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domingo, 27 de outubro de 2019

O regime da pós-mentira


Publicado no Observatório da Imprensa


Quando o ministro Ernesto Araújo afirmou que o Partido Nacional-Socialista alemão era de esquerda, proferiu uma bobagem flagrante, que chocou o planeta. Mas o chanceler poderá sempre alegar que não mentiu, apenas expôs um juízo pessoal que, “por acaso”, contraria a verdade. Sorte da opinião, azar dos fatos. E da História.

Embora particularmente ofensiva, a deturpação de Araújo não deveria surpreender os analistas da mídia corporativa. A maioria dos que se dizem perplexos com as impropriedades da cúpula do governo federal vem usando fórmulas silogísticas muito parecidas para o golpe parlamentar, a Lava Jato e a prisão política de Lula.

Se a Constituição autoriza o impeachment, o de 2016 obedeceu à normalidade democrática. Se os tribunais aceitaram a condenação de Lula, sua culpa está provada. Se a Lava Jato prendeu corruptos, foi benéfica para o país. Se a informação tem fonte ilegal, não é fidedigna.

A legitimidade de acreditar em bobagens não as torna verossímeis. Não resta dúvida possível de que o impeachment foi um golpe fisiológico e oportunista alavancado por uma artimanha ilegal da Lava Jato. Ninguém com mínimo discernimento jurídico seria capaz de negar que a prisão de Lula nasceu de conluios delituosos de Sérgio Moro e procuradores.

As conversas divulgadas pelo Intercept provam tudo isso. De novo, porém, a ignorância seletiva dá lógica aos descalabros. Pouco importam as evidências, o bom-senso, a legislação. Basta alguém dizer que “acha” a deposição justa, os indícios convincentes, os justiceiros bem intencionados. A credulidade se expressa como evento indiscutível.

O conceito de pós-verdade talvez sirva para definir as narrativas, mas já não é a maleável ideia de verdade que está em jogo, e sim a de mentira, bem menos controversa. A incapacidade de constatar o óbvio não tem nada a ver com a falsificação, que envolve a própria natureza espontânea e sincera do erro. Mentir é um ato consciente e doloso.

Pois aquelas manifestações de ignorância são performáticas. O ministro sabe que a associação entre nazismo e socialismo é absurda, tanto quanto os apologistas “qualificados” da Lava Jato sabem que ela serve a uma estratégia nefasta de poder. Longe de expressarem convicções sinceras, seus desvarios visam ludibriar incautos e normalizar a defesa do indefensável.

A estratégia tem sucesso, nas cúpulas do Judiciário, para manter a obscena condenação de Lula. O vale-tudo fantasioso dá aos nobres magistrados o álibi que lhes faltaria em sociedades menos corruptas e hipócritas. Eles podem forjar crenças estapafúrdias porque, para impedir a eleição do petista, até os valores que as tornam mentirosas viraram tópico interpretativo.

Enquanto a pós-verdade acena com a anulação das “grandes certezas” por inúmeras narrativas individuais, a pós-mentira traz a utopia da inexistência do ardil falsificador, o pressuposto da validade absoluta de qualquer asserção sobre o mundo. “Polêmica”, segundo o rótulo neutralizador da moda, ela se afirma “imparcial” na proporção de seu repúdio pela sociedade.

A pós-mentira esconde o método que organiza a loucura em pós-verdades convenientes. É o salvo-conduto moral do mentiroso, o cinismo que transforma o delírio em performance e o logro em ética opinativa. A suposta natureza irrefutável do enunciado inverídico, fantasiado de juízo pessoal, dissimula o objetivo que define moralmente o ato de manifestá-lo.

Existem bases narrativas (éticas) nas farsas judiciais da Lava Jato e no delírio messiânico do bolsonarismo. Mas precisamos ir além do conteúdo. O Regime de Exceção é soberano porque dita as fábulas que o legitimam. Aí reside a armadilha do debate ocioso em torno de falsas maluquices, que sempre estarão certas pelos critérios da falsa maluquice hegemônica. Não há terreno mais confortável para o fascismo do que o narrativo.

Combater a pós-mentira exige a distinção entre o apedeuta e o cínico, a ignorância e a fraude. O foco reside, por isso, mais na enunciação do que no enunciado, mais no indivíduo que no discurso. A questão é desmascarar a estultice teatral de pessoas que, sagazes e informadas, proferem juízos infundados para assuntos que elas não têm como ignorar.

O critério profissional ajuda muito nessa leitura de aptidões. A competência pressuposta por diplomas, currículos e cargos obriga seus detentores a certos níveis básicos de conhecimento e interpretação dos fatos. Quando o equívoco involuntário deixa de ser plausível, a própria lógica da meritocracia induz a percepção da desonestidade. O que vale para diplomatas, vale para jornalistas, acadêmicos, advogados e magistrados.

Denunciando na suposta “polêmica” a naturalização da mentira e, nesta, uma atitude imoral dos seus divulgadores, romperíamos a tendência fútil e paralisante de justificar toda aberração conceitual a partir de licenças ideológicas. Não foram valores pessoais que fraudaram a democracia brasileira, e sim a ocultação e a distorção sistemáticas da verdade.

Enquanto ainda podemos reconhecer os efeitos do arbítrio, somos capazes de identificar a índole corrupta daqueles que tentam reduzi-lo a uma simples questão de nomenclatura.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com/2019/10/o-regime-da-pos-mentira.html

quinta-feira, 9 de maio de 2019

À espera dos cruzados





Cruzada Anticorrupção finalmente se apoderou do Santo Graal político-administrativo que perseguia com fanática voracidade. Jair Bolsonaro, ungido pela seita, venceu alegando esse pertencimento. É o “poste” da Lava Jato, figura medíocre e vulnerável, submetida a interesses mais poderosos que receberão prerrogativas monárquicas para garantir sua sobrevivência.

Dizer que a Lava Jato contribuiu desacreditando a classe política é insuficiente. A virulência antipetista ganhou viés muito pragmático na condução dos assuntos pré-eleitorais, com precisão cirúrgica inexistente nos outros partidos, inclusive o pitoresco PSL de Bolsonaro. A lista de governadores e legisladores eleitos mostra que a moralidade atingiu apenas quem poderia, local e nacionalmente, atrapalhar os candidatos alinhados à causa santa.

