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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Partidos Social-Democratas europeus que adotaram a Terceira Via Neoliberal estão rachando e se enfraquecendo!

Partidos Social-Democratas europeus que adotaram a Terceira Via Neoliberal estão rachando e se enfraquecendo! - Marcos Doniseti!

Pedro Sánchez defende reformas moderadas para promover mudanças na economia e na sociedade espanholas. Mas ele foi derrubado do cargo de Secretário-Geral do PSOE pelas lideranças mais conservadoras do partido. Agora, ele disputará as eleições primárias que o PSOE convocou para este ano e tentará voltar ao cargo, com o apoio dos eleitores do partido.

As velhas e tradicionais legendas social-democratas europeias que aderiram à Terceira Via Neoliberal de Tony Blair e Anthony Giddens estão rachando e se enfraquecendo cada vez mais.

Estes são os casos do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), do PSF (Partido Socialista Francês), do Partido Trabalhista britânico e do Partido Democrático italiano.

A única exceção a este processo é o PSP (Partido Socialista Português), que lidera um governo progressista moderado de coalizão bem sucedido em Portugal.

1) Espanha - PSOE: O partido, liderado por Felipe González, foi o segundo mais votado na eleição para o Parlamento espanhol e acabou permitindo que o Partido Popular (Direita neoliberal), vencedor da eleição, mas que não conseguiu a maioria absoluta, continuasse governando a Espanha.

Assim, o PSOE acabou abrindo mão de fazer uma aliança com o Podemos, liderado por Pablo Iglesias, que conquistou uma votação muito próxima à do PSOE na eleição para o Parlamento espanhol.
Felipe González fez o tradicional PSOE adotar as políticas neoliberais da Terceira Via e ajudou na manutenção do governo do PP (liderado por Mariano Rajoy), o que provocou grandes divisões e conflitos no partido. 
Isso gerou uma grande crise no PSOE, que levou à renúncia de Pedro Sánchez do cargo de Secretário-Geral depois que a maioria dos líderes da legenda ficaram contra a sua liderança. 

Com isso, o PSOE está cada vez mais dividido entre suas alas mais conservadoras (liderada por Felipe González) e as mais progressistas (lideradas por Pedro Sanchéz).

Em algum momento esta divisão poderá levar a um racha ou a um brutal enfraquecimento do partido, que poderá perder seus eleitores mais conservadores para o PP ou para o Ciudadanos, e os seus eleitores mais progressistas poderão debandar para o Podemos.

E este racha poderá acontecer ainda em 2017, quando o PSOE irá realizar eleições primárias para escolher o seu novo líder. 

2) França - PSF: Já o segundo (o PSF) governa a França, mas tem um Presidente da República (François Hollande) que fez um governo totalmente neoliberal e que é tão impopular que sequer tentou a reeleição. A reforma trabalhista, extremamente impopular, que Hollande impôs acabou sendo rejeitada pela maioria dos deputados do próprio PSF.
François Hollande fez um governo neoliberal e impôs uma reforma trabalhista extremamente impopular. Seus baixos índices de aprovação levaram-no a desistir da reeleição. No entanto, o seu ex-ministro da Economia (Emmanuel Macron) é o favorito para vencer a eleição presidencial.  
E agora, nas primárias do partido, os eleitores do PSF literalmente se rebelaram contra as políticas neoliberais de Hollande e escolheram Benoît Hamon, da ala mais esquerdista da legenda e que é um forte crítico do governo francês, para ser o candidato à Presidente da República.

Isso fez com que uma parte dos eleitores de Manuel Valls, ligado a Hollande e que é um defensor das políticas deste, se disponha a votar em Emmanuel Macron, candidato independente e de perfil mais moderado e centrista, abandonando a candidatura de Hamon.

