckmin suprimir R$13 milhões das pós-graduações paulistas (USP, Unesp e Unicamp), no que será certamente seguido por outros governadores.



Exclusão educacional
A diminuição no volume de bolsas, agora agravada pela possibilidade de cobrança dos cursos, tem efeito social nocivo, pois impede que estudantes oriundos das classes baixa e média se mantenham financeiramente durante os seis ou sete anos necessários para obtenção de tais títulos (que hoje são imprescindíveis, por exemplo, para o ingresso no magistério público superior).

Trata-se de uma ameaça concreta a um sistema que vinha funcionando bem há décadas, e que tinha a vantagem adicional de fornecer um meio de subsistência – mesmo precário –, o qual permitia a um contingente expressivo de recém-formados trocar as fileiras dos desempregados pela oportunidade de se qualificar enquanto faziam – ou se preparavam para fazer - a transição do universo da universidade para o do mercado do trabalho

Nem Fernando Henrique Cardoso foi tão longe a ponto de instaurar tal dispositivo elitista e de exclusão social, que na prática bloqueia o acesso dos não-ricos às pós-graduações. Com todas as dificuldades impostas na era tucana, as bolsas foram mantidas e, ao contrário do que hoje acontece, havia verbas para viagens e congressos.



Ameaça concreta
Além da ameaça per se à pesquisa inerente aos cortes de verbas, ao elitismo e exclusão social que traz à pós-graduação, e ao agravamento do já alto desemprego de recém-formados, a aprovação do fim da gratuidade constitui um passo concreto em direção à privatização da universidade pública, velho sonho do conservadorismo brasileiro.

A intensificação do sucateamento das graduações, a extensão do fim da gratuidade para tal faixa de ensino e a flexibilização de contratos de trabalho de professores são os próximos passos. Até que desapareça a divisão entre universidades públicas e privadas, o nível de ensino se nivele por baixo – como hoje ocorre no setor privado - e aos professores sejam oferecidos salários (ainda mais) humilhantes (como os R$500 mensais que as corporações de ensino superior hoje pagam a iniciantes).



Jogo duplo
O petismo e seus porta-vozes irão, como de praxe, tentar colocar a culpa por mais esse retrocesso no conservadorismo do atual Congresso – como se tal tendência fosse a antítese do partido e não, em larga medida, um fruto da realpolitik lulista e da busca deliberada de hegemonia à direita empreendida por Dilma em seu primeiro mandato, com suas alianças aprogramáticas, ditadas únicamente por interesses e sua subserviência ao conservadorismo religioso, que hoje cobra um preço tão alto.

Mas os fatos estão documentados: enquanto PSOL, Rede e PCdoB votaram contra o projeto, o PT liberou bancada, mantendo a estratégia de não contrariar as demandas dos partidos conservadores, pois precisará de seus votos na votação do impeachment. Depois com a desfaçatez costumeira,vem posar de defensor da universidade pública - e tem gente que ainda cai nessa.



Prioridade à Educação?
Pior: um governo que se vale do slogan “Pátria Educadora” e cuja mandatária foi eleita jurando priorizar a Educação não mexeu uma palha para se contrapor ao projeto do deputado Alex Canzani (PTB/PR), cuja “justificação” para o fim da gratuidade na pós-graduação chega a ser ofensiva de tão mal informada:

"Embora sejam, em última instância, atividades de ensino, geralmente se dirigem a públicos restritos, quase sempre profissionais e empregados de grandes empresas, constituindo importante fonte de receita própria das instituições oficiais". [aqui, a íntegra da PEC 395.]

Como um projeto com uma visão tão tacanha do que seja a pós-graduação pôde transitar e ser aprovado na Câmara? Cadê os quadros qualificados do MEC para explicarem a esses senhores o papel da pós-graduação nas sociedades contemporâneas, e a exclusão social e educacional que tal medida significa em um país em desenvolvimento como o Brasil? A última – e ínfima - esperança reside agora na reação dos senadores ao projeto.