Durante os últimos anos, procuradores e magistrados foram agentes diretos da normalização do fascismo brasileiro. No flanco repressivo, exorbitando um punitivismo inconstitucional e tendencioso contra jornalistas, militantes e líderes partidários. Na seara da impunidade, reproduzindo o hábito seletivo que garantiu a sobrevivência da Lava Jato, desde a proteção a seus membros até a blindagem daqueles que a apoiaram.

O vazamento ilegal de gravações já ilegais de Dilma Rousseff, de Lula e de familiares e advogados do ex-presidente passou incólume pelas rigorosas autoridades. O único adversário que poderia vencer Bolsonaro foi preso na véspera da disputa, por “crime indeterminado”, sem provas materiais de culpa. O STF manobrou para negar o direito de Lula ao habeas corpus e permitiu os atropelamentos de funções que barraram as ordens isoladas de soltura.

Esse padrão dominou a disputa presidencial. O TSE engoliu covardemente a pressão dos militares, as ameaças diretas de Bolsonaro, a violência escancarada de seus adeptos e sua fábrica de mentiras digitais. As cortes impediram Lula de falar à imprensa, divulgaram o depoimento inválido de Antônio Palocci, empastelaram uma revista, reprimiram debates universitários e censuraram propagandas que associavam o capitão à tortura que ele defende.

A naturalização dos hábitos nefastos das autoridades pavimenta o caminho do obscurantismo. A tolerância ante a brutalidade física de policiais, milicianos e energúmenos civis legitimará o arbítrio criminoso na solução cotidiana de conflitos. A adesão irregular de servidores públicos a absurdos como o Escola Sem Partido normalizará e disseminará o patrulhamento saneador em todos os níveis profissionais. Sérgio Moro virou ministro da Justiça, afinal de contas.

Ao mesmo tempo, a ideologia truculenta dos vitoriosos incentivará a destruição judicial dos oponentes. Podemos esperar um tenebroso varejo de garrotes, principalmente em litigâncias contra a liberdade de expressão, sob a desculpa de punir apologias ao crime, calúnias e difamações, atentados à moral, fake news, etc. A criminalização do uso do adjetivo “fascista”, por exemplo, só espera uma primeira iniciativa bem sucedida.

A vitória de Bolsonaro seguirá marcada pelo gesto agressivo que a impulsionou. Um ato sem nexo, misterioso, que a mídia transformou em espetáculo antes que o ceticismo pudesse enfraquecê-lo. Eis o núcleo imaginário do novo projeto de poder: o choque performático, a mistificação, o jogo redundante de ameaças intangíveis, o desvio pela irracionalidade.

“Não existe direito absoluto” e “ninguém está acima da lei”, os lemas do absolutismo togado, possuem utilidade metodológica. O triunfo político do Regime Judicial de Exceção baseia-se nesse discurso negativista, que nivela os cidadãos pela recusa generalizada à cidadania. Quanto mais autoritário for o governo, menos ele parecerá incompetente e corrupto. Direitos cerceados provarão a força do sistema e embalarão seu delírio revolucionário.

Mas, para as pessoas de bem, as instituições continuarão funcionando normalmente. Glória a Deus pela democracia brasileira.


quarta-feira, 11 de julho de 2018

Os zaps e tuítes e seus antepassados


No livro “O que é fascismo? – e outros ensaios”, de George Orwell, aparece um texto publicado por ele no jornal “Tribune”, em 08/12/1944. Um trecho diz o seguinte:

Durante anos no passado fui um laborioso colecionador de panfletos, e um leitor razoavelmente constante de literatura política de todos os tipos. O que me impressiona cada vez mais – e impressiona muitas outras pessoas também – é a extraordinária depravação e desonestidade da controvérsia política em nossa época. Não estou meramente afirmando que controvérsias são acrimoniosas. Elas têm de ser quando tratam de assuntos sérios. Estou dizendo que quase ninguém parece achar que um oponente merece ser ouvido com atenção, ou que a verdade objetiva importa tanto quanto você ser capaz de marcar ponto num debate. Quando olho para minha coleção de panfletos – conservadores, comunistas, católicos, trotskistas, pacifistas, anarquistas ou sabe-se lá o que mais –, a mim parece que quase todos têm a mesma atmosfera mental, embora os pontos de ênfase variem. Ninguém está em busca da verdade, todos estão apresentando um “caso” com total desconsideração à imparcialidade ou à exatidão, e os fatos mais evidentemente óbvios podem ser ignorados por quem não os quer ver. Em quase todos eles podem-se encontrar os mesmos truques de propaganda. Seria necessário preencher muitas páginas deste papel apenas para classificá-los, mas chamo aqui a atenção para um hábito muito disseminado e controverso – o de desconsiderar os motivos do oponente.

Panfletos estão meio fora de moda. Mas é só trocá-los por “zaps” ou “tuítes” no texto acima para atualizá-lo sem grandes problemas. Com o agravante de terem um alcance muito maior, hoje
http://pilulas-diarias.blogspot.com/2018/07/os-zaps-e-tuites-e-seus-antepassados.html

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Como é o Brasil da sua Venezuela?

Nosso entendimento da crise venezuelana é prejudicado pela qualidade da mediação informacional disponível. De um lado, temos o reducionismo sensacionalista das agências e dos grandes veículos. De outro, um microcosmo subjetivo de testemunhos e opiniões selecionados segundo critérios de variadas conveniências.


Quem usa sentidos diversos de “golpe” e “democracia” ao tratar de Brasil e Venezuela fala sobre qualquer coisa, menos de golpe e democracia. Fala muitoNinguém sabe direito o que se passa na Venezuela. Nem a tal “mídia progressista” estrangeira, a julgar por suas fontes. De qualquer forma, não precisamos de intérpretes para notar que a narrativa da ditadura ilegítima e consensualmente odiada é tão frágil e questionável quanto a narrativa do levante imperialista contra os heróis bolivarianos. 