Assim, existe o risco de Hamon (que tem 16% nas pesquisas) não passar para o 2o. turno (que contará com a presença mais do que certa de Marine Le Pen, que lidera as pesquisas com 26% das intenções d voto) pois também temos a presença de um candidato mais à Esquerda, que é Jean-Luc Mélenchon (líder da Frente de Esquerda), obtém 10% dos votos.

Assim, a divisão entre as duas candidaturas mais progressistas poderá fazer com que o 2o. turno seja disputado entre a Extrema-Direita (Marine Le Pen) e um direitista (o neoliberal Fillon ou o moderado Macron).
Emmanuel Macron (ex-ministro da Economia do governo de Hollande e que saiu do Partido Socialista) foi o maior beneficiado pelo escândalo que atingiu fortemente a campanha do direitista Fillon e tornou-se o favorito para vencer a eleição presidencial francesa. 
Somente uma eventual união, já no 1o. turno, entre Hamon e Melenchon é que poderia evitar esse desastre histórico para as forças mais progressistas da França de ficar de fora do 2o. turno da eleição presidencial.

3) Reino Unido - Partido Trabalhista: Já no Reino Unido, o novo líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, enfrenta as fortes resistências dos deputados da legenda, quase todos comprometidos com as políticas Neoliberais da Terceira Via de Tony Blair, enquanto que a base política e eleitoral trabalhista, na sua maioria, rejeita tais políticas.

Inclusive, a maior parte do eleitorado trabalhista votou a favor do Brexit, contrariando totalmente a posição dos deputados da legenda, favoráveis à manutenção do Reino Unido na União Europeia.

Assim, Corbyn fica numa corda bamba, tendo grandes dificuldades para liderar um partido tão dividido.

Somente uma nova eleição para o Parlamento britânico, que levasse o eleitorado trabalhista a renovar inteiramente o seu quadro de deputados, com a eleição de parlamentares comprometidos com as políticas progressistas e keynesianas preconizadas por Corbyn, é que poderiam resolver esse impasse.
Benoit Hamon (à direita) derrotou Manuel Valls nas primárias do Partido Socialista Francês, defendendo propostas como a criação de uma Renda Básica Universal e a taxação das riquezas geradas pelos robôs da 4a. Revolução Industrial. 
Mas elas não acontecerão tão cedo e, enquanto isso, Corbyn e os deputados trabalhistas vão intensificando os conflitos, agravando o racha interno.

O fato do Partido Conservador ter uma Primeira-Ministra, Theresa May, que adotou uma política mais nacionalista e que é bastante dura nas críticas ao Neoliberalismo, poderá levar os divididos e rachados trabalhistas a sofrer uma nova derrota na próxima eleição para o Parlamento, que irá acontecer apenas em 2020;

4) Itália - Partido Democrático: Governa a Itália atualmente, mas o então Primeiro-Ministro, Matteo Renzi, foi derrotado em um referendo a respeito de propostas de mudanças no sistema político do país, no qual 60% dos eleitores votaram contrários às mesmas. Isso provocou a renúncia de Renzi que, no entanto, continua sendo uma importante liderança do partido. 

O governo Renzi também promoveu a adoção de reformas neoliberais, bastante impopulares, e o PD também está dividido sobre as políticas que deveria adotar. 

Além disso, o partido que mais cresce na Itália e que lidera as pesquisas mais recentes, neste momento, é o 'Movimento 5 Estrelas' (liderado pelo humorista Beppe Grillo) e que combina, em seu programa, propostas mais progressistas (fim das políticas neoliberais e de arrocho), com outras mais conservadoras, fazendo ainda duras críticas à União Europeia. 

Assim, o 'M5S' tem grandes chances de vir a liderar um futuro governo na Itália. 
Matteo Renzi (à esquerda) foi derrotado no referendo italiano, onde o 'Não' para as suas propostas de reforma constitucional foi vitorioso 60% dos votos, provocando a sua renúncia. O 'M5S' (liderado por Beppe Grillo) condena as políticas neoliberais (adotadas por Renzi) e é o partido que mais cresce na Itália. 
5) Portugal - PSP (Partido Socialista Português): Este foi o único caso de recuperação vitoriosa por parte de um tradicional Partido Socialista europeu que tivemos nos últimos anos.