O coletivo pelo pessoal
O absoluto desinteresse do governo tem, como já apontado, uma razão de ser, ainda que esta diga respeito exclusivamente à manutenção do poder presidencial, não importa a que custo em termos de ameaça às conquistas sociais. Em nome de tal meta pessoal-partidária, Dilma sacrifica direitos trabalhistas, boicota desempregados, desterritoraliza os indios, patrocina o retrocesso na pauta biopolítica – e agora tira a pós-graduação do alcance dos estratos baixos e medianos. E o resultado de tanto conservadorismo tem sido nulo.

Restam a Dilma três alternativas: uma guinada à esquerda, renegando a insensibilidade social neoliberal e comprometendo-se, de fato, com as demandas populares, o impeachment ou a renúncia.



Sinuca de bico
A primeira alternativa é uma impossibilidade, por conta do grau de comprometimento do petismo com alianças espúrias e com um modelo de desenvolvimento tão arcaico quanto perverso, ora em plena crise (a não ser para o Bradesco e o Itaú, que continuam batendo recordes de lucro).

A segunda parece cada vez mais distante, não só como resultado do comércio de balcão do governo com seus algozes, mas por efetivamente não haver, até o momento, prova de crime de responsabilidade cometido no presente mandato (como já tive oportunidade de assinalar em outra ocasião, incompetência e mesmo estelionato eleitoral depõem contra Dilma, mas não justificam legalmente o seu impeachment).

Por fim, a terceira não passa de uma quimera, pois demanda uma estadista, que se interesse mais pelo futuro do povo e do país do que pela manutenção apenas nominal, cosmética, do próprio poder.



O país aguentará?
Assim sendo, restará ao país continuar a sangrando por mais três anos, dois meses e nove dias, com Dilma dando seus dedos aos conservadores - muitos dos quais, como o hoje vilão Eduardo Cunha, cresceram à sombra das alianças aéticas do petismo -, desde que lhe deixem os aneis.

Enquanto isso a crise se adensa, o número de desempregados se multiplica, os estabelecimentos fechados se proliferam ao longo dos quarteirões, os salários compram cada vez menos, os relatos sobre o sucateamento da saúde e da Educação se avolumam, e mais índios são mortos ou se suicidam enquanto suas terras são invadidas por ruralistas, sob o olhar complacente da primeira-amiga Kátia Abreu.

E a ansiedade e a estupefação ante a deteriorização do país do futuro assombram cada vez mais cidadãos e cidadãs, que se perguntam: “- Até quando?”.
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domingo, 4 de janeiro de 2015

2015: O FIM DA UTOPIA




Eu não tenho grande conhecimento sobre os países nórdicos nem do Japão, por exemplo. O que sei desses lugares, é o que me contam alguns amigos que moram por aquelas paragens, somado ao que vemos em uma notícia ou outra.

Por outro lado, sei muito mais como funciona o chamado "ocidente" (de acordo com a nomenclatura adotada pelos Estados Unidos e seus aliados). Neste lado, vejo que as coisas têm piorado substancialmente ao longo dos anos, em alguns aspectos.

A América Latina vem experimentando um crescimento social e econômico nunca antes visto. Tirar gente da pobreza, dando escola e emprego, não tem preço. Sendo assim, para o que pretendo falar hoje, vou retirar a maior parte de nosso querido continente, deixando apenas, para efeito de comparação, o Brasil, a Argentina. É que gostaria de falar sobre o rompimento do tecido social no mundo atual, coisa que eu tenho a impressão, vem acontecendo.

Dessa forma, coloco lado a lado o Brasil, a Argentina, os EUA e a Europa Ocidental. Coloco também a Rússia, com sua grande extensão eurasiana e claro, a China.