Falto de base empírica, o debate sobre o assunto virou um mosaico de respostas a polêmicas da atualidade brasileira, projetadas para o universo vizinho. Na esfera antipetista, a vilanização caricatural de Nicolás Maduro tem óbvias referências locais. Também o repúdio intempestivo à Assembleia Constituinte, um fantasma que ronda o reformismo hipócrita da direita verde-amarela.

Mas nem tudo prima pela coerência nesse jogo de projeções. Boa parte dos argumentos negativos usados contra Maduro poderia servir para a desqualificação de Michel Temer, da Lava Jato, do impeachment e até dos governos estaduais tucanos. Ideias que no Brasil seriam estigmatizadas como “petralhas” ganham status civilizado ao tratar da Venezuela.

Segundo os democratas conterrâneos, ditadores abocanham o poder manipulando normas constitucionais. Enviam polícias e mascarados para reprimir manifestantes. Compram apoio da mídia com publicidade estatal. Destroem adversários através de arbítrios judiciais. Aparelham as cortes e aliciam magistrados. Subornam congressistas.

Soa familiar?

Sintomaticamente, a maioria dos ataques apaixonados à ditadura venezuelana vem de pessoas que jamais qualificam o impeachment brasileiro como golpe parlamentar. São intolerantes com “bandidos de estimação”, fãs de juízes e procuradores ativistas, inimigos de acordos de governabilidade, incrédulos quanto ao sistema representativo no país.

Sim, os contextos (sempre) são diferentes, mas aqui o álibi perspectivista vale pouco. Não interessa o conflito de posicionamentos. A questão é baseá-los em conceitos volúveis, que se transmutam ao sabor das conclusões desejadas: a identidade do réu definindo a essência criminosa do ato. O exemplo jurídico, tão atual e assustador, mostra a força deletéria da esquizofrenia “pós-verdadeira”.
, certamente, de si mesmo. Essa revelação involuntária, se não ajuda a compreender a crise alheia, fornece pistas interessantes sobre as nossas próprias vicissitudes.
http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2017/08/como-e-o-brasil-da-sua-venezuela.html

quinta-feira, 2 de março de 2017

Privilégios


Há algo muito esquisito na metamorfose que vem sofrendo a percepção pública acerca do STF. Menos de um ano depois de servir como alicerce moral do golpe, a corte virou uma espécie de paraíso da delinquência política. E quem o diz é a própria claque da Lava Jato, com suporte da mídia corporativa.

A demonização marqueteira do foro privilegiado, que já alcança o nível de campanha civilizatória, só pode ser tomada como afronta à idoneidade do tribunal. Caso contrário, o julgamento dos egrégios ministros, com a rapidez e o rigor que lhes cabem, seria visto como a grande arma da cruzada anticorrupção.

O que teria mudado nesse curto período? Como foi possível se deteriorar tanto a imagem de uma instituição festejada há pouco pelos mesmos setores que ora a desqualificam? E ainda hoje tais interesses não continuam sendo protegidos pelo STF?

As respostas estão disponíveis na lista dos personagens ameaçados pelas novas delações da Odebrecht. Ou melhor, daqueles que ocupam cargos legislativos ou de primeiro escalão governamental, isto é, que ficariam à mercê do STF em eventuais indiciamentos. Sem as prerrogativas de foro, escapariam do julgamento sumário e sorveriam as benesses protelatórias das instâncias inferiores. Como Eduardo Azeredo, por exemplo.

Uma revisão do foro livraria o STF do desgaste maior de, no futuro próximo, desmontar o paradigma punitivo que vigorou com o PT no poder. A corte já não sabe direito o que fazer com os réus perigosamente tagarelas que ameaçam desmoronar o governo Temer. O acréscimo da temível nobreza tucana ao rol de indiciados não anuncia outra saída senão uma humilhante complacência garantista que, a partir desses protegidos, inviabilize parte da rede probatória da Lava Jato.

Some-se a isso as pretensões de Lula, cada vez mais fortalecidas e, nestas circunstâncias, irrefreáveis. A possibilidade dele ser jogado às feras curitibanas, à parte o estrago que causa numa disputa eleitoral, exime o STF de lidar com as ações envolvendo o petista. Condenar um réu aclamado pelas urnas, em processos frágeis e talvez irregulares, demandaria certos sacrifícios que os ministros não devem estar dispostos a fazer.

Também a cúpula da Lava Jato amealha benefícios na luta contra o foro privilegiado. Na pior das hipóteses, transforma a prerrogativa (e o STF) em bode expiatório para o previsível degringolar da operação. Na melhor delas, concede às cortes intermediárias o poder de selecionar as suas vítimas e de aniquilar carreiras políticas antes que a corte máxima interponha as tardias correções.

De fato, nunca houve tanta gente no país preocupada com a questão da impunidade.
http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2017/02/privilegios.html

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

É necessário resistir à Cruzada anticorrupção



Enquanto a esquerda brasileira busca novas agendas e programas, o tema da corrupção vem ganhando protagonismo cada vez maior nos seus debates. Vejo essa tendência com perplexidade e desalento, pois a considero um erro conceitual e estratégico grave, que pode mesmo inviabilizar a sobrevivência do progressismo organizado no país.

Chamo doravante de Cruzada o amplo repertório subjetivo que acompanha a pauta anticorrupção nos moldes atuais. O termo abarca tanto o viés místico da plataforma quanto seu imaginário bélico, ambos tendo como principal símbolo a operação Lava Jato, apesar de não restritos a ela. A qualificação busca espelhar também o uso sectário do programa, o hábito de desqualificar seus críticos por suposto apoio a alas “infiéis”.

Logo de saída notamos que o espírito da Cruzada guarda uma contradição insanável: precisa ser inflexível na propaganda, mas tolerante na aplicação. Levada a purismos extremos, ela jamais daria conta das minúcias irregulares da vida social, das instituições públicas e do setor corporativo. Por outro lado, admitindo sua inviabilidade prática, perde o sentido isonômico e universalista que a justifica, ou parece justificar.