Na eleição para o Parlamento português que se realizou no final de 2015, as forças políticas mais progressistas acabaram conquistando a maioria absoluta.

Apesar da divisão dos deputados entre quatro partidos (Socialista, Comunista, Verdes e Bloco de Esquerda) os mesmos conseguiram fechar um acordo e elegeram Antonio Costa (PSP) para Primeiro-Ministro.

Com isso, as políticas neoliberais e de arrocho foram enterradas e o salário mínimo voltou a ter aumentos reais.

Desta maneira, Portugal retomou o crescimento econômico e está conseguindo reduzir o desemprego.

Por isso mesmo é que, segundo uma pesquisa divulgada em Janeiro deste ano, mostra que se a eleição para o Parlamento português fosse realizada neste momento, os quatro partidos progressistas (Socialista, Comunista, Verdes, Bloco de Esquerda) que governam o país teriam, no total, 54,6% dos votos (conquistaram 50,75% dos votos em 2015), contra apenas 36,9% da oposição formada pelos partidos PSD/CDS-PP (Direita Neoliberal; conquistaram 38,4% dos votos em 2015). 

Assim, a maioria parlamentar dos partidos progressistas ficaria maior caso a nova eleição fosse realizada agora. 

Como se percebe, a defesa ou a rejeição de políticas neoliberais está dividindo, rachando e enfraquecendo os principais e tradicionais partidos da Social-Democracia europeus. A única exceção entre os mesmos é o do PSP, pelas razões que apontei.

Tais partidos enfrentam um dilema: Eles deverão manter o seu apoio às políticas neoliberais, que são cada vez mais impopulares na União Europeia e que estão provocando sucessivas derrotas eleitorais para tais legendas? 

Ou então eles devem retomar projetos e ideias mais progressistas, de perfil keynesiano, tal como fizeram em suas origens (quando eles foram fundamentais na construção do Welfare State na Europa Ocidental no Pós-Guerra), como desejam promover, por exemplo, Jeremy Corbyn, Benoit Hamon e, em menor grau, Pedro Sánchez?
Jeremy Corbyn foi eleito o líder do tradicional Partido Trabalhista britânico (Labour Party), mas as suas propostas social-democratas e keynesianas enfrentam uma forte resistência dos deputados da legenda, que são defensores da Terceira Via Neoliberal de Tony Blair e Anthony Giddens, provocando fortes divisões entre os Trabalhistas. 

Links:

Benoit Hamon recupera propostas progressistas para o Partido Socialista Francês:


A fratura da Esquerda europeia:


Direção do PSOE entrega o governo espanhol para o PP:


Pedro Sanchéz lança candidatura para liderar novamente o PSOE:


O momento de Emmanuel Macron:


Portugal: Partidos que apoiam Antonio Costa teriam 54,6% dos votos em eleição para o Parlamento, contra apenas 36,9% da oposição (Direita Neoliberal):


Portugal: Taxa de Desemprego diminui para 10,2% com o fim das políticas neoliberais e de arrocho:


Portugal: Taxa de Desemprego era de 12,2% no final de 2015:


Emmanuel Macron ultrapassa Fillon no 1o. turno e derrotaria Marine Le Pen, no 2o. turno, com 65% dos votos:

via: http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com.br/2017/02/partidos-social-democratas-europeus-que.html

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Por que uma nova esquerda é necessária