É que todos estes citados, têm sido vistos como atores importantes no quesito econômico. Exceção feita aos nossos irmãos argentinos, que aguentam uma pesada crise já há muitos anos, os Brics, Europa e os EUA indubitavelmente, direcionam o planeta hoje em dia, no que se refere à economia.

A Argentina, apesar de hoje em dia não ter um peso tão grande quando se fala em geopolítica e economia, sempre foi vista e tida como um país progressista. Talvez não seja coincidência serem argentinos o Che, o Papa, o Maradona e tantos outros. Talvez seja a água que sirvam nos pampas, eu não sei. Tem algo por lá que torna nossos amigos felizmente, sempre descontentes e querendo avançar.

Mesmo querendo avançar, ela parece cair em algumas armadilhas de vez em quando. A escolha de Raul Alfonsin e de Menem, por exemplo, mostram bem isso. Conscientemente esses mandatários jogaram seu povo à margem da história importante que sempre tiveram, e à margem do desenvolvimento.

Assim, vejo com tristeza que ao longo dos anos, encontrei em Buenos Aires, aquela que gosto de chamar de minha segunda cidade, um abandono e um desapego, sem precedentes. Em 2004 por exemplo, tão logo cessaram as retiradas de presidentes do poder, que nada faziam, eu praticamente não via pichação pelo lugar. As que existiam, eram com tons políticos, o que traduzia uma consciência coletiva muito forte. Independente do fato de os argentinos escolherem bem ou mal seus governantes, era inquestionável que ao menos, eles se preocupavam com isso. Hoje, se vê uma cidade muito mais largada, um país muito mais abandonado e sem esperança. Pobreza a América Latina sempre viveu. Antes porém, parecia que havia um norte, algo a perseguir. Hoje, a apatia tomou conta.

Também é assim no Brasil. Retiramos milhões da pobreza. Saímos da 15° economia para a sétima. Seremos superado pela Índia, claro, mas é inexorável afinal, eles tem 1 bilhão de consumidores. Só não se tornaram grandes até agora como a China, porque seus governantes são muito piores do que os nossos jamais foram.  Não obstante, o que vimos no Brasil este ano de eleição, foi um espetáculo bizarro através do qual aflorou o nazismo, o preconceito de classe, e a profunda incapacidade de nossas chamadas "elites", em conviverem com a democracia e com a inclusão social dos pobres. 

Ficou muito claro que os que gostam de se imaginar como "formadores de opinião", acham que o certo é que o Estado funcione somente para eles e para seu bem estar. Pouco se lixam para o resto. Mas vão à igreja todo domingo e acreditam piamente serem dignos de se chamarem "cristãos".

Nossos expoentes da classe média pra cima, adoram ter os EUA como referência em tudo, mas naquilo que importa, eles simplesmente se negam. Nos anos 30, através do New Deal e da metade da década de 40 pelo Plano Marshall, os EUA promoveram a maior inclusão social já vista neste planeta. É verdade que em relação à Europa o Plano Marshall cobrou um preço considerável, mas não há que se negar que a pobreza extrema foi erradicada e muita coisa mudou por lá.

Mas hoje os EUA e a Europa passam por um desânimo assustador. Após a crise de 2008, que foi causada pelo desleixo dos governantes americanos e europeus (em menor grau), não se viu uma vontade de realmente mudar. Obama ganhou a eleição empurrado pela vergonha nacional dos desmandos em seu sistema financeiro capitaneados por Bush filho, mas que vinham desde Ronald Reagan. Só que ao chegar ao poder, Obama percebeu que quem manda mesmo, não é ele, nem nunca foram os ocupantes da Casa Branca. Quem manda na América e por consequência em quase todo o mundo, são os lobbies das armas, do mercado financeiro e do petróleo. Eles tornam o mundo o seu quintal privado e o povo, quase nada vê, disso. É que para que o povo visse, ele precisaria ser informado, ter discernimento. Coisas impossíveis como é muito fácil de se notar, bastando para isso, dar uma breve passada nos livros de história.