Considerando que as próprias infantarias cruzadas sucumbiriam ao rigorismo total, apela-se para uma relativização seletiva. O alvo então se restringe à demonizada classe política, mais especificamente ao “outro” malfeitor que não desfruta das simpatias ocasionais dos fiscalizadores (partidárias, religiosas, performativas). E é exatamente esse farisaísmo que termina por arruinar os bons propósitos da empreitada.

Como na obsoleta “guerra”contra as drogas, o falso “combate” da Cruzada se resume a um ciclo vicioso de fracassos que geram novas medidas de exceção, cujas derrotas servem de pretexto para mais arbítrio. Ora, não faltam leis. Mesmo às vezes desatualizada, a legislação brasileira é suficiente. O verdadeiro problema da corrupção, a impunidade, nasce nas instituições que mais defendem o aperto regulatório e os extremos punitivos.

O único resultado prático da radicalização legal é empoderar tais setores, essencialmente antidemocráticos, eles próprios corrompidos, privilegiados e impunes. O esforço para impedir que o decálogo saneador se estendesse ao Judiciário exibiu, mais do que apego à blindagem corporativista, o reconhecimento das prerrogativas arbitrárias em disputa.

A Cruzada é, portanto, um construto ideológico. Uma âncora discursiva presa a memórias e práticas sociais incompatíveis com qualquer plataforma libertária. Sua negatividade substancialista mobiliza intolerância, medo, castigo. O aplauso a polícias e justiceiros togados embute uma potência desejosa de “vigiar e punir” (pobre Foucault) que permeia as vias mais arcaicas de opressão. Elas precisam ser extintas, não generalizadas.

Mas, convenhamos, os sinais estavam claros já nas manifestações pelo impeachment, com seus grupelhos fascistas, seus policiais-modelo, seus bonecos enforcados, suas apologias militares. E continuam óbvios em grampos ilegais, vazamentos clandestinos, delações manipuladas, denúncias vazias, humilhações de réus, vendetas escusas, todo um rol de “excepcionalidades” inconstitucionais que chocavam os progressistas de antanho.

Do ponto de vista estratégico, a pauta da Cruzada não é ruim para a esquerda porque moralista, embora algumas de suas vertentes talvez mereçam o adjetivo. É ruim porque simplória, vetusta, agressiva, com cheiro de elite “cansada”. E porque jamais conseguirá se desvencilhar do ódio pela democracia representativa, do ressentimento contra o eleitor, da mesura à autoridade e do menosprezo por ritos e direitos.

Se existe um meio libertário e inclusivo de abordar o imenso problema da corrupção sem instrumentalizá-lo ideologicamente, o trajeto é inverso: valorizar a representação política, a constitucionalidade, a isonomia judicial, a transparência institucional ampla e irrestrita. Principalmente no Poder Judiciário, que, repito, sempre foi a grande fonte da impunidade e agora finge ser vítima dos seus beneficiários.

Pesquisas de opinião monotemáticas ou realizadas no calor da polêmica servem para aferir o poder dos cruzados midiáticos, não uma tendência que a sociedade teria se o debate público fosse de fato amplo e informativo. Aliás, mesmo o aval majoritário da população pode ser questionado. Ou será que a desculpa do acolhimento ao anseio popular valeria também para a defesa da pena de morte? Para a criminalização do aborto?

Adotar a Cruzada representa um oportunismo contraditório com as críticas desferidas às alianças espúrias do PT. E uma repetição do seu pragmatismo suicida: o fortalecimento de alas retrógradas que não hesitariam em aplicar o legalismo tendencioso à esquerda adesista ou em absorvê-la, gerando facções moderadas nas franjas de uma coligação conservadora hegemônica. Todos apaziguados pela causa comum.

Algumas tropas já se voluntariam para o sacrifício. São as seitas do esquerdismo antipetista mais radical, atraídas pela Cruzada apenas porque o PT denuncia seus métodos. Incapazes de superar a mal resolvida crise edipiana com Lula, aninham-se no colo maternal da Justiça, esperando que ela os satisfaça através do sacrifício expiatório do antigo líder. E brandindo a retórica policialesca na falta de outra que a substitua.

É óbvio que esse lacerdismo cor-de-rosa está restrito a uma verborrágica porém diminuta minoria, que não se dá sequer ao trabalho de explicar suas contradições sem recorrer ao antipetismo como selo autolegitimador. Observando o campo progressista para além das bolhas digitais, vemos uma ampla constelação de valores, desejos e narrativas que poderiam levar a pauta da corrupção a patamares menos inconsequentes.

As promessas redentoras e paradisíacas da Cruzada parecem tentadoras porque a suposta falta de perspectivas (também ela um subproduto da ideologia judicial) empurra a militância para os confortos inerciais do discurso único. Basta que ele seja desarticulado, mostrando a intolerância, a desigualdade e o autoritarismo da sua nudez obscurantista. Aí a esquerda encontrará sua pauta, articulada não em torno da adesão, e sim da resistência.

Publicado na página do Le Monde Diplomatique Brasil
via: http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2016/12/e-necessario-resistir-cruzada.html

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Balanço do golpe III

















As ruas

Qualquer afirmação sobre o apoio popular ao impeachment é especulativa. As poucas estatísticas disponíveis aferem muito mais o alcance midiático do tema do que sua própria avaliação pela sociedade. O respaldo maciço a novas eleições, por exemplo, embaralha os sentidos possíveis da rejeição a Dilma Rousseff.

Por aí compreendemos a passividade que amplos setores populares demonstraram no processo. Mas houve mobilização, de ambos os lados, e a evidentehomogeneidade sócio-econômica dos manifestantes não a deslegitima. O problema é que a natureza parlamentar do golpe dispensaria o aval público de qualquer forma.

Os erros do governo federal não anulam certa influência dos atos de 2013 nas manifestações antipetistas de 2015-16. É possível encontrar simbologias comuns aos fenômenos, sugerindo que a defesa do impeachment esteve de alguma forma latente na busca por novas formas de representação política, e esta naquela.