Vitória de Trump abala projeto neoliberal, mas leva ao poder direita autoritária. Quem lutará, agora, por justiça, igualdade e soberania popular?
Por Christophe Ventura | Tradução: Inês Castilho | Imagem: arte de rua no Cairo (2011)
A eleição de Donald Trump – cuja primeira explicação é a rejeição, no seio das classes populares, de Hillary Clinton, a encarnação do pior conluio entre dinheiro e política – confirma o “momento populista” mundial [1].
O que se percebe por trás desse “momento” intensamente político?
O deslocamento de nossas democracias. Em direção a quê? A regimes tipo “autoritários identitários” [2], se a esquerda não trabalhar, pelo menos nas lutas que a caracterizam, em favor de uma “radicalização da democracia” [3], que esteja a serviço de três ideias: soberania, igualdade e justiça. Três marcadores progressivamente abandonados pela esquerda realmente existente, em especial nos Estados Unidos e na Europa.
Populismo de direita: “entre nós, e todos contra nós”
Não há esperança, mas uma nova gestão social e política do desespero.Esta é, no fundo, a magia obscura proposta pelo populismo de direita. Compreendamos que o sujeito político chamado Donald Trump cristaliza e condensa a energia incandescente e negativa de numerosas cóleras populares – especialmente a das categorias socioeconômicas devastadas pelos efeitos do livre mercado e da desregulação financeira durante o ciclo Reagean-Bush-Clinton-Obama/Hillary. Bruto, revoltado e violento, o levante Trump ocorre quando as populações dominadas e abandonadas à tirania dos donos do mundo não veem alternativas a sua condição. Elas assumem, em resposta, uma relação de desconfiança legítima, não somentediante da representação política, mas do próprio sistema político. Donald Trump é o produto negativo de suas exigências democráticas e sociais desprezadas e massacradas por muito tempo, especialmente pelos partidos – os democratas, neste caso – que supostamente as representariam. Essas populações encontraram, na falta de uma esperança, o meio passageiro de assustar o sistema introduzindo, no coração de seu quartel-general, uma granada de mão pronta para ser detonada. E isso, por meio dos próprios mecanismos eleitorais desse sistema que permite que se possa tornar presidente sem haver ganho a maioria dos votos.