Esta semana lí um artigo interessante em um site russo (evidentemente traduzido para o português lusitano). No artigo um professor havia pedido para seus alunos dizerem do que sentiam falta da antiga União Soviética. Sem disfarçar seu anticomunismo, o professor pretendia ao longo do texto, desqualificar algumas coisas do regime bolchevique, porém, também sendo saudosista quanto a outras. Já nos comentários ao artigo, é que se encontravam as verdadeiras pérolas. Neles, o povo de verdade falava o que sentia falta. Ele se mostrava saudosista não só da saúde, educação e do emprego que a todos alcançavam, mas também sentia falta a gleba, do espírito de comunidade, da vontade de evoluírem juntos e chegarem a algum lugar.

Na Rússia, o tecido social também se rompeu. A utopia acabou.

A China, o maior motor da economia mundial também vem observando uma corrida sem comparação pelo crescimento econômico. Nenhum outro lugar produz tantos bilionários por ano, nem tampouco, inclui tanta gente na classe média. Porém, o espírito de união descrito no Livro Vermelho parece que sequer é considerado atualmente. 

Incluir pelo consumo é importante e surte resultados imediatos. Não é necessário esperar décadas pela mudança de pensamento da população, coisa que nem sempre acontece. Porém, incluir pelo consumo transforma o humano em um prioritário egoísta. Quando ele se preocupa com sua família já é um avanço.

Como se muda tudo isso? Bem, a mudança tem que vir de cada um, rico ou pobre. Não é possível achar que chegaremos a algum lugar sendo movidos meramente pelo intuito do ter, e não do ser. É preciso resgatar aquela parte da cultura hippie que via sentido em alguma coisa, que compartilhava, que queria o fim da guerra.

Só que como bem apontaram alguns céticos posteriores aos anos 60, boa parte dos hippies viraram o cocho e os que puderam, se transformaram nos yuppies dos anos 80, que são os precursores e responsáveis em parte, pela atual alienação socioeconômica do planeta.

A mudança só virá quando nos educarmos. E essa educação não é aquela da escola. É aquela que se aprende em casa à mesa de jantar, com a tv devidamente desligada, ouvindo parábolas dos adultos. Mas para que esses adultos tenham o que passar a seus filhos, é essencial que eles também sejam educados.

Mas quem os educará se seus professores, se seus pais que deram duro na vida, na lavoura, no navio imigrante, já morreram?

É algo pra se pensar e ao fim, optar pela mudança individual. É um trabalho formiguinha, mas acho que vale a pena.
sugado do: http://anaispoliticos.blogspot.com.br/2015/01/2015-o-fim-da-utopia.html



sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O Brasil não acabou - e nem vai acabar


2014 acabou, mas o Brasil não, embora muita gente tenha desejado o seu fim.
2015 será um ano difícil, como quase todos.
Mesmo assim o Brasil e o seu povo sobreviverão.
Haverá dificuldades para a grande maioria.
Alguns poucos continuarão no bem bom.
Mensagens de fim de ano são, quase todas, protocolares.
Quase ninguém acredita que seus votos de prosperidade e felicidade se concretizarão.
De toda forma, e para que este maravilhoso país continue em sua trajetória de desenvolvimento, com diminuição da iníqua desigualdade econômica e social que nos envergonha perante as outras nações, não custa nada desejar que todos aqueles que carregam dentro de si o preconceito e o ódio de classes, essa doença que tanto mal faz à humanidade, sejam, ao menos, um pouco mais tolerantes, um pouco menos violentos, a partir deste ano novo.
O Brasil não acabou em 2014, mas foi por pouco.
A semente da intolerância germinou e deu frutos como nunca antes.
Sempre haverá discordâncias - isso é da natureza humana.
Elas, porém, não devem desencadear ondas de veneno ou desejos de destruição.
Ainda há pessoas guiadas pela razão nos cargos institucionais da nação.
Cabe a elas, portanto, a dura tarefa de coibir eventuais excessos que possam comprometer o florescimento desta nossa jovem e promissora democracia.
2015 será um ano difícil, todos sabemos.
Cabe exclusivamente a nós, povo, torná-lo um bom ano para todos.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2014/12/o-brasil-nao-acabou-e-nem-vai-acabar.html

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Porque a serenidade é a melhor decisão para 2015

Fernando Brito, Tijolaço  

"A realidade exige da gente, tanto quanto firmeza, lucidez para não confundirmos o circunstancial e o essencial.