Dadas as circunstâncias, foi o polo governista dos protestos que atingiu os resultados mais notáveis, a ponto de iludir muita gente a respeito de sua força persuasiva. Dele nasceu a base do movimento “Fora Temer”, o que justifica (mas desautoriza) os esforços para descolar o atual oposicionismo da militância petista.

Por outro lado, precisamos realçar o sucesso da máquina propagandística e empresarial que esteve por trás das passeatas anti-Dilma. O projeto uniu órgãos de mídia, corporações privadas, governos estaduais e municipais, partidos políticos, associações de classe e até a CBF, naquilo que talvez tenha sido a maior demonstração histórica da força mobilizadora da direita brasileira.

Embora seja equivocado extrapolar a alçada institucional do golpe, é impossível ignorar a gigantesca engrenagem externa constituída para viabilizá-lo. O tamanho desse esforço pode ser aferido pelos resultados das últimas eleições municipais.


A série “Balanço do golpe”:




http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2016/10/balanco-do-golpe-iii.html

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Combate a discursos de ódio e violência é objetivo da nova campanha da ONU



O monitoramento pode ser uma tarefa quase impossível, mas podemos conseguir isso com o envolvimento de cidadãos do mundo, que vão a ser nossos parceiros fundamentais na luta contra o discurso do ódio”, afirma a subsecretária do Departamento de Informação Pública da ONU, Cristina Gallach.

Um evento na sede da ONU, em Nova York, deu início à campanha contra os discursos de ódio, xenofobia, preconceito e extremismo nesta quarta-feira (02/12/15). O encontro reforçou o uso de redes sociais como ferramentas de propagação. A subsecretária do Departamento de Informação Pública da ONU, Cristina Gallach, relembrou o atentado de Paris como um exemplo de atos que nascem de discursos de ódio.
“Nós temos um grande problema em nossas mãos”, disse Gallach. “O mundo tem testemunhado isso muito recentemente, em Paris, onde, na última contagem, 130 pessoas morreram nas mãos de nove jovens que atenderam o (Estado Islâmico no Iraque e no Levante ou ISIL) apelo à violência e sucumbiram ao discurso de ódio.”
Segundo Gallach, os discursos de ódio estão presentes na sociedade há muito tempo, como no caso do massacre de mais de 800 mil tutsis e hutus, em 1994, em Ruanda, na África (1). No entanto, o movimento tem se radicalizado ainda mais nos últimos anos.
“Hoje, no entanto, mais do que nunca, as pessoas estão usando o discurso de ódio para fomentar confrontos entre civilizações em nome da religião. Seu objetivo é radicalizar meninos e meninas, para levá-los a ver o mundo em preto e branco, o bem contra o mal, e levá-los a abraçar um caminho da violência como a única forma de avançar. “ Afirmou a subsecretária.
O alto representante para a Aliança de Civilizações da ONU, Nassir Abdulaziz Al-Nasser, destacou na reunião o papel dos novos meios de comunicação, como o Facebook e o Twitter.
“Nós vemos como grupos radicais sequestraram estas novas plataformas de mídia e têm utilizado (eles) como uma ferramenta de advocacia para as suas ideologias extremistas, e incitando a violência e o ódio”, disse o representante.
Para as autoridades presentes no lançamento da campanha, a luta a incitação ao ódio e a violência é uma responsabilidade coletiva. Cristina Gallach reforça que a aplicação de leis que proíbem essas atitudes e a utilização dos meios de comunicação para investigar esses ataques e promover o fim dessa prática é uma saída para o problema. O próximo simpósio, que discutirá outras medidas, acontecerá em abril de 2016, em Baku, no Azerbaidjão.

Fonte: Nações Unidas – Brasil

Nota Claudicante:

(1) Culpa do colonialismo assassino europeu, como sempre, neste caso, os belgas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A quem serve o Judiciário brasileiro?


Uma ação contra o deputado estadual Barros Munhoz (PSDB) prescreveu em abril, depois de três anos inativa no Tribunal de Justiça. Mesmo destino devem ter os processos do “mensalão tucano”, remetidos pelo Supremo Tribunal Federal à Justiça mineira. A peça contra Eduardo Azeredo, por exemplo, ainda aguarda distribuição.

Graças a decisões do STF, o inquérito dos cartéis metroviários paulistas isentou políticos do PSDB, mesmo os citados em depoimentos dos réus. O Ministério Público de Minas Gerais pediu o arquivamento da investigação sobre o aeroporto que o governo de Aécio Neves construiu nas terras de sua família.

Ignorando as evidências de que os esquemas da Petrobrás começaram antes, a Operação Lava Jato investigou a estatal apenas a partir de 2003. Deixou de lado, assim, um contrato fraudulento, assinado no governo FHC e denunciado pela Comissão de Valores Mobiliários, que movimentou cerca de R$ 56 milhões.

Os episódios acima têm três características chocantes: a ausência de punições a políticos do PSDB, a simultaneidade dessa lacuna com o rigor aplicado contra petistas e as semelhanças (quando não os elos operacionais) entre processos que tomaram rumos tão diferentes.

É cômodo minimizar tais fatos atacando a frágil hipótese conspiratória usada por setores da esquerda para defini-los. Também soa ingênuo ver neles uma simples disputa entre “linhas-duras” e “garantistas”, como se fosse probabilisticamente aceitável que a cada facção sempre coubesse julgar o mesmo flanco partidário.

Não podemos, obviamente, arriscar generalizações em torno de um universo amplo e heterogêneo como o Poder Judiciário. Mas as estatísticas são eloquentes demais. Existem modelos de absolvição (para uns) e punição (para outros) no tratamento judicial a políticos, ainda que suas motivações tenham origens variadas e desconexas.

Esses padrões se reproduzem, com tendências semelhantes, pelos demais campos de interesses oposicionistas. A blindagem a tucanos espelha o respaldo das cortes à mídia que os apóia, nos processos por calúnia, difamação e crimes eleitorais. Os veículos de comunicação retribuem legitimando o partidarismo dos magistrados que materializam a caçada moral contra seus inimigos comuns.
           
Um sintoma da coesão ideológica da teia de favores é o radicalismo antipetista que ela assume em público. O desempenho performático de certos magistrados e procuradores possui teatralidade conclamativa típica de palanques eleitorais, com discursos messiânicos semelhantes aos repetidos pelo colunismo sectário de direita.