Donald Trump é um objeto político sofisticado e bem sucedido. Ele conseguiu incendiar as paixões populares, construir um “povo” no meio da população, isto é, uma nova aliança sociopolítica formada além das filiações partidárias tradicionais, que funcionavam até então em favor doequilíbrio de uma ordem política e social com a qual a maioria da sociedade ainda consentia.
A vitória de Donald Trump indica a ruptura desses equilíbrios e uma recomposição. O populismo – ainda que de direita – indica e encarna uma transição entre um desequilíbrio e um novo equilíbrio, uma nova ordem da sociedade. O alcance e a natureza do que se desenhará no decorrer desse processo depende das orientações desse populismo, de sua capacidade de mudar a economia, manter a coesão de seus apoiadores, produzir instituições que acabarão por superar e mudar as relações de força na sociedade.
No caso de Donald Trump, a aliança forjada encontrou seu cimento eleitoral no ressentimento contra todas as elites – especialmente a esquerda intelectual empoleirada em seu conforto universitário e midiático – e uma classe política “Coca-Cola – Pepsi-Cola” que pratica as mesmas políticas e defende os mesmos interesses. Uma classe política incapaz de resolver os problemas concretos das pessoas, pela simples e boa razão de que esses problemas não podem ser solucionados aceitando o quadro e as estruturas da globalização econômica e financeira – especialmente o livre mercado, que desindustrializa os países do Norte, proletariza os do Sul, devasta o ambiente e oferece liberdade sem restrições ao capital e às finanças. Tudo isso impossibilita qualquer controle democrático do poder econômico e mina toda possibilidade de políticas de redistribuição social.
Brexit, fracasso dos acordos comerciaisvitória de Trump: as revoltas cegas [orig. “jacqueries”] contra a globalização e seus poderes mundiais e nacionais propagam-se e se sistematizam. As sociedades gritam, de modo cada vez mais violento, “não” à globalização, território econômico e financeiro sem equivalente político e democrático possível.
Donald Trump foi quem – cúmulo da ironia – colocou no coração da campanha (assim como Bernie Sanders) as questões econômicas e sociais e conseguiu encarnar a vontade de um poder público que volte a controlar a economia – posição oposta ao consenso entre os dois partidos de governo.
Trump venceu sobre as cinzas do “establishment” de seus próprio campo e dos anos Obama, que desembocaram em promessas não mantidas – especialmente junto às classes populares –, guerras intermináveis, agravamento das desigualdades sociais e pauperização crescente de dezenas de milhões de pessoas nos Estados Unidos.
Trump não é, ele próprio, um ganhador da mundialização? Sem dúvida alguma. Mas ganhou as eleições afirmando que, no seio do reino em perigo, desafiava a política do rei e de seus principais vassalos. Afirma que é preciso ajustar as leis fundamentais da globalização aos interesses de seu país – separado aqui do “business” americano – mal conduzidos desde 2008 (e desde o início dos anos 2000, com o crescente poder da China e de outros novos atores mundiais). Como? Refreando o ritmo e o avanço da globalização financeira e econômica – para não mais sofrer suas consequências e desordens. Posicionando os Estados Unidos, a tempo, no coração da competitividade fiscal mundial (reduzir os impostos das empresas para atrai-las e fixá-las no país). Criando as condições para um novo ciclo geopolítico de retirada e reequilíbrio estratégico.
Deste ponto de vista, há forte ressonância com as orientações lançadas pelos discursos da nova primeira ministra britânica Theresa May. Trinta e cinco anos depois de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, um novo pulso anglo-saxão de dimensão mundial parece estar sendo preparado. Desta vez,visa conduzir a globalização a um rumo cujos marcos são perceptíveis.Maior controle estatal sobre o poder financeiro e bancário. Criação de mastodontes capitalistas em todos os setores estratégicos da economia e das indústrias por meio da multiplicação de processos de fusão/aquisição.Protecionismo (em plano nacional mas igualmente no quadro dos clubes de afinidades do país diante dos outros). Fechamento das fronteiras nacionais para gerir os fluxos migratórios mundiais. Em outras palavras, uma reorganização da sociedade – não um recuo, mas uma reorganização – para reposicionar os Estados Unidos (e o aliado britânico) aos postos avançados da concorrência capitalista mundial… que coloca o mundo inteiro contra a parede.
Se confirmado, esse projeto beneficiaria os eleitores de Trump? Ou os que, na França e em outros países europeus, votam ou são tentados a votar nos candidatos populistas de direita? Não, porque o novo presidente americano – ou Marine Le Pen na França – não têm como projeto a emancipação do “povo” que eles criam e mobilizam. O que pretendem é estabelecer controles e promessas de um alívio cosmético, obtido graças à repressão interna de outras partes da população (especialmente os imigrantes).
Seu projeto é, ao fim das contas, a radicalização do sistema que eles pretendem desafiar. As forças “populistas” de direita – a Frente Nacional francesa, de Marine Le Pen, oferece a matriz mais avançada da Europa – conseguiram reconstruir um povo mobilizando um discurso do tipo “eles querem o pouco que temos; eles não vão ficar”. Esse discurso procura, com sucesso, mobilizar alguns setores da sociedade contra outros (notadamente os imigrantes e os pobres) em período de escassez de trabalho e de recursos do Estado para financiar o sistema social — porque esses Estados tornaram-se prisoneiros de seu endividamento nos mercados financeiros, de suas escolhas fiscais e de suas políticas de austeridade.
Redistribuir a riqueza e conceder benefícios sociais, sim, mas em pequenas quantidades e para os nacionais. Como? Reposicionando o país a seu favor na competição internacional. Mantendo a exploração econômica dos trabalhadores que vivem ali (mas praticada por um patronato nacional revitalizado). Reduzindo os direitos dos grupos mais deprotegidos da população (estrangeiros, pobres, mulheres etc). Eis, em resumo, o projeto de sociedade proposto por cada um dos “populismos” de direita.