E o essencial é que, dentro das regras democráticas, o Brasil garantiu mais quatro anos de um governo de coalizão progressista.

Mesmo com todo o cansaço, frustração, sofrimento, angústia e, até, desânimo, que nos possam causar certas indicações – de nomes e de políticas – do segundo governo Dilma, é preciso ter bem claro que o caminho do progresso e da justiça social, no Brasil, sempre foi o da composição, não o da confrontação.

Não é uma afirmação fácil para quem, há 40 anos, é um socialista e não mergulhou num relativismo e em concessões que levaram tantos ao conforto da direita.

Mas é o dever de honestidade de observar que, aqui, a radicalização do processo político é alimento da direita, do conservadorismo e da mediocridade.

E que a composição nos deu Vargas, JK, Jango, e Lula.

A direita brasileira – que não é o Lobão, o Bolsonaro, o Feliciano, Sheherazade ou Reinaldo Azevedo – serve-se deles ( e do nosso justificado asco ao que dizem) para produzir uma onda de mediocridade que, há décadas, não se observava na classe média brasileira.

Talvez desde o lacerdismo, hoje visto como caricato, mas dono de uma expressão real no Brasil dos anos 50/60.

Recomendo a leitura do circo de horrores narrado no blog de Leonardo Sakamoto, onde ele descreve as mensagen recebidas de leitores sobre o encontro com as famílias na noite de Natal, quando “parentes e amigos que aproveitaram a ceia para defender a volta da ditadura, a esterilização forçada dos mais pobres, o machismo institucionalizado, o racismo desvairado, o assassinato de usuários de drogas”.

E este, infelizmente, é um fenômeno que atinge especialmente a juventude, embora, convenhamos, também atinja gente que devia estar bem grandinha para saber onde isso leva.

É claro que a mídia – nunca é demais lembrar que é ela quem representa a direita “de verdade” – que dá espaço farto a esta gente, parece ser, no seu noticiário, “politicamente correta”, às vezes até ao extremo, sobretudo em questões sexuais e raciais.

Não tem o menor pudor em estimular o confronto, despertando – mesmo por via transversas – dando, sobretudo, o palanque que dá aos sociopatas notórios.

Contem no dedos os dias, por exemplo, até que digam que a lei – recém sancionada por Dilma Rousseff – que torna ilegítimo o uso de arma de fogo letal contra pessoas desarmadas, mesmo em fuga, para dizer que a polícia está impedida de atirar em bandido.

Claro que temos de polemizar, debater, esclarecer, mesmo na escandalosa desproporção de meios que tem a esquerda nas comunicações.

E muito menos que o Governo se mantenha no silêncio, deixando que só se ouça a voz da direita no Brasil.

Ao contrário, o governo -e a Presidenta, pessoalmente – não podem abrir mão de seu dever de enfrentar as polêmicas, porque a verdadeira batalha é por corações e mentes.

Mas, até por tudo o que disse, é essencial que conservemos a serenidade, a capacidade de argumentar, convencer, refletir, em lugar dos impulsos – tantas vezes justos – de responder na mesma moeda de ódio e intolerância.

É preciso lembrar que, lentamente, a civilização vai vencendo o jogo contra a barbárie.

Quem vai na canela é quem está perdendo – e perdeu, por mais quatro anos – o jogo.

Não quem tem, ainda, um craque para entrar em campo na próxima decisão."