A retórica salvacionista ajuda a naturalizar a imagem positiva da injustiça. Quem critica o viés tendencioso das investidas judiciais contra o PT costuma ser acusado de propor uma inversão dessa parcialidade. Em outras palavras, que os petistas recebam o beneplácito dado a seus opositores. Afinal, a punição de criminosos é necessária independentemente de “contrapartidas” de isonomia.

Há um vício grave nesse raciocínio, que resulta na equiparação entre repudiar a impunidade de alguns e defendê-la para todos. Mas seu grande problema é conferir a qualquer justiciamento uma essência positiva, como se conduzisse necessariamente a avanços institucionais e civilizatórios.

A necessidade da equivalência encontra-se tanto nas bases formais da Justiça quanto nos seus “princípios substanciais”. Como o estado de Direito, por definição, se apoia no pressuposto da chamada reciprocidade moral, o tratamento díspar a cidadãos diferenciados pelo perfil partidário afronta a legalidade vigente. Viola, portanto, os tais preceitos republicanos.

A prática também contraria a natureza saneadora das punições. Poupados pelas cortes e pela imprensa, os criminosos perpetuam-se nos cargos administrativos. E fortalecem suas artimanhas, já que a certeza da impunidade favorece o agravamento dos delitos. Resultam inócuos os efeitos positivos das sanções aplicadas aos petistas, já que eles serão substituídos, nas mesmas estruturas, por delinquentes protegidos.

Eis a face tenebrosa do combate à corrupção no Brasil: parte relevante do Judiciário fornece guarida para a hegemonia de uma casta delimitada por afinidades ideológicas, levando a retrocessos constitucionais e ao fortalecimento do crime. Com o apoio da mídia corporativa, esse predomínio adquire uma força institucional de alcance tirânico.

Admitindo que o partidarismo judicial não passa de outro vetor entre os demais que influenciam as agendas decisórias, a solução talvez seja quebrar a redoma protetora e confortável que separa as cortes das pressões populares. Se os magistrados assumiram prerrogativas de interferência nos rumos do país, que forneçam contrapartidas equivalentes à sociedade. Que enfrentem, portanto, o ônus de fazer política.
No: http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2015/11/a-quem-serve-o-judiciario-brasileiro.html

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A Câmara trabalha rápido para tornar crime a crítica a políticos

computer

Por Marco Donato, via DCM
Está em tramitação na Câmara dos Deputados, e em ritmo mais acelerado que o de costume, um projeto de lei que pretende desfigurar o Marco Civil da Internet.
O projeto de lei (PL) 215/2015, do Deputado Hildo Rocha (PMDB/MA), é uma ameaça a direitos básicos do ambiente digital e fora dele.
O Marco Civil da Internet, assegura “a liberdade da expressão, a inviolabilidade da intimidade e da vida privada, a inviolabilidade e o sigilo do fluxo de suas comunicações pela Internet e de suas comunicações armazenadas, salvo por ordem judicial em estrita observância ao devido processo legal nos termos da Constituição Federal”.
Já o PL 215/2015, em nome de um falacioso intuito de coibir e punir os crimes contra a honra na internet, pretende possibilitar a espionagem de dados pessoais sem a necessidade de ordem judicial.
Deseja permitir o acesso a registros de conexão (número IP, data e horário da conexão à rede) e de navegação (quais sites visitados ou aplicativos foram utilizados). Autorizaria ainda o acesso a dados pessoais e conteúdo de comunicações privadas como e-mails e mensagens no WhatsApp.
Repetindo, tudo sem depender de ordem judicial. Um espanto. Dentro ou fora da internet, um princípio fundamental é que para se instaurar um processo de apuração de um crime contra a honra, é preciso que haja a queixa prévia de quem se sentiu ofendido. Básico, não? O PL215 acha isso uma besteira. Quer que o Ministério Público processe o “caluniador” sem a exigência da queixa. Com base em que?
A celeridade com que o projeto vem andando deixa evidente que os políticos estão muito interessados no assunto. Não só por ganharem um serviço advocatício gratuito (se forem criticados terão o MP correndo atrás de seus interesses) como por haver entre os artigos, o chamado “direito ao esquecimento”.
Direito esse que consiste na possibilidade de remoção de conteúdo na internet que associe o nome ou imagem de pessoas a um crime do qual tenham sido absolvidas em processos judiciais.
É o seguinte: Não é para falar mal e é para esquecer o que fizeram no verão passado, captou?
Na pele do cidadão que seja vítima de racismo, de bullying, ou de qualquer outro preconceito, ou ainda que tenha sido inocentado na acusação de algum processo, pode parecer que o PL seja útil. Não é.
Repetindo, é fundamental no estado de direito que haja uma denúncia para que se inicie uma busca, uma averiguação. Do contrário, é totalitarismo. Em segundo lugar, se o cidadão foi vítima de racismo, injúria, difamação e afins, isso é crime dentro ou fora da internet, passível de penalidade (tema inclusive já tratado também no Marco Civil). Não é necessário um projeto de lei a mais para isso.
Quanto a ter direito ao esquecimento em casos de injustiças cometidas, é um tema delicado e que carece mesmo de uma melhor apreciação. Porém quem seriam os maiores beneficiados senão os políticos no caso de vigência de uma lei dessas? Não à toa que estão se dedicando tanto para aprovação. Preocupação zero com o cidadão, não se iluda.
O PMDB (sempre ele…) foi um dos partidos que mais se opôs à aprovação do Marco Civil da Internet. Reverberando crendices folclóricas como “censura”, “bolivarianismo”, quando se referia ao Marco Civil, agora apresenta e se apressa na votação de um clamoroso atentado à liberdade de expressão. Por que?
Este PL215 é  um frontal ataque à privacidade dos usuários de internet já que dados e conteúdos poderão ser acessados sem qualquer crivo judicial e baseados em subjetivos interesses.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Seu smartphone está fazendo você envelhecer antes da hora? 5 enfermidades da era digital