De qualquer modo, cada um entre si todos contra todos. Agindo assim, o populismo de direita elabora um discurso mobilizador da defesa das identidades tradicionais (a cristandade, a região, a comunidade étnica etc.) — que ele ajuda a manter – para unificar os setores aos quais ele se dirige contra a “elitocracia”.
Esse projeto é vão pois não modifica as causas das dificuldades das populações e contribui com a sobrevivência de um sistema em perigo que,in fine, recorre aos populistas de direita para que sejam mais um dos tantos corta-fogos que o defendem – especialmente diante dos riscos de desordem social. Hoje os migrantes, os estrangeiros instalados. Amanhã as mulheres, os sindicatos, as associações. Cada um de nós monitorado por sua tela, seu telefone, seu computador.
De qualquer forma, o triunfo de Donald Trump nos Estados Unidos não deixa de ser um novo golpe contra a esquerda em todo o mundo. Tragicamente, o magnata novaiorquino toca exatamente em seu oposto: justiça, igualdade e soberania não são possíveis nos limites da globalização financeira e econômica. Todos os meios que permitiram à esquerda, antes da globalização, lutar por seua objetivos no quadro de um capitalismo industrial submetido a contole nacional estão ultrapassados, no cenário de um capitalismo altamente financeirizado e pós-industrial
Populismo de esquerda: (re)construir um “povo pela emancipação”
Que políticas a esquerda atual propõe para enfrentar a despossessão global das sociedades? Por meio de que estratégias e mediações ela concebe reconstruir seu “povo” – ou seja, uma nova aliança formada a partir de sujeitos políticos e sociais heterogênios e com múltiplas aspirações? Estas questões constituem desafios e concentram diversas dificuldades.
Mas é preciso ter em mente que a energia da cólera captada pelos populista de direita é líquida. Ela pode produzir outros efeitos. Outro “populismo” e outras identidades coletivas são possíveis Abandonar o medo imposto por aqueles que determinam as regras do jogo e ditam os termos da batalha intelectual permite enxergar que a noção de “populismo” é, antes de tudo, expressão de uma nova disponibilidade para a política. O “populismo” não é, em si, nem de esquerda, nem de direita; nem reacionário, nem progressista. Ele torna-se uma coisa ou outra, ao redefinir e reorganizar as fronteiras e as clivagens políticas anteriores, apagadas (élimés) e desviadas(dévoyés) pelo consenso e a prática dos partidos instalados no centro do dispositivo de poder.
Para citar a frase famosa do geógrafo anarquista Elisée Reclus (1830-1905) – “o homem é a natureza que toma consciência de si mesma” –, poderíamos afirmar que “o populismo é a política (re)tomando consciência de si mesma”. O “populismo” traduz um estado de tensão na organização da sociedade. É expressão dos “murmúrios” das populações subalternas. Revela uma situação de difusão (diffusion”) em toda a extensão da sociedade, de descontentamento diante do bloqueio dos canai tradicionais por onde transitavam normalmente das demandas e exigências lançadas às instituições (partidos, imprensa, sindicatos, empresas etc). O “populismo” não é um projeto político em si e não pode sê-lo. É um processo de mobilização por meio do qual se reconstroem, na ordem política, uma cidadania de intervenção refratária ao mundo como ele é e uma estratégia de conquista do poder.
É por esta razão que cabe à “esquerda” a responsabilidade de não renunciar à construção de um povo pela emancipação, e de fecundar com suas melhores tradições o “populismo” que está em formação.
Nesse proceso, a defesa e promoção da soberania popular será o núcleo de uma batalha singular. Tal ideia de soberania foi literalmente desvertebrada devido ao fato de que a maior parte das questões econômicas e monetárias que determinam a vida concreta e quotidiana dos indivíduos é tratada for a do campo da deliberação coletiva.
No quadro da economia globalizada, defender a soberania popular pode servir a dois projetos antagônicos. A serviço das forças da ordem estabelecida – e de seu cão de guarda de extrema direita – esta defesa constitui uma técnica de desumanização [4] da sociedade, para favorecer a eclosão de um projeto autoritário que estimulará múltiplas competições no interior dos povos. Significará dividi-los e discipliná-los, num cenário de luta global contra as outras “unidades-países” do sistema.
Mas esta mesma ideia de soberania popular pode tornar-se chave para a humanização da sociedade, da economia e do mundo. Para isso, é precisoum projeto e um discurso voltados à construção política de um país melhor– e não à mera administração daquele em que vivemos sob as lógicas atuais. Para isso, é preciso retomar os princípios de justiça social e de inclusão dos setores hoje subalternos, por meio de políticas que promovam a redistribuição efetiva de riquezas.
Relocalizar a economia na esfera da soberania política [5], a serviço da justiça e da distribuição de riquezas é o mapa do caminho para um “populismo” de esquerda. A perspectiva de um populismo de esquerdainduz a construção de um discurso capaz de unir vaários setores em torno dos paradigmas do comum, da justiça e da redistribuição como motores de prosperidade coletiva e individual. A estes paradigmas deve se remeter uma estratégia de ações pacientes, capaz de articular a esquerda politica, social e intelecual em torno das demandas múltiplas e específicas que partem da sociedade.
Trata-se da agir a favor do desenvolvimento de solidariedades concretas com as populações e de pensar, a partir daí, as mediações (daí o papel da liderança) e os instrumentos que permitam aumentar os níveis de organização popular, tendo em vista a (re)construção progressiva do povo da emancipação
O povo é uma aliança. Cabe a nós construí-la.
do: http://outraspalavras.net/capa/por-que-uma-nova-esquerda-e-necessaria/