textneck
Tenho escrito e pensado muito a respeito da distopia da internet, este mundo paralelo em que estamos vivendo graças ao excessivo tempo que destinamos a dispositivos eletrônicos. Uma escravidão à qual nos entregamos sem pestanejar. Eu pessoalmente abri mão de smartphones por uma política de “redução de danos”, já que trabalho diante de uma tela de computador diariamente. Traduzi este texto para vocês saberem mais sobre as enfermidades a que estamos expostos como efeito colateral da era digital. É assustador.
***
Encare a realidade: estamos todos viciados em nossos dispositivos eletrônicos. Você deve conhecer alguns poucos solitários que ainda resistem, determinados a se manter afastados e a viver fora deste cercadinho, mas eles são cada vez menos numerosos. A maioria de nós estamos vivendo em um mundo cada vez mais conectado, dependente de comunicação e informação instantâneas, e entramos em pânico quando não conseguimos achar nossos smartphones.
Ninguém quer ouvir isso, mas estamos pagando um preço alto por este comportamento. Nossos hábitos tecnológicos estão arruinando nossas habilidades e nossa saúde mental e física. Estar alerta para os possíveis prejuízos é sua primeira linha de defesa contra o envelhecimento precoce, as dores e a diminuição da capacidade cerebral –assim como desconectar com maior frequência. Aqui estão cinco enfermidades digitais sobre as quais você precisa ser alertado:
neck
1. Text Neck (“pescoço de mensagem”)
Você os vê em toda parte. Adolescentes, usuários do transporte público de meia idade e clientes de supermercado de todas as idades debruçados sobre objetos para os quais olham fixamente como se fossem pequenos milagres, com seus pescoços projetados para a frente e para baixo em um estranho e aflitivo ângulo. Eles simplesmente ficam lá, como se estivessem congelados, alheios a tudo.
Legiões de pessoas estão causando a si mesmos “text neck”, um problema do mundo moderno que pode arruinar o pescoço e a espinha de alguém. As pessoas estão debruçadas sobre smartphones, absortos em conversas online, checando o Facebook, retornando emails, postando fotos no Instagram, sem se dar conta de que estão colocando uma imensa tensão em seus pescoços e colunas vertebrais que irá atormentá-los para o resto da vida.
A cabeça é pesada. Sob a melhor das circunstâncias, tem o peso de um objeto de 5kg. Seu pescoço e coluna trabalham sem descanso para segurá-la e são feitos para isso. Ou eram, até que os smartphones vieram e deram a todo mundo o incentivo para mover suas cabeças para frente em um ângulo antinatural, por horas sem fim.
Como explica o Washington Post:
À medida que o pescoço se projeta para a frente e para baixo, o peso sobre acoluna vertebral começa a crescer. Em um ângulo de 15 graus, o peso é ao redor de 20kg; um ângulo de 30 graus corresponde a 18kg; 45 graus são 22kg; e a 60 graus o peso é de 27kg.
Esta é a carga que vem de ficar olhando fixamente para o smartphone –da mesma forma que milhões de pessoas fazem durante horas todos os dias, de acordo com uma pesquisa publicada por Kenneth Hasraj na National Library of Medicine. A pesquisa irá aparecer no próximo mês na Surgical Technology International. Ao longo do tempo, dizem os pesquisadores, esta triste postura, algumas vezes chamada de “text neck”, pode levar a um prematuro desgaste na coluna, degeneração e até mesmo cirurgia.
27 quilos!!! Mal comparando, é como carregar uma criança de 8 anos ao redor do pescoço por quatro horas ao dia. O problema é especialmente grave para pessoas jovens, Dr. Hansraj disse ao Post, que podem estar sendo conduzidos, involuntariamente e inconscientemente, a uma vida de dor na coluna.
textingneck
Algumas maneiras que ele recomenda para evitar isto:
 Olhe para baixo em seu celular com os olhos. Não é necessário projetar o pescoço.
 Exercite-se: Mexa a cabeça para a esquerda e para a direita várias vezes. Use as mãos para oferecer resistência e empurre a cabeça contra elas, primeiro para a frente e depois para trás. Fique de pé em uma porta com os braços estendidos e empurre o peito para frente para fortalecer “os músculos da boa postura”, disse Hansraj.
(anúncio da prefeitura de Nova York contra o volume alto dos fones de ouvido)
(anúncio da prefeitura de Nova York contra o volume alto dos fones de ouvido)

2. Perda auditiva

Isto é deprimente. A perda auditiva não acontece mais só com os velhos. A maioria de nós muito provavelmente está ouvindo pior cada vez mais cedo. Se você já não está tendo problemas em ouvir conversas normais cotidianas, este dia virá, e antes do que você imagina. Isto é, ao menos que você tenha protegido seus ouvidos basicamente a vida inteira.
A perda auditiva prematura e aguda não é somente resultado de nossos dispositivos digitais, também é um produto dos ruídos do dia a dia que todos nós consideramos normal, mas que está em um nível de decibéis que causa dano: cortadores de grama, sirenes, avisos sonoros do metrô, secadores de cabelo, concertos de rock barulhentos, alarmes de carro, até mesmo sistemas de som de restaurantes e cinemas e certos brinquedos infantis podem todos ser, bem, ensurdecedores.
Todas estas coisas barulhentas mantêm nossos frágeis tímpanos vibrando e, mantidas por muito tempo e em volume exagerado, podem danificar todo este aparato insubstituível.
Mas o uso generalizado de aparelhos de música portáteis está levando esta epidemia à estratosfera. De acordo com o New York Times, “um estudo nacional feito em 2006 pela Associação Americana de Fala, Linguagem e Audição descobriu que entre usuários de aparelhos de som portáteis, 35% dos adultos e mais de 59% dos adolescentes disseram ouvir música em altos volumes.” Fones de ouvido pequenos são piores que aqueles grandões, mas não importa: se você estiver ouvindo em um volume alto o suficiente para abafar o ruído exterior, é melhor começar a aprender a linguagem de sinais.
A perda auditiva é algo cumulativo e irreversível. Continue a usar seus fones de ouvido, mas abaixe o volume.
livroskindle

3. Exaustão Cerebral

O que o uso constante de meios digitais faz a nossos cérebros é um grande e ainda aparentemente especulativo tópico. Mas a ciência está começando a chegar lá, e não é nada bonito o que está aparecendo. Em termos simples, o uso excessivo do smartphone nos faz menos produtivos, menos descansados, mais esquecidos e, em uma palavra, mais estúpidos.
Um monte de gente passa os dias em seus computadores e as noites checando seus celulares, retornando mensagens e emails. Isto, de acordo com um estudorecente conduzido pela Universidade da Florida, pela Universidade Estadual do Michigan e pela Universidade de Washington rouba das pessoas a capacidade de recarregar as energias nos momentos de folga. Com isso, a produtividade, para não mencionar a saúde mental, diminui.
Checar múltiplos dispositivos e telas durante o dia também perpetuou a ideia de que as pessoas se tornaram “multitarefas”, mais capazes de passar de uma tarefa a outra, de mudar de foco rapidamente, e tudo graças aos milagres da tecnologia.
Ilusão.
De acordo com pesquisadores, as multitarefas constantes restringem nossa habilidade de se concentrar por períodos prolongados de tempo, uma espécie de pré-requisito para realizações significativas. Finalmente, até mesmo quando todas as telas estão desligadas nossa concentração já era.
“As pessoas com quem conversamos continuamente disseram, ‘olhe, quando eu tenho que me concentrar desligo tudo e fico focado’” disse o professor Clifford Nass, da Universidade de Stanford, à NPR (rádio pública dos EUA).“Desafortunadamente, eles desenvolveram hábitos mentais que lhes impossibilita estar inteiramente focados. Eles são os bobos da irrelevância. Simplesmente não conseguem se manter concentrados.”
Você não lê mais livros? Eu raramente o faço, apesar de ler copiosamente online. Acontece que estou pagando um preço cognitivo e possivelmente psicológico por isto. Ler numa tela não é tão benéfico quanto ler algo impresso. Um estudo de 2014 “descobriu que leitores de contos de mistério em um Kindle eram significativamente piores em lembrar a ordem dos acontecimentos do que aqueles que leram a mesma história em papel”.
E quanto mais você lê digitalmente, mais difícil fica mergulhar em um livro real. Outros benefícios da leitura incluem crescente capacidade de compreensão, diminuição do estresse e melhor sono. Todos eles estão mais relacionados à leitura impressa do que à digital. Muito tem se escrito também sobre o impacto destrutivo da luz azul emitida pelos dispositivos digitais no ciclo circadiano, o relógio biológico do nosso corpo, resultando em um sono pobre e os consequentes problemas mentais e físicos.
Sua incapacidade de se separar de eletrônicos também irá afetar e infectar as pessoas a seu redor, amigos, colegas de trabalho e familiares. Quando nós perdemos a capacidade crucial de desconectar, a saúde mental e o bem estar de todo mundo é afetada. Experts em relações familiares têm apontado que as crianças se sentem afetadas por pais que se encontram indisponíveis porque estão constantemente em seus celulares. Então, se não é por você mesmo, pelo menos se desconecte por causa de outras pessoas que se preocupam com você.
Leia mais (em inglês) aqui.
rugas
4. Cara de computador
Ok, basta de cérebro. Gastar incontáveis horas diante do computador está arruinando o visual das pessoas! Seu visual! Sério, se isto não o convencer a ficar mais tempo longe da tela do computador, não sabemos o que o fará.
Cirurgiões plásticos afirmam que mais e mais mulheres estão desenvolvendo a aterrorizante “cara de computador”, uma combinação de franzidos permanentes, rugas ao redor dos olhos, papada (papada!) e queixos duplos por olhar para baixo por longos períodos de tempo.
“Se você passa a maior parte do tempo olhando para baixo, os músculos do pescoço se encurtam e caem, dando a você um queixo duplo”, disse o cirurgião cosmético Michael Prager ao Daily Mail. Como quando as pessoas trabalham e estão sob estresse frequentemente têm sérias ou até malhumoradas expressões em seus rostos, estas linhas podem ficar permanentemente estampadas em rostos jovens.
A solução: levante, alongue seu pescoço, mude sua expressão, mova a tela para a altura do olho. Ou use Botox, claro, de acordo com os cirurgiões plásticos, de qualquer jeito.
Nenhuma palavra ainda sobre a terrível “cara de selfie”, mas ela não tem como ser boa.
visao

5. Síndrome da visão de computador

As más notícias, embora não surpreendentes: sentar-se em frente à tela do computador hora após hora, semana após semana, ano após ano, como muitos trabalhos requerem que você faça, causa dor e desconforto nos olhos, visão embaçada e dores de cabeça.
A boa notícia é que os oftalmologistaas ainda não acham que a síndrome de visão do computador causa dano permanente à visão. E há algo que você pode fazer se está experimentando as conseqüências negativas de sentar-se em frente à tela do computador em excesso –além de levantar-se e fazer outra coisa, tipo para sempre, o que não é bem uma opção.
A maior parte deste dano visual pode ser eliminado fazendo mudanças em seu local de trabalho. O Scheie Eye Institute do Penn Medical Center diz que “reduzir o brilho e os reflexos na tela do computador modificando a luz no ambiente, fechando as janelas, mudando o contraste ou o brilho da tela, ou colocando um filtro ou capa no monitor”, tudo isso irá ajudar.
Eles também recomendam:
“Mover a tela do computador para aumentar o conforto dos olhos. A tela deve estar à distância de um braço (ao redor de 50 a 70 centímetros) para obter uma distância de foco confortável à visão. A tela também deve estar em linha reta na frente do rosto e não para o lado, para evitar a fadiga ocular. O centro do monitor deve estar de 10 a 20 centímetros mais baixo que os olhos para permitir ao pescoço relaxar e para diminuir a superfície exposta do olho, o que irá reduzir a secura e a coceira.”
Acho que você provavelmente está pronto para dar um tempo da tela do computador agora mesmo.

no: http://www.socialistamorena.com.br/5-enfermidades-da-era-digital/