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Imigração: o novo declínio da civilização ocidental


 
Vladimir NESTEROV  07 de setembro de 2015.

Tradução mberublue

Com uma pontualidade germânica, chegou o outono na Alemanha – em 01 de setembro. Apenas um dia antes, o povo alemão sofria sob 30 graus de calor, mas na terça feira eles podiam colocar de lado suas capas e guarda chuvas. Mas os imigrantes não se importam com datas. Seu fluxo continua ininterrupto.

Resultado de imagem para refugiados síriosDesde os dias de Aníbal a Europa não via uma invasão semelhante proveniente da Líbia, como nas semanas e meses recentes. Ninguém tem dados suficientes para afirmar quantos imigrantes atrás de asilo, oriundos da antiga Iugoslávia ou da Síria devastada pela guerra se encontram hoje nas florestas da Sérvia, próximas à fronteira da Macedônia. Seis a sete mil pessoas entram na Macedônia a cada dia em seu caminho para a Alemanha. Guardas de fronteira nem querem saber: ganham 5 euros de cada imigrante ilegal que deixam passar. O caminho está livre...

Resultado de imagem para refugiados síriosEm primeiro de setembro autoridades húngaras fecharam a sua principal estação, Keleti, para 3650 refugiados e imigrantes que queriam transporte para a Alemanha. Aconteceu apenas um dia depois que, com a conivência da polícia húngara, centenas de imigrantes deixaram Budapeste com destino a Munique. Dois dias antes, a Hungria havia acabado de construir um muro eriçado de arame farpado com 175 quilômetros de extensão em sua fronteira com a Sérvia. A maioria dos refugiados não quer ficar em países como a Hungria ou Grécia. Eles tentam com firmeza chegar até a Alemanha ou a Suécia.

Mais de três mil imigrantes, atraídos pela qualidade de vida superior do Reino Unido em relação à França estão acampados no Porto de Calais, perto do Eurotúnel.

Aumentam a cada dia os sinais desse dilúvio que ameaça afogar a Europa. Já as causas e as ações a serem tomadas são o nó górdio a ser desatado.

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Milos Zeman
No início de agosto, o presidente da República Checa, Milos Zeman, falou sobre o problema de maneira duramente explícita: “a onda atual de migração (para a Europa) tem suas origens na ideia (dos Estados Unidos) imbecil de lançar uma intervenção contra o Iraque, que alegadamente teria armas de destruição em massa que jamais foram encontradas” mas “não são apenas os Estados Unidos que devem ser acusados da atual tragédia dos imigrantes, porque vários membros da Comunidade Europeia coordenaram as operações contra a Líbia”.

Sob a influência dessa ideia imbecil (se é que não há uma agenda escondida debaixo dessa loucura toda) países inteiros se tornaram território sem governo, ausentes do poder do Estado. Laços sociais deixaram de existir e a frágil paz entre muçulmanos e cristãos foi quebrada. Dentro da Humma muçulmana a trégua tácita entre crentes e os que advogam a modernização foi despedaçada.

Como resultado da intervenção armada dos Estados Unidos, nacionalistas e extremistas de todos os matizes tiveram amplo acesso a armas dentro de seus países já abalados. O vácuo político causado pelas guerras, “primaveras árabes” e outros desastres similares permitiram a esse tipo de gente que tomassem de assalto o poder. Tudo isso levou à devastação econômica, aumento da pobreza extrema e instabilidade crescente. A guerra e a morte se tornaram onipresentes. Milhares de pessoas do norte da África, do Oriente Médio, dos Balcãs e da Ucrânia se tornaram refugiados. O oceano impede que se dirijam para os Estados Unidos, mas eles podem ir para a Europa. A ilha de Lampedusa fica logo ali. Guardas de fronteira búlgaros, gregos e sérvios se sentem felizes em ganhar milhares de euros.

De acordo com estatísticas oficiais, o número de refugiados em busca de asilo na Europa triplicou entre 2008 e 2014. Em 2015, apenas a Alemanha espera receber mais refugiados que a Europa inteira em 2014. Ocorre que há uma divisão dentro da Europa. O ministro do exterior francês, Laurent Fabius declarou-se “escandalizado” com a relutância de alguns países do leste europeu a “respeitar os valores comuns da Europa” e aceitar mais imigrantes. Por sua vez, a chanceler alemã Angela Merkel assegurou que a Alemanha “poderá” continuar a receber refugiados, mas necessita que o restante da União Europeia trabalhe no processo de estabelecer uma distribuição mais justa dos refugiados. O diabo é que ninguém sequer faz ideia do que a Alemanha considera como “justo”.

A opinião pública nos países membros da União Europeia está dividida. O número daqueles que se opõe à imigração está em crescimento. Na Alemanha já aconteceram mais de 200 ataques a centros de refugiados desde o início de 2015.

Claro que apenas uma distribuição “justa” dos refugiados entre os países europeus não resolverá o problema – um acordo universal entre todos os membros da União Europeia sobre o assunto é inalcançável. Por outro lado, a recusa de qualquer dos membros da União Europeia a receber imigrantes na sua “justa” cota, colocará no colo da Comissão Europeia um sério precedente. Entretanto, o tempo para resolver o problema, que pegou os europeus totalmente desprevenidos, está correndo.

É muito eloquente a fria indiferença com a qual os seus aliados do Atlântico Norte testemunham o drama europeu. Enquanto o número de imigrantes na Europa cresce para centenas de milhares, a Europa está destinada a encarar problemas de tensão social, enquanto os políticos que apoiaram as intervenções desastradas dos Estados Unidos nos países dos quais se originam os refugiados enfrentarão tempos difíceis. Se o número destas pessoas destituídas de tudo que invadem a Europa mudar de centenas de milhares para milhões, a civilização europeia pode estar assistindo a seus últimos dias.

Tudo isso a história já testemunhou antes. A Roma antiga foi destruída e sua cultura milenar varrida da face do planeta exatamente durante um período de migração. O ocidente, por sua vez, está em declínio já por alguns séculos. Será que estamos vendo na Europa uma nova edição do período das trevas?

(assina) Vladimir Nesterov
http://btpsilveira.blogspot.com.br/